Pequenas Histórias do Misterioso Senhor L

Francisco José de Lima

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Apresentação

Senhor L, também conhecido por Mister H por seus amigos de língua inglesa não é um super-herói no estilo clássico, mas nem por isso deixa de ser um herói charmoso e com identidade oculta.

Suas altas habilidades com as lutas marciais, sua memória fotográfica e grande destreza com o revólver não vão deixá-lo ficar longe das aventuras mais perigosas e empolgantes.

Ele vai lutar contra todos os tipos de bandidos, políticos e policiais corruptos. E ele vai se deparar com aventuras nas ruas, nos ônibus e até em hospitais, escolas e parques de diversão.

Suas aventuras vão ficar ainda mais interessantes e divertidas depois que ele compra um cão especial de nome Greg. E não vão parar quando ele se apaixona por uma bela moça que o salva da morte, durante uma perseguição a um assassino que foge de moto, fazendo as maiores loucuras pelas ruas.

Com histórias curtas e de fácil entendimento, as “Pequenas Histórias do Misterioso Senhor L” é leitura recomendada para aquele tempinho que você tem para ler em seu smartphone, Tablet, iPad ou iPhone, seu iReader ou em seu computador.

Senhor L e os Ladrões do Bulevar San Martin

Era uma daquelas noites em que não se pode ficar em casa, tal a beleza da lua e o frescor do ar que, trazendo a fragrância das flores, toma o ambiente e convida para uma caminhada noturna.

Assim ele sentia, olhando hipnotizado pelo brilho daquela lua cheia, parado na janela de seu apartamento 5 andares acima do chão.

Então, dando alguns passos pra trás, ainda com os olhos fixos no céu, naquela grande bola de prata brilhante, logo ali, ao alcance de suas mãos, ele decidiu sair para rua, para uma caminhada, talvez até o parque próximo.

Tendo decidido, girou ligeiro nos calcanhares, ao mesmo tempo em que estralava os dedos, fazendo a janela fechar-se sem ruído atrás de si. Então, cruzou os doze metros de sua ampla sala de estar, os pés parecendo não tocar o chão, visto que não poderiam, nem os mais atentos ouvidos, escutar-lhes os passos lépidos e silenciosos.

Chegando à porta, bastou tocá-la com o indicador para a abrir, igualmente sem produzir barulho algum. A luz do corredor se ascendeu sobre ele e a porta do apartamento se fechou, mal ele transpusera os batentes. Foi até o grande e luxuoso elevador que o esperava, tocou o botão para descer, mas não entrou. A máquina pôs-se a funcionar e ele seguiu para as escadas, pois sempre preferia a liberdade destas à clausura daquele.

Da mesma forma rápida e silenciosa que atravessou a sala, desceu os 150 degraus, colocando-se no hall, ao mesmo tempo em que seu elevador particular chegava vazio àquele destino.

Ao sair do prédio, inspirou profundamente o delicioso frescor do ar da rua, sentindo a brisa que lhe acariciava a pele em sinal de boas-vindas. Cumprimentou o porteiro com um sorriso jovial que fez o senhor Thomas pensar que aquele turno de trabalho passaria ligeiro e agradável.

Senhor Thomas não sabia por que, mas sempre que recebia aquele cumprimento, apenas um sorriso, pois nunca lhe era dirigida uma palavra sequer, ele ficava em tão bom estado de espírito que passava o resto da noite a assoviar canções de sua juventude. Ele via naquele sorriso magia capaz de acalmar o mais conturbado dos indivíduos e, seu Thomas, por vezes era uma dessas almas grandemente atormentadas pelas maiores das turbulências. Agora, porém, suas preocupações estavam esquecidas e continuariam assim durante um bom tempo. E isso era resultado daquele sorriso feiticeiro do misterioso morador do apartamento cinco, o porteiro pensou, abrindo ele mesmo um sorriso amplo e genuíno que lhe iluminou a face, quase sempre sombria e com ares tristes. Senhor Thomas estava agora claramente feliz e acompanhava com olhos gentis, aquele homem enigmático, até que a vista lhe pudesse alcançar na longa rua, cheia daquelas enormes árvores de troncos roliços e quase retos, que se alinhavam em ambas as calçadas.

