O Menino que Contava Estrelas

O primeiro espetáculo com áudio-descrição em Pernambuco.

A peça relata a história de Jorginho, O Menino que Contava Estrelas, que não se cansa de olhar para o céu e admirá-las. Curioso, sempre pergunta sobre estrelas, planetas e astros celestes. Certa noite foi convidado para uma viagem fascinante pelo espaço, cujo ponto alto foi o encontro com o seu xará, São Jorge.

A sala de aula

Cena do espetáculo: A sala de aula. (da esq. para a dir.): Gleisse Paixão, Lais Castro, Rosane Bezerra, Fátima Roxa, Sidmar Gianette e Soraya Nejaim.
Foto de Mariana Lima.

Áudio-descrição

Fotografia, orientação horizontal. Vê-se uma mulher, a professora, em pé, ladeada por cinco crianças fardadas, dois meninos e uma menina de um lado, e dois meninos do outro, todos no palco de madeira. A professora está de frente, com o perfil voltado para a esquerda, e com os braços abertos; ela é alta magra e tem cabelos curtos, escuros, sobre os quais ela amarrou uma fita; ela usa uma espécie de túnica azul-escura, com bordados prateados nas laterais e na barra da túnica, e sapatos baixos. As crianças usam camiseta branca de mangas curtas com gravata laranja, calções e saia laranja e sapatos pretos com meias brancas; estão sentadas em banquinhos, cada uma delas em uma posição, todas olhando em direção à professora; da esquerda para a direita, vê-se um menino, com o tronco flexionado, as mãos ajeitando a meia direita; ao lado dele, vê-se outro menino, de pernas abertas, com as mãos juntas próximas à cintura; a seguir, vê-se uma menina, com o braço direito flexionado; do outro lado da professora, vê-se um menino de pernas abertas e meio encolhido; e ao lado dele, um menino com um gorro laranja, com as mãos sobre os joelhos, atento. Por trás das personagens, vê-se parcialmente uma tela branca sobre fundo negro.

O cavalo Galope

Cena do espetáculo: O cavalo Galope.
Foto de Mariana Lima.

Áudio-descrição

Fotografia, orientação horizontal. Sobre fundo preto, vê-se ao centro, parcialmente, a sombra de um cavalo, envolto em um semicírculo de luz em tom alaranjado; ele está com a cabeça e o corpo voltados para a esquerda, e com as patas dianteiras flexionadas. Acima do círculo luminoso, há um pequeno ponto luminoso, em tom amarelado.

O boneco Jorginho montado no cavalo Galope

Cena do espetáculo: O boneco Jorginho montado no cavalo Galope.
Foto de Mariana Lima.

Áudio-descrição

Fotografia, orientação horizontal. Veem-se as sombras do boneco Jorginho e do cavalo Galope por trás da tela branca. Jorginho está montado em Galope; ambos estão com a cabeça e o corpo voltados para a direita; Jorginho está de braços abertos; Galope está com as patas dianteiras para trás e com a cauda levantada. Veem-se as varetas que sustentam cada sombra. Na parte inferior da imagem, está à mostra uma parte da cortina, preta. Acima das figuras de Jorginho e Galope há uma forma clara, circular, que é a luz projetada pelo refletor.

 Sobre o espetáculo

O espetáculo teatral “O Menino que Contava Estrelas” foi produzido por alunos do curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, em Recife, sob a coordenação da professora Izabel Concessa. Trata-se de um espetáculo para crianças e jovens, que reúne técnicas do teatro de formas animadas (bonecos, sombras, marionetes) e do teatro humano. O texto é de Eron Villar. O elenco foi formado por estudantes do Curso de Artes Cênicas, sob a direção de Concessa, elenco esse responsável também pela produção e pela montagem. O espetáculo estreou em janeiro de 2008, no Teatro Milton Baccarelli. No mesmo ano, participou do Festival de Formas Animadas, no teatro Hermilo Borba Filho, da IV Mostra Pernambucana de Teatro de Bonecos, no Teatro Apolo, cumpriu temporada no Teatro Joaquim Cardozo, participou da Mostra SESC de Teatro de Formas Animadas, em Jaboatão/PE, e da I Mostra de Áudio-descrição Imagens que Falam, no Teatro Milton Baccarelli. Em 2009 apresentou-se no Teatro Gato no Telhado, em Olinda/PE. Em 2010, cumpriu 2ª temporada no Teatro Joaquim Cardozo e, em agosto desse ano, o grupo foi dissolvido. Fim de jogo para o espetáculo…

Eu e a Áudio-Descrição (AD)

Meu primeiro contato com a AD deu-se em meados de 2008. Na ocasião, eu era integrante do grupo de teatro Assíntota, e estávamos em cartaz com a peça infantil O Menino que Contava Estrelas, teatro de sombras e de bonecos, primeira temporada no Teatro Joaquim Cardozo, no Centro Cultural Benfica, em Recife/PE.

Uma das atrizes do grupo estava estudando Educação Inclusiva, no Centro de Educação da UFPE, com o professor Francisco Lima, pessoa com deficiência visual, então coordenador do Centro de Estudos Inclusivos da UFPE, para quem falou sobre o nosso espetáculo. A partir desse contato, o professor Lima, que estava ministrando o primeiro curso de tradução visual com ênfase na Áudio-descrição (A-d) na UFPE, foi ver o espetáculo e nos propôs fazer a áudio-descrição da peça, para acessibilidade para espectadores com deficiência visual! Nós não fazíamos a mínima ideia de que se tratava, mas aceitamos e, a partir desse momento, começou a nossa parceria. Repassamos o texto, de Eron Villar para o professor, para ser estudado e analisado pelos alunos do curso, e Gleisse Paixão e eu fomos até à UFPE, para falarmos sobre a peça em detalhes, para que os alunos do curso de AD pudessem preparar os seus roteiros e exercitar a prática na nossa peça.

Enfim, chegou o grande dia! Chegaram o professor Francisco e seus alunos, portando os audiofones e microfones, e alguns usuários com deficiência visual, convidados pelo professor, e os demais espectadores… Logo a seguir começou a apresentação do primeiro espetáculo com AD no Estado de Pernambuco! Depois dessa primeira, vieram outras, e era sempre emocionante ver o semblante das pessoas após o espetáculo, sobretudo das pessoas cegas ou com baixa visão que experimentavam o serviço de áudio-descrição.

Era praxe nossa, após o espetáculo, convidar os espectadores para subirem ao palco, manipularem as sombras, tocarem no dragão-boneco, enfim, para verem um pouco como funcionava a peça por trás da cortina. Era sempre um alumbramento! As crianças e os pais ficavam encantados, houve crianças que estavam lá todos os domingos nos prestigiando! E as crianças cegas, então, nos emocionavam a todos! Falo especificamente de Mateus e Mariana, que foram várias vezes ao espetáculo. Era indescritível ver o semblante de Mariana, que resplandecia e dava risadas tocando no dragão Fumaça, nas sombras e nos atores… Quanto a Mateus, sabia o espetáculo de cor e ficava anunciando a próxima cena… As duas crianças sempre queriam tocar nos atores, sobretudo na atriz Soraya Nejaim, que fazia Jorginho, o papel principal. Mas eles queriam falar também com os atores que faziam o cavalo Galope, o São Jorge, o São Pedro, o Astronauta etc. Pois o nosso espetáculo era um sonho de Jorginho, e em sonho a gente pode tudo; então tinha o cavalo de São Jorge, tinha peixes, estrelas, bombons dançarinos, placas andantes, céu estrelado e outras curiosidades.

O primeiro espetáculo com AD foi notícia nos dois principais jornais da cidade do Recife, o Jornal do Comércio e o Diário de Pernambuco.

Em 2009, eu participei do segundo curso de áudio-descrição “Imagens que Falam” ministrado pelo professor Lima. Decidi fazer o curso meio que por curiosidade, pois muito me impressionou ver a reação dos espectadores com deficiência visual, após apreciarem o espetáculo com A-d. Participei ativamente do curso – o professor Lima é muito exigente! Fizemos várias AD, sobretudo de vídeos curtas-metragens. O curso culminou com um seminário aberto ao público em que apresentamos os conteúdos aprendidos e os vídeos áudio-descritos.

Após o curso, a vida segue… Em 2010, foi realizada uma segunda temporada do espetáculo O Menino que Contava Estrelas, no Teatro Joaquim Cardozo, também oferecida com o recurso da áudio-descrição.

Em 2011 fui convidada a fazer parte de um projeto cujo objetivo era áudio-descrever 100 (cem) obras do acervo do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, no Recife, na função de áudio-descritora. Este foi um projeto pioneiro na cidade, no qual trabalhamos durante mais de um ano, e que está ainda em fase final de acabamento.

No segundo semestre de 2012, surgiu uma oportunidade e grande desafio: fazer a acessibilidade do vestibular e dos exames seriados da Universidade de Pernambuco, no Recife, descrevendo as imagens das provas, para acessibilidade dos vestibulandos com deficiência visual. Foram 187 (cento e oitenta e sete) imagens áudio-descritas em parceria com o áudio-descritor Ernani Ribeiro. Um trabalho árduo, mas muito gratificante.

Neste ano de 2013, neste momento, estou finalizando a áudio-descrição das obras da exposição Bela Aurora do Recife, do artista Wilton de Souza, em exibição no Centro Cultural dos Correios, no Recife, em parceria com o áudio-descritor Ernani Ribeiro. Desta feita, são 176 (cento e setenta e seis) imagens, entre pinturas, desenhos, gravuras e ilustrações, além de uma escultura, que as pessoas com deficiência visual poderão apreciar a partir do próximo mês de abril.

Que venham muitas outras áudio-descrições… Já está na pauta mais uma, para breve, desta feita de uma exposição fotografias.

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RBTV #14: Sumário

Áudio-descrição da capa: resistência solitária

Notas Proêmias

A presente imagem áudio-descrita foi retirada da tese de doutoramento em Linguística (Dando a palavra aos guatós: alguns aspectos sociolingüísticos), defendida em 2002, na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, por Rosângela A. F. Lima.

“Dando a palavra aos guatós” entrevistou alguns dos últimos membros do povo guató que ainda falavam a língua nativa, sem a intervenção do homem branco.

A foto áudio-descrita é do Sr. Veridiano, índio guató que morava só e que à época da entrevista já contava com pouco mais de oitenta anos.

A áudio-descrição mostra o índio sentado em um banco de madeira, próximo à casa dele, uma construção de pau e barro.

Foi aí, no Morro do Caracará, no Parque Nacional do Pantanal, no Mato Grosso, que o encontramos em 2001.

“Um Guató ainda tenta resistir sozinho ao domínio do homem branco: Seu Veridiano. Um senhor de mais de oitenta anos mora no morro Caracará, em um casebre que mal o protege das chuvas, enfrentando a fome, as interpéries e as doenças próprias de sua idade. Tem como único companheiro um cachorro (que só atende quando é chamado em Guató). Declara que não tem intenção de se juntar aos outros Guatós na Ilha, pois “índio mora assim mesmo, sozinho”. (Lima, R. A. F, 2002)

Na foto áudio-descrita encontraremos o índio Veridiano, da tribo dos canoeiros do pantanal, vestido com roupas do homem branco, uma vez que os guatós não mais se vestem aos moldes de seus ancestrais.

