A portuguese audio description of Rene Magritte’s Collective Invention

Invenção coletiva (MAGRITTE, 1934)

Áudio-descrição retirada de: O surrealismo e a construção de imagens: contribuições da áudio-descrição para os alunos com deficiência visual, por Fabiana Tavares dos Santos Silva. Artigo disponível na Revista Brasileira de Tradução Visual.

Notas Proêmias
Técnica óleo sobre tela. Dimensões da obra original em centímetros: 73,5 cm x 97,5 cm. Local de exposição: Alemanha. Dimensões da imagem áudio-descrita: 12 cm x7 cm.

The collective invention, 1934 by Rene Magritte

Criatura metade peixe, metade humana deitada lateralmente no chão alaranjado. A criatura está nua, deitada do lado esquerdo, com parte posterior do corpo sendo tocada pelo mar. Tem cabeça de peixe, de cor cinza. Nas costas, na altura da cintura, mostra uma barbatana e na parte abdominal, a nadadeira peitoral toca o chão.

A partir do abdômen, a criatura tem quadris, pernas e pés humanos. A pele é clara, quadril pouco arredondado. As coxas e pernas são magras, os joelhos ossudos. Os pés são compridos e magros.

Uma sombra contorna a lateral esquerda da criatura e a silhueta da parte interna do pé direito até a genitália. Ao fundo, vê-se o céu acinzentado e o mar azul escuro. Na lateral esquerda inferior da tela, assinatura de Magritte.

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O surrealismo e a construção de imagens: contribuições da áudio-descrição para os alunos com deficiência visual

Resumo

Neste trabalho, a Arte e a Literatura são compreendidas como constitutivas de um mesmo processo formativo, a saber, a catalisação da essência humana. Apresenta-se o conceito de surrealismo, as características das obras do artista René Magritte e a influência dos movimentos vanguardistas na construção de uma arte de nacionalidade brasileira. Discute-se sobre a amplitude do vocábulo imagem. Objetiva-se contribuir com a acessibilidade de pessoas com deficiência visual ao acervo pictórico surrealista, através da oferta da áudio-descrição de treze obras magritteanas. Conclui com a defesa de que a escola ao adotar a Arte e a Literatura como fontes seguras do surgimento e manutenção de novas qualidades de percepção, precisa considerar como suporte a experiência cultural de cada sujeito e ainda, conscientemente, criar situações, metodologias e recursos de acessibilidade para que a todos sejam oportunizadas as mesmas experiências catárticas.

Palavras-chaves: Surrealismo. Imagens. Obras magritteanas. Áudio-descrição.

Abstract

This article argues that art and literature are understood as constituting a single training process, namely the catalysis of human essence. Discusses the concept of Surrealism, the characteristics of the works of René Magritte, and the influence of avant-gardes in the building of an art Brazilian nationality. Discusses the extent semantics of the word image. It aims to contribute to accessibility for people with visual impairments to surrealist pictorial collection, by offering audio description of the thirteen magritteanas works. Concludes that that school to take art and literature as reliable sources of appearance and maintenance of new qualities of perception, need to consider how to support the cultural experience of each subject and yet consciously create situations, methodologies and accessibility resources for all are the same opportunized cathartic experiences.

Keywords: Surrealism. Images. Magritteanas works. Audio description.

Considerações iniciais

Ao longo da história das Artes Plásticas e da Literatura tivemos várias correntes que ora buscavam a simetria, a objetividade, o social ora assumiam o caráter singular de insubordinação a tudo o que é previsível, palpável, tradicional e davam vazão ao inconsciente, ao lócus em que arquivamos o que na coletividade já não o é comum, aceitável, palatável.

Até chegarmos a vislumbrar a miscelânea de tendências que constituem a modernidade artístico-cultural no Brasil, o modo como os artistas brasileiros incorporaram e interpretaram as produções estrangeiras pode ser traduzido nas ações em busca de uma identidade nacional.

Nesta linha, destacamos as contribuições, influências dos movimentos de vanguarda, especificamente, do surrealismo. Um movimento que surge em Paris, na década de 20, marcado por contribuições das teorias freudiana e marxista. Os principais representantes do surrealismo são, entre outros, André Breton, mentor do movimento, Antonin Artaud, Luis Buñuel, Max Ernest, Salvador Dalí e René Magritte. Este último imprimia a suas telas a ambiguidade mapeada na natureza inconsciente do homem. No presente trabalho, dedicaremos especial atenção às obras deste artista belga.

Inconsciente é, pois, uma das palavras de ordem dos surrealistas, quando buscavam em suas obras ultrapassar a consciência cotidiana, utilizavam o viés do humor, da contra lógica e do sonho e dialogavam com algum aspecto da realidade, rejeitando a razão e os valores da burguesia. As obras são sempre um convite a faces profundas da essência humana.

Quando essa arte é trabalhada na escola, muitas vezes, o conteúdo, a significação e a catarse são minorados, seja pelo modo como as telas são reproduzidas nos livros didáticos, seja pelo uso que o mediador faz deste suporte na sala de aula ou ainda pela falta de acessibilidade, neste caso para alunos com deficiência visual (baixa visão, daltonismo, cegueira etc) a representação dessas obras.

tais situações prejudica-se o objetivo do surrealismo de provocar a construção e evocação de imagens que sendo absurdas representam a essência humana; o objetivo do ensino de Artes e Literatura, qual seja, o de auxiliar a formar o sujeito interpretante, crítico, criativo, usuário de múltiplas linguagens. E ainda, os objetivos da escola: favorecer aprendizagens e o acesso aos bens culturais, formar o cidadão atuante.