Enquanto o senhor Thomas olhava o misterioso senhor L desaparecer por entre as árvores, este observava os olhos pequenos e atentos do senhor Thomas, pregados nele quando saía, mas não fazia conta disso. Ele sabia o efeito que seu sorriso tinha sobre o porteiro e isso lhe comprazia, de fato. Era assim com o porteiro e com virtualmente todos a quem ele dirigia tal recurso, tão pessoal e tão bem utilizado por ele.

No fim da rua, virou à direita e continuou a caminhar sob a proteção das sombras daquelas árvores majestosas, que pareciam desfilar em linha contrária a direção que ele próprio caminhava. Desde pequeno ele gostava de pensar assim, quando corria pelos longos e amplos passeios de seu bairro: em sua imaginação, ele estava parado e as árvores e as casas, às vezes até mesmo as pessoas, eram quem passavam por ele, as árvores, correndo em fila de um lado, as casas, andando lateralmente, pelo outro, enquanto ele apenas as tocava , com os braços esticados longitudinalmente aos ombros, uma palma da mão voltada para as casas, a outra, para as árvores.

Pensando nisso, abriu os braços e tomando o vento que lhe acolhia o rosto, deixou-se voar no tempo e no espaço.

Como as ruas estavam desertas, ele pôde andar assim por vários quarteirões a fio. Agora ele era um menino, rei de seu próprio mundo e de seus sonhos.

Algumas dezenas de metros mais e ele chegaria à grande avenida que dava para o parque. Uma quadra antes de nela chegar, contudo, resolveu que continuaria a andar pelas ruas, já que por estas encontrava o grande prazer de que previra há pouco tempo atrás, ao ver a lua, lá de cima de seu apartamento.

A calma propiciada pela noite enluarada, o anonimato permitido pela escuridão dos trechos mais arborizados e a liberdade de movimento possibilitada pelas vias ermas definiam nele a expressão espírito livre e solto, em sua essência mais profunda e pura.

E foi com esse estado de espírito que ele tomou uma rua secundária e perdeu-se entre sombras, subidas e decidas, cruzamentos e em pensamentos sem sentenças, sem frases nem palavras.

Caminhara assim por mais de duas horas e nem se dera conta disso. Seu espírito flutuava-lhe sobre a cabeça, seu coração, entre as nuvens e seu corpo deslocava-se acima do chão. Ele era apenas ele. Não era um nome, não era um adjetivo. Não era um número nem tão pouco uma face conhecida. Ele estava só, mas não solitário. Ele era um viajante galáctico percorrendo os túneis do centro da terra, carona de seus próprios pensamentos. Ruas eram suas rotas estrelares, as sombras das árvores, os túneis desconhecidos que deveria desbravar. Ele sentia tudo isso e não pensava em nada em especial quando, ao virar à esquerda no Bulevar San Martin, uma rua menos iluminada, tantas eram as árvores de altura extraordinárias, cujos galhos se abraçavam entre si, sendo impossível dizer a que tronco pertenciam, ele viu, a um só momento, duas figuras escondidas nas sombras, costas pregadas no grande muro que vinha desde a esquina próxima e um adolescente, não tinha mais que uns dezesseis anos que subia, pela mesma rua e calçada.

Enquanto as duas figuras sinistras mantinham-se camufladas nas sombras, silenciosas e imóveis, aranhas esperando a mosca que se aproximava, o garoto inerme, murmurando como se rezasse baixinho, andava com passos hesitantes, olhando de cá para lá, os olhos arregalados, como se quisesse enxergar o que não conseguia ou sabia ver, pois é preciso saber ver para que se possa fazer uso da visão, enxergando onde se olha e vendo onde se enxerga. Olhar apenas não basta, nem enxergar é suficiente se não se sabe observar.