“… ele não está imune à influência nefasta do homem branco, pois os turistas, sempre que passam, deixam-lhe, ao invés de alimentos e roupas, muita bebida alcoólica e muita sujeira, decorrente de restos de churrascos, garrafas e latas de bebidas.” (Lima, R. A. F, 2002)

Sobre o povo guató, a autora afirma que:

As primeiras notícias sobre a tribo Guató vieram de viajantes espanhóis (Azra, Florence, etc) que percorreram o Alto Paraguai, buscando um caminho para o Peru. Alvar Nuñez Cabeza de Vaca[1] (1984) cita os índios guataes em duas passagens de sua expedição em busca de ouro e prata, no século XVI. Desde então, os Guatós são mencionados como tribo pacífica, arredia e pouco numerosa, ligados entre si através de forte laço de cultura, do sangue e da língua.(…)

(…) Do que observamos e confirmamos durante as entrevistas, os Guatós hoje estão ainda mais afastados de sua cultura e língua. Há, entretanto, uma vontade muito forte em reativar seu artesanato e sua língua, até pela própria necessidade de sobrevivência do grupo.

Entretanto, outros traços da cultura, como religião, danças, e cerimoniais já estão quase que extintos da memória desse povo. Como exemplo, podemos citar sobre a reunião dos homens guatós, narrados por Castelnau (apud Souza, 1973, cf. página 79 deste trabalho). Quando questionados sobre o que acontecia nessa reunião ou se ela ainda existia, os Guatós entrevistados disseram não terem conhecimetno do cerimonial de seus ancestrais.

O que ficou bastante evidente de nossa observação durante as visitas foi que os Guatós vivem em extrema miséria e precisam de maior atenção das autoridades competentes.(Lima, R. A. F, 2002)

Para saber mais sobre os Guatós consulte: LIMA, R. A. F. Dando a Palavra aos Guatós: alguns aspectos sociolingüísticos. Assis, 2002. 174p. Tese de doutorado – Faculdade de Ciências e Letras de Assis. Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”.

Fotografia

Áudio-descrição da foto

Ao centro da foto está o índio guató Veridiano, um senhor de oitenta anos, de estatura baixa, magro, moreno, sentado em um pequeno banco de madeira. Ele tem os cabelos pretos, um pouco grisalhos, cheios e curtos, com entradas na testa. A testa é larga e apresenta linhas de expressão bastante profundas. Ele tem sobrancelhas grossas, olhos escuros, pequenos e amendoados. O nariz é grande e largo nas narinas. Ele tem rosto oval e magro. A boca é reta e os lábios são finos. O queixo é pequeno, com pequena cova no meio. O pescoço é curto. Os ombros, também pequenos, são curvados.

Seu Veridiano veste um moletom de cor clara, com uma abertura em V na gola, sob a qual aparece uma camiseta marrom clara. Usa calça jeans azul, a qual está suja e rasgada no lado direito, da coxa até abaixo do joelho, que fica todo à mostra. A barra da calça está enrolada. Os pequenos pés do Senhor Veridiano estão descalços e trazem marcas de barro.

Enquanto apoia o braço direito na coxa, seu Veridiano acaricia, com a mão esquerda, um pequeno cachorro de cores preta e bege, que está de pé, com o focinho próximo ao joelho do índio.

Atrás deles, sobre uma taboa no chão, encontram-se enfileiradas algumas panelas velhas.

Ao fundo da foto há bananeiras e outras árvores, das quais se veem os troncos. No chão, próximo às árvores, há muitas folhas secas, alguns sacos plásticos e latas.


Sumário

Seção principal

Relato de experiência

Foto-descrição

Nota de rodapé

[1] Em sua obra Naufrágios y Comentários, 1984,  o autor descreve seu contato com os Guatós em 1543.

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A influência do movimento e da visão na percepção de peso com indivíduos videntes e videntes vendados

Resumo

Este estudo propôs em seu delineamento uma investigação sobre percepção de peso e sua associação quanto ao movimento muscular (Dinâmico) em relação ao não-movimento (Estático) e na visualização (sem barreira) ou não-visualização (com barreira) em estímulos padronizados em textura, cor e volume, diferenciados em sua massa. Dois tipos de espaçamentos foram formados de 2g e 5g.

Os resultados apontaram para um julgamento mais fidedigno quando os sujeitos “sem barreira”perceberam os estímulos em relação aos sujeitos”com barreira”, assim como, sujeitos foram mais confiáveis nos julgamentos “Dinâmicos”, que nos julgamentos “Estáticos”mostrando que há uma interferência quanto a visualização e o movimento muscular.

Quanto aos espaçamentos apresentados, sujeitos foram mais confiáveis quando o espaçamento era de 2g em relação ao espaçamento de 5g.

Palavras-chave: Sistema háptico, percepção de peso, Fração de Weber

Abstract

This study was designed to investigate weight perception and its relation with movement (dynamic and static) and the effect of visualization of stimuli (no barrier or with barrier), in standardized stimuli in texture, color and volume, differentiated in its mass. Two types of spaces were formed of 2 g and 5 g.

The results pointed to a more reliable judgment when the subject “without barrier” observed the stimuli in relation to subject “with” barrier, as well as, subjects were more reliable in trials “Dynamic”, that in trials “Static” showing that there is an interference of visualization and muscle movement.

As for the spaces presented, subjects were more reliable when the spacing was 2 g in relation to spacing of 5 g.

Keywords: Haptic perception; weight perception; visual illusion.

I Introdução

Considerando que a percepção é o reconhecimento dos estímulos apresentados no ambiente e partindo da premissa de que o homem é capaz de julgar esses estímulos (em média com confiabilidade), podemos afirmar que a psicofísica coloca-se na posição de intermediar o que é percebido, utilizando as condições físicas dos sujeitos observados e as relações psicológicas.

Nesse sentido, Fukusima (1999) ensina que a psicofísica utiliza as ferramentas necessárias para mensurar atributos sensoriais como tato, audição, visão e outros.

Desde o século XIX, muitos estudos têm sido somados para uma melhor compreensão de que os caminhos da psicofísica colaboram para o entendimento da associação do físico com o psicológico.

Um dos mais conhecidos trabalhos que foram realizados na discriminação de peso estão relacionados ao físico alemão Ernest Heinrich Weber.

Segundo Weber O peso dos objetos é percebido de duas formas: primeiro, pelo senso de tato da pele, e então pelo senso especial dos músculos voluntários. O último senso nos diz o grau de tensão do músculo quando levanta pesos e outros objetos.

Estes dois métodos de exploração dos pesos de objetos são muito diferentes: o método formado depende do objetivo da sensação do tato, enquanto o último depende da sensação subjetiva da cinestesia muscular. Assume-se, com certeza, o que nós chamamos uma sensação “objetiva” quando usamos nossos órgãos para perceber objetos que tem uma certa pressão e estes produzem algum efeito; e chamamos “subjetiva” quando percebemos apenas os efeitos dos objetos e não os objetos em si.

Para determinar o quanto a percepção de peso depende mais do tato ou da sensação muscular, e quanto partes da sensação de tato é usada, os experimentos precisam ser bem elaborados para que apenas os organismos tocados, e não os músculos, sejam utilizados.

Desta forma, ao realizarmos os experimentos neste presente estudo, dois procedimentos foram utilizados: (1) julgamento com a participação muscular, o qual foi denominado “movimento Dinâmico”, que Weber destacou como cinestesia muscular; e (2) julgamento sem a participação muscular, denominado “Estático“ (Ross & Murray, 1996).

Há quarto aspectos mais importantes dos objetos que nós descobrimos no tato:

  1. A força na qual eles resistem aos nossos órgãos;
  2. A sua forma e a forma do espaço entre eles;
  3. A força com a qual eles pressionam os nossos órgãos, e especialmente o seu peso;
  4. A sua temperatura, sendo quente ou frio.

Está estabelecido que a tensão tátil é excelente em qualquer método usado para descobrir a forma de um objeto, a forma da superfície das suas partes individuais, e a forma do espaço separando os objetos (isto é, a distância entre eles): de qualquer maneira, é considerado boa na variação da acurácia destes julgamentos, o que é dado pela diversidade do órgão tocado (…)” (Ross & Murray, 1996).

Weber (1829-1834) sumariou, as principais questões que precisavam urgentemente de respostas mais completas e satisfatórias quanto à relação entre o peso e movimento: os diferentes órgãos percebem o peso da mesma maneira? Há diferença de percepção quando está envolvida a participação muscular? Qual é a diferença de peso que pode ser minimamente percebida? Entre seus resultados, mais especificamente a percepção de peso, foi encontrada que a participação muscular levava a uma maior acurácia.

A essas perguntas acrescentamos:

Uma vez que a literatura tem apontado para a existência de evidências de que há ilusão peso-tamanho interfere na pesagem, estaria a fração de Weber (1829-1834), encontrada para estimação de peso estático, superestimada? Como ficaria a fração de Weber (1829-1834) para percepção de peso através de movimento dinâmico ou estático, se adicionarmos uma barreira visual?

Tal barreira visual trará alguma mudança?

Para responder a estas perguntas, estudamos uma das modalidades mais presentes na vida moderna de qualquer indivíduo: a percepção de peso.

Sob este aspecto, foi delineado este trabalho envolvendo percepção de peso através de movimento dinâmico (quando há participação muscular), ou estático (sem esta participação), utilizando barreira visual ou sem barreira visual, e a colocação de peso sobre as mãos.

Quando se fala de percepção (como peso), é necessário diferir sensação de percepção. Sensações podem ser definidas como processos passivos para levar informação do mundo exterior para o corpo e para o cérebro. É considerado passivo em termos de que não temos de fazer um engajamento consciente no processo de sentir. Percepções podem ser definidas como processos ativos de seleção, organização e interpretação das informações levadas pelo cérebro no processo de sentir (Freedheim & Weiner, 2003).

O tato é sentido pela pele em todo o corpo, permitindo reconhecer a presença, forma e tamanho de objetos em contato com o corpo e também sua temperatura. É também importante para o posicionamento do corpo e a proteção física, entretanto não é distribuído uniformemente pelo corpo. Os dedos da mão possuem uma discriminação muito maior que as demais partes, enquanto algumas partes são mais sensíveis a outros estímulos, como por exemplo ao calor. O tato é dito passivo quando o observador não faz movimentos voluntários e a informação é imposta a um indivíduo com a mão estacionária. Já o tato é ativo quando os sujeitos fazem movimentos propositais para a obtenção de informações sobre o mundo e leva a uma captura superior da informação (Warren ET AL 2011), (Gibson, 1962).

É freqüente, na pesquisa com percepção tátil, o uso de tarefas com ou sem movimento muscular. Quando não há movimento, os sujeitos observam os estímulos depositados nas palmas de suas mãos ou em seus dedos, não operando propositadamente sobre o estímulo, que em nosso estudo foi chamado de estático. Já quando é pedido ao sujeito averiguar hapticamente o objeto através de movimentação (pegar, levantar, explorar ativamente) foi denominado movimento dinâmico (Lima, 2001), (Lima 1998).

