Áudio-descrição de foto de escultura

Notas proêmias

Foto de escultura denominada “Centauro jogador de Polo”.
A peça áudio-descrita tem trinta centímetros de altura por quarenta de comprimento e é feita de resina e fibra de vidro.

Foto retirada de: <http://www.artevillalba.com/esculturasvilla.htm>.
Acesso em 04.04.2012.

Áudio-Descrição

Foto retangular vertical de escultura de um cavalo que, em lugar da cabeça e do pescoço, tem cabeça, tronco e braços humanos. O ângulo da foto mostra a criatura de perfil esquerdo. A cabeça está erguida e virada para a esquerda, de frente para nós. Usa um chapéu com uma pequena aba na base. Tem cabelo curto, boca entreaberta e pescoço largo. Os braços atléticos estão abertos e erguidos. Braço e antebraço formam um ângulo reto que ressalta os bíceps desenvolvidos. A mão direita segura um taco de polo inclinado para trás e para cima, cuja extremidade superior ultrapassa a cabeça. A mão esquerda está fechada. O tórax humano desnudo revela um peitoral musculoso e um abdômen definido. A pata dianteira esquerda do cavalo está erguida e semiflexionada. As outras patas se apoiam na base espessa da escultura: a dianteira direita está esticada e as traseiras flexionadas. A pata traseira direita está mais recuada. As extremidades esquerda e direita da base são arredondadas. Criatura e base têm cor bronze-escuro e estão sobre uma superfície lisa e branca. Em segundo plano, atrás da escultura, há uma parede branca. O lado esquerdo está mais iluminado e o direito inferior tem projetada a sombra da parte frontal da criatura.

Publicado por

Normas técnicas da audiodescrição nos Estados Unidos e na Europa e seus desdobramentos no Brasil: interpretação em foco

Este artigo é uma parte da tese de doutorado da autora ainda em desenvolvimento. Agradeço leitura e valiosos comentários feitos pela Profª. Drª. Maria Paula Frota


Resumo

Desde seu início, a audiodescrição (AD) é uma prática de caráter intuitivo e começou sendo feita por pessoas do convívio de pessoas com deficiência visual. Como prática institucionalizada, a audiodescrição começou no final da década de 1970 e em alguns países é regulamentada por manuais, como Alemanha (Bayerischer Rundfunk), Reino Unido (ITC Guidance), Espanha (UNE 153020) e Estados Unidos (Audio Description Coalition). O objetivo deste artigo é, a partir da comparação entre as normas existentes nos Estados Unidos e na Europa, refletir sobre a normatização da AD no Brasil, sendo enfocada especialmente a interpretação, aspecto que divide tanto os pesquisadores quanto profissionais da área.

Palavras-chave: Audiodescrição. Normas de AD. Interpretação.

Audio description standards in the United States and Europe and its development in Brazil: focusing on interpretation

Abstract

Since its beginning, audio description has been carried out empirically by sighted people who had contact with visually impaired people. As an institutionalized practice, audio description first appeared in the late 1970s. In some countries such as Germany (Bayerischer Rundfunk), the United Kingdom (ITC Guidance), Spain (UNE 153020) and the United States (Audio Description Coalition) it is regulated by guidelines. Based on the comparison between the guidelines used in the United States and in Europe, this article aims to reflect on creating Brazilian audio description guidelines focusing on interpretation. Both practitioners and researches have different points of view on this issue.

Keywords: Audio description. AD guidelines. Interpretation.

1 Introdução

Este artigo, a partir da comparação entre as normas existentes nos Estados Unidos e na Europa, busca refletir sobre a normatização da AD no Brasil. Será enfocada, especialmente, a questão da interpretação, aspecto que é polêmico tanto entre os pesquisadores quanto entre profissionais da área.

Talvez caiba aqui informar ao leitor ainda leigo, que a audiodescrição (AD) é a transformação de imagem em texto, transformação essa que primeiramente se dá como escrita de um texto denominado “roteiro”, o qual, posteriormente, passará pelo processo conhecido como “narração”, isto é, a sua leitura para o público-alvo. Essa narração é realizada em produtos audiovisuais (imagens dinâmicas) como peças teatrais, cinema e televisão, e em produtos só visuais (imagens estáticas), como por exemplo quadros e esculturas expostos em museus. O principal objetivo da AD é tornar esses eventos culturais acessíveis aos deficientes visuais — conceito que abrange pessoas cegas e com baixa visão, congênita ou adquirida, mas que também compreende outros públicos como pessoas com deficiência intelectual e dislexia[1].

A audiodescrição (AD), desde seu início, é uma prática de caráter intuitivo e começou sendo feita por pessoas do convívio de pessoas com deficiência visual. Como prática institucionalizada, ela começou no final da década de 1970 e é regulamentada por manuais[2] em países como Alemanha (Bayerischer Rundfunk), Reino Unido (ITC Guidance), Espanha (UNE 153020) e Estados Unidos (Audio Description Coalition) (ver Franco, 2010, vol.3). É importante ressaltar que as normas da Espanha e Reino Unido são oficiais e a da Alemanha, assim como de outros países europeus (por exemplo, da Bélgica, e, mais especificamente, Flandres), foram produzidas “individualmente” por profissionais (ver Vercauteren, 2007, p. 140).

O presente artigo tem como objeto a AD de imagens dinâmicas, uma vez que todos os guias ou normas regulamentam esse tipo de imagem e alguns deles não tratam de imagens estáticas. De modo geral, a audiodescrição de imagens dinâmicas, como a de filmes, abarca as questões “o quê?”, “quem?”, “como?”, “quando?” e “onde?”, mas o modo como essas questões são contempladas varia de acordo com o manual ou experiência empírica do audiodescritor.

2 Normas técnicas: Reino Unido, Espanha, Alemanha e Estados Unidos

 

Gert Vercauteren, no capítulo “Towards a European guideline for audio description”, do livro Media for all, analisa os diferentes guias europeus (Flandres, Alemanha, Espanha e Reino Unido), verificando as semelhanças e diferenças para propor a criação de uma orientação internacional, assim como elementos que ainda precisam ser pesquisados. De modo geral, ele indica que as orientações estão divididas em duas partes. Na primeira são descritas as etapas de trabalho, como assistir ao material, revisar o roteiro, gravar, entre outras. E, na segunda, são tratados os aspectos práticos da escrita do roteiro.

O autor assinala que as instruções podem ser reduzidas ou sintetizadas a quatro questões: O quê, Quanto, Quando e Como descrever. Vale ressaltar que essas quatro questões são interconectadas, estando uma implicada na outra. Sobre o quê deve ser descrito, Vercauteren aponta que as diretrizes parecem concordar que tudo o que acontece na tela deve ser mencionado e isso pode ser dividido em três categorias: imagens, sons (difíceis de identificar) e textos na tela, como créditos iniciais e finais, legendas, placas etc. Já em relação à segunda pergunta “quanto deve ser descrito”, as normas não dizem muito a respeito e as diferenças estão no que é relevante e no volume de informação a ser descrito. Vercauteren afirma que esse é um tópico que precisa ser aprofundado. Na norma alemã é dito que essa é “uma questão que não pode ser completamente respondida”; já a do Reino Unido afirma que “muita descrição pode ser exaustiva ou irritante”. O autor questiona se seria possível definir uma quantidade máxima de descrição.

As questões “o quê” e “quanto” descrever são bem interligadas, talvez mesmo inseparáveis, ou seja, constituem um só aspecto não desmembrável, na medida em que ambas dizem respeito à relevância e portanto seleção das imagens. O que será priorizado dependerá do áudio do produto audiovisual e o tempo de silêncio disponível para descrever. Aí surge a terceira questão: quando descrever. Todos os guias concordam que as descrições devem ser feitas nos intervalos das falas. Contudo, esses não podem ser preenchidos totalmente, já que as músicas e efeitos sonoros são importantes para o produto.  Outro aspecto referente a esse tópico é a antecipação de cenas, a qual pode ser feita desde que não interfira no desenvolvimento da trama e que a sincronia não seja extremamente importante.

O como descrever dependerá do tempo de silêncio disponível e do que é mais relevante descrever de acordo com o conteúdo da imagem e a linguagem do produto, seja ela, cinematográfica, televisiva, teatral etc. Muitas vezes, por conta de um espaço curto de silêncio, a ação é priorizada em detrimento da narrativa fílmica, por exemplo, ou, em outras palavras, do enquadramento e direção da cena. Vercauteren mostra que é nesse ponto que as orientações possuem mais definições e onde residem também as maiores diferenças. O como descrever, para esse autor, pode ser dividido em linguagem/estilo de descrição e diferentes classes de palavras (Vercauteren, 2007, p. 142-7).

Com relação ao estilo, algumas orientações são mais centradas na ação, como a norma espanhola, e outras são mais detalhadas, como o manual inglês ITC Guidance. A partir da comparação das normas feita por Vercauteren e do estudo comparativo das normas feito pelo Royal Institute of Blind People (RNIB) (2010) é possível assinalar as seguintes convergências:

  1. a descrição deve usar o tempo presente na narrativa;
  2. o texto deve ser coloquial — vocabulário rebuscado e frases complexas devem ser evitados —, já que a descrição é escrita para ser escutada;
  3. a linguagem deve ser adaptada ao público e gênero do material;
  4. a clareza é o objetivo principal. Além de saber priorizar as informações, o audiodescritor deve saber quais elementos podem ser antecipados;
  5. os acontecimentos não devem ser interpretados nem julgados através de opiniões;
  6. a linguagem cinematográfica deve ser evitada;
  7. a expressão “nós vemos” deve ser evitada; e
  8. títulos, créditos e informações relativas à AD devem ser gravados.

As diferenças entre as normas estão no uso de adjetivos e advérbios, no momento da nomeação dos personagens e, principalmente, na quantidade de informação descrita e no fornecimento de informações adicionais.

Nas diretrizes do Audio Description Coalition (EUA) é normatizado que o audiodescritor deve “us[ar] apenas adjetivos e advérbios que não ofereçam juízo de valor e que não sejam eles próprios sujeitos à interpretação” (p.8). A norma UNE: 152030 (Espanha) diz que o audiodescritor deve usar “adjetivos concretos” evitando aqueles de significado impreciso, e não menciona o uso de advérbios (p.8). Já o ITC Guidance afirma que o uso de “descriptive adjectives” é muito importante na audiodescrição, podendo melhorar consideravelmente a compreensão de uma cena, mas não pode refletir o ponto de vista do audiodescritor (p.20). São dados dois exemplos para diferenciar uma descrição objetiva de outra subjetiva:

“Ela senta em um sofá verde escuro mofado” — é uma indicação objetiva.

“Ela senta em um sofá verde escuro mofado horroroso” — é uma indicação subjetiva, aceitável somente se a feiura do sofá fosse a questão (tradução nossa)[3].

O uso de advérbios também é permitido, já que, segundo as orientações analisadas, ajuda na descrição da ação deixando-a mais clara, mas devem ser usados com cautela. Na norma são dados exemplos de advérbios considerados descritivos e específicos (“bruscamente”, “com cuidado”, “com cautela”, “jovialmente”, “ansiosamente”, “arrogantemente”)[4], e vagos e interpretativos (“caracteristicamente”, “claramente”, “instintivamente”, “sem dúvida”, “devidamente”)[5] (p.21).

A defesa do uso de determinados adjetivos e advérbios em detrimento de outros está relacionada à questão da interpretação. Contudo, não fica claro o que significa “interpretação” em cada uma das normas.  O uso dos advérbios “bruscamente”, “com cuidado”, “com cautela”, “jovialmente” etc. não será feito a partir da interpretação do audiodescritor? E que adjetivos e advérbios não são sujeitos à interpretação? O que as normas procuram assegurar é uma descrição objetiva em detrimento de uma subjetiva. Até que ponto isso é possível?

Ainda em relação à comparação entre as normas, não há consenso quanto ao momento de nomeação dos personagens. As diretrizes dos Estados Unidos e da Alemanha definem que o personagem só é chamado pelo nome depois que este é mencionado na trama. Duas exceções são descritas na norma alemã: em filmes de época e quando um personagem é nomeado tardiamente na trama. No estudo comparativo das normas feito pelo RNIB (2010, p. 6), é informado que as orientações da França e da Grécia concordam com a alemã e desencorajam os audiodescritores a nomearem os personagens antes que seus nomes apareçam no produto. A norma espanhola não tem orientação a esse respeito. Já as diretrizes do Reino Unido propõem que os nomes dos personagens só não devem ser mencionados logo no início se a trama requerer que a identidade do personagem seja revelada posteriormente. E essa orientação é seguida na prática. Os audiodescritores optam pela nomeação dos personagens desde o início, antes mesmo deles serem mencionados nos diálogos.

Para Vercauteren é fundamental que se chegue a um acordo em relação à nomeação dos personagens para a criação das diretrizes internacionais. Ele sugere alguns elementos para uniformizá-la, tomando como princípio que os personagens serão nomeados após os nomes serem mencionados no produto, seja verbalmente ou partir de sua inserção em uma legenda, exceto: (i) quando os personagens principais são nomeados tardiamente na trama, pois pode ser útil nomear antes na audiodescrição, ajudando a evitar confusão entre os espectadores e facilitando o trabalho do audiodescritor. Contudo, essa regra não pode ser aplicada quando a identidade do personagem precisa ser revelada tardiamente; (ii) quando pessoas famosas aparecem, podendo nomeá-las imediatamente (por exemplo, no documentário COP 15, Marina Silva aparece e o nome dela não é mencionado, nem inserido como legenda. Nesse caso, o audiodescritor poderia nomeá-la imediatamente); (iii) quando vários personagens (novos) são introduzidos ao mesmo tempo tornando-se útil nomeá-los logo para evitar confusão; e (iv) quando vários personagens estão dialogando sendo importante informar quem está falando para garantir a compreensão dos espectadores (Vercauteren, 2007, p. 146).

Sobre a quantidade de informação nos roteiros, Julian Bourne argumenta que ela pode variar desde o estritamente necessário até uma descrição minuciosa, que pode ser excessiva e atrapalhar a compreensão da trama (Bourne, 2007, p. 181). De modo geral, as diretrizes reconhecem a dificuldade que é definir qual a quantidade de informação necessária, levando em consideração a narrativa audiovisual e tendo em vista que as preferências do público variam de acordo com a idade, gênero, grau de escolaridade, interesse ou expertise no assunto e o tipo de deficiência visual. O estilo adotado tem relação direta com a quantidade de informação oferecida, uma vez que o que centra-se  na ação fornece menos detalhes da trama e é mais conciso do que o estilo floreado que fornece mais elementos sobre  o ambiente, os aspecto físico, a roupa e a idade dos personagens. O roteiro de um longa-metragem baseado na norma espanhola usa aproximadamente 5.000 palavras na AD; já no roteiro baseado na norma do Reino Unido usam-se aproximadamente 7.800 palavras (ver Bourne, 2007, Alves, 2011, no 22). Isso pode ser percebido no exemplo abaixo de uma cena do filme As horas:

AD britânica: Clarissa, se protegendo do frio da manhã nublada enrolada em um casaco de pele de camelo, com lenço cinza, brincos de âmbar pendurados nas orelhas e óculos escuros, carrega flores, pelo bairro da baixa Manhatan onde carne é empacotada, em direção ao edifício de uma antiga fábrica.