1. Os movimentos de vanguarda

No início do século XX, no Brasil delineava-se arte e literatura com novas dimensões estéticas que objetivavam romper a arte acadêmica, o parnasianismo e o simbolismo, ao passo em que buscava firmar uma identidade nacional por meio de tais expressões artísticas. O modernismo encontrou nas artes plásticas as bases para esta revolução e inicia-se tomando como primeiro fôlego a pintura.

Os ismos: o Futurismo (1909), o Expressionismo (1910), o Cubismo (1913), Dadaísmo (1916) e o Surrealismo (1924) foram os principais resultados de atitudes artísticas e culturais de contestação de um mundo em crise (HELENA, 1996), os quais constituíram o conjunto de tendências que estavam à frente de movimentos artísticos vinculados a questões sociais, marcados por manifestos, militância, denúncia e livre expressão.

Os movimentos de vanguarda podem, então, ser compreendidos como qualquer movimento cuja meta estivesse situada no ideário de uma nova visão da arte. No período do entre guerras mundiais (1914-1918; 1939-1945) eles surgiram, se intensificaram, em alguns momentos estiveram em dinâmicas polares cujo eixo de convergência residia apenas na ideia de uma arte envolta a questões políticas e que estava, literalmente, à frente dos padrões artísticos da época.

Neste trabalho, focalizaremos nossa atenção no surrealismo e nas propostas interpretativas que os pincéis de Magritte nos trouxeram, influenciando a arte e a literatura brasileira.

1.1 – O surrealismo e as obras de René Magritte

O surrealismo cronologicamente foi o último movimento de vanguarda européia, marcado pela ideia de que “as palavras, as imagens, apresentam-se apenas como trampolim para o espírito daquele que ouve” (SENA, 1969, p. 57). O movimento tem sua criação oficial no ano de 1924, embora a data do primeiro manifesto que o constitui surgira entre 1922-23, em torno da revista Littérature.

Os surrealistas pretendiam ser, mais do que uma escola, um meio de conhecimento e estudo aprofundado de conteúdos ainda não explorados pelos que os antecederam: o inconsciente, o maravilhoso, o sonho, a loucura, os estados alucinatórios, enfim, tudo o que é inverso à tradição da lógica e da racionalidade (HELENA, 1996).                                                                                         O surrealismo foi definido no manifesto pelos já mencionado grupo de artista: André Breton, Philippe Soupault, Francis Picabia, Louis Aragon, Paul Éluard, Marx Ernst, Benjamin Péret, Robert Desnos, Jacques Baron, Antonin Antaud, em 1924.

[…] Automatismo psíquico puro pelo qual se pretende exprimir, verbalmente ou por escrito, ou de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento. Ditado pelo pensamento, na ausência de qualquer vigilância exercida pela razão, para além de qualquer preocupação estética ou moral (SENA, 1969, p. 47).

No surrealismo ocupam posição de destaque:

1) a crítica ao positivismo e ao racionalismo; 2) o elogio à imprescindível colaboração de Freud; 3) o elogio do sonho, do maravilhoso, da liberdade e da imagem surrealista (vista como imagem do ópio, que se oferecem espontânea e despoticamente) (HELENA, 1996, p. 36).

O surrealismo, dentre os movimentos vanguardistas, é o que mais rigorosamente sondou a sub e super-realidade da alma humana, objetivando a partir da ambiguidade e do devaneio, desvelar o enigmático, emancipar o homem, deixá-lo livre de suas relações psicológicas e culturais. “Daí a recorrência à magia, ao ocultismo, à alquimia medieval na tentativa de descobrir o homem primitivo, ainda não maculado pela sociedade”. (TELES,1999, p. 170).

Sob os trilhos surrealistas, na década de 30, Salvador Dalí e René Magritte já expunham conteúdos psicológicos a partir de uma linha freudiana de mergulho no inconsciente, ao desnudar objetos comuns, paisagens e pessoas de sua situação e significância normal. Fortemente influenciados pela teoria psicanalítica acreditavam no inconsciente, que nas palavras de Freud e seus seguidores seria uma parte da mente que

[…] contém algumas memórias, impulsos e desejos que não são acessíveis à consciência. Freud acreditava que algumas memórias e desejos emocionalmente dolorosos são reprimidos – ou seja, desviados para o inconsciente, onde eles podem continuar a influenciar nossas ações mesmo que não estejamos conscientes deles. Pensamentos e impulsos reprimidos não podem chegar à consciência, mas podem nos afetar de maneira indireta e disfarçada – através de sonhos, comportamentos irracionais, peculiaridades e deslizes de linguagem. (ATKINSON, 2002, p. 217).

Dalí e Magritte criaram as obras pictóricas mais marcantes do movimento surrealista e, assim como eles, os literatos utilizavam o fluxo da consciência, o acaso como força motriz, impulsiva ao ato criador que poderia ser coletivo, embora objetivado sem uma lógica consciente, mas que de todo modo era comunicante com focos de leitura do real.