Segundo Lima (2001), a pequena acuidade espacial da ponta dos dedos faz com que o tato seja mais lento no reconhecimento de certas configurações, comparativamente com a visão. Desta forma, em nosso estudo, a percepção de peso foi realizada na palma das mãos em que o sujeito da pesquisa não teria que capturar propriedades do estímulo a não ser quanto à diferença ou não da massa dos estímulos comparados.

Segundo (Williamset AL, (2006), o princípio do uso funcional das extremidades superiores é de alcançar e manipular objetos. Neste sentido, a mão é considerada efetora para ambos os sistemas motor e sensorial (Lederman & Klatzky, 1997). Quando a mão age como uma efetora, a manipulação pode ser usada para executar uma tarefa física. Como receptora, a mão opera como uma unidade perceptual usando a manipulação para explorar um objeto em suas propriedades, como o seu peso (Williams et al., 2006).

Sensação dinâmica envolve ações propositais das mãos durante o contato com um objeto, com a finalidade de percepção sensorial. Os movimentos selecionados aperfeiçoam os receptores pertinentes para explorar o objeto, incluindo as suas características tais como forma, peso, textura, superfície e temperatura. Durante o levantamento do objeto, o peso e textura, em particular, influenciam as forças de aperto e levantamento de carga (Williams et al., 2006).

Os receptores hápticos incluem receptores de pele, que entram em contato direto com objetos; como também proprioceptores encontrados na pele, músculos, tendões, e juntas que são ativadas (Klatzky & Lederman, 1999). Assim, durante exploração manual e sensação ativa, são as contribuições de receptores cutâneos e proprioceptivos que interagem como um funcional e único sistema perceptural (Loomis & Lederman, 1986; Schiffman, 2001; (Voisin ET al 2002). Segundo (Williams et al. 2006), o movimento de levantamento é um procedimento exploratório usado para percepção do peso de objeto.

Para (Hearnshaw 1987), o problema de quantificar as sensações tem sido infinitamente discutido pelos psicólogos por mais de um século sem se chegar a um acordo. Verificamos que, para alguns estímulos, os níveis de percepção estão em níveis considerados aceitáveis, tais como percepção a som, odor, luz, choque (Teghtsoonian 1971), não passando de 10% Tais valores chamam mais atenção, pois têm uma condição melhor de acurácia na resposta, principalmente quando o sistema muscular de braços e antebraços é utilizado (Turvey ET AL 1992). Entretanto, quando isto não acontece, isto é, quando os músculos ficam imóveis, a mensuração de estímulos apresenta uma acurácia significantemente menor. Devem, portanto, existir diferenças perceptíveis nestas duas formas de mensurar estímulos, mas o intrigante é a grande diferença perceptível, entre o movimento dinâmico e o estático.

Devemos lembrar as seguintes considerações quando analisamos a percepção de peso:

[…] Ações diárias como transportar ou levantar objetos de dimensões e pesos diferentes implicam em inúmeras experiências entre o corpo em movimento, forças gravitacionais, atrito e propriedades físicas dos objetos. Esta interação à qual estamos acostumados é o resultado de uma série de contrações musculares que garantem níveis posturais variados concomitantes com tarefas específicas. Essa rotina de forças nos dá experiências que permitem perceber se uma cadeira é mais pesada do que uma mesa ou vice-versa. Ou seja, nós, seres humanos, podemos realizar medidas bastante “calibradas” em torno das forças resultantes de ações que realizamos no nosso dia-a-dia.

Segundo (Shockley ET AL 2004), o peso percebido tem há muito ocupado uma posição importante na psicologia experimental, a superioridade de movimento aponta para o envolvimento de mecanorreceptores embebidos em músculos e nas junções dos músculos com os tendões. Esta função coletiva de percepção desses mecanorreceptores foi denominada como sensação muscular por (Bell 1926), e por toque dinâmico por Gibson (1966).

Estes fatos foram utilizados para entender a relação entre corpo e mente (como, por exemplo, a importância da densidade de fibras nervosas para o peso percebido). Além disso, a influência da atividade da percepção foi apresentada através das diferenças entre levantamentos de objetos simultâneos e sucessivos e as vantagens de percepção de peso ativa x percepção de peso passiva. Enfim, e mais importante, a demonstração da Lei de Weber (1829-1834) era primeiramente realizada através de dados de discriminação de peso.

Na continuação dos estudos de peso, Harper e Stevens (1948) realizaram um experimento designado para ilustrar a construção que satisfizesse os critérios de uma escala de uma magnitude psicológica para o peso subjetivo. Foi verificado que o tamanho subjetivo dos julgamentos para peso não era igual, sendo que a magnitude dos julgamentos aumentou rapidamente quando o peso físico era aumentado.

A percepção de peso é um fator vital, não apenas quando atende a levantar ou manipular objetos, mas também quando o peso de objetos está sendo comparado. Como resultado, inúmeros trabalhos têm sido feitos para definir a função da percepção de peso (Stevens & Galanter; 1957),(Jones 1986), (Amazeen & Turvey 1996), (Ellis & Lederman 1993).

Para Amazeen e Turvey (1996), muito do trabalho de Weber (1829-1834) sobre o senso de tato estava focado a determinar as propriedades relevantes do estímulo. Portanto, haveria quatro propriedades sentidas pelo tato, duas das quais relacionadas com a percepção de peso, chamadas (1) pressão exercida na pele e (2) forças resistentes atuantes no objeto, como as usadas em levantamento ou manuseio do peso. Foi assumido que, devido ao fato da pressão estar diretamente relacionada à massa do objeto, o peso percebido era uma função do senso cutâneo de pressão.

Weber foi capaz de observar também com a aplicação de sua formula matemática vários julgamentos das diversas modalidades sensoriais, verificando que para cada atributo, havia um valor diferente, semelhante a uma impressão digital, sendo em algumas o valor encontrado pareceu ser compatível à importância vital, isto é, por exemplo, para choque, o valor encontrado (0,001 aproximadamente), mostrava que era necessária uma resposta rápida, pois, o choque, dependendo de sua intensidade, pode ser letal a condição humana (Teghtsoonian; 1971), com isso, Weber verificou que o valor encontrado de K (mais tarde chamado de fração de Weber ou constante de Weber por Fechiner), era inversamente proporcional à resposta do sujeito, isto é, quanto menor a fração de Weber, mais rápida a resposta do sujeito e maior à intensidade do estímulo. No entanto, quanto à percepção de peso, o valor encontrado por Weber para o envolvimento muscular e o não envolvimento, mostrou-se muito discrepantes (k=0,02 e k=0,25) respectivamente, o que nos motivou a buscar valores que em média pudessem ser menores entre si.

O que é “mais pesado”, 1kg de chumbo ou 1kg de pena?

Uma brincadeira freqüente na juventude era a pergunta acima citada, e a confusão poderia iniciar-se se não fosse o intuito de confundir a resposta dada, ”geralmente” visualizamos a comparação entre o chumbo e as penas e concluímos que o volume das penas são muito maiores comparadas ao chumbo e “geralmente” respondemos erradamente, isso se deve às propriedades intrínsecas como tamanho, massa e densidade de cada objeto.

Charpentier (1981), em seus estudos observou a relação do tamanho e do peso dos estímulos utilizados nos julgamentos de peso o relacionando a densidade, com isso, concluiu que para julgamentos de peso especificamente, o tamanho do estímulo não pode ser uma variável, pois implicaria diretamente no julgamento, com isso, criou uma teoria, conhecida como “Ilusão peso-tamanho de Charpentier”. Kawai (2002),, em seus experimentos, observou a importância da densidade no julgamento de peso tentando excluir a condição da ilusão peso-tamanho, relatada por Charpentier em 1891, concluindo que por mais insignificante que pudesse ser, a forma primária de observação quanto ao julgamento de peso, sempre era a busca as diferenças quanto ao tamanho do estímulo, mesmo quando os sujeitos eram vendados, diferentemente dos sujeitos investigados por Charpentier (1981), em que os sujeitos observavam visualmente os estímulos. Com isso reforçamos a condição de uma busca mais adequada quanto ao emprego do estímulo utilizado para o julgamento de peso em nossos estudos, o que nos motivou a buscarmos estímulos de igual densidade, tamanho, forma, textura e cor, impossibilitando vieses no julgamento de percepção de peso.

II Objetivos

Com base nos estudos de Weber, verificaremos se os valores encontrados quanto ao envolvimento muscular (Dinâmico) ou não-movimento (Estático) da fração de Weber podem ser corroborados em nossos estudos, também, verificaremos se a visualização dos estímulos e a não visualização (aplicação de uma barreira visual), pode interferir no julgamento quanto a percepção de peso citados na ilusão peso/tamanho de Charpentier e por fim, analisaremos os julgamentos com dois espaçamentos (2g e 5g), para tanto, utilizaremos o método dos estímulos constantes e escala de categoria para observarmos as respostas

III Materiais e métodos

Submetido e aprovado pelo comitê de ética em pesquisa e os sujeitos foram ingênuos quanto ao propósito do estudo, utilizamos 72 sujeitos.

Para nosso estudo utilizamos dois tipos de espaçamento para aplicarmos no método dos estímulos constantes sendo eles:

Estímulos com espaçamento de 2g que eram compostos de 11 estímulos sendo o menos pesado de 90g e o mais pesado de 110g, com variação entre eles de 2g; estímulos de 5g, sendo o menos pesado 75g e o mais pesado 125g, com variação entre eles de 5g, tanto para os estímulos com espaçamento de 2g, quantos estímulos de 5g, utilizamos como “estímulo padrão” o estímulo de 100g, já que o método dos estímulos constantes faz os julgamentos de peso de forma comparada a um estímulo chamado de “padrão” e variando com outros estímulos de forma aleatória chamada de “estímulo de comparação”.

Para o julgamento da resposta, utilizamos uma escala de categoria em que o sujeito pesquisado perceberia o estímulo padrão tendo um intervalo de 15s para calibragem, seguido do estímulo a ser julgado e assim responderia se em relação ao estímulo padrão o estímulo comparado é “menos pesado”, “igual peso” ou “mais pesado”, ao estímulo padrão. A cada intervalo de 11 apresentações dos estímulos (série), o estímulo padrão iniciaria na mão contraria da inicial da série anterior e subseqüente nas 15 séries a cada sujeito pesquisado.