AD espanhola: Clarissa caminha pelas ruas de Nova Iorque com um grande buquê de flores nos braços (tradução nossa).[6]

Com relação ao uso de informações adicionais, Bourne assinala que as diretrizes dos Estados Unidos determinam que as descrições sejam puramente objetivas, sem explicação ou explicitação do seu significado, como pode ser percebido no caso da descrição das expressões faciais exemplificada abaixo. No guia da Audio Description Coalition é dito: “Permita aos ouvintes formarem suas próprias opiniões e tirarem suas próprias conclusões. Não editorialize, não faça inferências, não explique, não analise, nem tente “ajudar” de modo algum os ouvintes” (p. 8). Já o ITC Guidance informa que para os pesquisadores britânicos a explicação pode ajudar a minimizar possíveis confusões (ITC Guidance, p. 15), e são dados os seguintes exemplos comparando descrições dos dois países:

Ela aperta os lábios e franze os olhos.

Ela fica de queixo caído e com os olhos arregalados.

Enquanto que,

Ela franze os olhos desconfiada.

Ela fica de queixo caído, em choque (ITC Guidance, p.16, tradução nossa)[7].

Enquanto as diretrizes dos Estados Unidos não aceitam o uso de explicações, as do Reino Unido defendem que elas facilitam a compreensão, mas a explicação nunca deve interpretar ou adiantar uma informação. Bourne (2007, p.189) assinala que, por um lado, o ITC Guidance adverte que não se pode interpretar; porém, por outro lado, recomenda o uso de advérbios interpretativos.

Outra diferença, e essa bem importante, é a maneira pela qual essas normas foram criadas (ver Franco, 2010, vol.3). A norma espanhola, como indicado na introdução do próprio documento, é fruto do consenso entre usuários, empresas, emissoras e profissionais do setor. É informado que foram especialmente levadas em conta as opiniões, preferências e experiências das pessoas cegas e com baixa visão e dos profissionais que prestam esse serviço (UNE: 153020, p.3). Contudo, não é mencionada a maneira pela qual esses dados foram coletados e nem a quantidade de participantes, o que dificulta a avaliação da recepção dessas regras em relação ao público-alvo.  Nas diretrizes para audiodescrição e código de conduta para os audiodescritores da Audio Description Coalition é informado que esses documentos foram “desenvolvidos a partir do treinamento, experiência, conhecimento e recursos conjuntos de um grupo de áudio-descritores[8] e formadores de diversas partes dos Estados Unidos conhecidos como Audio Description Coalition” (p. 59-60). Não há menção à participação de usuários de AD na elaboração dessas diretrizes, o que impossibilita saber se estas são ou não bem aceitas pelo público-alvo. Já no ITC Guidance, na introdução do documento, é informado que este é fruto de uma pesquisa realizada ente 1992 e 1995 com 200 participantes e são descritos os mecanismos utilizados como, por exemplo, questionários sobre hábitos televisivos e as dificuldades enfrentadas; sessões de programas e filmes audiodescritos em que foram ouvidas as opiniões do público; e entrevistas periódicas de um grupo de cem pessoas que receberam, a partir de receptores/codificadores especiais, de sete a dez horas de programação audiodescrita semanalmente. No final dessa introdução é mostrado que há diferentes formas bem-sucedidas de audiodescrever e que a aceitação do público varia de acordo com as expectativas, necessidades e experiências das pessoas:

Em meio a um volume considerável de experiências valiosas, a pesquisa revelou que há muitas definições para uma audiodescrição de sucesso, não apenas porque os estilos de descrição diferem, mas porque há muitas diferenças fundamentais no que se refere às expectativas, necessidades e experiências do público (ITC Guidance, p.4)[9].

As normas da Espanha e Estados Unidos são amplas, se referem a diferentes produções, como teatro, ópera, dança, audioguia para museus, filmes etc. Já a norma do Reino Unido foi produzida especificamente para a televisão e, por conseguinte, contempla os diferentes gêneros televisivos, como novelas, documentários, programas infantis etc. Bourne assinala que apesar de a norma do Reino Unido parecer mais consistente, na medida em que foram realizadas pesquisas de recepção para a sua produção e evidenciar a existência de diferentes estilos de AD, ela não abarca as diferentes modalidades nas quais pode ser utilizada e é, às vezes, contraditória no que se refere à interpretação (2007, p.179-198). Ainda sobre a comparação entre as diretrizes europeias, Vercauteren conclui que:

As diretrizes atuais em Flandres, Alemanha, Espanha e Reino Unido são, definitivamente, ferramentas valiosas para a promoção da acessibilidade e o desenvolvimento da audiodescrição (pré-gravada), mas são pouco mais que um ponto de partida, já que são bastante vagas em algumas questões, enquanto, em outros casos, lhes falta estrutura e até mesmo algumas informações básicas.  De fato, algumas questões são deixadas sem resposta e várias questões precisam ser estudadas, não só em relação a como descrever (por exemplo, quando os créditos iniciais coincidem com uma cena de ação, como expressões faciais devem ser descritas), mas também no que diz respeito a quanto deve ser descrito ou que informações devem ser priorizadas.

A fim de acelerar o processo de acessibilidade nos países onde não há audiodescrição ou onde ela é quase inexistente, seria útil a elaboração de um conjunto de diretrizes internacionais que atendesse as necessidades de todos os diferentes tipos de descritores e que contivesse todas as informações necessárias a garantir descrições de alta qualidade. O presente levantamento pode ser usado como ponto de partida e como um primeiro esboço para o delineamento de tópicos de pesquisa (Vercauteren, 2007, p.147-8, tradução nossa)[10].

Como mencionado por Vercauteren, ainda há várias questões que precisam ser investigadas melhor, como quanto, o que e como descrever, principalmente as questões concernentes ao que deve ser priorizado e como expressões faciais e gestos devem ser descritos. Por exemplo, no filme Tropa de elite, o capitão Nascimento faz um gesto em que gira o braço 360º graus na posição vertical a frente do corpo. Descrever esse gesto como “Capitão Nascimento ordena que revistem o ambiente” é intepretação? Será que a descrição sem a interpretação ou explicitação do sentido do gesto permitirá a compreensão da ação ou desfocará a atenção do espectador? As diretrizes existentes não orientam quanto a essas questões e, por conseguinte, como defende o autor, são um importante ponto de partida, mas não podem ser pensadas como normas finais ou acabadas. Se as normas locais existentes já não dão conta de várias questões, será que normas internacionais conseguirão contemplar tantos pontos, levando ainda em consideração a heterogeneidade dos públicos, que será ainda maior em normas internacionais? Para as normas funcionarem, sejam locais ou internacionais, elas precisam aceitar várias exceções como propôs Vercauteren em relação à uniformização da nomeação dos personagens, para abarcar as especificidades dos produtos audiovisuais. Acredito que normas internacionais não serão eficientes, pois a diversidade do público se amplia e mesmo que seja possível uniformizar alguns aspectos das normas locais, nem todos podem ser uniformizados, como por exemplo, a maior aceitação de descrições centradas na ação em um lugar e de descrições mais detalhadas em outro.

3 Normas de Ad no Brasil

Aqui no Brasil estamos reeditando o item 6 da norma ABNT NBR 15290, que se refere à audiodescrição, criada em 2005:

6 Diretrizes para o áudio com a descrição de imagens e sons

Para que sejam garantidas as condições de acessibilidade, a descrição de imagens e sons deve atender aos requisitos de 6.1 a 6.3.

6.1 Características gerais para a descrição em áudio de imagens e sons

A descrição em áudio de imagens e sons deve transmitir de forma sucinta o que não pode ser entendido sem a visão. Devem ser evitados monotonia e exageros.

6.2 Compatibilidade

A descrição deve ser compatível com o programa:

  1. a) a narração deve ser objetiva na programação para adultos e mais poética em programas infantis;
  2. b) em filmes de época devem ser fornecidas informações que facilitem a compreensão do programa;
  3. c) a descrição subjetiva deve ser evitada.

6.3 Diferenciação

No SAP, a descrição em áudio de imagens e sons deve estar diferenciada do som do programa. Para permitir melhor compreensão do programa, sempre que possível, a descrição deve aproveitar as pausas naturais entre os diálogos.

Essa norma é superficial, pois não define o que se entende por narração (locução) mais objetiva em programas de adultos e mais poética em programas infantis, assim como não deixa claro o que entende por descrição subjetiva, e, geralmente, não é levada em consideração pelos audiodescritores. Contudo, ela pode ser considerada um avanço no debate sobre AD em nosso país. Se em 2012 ainda estamos dando os primeiros passos para o desenvolvimento desse recurso de tecnologia assistiva, em 2005, a AD tinha acabado de ser iniciada como prática formal e não era conhecida por aqui com a nomenclatura atual. Para a reedição da norma, a ABNT conta com um grupo de trabalho, formado por audiodescritores e usuários, que está reelaborando a normatização através de reuniões e grupo de debates na internet.

É interessante notar que algumas questões que estavam presentes na discussão para elaboração da norma da ABNT de 2005 — como pode ser visto na Ata da 17ª reunião da Comissão de Estudo Acessibilidade em Comunicação, ocorrida em 2003 — continuam presentes hoje. Cecília Maria Oka apresentou nessa reunião as dificuldades e questões envolvidas nas experiências de audiodescrição de filmes, desenvolvidas pela LARAMARA – Associação brasileira de Assistência ao Deficiente Visual, em 2002. Foram elencados os seguintes pontos:

a) terminologia: descrição, leitura, narração;
b) narradores – assistir previamente o filme;
c) usar filmes dublados ou com poucas legendas;
d) dificuldade em conseguir filmes dublados;
e) dosar a descrição de cenários, personagens etc.;
f) sobreposição do som do filme X som da descrição;
g) descrição poética X descrição subjetiva X descrição objetiva;
h) Sintonia entre narradores;
i) contextualização prévia do filme;
j) resumo X leitura da legenda;
k) descrição individual X descrição para grupos;
l) plateia de pessoas com e sem deficiência visual – incômodos;
m) contraste e cor legenda X fundo;
n) cenas e diálogos rápidos;
o) bate-papo após o filme (ABNT, 2003).

É possível destacar como tópicos ainda em debate: a terminologia, a quantidade de informação a ser descrita e a descrição poética X subjetiva X objetiva.

Eliana Franco, no artigo “A importância da pesquisa acadêmica para o estabelecimento de normas da audiodescrição no Brasil”, defende o uso das pesquisas de recepção como base para elaboração da norma, como pode ser percebido no trecho a seguir:

O grupo de trabalho prevê a participação de todos aqueles que têm se envolvido com a audiodescrição de uma forma ou de outra, através da prática, do estudo, da curiosidade, da recepção e da combinação de duas ou mais destas. Contudo, para que não caiamos em algumas ciladas ou discussões infrutíferas baseadas em preferências pessoais e opiniões subjetivas, argumento aqui a valiosa contribuição da pesquisa acadêmica, mais precisamente da pesquisa de recepção sistemática que tem sido desenvolvida por grupos de pesquisa de algumas universidades brasileiras, para a elaboração de normas da audiodescrição (Franco, 2010, vol.3, p. 3).

Além da defesa do uso de pesquisas de recepção para embasamento das normas, a autora traz duas importantes reflexões, quais sejam: 1 — a possibilidade ou não da existência de um consenso em relação às normas a serem adotadas no Brasil, uma vez que as expectativas, necessidades e preferências serão diferentes de acordo com os perfis das pessoas com deficiência visual nas diferentes regiões de nosso país; 2 — o papel de consultor exercido por pessoas com deficiência visual, já que, como a AD ainda é nova em nosso país, as pessoas ainda estão se acostumando com esse recurso e podem não estar aptas para atuar nesta posição.

Franco parte do texto da norma do Reino Unido em que há diferentes estilos de AD válidos, salienta as diferenças nos públicos com deficiência visual no Brasil, questiona se é possível escolher entre esses estilos e conclui que:

Nossa tarefa, enquanto acadêmicos e profissionais da área, é contribuir para que o grau de generalização das normas a serem adotadas pela ABNT seja o menor possível, uma vez que ele deverá estar respaldado por pesquisas de recepção bem fundamentadas, onde as variáveis em questão são consideradas e as preferências observadas são testadas em diversos grupos de pessoas com deficiência visual, com diferentes perfis e de diferentes regiões do Brasil (Franco, 2010, vol.3, p. 13).

Outro artigo importante para esse debate é “Propostas para um modelo brasileiro de audiodescrição para deficientes visuais”, de Soraya Ferreira Alves, Veryanne Couto Teles e Tomás Verdi Pereira. Nele, os autores delineiam as diferenças entre os modelos de audiodescrição espanhol (centrado na ação) e inglês (detalhado), apresentam as sugestões de pessoas com deficiência visual que participaram de uma pesquisa de recepção[11], na qual foram apresentados quatro curtas-metragens confeccionados a partir desses modelos, e, por fim, expõem um modelo de audiodescrição proposto pelo grupo do qual fazem parte na Universidade de Brasília. A pergunta que regeu a pesquisa foi: “Qual o modelo de AD que melhor atende às necessidades dos deficientes visuais quando assistem aos filmes?” (p. 13). Alguns dos pontos que segundo Vercauteren precisam ser aprofundados são discutidos de forma breve nesse artigo. Por exemplo, com relação à nomeação e determinação da função ou profissão dos personagens, os autores sugerem que, apesar das controvérsias, é fundamental que sejam anunciados logo para facilitar a compreensão. Isso porque eles puderam verificar pela pesquisa que os participantes não conseguiram identificar a profissão de uma personagem (empregada doméstica) sem a sua definição na AD. Em cenas com muitos personagens é mais fácil o entendimento pelo nome do que pelas características, como “menina loira de vestido rosa conversa com homem alto de preto que dá o braço a uma mulher alta, loira, que dá a mão a um menino loiro de uns oito anos…” (p.25). E personagens de uma série ou saga, por já serem conhecidos pelo público, podem ser nomeados desde o início. Podemos perceber então, que o que define a regra é o próprio produto audiovisual que é único.

Em relação à descrição de expressões faciais e gestos, que denotam estados emocionais dos personagens, eles defendem que devem ser descritos os elementos que levem o espectador a inferir o estado emocional, contudo, informações adicionais são importantes, na medida em que facilitam a compreensão. Ao invés de dizer “ela está triste”, o audiodescritor deve informar que “ela leva as mãos ao rosto e chora” (p.24).

A defesa de que o audiodescritor “não deve interpretar o que vê” é constante, como podemos perceber, dentre outras, nas recomendações referentes aos adjetivos — “Os adjetivos descritivos são muito importantes na AD, pois tornam a cena clara para o espectador, mas não devem refletir a interpretação pessoal do audiodescritor” (p.23) —, aos advérbios — “Os advérbios ajudam na descrição de uma ação, tornando-a o mais clara e aproximada possível, mas devem ser usados cuidadosamente, a fim de se evitarem interpretações” (p.23) —, e aos estados emocionais — “Informações adicionais podem reduzir ou evitar confusões, mas não propomos interpretar sentimentos ou cenas, apenas dar informações mais precisas quando necessário” (p. 24). Porém, os autores fazem a ressalva de que o audiodescritor é “um observador ativo […] [que] edita o que vê, ou seja, seleciona o que é mais importante para a compreensão e a apreciação de um evento” (p. 23). É interessante notar que os autores concordam com o posicionamento das diretrizes do Reino Unido em relação às informações adicionais e emprego de advérbios, enquanto que para o uso de adjetivos foi seguida a orientação da norma espanhola.

Talvez seja interessante que novos estudos reflitam sobre os sentidos sociais dos gestos e expressões faciais, a construção e memorização da imagem mental nas pessoas com deficiência visual e a interpretação na AD. Se podemos dizer, de maneira genérica, que para os videntes a memória do personagem é visual e por isso não é necessária a repetição frequente de seu nome e nem sua nomeação desde o início, será que esperar a nomeação do personagem no filme não é querer manter o padrão dos videntes para as pessoas com deficiência visual? E, partindo do mesmo princípio, se a maior parte dos espectadores videntes ao ver um gesto ou expressão facial compreende o seu sentido de acordo com as características do mesmo; será que a maioria dos espectadores deficientes visuais pelas características conseguirá compreender seu significado? Vale lembrar que a AD trabalha em conjunto com o diálogo e sons da trama que possibilitam que o receptor faça inferência sobre os significados. Contudo, nem sempre isso será suficiente. Traduzir o gesto em palavras, ou melhor, explicar ou interpretar (dependendo de como se entenda esse termo) o gesto ou expressão facial e nomear os personagens desde o início não seria adequar a linguagem ao público, ao invés de subestimar a inteligência, como a norma norte-americana advoga?