René François Ghislain Magritte é, dentre todos os surrealistas, o que mais aprofundou o problema da ambiguidade alógica da imagem, e também em relação à palavra; “ele cria a anti-história, desvenda o absurdo do banal, representa com meticuloso detalhismo, imagens de significado ambíguo, que facilmente decaem no duplo sentido, no jogo de palavras figurado” (ARGAN, 1993, p.364). As obras de Magritte são, em essência, a materialização do modo singular do artista catalisar a sua própria existência e a percepção da dinâmica social:

Detesto meu passado, assim como o de qualquer pessoa. Detesto a resignação, a paciência, o heroísmo profissional e os belos sentimentos obrigatórios. Também detesto as artes decorativas, o folclore, a publicidade, vozes anunciando algo, a aerodinâmica, os escoteiros, o cheiro de naftalina, fatos do dia, e gente bêbada (MAGRITTE apud ARGAN, 1992, p.672)

Muitas das telas do artista belga são marcadas pelo uso de inusitados recursos, combinações, esferas bipartidas, papéis cortados, frases e cortinas que revelam na tela um espaço teatral.

René Magritte (Lessines, Bélgica, 1898 – Bruxelas, 1967), indubitavelmente, é um expoente da arte surrealista, em seu trabalho dedica-se não tanto a aprofundar os temas propostos por Breton (automatismo psíquico, escrita automática, que na pintura se traduzem em gestualidade casual e, finalmente, em ‘abstração’), nem a voltar sua atenção para o próprio subconsciente, mas a concentrar-se no subconsciente transmitido pelo homem aos objetos comuns, dos quais pretende desvelar os mistérios latentes que os ligam, mesmo com uma vida autônoma, ao homem, num intercâmbio ambíguo e simbólico, numa série de analogias mentais e invocações.

O artista chega a recriar um novo tipo de lógica: a do absurdo, capaz de gerar situações impossíveis e, no entanto, reais e tangíveis, bizarras e familiares. É também nessa ótica que se devem ler os títulos de suas obras, deliberadamente ‘literários’, sem relação com o conteúdo. Trompe-l’oeil, ocultamento, desambientamento, lógica do absurdo são os caminhos por onde corre seu realismo de abstração, inquietante e irônico (ARGAN, 1992).

Outra marca da singularidade das obras magritteanas é a reutilização de títulos para nomear obras diferentes. Chapéus, pedras, cachimbos, o mar, o homem, a mulher são alguns dos elementos que compõe o “elenco” de uma arte que através de palavras e frases atribuía um novo nome e significado a imagem, por exemplo, legendando a representação de um relógio como “o vento”, um cavalo como “a porta”. Ou ainda negavam até o que era mostrado, por exemplo, a frase: “Isto não é um cachimbo” (“Ceci n’est pas une pipe”), escrita abaixo da imagem de um cachimbo.

Magritte não se subordinava nem as convenções da linguagem, por acreditar que um objeto não está entranhado em seu nome de forma que não possamos encontrar um nome melhor para ele. (ARGAN, 1992).

A partir do convencional, do aparentemente real, o artista transgredia, transpassava os muros do superego e convidava o leitor atento a burlar as convenções, a consciência e a razão para construir per si uma lógica libertária, desautomatizante, criativa, crítica, zombeteira, provocadora do sorrir, do pensar e recriar novas imagens mentais a partir do traço do pincel que lhe era ofertado na tela.

Quando, no estudo desse movimento de vanguarda, os alunos não são estimulados a emaranharem-se entre a tela, as letras e a história, o ensino de Artes e Literatura não atinge o objetivo de possibilitar o conhecimento e compreensão de um período em que a riqueza e a fragilidade das combinações, a instabilidade dos gostos nos extremos e a desaparição do durável são elementos basilares que ecoam no armazém de imagens e palavras do acervo brasileiro moderno. E, ainda, quando os alunos têm deficiência visual e lhes é negado os recursos de acessibilidade, pratica-se, além da pseudo-inclusão, a barreira atitudinal da descrença na habilidade desses sujeitos em se projetar da tela áudio-descrita para o inconsciente e redescobrir os sentidos da dinâmica social e suas arbitrariedades.

2. A construção de imagens: contribuições da áudio-descrição

Todas as modalidades sensoriais podem ser acionadas e fornecer informações perceptivas ao nosso cérebro estimulando a construção de imagens. Quando um dos sentidos está ausente, a visão, por exemplo, para que o sujeito produza tais imagens, por vezes, alguns recursos de acessibilidade tornam-se imprescindíveis. Um destes recursos é a áudio-descrição:

[…] Serviço de apoio a comunicação que consiste no conjunto de técnicas e habilidades aplicadas, com objetivo de compensar a carência da capitação da parte visual contida em qualquer tipo de mensagem, fornecendo uma informação sonora adequada que a traduza ou explique, de maneira que o possível receptor com capacidade visual diminuída perceba tal mensagem como um todo harmônico e da forma mais parecida o possível de como seria para uma pessoa que enxerga (AENOR, 2005).

Sob o lastro dessas reflexões, surgem questões substantivas: Da tela a imagem mental, quais serão os percursos que o nosso cérebro realiza na busca e construção de sentidos? Como os signos linguísticos são acionados durante a interpretação de uma imagem? Como as pessoas cegas a partir do uso da tecnologia assistiva da áudio-descrição podem ser beneficiadas e atribuir significados a obras surrealistas?

Certamente, não temos respostas trilhos para tais questões, mas compartilhamos com o leitor atento a certeza do quanto a busca por respondê-las pode trazer ao professor, na dinâmica educacional includente, a percepção de lacunas no processo de ensino-aprendizagem, nas estratégias didáticas, nos recursos oferecidos pelos livros didáticos, na formação continuada dos profissionais da educação e ainda no cabedal teórico acerca do uso da áudio-descrição como recurso relevante na educação para todos.