Para que pudéssemos ter os valores quanto à magnitude dos estímulos que empregamos em nosso estudo, introduzimos nos estímulos areia retirando a umidade em estufa a 90 graus centígrados colocando em saquinhos plásticos e envolvemos com algodão para que tivéssemos uma distribuição homogênea por todo o estímulo, com isso, não teríamos a variável do deslocamento da distribuição da massa no estímulo. Desta forma, com o controle total das variáveis que poderiam interferir especificamente no julgamento de peso, buscamos a forma que aplicaríamos o julgamento quanto ao peso e verificamos na psicofísica que o método dos estímulos constantes estaria de acordo com as propostas do estudo utilizando na resposta do julgamento uma escala de categoria

Utilizamos também, uma mesa e duas cadeiras de forma que os sujeitos pesquisados ficaram frente ao experimentador e por fim, para investigarmos o comprometimento visual na percepção de peso, colocamos um impedimento visual formado por tecido denso de difícil visualização e com dois orifícios frontais parecidos com mangas longas de camisas entre os sujeitos pesquisados e os estímulos na condição de não-visualização (barreira). Delineamos para obtermos os resultados quatro grupos distintos sendo:

  • 18 sujeitos para Condição dinâmica e barreira
  • 18 sujeitos para condição estática e sem barreira
  • 18 sujeitos para condição dinâmica e sem barreira
  • 18 sujeitos para condição estática e com barreira

Adotamos “condição dinâmica” a forma pelo qual os sujeitos foram designados a manipularem os estímulos apresentados, flexionando obrigatoriamente seus antebraços de forma a buscarem uma calibragem e uma acurácia mais significativa do julgamento de peso.

A “condição estática”, foi a maneira pelo qual os sujeitos não puderam flexionar seus antebraços, apenas percebendo os estímulos depositados sobre a palma de suas mãos abertas.

No final de cada experimento, cada sujeito julgou de forma aleatória todos os estímulos tanto de 2g quanto de 5g, em 15 séries para cada espaçamento sendo em sua totalidade 330 estímulos apresentados e julgados.

Com os dados coletados, foram necessários alguns cálculos psicofísicos para extrairmos a “fração de Weber” para a estatística necessária, empregamos para tanto, excel 2003, analise de variância com probabilidade de 5% e o programa estatístico NTIA         desenvolvido pela Embrapa.

IV Resultados e discussão

– Fração de Weber (variável K)

Com base nos resultados obtidos na análise de variância para a variável K, todos os fatores estudados (barreira, movimento e espaçamento) apresentaram efeitos muito significativos (ao nível de 1% de probabilidade pelo teste F) sobre a percepção dos sujeitos estudados.

Na Tabela 1 são apresentadas as comparações de médias para os níveis dos fatores isoladamente. Os sujeitos que foram submetidos ao teste com barreira apresentaram maior percepção que os submetidos ao mesmo teste sem barreira, bem como quando os sujeitos realizaram o teste com o espaçamento de 2g apresentaram maior percepção que quando utilizaram espaçamento de 5g.

ModalidadesFração de Weber
Movimento dinâmico0,0617
Movimento estático0,0966
Com barreira0,0865
Sem barreira0,0719
Espaçamento de 2G0,0639
Espaçamento de 5G0,0945

Tabela 1 – Comparação para a fração de Weber (K) para os fatores barreira, movimento e espaçamento.

Observamos que os sujeitos submetidos ao teste com movimento apresentaram percepção maior do que os submetidos ao mesmo teste sem movimento, assim como foi melhor percebido os estímulos de 2g comparados aos estímulos de 5g (gráficos 1 e 2).

Figura 1: Gráfico dos valores médios da fração de Weber (k) nos julgamentos de peso na ausência de movimento (estático), ou com movimento (dinâmico).

Quanto ao movimento e à Fração de Weber, temos, entre as explicações para a participação muscular na discriminação de peso, Turvey et al (1999), que utilizaram as considerações de Gibson (1979), segundo o qual as propriedades físicas dos objetos estão relacionadas à chamada disposição do objeto.

A disposição do objeto na verdade corresponde às suas propriedades objetivas reais e físicas, que vão dar as diretrizes do comportamento do sujeito considerado em manipulá-lo. A partir disso, Turvey et al (1999) consideraram uma terceira hipótese, e excluíram as outras. Nesta nova hipótese, a percepção háptica de peso recorre à propriedade do objeto para um estado mental derivado. O peso é de fato considerado como um objeto, e a sua disposição confunde a percepção humana do peso de um objeto. Desta maneira, as bases físicas para a percepção háptica de peso apresentam considerações necessárias correlacionadas com o tensor de inércia do objeto (anteriormente descrita por Amazeen, & Turvey, 1996) e às forças requeridas para movimentá-lo; cotidianamente, interações com os objetos provocam forças e torques em direções e velocidades particulares; que levam em conta as resistências de qualquer determinado objeto para translação e rotação, gerando nos músculos estados elásticos que movem um objeto do modo desejado, de uma forma e uma maneira que satisfaçam estas exigências.

Uma das questões levantadas pelo nosso trabalho refere-se à variável k (fração de Weber). Weber em seus trabalhos de discriminação entre objetos encontrou uma relação constante simples: a diferença apenas percebida (dap), a qual distinguia objeto de comparação de um objeto padrão (Turvey et al., 1999). De acordo com Weber, não percebemos uma diferença entre pesos pelo toque a menos que um seja maior do que o outro; no mínimo a décima quinta ou trigésima parte (Ross & Di Lollo, 1970).

Para satisfazer o objetivo de verificar a “diferença apenas percebida” (dap), e se esta estava de acordo com o postulado por Weber, realizamos experimentos com espaçamentos de 5g e de 2g correspondentes à vigésima e qüinquagésima parte, respectivamente. De acordo com a literatura, era esperado que os indivíduos não conseguissem discriminar o peso com a diferença de 2g.

Entretanto, por meio dos nossos resultados (tabela 1), foi verificado que os participantes conseguiam perceber o peso com uma diferença de 2g, Mais do que isso, observa-se ao analisar o espaçamento de 2g, uma maior percepção do que quando utilizaram espaçamento de 5g (figura 2 e 3).

Figura 2: Freqüência das respostas para espaçamento de 5g.

Figura 3: Freqüência das respostas para espaçamento de 2g.

Entendemos que muitas questões teóricas ainda podem surgir a partir destes resultados, tais como: por que a fração de Weber é maior para 5g do que para 2g e, portanto, não foi uma constante como era de se esperar?

Uma explicação para tal fato decorre de que quando os participantes percebiam inicialmente estímulos com 5g, poderiam calibrar subjetivamente um nível perceptivo mais elevado, do que quando na seqüência eles eram submetidos a perceber estímulos de 2g. Esta diferença pode ter sido significativa para que os sujeitos percebessem melhor os estímulos com espaçamento de 2g.

Efeitos da barreira visual

Quando abrimos os olhos, cores e objetos são visualizados sem aparente esforço. Os antigos gregos foram os primeiros a considerar seriamente a percepção e verificaram que os olhos não veriam e os ouvidos não ouviriam sem representações internas cerebrais (Gregory, 1981).

Para James et al. (2001) a visão é a modalidade sensorial primária utilizada por humanos e outros primatas no reconhecimento de um objeto, embora sejamos capazes de discriminar forma, textura e outras características através da sensação do tato.

Segundo Lederman e Taylor (1969), a visão e o toque ativo têm características similares de percepção, embora o tato leve a mais erros do que a visão.

Assim, a correlação entre o peso real e o peso percebido é muito mais intrigante do que a função psicofísica faz parecer. Um sujeito apresentado a objetos com exatamente o mesmo peso, mas de volumes diferentes, percebe o peso declinar com o aumento do volume. A visualização dos objetos interfere na percepção háptica de peso (Turvey et al., 1999). A percepção visual pode influenciar a discriminação de peso, e é conhecida como ilusão peso-tamanho de Charpentier e é utilizada em muito trabalhos relacionados (Warren & Warren 1956; Ross & Di Lollo 1970; Jones, 1986; Amazeen, & Turvey, 1996; Turvey et al., 1999; Kawai, 2002a). A hipótese tradicional preconiza que o peso é percebido como estados mentais correspondendo ao peso e ao tamanho do objeto (Turvey et al., 1999).

Segundo Jones (1986), a pesagem do objeto não se refere apenas ao peso do objeto em si.

Kawai (2002b) realizou experimentos para testar a ilusão peso-tamanho que ocorre naturalmente. Em seus experimentos, ele verificou as contribuições do peso do objeto, seu tamanho háptico, e densidade para a percepção acurada de peso ou leveza nos processos de discriminação de diferenças de peso em pares de cubos com conflitos de sugestão, como aquele resultante da ilusão peso-tamanho. Para tanto, para quinze indivíduos com visão bloqueada era permitido agarrarem os cubos com as suas pontas dos dedos. Os dados obtidos do seu trabalho sugeriam que dois recursos diferentes, o peso e a informação da densidade, contribuíam ambos para a percepção de leveza. Assim, muito embora evidências a respeito da integração entre tamanho e peso por circuitos neurais do sistema nervoso central sejam raras, uma pessoa pode perceber a leveza com base de relações muito bem reguladas entre mudanças na densidade, tamanho e peso.

Para analisar tal condição, o experimento foi delineado de forma que os objetos comparados diferiam apenas em relação ao peso, e eram idênticos em tamanho, textura, densidade, cor, e etc. Então, enquanto um grupo de sujeitos era colocado em frente a uma barreira e não podiam visualizar os estímulos, outro grupo era apresentado a objetos exatamente iguais.

Este procedimento foi imaginado desta forma, pois queríamos verificar se realmente a percepção visual interfere no julgamento, e ainda se isto era devido apenas à ilusão peso-tamanho. Com a utilização de estímulos exatamente iguais em relação à cor, temperatura, volume e densidade, espera-se que a condição de ilusão peso-tamanho não ocorra. Mais ainda, se puramente a percepção visual tem papel na percepção dos objetos, deve existir uma diferença na discriminação quando se julgam objetos com ou sem barreira.

De acordo com Westwood e Goodale (2003), as características do objeto (como forma e orientação) são importantes tanto para o seu reconhecimento, quanto para a sua identificação, mas são também controlados por ações manuais. Existem evidências que sugerem uma dissociação no domínio háptico. Estes autores demonstraram que uma variação háptica da ilusão peso-tamanho influencia o tamanho percebido de um objeto alvo, mas não o grau com o qual a mão é aberta no movimento de segurar o objeto alvo. Isto demonstra que a ilusão peso-tamanho interfere também na discriminação de tamanho de um objeto, mas não na quantidade de movimento requerida para segurá-lo.

Ainda mais, para estes autores, os achados encontrados nos seus experimentos sugerem que dissociações entre ação e percepção não são dadas apenas pelo sistema visual, mas podem refletir um princípio referente à organização do processamento sensorial.

Como os estímulos eram apresentados exatamente da mesma maneira, a ocorrência da ilusão peso-tamanho não era esperada. Nos dados encontrados os participantes que foram submetidos ao teste sem barreira apresentaram maior percepção que os submetidos ao mesmo teste com barreira. À primeira vista, estes dados estão de acordo com a literatura, revelando que a condição visual influencia o julgamento de peso (Warren & Warren 1956; Ross & Di Lollo 1970; Jones, 1986; Amazeen, & Turvey, 1996; Turvey et al., 1999; Kawai, 2002a). De fato os dados obtidos corroboram o fator da ilusão peso-tamanho interferindo na percepção do peso, pois a percepção visual de estímulos morfologicamente iguais e com mesma densidade aumenta a percepção.