Iwona Mazur e Agnieszka Chmiel, no capítulo “Audio description Made to Measure: Reflections on Interpretation in AD Based on the Pear Tree Project Data”, do livro Media for All 3: Audiovisual translation and media accessibility at the crossroads (2012), afirmam que a interpretação é o ponto que, em geral, não há consenso tanto entre o público-alvo quanto entre os pesquisadores e que, especialmente, no começo das normatizações da AD, julgamentos subjetivos não eram bem vindos e a objetividade era favorecida a fim de evitar qualquer manipulação ou atitude paternalista. Contudo, nem sempre estava claro que julgamentos eram considerados subjetivos e que tipo de interpretação era mais objetiva e poderia ser incluída na AD (p. 174). Elas afirmam que é extremamente difícil descrever as expressões faciais objetivamente e de forma rápida, na medida em que o rosto humano é capaz de expressar emoções altamente complexas. Apesar de a tristeza ou alegria poderem ser objetivamente descritas pelo choro ou pelo sorriso, há várias emoções e expressões faciais mais complexas que dificultam a descrição objetiva. Um simples ato de levantar as sobrancelhas, por exemplo, pode significar ansiedade, alívio, surpresa, ironia e muitas outras emoções quando combinada com movimentos de outros músculos faciais.

As autoras dialogam com a proposta de Elmar Dosch e Bernd Benecke de que o audiodescritor deve descrever somente as expressões faciais importantes e de forma mais sofisticada, dizendo, por exemplo, “ele aperta os olhos e os lábios e suas bochechas estão vermelhas” ao invés de “ele olha para ela nervoso”[12]. Dosh e Benecke afirmam que o audiodescritor deve ser extremamente cauteloso na descrição das expressões faciais, na medida em que dependendo da escolha, ela pode distorcer a profundidade do filme. Já Mazur e Chmiel afirmam que não estão convencidas de que tais descrições podem cobrir toda a gama de sentimentos complexos expressos no rosto dos personagens e de que sua compreensão e interpretação serão tão fáceis pelo público com deficiência visual quanto são para o público vidente (p.178).

Elas mostram que Pilar Orero e Vercauteren abordam essa temática de uma perspectiva narrativa e cognitiva e assinalam que para esses autores a AD deve incluir descrições subjetivas das emoções desde que vários estudos confirmem que algumas emoções são universais e corretamente identificadas. Orero e Vercauteren dão alguns exemplos, entre eles, a substituição da descrição “pálpebras e sobrancelhas levantam e o queixo fica caído” pela interpretação “surpresa”[13] (p. 179).

As autoras concluem que são necessárias mais pesquisas de recepção com pessoas com deficiência visual, mas também são necessários estudos sobre a percepção e o comportamento humano através da narrativa para a produção de audiodescrições de melhor qualidade (p. 186-7).

É interessante notar que as autoras evidenciam que no campo da audiodescrição, as noções de descrição e interpretação são tratadas, frequentemente, dicotomicamente e propõe, assim como a autora deste artigo, que a oposição binária seja substituída pela lógica de gradação. Esse tratamento dicotômico pode levar à distorção do que acontece na práxis audiodescritiva, pois, não se pode chegar nem em uma descrição absoluta como gesto neutro, objetivo, isento e nem em uma interpretação puramente subjetivista e criativa.

Como toda dicotomia, essa também hierarquiza os dois elementos, vistos como absolutos, opostos e totalizantes. Pode-se perceber uma certa vilanização do termo “interpretação” nas regras e trabalhos teóricos da AD, pois a ele se atribui valor subjetivista. Contudo, a práxis audiodescritiva vem se mostrando diferente.

O objetivo não é apagar a oposição dicotômica e hierarquizada (descrever/interpretar), mesmo porque continuaremos utilizando os termos dessa distinção, mas, o intuito é, ao desconstruir essa dicotomia, problematizar a relação entre esses dois termos que a constitui.

Derrida aponta que descontruir a oposição significa operar um duplo gesto, no qual, em um primeiro momento há a inversão da hierarquia e em outro o deslocamento. Vale ressaltar que esses momentos não são necessariamente cronológicos (2001, p.48).

Na inversão, os termos são operados no interior do sistema desconstruído, mostrando-se suas ambiguidades, contradições. Derrida sinaliza que “a necessidade dessa fase é estrutural; ela é, pois, a necessidade de uma análise interminável: a hierarquia da oposição dual sempre se reconstitui. (…) o momento da inversão não é jamais um tempo morto” (2001, p.48).

O deslocamento seria o momento, nesse duplo movimento e duplo vínculo, no qual se mudaria de terreno e não se permaneceria mais no interior do sistema desconstruído. Como mostra Derrida:

É preciso também, por essa escrita dupla, justamente estratificada, deslocada e deslocante, marcar o afastamento entre, de um lado, a inversão que coloca na posição inferior aquilo que estava na posição superior, que desconstrói a genealogia sublimante ou idealizante da oposição em questão e, de outro, a emergência repentina de um novo “conceito”, um conceito que não se deixa mais — que nunca se deixou — compreender no regime anterior (Derrida, 2001, p.48-49).

Nesse momento, Derrida utiliza o que chamou de “indecidíveis”, que são unidades de simulacro que “não se deixam mais compreender na oposição filosófica (binária) e que, entretanto, habitam-na, opõem-lhe resistência, desorganizam-na, mas, sem nunca constituir um terceiro termo, sem nunca dar lugar a uma solução na forma da dialética especulativa” (2001, p.49).

Derrida propõe pensar as oposições dialéticas numa oposição horizontal e paritária e não em escalas hierárquicas. Em outras palavras, seria a substituição da lógica hierarquizante por uma lógica de gradação. Na verdade, o que se pretende é através do questionamento, decompor e reorganizar os discursos.

Se por um lado, toda descrição envolve um certo grau inevitável de interpretação, que não é totalmente livre nem autônoma, por outro, há interpretações que excedem esse certo grau inevitável e podem não ser aceitas. Daí, a importância de se refletir sobre quais os limites da interpretação.

Partindo, então, agora para os critérios que possibilitam uma audiodescrição o mais neutra e o mais objetiva possível e tendo como referência que cada produto audiovisual terá características específicas que levam a soluções diferentes em cada roteiro de audiodescrição, impossibilitando a formulação de normas e critérios válidos para todos os produtos, sugiro tomar como referência a proposta de Paulo Henriques Britto para tradução poética.

Britto, no artigo “Correspondência formal e funcional em tradução poética”, mostra que o que se deve esperar na tradução de um poema é a captação de algumas das características mais importantes do poema original, na medida em que em poesia não é possível estabelecer uma nítida separação entre forma e sentido, sendo necessária na tradução a reconstrução da totalidade poética, constituída por sons, significados, imagens e até mesmo a disposição visual no papel.  “Portanto, a tradução de um poema é uma operação bem mais complexa que a redistribuição de sentidos diversos por significantes diversos; os fatores que devem ser levados em conta são de toda ordem: formal, semântica, sintática, lexical, morfológica, fonética, prosódica, gráfica” (Britto, 2006, p. 3).

Este autor sinaliza que o tradutor deve elencar os diversos elementos presentes no poema observando a contribuição de cada um deles, de modo a tentar recriá-los na tradução o máximo possível. Deste modo o tradutor deve:

a) identificar as características poeticamente significativas do texto poético;

b) atribuir uma prioridade a cada característica, dependendo da maior ou menor contribuição por ela dada ao efeito estético total do poema; e

c) recriar as características tidas como as mais significativas das que podem efetivamente ser recriadas – ou seja, tentar encontrar correspondências para elas (Britto, 2006, p.4).

No desenvolvimento dessa análise o tradutor deve optar pela correspondência formal ou funcional que significam respectivamente, manter a forma do poema ou escolher outra que apesar de estruturalmente diferente possua as mesmas conotações ou conotações próximas na língua de chegada.

Trazendo essa reflexão para a audiodescrição, e fazendo um paralelo com os pontos colocados por Britto, o audiodescritor deve a) identificar as características mais significativas da cena, levando em consideração o áudio do produto para não repetir uma informação desnecessária, contudo, se for importante para o desenvolvimento da trama, mesmo estando presente no áudio, a informação pode e deve ser reforçada na descrição, se houver tempo disponível; b) atribuir uma prioridade, prestando atenção para as características não só na cena, mas na sua relevância em todo o produto, e; c) recriar essas características mais significativas levando em consideração: 1) o que deve ser explicitado e o que deve se manter implícito; 2) que a estrutura frasal deve estar em consonância com o plano da cena ou movimento da câmera, por exemplo, em um close informar primeiro o significado da expressão e depois quem é enfocado e o que faz (Atônito, João olha para Maria), um suspense pode ser reproduzido através de uma pausa na locução  e; 3) que os adjetivos e advérbios — normalmente relacionados à interpretação pelos audiodescritores  — devem ser usados para auxiliar na composição da cena. Em outras palavras, o audiodescritor deve escolher, a partir das especificidades da cena, uma forma de reproduzir o visual no texto que mantenha conotações as mais próximas possíveis das imagens.

Talvez seja interessante associar a essas etapas, na avaliação de uma descrição mais adequada, o critério quantitativo. Assim sendo, precisamos definir, a partir de pesquisas de recepção, se as audiodescrições ficam mais adequadas aos diferentes perfis que compõem o público brasileiro com deficiência visual quando há o equilíbrio entre o que se deve deixar para o público inferir e o que deve ser explicado, e quando a estrutura frasal (como, por exemplo: Atônito, Ramiro olha para Maria ou Ramiro olha para Maria atônito) e o adjetivos e advérbios – sem estarem presentes em todas as descrições – auxiliam na composição da cena. Para tal avaliação é importante que os audiodescritores conheçam as categorias — explicitação e inferência e coerências local e global, propostas por Sabine Braun (2007, 2008) —, tendo em vista que essas estratégias podem ajudar a melhorar as ADs limitando a “interpretação”.

A construção de significados na AD envolve alguns fatores. Primeiro: o produto audiovisual — texto fonte — possui uma série de sinais culturalmente determinados. O audiodescritor cumpre, assim como qualquer tradutor, os papéis de espectador e de reescritor. A leitura e reescrita efetuadas pelo audiodescritor serão singulares, na medida em que a maneira pela qual efetuará esses papéis será determinada por sua historicidade. Talvez o principal cuidado deva ser não oferecer uma subjetividade “vestida” de objetividade, já que, como Maria Paula Frota indica, “autor e tradutor […] são livres e regidos. São livres para decidir e escolher, mas as decisões e escolhas que lhes são possíveis fazer já estão previamente determinadas pela sociedade, pela linguagem” (1996, p. 88).

4 Considerações finais

Este artigo teve como ponto de partida a comparação das normas existentes, abordando as principais divergências – como a nomeação de personagens, o uso de adjetivos e advérbios e a interpretação –, de modo a debater e refletir sobre a reedição da norma de AD no Brasil com o intuito de fornecer subsídios que auxiliem na discussão em curso. O enfoque na interpretação se deve a este ser o ponto de maior controvérsia entre os pesquisadores e profissionais.

É importante ressaltar que o trabalho do audiodescritor consiste em reconhecer os elementos que compõem as imagens de acordo com os contextos em que estão inscritos e não na descrição dos sentidos intrínsecos às imagens. Assim, a interpretação do audiodescritor será limitada pela comunidade interpretativa. Em outras palavras, não é porque reconhecemos que múltiplas leituras ou interpretações são possíveis que somos conduzidos a um relativismo absoluto, onde qualquer interpretação será válida. Os audiodescritores se apropriam dos elementos configurando sentidos para eles segundo um conjunto de práticas. Assim como não é possível impedir que o audiodescritor exponha, em alguma medida, suas inferências ou, em outras palavras, interprete, é possível, viável e importante que se debatam limites da interpretação, não necessariamente para evita-la, mas para melhor organizarmos esse novo campo e definirmos o que não será aceitável em nossas práticas. Ainda que o quiséssemos, a audiodescrição não pode ser nem totalmente descritiva (objetiva) e nem totalmente interpretativa (subjetiva), sendo necessária avaliação constante do quanto isso é possível e aceitável.

Os adjetivos e os advérbios, ao mesmo tempo em que qualificam e, por isso, podem evidenciar mais rapidamente uma opinião, julgamento ou valoração, sendo descrições tidas como subjetivas, e, portanto como interpretações, podem tornar a descrição mais interessante e até mais precisa, na medida em que propicia e não impede ou mesmo destrói a fruição na relação espectador-obra e agiliza a compreensão da dramaticidade cênica. Já as descrições tidas como objetivas, e, portanto neutras — nas quais seriam deixadas para os espectadores as inferências acerca do que acontece em cena — podem ser um entrave no envolvimento do público com a obra, pois podem criar obstáculos e retardar a compreensão de algum elemento da trama.

Apesar de ainda existirem vários pontos que precisam ser investigados melhor e de a interpretação provavelmente continuar dividindo profissionais, público-alvo e pesquisadores por muito tempo, a audiodescrição vem avançando bem rapidamente na academia em nosso país.

5 Referências

ALVES, Soraya; TELES, Veryanne Couto; PEREIRA, Tomás Verdi. Proposta para um modelo brasileiro de audiodescrição para deficientes visuais  In: Tradução & Comunicação, no 22, 2011.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. Ata da 17ª reunião da Comissão de Estudo Acessibilidade em Comunicação, 2003. Disponível em: Acesso em: jan/2012.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 15290: acessibilidade em comunicação na televisão. Rio de Janeiro, 2005. Disponível em: http://www.abnt.org.br. Acesso em: out/2009.
Audio Description Coalition. Diretrizes para áudio-descrição e Código de conduta profissional para áudio-descritores baseados no treinamento e capacitação de áudio-descritores e formadores dos Estados Unidos. Trad. Paulo André de Melo Vireira. 2007-2008.
BOURNE, Julian. El impacto de las Directrices ITC en el estilo de cuatro guiones AD en inglés  In: Traducción y accesibilidad Subtitulación para sordos y audiodescripción para ciegos: nuevas modalidades de Traducción Audiovisual. Frankfurt: Peter Lang, 2007.
BRAUN, Sabine. Audio Description from a discourse perspective: a socially relevant framework for research and training. University of Surrey, 2007. Disponível em: Acesso em: 20/06/09
BRAUN, Sabine. Audio description research: state of the art and beyond In: Translation Studies in the New Millennium 6, 2008.
BRITTO, Paulo H. “Correspondência formal e funcional em tradução poética”. In Souza, Marcelo Paiva de, et al. Sob o signo de Babel: literatura e poéticas da tradução. Vitória: PPGL/MEL / Flor&Cultura, 2006.
DERRIDA, Jacques. Posições. Trad. Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.
FRANCO, Eliana. A importância da pesquisa acadêmica para o estabelecimento de normas da audiodescrição no Brasil  In: Revista Brasileira de Tradução Visual,  vol.3, 2010.
FRANCO, Eliana; ARAÚJO, Vera Santiago. Questões terminológico-conceituais no campo da tradução audiovisual In: Tradução em Revista no 11, 2011/2.
FROTA, Maria Paula. Tradução, pós-estruturalismo e interpretação In: Cadernos de Tradução nº I, 1996.
ITC Guidance on Stardards for Audio Description, 2000. Disponível em: http://www.ofcom.org.uk/static/archive/itc/itc_publications/codes_guidance/audio_description/index.asp.html
MAZUR, Iwona; CHMIEL, Agnieszka. Audio description Made to Measure: Reflections on Interpretation in AD Based on the Pear Tree Project Data In: Media for All 3: Audiovisual translation and media accessibility at the crossroads. New York: Rodopi, 2012.
NORMA AENOR —  UNE 153020. Audiodescripción para personas con discapacidad visual Requisitos para la audiodescripción y elaboración de audioguías. AENOR, Madrid, 2005.
RAI, Sonali; GREENING, Joan; PETRÉ, Leen. A Comparative Study of Audio Description Guidelines Prevalent in Different Countries. Royal Institute of Blind People, 2010 Disponível em: http://www.rnib.org.uk/professionals/solutionsforbusiness/tvradiofilm/Pages/international_AD_guidelines.aspx Acesso em: março/2012.
VERCAUTEREN, Gert. Towards a European guideline for audio description  In: DÍAZ CINTAS, Jorge (Org.). Media for all: Subtitling for the Deaf, Audiodescription, and Sign Language. New York: Rodopi, 2007.