Como primeiro passo neste debate, pensemos na conceituação ampla da palavra imagem:

a) Quanto à percepção do leitor:

Imago (latim) = referente a toda e qualquer visualização gerada pelo ser humano, seja na forma de objeto, de obra de arte, de registro foto-mecânico, pintura, desenho, gravura ou imagens mentais” (COUTINHO, s/d). No homem, a imagem é a principal (além de ser a primeira) forma de ver e expressar o mundo, seja este o universo endógeno de cada ser humano ou o mundo exterior dos objetos que nos aparecem oticamente desde que nascemos (NOVA, 1989).

b) Quanto à arquitetura da imagem:

“Imagens são signos polissêmicos que possibilitam diferentes leituras, de acordo com o repertório simbólico de quem as interpreta e das relações estabelecidas entre os diferentes elementos que as compõem”. (SANTOS, 2006, p. 3).

c) Quanto à estrutura psicológica do leitor

No ser humano, de acordo com a neurociência, os primeiros conteúdos mentais são representações e cargas presentes no inconsciente, cujo caráter é plástico, imagético. Assim, os objetos do “eu” no período fetal estão situados no Id enquanto imagens que são percebidas bidimensionalmente, na vivência de um fenômeno ótico endopsíquico.

Depreende-se, a partir da observação desta etapa da vida humana, que todos constroem imagens internas independentemente da percepção visual ótica, em termos físicos e químicos. Ou seja, ao longo de nossa vida, as imagens mentais são construídas ao conjugarmos uma série de mecanismos mentais como associações, por exemplo (RASCOVSKY 1986 apud NOVA, 1996).

Esta é a razão das imagens mentais ocorrerem em todas as modalidades de nossos sentidos, de modo que a partir de um estímulo, acionamos perceptores e elaboramos imagens olfativas, auditivas e assim por diante. É um processo vivenciado com muita frequência ao termos contato com um texto, esteja este na modalidade oral ou escrita da língua. As palavras evocam as imagens, do mesmo modo como vygostkianamente, afirma-se que pensamento é linguagem.

As imagens mentais e as imagens singulares dos nossos sonhos, que aparentemente não têm sentido quando racionalizadas, constituem a base da teoria freudiana sobre o comportamento humano. Discutir o que é, como se constitui, percebe-se e interpreta-se uma imagem é ação valorosa ao tratarmos do tema surrealismo, tão fortemente influenciado pela psicanálise.

Como vemos, refletir sobre a leitura de uma imagem é um caminho que deságua em vários percursos. E após este passeio multissemântico, voltemos a nos situar na premissa de que, comumente, a percepção da imagem está relacionada ao sentido da visão.

Quando o significado de “imagem” está ancorado no sentido mais estrito do verbo ver, pode servir como input para relembrarmos que desde a discussão filosófica de que o que o homem vê é produto de sua experiência existencial, é representação, até a descoberta dos neurônios visuais, o debate em torno “DO QUE É VER” tem sido acirrado.

Neste sentido, o conhecimento físico-químico do cérebro (objeto de estudo da psicologia) tem trazido contribuições relevantes. E a Biologia, por seu turno, revela que o cérebro humano é tão complexo e de organização variável que explicar com exatidão seu funcionamento ou se há um conhecimento EXATO do “real” parece ser quase impraticável.

Um exemplo, deste processo, é o modo como somos expostos as cores e como as internalizamos em categorias, distinguindo-as e ao mesmo tempo construindo variações porque a leitura da cor vai depender da percepção de cada um.

A percepção visual é, pois, a capacidade física/cerebral que temos de perceber o mundo através de fontes adequadas de luz. A luz, ao agir sobre a retina ocular, aciona a construção de imagens mentais. E este é exatamente o início do processo de VER. Contudo, a forma como vemos/lemos/percebemos as coisas vai além do uso dos órgãos da visão (LIMA, TAVARES, AMORIM, 2010).

O código visual, assim como a linguagem verbal, possui formas próprias de representação, constroem relações interacionais e constituem relações de significado particulares e/ou historicizantes, a partir de sua composição, de sua arquitetura, e perspectiva que a encapsula.

No caso de textos icônicos como os magritteanos, por exemplo, a interação é marcada por um convite provocativo à percepção e reflexão, o significado atribuído pelo artista a objetos, situações comuns sendo particular também o é histórico, pois situa o leitor em seu próprio eu e na perspectiva contextual em que as obras foram produzidas.

A percepção, por seu turno, refere-se ao modo como integramos informações sensoriais para perceber objetos, ambientes e situações que estão em nosso entorno. Os perceptos são utilizados para nos guiarmos no mundo. No caso das pessoas cegas, ao terem acesso a áudio-descrição de objetos, ambientes, pessoas e eventos o sistema perceptivo torna-se mais hábil ao reconhecimento de objetos e suas respectivas funções ou até perigo.

Quando sistematizamos possibilidades de interpretação de uma imagem, estimulamos, portanto, o nosso aluno a utilizar o sistema perceptivo e compreender o significado global de uma obra.

No caso de uma sala inclusiva, a áudio-descrição, como recurso educacional e assistivo, beneficiará a todos, pois a leitura é algo que se aprimora e a técnica de áudio-descrever pode ser praticada por professores e colegas como exercício de percepção, construção, interpretação e socialização de entendimentos sobre as similitudes e distanciamentos das obras de um mesmo artista, de artistas que se situam num mesmo movimento estético ou de tendências que se polarizam fortemente.