V Conclusões

Os resultados dos experimentos permitem afirmar que:

  1. A “diferença apenas percebida” (dap), não está de acordo com a fração de Weber, postulada em artigos encontrados na literatura;
  2. O espaçamento de 5g tem uma fração de Weber maior do que a 2g;
  3. A fração de Weber encontrada para ausência de movimento é menor do que aquela postulada por Weber;
  4. A participação muscular leva a uma maior percepção de peso por parte dos sujeitos pesquisados comparados aos sujeitos sem envolvimento muscular.
  5. A presença de barreira visual leva a uma menor percepção do peso comparado a ausência da barreira visual.

Além disso, mesmo um espaçamento de peso de 2g é suficiente para ser percebido. É evidente que muitas questões teóricas ainda podem surgir a partir destes resultados, tais como: por que a fração de Weber é maior para 5g? Quando os participantes percebiam inicialmente estímulos com 5g, poderiam calibrar subjetivamente um nível perceptivo mais elevado, do que quando na seqüência eles eram submetidos a perceber estímulos de 2g? Esta diferença pode ter sido significativa para que os sujeitos percebessem melhor os estímulos com espaçamento de 2g?

Para responder a esta questão, outros experimentos podem ser realizados a posteriori, com este estímulo de 5g, e espaçamentos menores e maiores, tais como 1g, 3g, 7g, 9g e uma quantidade de estímulos de comparação maior; ou ainda uma média destes valores.

Em resumo, podemos afirmar que a fração de Weber para discriminação de peso sem a utilização de movimento é menor do que 25%, conforme postulado até a presente data, a movimentação cinética aumenta a percepção de peso e a condição visual aumenta a percepção.

VI Referências

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Publicado por

A dignidade da pessoa humana com deficiência: reflexos práticos da acessibilidade enquanto direito fundamental

Resumo

Neste trabalho refletir-se-á acerca da questão da acessibilidade em perspectiva diferente da usual. Para tanto, serão questionados os critérios prevalecentes acerca da conceituação dos direitos fundamentais, utilizando o caso de uma estudante universitária, pessoa com deficiência, como fio condutor. Ao final, pretende-se apontar à necessidade de se repensar a c’x’concepção de direito fundamental enquanto direito positivado no texto constitucional como tal e, em seguida, construir os possíveis caminhos à resolução do caso concreto.

Abstract

This paper discuss the matter of accessibility of people with disabilities on a different perspective than usual. To do so, it’ll reflect about the criterias that constitute the fundamental rights using a case of a university student as object. Our main goals is to revaluate the traditional idea that a fundamental right is necessarily something described as it in the constitutional text, and afterwards, create possible solutions to resolve the lack of accessibility in the case.

Introdução

Aos 13 de dezembro de 2006, em comemoração ao 58º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Assembleia das Nações Unidas homologou a “Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência”. O Brasil, signatário da Convenção e de seu Protocolo Facultativo desde 30 de março de 2007, ratificou esses documentos em 2009, ano em que os promulgou mediante o Decreto nº 6.949, de 25 de agosto, internalizando-os com força de emenda constitucional na forma do art. 5, §3º, da Constituição Federal.

Com efeito, a política de “inclusão social” não é – nem poderia ser… – novidade no país, visto que remonta à Constituição Federal de 1988 (na redação originária: art. 1º, incs. II e III; art. 3º, incs. I e IV; art. 7º, inc. XXXI; art. 23, inc. II; art. 24, inc. XIV; art. 37, inc. VIII; art. 203, inc. IV e V; art. 208, inc. III e V; art. 227; e art. 244); e outros tantos diplomas normativos editados sob a sua égide, merecendo destaque: a Lei nº 7.853/89, regulamentada pelo Decreto nº 3.298/99; e a Lei nº 10.098/00, regulamentada pelo Decreto nº 5.296/04.

Para além da sua inquestionável constitucionalidade, a Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência (Dec. 6949/09) não pode cair num simbolismo, em sentido negativo[1]. De fato é indispensável reconhecer a fundamentalidade material dos preceitos nela estampados, dado que desvelados a partir da dignidade humana; direitos humanos que já estavam latentes na Constituição Federal.

A constatação da fundamentalidade de um direito tem inúmeros e importantes desdobramentos práticos. Neste trabalho, utilizando um caso concreto como fio condutor, pretendemos analisar alguns deles. Mas as reflexões não param por aí. Ainda na linha da acessibilidade, faremos um recuo para (re)discutir os critérios que destacam os direitos fundamentais dos demais direitos; e onde a questão da acessibilidade se situaria naquele universo.

1 O caso…

Em brevíssimo relato, tivemos conhecimento do caso de uma pessoa com deficiência auditiva, estudante universitária de instituição federal, a qual tem perda auditiva sensorioneural de grau severo (lado direito) e profundo (lado esquerdo), circunstância que a torna dependente de um aparelho amplificador ao exercício de suas atividades. Sobre as especificidades da deficiência auditiva congênita é importante esclarecer ao leitor que o aparelho auditivo não resolve/elimina a perda auditiva, mas, apenas e tão-somente, atua como um auxílio (uma tecnologia assistiva); nessa ordem de ideias, permite que a pessoa tenha algum acréscimo auditivo, mas sem eliminar a deficiência.

Na condição de um amplificador, o aparelho amplifica todos os sons ambientes indistintamente. Logo, faz com que todos os sons (inclusive os ruídos e outros sons distratores) sejam recebidos pela pessoa, o que, decerto, dificulta a compreensão/resolução das informações existentes em ambientes com muitas fontes sonoras, como é o caso de uma sala de aula. É preciso considerar que, numa sala de aula, para além do ruído de outros alunos, há o constante barulho do aparelho de ar condicionado e, a depender do isolamento acústico, da falta dele, o som ambiente ainda é afetado por diferentes barulhos externos, dentre outros.

Numa situação que tal – e faça-se a ressalva que não trabalhamos com a distinção dentre casos fáceis e casos difíceis –, não é suficiente buscar amparo normativo em atos infraconstitucionais e/ou infralegais a fim de verificar a importância que o tema mereceu pelo legislador e o administrador. Em verdade, não se acredita que as especificidades do caso concreto pudessem estar discriminadas – em abstrato – em comandos cogentes à administração pública em geral e, no particular, à instituição pública federal; em recuo, não se acredita que as soluções jurídicas possam ser extraídas dum sistema completo e harmônico[2].

A solução, pois, enceta na formação de um arcabouço teórico, em permanente diálogo ao caso, que permita, hermeneuticamente, a construção das possíveis soluções. É o que se propõe a fazer.

2 Acessibilidade

2.1 Do modelo de integração à inclusão social

A acessibilidade – termo que não permite graduação, isto é, toda acessibilidade é/deve-ser plena – diz respeito à eliminação da deficiência enquanto um ônus da pessoa, institucionalizando-se todas as medidas necessárias ao empoderamento da pessoa com deficiência, garantido-se-lhe a autonomia e independência necessárias à prática de todos os atos da vida social (profissional, educacional, lazer etc.). “A inclusão é uma visão, uma estrada a ser viajada, mas uma estrada sem fim, com todos os tipos de barreiras e obstáculos, alguns dos quais estão em nossas mentes e em nossos corações[3]”.

Em uma sociedade verdadeiramente inclusiva, a questão da inclusão social não seria uma bandeira. Em verdade, acredita-se que, hoje, essa bandeira esteja hasteada no lugar mais alto do mastro em virtude de continuarmos a viver numa sociedade que integra, mas não consegue incluir. Nessa perspectiva, a afirmação histórica de direitos seria uma constante – indispensável – até o momento em que essas conquistas dignificadas em atos normativos solenes, deixam apenas de serem reconhecidas, passando a serem adjudicadas aos titulares (“destinatários”). A partir de então, e de olho no princípio da vedação ao retrocesso, a temática assumiria um relevo histórico que jamais poderia ser desmerecido, avançando rumo à reflexão e ao galgar de novos direitos. Mas enquanto essas garantias não são adjudicadas, crescem as tensões sociais[4]; aumentam as demandas; generaliza-se a insatisfação. Assim, do ponto de vista histórico, por primeiro falou-se em acessibilidade física e, somente algum tempo após, a sociedade despertou à necessidade de acessibilidade comunicacional. Mas, permita-se a metáfora, construíram-se muitas rampas, olvidando/excluindo aqueles que usavam as escadas, e que precisam de instrumentos/ações mais sofisticados à inclusão social.

2.2 A questão da acessibilidade comunicacional

Para situar a importância da acessibilidade comunicacional, permita-se um exercício de reflexão: de que adiantaria garantir a acessibilidade física de uma pessoa com deficiência visual até uma biblioteca, se, aportando no ambiente a pessoa não tem acesso ao conteúdo dos livros por inexistir obras em braile ou em formato acessível (as obras existentes não foram transcritas ao braile – registrando a existência de equipamentos específicos para tanto –, tampouco foram digitalizadas); se o sistema de pesquisa de dados da biblioteca não permite qualquer acessibilidade, senão pressupondo que todo e qualquer pesquisador tenha o sentido da visão etc.? Onde estaria a igualdade de condições?

Noutro contexto, de que adiantaria garantir o acesso de uma pessoa com deficiência auditiva num concurso público mediante a política de quotas se, quando essa pessoa estiver em seu local de trabalho, enfrentar a completa carência das condições? Se a empresa não desenvolve trabalhos de conscientização dos funcionários, dando azo a que a pessoa com deficiência seja vítima de barreiras atitudinais no ambiente profissional?

Eis a importância da acessibilidade comunicacional, a qual, caso a caso, revela uma complexidade ainda maior. Antes da acessibilidade física, que também é essencial, avultam aspectos concernentes à autonomia da apreensão e do repasse de informações. Mesmo porque, por méritos próprios, é possível que a pessoa com deficiência supere as barreiras físicas dos ambientes. Contudo, no respeitante às barreiras comunicacionais, quando não impossível, decerto que a empresa se revela dificílima. É o que ocorre no caso utilizado como fio condutor, em que a estudante, em “interação com diversas barreiras”, enfrenta obstáculos que, comparados às pessoas sem deficiência, revelam-se desproporcionais[5].

2.3 A acessibilidade como direito fundamental

A princípio, interessante seria desmembrar os termos deste item para identificar, primeiramente, o que seria um direito fundamental e, em seguida, inserir o conceito de acessibilidade neste contexto. É salutar, ainda, apresentar um ponto de partida estreito, delimitando a discussão em uma linha condutora que aos poucos se alargue e permita a apreensão adequada do que aqui se pretende expor. Nesta senda, uma visão procedimental e dogmática dos direitos fundamentais – com o posterior alargamento da discussão – pode ser de grande utilidade.

Observando tal propósito, consideremos a seguinte definição:

Direitos fundamentais são direitos público-subjetivos de pessoas (físicas ou jurídicas), contidos em dispositivos constitucionais e, portanto, que encerram caráter normativo supremo dentro do Estado, tendo como finalidade limitar o exercício do poder estatal em face da liberdade individual.[6]

Tal visão é ainda complementada com a noção de eficácia horizontal dos direitos fundamentais, da qual se impõe o necessário respeito dos direitos fundamentais por todos os particulares, em uma relação “horizontalizada”[7].