Nota de rodapé

[1] Ainda são poucas as pesquisas que analisam a eficácia da audiodescrição para outros públicos, estando essa afirmação mais embasada na experiência empírica. Entretanto, recentemente, o grupo Tramad, coordenado pela Profa. Dra. Eliana Franco, fez um estudo piloto com quatro alunos da APAE de Santo Amaro da Purificação, no interior da Bahia, no qual testou a audiodescrição de um curta-metragem. As questões que nortearam esse estudo, cujos resultados foram apresentados no Congresso Media for All, em 2011, em Londres, foram: 1 – A audiodescrição destinada às pessoas com deficiência visual melhora a compreensão do público com dificuldades de aprendizagem? 2 – Em caso afirmativo, em que medida a AD destinada às pessoas com deficiência visual é eficiente para espectadores com dificuldades de aprendizagem? A principal e mais importante conclusão do estudo foi que, embora de grande ajuda, a AD destinada a deficientes visuais não é suficiente para a compreensão total do produto audiovisual, sendo necessário, para tornar o filme o mais acessível possível, interpretar os significados implícitos nas imagens assim como fazer a relação entre eles. O grupo considera esse estudo um passo inicial e pretende que sirva como orientação para novas pesquisas sobre o impacto da audiodescrição no público formado por pessoas com deficiência intelectual.
[2] Para me referir ao conjunto de regras de AD, utilizarei termos como “guia”, “manual”, “orientação”, “diretriz” e “norma” intercambiavelmente.
[3]‘She sits down on a dark green moth-eaten sofa’ – is an objective statement.
‘She sits down on a hideous dark green moth-eaten sofa’ – is subjective and would only be acceptable if the ugliness of the sofa were the issue.
[4] Brusquely, carefully, cautiously, jovially, eagerly, haughtily, anxiously.
[5] Characteristically, clearly, instinctively, arguably, suitably.
[6] AD britânica: Clarissa wrapped up against the cold overcast morning, in a camel-hair coat and grey scarf with amber earrings dangling from her ears, and tinted glasses, carries the flowers through the meat-packing district of Lower Manhattan towards an old factory building.
AD espanhola: Clarissa camina por las calles de Nueva York con un gran ramo de flores entre los brazos.
[7] She purses her lips and narrows her eyes./ Her mouth drops open and her eyes widen. / Whereas,/ She narrows her eyes suspiciously./ Her mouth drops open in shock.
[8] Franco e Araújo em seu artigo sobre Tradução Audiovisual na Tradução em Revista (no11) apontam que falta na audiodescrição, assim como em outras áreas da TAV, terminologia e conceituação comuns, assim como uniformidade na grafia do termo que é, por alguns, escrito áudio-descrição e, por outros, audiodescrição. Nas citações aqui apresentadas, preservarei a grafia adotada pelo autor, contudo, a grafia que utilizarei nesse trabalho, como pode já ser percebido desde o título é audiodescrição.
[9] Among a large volume of valuable experience, the research revealed that there are many definitions of successful audio description, not merely because describing styles differ, but because there are many fundamental differences in audience expectation, need and experience (ITC Guidance, p.4).
[10] The current guidelines in Flanders, Germany, Spain and the United Kingdom are definitely valuable tools in the promotion of accessibility and the development of (recorded) audio description, but they are little more than a starting point since they remain rather vague on some issues, whereas in other instances they lack structure and even miss some basic information. Indeed, some questions are left unanswered and various issues have to be studied, not only with regard to how describe (e.g. what do opening titles coincide with an action scene, how should facial expressions be described), but also regarding how much should be described or how information can be prioritized.
In order to speed up the accessibility process in countries where audio description is not or hardly existent, it would be useful to draw up one set of international guidelines catering for the needs of all different types of describers and containing all the information necessary to provide high-qualify descriptions. The present survey can be used as a starting point and as a first outline for the delineation of research topics.
[11] Realizada pelo grupo de pesquisa do qual os autores fazem parte na Universidade de Brasília.
[12] For example: instead of “He looks at her nervously” the following description could be used: “He squints, his cheeks are flushed, his lips pressed together”.
[13] The following description: the uper eyelids and brows rise, and the jaw drops open can be simply replaced with a subjective (yet quite universal) interpretation of this expression: surprise.

Publicado por

  • Larissa Magalhães Costa

    Doutora em Estudos da Linguagem (PUC-Rio), com a tese intitulada Audiodescrição em filmes: história, discussão conceitual e pesquisa de recepção, é audiodescritora desde 2008 e, atualmente, coordenadora do setor de audiodescrição do CPL-Soluções em Acessibilidade. Possui formação em roteiro e locução de audiodescrição, atuando, majoritariamente, na produção e revisão de roteiros e no treinamento de novos audiodescritoresView all article by Larissa Magalhães Costa

RBTV #13: Sumário

Transcrição do texto em áudio

Áudio-descrição da foto “O Beijo da Vida”, de Rocco Morabito

Notas proêmias:

Foto em preto e branco, de autoria de Rocco Morabito, ganhadora do prêmio Pulitzer em 1968, publicada originalmente em 1967 como capa do Jacksonville Jornal, EUA. Na imagem, dois homens presos em postes utilizam cinto de segurança para eletricista. O cinto é de couro ajustado por uma fivela, com argolas circulares nas laterais, onde se prende o talabarte. O Talabarte é uma alça de couro com um mosquetão em cada ponta, utilizado para travar a queda, em caso de acidentes. Nos membros inferiores, os homens usam esporas para poste de madeira. As esporas são hastes de metal com uma saliência pontiaguda na extremidade inferior, presas lateralmente aos pés e pernas. Thompson, o homem da direita, é branco e usa capacete com a alça ajustável colocada por cima da viseira;  usa óculos escuros e um cinto grosso, no qual estão presas luvas para alta tensão e uma bolsa retangular de couro. Ele veste camiseta, calça e botas. Champion, o homem da esquerda, é branco, tem cabelos estilo militar, calça luvas para alta tensão, grossas, que cobrem um terço do antebraço e usa um cinto grosso, de onde pende uma bolsa retangular de couro. Ele veste uma camiseta, em cujo bolso esquerdo aparece um aparelho retangular, calças e botas. Os postes da fotografia são de tronco de pinho, com superfície irregular. O da esquerda sustenta um transformador de alta voltagem cilíndrico, com o código “4Y” escrito em branco na parte inferior da face lateral. Do poste da direita, um dos homens inclina-se em direção ao do poste da esquerda.

Fotografia “O beijo da vida”

Foto extraída do site: http://pulitzerprize.org/the-kiss-of-life-rocco-morabito-1968/

Áudio-descrição “O beijo da vida”

Foto de dois eletricistas seguros por talabartes a postes de madeira. Do poste da esquerda, Randall G. Champion, pende, de cabeça para baixo, preso pelo talabarte a um transformador. Seguro ao poste da direita, J. D. Thompson inclina-se em direção a Champion, puxa-lhe, com o braço esquerdo, pela cabeça. Com os lábios nos lábios de Champion, Thompson, insufla-lhe ar na boca. Perto deles, vindos do poste da esquerda, passam dois fios, próximos à cabeça de Champion e da cintura de Thompson.


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Áudio-descrição no Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa: um estudo morfológico

Transcrição do texto em áudio

Resumo

O presente artigo discute a formação da palavra áudio-descrição, tendo como base os estudos da morfologia e do atual Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. O objetivo deste trabalho é contribuir para dirimir dúvidas sobre a grafia daquela palavra, visto que se acha, de um lado, que ela deve ser grafada sem hífen, e de outro, que se defende a grafia do verbete com o traço de união. Os defensores da grafia de “audiodescrição”, entendem que este vocábulo tem como base morfológica a mesma regra que leva o termo “audiovisual” a ser grafado sem hífen e sem acento. Para os que entendem que o léxico áudio-descrição deve ser grafado com hífen, este conceito é compreendido como a composição de dois léxicos distintos, os quais, unidos pelo hífen, tornam-se uma unidade semântica com sentido próprio e diverso dos termos que lhe deram origem. Conclui-se que grafar áudio-descrição (com hífen) não é meramente um preciosismo linguístico. É, ao contrário, a observância do que determina a Base XV do Decreto Nº. 6.583/2008 e é, principalmente, assumir posição diferenciada sobre a conceituação do termo áudio-descrição, distinguindo-o de descrição em áudio (descrição falada) para conceituá-lo como tradução visual (áudio-descrição daqueles eventos visuais, os quais, por alguma razão, não estejam disponíveis ao indivíduo com deficiência visual e/ou outras), seja porque tais eventos não são/estão deduzidos pelos sons, pela trilha sonora da obra, seja porque não são/estão deduzidos pela cognição ou pelo intelecto do espectador/observador.

Palavras-chave: áudio-descrição, formação de palavra, composição, Acordo Ortográfico, morfologia.

1- Introdução

Desde os primórdios de sua história o homem vem buscando cada vez mais aperfeiçoar seus conhecimentos linguísticos, procurando na língua uma melhor forma de se comunicar, levar e trazer conhecimento, expressar e receber informações, interagir com os de sua espécie. Essa comunicação ultrapassa os limites da origem da palavra latina communicare (por em comum), alcançando os limites da própria existência humana.

Em outras palavras, a vida em sociedade exige que o homem busque, a todo tempo e “preço”, uma comunicação mais eficaz, que vai além da simples ação de por em comum uma informação entre os partícipes, sendo capaz de promover a real interação social, a persuasão, a busca e a produção de conhecimentos.

A linguagem verbal, sendo uma faculdade humana, permeia todas as ações humanas e está a serviço das mínimas necessidades do homem (Langacker,1987).

A cada nova busca do homem por conhecimentos, a linguagem se renova e o homem pode dispor, de um número limitado de palavras, um número ilimitado de novas manifestações linguísticas. Em outras palavras, qualquer língua é heterogênea, é um organismo vivo, em constante renovação (Chomsky, 1998).

Nesse sentido, a conceituação de linguagem, acima aludida, deixa de significar exclusivamente as línguas orais e abriga as línguas de sinais (também chamadas línguas gestuais), e que são tidas e havidas como língua de comunicação social de pessoas surdas, alhures e em nosso país.

Muito embora a língua seja variável, heterogênea, não se pode, a cada momento que se precisa expressar algo novo, ou com uma matiz nova, criar novos signos, expandindo a língua indefinidamente, pois isso acarretaria uma sobrecarga da memória dos usuários, restringindo-lhes a comunicação, em lugar de a expandir.

Consoante Basílio (2004):

Imaginem, por exemplo, se cada conceito novo que surgisse fosse correspondente a algo como um número de telefone: o número de seqüências que poderíamos realmente guardar na memória seria mínimo em relação a nossas necessidades. Por outro lado, números de telefone não podem ser deduzidos de regras gerais; têm que ser comunicados e decorados, o que significa que não poderíamos ter no léxico uma expansão imediata. (Basílio, 2004:10)

Dessa maneira, ao invés de serem criados novos signos, eles são renovados, reformulados. A expansão do léxico se realiza através de empréstimos de outras línguas ou através do processo de formação de palavras, que consiste em construir novas palavras, através de um léxico já existente.

A disciplina linguística que estuda o processo de formação das palavras é a Morfologia.

No presente artigo, se discutirá a formação da palavra áudio-descrição, tendo como base os estudos da morfologia e do atual Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, visto que tem havido uma controvérsia na grafia daquela palavra, de um lado achando-se que ela deve ser grafada sem hífen, e de outro, defendendo-se a grafia com o traço de união.

Para os defensores da grafia “audiodescrição” (sem hífen), entende-se que este termo tem como base morfológica a mesma regra que leva “audiovisual” a ser grafado sem hífen e sem acento.

Para os que entendem que o verbete áudio-descrição deve ser grafado com hífen, esse conceito é a composição de dois léxicos distintos, os quais unidos pelo hífen, tornam-se uma unidade semântica com sentido próprio e diverso dos termos originais.

2- Fomação da palavra

Antes de entrarmos na discussão sobre a grafia do termo áudio-descrição, é preciso trazer um pouco da construção desta área de conhecimento, cujas bases estão fincadas na tradução visual, a fim de deixar claro que áudio-descrição não é uma descrição em áudio, descrição falada ou narrada, mas uma composição a partir da união dos termos áudio e descrição.

Trata-se de um gênero tradutório nutrido pela semiótica, em que se traduz eventos visuais em palavras, sejam oralizadas, sinalizadas (no caso de língua de sinais) ou por escrito (em braille, por meio eletrônico, etc), confira em Lima et all (2009).

A áudio-descrição, inicialmente pensada para descrever imagens para pessoa com deficiência visual, mostrou-se um recurso semiótico de grande potencial também para uso de pessoas com deficiência intelectual, e hoje é reconhecidamente um recurso de tecnologia assistiva, na área da comunicação (Decreto Federal 5296/2004).

Diferente de uma descrição, a áudio-descrição, enquanto tradução visual, tem como objetivo primordial eliciar, na mente de quem ouve ou lê, as imagens eliciadas na mente de quem as pode ver. Neste sentido, a áudio-descrição serve a todos aqueles que, em algum momento, esteja privado da visão, ou por alguma razão não tenha acesso visual ao evento imagético, estático ou dinâmico.

Considerando que a tradução visual tem como objetivo o empoderamento do cliente deste serviço, não se a pode confundir com uma descrição falada, locucionada, descrição esta feita desde sempre na história humana, quando se quer comunicar algo que se viu ou vivenciou a alguém que não tomou parte do que foi visto ou vivenciado.

O ato tradutório da áudio-descrição, para além de seguir diretrizes específicas, técnicas consagradas ao empoderamento do cliente, encerra o entendimento de que na tradução visual o foco não é explicar ao cliente o que se está vendo, mas permitir a este ver aquilo que ele não pode enxergar.

Na áudio-descrição fílmica, por exemplo, não se descreverá tudo o que é mostrado, mas se traduzirá tudo o que é necessário para a compreensão do evento visual, dentro dos intervalos entre as falas, sem sobreposição da áudio-descrição sobre os diálogos e nem mesmo sobre certos sons (uma música, por exemplo) necessários à apreciação e/ou compreensão da obra.

Portanto, ao tratar de áudio-descrição, não se está falando de uma descrição despreocupada, linear ou genérica do que se vê, mas de uma tradução visual esteada na observação, no empoderamento do cliente, na pesquisa e no estudo semiótico da obra observada, no conhecimento a respeito do cliente da áudio-descrição, e sobretudo numa áudio-descrição isenta de barreiras atitudinais sobre o potencial da pessoa com deficiência, sua capacidade para compreender eventos visuais e, principalmente, com o espírito de que a pessoa com deficiência visual tem potencial cognitivo assim para construir as imagens a partir do que ouve, como compreendê-las no contexto em que forem empregadas (Lima e Lima, 2012).