E o que o jovem fazia era olhar e olhar: Ele olhava para lá e para cá, sem direcionamento, sem foco, sem ver. A uma folha de árvore que caía, ele estancava aflito e olhava para todos os lados, os olhos arregalados e os lábios trêmulos. A uma sombra que se mexia, pois o galho se movera com o vento lá encima, ele se assustava, parava e tremia todo. Daí, titubeava e recuava uns passos; então, avançava, porém, agora, mais vacilante ainda. Ao ouvir um pássaro cantar, uma coruja piar ao longe ou mais perto, inclinava a cabeça para identificar os ruídos da noite e, não conseguindo, ficava ainda mais aterrorizado, Quase em pânico. E nesse estado mental, não via o mal que lhe esperava à frente e, sem perceber, ia se aproximando lentamente do ponto em que encontraria, aí sim, com seu real perigo.

Tudo isso, aquele que há pouco navegava em pensamentos leve e despreocupado viu, mal entrara na rua. Esta, sendo uma decida íngreme e longa, propiciava-lhe um ponto de observação privilegiado e, ainda que não o fizesse, ele saberia o que estava acontecendo, pois nada lhe escapava aos olhos atentos de águia, nem mesmo quando dormia.

Então, mais um, dois, três passos do adolescente, lá em baixo na rua e, das sombras precipitaram os dois homens, que pela posição dos braços, se podia ver que carregavam armas.

‘ O assalto foi anunciado. O garoto estacou, soltou um grito de pavor e seus olhos brilharam aterrorizados e, depois ficaram brancos, num branco pálido de quem não tem mais forças para manter-se sequer em pé.

Bloqueando-lhe a passagem, os assaltantes agora gritavam baixo e em sucessivas ordens: – “vamos, passe a mochila, Seu imbecil!” “Pressa, dê-me o celular, idiota!” “rápido, tire os tênis e os passe para cá, molenga!” “Anda logo, seu palerma atarantado!” “dê-me o relógio se não eu lhe mato, seu covarde de uma figa!”

Os dois ladrões comandavam ao mesmo tempo, mas o rapaz , tomado de surpresa não conseguia mover-se com o mínimo de coordenação que fosse: ia tirando a mochila, mas ao ouvir que lhe pediam o celular, tirava as mãos da alça da mochila para buscar o celular nos bolsos. Mas, aí, ao ser-lhe dito que passasse os tênis, fazia menção de abaixar-se para os pegar. Então, atrapalhado, parava a ação no meio do caminho, para desabotoar do pulso o relógio que lhe fora pedido.

Vendo que sua vítima não produzia nenhum dos objetos que solicitavam, o ladrão da esquerda colou o revólver na testa do quase desfalecido menino, e, com uma voz aterradora exclamou: – “prepare-se para morrer, seu verme inútil!” “Espécie tão covarde como você não merece viver!” E o outro bandido acrescentou numa gargalhada roufenha: – “vai dar mais prazer matar esse imbecil do que levar seus pertences”.

Então, o som do click da arma engatilhada, um gemido estrangulado do adolescente e um estampido seco que ecoou pela rua, puseram fim à quietude da noite, fazendo levantar uma revoada de pássaros que dormiam nas árvores próximas.

O rapaz pendeu lentamente em direção ao solo, como se desmoronasse, resultado de uma implosão: seus joelhos se curvaram bambos, os braços caíram-lhe frouxos em direção ao chão, enquanto suas mãos procuravam, em vão, apoiar-lhe o corpo que vinha por cima delas.

No entanto, mesmo antes de o garoto ganhar o frio duro da calçada, o assaltante que estava prestes a atirar caiu pesadamente, o sangue escorrendo-lhe pelo lado esquerdo do corpo. E isso, porque vendo o que estava prestes a acontecer, aquele que segundos antes estava na esquina do Bulevar, mais acima, agora já estava ali, junto dos bandidos e vítima. Nas mãos, um revólver 45, ainda esfumaçando do disparo efetuado. Mas, não foi por causa do tiro que o homem caíra, já que este apenas tinha sido atingido no o braço esquerdo, pouco acima do cotovelo.

O que de fato impediu o assaltante de atirar à queima roupa no menino foi o tremendo soco que o bandido havia recebido na cabeça e que o prostrou sem sentidos, bem longe da arma que voara quando ele estava prestes a matar o garoto.