O exercício de compartilhar leituras pode beneficiar o trabalho com textos literários, pois esses também são marcados por outras áreas que se relacionam no momento da constituição da literatura (MARTINS, 2006). Como manifestação artística materializada na articulação entre motivações ideológicas, sócio-culturais e econômicas, enfim, motivações diversas que repercutem no fazer estético, a literatura

[…] não pode ser compreendida como objeto isolado, sem as interferências do leitor, sem o conhecimento das condições de produção/recepção em que o texto foi produzido, sem as contribuições das diversas disciplinas que perpassam o ato de leitura literária, inter/multi/transdisciplinar pela própria natureza plural do texto literário (BUNZEN; MENDONÇA, 2006, p. 86).

Assim, ao observar o percurso sócioideológico dos artistas plásticos da época também entender-se-ia a rejeição que os escritores surrealistas demonstravam acerca do estilo tradicional de romances e poesias, utilizando como técnica escritora o fluxo da consciência, muitas imagens e ideias do inconsciente, a livre associação, frases montadas com palavras recortadas de revistas e jornais, a co-autoria aleatória. O poeta Paul Éluard, autor de Capital da Dor e André Breton, autor de O Amor Louco, Nadja e Os Vasos Comunicantes, são representantes da literatura surrealista.

Na literatura brasileira, merece destaque, sob a ótica surrealista, o livro Macunaíma, escrito por Mário de Andrade. Nesta obra, a magia, a mitologia indígena e as culturas folclóricas estão em consonância com a essência da literatura de vanguarda.

Quanto mais o aluno tiver condições de estabelecer conexões entre a história, a arte e a literatura mais eficaz será a familiarização com o acervo cultural contemplado no currículo escolar.

3. Por uma pedagogia da familiarização cultural: a áudio-descrição de obras surrealistas magritteanas

Ao trabalhar com a Arte e a Literatura na sala de aula o professor precisa possibilitar a todos os alunos o uso do maior contingente de perceptores possíveis. A fim de que a aprendizagem seja significativa, essas expressões podem ser vivificadas pela interpretação dos alunos e a relação texto-vida-texto.

A metodologia de análise é de escolha do professor, o importante é que “as obras de arte sejam analisadas para que se aprenda a ler a imagem e avaliá-la; esta leitura é enriquecida pela informação histórica e ambas partem ou desembocam no fazer artístico” (BARBOSA, 2001, p. 37).

Neste texto, objetivamos contribuir com o processo de acessibilidade das pessoas com deficiência visual às obras de Arte que tanto influenciaram a formação ideológica e literária de caráter nacional brasileiro. Para atingir esta meta registramos a áudio-descrição de treze obras magritteanas, produzidas a partir da técnica óleo sobre tela. São elas: “Duplo segredo” (1928); “Os amantes” (1928); “O falso espelho” (1928); “Invenção coletiva” (1934); “O modelo vermelho” (1934); “O retrato” (1935); “A meditação” (1936); “O princípio do prazer – retrato de Edward James” (1937); “Para não ser reproduzido” (1937); “A memória” (1948); “O sedutor”(1956); “Feriado de Hagel” (1958); “O filho do homem” (1964). Todas as imagens áudio-descritas estão disponíveis na galeria virtual: http://www. passeiweb. com/ saibamais /arte _cultura/galeria/rene_magritte/3.

Na áudio-descrição destas obras, efetivamos quatro diretrizes tradutórias comumente utilizadas na áudio-descrição de imagens estáticas:

a) Na áudio-descrição, o tradutor deve partir do plano global para o específico;
b) A áudio-descrição deve ser construída no sentido da esquerda para a direita;
c) A tradução visual deve ser top down;
d) Ao áudio-descrever, o tradutor deve considerar o plano de perspectiva, ou seja, partir do mais próximo para a imagem em segundo plano.

3.1. Áudio-descrição das obras magritteanas

Duplo segredo (MAGRITTE, 1928)

Notas proêmias

Pintura a óleo, produzida em 1926. A imagem áudio-descrita tem dimensões: 13 cm X 9 cm.

Reprodução da tela

Áudio-descrição da obra “Duplo segredo” (MAGRITTE, 1928)

Dois bustos humanos, brancos, nus e de costas para o mar. O busto da esquerda está parcialmente à frente do busto da direita, na altura do ombro direito deste.

O busto esquerdo tem contorno irregular o qual deixa a mostra parte da testa e da sobrancelha e olho direito. Apresenta parcialmente a orelha esquerda. Mostra a sobrancelha esquerda preta, espessa e arredondada. O olho é grande e verde e o nariz, avantajado. Os lábios são grossos, vermelhos escuros e o queixo trapézio. Vê-se parcialmente o pescoço comprido e o ombro esquerdo.

O busto da direita está levemente inclinado em direção ao mar. Este busto tem cabelos lisos, pretos, curtos, penteados para trás. O busto está coberto, parcialmente, por uma mancha que tem a forma irregular do busto da esquerda. Ela possui tons amarelo escuro, preto e marrom, com lóbulos amarelos divididos por pequenas linhas pretas e grossas. Neste busto, do lado esquerdo vê-se parte da orelha, do pescoço e do ombro encostado numa tábua estreita, marrom clara. Aparece o lado direito do rosto, e parcialmente, a sobrancelha, o olho direito e o canto da boca, parte do queixo, pescoço e ombro direito. Ao fundo, céu azul e mar esverdeados. Na lateral superior esquerda, a assinatura de Magritte.