Em síntese, a áudio-descrição (tradução visual semiótica) é semelhante a uma tradução lingual: a tradução do evento visual (língua de partida) em palavras (língua de chegada), construída com profundo conhecimento do vernáculo, das culturas envolvidas, da intencionalidade do remetente (do autor, do diretor, artista, etc) e do destinatário (o espectador ou estudioso, com esta ou aquela deficiência).

No ato tradutório da áudio-descrição, pois, encontrar-se-ão as vicissitudes de uma tradução, inclusive aquelas oriundas de uma tradução literal ou daquelas que precisarão conhecer as peculiaridades “da língua de chegada”, isto é, de como a pessoa cega ou com baixa visão vê.

Ao se discutir o uso ou não de hífen no termo áudio-descrição, tem-se, portanto, que levar em consideração o conceito deste léxico, que, conforme acima exposto, é a composição especializada de um novo termo, a partir de duas palavras do vocabulário hodierno, inclusive do comum das pessoas.

Destarte, ao se tratar aqui do uso do traço de união na grafia de áudio-descrição, o que se quer determinar é qual a grafia correta à luz da gramática normativa vigente, considerando a especificidade/especialização desse léxico.

Segundo a teoria linguística de Saussure (2003[1916]), uma palavra ou termo é um “signo linguístico”, formado pela união de um “significante”, que é a parte concreta (o som e/ou a grafia), com um “significado”, que é o conceito, a imagem mental que fazemos quando escutamos, pronunciamos, lemos ou escrevemos tal palavra. Dessa forma, não se pode questionar o uso ou não de hífen com base apenas no significante.

Deve-se grafar “abaixo assinado” ou “abaixo-assinado”? Resposta: depende. Depende do significado atribuído ao significante. Se abaixo-assinado referir ao documento no qual se propõe algo e é assinado por muitas pessoas (uma petição, um requerimento), trata-se do substantivo com sentido próprio, distinto dos termos que o compõem, daí ser grafado com hífen; se abaixo assinado referir àquele que subscreve o documento, trata-se de uma locução adjetiva e, portanto, deve ser grafado separado, sem hífen (“Nós, abaixo assinado, solicitamos…”).

Do exemplo acima, depreende-se que ao se lançar mão de dois significantes, pode-se criar um terceiro, com significado diferente dos anteriores. O processo utilizado no caso supra, por exemplo, foi o de composição.

No entanto, são vários os processos de formação da palavra em Língua Portuguesa, entre eles os mais comuns são a derivação e a composição.

A derivação é a formação de palavra por meio de afixos, anexados (através de hifen ou não) a uma palavra primitiva[1], ou seja, uma palavra que possui autonomia lexical. Exemplos: feliz (palavra primitiva) e infeliz (palavra derivada, formada pela palavra primitiva feliz + prefixo in). Exemplo de derivação com hífen: super-homem (palavra primitiva homem + prefixo super).

Outro recurso linguístico para a formação de palavra é a composição, definida pelo “processo de formação de palavras que cria novos vocábulos pela combinação de outros já existentes, dando origem a um novo significado” (Silva e Koch, 2003:41).

Diferente da derivação, em que se tem apenas um radical, na composição o item lexical é formado a partir de dois itens lexicais, compostos com ou sem modificação de sua estrutura fônica.

Segundo Silva e Koch (2003) a relação semântica que existe entre os itens lexicais na composição pode ser maior, ou pode desaparecer em muitos casos.

Através desse processo (composição) combinam-se dois morfemas lexicais, operando-se entre eles uma fusão semântica, que pode ser mais ou menos completa. Assim, por exemplo, em guarda-chuva, o significado de cada elemento persiste com certa nitidez; já em pé-de-moleque, este significado praticamente desaparece para dar lugar a outro. (Silva e Koch, 2003:41)

Dependendo da fusão dos diferentes léxicos, a composição pode ser por aglutinação ou justaposição. Nesta última as palavras são unidas, mantendo a mesma autonomia fonética. Na aglutinação as palavras se fundem num todo fonético, e pode ocorrer a perda de uma vogal ou consoante (Silva e Koch, 2003). São exemplos de aglutinação planalto (com a perda da vogal o do vocábulo plano); pontiagudo (etimologicamente ponta+e+agudo); aguardente (água+ardente). São exemplos de justaposição amor-perfeito, guarda-noturno, decreto-lei.

Como se pode notar, o processo de formação de um novo léxico abarca a possibilidade de transformação da palavra por meio do uso de afixos a ela aderidos (derivação) ou pela junção de dois ou mais léxicos, que a despeito de serem distintos entre si, se unem para compor significados mais ou menos complexos (composição).

A possibilidade de se usar, pois, mais de um substantivo na composição lexical de um termo que exprima um novo significado desejado, encontra razão de ser exatamente por não se poder criar, para esse fim, léxicos novos, destituídos de semelhança semântica com outros, já partilhados pelos falantes da língua. Isso, como vimos, acarretaria uma sobrecarga da memória, levando a um estado de prejuízo à comunicação.

3- Áudio-descrição: derivação ou composição?

Áudio, em áudio-descrição, ao contrário do que se pode acreditar, não é um prefixo, mas um radical latino, com significação própria, por isso o vocábulo áudio-descrição deve ser grafado com hífen. Logo, tem-se que o processo de formação de áudio-descrição deu-se de item lexical (áudio- substantivo) + item lexical (descrição – substantivo).

Em outras palavras, há quem pense que áudio em áudio-descrição é como audiovisual, audiofone, portanto um léxico formado por derivação, o que não é.

Fosse a formação da palavra áudio-descrição feita por derivação, o morfema áudio, em áudio-descrição, deveria ser obrigatoriamente um prefixo, o que no caso em discussão não é, posto que áudio não meramente modifica descrição, mas compõe com esta um novo conceito, o de tradução visual.

A esse respeito já dizia Tavares et al (2010):

é relevante esclarecer que as dúvidas quanto à escrita adequada de áudio-descrição surgem em razão da interpretação das regras que orientam a ortografia de vocábulos como audiovisual, audiofone, audiograma, audiometria etc as quais, de acordo com o Scarton e Smith (2002) e Rios (2009), são constituídas pelo prefixo latino áudio (lat audio), sendo nestes casos desnecessário o uso do hífen, pois este prefixo é um morfema que se coloca antes dos radicais (parte fixa, invariável da palavra) basicamente a fim de modificar-lhes o sentido e raramente produz mudanças na classe gramatical da palavra primitiva. (p.4)

Como se vê, para que o termo áudio fosse um prefixo em áudio-descrição, ter-se-ia de pensar que áudio-descrição seria uma mera descrição sonorizada, ou quem sabe uma descrição do som.

Ora áudio-descrição não é nem uma coisa, nem outra. Áudio-descrição é um gênero tradutório, não lingual, cujas diretrizes principais são:

  • descreva o que você vê;
  • descreva de modo claro, conciso, correto, específico e vívido;
  • descreva com o registro linguístico e locução, quando aplicável, condizentes/determinados pela obra;
  • e, acima de tudo, descreva com o fim de empoderar a pessoa com deficiência na tomada de decisão, na apreciação, autônoma ou mesmo assistida, de uma dada obra. (Lima e Lima, 2012)

4- Áudio-descrição à luz do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

Mas, como fica então a grafia da palavra áudio-descrição, segundo as novas regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa?

Como grafar corretamente o significante que acompanha o conceito “tradução visual de um elemento ou elementos visuais em palavras”?

Segundo o Decreto Nº. 6.583/2008, que promulga o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa:

Base XV

Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares

1º) Emprega -se o hífen nas palavras compostas por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos, de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal, constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio, podendo dar -se o caso de o primeiro elemento estar reduzido: ano-luz, arce-bispo, arco-íris, decreto -lei, és -sueste, médico-cirurgião, rainha -cláudia, tenente-coronel, tio-avô, turma-piloto; alcaide-mor, amor-perfeito, guarda-noturno, mato-grossense, norte-americano, porto-alegrense, sul-africano; afro-asiático, afro-luso-brasileiro, azul-escuro, luso-brasileiro, primeiro-ministro, primeiro-sargento, primo-infeção, segunda-feira; conta-gotas, finca-pé, guarda-chuva.

Obs.: Certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição, grafam-se aglutinadamente: girassol, madressilva, mandachuva, pontapé, paraquedas, paraquedista, etc.

[…]

Base XVI

Do hífen nas formações por prefixação, recomposição e sufixação

1º) Nas formações com prefi xos (como, por exemplo: ante-, anti-, circum-, co-, contra-, entre-, extra-, hiper-, infra-, intra-, pós-, pré-, pró-, sobre-, sub-, super-, supra-, ultra-, etc.) e em formações por recomposição, isto é, com elementos não autónomos ou falsos prefixos, de origem grega e latina (tais como: aero-, agro-, arqui-, auto-, bio-, eletro-, geo-, hidro-, inter-, macro-, maxi-, micro-, mini-, multi-, neo-, pan-, pluri-, proto-, pseudo-, retro-, semi-, tele-, etc.), só se emprega o hífen nos seguintes casos: […] (disponível em: ; acesso em 08.11.2012):

Vê-se que o Acordo afirma que se emprega hífen nas palavras que constituem uma “unidade semântica e mantêm o acento próprio”. Ora, áudio-descrição é formada por dois substantivos que não perderam a unidade semântica anterior, e que, na composição do conceito conhecido como tradução visual de eventos visuais, adquirem uma semântica própria e, a propósito, mantém o acento em áudio. Quando se compara as palavras áudio-descrição com paraquedas, percebe-se que a primeira mantém a significação da justaposição áudio + descrição, designando semântica própria para o termo, e não é nem áudio nem descrição, diferente de paraquedas, que designa um objeto com o fim de “parar quedas”.

Embora o Acordo não traga nenhum exemplo com “audio” (sem acento) ou “áudio” (com acento), são vários os autores que citam “audio-” (sem acento) como sendo um prefixo da Língua Portuguesa e o exemplificam com, entre outras, a palavra “audiovisual”[2]:

Pelo que determina a Base XVI, se se considera que toda e qualquer palavra iniciada por “audio” (sem acento) tenha este como prefixo, o não uso de hífen em “audiodescrição” estaria em acordo com a gramática normativa da Língua Portuguesa.

No entanto, é o substantivo “áudio” (com acento), e não o prefixo “audio-” (sem acento), que está presente em áudio-descrição, uma vez que “áudio” (prefixo), apenas modificaria o radical, como por exemplo em audiolivro (livro em áudio), audiograma (curva característica da sensibilidade do ouvido aos diversos sons), termos que não são especializações distintas dos léxicos que as compõem, mesmo caso de audiovisual, discutido mais adiante.

Em Gramática On-Line[3], do Professor Dilson Catarino, discute-se o uso de hífen após prefixos ou falsos prefixos, segundo o novo Acordo Ortográfico: “prefixos ou falsos prefixos são elementos que não existem isoladamente como palavra da Língua Portuguesa”. No Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa (FERREIRA, 2009, p. 228), por exemplo, é encontrado “audi(o)-” (um prefixo) e “áudio” (um substantivo).

Assim, “audio” (prefixo) e “áudio” (substantivo) têm grafias diferentes porque têm significados diferentes; e, consequentemente, seguem regras ortográficas diferentes: significante e significado indissociáveis na composição do signo linguístico.

Dessa forma, a Base XVI, que regula o uso do hífen nas formações por prefixação, recomposição e sufixação, não serve de parâmetro para se justificar a eliminação do hífen em áudio-descrição, pois esta palavra se forma pela composição por justaposição.

Por outro lado, a Base XV, que observa que os compostos, em que se perdeu a noção de composição, grafam-se aglutinadamente (girassol, madressilva, mandachuva, pontapé), também não serve para justificar a exclusão do hífen em áudio-descrição, visto que diferente de mandachuva (pessoa importante), termo que claramente perdeu a noção de composição e nada mais tem que ver com mandar e chuva, ou mandar na chuva, áudio-descrição, além de compor um novo léxico, é, sabidamente, vocábulo de construção recente e conceituação específica, portanto não se pode falar que perdeu a noção de composição.

5- Áudio-descrição e audiovisual

Um dos mais conhecidos blogs brasileiros destinado à difusão da áudio-descrição, o Blog da Audiodescrição[4], discute a controvérsia da grafia dos termos.

O blogueiro responsável por aquela página na internet respeita a diferença de ortografia dos autores que colaboram com o sítio, mas assume posição a favor do não uso do hífen, sob a compreensão que construiu do assunto. No excerto abaixo, pode-se ver o entendimento que o Blogueiro alcançou da leitura do novo Acordo da Língua Portuguesa sobre o uso ou não do hífen:

“… o novo acordo ortográfico criou exceção da exceção, ao indicar que palavras já consagradas sem o hífen mantenham a grafia, como girassol, por exemplo (sm (girar+sol) Planta composta ornamental, de sementes oleaginosas (Helianthus annuus), cujas flores se voltam para o sol).

Nenhuma outra palavra está tão intimamente vinculada a ‘audiodescrição’ do que a palavra ‘audiovisual’, que tem sua grafia plenamente consagrada sem o hífen.”

O que o blogueiro não percebeu é que no caso da palavra girassol, perdeu-se a noção de composição, isto é, do significado dos termos originais que compõem a palavra, conforme visto na Base XV do Acordo Ortográfico, regra que não se aplica ao léxico áudio-descrição.

O Blog também firma sua posição da grafia de “audiodescrição”, sem hífen, por analogia à “audiovisual”.

Mas em que medida áudio-descrição está intimamente vinculada à “audiovisual” como quer entender o blogueiro? Ora, audiovisual não passa da junção de “áudio” + “visual”, em que se mantém o sentido de cada léxico, sem a criação de um novo campo semântico. De forma simplificada, um recurso audiovisual é um recurso que tem algo para ser ouvido e visto. Uma sala de audiovisual é uma sala onde se encontram aparelhos de som, rádio, TV, DVD, projetores, etc., e não um local distintamente designado por um novo sentido ou conceito.

Portanto, a similaridade que há entre “audiovisual” e áudio-descrição limita-se aos respectivos significantes. Sem haver também similaridade entre os significados dos dois termos, não caberia justificar a ausência de hífen em um, simplesmente porque o outro tampouco o tem; devem-se respeitar as regras de ortografia para cada caso.

Então, resta elucidar se, em “áudio-descrição” (ou “audiodescrição”), as lexias “áudio” e “descrição” constituem uma unidade sintagmática e semântica e mantêm acento próprio, ou se houve a perda da noção de composição (Base XV do Acordo Ortográfico).

Como já foi dito, o termo em discussão é de uso recente no Brasil, portanto, não faz sentido pensar em perda da noção de composição. Prova de que é um conceito novo, isto é, de uso recente, não houve sequer por parte dos dicionaristas (lexicólogos/terminólogos), sua inclusão nos dicionários de Língua Portuguesa.