Em suma, e de acordo com a transcrição supra, a tese é a de que os direitos fundamentais devem possuir força jurídica normativa provinda da constituição para possuírem tal caráter, buscando o afastamento da noção de direito natural, de valor moral.[8]

Preceitua-se que o surgimento dos direitos fundamentais depende de certos requisitos. Esses requisitos seriam: o Estado (moderno), enquanto aparelho centralizado que exerce poder para organizar a sociedade; o indivíduo, na condição de sujeito de direito, o qual seria independente e autônomo; e; o texto normativo, o qual regularia a relação entre Estado e indivíduos.[9]

Nesse diapasão, sendo esses direitos normas jurídicas que adquirem sua força normativa da Lex Mater brasileira – e também do chamado bloco de constitucionalidade – sua nomenclatura deveria se diferenciar dos vocábulos “direitos humanos”, reservados à seara dos tratados internacionais, e também dos “direitos naturais”[10]. Opta-se comumente pelo termo “direitos fundamentais”, embora outros possam lhe ser atribuídos.[11]

Quanto ao debate sobre as gerações ou dimensões dos direitos fundamentais, Dimoulis e Martins preferem o termo categorias de direitos fundamentais, pois a terminologia “geração” é objeto de críticas em virtude da conotação de substituição de uma geração pela subsequente, enquanto a nomenclatura “dimensões” importaria em considerar aspectos (dimensões) integrantes de um mesmo fenômeno. Para os referidos autores, entendê-los como categorias é o mais adequado, pois que se distinguiriam na seara jurídica, possuindo, para a dogmática, tratamentos distintos para sua finalidade e funcionamento.[12]

Com relação à problemática especificamente analisada no presente, percebe-se que tal discussão é tangencial, vez que nenhuma pertinência prática imediata se apresenta para discussão da acessibilidade enquanto direito fundamental. Cabendo a ressalva, entretanto, que tal direito à acessibilidade não é comumente atribuído a uma seara específica de determinada dimensão ou categoria de direito fundamental. Nas palavras de Barcellos: “a acessibilidade é uma pré-condição ao exercício dos demais direitos por parte das pessoas com deficiência” (BARCELLOS, Ana Paula de; CAMPANTE, Renata Ramos, 2012, p. 177).

Assim, o ponto nevrálgico da discussão acerca da acessibilidade é entendê-la como elemento imprescindível para conceber o exercício dos direitos fundamentais pelas pessoas com deficiência. Essa condição de possibilidade é bastante evidente, não havendo como assegurar os direitos fundamentais das pessoas com deficiência sem a contemplação da acessibilidade, também considerada enquanto direito fundamental.

Imperioso ressaltar que houve uma mudança substancial no conceito de deficiência, para considerá-lo não enquanto ônus pessoal, mas coletivo, sob uma óptica inclusiva – e não apenas integracionista –, realocando a ideia de acessibilidade a um papel central na discussão.[13] Isso ocorreu devido à própria evolução histórica da sociedade.

A problemática da acessibilidade e dos direitos fundamentais, como tudo, está sujeita à dimensão histórica, sendo necessário que haja a construção e consolidação destes direitos. No entanto, o que pode estar ocorrendo é que a noção a respeito destes direitos é adquirida por vias que não os concretizam inteiramente, por não os conceber de maneira adequada. Cediço que a simples positivação não efetiva qualquer direito fundamental.

Para ser explícito, caso o contexto não baste, direitos fundamentais são direitos considerados inerentes à dignidade humana, cujo manancial teórico provém da tradição concernente aos direitos humanos, que por sua vez figuraram enquanto substitutos dos direitos naturais – como mais à frente se demonstra.

Os marcos históricos imputados às conquistas dos direitos humanos – noção que antecede e atualmente convive com a de direitos fundamentais – são celebrados como divisores de água, dos quais se tem a impressão que todos os povos alcançados pela repercussão destes eventos absorveram integralmente os conteúdos imputados a estes direitos. Nas palavras de Saldanha:

Na medida em que uma determinada imagem histórica (nome, evento, coisa) adquire relevância dentro de uma visão globalizadora, ela tende a ser ‘universalizada’. Se um personagem histórico é mencionado de modo a sair do recinto de sua esfera empírica de ação, e tratado como representativo de um significado maior e mais geral do que essa esfera, ele se universaliza. Ele se estatui como exemplo e assume algo de símbolo.[14]

Tomando, à guisa de exemplo, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, percebemos isso de modo evidente. É indubitável a influência dessa declaração para as noções vindouras do conteúdo inerente ao homem. Morange define quatro características para tal declaração: transcendência, universalismos, individualismo e abstração.[15] Mas o problema ocasionado pelo universalismo é patente[16]; em nada contribui para a concretização da acessibilidade como direito fundamental. Mostrando os diferentes prismas por que passou a teoria dos direitos humanos, expõe Krohling:

Na matriz cultural greco-romano-medieval-cristã predominou a perspectiva jusnaturalista. Na cultura latino-cristã medieval, a visão teológica dominou. Na época moderna o jusnaturalismo racionalista substituiu em parte o discurso dos direitos naturais inatos. Na idade contemporânea, após 1815, surge a metodologia positivista formal. Só após o esgotamento dos paradigmas greco-romano medieval e empírico-racional-positivista é que, no estudo e pesquisa dos direitos humanos, se aprofundou a análise histórico-dialética, em que os direitos humanos são considerados processos histórico-culturais emancipadores e construções sociais.[17]

A respeito da força que os direitos humanos – assim também os direitos fundamentais, em específico o da acessibilidade – podem adquirir e influenciar na construção de uma sociedade mais saudável, não se discute[18]. É precisamente o processo histórico que determina a consolidação de posturas na sociedade. Contudo, sustentamos que a forma como a postura da proteção à acessibilidade enquanto direito fundamental é consolidada na sociedade faz toda a diferença, pois “a crença na possibilidade de proteção dos direitos […] mostrou-se irreal” [19], em virtude de que:

A comunidade dos direitos humanos é universal, porém imaginária; a humanidade universal não existe empiricamente e não pode atuar como um princípio transcendental filosoficamente. […] Um Estado que assina e aceita convenções e declarações de direitos humanos pode alegar ser um Estado de direitos humanos. Direitos humanos são, então, vistos como um discurso indeterminado de legitimação do Estado, ou como a retórica vazia da rebelião, discurso este que pode ser facilmente co-optado por todos os tipos de oposição, minoria ou líderes religiosos, cujo projeto político não é humanizar Estados repressivos, mas substituí-los por seus próprios regimes igualmente homicidas.[20]

Portanto, a dimensão histórica deve ser considerada, da mesma forma que o modo como pretendemos sedimentar a noção de acessibilidade e de direitos fundamentais precisa ser revisto e discutido.

2.4 Perspectiva da essência do homem como determinante para a consideração da fundamentalidade de seus direitos

Como dantes ressaltado, a dimensão histórica é inarredável para a concretização de direitos fundamentais. “A compreensão implica sempre uma pré-compreensão que, por sua vez, é prefigurada por uma tradição determinada em que vive o intérprete e que modela os seus preconceitos [conceitos anteriores].”[21] Não há como insistir no indivíduo solipsista.[22]

Quer-se dizer: o tema da acessibilidade e direitos fundamentais é considerado tomando-se por base tudo o que já nos foi apresentado sobre isso. O fato é que restou muito da noção de universalidade do conteúdo da dignidade do humano, alcançável pela racionalidade.[23] Então, em geral, a discussão cinge em uma problemática que tem por questionamento qual o conteúdo racionalmente ideal para se atribuir aos direitos fundamentais/humanos. Tal embate, entretanto, gera os extremos do universalismo e do relativismo.

Em nossa perspectiva, outro deve ser o sentido buscado para sedimentar a acessibilidade na construção histórica – e os direitos fundamentais a que as pessoas com deficiência podem exercer (titularizam) quando dispõem da acessibilidade. Parece-nos que não são os direitos fundamentais que possuem em si caráter ontológico determinado, mas sim o ser humano que possui uma essência que precisa ser contemplada em detrimento de uma universalidade metafísica.

Para Heidegger, produção de efeito é prerrogativa do agir, cuja essência é o consumar. Este último conceito significaria levar alguma coisa à própria plenitude de sua essência. Em suas palavras: “o pensar consuma a relação do ser com a essência do homem”. Assim, o pensar leva à relação do ser com a essência do homem à plenitude. E é através do pensar que o ser tem acesso à linguagem.[24]

A linguagem é o que permite o acesso do homem ao mundo construído pela sociedade, e sua consequente inclusão. É com o domínio da dimensão da linguagem (entendida latu sensu) que o humano participa da realidade compartilhada por seus semelhantes. Em Gadamer: “a linguagem forma a base de tudo o que constitui o homem e a sociedade.” [25]

Aí residiria a busca pela humanidade do homem! [26]

Buscar a humanidade do homem no humanismo, para Heidegger, é fadá-la à metafísica e distanciar o homem da possibilidade de relacionar-se com seu ser ao pensar – o que privilegiaria de fato a sua humanidade. O filósofo demonstra que a metafísica leva tanto ao universalismo quanto ao relativismo[27]. Segue explanando que:

Todo o humanismo se funda ou numa Metafísica ou ele mesmo se postula como fundamento de uma tal metafísica. Toda a determinação da essência do homem que já pressupõe a interpretação do ente, sem a questão da verdade do ser, e o faz sabendo ou não sabendo, é Metafísica.

Os direitos fundamentais, com base na historicidade dos direitos humanos (direitos naturais), são metafísica. Existe uma imagem de que estes direitos são transcendentais e devem conformar a realidade social. O que nos parece um direcionamento mais apropriado é partir não dos direitos em si, mas da essência do humano, para observar qual direito é verdadeiramente fundamental à sua humanidade.

Com Heidegger, podemos entender que para conectar com plenitude o ser à essência do homem, é necessário sua inclusão total na dimensão linguística, isto só pode ser feito garantindo às pessoas a acessibilidade aos meio, que ainda não está acessível. Os direitos que possibilitem ao homem chegar a este desiderato contemplam sua essência e, por tal motivo, são fundamentais. A acessibilidade é conceito chave, pois é o instrumento que permitirá tudo isto.

A acessibilidade é fundamental – e a este ponto fica extremamente vívido – em virtude de ser imprescindível para que o humano, que antes não tinha acesso aos meios que lhe permitissem compartilhar em sua plenitude a vida construída por seus semelhantes, detenha a possibilidade de buscar com plenitude sua humanidade.

Considerações finais: dos desdobramentos da acessibilidade enquanto direito fundamental

Somente com base nas premissas anteriores é possível construir as soluções que permitam a concretização do direito fundamental à acessibilidade no caso concreto, com as reflexões centradas mais na pessoa que, propriamente, em aspectos transcendentes; a partir daí é possível satisfazer a – plena – inclusão social. É o que fazemos adiante, em considerações finais articuladas. Assim:

I – No caso concreto, afigura-se um dever da instituição pública federal adquirir um sistema de frequência modulada, dada a indispensabilidade do recurso tecnológico para que a estudante possa assistir às aulas, assegurando-se a acessibilidade comunicacional. Esse desdobramento também pode ser alicerçado no art. 14, inc. VIII, do Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Por meio desse sistema, o aparelho seria utilizado por todos os professores durante as aulas, permitindo que a estudante captasse a voz do professor diretamente, minimizando os demais ruídos distratores.