Os amantes (MAGRITTE, 1928)

Notas proêmias

Pintura a óleo, produzida em 1928. A imagem áudio-descrita tem dimensões: 12 cm X 9 cm.

Reprodução da tela

Áudio-descrição da obra “Os amantes” (MAGRITTE, 1928)

Na penumbra, homem e mulher, com as cabeças encapuzadas com tecido marrom, beijam-se. A mulher é branca. Veste blusa vermelha e sem mangas, deixando à mostra o ombro direito. O homem usa camisa branca, gravata e paletó pretos. Na parte superior da tela, da extremidade esquerda até o lado direito, vê-se uma parte do teto amarelo escuro e, do lado direito, o roda teto marrom claro. À direita, parede vermelha e ao fundo, parede azul escura. Na lateral direita inferior da tela está a assinatura de Magritte.

O falso espelho (MAGRITTE, 1928)

Notas proêmias

Pintura a óleo, produzida em 1926. A imagem áudio-descrita tem dimensões: 12 cm X 9 cm.

Reprodução da tela

Áudio-descrição da obra “O falso espelho” (MAGRITTE, 1928)

Olho aberto. As pálpebras e a pele que circunda o olho são marrom clara. A esclera é branca. A íris, de cor azul clara, está levemente iluminada e com nuvens brancas. Ao centro do olho está a pupila, uma circunferência com preenchimento preto.

Invenção coletiva (MAGRITTE, 1934)

Notas Proêmias

Técnica óleo sobre tela. Dimensões da obra original em centímetros: 73,5 cm X 97,5 cm. Local de exposição: Alemanha. Dimensões da imagem áudio-descrita:12 cm X 7 cm.

Reprodução da tela

Áudio-descrição da obra “Invenção coletiva” (MAGRITTE, 1934)

Criatura metade peixe, metade humana deitada lateralmente no chão alaranjado. A criatura está nua, deitada do lado esquerdo, com parte posterior do corpo sendo tocada pelo mar. Tem cabeça de peixe, de cor cinza. Nas costas, na altura da cintura, mostra uma barbatana e na parte abdominal, a nadadeira peitoral toca o chão.

A partir do abdômen, a criatura tem quadris, pernas e pés humanos. A pele é clara, quadril pouco arredondado. As coxas e pernas são magras, os joelhos ossudos. Os pés são compridos e magros.

Uma sombra contorna a lateral esquerda da criatura e a silhueta da parte interna do pé direito até a genitália.

Ao fundo, vê-se o céu acinzentado e o mar azul escuro. Na lateral esquerda inferior da tela, assinatura de Magritte.

O modelo vermelho (MAGRITTE, 1934)

Notas Proêmias

Pintura a óleo, produzida em 1934. A imagem áudio-descrita tem dimensões: 17 cm X 12 cm.

Reprodução da tela

Áudio-descrição da obra “O modelo vermelho” (MAGRITTE, 1934)

Par de botas. Sobre a areia e pequenas pedras em tom vermelho escuro, veem-se duas botas roxas. Elas estão levemente viradas para a direita, afastadas na parte frontal e com calcanhares juntos. A parte frontal até a curva das botas é formada por pés humanos largos, achatados e brancos, com dedos compridos e unhas longas, arroxeadas. No cano curto das botas, as extremidades são unidas por um fino cadarço entrelaçado. Uma sombra cobre canos e calcanhares das botas e projeta-se até o chão. Do lado direito da bota esquerda, um pequeno pedaço de material roxo. Ao fundo da imagem há uma parede de tábuas largas e amarelas.

O retrato (MAGRITTE, 1935)

Notas proêmias

Pintura a óleo, produzida em 1935. A imagem áudio-descrita tem dimensões: 11 cm X 8 cm.

Reprodução da tela

Áudio-descrição da obra “O retrato” (MAGRITTE, 1935)

Sobre uma superfície plana de tom amarelo pastel estão um prato branco com ovo estrelado, talheres, copo e garrafa de vidro. No centro do prato, o ovo estrelado marrom claro, com extremidades brancas, tem no meio um olho com esclera branca, córnea e íris marrom escura. Ao lado direito do prato, um garfo de metal, emborcado e uma faca com cabo de madeira. À frente, um copo médio, estreito e transparente. Mais à frente, ao lado direito, uma garrafa de vidro verde escuro, aberta, contendo líquido escuro. Ao fundo, parede cinza escuro.

A meditação (MAGRITTE, 1936)

Notas proêmias

Pintura a óleo, produzida em 1936, cujo tamanho original é de 50 cm X 65 cm. A imagem áudio-descrita tem dimensões: 10 cm X 13 cm.

Reprodução da tela

 Áudio-descrição da obra “A meditação” (MAGRITTE, 1936)

Três velas acesas no chão marrom, frente ao mar. Elas são brancas e finas, compridas, uma extremidade está em pé, com chamas amarelas, e resto na forma sinuosa prolonga-se pelo chão. Ao fundo está o céu azul turquesa e o mar azul escuro. Na lateral esquerda inferior, a assinatura de Magritte.

O princípio do prazer – retrato de Edward James (MAGRITTE, 1937

Notas proêmias

Pintura a óleo, produzida em 1937. A imagem áudio-descrita tem dimensões: 13 cm X 10 cm.