Outra justificativa apresentada pelo Blog da Audiodescrição para a escolha do uso do termo áudio-descrição sem hífen, recai sobre o incômodo de se criar um termo próprio para a técnica da áudio-descrição. O blogueiro questiona:

“será que o fato da descrição de imagens para pessoas com deficiência possuir técnicas específicas e diferentes da descrição de imagens para quem enxerga seria motivo tão relevante a ponto de justificar a diferenciação ortográfica(?)”[5] (grifos nossos)

Para responder a esta questão, toma-se o conceito de Marconi e Lakatos (2010), as quais afirmam que toda vez que se busca uma investigação de caráter reflexivo, sistemático e crítico, faz-se necessária uma definição clara dos termos que utilizaremos nesta investigação. Quanto mais apurado e correto o uso de termos, melhor será a compreensão da realidade observada. Para as autoras:

O pesquisador não está precisamente interessado nas palavras, mas nos conceitos que elas indicam, nos aspectos da realidade empírica que elas mostram. (MARCONI E LAKATOS, p.163)

No caso da escolha que se faz do termo áudio-descrição ou audiodescrição, o pesquisador que se debruça nesta investigação tem que ter clara a conceituação desse gênero tradutório. Logo, não se trata de meramente criar termos novos, nem de apropriar-se descuradamente de termos existentes. Trata-se de recorrer ao refinamento do termo áudio-descrição, com vistas a distingui-lo do senso comum, de possíveis entendimentos equivocados ao se enunciar áudio-descrição para fins de estudo científico, visto que a áudio-descrição é campo de pesquisa assim no Brasil como no exterior. Conforme Marconi e Lakatos:

É importante definir todos os termos que possam dar margens a interpretações errôneas. O uso de termos apropriados, de definições corretas, contribui para a melhor compreensão da realidade observada. (MARCONI e LAKATOS, 2010: 162).

Como se depreende da explicação das autoras, a resposta à indagação formulada pelo blogueiro Paulo Romeu Filho (“será que o fato da descrição de imagens para pessoas com deficiência possuir técnicas específicas e diferentes da descrição de imagens para quem enxerga seria motivo tão relevante a ponto de justificar a diferenciação ortográfica?”) ao refletir sobre o emprego do hífen na grafia de áudio-descrição, não pode ser outra que não na afirmativa. Isto é, deve-se respeitar a criação do novo termo, consoante o que ele encerra, sem preconceito ou paternalismo para com os destinatários do serviço que o léxico define. Para isso é necessário que se o grafe correta e distintamente, posto que este vocábulo é uma terminologia especializada de um léxico específico, o qual está no campo científico, muito embora esteja igualmente apropriado pelo comum das pessoas. Assim, da mesma forma que não se vai deixar de grafar conta-gotas com hífen, meramente porque um médico já teria de explicar ao paciente leigo como fazer uso desse dispositivo, não se haverá de querer grafar áudio-descrição como se fosse um termo derivacional, por prefixação, meramente esteado no argumento de que se estaria obrigando às pessoas com deficiência a dar mais explicações sobre o recurso da áudio-descrição, como reclama o blogueiro:

“não estaríamos obrigando as pessoas com deficiência, usuárias da audiodescrição, a dar mais uma de tantas explicações sobre um recurso ainda pouco conhecido da sociedade em geral(?);”[6]

Por outro lado, embora não seja objetivo deste trabalho falar sobre barreiras atitudinais, é relevante dizer que constitui barreira atitudinal crassa pretender que as pessoas com deficiência visual são incapazes de explicar qual o recurso de que faz uso (Lima, Guedes e Guedes, 2010).

De qualquer modo, o fato de não se saber a morfologia de uma palavra, a grafia dela, ou mesmo o conceito exato que ela detém, não significa que um sujeito não possa usar dessa palavra e/ou do serviço que ela encerra.

Afinal será que todas as pessoas que usam guarda-chuva sabem que este substantivo composto se grafa com hífen? O fato é que tanto guarda-chuva quanto áudio-descrição obedecem à mesma regra ortográfica prescrita, assim no acordo ortográfico anterior como no atual.

6- Áudio-descrição no dicionário

Como em várias situações quando não se tem certeza sobre o significado e/ou grafia das palavras, o dicionário costuma ser fonte bastante segura para se dirimir dúvidas.

Na nossa sociedade,

“os dicionários (sejam monolíngues, bilíngues, glossários, impressos, online etc.) são a principal fonte de consulta para todo aquele que quer saber algo a respeito do funcionamento do léxico de uma língua: grafia, ortografia, conjugação de verbos, significados, pronúncia, o equivalente em outro idioma etc.”. (SEEMANN, 2011, p. 20)

Além disso, segundo Biderman (2001, p.17), os dicionários possuem extrema importância e relevância nas civilizações modernas. Como obras de referência, os dicionários recebem da população geral o status de “autoridade”, pois se acredita que eles foram criados sem nenhuma imperfeição; aquilo que está no dicionário está correto (JACKSON, 2002).

Ao investigar os principais dicionários da Língua Portuguesa, do Brasil e de Portugal, nas versões impressas e eletrônicas, contudo, não se encontra o verbete áudio-descrição, e, por conseguinte, não se pode confirmar a hipótese de os lexógrafos concordarem que áudio-descrição é um vocábulo derivado e não um léxico novo, com significado especializado, composto de duas outras palavras com significados distintos. Por outro lado a literatura pátria e lusitana ora grafam os termos áudio e descrição unidos com hífen, ora os grafam unidos sem hífen, e há mesmo os que grafam em separado ou junto com acento agudo em áudio (Lima et al, 2009).

O Instituto Antônio Houaiss, no livro Escrevendo pela Nova Ortografia, afirma que:

“No que respeita ao emprego do hífen, não há propriamente divergências entre a norma ortográfica lusitana e a brasileira. Ao compulsarmos, porém, os dicionários portugueses e brasileiros e ao lermos, por exemplo, jornais e revistas, deparam-se-nos muitas oscilações e um largo número de formações vocabulares com grafia dupla, ou seja, com hífen e sem hífen, o que aumenta desmesurada e desnecessariamente as entradas lexicais dos dicionários. Estas oscilações verificam-se sobretudo nas formações por prefixação e na chamada recomposição, ou seja, em formações com pseudoprefixos de origem grega ou latina.” (2009:124).

Com a atual ausência do termo áudio-descrição nos dicionários, muitos brasileiros buscam outra fonte de referência de igual (ou até, maior) prestígio: a Academia Brasileira de Letras (ABL). Na internet, a instituição oferece a possibilidade de se sanar dúvidas referentes à língua por meio de perguntas (“ABL Responde”, disponível em: <http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=569>; acesso em 07.11.2011).

Dessa forma, enviamos a pergunta sobre qual seria a grafia correta (“audiodescrição” ou “áudio-descrição”), acompanhada de uma breve explicação sobre a que estamos nos referindo; o significado do termo. Em menos de duas horas a pergunta foi respondida (via correio eletrônico):

“Resposta: Prezado, seguindo os registros do VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), da ABL, para audiofone, audioamplificar, audiofrequência, audiovisual, audiotransformador, escreva audiodescrição.”

Ou seja, segundo a ABL, o termo não tem hífen, o que, para muitas pessoas, seria o final da discussão; como se costuma dizer nas conversas informais: se a ABL falou, está falado. É o status de autoridade a que nos referimos acima. Porém, fica clara a total falta de justificativa minimamente satisfatória na resposta da ABL, sequer houve qualquer citação das normas do Acordo Ortográfico ou outra fonte de referência que sustentasse a posição da Instituição sobre o fato.

Ao contrário, a resposta da ABL reforça o equívoco em se atribuir a ausência do hífen na grafia por analogia a outras palavras já dicionarizadas, mas que, conforme já discutimos, têm similaridade apenas entre os significantes.

Como explicado, o termo que aqui discutimos é composto por dois substantivos, “áudio” e “descrição”. Ambos mantêm o acento próprio e constituem uma unidade sintagmática e semântica. Portanto, pela Base XV do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, o termo deve ser grafado com hífen: “áudio-descrição”.

7- Considerações Finais

Claro está que “audiodescrição”, pois, é diferente de “áudio-descrição”. Aquela se constitui semanticamente como descrição em áudio, enquanto esta se estrutura em torno de um gênero tradutório, cujas técnicas visam à tradução de um evento visual em palavras, que por sua vez eliciarão imagens na mente de quem as recebe.

Simplificar que áudio-descrição é apenas passar da imagem vista para o áudio a ser ouvido, seria desconsiderar o objetivo de traduzir em palavras eventos visuais inacessíveis aos que estão, temporária ou permanentemente, incapazes de os ver, ignorando que a áudio-descrição prima por empoderar sobretudo as pessoas com deficiência a respeito do evento visual, estático ou dinâmico.

De outra forma, do ponto de vista morfológico, e em consonância com o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, significa reiterar que grafar áudio-descrição com hífen é entender que este léxico se formou pelo processo de composição, e que o termo encerra um conceito novo e especializado, que não se constitui por um processo de derivação, posto que não é a simples descrição falada, mas que se constitui por um processo de composição, dado que é uma tradução visual dos eventos visuais/imagéticos , destinada, principalmente às pessoas com deficiência visual, pessoas cegas ou com baixa visão.

Portanto, grafar áudio-descrição (com hífen) não é meramente um preciosismo linguístico. É, ao contrário, a observância do que determina a Base XV do Decreto Nº. 6.583/2008 e é, principalmente, assumir posição diferenciada sobre a conceituação do termo áudio-descrição, distinguindo-o de descrição em áudio (descrição falada) para conceituá-lo como tradução visual (áudio-descrição daqueles eventos visuais, os quais, por alguma razão, não estejam disponíveis ao indivíduo com deficiência visual e/ou outras), seja porque tais eventos não são/estão deduzidos pelos sons, pela trilha sonora da obra, seja porque não são/estão deduzidos pela cognição ou pelo intelecto do espectador/observador.

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SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. Tradução Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. 25ª edição. São Paulo: Editora Cultrix, 2003 (1916).
SEEMANN, Paulo Augusto Almeida. A construção de um glossário bilíngue de futebol com o apoio da Linguística de Corpus. Dissertação (Mestrado em Letras) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.
SILVA, Maria Cecilia P. de S.e KOCK, Ingedore Villaça. Linguistica aplicada ao português: morfologia.14ª Ed. São Paulo: Cortez, 2003.
SILVA, Prof. Sérgio Nogueira Duarte – Reforma Ortográfica. Disponível em: <http://urutau.proderj.rj.gov.br/intranet_rj_imagens/arquivos/uploads/Apostila_Reforma_Ortografica.pdf>; Acesso em 11.11.2012.
SNYDER, Joel. Áudio-descrição: uma ajuda para a literacia. Revista Brasileira de Tradução Visual (RBTV), 2011. Vol. 6. Disponível em < http://www. rbtv.associadosdainclusao.com.br/index.php/. > Acesso: 10 jun.2012.
TAVARES, Fabiana S. S.; BONA, Viviane de; SILVA, Andreza da Nóbrega Arruda; CARVALHO, Isis Carvalho; SILVA, Elisangela Viana da. Reflexões sobre o pilar da áudio-descrição: “descreva o que você vê”. Revista Brasileira de Tradução Visual (RBTV), 2010. Vol. 4. Disponível em < http://www. rbtv. associados dainclusao. com.br/index.php/. > Acesso: 20 set.2010.

Nota de rodapé

[1] Sobre o conceito de palavra, forma livre, forma presa, forma dependente, palavra primitiva, consulte Mattoso Câmara (1970).
[2] Ver em Martins (2006, p.79), manual de redação da PUC-RS (disponível em: <http://www.pucrs.br/manualred/hifen.php>; acesso em 11.11.2012); Prof. Sérgio Nogueira Duarte da Silva – Reforma Ortográfica (disponível em: <http://urutau.proderj.rj.gov.br/intranet_rj_imagens/arquivos/uploads/Apostila_Reforma_Ortografica.pdf>; acesso em 11.11.2012), etc.
[3] Disponível em http://www.gramaticaonline.com.br/texto/; acesso em 11.11.2012)
[4] (disponível em: <http://www.blogdaaudiodescricao.com.br/2010/07/qual-grafia-correta-audiodescricao-ou.html>; acesso em 07.08.2012)
[5] (disponível em: <http://www.blogdaaudiodescricao.com.br/2010/07/qual-grafia-correta-audiodescricao-ou.html>; acesso em 07.08.2012)
[6] (disponível em: <http://www.blogdaaudiodescricao.com.br/2010/07/qual-grafia-correta-audiodescricao-ou.html>; acesso em 07.08.2012)

 

Publicado por

  • Paulo Augusto Almeida Seemann

    Professor, tradutor e radialista. Mestre em Letras (USP), graduado em Letras - Espanhol/Português (USP) e em Comunicação Social - Rádio e TV (FAAP).View all article by Paulo Augusto Almeida Seemann
  • Rosângela A. F. Lima

    Professora adjunto do Centro de Artes e Comunicação- UFPE, coordenadora do Letras/Libras- Pólo UFPE.View all article by Rosângela A. F. Lima
  • Francisco José de Lima

    Professor Adjunto da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); Coordenador do Centro de Estudos Inclusivos (CEI/UFPE); Idealizador e Formador do Curso de Tradução Visual com ênfase em Áudio-descrição “Imagens que Falam” (CEI/UFPE);Tradutor e intérprete, psicólogo, coordenador do Centro de Estudos Inclusivos. E-mail: cei@ce.ufpe.brView all article by Francisco José de Lima

Autistic spectrum, captions and audio description

A previous version of this paper Was published on http://mindfulresearch.co.uk/2011/08/29/autistic-spectrum-captions-and-audio-description/


Abstract

This article discusses how audio description intended for people who are blind or visually impaired and captions intended for people who are deaf or hard of hearing can support people with other access needs particularly autism.

keywords: Autistic spectrum, captions, audio description, access needs, television

Introduction

You may be thinking what have captions and audio description (AD) got to do with autistic spectrum. Aren’t captions for D/deaf and hard of hearing people and audio description for visually impaired people? In this last couple of years research I’ve conducted has revealed that audio description and captions can be of benefit and are used by people on the autistic spectrum.

Many of the arguments for a more accessible environment either physical or digital start off with arguments like ‘ramps for wheelchair users are helpful for prams or baby buggies’. Captions and audio description are a metaphorical ramp and provide a different kind of value to people on the autistic spectrum. There is nothing new in the repurposing of technology, every developer has stories on how users repurposed their design.

What is autistic spectrum?

I am going to avoid any medical diagnoses here as I am looking at this from a user experience perspective. I am strongly influenced by the social model of disability which focuses on what people can do rather than what they can’t do and neurodiversity which interprets autistic spectrum not as something separate or faulty but as part of the range of human behaviour. I will look at how being on the autistic spectrum affects peoples interaction and engagement. Typically people on the autistic spectrum, which also includes Aspergers struggle with understanding human emotions and engagement.

So for example they:

  • May not understand sarcasm or certain forms of humour.
  • May struggle to understand non-verbal communications such as reading the emotion on another persons face and the inferences of body language.
  • May not know if someone is angry, sad, disappointed or entertained?
  • May have difficulty recognising different faces and identifying people.
  • May struggle with audio processing for example understanding people talking very quickly or several people talking at the same time perhaps with background noise.

Another feature of autistic spectrum is an intense focus on a small area of interest, the technical term for this is Monotropism.

What Monotropism means is that somebody on the autistic spectrum focuses in great detail on one or two things rather than looking at everything broadly. This means that any subject area is looked at in great detail and every detail of something must be understood or all the information may be invalidated. In one interview I conducted with a person on the autistic spectrum I was told that every link on a web page had to be followed. That is every reference and every hyperlink. That makes it very time consuming to look at everything and if any of the information conflicts with the individuals own mental model then its all invalidated.

Monotropism can actually be of great benefit in some environments where you need precision, detail and great accuracy. Any multi-disciplinary team can benefit from an autistic spectrum member ensuring that all the details are right.

The autistic spectrum includes a very wide range of people from those who are non-verbal to people with high functioning autism and Aspergers who have an above average IQ and may excel in their own field.

Why do captions and audio description help?

So looking at these two aspects of the autistic spectrum

  • Understanding human emotion and engagement
  • Monotropism

What is it that captions and audio description provide?