II – Também é um dever da administração pública federal disponibilizar um copista em caráter integral. Inclusive, o copista deve ser alguém familiarizado com o curso da estudante, pois só então terá o domínio da mesma linguagem, e poderá desempenhar a sua função a contento. A figura do copista seria indispensável para garantir que a estudante pudesse dedicar toda a sua atenção ao acompanhamento das aulas, sem o que fica prejudicada, como são nítidos os déficits de conhecimento já registrados ao longo do curso.

III – A administração pública também não deveria se furtar da disponibilização de um tutor, cuja função seria a de auxiliar a estudante em suas atividades acadêmicas, sobretudo nos estudos fora da sala de aula. É importante notar que essas questões são indispensáveis para que a estudante possa desenvolver a plenitude de suas potencialidades, com os olhos voltados na sua futura inserção/inclusão social no mercado de trabalho.

IV – Na esteira da isonomia, não há como sustentar que os critérios de correção da prova dessa estudante sejam os mesmos utilizados para todos os demais alunos. A correção deve priorizar a semântica, o que, de resto, foi objeto de regulamentação no art. 2º, inc. III, “b”, da Portaria nº 3.284, de 7 de novembro de 2003, do Ministério da Educação[28]. Mas esse ato infralegal clama por uma releitura constitucional, quando menciona o “compromisso formal da instituição, no caso de vir a ser solicitada”. Como registramos alhures, com o advento da Convenção, a deficiência se tornou um ônus dos ambientes, não mais da pessoa (existente no superado modelo que pregava a integração, anterior ao modelo de inclusão social). Por conseguinte, não faz sentido condicionar a adequação (recursos de tecnologia assistiva) a qualquer solicitação. Os ambientes, sejam públicos, sejam privados de acesso público, devem estar adaptados às pessoas; e não o contrário. No mesmo contexto, a instituição pública deverá disponibilizar sala para estudo (sala provida de recursos de tecnologia assistiva) para atender qualquer pessoa com deficiência sensorial;

V – A inclusão social também se faz presente na desconsideração do histórico de notas da Autora para efeito de monitoria ou iniciação científica, em virtude da falta de acessibilidade [equiparação de oportunidades e igualdade de condições, garantida pela Convenção (Preâmbulo, “v”; e no já transcrito artigo 24), e prevista pelo Decreto nº 3.298/99 (art. 15, inciso II e III)]. Somente dessa forma seria possível garantir que a estudante tivesse condições em concorrer com os demais.

Referências bibliográficas

BARCELLOS, Ana Paula de; CAMPANTE, Renata Ramos. A acessibilidade como instrumento de promoção de direitos fundamentais. In: Manual dos direitos da pessoa com deficiência. Coord: FERRAZ, Carolina V.; LEITE, George Salomão; LEITE, Glauber Salomão; e; LEITE, Glauco Salomão. São Paulo: Editora Saraiva, 2012.
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STRECK, Lênio Luiz. Verdade e consenso: constituição, hermenêutica e teorias discursivas. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2012.

Nota de rodapé

[1] NEVES, Marcelo. A constitucionalização simbólica. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 95.
[2] HABERMAS, Jürgen. La lógica de las ciencias Sociales. Trad. Manuel Jiménez Redondo. 3. ed. Madrid: Editorial Tecnos, 1996, p. 25 e ss. CORDEIRO, António Menezes. “Introdução à edição portuguesa.” CANARIS, Claus-Wilhelm. Pensamento sistemático e conceito de sistema na ciência do direito. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, p. XX e ss. LARENZ, Karl. Metodología de la ciencia del derecho. 2. ed. Trad. Marcelino Rodríguez Molinero. Barcelona: Ariel, 1980, p. 442 e ss.
[3] MITTLER, Peter. Educação inclusiva: Contextos sociais. Porto Alegre: Artmed, 2003, p. 21.
[4] “O que nos parece é que a utilidade está, sobretudo, em evitar-se – ou ao menos minimizar – as tensões sociais provocadas pelos conflitos de interesses, pelas carências adjudicadas por meio das declarações solenes de direitos (fundamentais) prestacionais que, em sua contrafactualidade, referem solenemente a direitos sem que nada de concreto se possa assegurar e que foram reforçados como expectativas decorrentes da “Constituição Cidadã”…
“É que a ausência de realização dessas declarações solenes que se referem às necessidades mais elementares de grupos sociais mais ou menos largos somada à falsa perspectiva criada em toda a Nação tende à permanência das tensões que alteram os fluxos de vida societária tornando frouxas as fibras sociais e políticas da societas cum imperium nacional”. ROCHA, José Elias Dubard de Moura. Interesses coletivos: ineficiência de sua tutela judicial. Curitiba: Juruá, 2003, p. 14.
[5] Na dicção do artigo1, “Propósito”, da Convenção sobre as Pessoas com Deficiência: “O propósito da presente Convenção é promover, proteger e assegurar o exercício pleno e eqüitativo de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais por todas as pessoas com deficiência e promover o respeito pela sua dignidade inerente.
“Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas.”
[6] DIMOULIS, Dimitri; MARTINS, Leonardo. Teoria geral dos direitos fundamentais. 3ª ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2011, p. 49.
[7] Algo que guarda relação com a concepção de que as relações do particular com o Poder Público sejam verticais, dos cidadãos entre si sejam horizontais. Relações de subordinação, no primeiro caso, e de coordenação, no segundo.
[8] O termo direito fundamental é sinônimo do termo ‘direito que possui força jurídica constitucional’”. DIMOULIS, Dimitri; MARTINS, Leonardo. Op. Cit., p. 49.
[9] DIMOULIS, Dimitri; MARTINS, Leonardo. Op. Cit., p. 22-24.
[10] Já há algum tempo está esvaziada a discussão dentre direito natural e direito positivo. Sobre o tema, cf. SALDANHA, Nelson. Filosofia do direito. 2. ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Renovar, 2005, p. 200. Também em Tércio Sampaio Ferraz Jr., o qual tributa o “enfraquecimento operacional da dicotomia” na “positivação” do direito natural pela promulgação constitucional dos direitos fundamentais, bem assim a sua proliferação (de direitos individuais para direitos sociais, políticos, econômicos etc.) gerou a sua trivialização. Cf. FERRAZ JR., Tércio Sampaio. Introdução ao estudo do direito: técnica, decisão e dominação. 4. ed. rev. e ampl. São Paulo: Atlas, 2003, p. 171.
[11] “Excetuando-se as expressões “direitos naturais” e “direitos humanos”, que não são adequadas para os propósitos do presente estudo, já que não indicam os direitos positivados na Constituição, mas sim os direitos pré-positivos (direitos naturais) ou suprapositivos (direitos humanos), não há uma única terminologia correta.” DIMOULIS, Dimitri; MARTINS, Leonardo. Op. Cit., p. 48.
[12] DIMOULIS, Dimitri; MARTINS, Leonardo. Op. Cit., p. 32-33.
[13] BARCELLOS, Ana Paula de; CAMPANTE, Renata Ramos. A acessibilidade como instrumento de promoção de direitos fundamentais. In: Manual dos direitos da pessoa com deficiência. Coord: FERRAZ, Carolina V.; LEITE, George Salomão; LEITE, Glauber Salomão; e; LEITE, Glauco Salomão. São Paulo: Editora Saraiva, 2012, p. 175-176.
[14] BARCELLOS, Ana Paula de; CAMPANTE, Renata Ramos. Op Cit., p. 177.
[15] “A transcendência: […] A Assembléia Nacional não tem a intenção de fazer obra criadora. Ela ‘reconhece e declara, em presença e sob os auspícios do Ser Supremo, os direitos… do homem e do cidadão’. […] O universalismo: os direitos proclamados são aqueles do Homem e do Cidadão e não apenas os dos cidadãos franceses de 1789. Eles valem para todo ser humano. O individualismo: […] Teme-se que os grupos sufoquem o indivíduo e, seguindo o raciocínio de Rousseau, prejudiquem a formação da vontade geral. O indivíduo, ser genérico e não ‘situado’, vê-se conferir direitos abstratos. A abstração: a Assembléia Nacional expõe os princípios de liberdade, de igualdade, de segurança e do direito de propriedade. Estes não são submetidos a nenhuma finalidade.” MORANGE, Jean. Direitos Humanos e Liberdades Públicas. 5ª edição. São Paulo: Manole, 2004, p. 11.
[16] “O universalismo estava ancorado no naturalismo jusnaturalista teológico ou racionalista”. KROHLING, Aloísio. Op. Cit., p. 103.
[17] KROHLING, Aloísio. Direitos Humanos Fundamentais. Diálogo intercultural e democracia. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 2010, p. 98.
[18] “Os direitos constituem um reconhecimento formal do fato de que antes da minha subjetividade (jurídica) sempre e já existia outra. Relacionado a isso está o reconhecimento de que os direitos humanos possuem a capacidade de produzir novos mundos, ao continuamente empurrar e expandir os limites da sociedade, da identidade e da lei.” DOUZINAS, Costas. O fim dos direitos humanos. São Leopoldo: Editora UNISINOS, 2007, p. 349.
[19] “A transformação mais evidente na transição dos direitos naturais para humanos foi a substituição de sua base filosófica e de suas origens institucionais. A crença na possibilidade de proteção dos direitos, fosse por intermédio do ajuste automático das prerrogativas da natureza humana e da ação das instituições jurídicas, ou por intermédio das advinhações legislativas da soberania popular, mostrou-se irreal.” DOUZINAS, Costas. Op. Cit., p. 127.
[20] DOUZINAS, Costas. Op. Cit., p. 129.
[21] GADAMER, Hans-Georg. O problema da consciência histórica. 3ª ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009, p. 13.
[22] Sobre o tema, ver as críticas de: STRECK, Lênio Luiz. Verdade e consenso: constituição, hermenêutica e teorias discursivas. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2012, passim.
[23] Com relação a teorias que universalizam o conteúdo desta essência, critica Heidegger: “Não há dúvida de que há muito se desconfia dos ‘ismos’. Mas o mercado da opinião pública exige constantemente novos”. HEIDEGGER, Martin. Carta sobre o humanismo. 2ª ed. São Paulo; Centauro Editora, 2010, p. 11.
[24] HEIDEGGER, Martin. Op. Cit., p. 7-8.
[25] GADAMER, Hans-Georg. Op. Cit., p. 14.
[26] “Linguagem é advento iluminador-velador do próprio ser”.HEIDEGGER, Martin. Op. Cit., p. 28.
[27] “Se, porém, por humanismo se entende, de modo geral, o empenho para que o homem se torne livre para a sua humanidade, para nela encontrar a sua dignidade, então o humanismo distingue-se, em cada caso, segundo a concepção da liberdade e da natureza do homem. Distinguem-se, então, do mesmo modo, as vias para a sua realização.” Porém, isto não funciona, pois é dizer que a “humanitas do homo humanus é determinada a partir do ponto de vista de uma interpretação fixa da natureza, da história, do mundo e do fundamento do mundo, isto é, do ponto de vista do ente na sua totalidade”. HEIDEGGER, Martin. Op. Cit., p. 19-20.
[28] “III – quanto a alunos portadores de deficiência auditiva, compromisso formal da instituição, no caso de vir a ser solicitada e até que o aluno conclua o curso: […]; b) de adotar flexibilidade na correção das provas escritas, valorizando o conteúdo semântico; […].”