Reprodução da tela

Áudio-descrição da obra “O princípio do prazer – retrato de Edward James” (MAGRITTE, 1937)

Homem branco sentado à mesa. Tem em lugar da cabeça uma circunferência luminosa, branca, cujo entorno é amarelado e apresenta camadas de luz subsequentes menos intensas. Elas iluminam o ambiente e o corpo do homem.

Ele veste camisa branca de mangas compridas, paletó e gravata marrom escuro.

A mão direita do homem está levemente flexionada, apoiando as pontas dos dedos na mesa de madeira. O braço esquerdo está levemente recuado para trás do corpo, com as costas da mão esquerda tocando a lateral da mesa; sobre a qual, à direita, vê-se uma pedra bege, pequena, de superfície áspera. Ao fundo está uma parede marrom.

Para não ser reproduzido (MAGRITTE, 1937)

Notas proêmias

Pintura a óleo, produzida em 1937. A imagem áudio-descrita tem dimensões: 16 cm X 12 cm.

Reprodução da tela

Áudio-descrição da obra “Para não ser reproduzido” (MAGRITTE, 1937)

Homem branco, de costas, em pé diante de um espelho. O homem tem cabeça pequena, cabelos pretos, ondulados na nuca, curtos, penteados para trás. Vê-se a orelha esquerda, o pescoço e o colarinho branco de camisa. Ele usa paletó marrom escuro.

À frente do homem, repousa um espelho sobre um batente de mármore, e à direita, sobre este mesmo batente há um livro verde, espesso e pequeno.

O espelho tem campo marrom, moldura larga, ondulada e alaranjada. Refletido no espelho, vê-se um homem de costas. Ele tem cabeça pequena, cabelos pretos, ondulados na nuca, curtos, penteados para trás. Vêm-se a orelha esquerda, o pescoço, o colarinho branco de camisa e o ombro direito. O homem no espelho, usa paletó marrom escuro. Ainda no espelho, estão refletidos o batente de mármore e, à direita, o livro verde, espesso e pequeno. Ao fundo vê-se parte de uma parede de mármore.

A memória (MAGRITTE, 1948)

Notas proêmias

Pintura a óleo, produzida em 1948. A imagem áudio-descrita tem dimensões: 10 cm X 8 cm.

Reprodução da tela

Áudio-descrição da obra “A memória” (MAGRITTE, 1948)

Estátua em estilo grego, branca, da cabeça de uma mulher sobre beiral marrom de uma janela. A cabeça, esculpida em pedra, está levemente inclinada para a esquerda. Tem cabelos divididos ao meio, com duas tranças grossas que cobrem as orelhas e estão presas nas laterais da cabeça. Ela tem rosto oval, olhos fechados, nariz afilado, lábios finos.

Do lado esquerdo da face, há uma mancha vermelho-sangue que vem mais intensamente da fronte, alcança o canto do olho, desce mais rarefeita pela bochecha e chega em um filete ao maxilar.

À frente da estátua, uma pequena folha verde pende do beiral. Ao lado esquerdo, uma pequena bola de pedra branca, em cujo centro há uma fenda horizontal.

Ao fundo, há uma cortina vermelha entreaberta, sobre a qual incide uma faixa de sombra do lado direito. Pela cortina, vê-se, o céu em tom azul turquesa; a lua em quarto minguante; uma montanha e o mar. Na lateral esquerda da tela, lê-se, em branco, a assinatura de Magritte.

O Sedutor (MAGRITTE, 1956)

Notas proêmias

Pintura a óleo, produzida em 1956. A imagem áudio-descrita tem dimensões: 9 cm X 11 cm.

Reprodução da tela

Áudio-descrição da obra “O Sedutor” (MAGRITTE, 1956)

Navio em alto mar. No oceano azul escuro, com ondas baixas, distingue-se, envolto em espumas brancas da água, o que parece um navio, na mesma cor da água do mar, com quatro velas abertas. Ao fundo, vê-se o céu em tom azul claro, com muitas nuvens brancas e iluminadas por uma suave luz amarela.

Feriado de Hagel (MAGRITTE, 1958)

Notas proêmias

Pintura a óleo, produzida em 1958. A imagem áudio-descrita tem dimensões: 10 cm X 13 cm.

Reprodução da tela

Áudio-descrição da obra “Feriado de Hagel” (MAGRITTE, 1958)

Guarda-chuva aberto, em cujo centro, sobre o dossel marrom, há um copo transparente. O guarda-chuva tem cabo de madeira e envergadura para a direita, com seis anéis. O fundo da tela é laranja intenso. Na lateral esquerda da tela, lê-se a assinatura de Magrite.

O filho do homem (MAGRITTE, 1964)

Notas proêmias

Pintura a óleo, produzida em 1964. A imagem áudio-descrita tem dimensões: 10 cm X 8 cm.

Reprodução da tela

Áudio-descrição da obra “O filho do homem” (MAGRITTE, 1964)

Homem branco em pé frente a um muro de mármore. O homem tem o rosto arredondado e coberto por um fruto redondo e verde limão, com quatro folhas verdes.

usa chapéu preto, de aba curta. Veste camisa branca, gravata vermelha e sobretudo azul escuro.

Os braços e as mãos do homem estão rentes ao corpo, sendo que a mão esquerda está levemente recuada para trás.

Ao fundo, vê-se céu em tom azul claro, com nuvens levemente acinzentadas e o mar de águas tranquilas, também em azul claro.