O outro ladrão, ao olhar para o comparsa caído no chão, viu o sangue que parecia sair-lhe do lado esquerdo das costas, bem na altura do coração. E, o tendo visto ali, caído numa possa de sangue, tomou-o como morto. Ao fazê-lo, foi possuído de tão grande fúria contra aquele intruso que teria matado seu amigo que lançou-se contra ele com uma faca de lâmina longa e fina.

O golpe desferido com aquela mortal arma foi com tamanho furor que se não fosse a agilidade e destreza do desconhecido em desviar-se, ele teria sido furado bem no coração, já que foi aí que o sanguinário bandido definiu como sendo o alvo de seu golpe.

No entanto, o estranho misterioso, numa fração de segundo, desfechou enorme chute contra a mão de seu agressor, que lhe quebrou os dedos e fez a faca voar, indo cravar na árvore do outro lado da rua.

A lâmina, portanto, não passou mais perto do que o suficiente para cortar a manga da camisa do intruso misterioso, o qual ainda tinha o revólver empunhado.

Vendo espantado o que acabara de acontecer, , o ladrão, com a face contorcida de pavor e, soltando berros de dor por conta dos dedos quebrados pelo chute que havia levado, girou 180 graus nos calcanhares e desceu os cem metros da rua numa corrida em que raros seriam os campeões que conseguiriam fazê-lo em tão poucos segundos.

Mal o larápio virou a esquina, o adolescente voltou a si, pois que apenas tinha desmaiado, quando vira a arma apontada para sua cabeça.

Contudo, vendo o sangue que corria do bandido caído bem ali aos seus pés , o rapaz pôs-se a desmaiar outra vez.

Agora, porém, o desconhecido o pegou nos braços, muito antes que pudesse o desfalecido garoto tocar o chão.

Enquanto o misterioso salvador do jovem caminhava com seu protegido nos braços, bulevar acima, pegou-lhe da mochila uma agenda e verificou o endereço da casa do rapaz.

Dez quarteirões vencidos e, agora, uma quadra a mais e o garoto estava depositado no portão, apoiado pelas costas no muro da casa.

A campainha foi tocada e um homem e uma mulher saíram, quase que imediatamente. Ele, um velho magro, muito alto, careca e com um enorme bigode preto, vestia pijamas de bolinhas azuis e calçava sandálias de couro marrom. Ela, uma velha baixinha, muito gorda e com bobes presos à cabeça, vestia uma camisola de renda branca apertada que não lhe cobria mais que um terço das coxas enormes e calçava chinelos verdes, tipo havaiana. Atrás deles, vinha uma jovem com cabelos vermelhos desgrenhados, com a face cheia de um creme branco que lhe escorria pelo nariz e pescoço. Ela vestia camiseta rosa e bermuda jeans azul. Nos pés, uma pantufa amarela que lhe deixava os calcanhares de fora. Ao verem o jovem sentado no chão, daquele modo, apoiado no muro e claramente desacordado, , começaram a gritar: – “meu Deus! Que aconteceu?” “Que foi, meu filho?” “Ele está doente, marido!” “Ele está passando mal, mulher!” “Chame o médico, pai!” “Vizinho? Acuda, pelo amor de Deus!” Todos gritavam ao mesmo tempo, as vozes sobrepondo-se umas às outras. No entanto, ninguém fazia nada.

Com o berreiro, o adolescente recobrou os sentidos e, depois de alguns segundos estava sobre os pés novamente, porém agora ia carregado pelos familiares, que por esse momento não ouviam o que o jovem dizia que um homem misterioso o salvara de ladrões assassinos e que precisavam agradecê-lo pelo que fizera.

Durante esse breve momento de grande profusão de gritos e portas e janelas batendo ao serem abertas abruptamente, o desconhecido, novamente acolhido pelas sombras, observava tudo, sem ser visto, ouvido ou percebido.

Acalmada a rua, com o retorno dos moradores às suas casas, ele se pôs, então, a caminhar em direção ao seu prédio, assoviando uma canção de cuja letra não tinha certeza e de cuja melodia não conhecia integralmente. Mas essa canção lhe servia para o momento, para essa noite tão agradável, cuja lua parecia convidar ao amor, à paixão, aos carinhos de uma mulher, cujos braços ele ainda não sentira e cujos lábios ele ainda não provara.

Fim