Audio description was originally designed for people who are visually impaired. It meets their needs by providing information that is purely visual into an audio format and is used for television, theatre and cinema. So for example if you were watching Eastenders and Phil Mitchell came into the room angrily the audio description might be ‘Phil walked into the room looking angry’. Where this helps someone on the autistic spectrum is it identifies the emotion which may be difficult for them to pin down and it also provides another input track to reinforce the information. If the person is struggling to identify the different people in the scene, audio description names the person so the visuals and the audio help create a complete picture.

Captions again provide a reinforcement of what is going on visually and what is being said. Captions should identify the speaker and what’s being said, identify other sounds, birds singing, car tyres screeching etc and song lyrics. For somebody who is on the autistic spectrum it gives a greater depth of understanding and context by providing a second input stream. People on the autistic spectrum may struggle with audio processing, that is filtering out different sounds and distinguishing between what’s relevant and what is not relevant. If there is an audio overload with lots of different sounds because of the audio processing issues some people on the autistic spectrum have, all or most of the audio could be rendered totally meaningless and captions provide a backup for when this occurs.

It is now acknowledged that television has a lot more ambient noise issues than in the past. This means we will all miss words from time to time regardless of whether we are D/deaf or hard of hearing. As well as the audio processing problems created by additional noise, missing words for someone who is on the autistic spectrum may be critical if they have a need for complete information, the subtitles help fill in the gaps so from several different streams a complete picture is provided.

Providing additional viewing support through audio description and captions allows people on the autistic spectrum to watch television without asking family and friends, ‘What does that mean?’, ‘Who’s that?’ and ‘Why did that happen?’.

Where did I come across this

I first came across this behaviour when user testing IPTV (Television services) for the BBC in 2010 with participants on the autistic spectrum.

Who else can audio description and captioning help.

In further television platform testing with the BBC in 2011 I also came across a participant with ADHD who found audio description massively helpful and a participant with Dyslexia who used captions to help her improve her spelling.

So what does this tell us about access? Probably that there is a much bigger community that can benefit from audio description and captions than just Blind and D/deaf people.

Heated debates

There are lots of heated debates particularly about captioning. In the UK we are very lucky that the BBC caption 100% of UK broadcast programmes and the other UK broadcasters are catching up. On the web it’s a different story with a lot of video material not being captioned. Audio description is still a rarer entity. Now we can say there is a whole group of people who these features may support. It’s unclear exactly how many people there are in the UK on the autistic spectrum including Aspergers but estimates suggest over 1% of children have the condition and children grow into adults. Screening of children in schools is far more sophisticated than it was twenty, thirty or fifty years ago. What this may mean is there are a lot of people who have never been diagnosed and never will be diagnosed.

In closing

I have come across this behaviour in small qualitative studies so I don’t have big numbers to share but I felt this was a very interesting finding that deserved to be shared. Particular thanks to the BBC for commissioning these research projects with autistic spectrum participants and to Jamie Knight and Lion for reviewing and advising on this post. I hope more researchers will back up this research and we can caption an audio describe the world. I would appreciate any feedback.

References

Social model of disability:
Neurodiversity: http://mikestanton.wordpress.com/my-autism-pages/what-is-neurodiversity/
Ambient Noise:http://www.bbc.co.uk/blogs/tv/2011/03/is-the-background-music-too-loud.shtml
Statistics: how many people have autistic spectrum disorders?
Jamie Knight and Lion:http://pluslion.com/

Publicado por

  • Judith Fellowes

    Judith is a user experience consultant who is passionate about making technology usable and accessible for all. She promotes inclusion and diversity in all her work.Judith’s interest in the human challenges of technology led her to specialise in that area and she undertook a Masters in Usability at Lancaster University in 2002 gaining a distinction for her thesis on scenario based design.Judith’s research work has encompassed a wide range of devices and software including Web, IPTV, PC and mobile. Her clients have included Vodafone, the BBC, HSBC and Orange.View all article by Judith Fellowes

Espectro autístico, legendas e áudio-descrição

Uma versão anterior deste trabalho foi publicada em http://mindfulresearch.co.uk/2011/08/29/autistic-spectrum-captions-and-audio-description/


O texto a seguir foi originalmente escrito por Judith Fellowes publicado em: audiodescriptionworldwide.com/rbtv/autistic-spectrum-captions-and-audio-description e traduzido por Tereza R. Gomes abaixo.


Resumo

Este artigo aborda como a áudio-descrição, destinada às pessoas cegas ou com deficiência visual, e legendas, destinadas às pessoas surdas ou com deficiência auditiva, podem dar suporte a pessoas com outras deficiências e necessidades de acessibilidade, em particular com autismo.
Palavras-chave: Espectro autístico, legendas, áudio-descrição, necessidades de acessibilidade, televisão.

Abstract

This article discusses how audio description intended for people who are blind or visually impaired and captions intended for people who are deaf or hard of hearing can support people with other access needs particularly autism.
keywords: Autistic spectrum, captions, audio description, access needs.

Introdução

Você deve estar pensando o que é que legendagem e áudio-descrição (A-D) têm a ver com o espectro autístico. Afinal, não são as legendas para as pessoas surdas com deficiência auditiva e a áudio-descrição para as pessoas com deficiência visual?

Nestes últimos anos a pesquisa que fiz revelou que a áudio-descrição e as legendas podem beneficiar, e são utilizadas por pessoas com espectro autístico.

Muitas das discussões para um ambiente mais acessível, seja físico ou digital, começam com raciocínios tais como ‘rampas para cadeirantes são úteis para carrinhos de bebês’. Legendas e áudio-descrição são uma rampa metafórica e fornecem valor de um tipo diferente às pessoas com espectro autístico. Não há nada de novo em dar um novo propósito para a tecnologia, cada um que promove desenvolvimento tem histórias de como os usuários dão um novo propósito aos seus produtos.

1. O que é espectro autístico?

Evitarei diagnósticos médicos aqui, uma vez que analiso o assunto de uma perspectiva de experiência de usuários. Sou fortemente influenciada pelo modelo social de deficiência, que dá enfoque no que as pessoas podem fazer ao invés do que elas não podem fazer, e a neurodiversidade que interpreta o espectro autístico não como algo separado ou que falta, mas como parte de uma gama do comportamento humano. Vou examinar como o espectro autístico afeta a interação e o entrosamento das pessoas. Tipicamente, as pessoas com o espectro autístico, o que inclui também as pessoas com Asperger, lutam para entender as emoções humanas e para interagir com as pessoas.

Assim, as pessoas com espectro autístico, por exemplo:

  • Podem não compreender o sarcasmo ou certos tipos de humor.
  • Podem lutar para compreender comunicações não-verbais tais como ler as emoções no rosto de outra pessoa e as inferências da linguagem corporal.
  • Podem não saber se uma pessoa está com raiva, triste, desapontada ou alegre.
  • Podem ter dificuldade em reconhecer rostos diferentes e identificar pessoas.
  • Podem lutar com o processamento de áudio, como por exemplo compreender pessoas que conversam de forma muito rápida ou diversas pessoas que falam ao mesmo tempo, talvez com ruídos de fundo.

Outra característica do espectro autístico é um foco intenso em uma pequena área de interesse, e o termo técnico para isso é Monotropismo.

O significado de Monotropismo é que uma pessoa com espectro autístico focaliza com grande detalhamento uma ou duas coisas, ao invés de observar tudo amplamente. O que significa que qualquer área de assunto é observada com grande detalhamento e cada detalhe de algo deve ser compreendido ou toda a informação pode se tornar inválida.

Em uma entrevista que fiz com uma pessoa com espectro autístico, ela me disse que todo link em uma página na web tinha que ser seguido. Isto é, todas as referências e todos os hyperlinks. Leva muito tempo para entrar em tudo, e se alguma das informações conflitar com o modelo mental do próprio indivíduo, então tudo ficaria inválido.

O monotropismo pode na verdade ser de grande valia em alguns ambientes onde é necessário precisão, detalhamento e grande exatidão. Qualquer equipe multidisciplinar pode se beneficiar ao ter em seu grupo um membro com espectro autístico, garantindo que todos os detalhes estejam corretos.

O espectro autístico inclui uma gama muito ampla de pessoas, desde aquelas que são não-verbais com autismo de alto funcionamento e Aspergers (pessoas com QI acima da média e que se sobressaem em sua própria esfera de ação).

2. Por que legendas e áudio-descrição ajudam?

Considerando estas duas características do espectro autístico (compreendendo a emoção e entrosamento humanos, e o Monotropismo), o que é que as legendas e a áudio-descrição podem fornecer?

A áudio-descrição foi originalmente elaborada para atender às pessoas com deficiência visual. Ela preenche o que é necessário, fornecendo informações que sejam puramente visuais em um formato de áudio e é utilizada em televisão, teatro e cinema. Então, por exemplo, se você estiver assistindo Eastenders, e Phil Mitchell entrasse na sala com raiva, a áudio-descrição poderia ser ‘Phil entra na sala com rosto zangado’. Isto ajuda alguém com espectro autístico porque identifica a emoção que pode ser de difícil captura para ele, e também fornece outra pista de entrada para reforçar a informação. Se a pessoa com autismo estiver com dificuldade em identificar as diferentes pessoas da cena, a áudio-descrição nomeia a pessoa de forma que os aspectos visuais e auditivos ajudem a criar um entendimento completo.

Da mesma forma, as legendas dão um reforço para o que está acontecendo visualmente e o que está sendo dito; identifica outros sons, canto de pássaros, pneus de carro cantando no asfalto, letras de músicas, etc. Para alguém com espectro autístico, a legenda dá maior amplitude de compreensão e contextualização, por meio de um segundo canal de entrada.

As pessoas com espectro autístico podem ter dificuldade com o processamento de áudio, ou seja, com a filtragem de sons diferentes, e ter dificuldade em distinguir entre o que é e o que não é relevante.

Se houver sobrecarga de áudio, com muitos sons diferentes, devido a questões de processamento de áudio, que algumas pessoas com espectro autístico têm, todo ou grande parte do áudio pode ficar completamente sem sentido e as legendas dão um suporte, quando isso ocorre.

É sabido que hoje a televisão possui muito mais questões de ruído ambiente do que no passado. Isto significa que todos nós perderemos uma palavra ou outra de tempos em tempos, não importando se somos surdos ou tenhamos deficiência auditiva. Assim como ocorre com os problemas de processamento de áudio, criados por ruídos adicionais, a perda de palavras, para a pessoa com o espectro autístico, pode ser crítica se este precisar de informações completas. As legendas ajudam a preencher as lacunas, de forma que, através de diversos canais, é fornecida uma cena completa.

Fornecer apoio adicional de visualização através da áudio-descrição e legendagem permite que as pessoas com o espectro autístico assistam à televisão sem ficarem perguntando aos familiares ou amigos: “o que quer dizer isso?”, “Quem é ele(a)?” e “Por que aconteceu isso?”.

3. Onde me deparei com isto?

Eu encontrei este comportamento pela primeira vez quando testava o uso de IPTV (serviços televisivos) para a BBC em 2010, com participantes com espectro autístico.

Quem mais pode ser beneficiado pela legendagem e áudio-descrição?

Depois disso, em 2011, em testagem de plataforma de televisão com a BBC eu também me deparei com um participante com TDAH (Transtorno de Deficiência de Atenção-Hiperatividade) que achou a áudio-descrição extremamente útil; e uma participante com Dislexia que utilizava as legendas para melhorar a sua escrita.

Mas então, o que isto nos diz sobre acessibilidade? Provavelmente, nos diz que há uma comunidade muito maior que pode se beneficiar da áudio-descrição e legendas do que apenas as pessoas cegas ou com deficiência visual e as pessoas surdas.

4. Debates acalorados

Existem diversos debates acalorados, em especial sobre legendagem. No Reino Unido temos muita sorte que a BBC legende 100% dos programas transmitidos e que outros programas do Reino Unido estejam acompanhando.

Na internet é uma história diferente, com muito material de vídeo que não recebe legendagem. A áudio-descrição é ainda uma entidade rara. Agora podemos dizer que há todo um grupo de pessoas que podem se beneficiar com estes recursos. Não está claro exatamente quantas pessoas há no Reino Unido com espectro autístico, incluindo os Asperger, mas se estima que mais de 1% das crianças têm essa condição e crianças tornam-se adultos.

O diagnóstico de crianças nas escolas está muito mais acurado do que era há 20, 30 ou 50 anos atrás. O que pode significar que há muitas pessoas que nunca foram e nunca serão diagnosticadas.

5. Concluindo

Eu me deparei com este comportamento em estudos qualitativos pequenos, portanto não possuo grandes números a compartilhar. Mas senti que isto era uma descoberta muito interessante que merecia ser compartilhada. Agradeço em particular à BBC por autorizar estes projetos de pesquisa com participantes com espectro autístico, e à Jamie Knight e Lion por reverem e darem assessoria neste artigo. Espero que mais pesquisadores apoiem esta pesquisa e que possamos legendar e áudio-descrever o mundo. Todo feedback é bem vindo.

6. Referências

Social model of disability:
Neurodiversity: http://mikestanton.wordpress.com/my-autism-pages/what-is-neurodiversity/
Ambient Noise:http://www.bbc.co.uk/blogs/tv/2011/03/is-the-background-music-too-loud.shtml
Statistics: how many people have autistic spectrum disorders?
Jamie Knight and Lion:http://pluslion.com/

Publicado por

  • Judith Fellowes

    Judith is a user experience consultant who is passionate about making technology usable and accessible for all. She promotes inclusion and diversity in all her work.Judith’s interest in the human challenges of technology led her to specialise in that area and she undertook a Masters in Usability at Lancaster University in 2002 gaining a distinction for her thesis on scenario based design.Judith’s research work has encompassed a wide range of devices and software including Web, IPTV, PC and mobile. Her clients have included Vodafone, the BBC, HSBC and Orange.View all article by Judith Fellowes
  • Tereza R. Gomes

    View all article by Tereza R. Gomes

Teaching audio description: an on-line approach

Abstract:

In mid-2010, I created an on-line course in Audio Description (in addition to establishing America’s first ongoing college course in Audio Description, based at Montgomery College in Montgomery County, MD (suburban Washington, DC). Simultaneously, Dr. Francisco Lima (blind from birth) of the Universidade Federal de Pernambuco (Recife, Brazil) was building a college-level on-line curriculum for the study of Audio Description. Aiming to contribute to Dr. Lima’s on-line audio-description course, This paper/multi-media presentation will focus on how my on-line course was developed, the challenges of building an engaging on-line audio description curriculum and the planning of each lesson. The session will emphasize the practicalities of teaching this material on-line and its application for the employment of audio describers. With the establishment of a mandate for description on broadcast description in the United States (and mandates at various stages of development in a range of countries), wider opportunities for employment exist and will increase—it suggests positive ramifications for training programs and the teaching of audio description worldwide.

In addition to contributing with Dr. Lima’s course, this paper also intends to establish the basis for a joint training sometime in the near future, when I will join Dr. Lima in Recife for an in-person presentation and review of student final exams/practica in audio description.

Key Words: audio description, blind, on-line course

1.1 – Introduction-Background

I was a part of the world’s first ongoing audio description service, developed in the Washington, DC area in 1981. Our small group of five or six taught ourselves what might work well as we considered how best to translate the visual images of live theater into words that might correspond appropriately and conjure images and meanings in the minds of our listeners. We worked under the guidance of Dr. Margaret Pfanstiehl, an educator and blind woman who founded The Washington Ear, a closed-circuit radio-reading service (for which I read aloud the Washington Post and described its colorful Sunday comics).

That was the year the first IBM PC was introduced. (A photo of an early DOS-based personal computer and keyboard/)

Bill Gates was only 26 years old. (A photo of a young Bill Gates, in profile and facing front: a “mug shot” after he was arrested in Albuquerque, New Mexico.)