Palavras finais

Reveladoras de uma época, as vanguardas têm hoje um significado histórico. São o sintoma de um mundo em crise, tematizado nas obras produzidas e sintetizado em manifestos que ajudaram a constituir uma fase que firma novos ideais e ideologias mais libertárias, através da arte (HELENA, 1996).

No período vanguardista, assim como hoje, a fantasia, a sensibilidade, a criatividade e a criticidade são alguns dos elementos nutridos pela Arte na tinta ou no pontilhado da letra, na ponta do pincel ou na harmonia da voz de alguém. Falar tão intimamente ao homem tem sido o caminho escolhido por muitos que foram incompreendidos, perseguidos, admirados, copiados, como Magritte.

Refletir, pois, sobre o movimento surrealista e as cores, objetos, pessoas, frutas e palavras que tomaram forma a partir do sopro magritteano é reconhecer que “nenhuma forma de arte existe no vácuo: parte do significado de qualquer obra depende do entendimento de seu contexto” (BARBOSA, 2001, p. 37).

A escola, ao adotar a Arte e a Literatura como fontes seguras de aprimoramento de habilidades e competências leitoras, precisa considerar os saberes de cada um de seus membros; planejar/efetivar percursos formativos acessíveis a todos, a fim de que sejam oportunizadas as mesmas experiências catárticas.

Ao contrário do que pensam alguns, o surrealismo insurge em muitos momentos da contemporaneidade, não é raro perceber-se, pois, em folhetos de cordéis, em crônicas, filmes e na música brasileira a recusa ao pré-estabelecido, às normas impostas, à padronização. Um bom exemplo é a letra da música Senhas, de Adriana Calcanhoto, nela também podemos encontrar um fio da ideologia que circunda as obras de Magritte:

“Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto […]”. (CALCANHOTO, Adriana. Senhas)

 Nesta letra, o “Eu não gosto do bom gosto”, tão intenso e vivificado no surrealismo, é a expressão da recusa aos padrões. Para perceber este processo, os alunos precisam conhecer a história das artes, ter oportunidade de buscar os multissentidos da literatura e ter acesso à obras de artistas que influenciaram o seu tempo e o tempo do agora. Muitas vezes, os alunos com deficiência visual são alijados deste processo de formação educacional e cultural, a áudio-descrição, utilizada como recurso pedagógico, é um caminho possibilitador da transformação deste quadro excludente.

É sob esta percepção que convidamos todos a conhecer e, quiçá, áudio-descrever e/ou ler/avaliar e até reconstruir áudio-descrições destas e de outras obras magritteanas. Se cada um se responsabilizar por um filete deste processo certamente teremos, em breve, acervos acessíveis e o fortalecimento do letramento artístico.

Referências

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna – do Iluminismo aos movimentos contemporâneos. Trad. BOTTMANN, Denise; CAROTTI, Federico. 7ª reimp. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
AENOR- Asociación Española de Normalización y Certificación. UNE – Norma Espanõla. Audescripción para personas com discapacidad visual – requisitos para La audiodescripción y elaboración de audioguías. Madrid-Espãna, AENOR, 2005 (Comité Técnico AEN/CTN 153, Ayudas Técnicas para Personas com Discapacidad cuya Secretaría desempeña FENIN).
ATKINSON, Rita L; ATKINSON Richard C.; SMITH, Edward; BEM, Dary J.; NOLEN-HOEKSEMA, Susan. Introdução à Psicologia de Hilgard. 13ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2002.
BARBOSA, Ana Mae. A imagem no ensino da Arte. 4ªed. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001.
BUNZEN, Clecio; MENDONÇA, Márcia (orgs). Português no Ensino Médio e Formação do Professor. São Paulo: Parábola Editorial, 2006.
FROST, Robert. The road not taken. 1916.
HELENA, Lucia. Modernismo Brasileiro e Vanguarda. 3ª Ed. São Paulo: Ática, 1996.
SANTOS, Marinês Ribeiro dos. O Diálogo entre Texto e Imagem no Anúncio Publicitário: uma leitura sobre a representação do feminino em uma propaganda da Volkswagen nos anos 1960. Anais do VII Seminário Fazendo Gênero. CASA & JARDIM. São Paulo: Editora Movimento, n. 118. Novembro de 1964.
SENA, Jorge de. Manifestos do Surrealismo. Lisboa: Moraes, 1969.
TAVARES, Fabiana S. S.; LIMA, Francisco José de; AMORIM, Maria do Rosário de Fátima Brandão de. Inclusão educacional da pessoa com deficiência sensorial. Recife: UFRPE, 2010.
TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro – apresentação e crítica dos principais poemas, manifestos, prefácios e conferências vanguardistas, de 1857 a 1972. 15ªed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
Obras de René Magritte. Disponível em <http://www. Passeiweb. com/ saiba _mais/arte_cultura/galeria/rene_magritte/3>. Acesso em 22 de agosto de 2010.

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  • Fabiana Tavares dos Santos Silva

    Mestranda em Educação Inclusiva (UFPE). Aluna do III Curso de Tradução Visual com ênfase em Áudio-descrição “Imagens que Falam” (CEI/UFPE). Especialista em Literatura Infanto-Juvenil (FAFIRE). Graduada em Letras (FAINTVISA). Professora dos cursos de licenciatura em Pedagogia e Letras (Faculdades Integradas da Vitória de Santo Antão). Professora conteudista e executora do curso de licenciatura em Pedagogia (UFRPE- EaD). Professora da rede pública estadual de Pernambuco.View all article by Fabiana Tavares dos Santos Silva