And I had hair. (Two photos—Joel circa 1974 with a full, dark beard and a full head of hair, and Joel circa 2010 with a beard of white and gray and a bald pate.)

Three decades later, university-level audio description courses have been developed, principally in Europe. But most audio description efforts in local communities, in museums or for media have had their foundation in training by experienced describers sharing their observations.

Well into the digital era and the ubiquity of web-based training, the teaching of audio description founds its way on-line. In mid-2010, I created an on-line course in Audio Description (in addition to establishing America’s first ongoing college course in Audio Description, based at Montgomery College in Montgomery County, MD (suburban Washington, DC).

1.2 – Course Development

The development of this on-line effort involved the challenges of building an engaging on-line audio description curriculum and the planning of each lesson. I also emphasize the practicalities of teaching this material on-line and its application for the employment of audio describers: with the establishment of a mandate for description on broadcast description in the United States (and mandates at various stages of development in a range of countries), wider opportunities for employment exist and will increase—it suggests positive ramifications for training programs and the teaching of audio description worldwide.

After 30 years, audio description is still under-known—it lacks visibility, if you will. A sign interpreter’s work or captions and sub-titles are seen by all; audio description is accessed “invisibly”—only by the consumer of the service. The first step, then, is to provide a brief demonstration of what audio description is and how it can convey the visual image to people who are blind or have low vision—in America, these folks total over 25 million people.

I ask participants to listen to the soundtrack of an excerpt from a motion picture: no video is available and neither is audio description. The idea is to experience the film as a totally blind individual would experience it without the benefit of audio description. Try it – listen:

What did you hear? Could you follow what was going on?

Would it make any difference if you hear that original soundtrack along with an audio description track? No video—you’re still blind. Try it this time:

Now, take a look at the video of the excerpt along with the original audio and the audio description. Does the description match the visual images that comprise the scenes? Would you choose the same visual elements to describe? What language choices would you make? Does the voicing of the description enhance an understanding of the scene? Look and listen:

This is the sort of practica that is available in an on-line course: participants view video excerpts that are made available via YouTube or other web-video services and the students can post their own description scripts for those excerpts, inviting comment from the instructor and other folks taking the course.

I also highlight a relatively new application for audio description—literacy. In several settings, I’ve experimented with developing more descriptive language to use when working with small children and picture books or short videos. Picture books, of course, rely on pictures to tell the story. But the teacher trained in audio description techniques would never simply hold up a picture of a red ball and read the text:

(A photo of a red ball.)

“SEE THE BALL.”

He or she might add: “The ball is red–just like a fire engine. I think that ball is as large as one of you! It’s as round as the sun–a bright red circle or sphere.” The teacher has introduced new vocabulary, invited comparisons, and used metaphor or simile–with toddlers! By using audio description, you make these books accessible to children who have low vision or are blind and help develop more sophisticated language skills for all kids.

A picture is worth 1000 words? Maybe. But the audio describer might say that a few well-chosen words can conjure vivid and lasting images.

1.3 – The Course

Let’s go forward to the beginning–here’s how my on-line course gets started:

(Three screen shots from the on-line course.)

Throughout the course, it’s critical to include graphics or video. The example used earlier is an excerpt from The Empire Strikes Back. Early in the course, I focus on access awareness and sensitivity to attitudes that exist regarding people with disabilities, particularly people who are blind or have low vision. Here’s one screen in the course emphasizing these issues—

Finally, it’s so important to remember that there’s only a thin line between “ability” and “disability” – let’s rid ourselves of any semblance of “able-ism”, any sense of separateness between those who can see and those who cannot. “To be able” is a relative condition ‑‑ the great majority of Americans are only “Temporarily Able‑Bodied” (TABs) anyway!

One moment Christopher Reeve was “able-bodied”—the next minute, he wasn’t. But he was still Christopher Reeve.

(Two photos: one of Christopher Reeve in his movie persona of “Superman” and one of the smiling Reeve, bald with a tracheotomy.)

The body of the course details the “Fundamentals of Audio Description”, as put forward in an essay I wrote some years ago. The following screen is another example of graphics use, and one that features a video, this time in the section that focuses on the first fundamental of audio description, Observation.

Observation: We must learn how to see the world anew. In his book, “Seen/Unseen: A Guide to Active Seeing,” the photographer, John Schaefer, coins the phrase “visual literacy.” That’s what describers need to nurture. Schaefer refers to the need to ‘increase your level of awareness and become an active “see‑er.” The best describers will truly notice all the visual elements that make up an event, just as Emily does in Thornton Wilder’s “Our Town.” Looking back from the grave, she sees for the first time: “I didn’t realize. So all that was going on and we never noticed. Clocks ticking, Mama’s sunflowers, food, coffee, new‑ironed dresses, hot baths. Do any human beings ever realize life while they live it? Every, every minute?” The Stage Manager answers: “No. The Saints and Poets maybe, they do, some.”

And effective Audio Describers!

(The FedEx logo in blue and red block letters, each abutting the other.)

What do you see? Look closely. Remember: labeling or naming is not the same as describing. The writer Paul Valery noted that “Seeing is forgetting the name of what one sees.” If we dismiss this image as “the logo of FedEx”, we fail to observe it—have you noticed the arrow between the “E” and the “x”?

This notion is exemplified by a short video produced by the City of London. Hint: forget what you’re supposed to be looking at and note everything that’s there—especially the image moving from right to left shortly after the video begins.

The second fundamental of audio description is Editing. Audio describers must edit or cull from what they see, selecting what is most valid, what is most important, what is most critical to an understanding and appreciation of an event. Often, only a few precious seconds are available to convey those images. The American jurist, Oliver Wendell Holmes, reminds us that “The great struggle of art is to leave out all but the essential.”

Sometimes describers must convey with words extremely complex images, typified here by Velazquez’ “Las Meninas.

(A photo of Velazquez’ painting.)

Describers must ask themselves “What is most critical to an understanding (he points to his head) and an appreciation (his hand is on his heart) of the image?” Description is often about what NOT to describe. The on-line course allows participants to discuss with others their views in the on-line discussion room.

The third fundamental of audio description is Language. We translate it all into words–objective, vivid, specific, imaginatively drawn words, phrases, and metaphors. For instance, how many different words can you use to describe someone moving along a sidewalk? Why say “walk” why you can more vividly describe the action with “sashay,” “stroll,” “skip,” “stumble,” or “saunter”? Is the Washington Monument 555 feet tall or is it as high as fifty elephants stacked one on top of the other or two football fields atop each other?

(A photo of the Washington Monument.)

I stress throughout the course that “less is more” and reference others writers that emphasize this concept: Blaise Pascal says it so succinctly and so well with his “I have only made this letter longer because I have not had the time to make it shorter”—and Williams Ivins in his Prints and Visual Communication cautions against the “prolix rigamarole” of overly wordy description. The on-line course provides a link to the books cited so folks can find out more information about the reference or even purchase a copy of the book cited.

And finally—my fourth fundamental of audio description is Vocal Skills. We make meaning with our voices. In the on-line course, I stress the importance of clear speech and nuanced oral interpretation.

(A photo of a child, her tongue extended and curled up to reach her nose.)

Participants can practice tongue twisters like this one –

“Are you copper-bottoming them, my man?” “No, I’m aluminuming ’em, mum.”

and even hear me demonstrate for them—

As for oral interpretation, I ask students to change meaning just with their voices—

WOMAN WITHOUT HER MAN IS A SAVAGE

Voiced alternatively will yield:

WOMAN: WITHOUT HER, MAN IS A SAVAGE

Or simply make sense out of the seemingly nonsensical.

THAT THAT IS IS THAT THAT IS NOT IS NOT

The sense-making version:

THAT THAT IS, IS; THAT THAT IS NOT, IS NOT

Finally, and as noted earlier, there’s plenty of practica with video as well as still images. How would you succinctly describe this image?

(A black-and-white photo of Lauren McDevitt.)

After analysis of various descriptive phrases, I offer one of my own:

“Backlit, and in wispy silhouette, a photo of a white girl in her teens in profile, facing right — only inches away, a horse (his head, the size of her torso) nuzzles her open hand in her lap as she rests in a wheelchair.”

And a video excerpt is analyzed as well:

An annotated version of the audio description script for this excerpt from the feature film The Color of Paradise is provided on-line for review:

NOTE: Cues in CAPS; descriptions preceded by “>>.” Annotations are in bold at right, keyed to numerals in description text. The appearance of the character “Mohammed” is described earlier in the film.

1             01:01:36:12          00:00:10:26         –:–:–:–

>> Mohammed kneels and taps his hands

through the thick ground cover of brown 1.                                     1 – Color has been shown to be

curled leaves.                                                                  important to people with low

vision, even people who are con-

2             01:01:46:16          00:00:00:23         –:–:–:– genitally blind.

…[CHIRPING/RUSTLING :02]

 

3             01:01:48:16          00:00:04:04         –:–:–:–

>> A scrawny nestling struggles on

the ground near Mohammed’s hand.

 

4             01:01:52:19          00:00:00:23         –:–:–:–

…[GASP/CHIRPING :02] 2.                                                          2 – Timing is critical in the

crafting of description. We

5             01:01:54:19          00:00:15:00         –:–:–:–                  weave descriptive language

>> His palm hovers above the                                                 around a film’s sound elements.

baby bird. He lays his hand lightly

over the tiny creature. Smiling,

Mohammed curls his fingers

around the chick and scoops 3. it into   3. – Vivid verbs help conjure

his hands. He stands and strokes                                                          images in the mind’s eye.

its nearly featherless head with

a fingertip.

6             01:02:08:12          00:00:00:23         –:–:–:–

…[CHIRPING/RUSTLE :01]

 

7             01:02:09:12          00:00:17:19         –:–:–:–

>> Mohammed starts as the bird

nips his finger. He taps 4. his

finger on the chick’s gaping

 

beak. He tilts 4. his head back,                                                4. – Description, like much

then drops it forward. Mohammed                                                       poetry, is written to be heard.

tips 4. the chick into his front                                                  Alliteration adds variety and

shirt pocket. Wrapping his legs                                                               helps to maintain interest.

and arms around a tree trunk,

Mohammed climbs.

 

8             01:02:28:10          00:00:01:04         –:–:–:–

…[HEAVY BREATHING/CLIMBING :11]

 

9             01:02:39:10          00:00:17:19         –:–:–:–

>> He latches onto a tangle of

thin, upper branches. His legs

flail for a foothold. Mohammed stretches

an arm between a fork in the trunk of the

tree and wedges in his head and shoulder.

His shoes slip on the rough bark.

Note: Throughout this excerpt, for the most part, descriptions are written to be read “in real time,” i.e., as the action being described occurs on screen. However, in many films descriptions may precede the action on occasion. This is a useful convention – it accommodates timing required in films with a great deal of dialogue and allows description users the opportunity to know “what happened” moments before the action occurs.

 

10           01:02:55:11          00:00:00:23         –:–:–:–

…[SCRAPING :03]

 

11           01:02:58:11          00:00:16:04         –:–:–:–

>> He wraps his legs around the

lower trunk, then uses his arms

to pull himself higher. He

rises into thicker foliage and

holds onto tangles of smaller

branches. Gaining his footing,

Mohammed stands upright and

cocks his head to one side.

 

12           01:03:13:20          00:00:01:04         –:–:–:–

…[CHIRPING/FLUTTER]

 

13           01:03:18:15          00:00:10:15         –:–:–:–

>> An adult bird flies from a nearby branch. 5.                                               5 – What to include? This

Mohammed extends an open hand. He                                                             image is important – the

touches a branch and runs his fingers                                                 adult bird returns in the

over wide, green leaves.                                                                                             next scene.

 

14           01:03:27:11          00:00:00:23         –:–:–:–

…[RUSTLING :03]

 

15           01:03:30:11          00:00:14:08         –:–:–:–

>> He pats his hand down the

length of the branch. His fingers trace the

smooth bark of the upper branches,

search the network of connecting tree

limbs, and discover their joints.

16           01:03:43:20          00:00:00:23         –:–:–:–

…[RUSTLE :02]

 

17           01:03:45:20          00:00:05:06         01:03:50:26

>> Above his head, Mohammed’s

fingers find a dense mass of

woven twigs–a bird’s nest.

 

18           01:03:50:26          00:00:00:23         –:–:–:–

…[CHIRPING :03]

 

19           01:03:53:26          00:00:07:15         –:–:–:–

>> Smiling, he removes the chick

from his shirt pocket and drops

it gently into the nest beside

another fledgling.

 

20           01:04:01:00          00:00:00:23         –:–:–:–

…[CHIRPING :03]

 

21           01:04:03:04          00:00:13:04         –:–:–:–

>> He rubs the top of the

chick’s head with his index 6.                                                                  6 – Be specific– precision

finger. Mohammed wiggles his                                                                               creates images!

finger like a worm 7. and taps a

chick’s open beak. Smiling, he                                                                 7 – Similes paint pictures!

slowly lowers his hand.

1.4 – Conclusion

We have an immense and varied culture in the United States—the same is surely true for many other countries around the world. There is no reason why a person with a visual disability must also be culturally disadvantaged. All people need to be full participants in their nation’s cultural life and that goal can be achieved through greater access to film, television, theater, museums, and other cultural venues. With a focus on people’s abilities, we will come much closer to greater inclusion and total access; and when people are more engaged with their culture they become engaging individuals—and more employable. In these days of 70% unemployment for people who are blind in the United States, improvement in this area could be the most important effect of more meaningful cultural access.

I encourage you to join me for an on-line review of audio description. It’s available at the following URL – and it’s free!

www.fracturedatlas.org/u

Note: “Fractured U.” was created by Fractured Atlas to address the emerging needs of artists and arts managers in a “DIY” environment.

Bibliography

Jr. Ivins, William M. 1969. Prints and Visual Communication. Cambridge: The MIT Press.
Schaefer, John. 1995. Sight Unseen: The Art of Active Seeing. Glenview, IL: Goodyear Books.
Snyder, Joel. 2005. Audio Description. The Visual Made Verbal Across Arts Disciplines – Across the Globe. Translating Today 4: 15-17.
Snyder, Joel. 2006. Audio description – An aid to Literacy. Languages and the Media.
Snyder, Joel. 2008. “The Visual Made Verbal”. in Díaz Cintas, Jorge (ed.) The didactics of Audiovisual Translation. Amsterdam: John Benjamins: 191-198.
Wilder, Thornton. 1998. Our Town: A Play in Three Acts. New York: Perennial.

Publicado por

  • Joel Snyder

    PT-BR: Presidente e Fundador da Audio Description Associates. Um dos primeiros áudio-descritores (c. 1981) Joel Snyder e a Audio Description Associates desenvolvem áudio-descrição para mídia, tours em museus, e artes cênicas mundo afora. Ele tem estado à frente de uma equipe que produz áudio-descrição para filmes, transmitidos nacionalmente e seriados, incluindo os programas e os DVS do “Vila Sésamo”. No cenário internacional, Snyder já ministrou as técnicas de áudio-descrição em mais de dez países. No verão do ano de 2008, apresentou trabalhos em Montpellier, França; Shangai, China; e áudio-descreveu para a União Mundial de Cegos (World Blind Union) em Genebra.Visite www.audiodescribe.com para obter mais informações e amostras de trabalhos do autor.One of the first audio describers (c. 1981), Joel Snyder and Audio Description Associates develop audio description for media, museum tours, and performing arts worldwide. He has led a staff that produces description for nationally broadcast films and network series including “Sesame Street” broadcasts and DVDs. Internationally, he has introduced description techniques in over a dozen nations; in summer 2008, he presented papers on description in Montpellier, France; Shanghai, China; and provided description for the World Blind Union in Geneva. Visit www.audiodescribe.com for more information and work samples.View all article by Joel Snyder