Publicado por

  • Mateus Costa Pereira

    Mestre em Direito Processual pela Universidade Católica de Pernambuco – Unicap. Professor Assistente da Unicap. Sócio Fundador da Associação Norte Nordeste de Professores de Processo – ANNEP. Coautor de Blog sobre a inclusão social da pessoa com deficiência (www.direitoparatodos.associadosdainclusão.com.br). Advogado em Recife e Brasília.View all article by Mateus Costa Pereira
  • Pedro Spíndola Bezerra Alves

    Mestrando em Direito pela Faculdade de Direito do Recife FDR-UFPE. AdvogadoView all article by Pedro Spíndola Bezerra Alves

Áudio-descrição na “Carta de Pero Vaz de Caminha”

Resumo

O presente texto apresenta a áudio-descrição extraída da descrição feita dos índios e índias encontrados, pela primeira vez, por Pedro Alvares Cabral, quando do descobrimento do Brasil, no relato de Pero Vaz de Caminha.

Introdução

A “Carta do Achamento do Brasil”, popularmente conhecida como a “carta de Pero Vaz de Caminha” foi produzida por este escrivão na viagem do “descobrimento” do Brasil no ano de 1500 (confira mais à frente a transcrição integral da Carta de Pero Vaz de Caminha).

Ordenado por Dom Manuel I, rei de Portugal, o escrivão Pero Vaz de Caminha ficou responsável por registrar toda a excursão marítima, a fim de manter o rei informado.

Assim, entre 26 de abril e 2 de maio de 1500, em Porto Seguro, Pero Vaz escreveu a “Carta do Achamento do Brasil”, interrompendo o trabalho apenas no dia 29, quando ajudou o capitão-mor a reorganizar os suprimentos da frota.

Naquele contexto histórico, a carta foi tratada como documento secreto para que a notícia de novas terras descobertas não viesse a ser passada aos espanhóis.

Em 1773 o diretor do arquivo nacional de Lisboa, José Sebra da Silva, quando foi transferido para o Brasil, acompanhando a Família Real, trouxe consigo uma cópia da carta.

Apenas em 1817 aquele documento foi encontrado no arquivo da marinha nacional e tornou-se público.

Para o Brasil este documento é de grande importância, pois no século XX esses tipos de registros foram considerados fontes privilegiadas de conhecimento histórico das sociedades.

Notas proêmias

O presente texto é o resultado de um exercício para estudar a diferença entre descrição e áudio-descrição, proposto na disciplina de áudio-descrição do curso de Rádio, TV e Internet, cadeira ministrada pelo professor Francisco Lima no Centro de Artes e Comunicação (CAC/UFPE).

A proposta do trabalho era o estudo da carta de Pero Vaz de Caminha, a fim de retirar dela descritivos que pudessem formar uma áudio-descrição dos índios e índias encontrados pelos portugueses ao aportarem nas terras brasileiras, recém-descobertas.

Segundo solicitado pelo exercício, portanto, a áudio-descrição deveria manter, ao máximo, os vocábulos de época, assim como as construções linguísticas empregadas no documento.

Todavia, para efeito do exercício, fez-se em alguns casos, por exemplo, o uso de generalizações do que era descrito de apenas um índio ou índia.

Assim, a áudio-descrição, aqui apresentada, não é uma transcrição literal da descrição do autor, mas uma elaboração a partir do texto original, uma adaptação ou releitura áudio-descritiva da obra, se o leitor, assim o quiser.

Descreve Pero Vaz de Caminha em sua carta ao Rei de Portugal:

“Os índios desta terra são pardos, um pouco avermelhados, saudáveis, gordos e limpos..”

Todavia, fosse o escrivão áudio-descrever os índios Brasileiros de então, ele poderia ter escrito:

Áudio-descrição de índios e índias, quando descoberto o Brasil

Os índios Brasileiros têm rostos arredondados, boas feições faciais e narizes bem feitos. Eles andam nus, tem o corpo com poucos pelos, alguns nem mesmo os têm nas sobrancelhas e cílios.

Os índios brasileiros apresentam-se pintados com tinta vermelha por quase todo o corpo, exceto na barriga. Adornam-se com penas de cores vermelhas, amarelas e verdes. Alguns Índios andam com um dos lados do corpo todo pintado com tinta preta azulada, outros com os troncos e pernas tingidos de vermelho e preto. Os Índios idosos igualmente enfeitam-se com muitas penas pelo corpo..

Os índios brasileiros têm cabelos lisos, de tosquia alta antes do que sobre-pente, Alguns trazem uma longa cabeleira feita de penas amarelas e os jovens têm cabelos muito lisos e raspados até por cima das orelhas.

As testas deles são pintadas com tinta preta em tom azulado, como uma fita da largura de dois dedos.

Atravessados nos lábios inferiores, os índios brasileiros usam espelhos de pau e pedaços de ossos brancos, grossos e pontudos. Alguns dos índios trazem três bicos, um no meio e dois nos cabos. O beiço de um índio idoso estava tão furado que lhe cabia pelo buraco um grosso dedo polegar, metido nele, estava uma pedra verde, que fechava por fora o orifício.

Os índios andam com os braços levantados para frente na altura dos ombros, com arco e flechas nas mãos.

As partes íntimas do corpo dos índios ficam à mostra e são bem raspadas e sem circuncisão.

As índias brasileiras andam nuas, tem cabelos muito pretos e compridos pelas espáduas. São esbeltas e andam com o corpo todo tingido: O quadril e as nádegas, As coxas e os joelhos e, por vezes, até o colo dos pés são pintados de preto também. As vergonhas delas são altas, cerradinhas e limpas das cabeleiras.

Os filhos e filhas das índias são pendurados por um pano, quando elas os trazem ao colo, ficando apenas as pernas deles de fora.

Áudio-descrição da Ilustração:

Índio de cocar grande com penas amarelas e verdes, pintado de vermelho da testa até a altura do nariz, e daí até o queixo tingido de preto, exceto o entorno da boca. O índio tem olhos pretos, pequenos e amendoados, o nariz afilado, boca grande e lábios grossos.

Ilustração extraída de: guiadicas.net/tribos-de-indios-no-brasil

Transcrição integral do documento: www.projetomemoria.art.br/PedroAlvaresCabral/docs

Carta de Pero Vaz de Caminha

Escrivão da frota de Cabral, Pero Vaz de Caminha redigiu esta carta ao rei d. Manuel para comunicar-lhe o descobrimento das novas terras. Datada de Porto Seguro, no dia 1º de maio de 1500, foi levada a Lisboa por Gaspar de Lemos, comandante do navio de mantimentos da frota; é o primeiro documento escrito da nossa história.

Senhor:

Posto que o capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães, escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que nesta navegação agora se achou, não deixarei também de dar minha conta disso a Vossa Alteza, o melhor que eu puder, ainda que, para o bem contar e falar, o saiba fazer pior que todos. Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para alindar nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu. Da marinhagem e singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza, porque o não saberei fazer, e os pilotos devem ter esse cuidado. Portanto, Senhor, do que hei de falar começo e digo:

A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi, segunda-feira, 9 de março. Sábado, 14 do dito mês, entre as oito e as nove horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grã-Canária, onde andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, ou melhor, da ilha de S. Nicolau, segundo o dito Pero Escolar, piloto.

Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com sua nau, sem haver tempo forte nem contrário para que tal acontecesse. Fez o capitão suas diligências para o achar, a uma e outra parte, mas não apareceu mais. E assim seguimos nosso caminho por este mar, de longo, até que, terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram vinte e um dias de abril, estando da dita ilha obra de 660 léguas, segundo os pilotos diziam, topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam fura-buxos. Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome, o Monte Pascoal, e à terra, a Terra da Vera Cruz.

Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças; e, ao sol posto, obra de seis léguas da terra, surgimos âncoras, em dezenove braças — ancoragem limpa. Ali permanecemos toda aquela noite. E à quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos direitos à terra, indo os navios pequenos diante, por dezessete, dezesseis, quinze, quatorze, treze, doze, dez e nove braças, até a meia légua da terra, onde todos lançamos âncoras em frente à boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas pouco mais ou menos. Dali avistamos homens que andavam pala praia, obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos, por chegarem primeiro. Então lançamos fora os batéis e esquifes; e vieram logo todos os capitães das naus a esta nau do capitão-mor, onde falaram entre si. E o capitão-mor mandou em terra no batel a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou de ir para lá, acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao chegar o batel à boca do rio, já ali havia dezoito ou vinte homens.

Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijamente sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram. Ali não pôde deles haver fala, nem entendimento de proveito, por o mar quebrar na costa. Deu-lhes somente um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça e um sombreiro preto. Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal grande de continhas brancas, miúdas, que querem parecer de aljaveira, as quais peças creio que o capitão manda a Vossa Alteza, e com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.

Na noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar as naus, e especialmente a capitania. E sexta pela manhã, às oito horas pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o capitão levantar âncoras e fazer vela; e fomos ao longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados à popa na direção do norte, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nos demorássemos, para tomar água e lenha. Não que nos minguasse, mas por aqui nos acertamos. Quando fizemos vela, estariam já na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali poucos e poucos. Fomos de longo, e mandou o capitão aos navios pequenos que seguissem mais chegados à terra e, achassem pouso seguro para as naus, que amainassem. E, velejando nós pela costa, acharam os ditos navios pequenos, obra de dez léguas do sítio donde tínhamos levantado ferro, um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram.

As naus arribaram sobre eles; e um pouco antes do sol posto amainaram também, obra de uma légua do recife, e ancoraram em onze braças. E estando Afonso Lopes, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, por mandado do capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meteu-se logo no esquife a sondar o porto dentro; e tomou dois daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos, que estavam numa almadia. Um deles trazia um arco e seis ou sete setas; e na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas de nada lhes serviram. Trouxe-os logo, já de noite, ao capitão, em cuja nau foram recebidos com muito prazer e festa.

A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Não fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros, do comprimento duma mão travessa, da grossura dum fuso de algodão, agudos na ponta como furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita como roque de xadrez, ali encaixado de tal sorte que não os molesta, nem os estorva no falar, no comer ou no beber. Os cabelos seus são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta, mais que de sobre-pente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas.

E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena e pena, com uma confeição branda como cera (mas não era), de maneira que a cabeleira ficava mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.

O capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia, e nós outros que aqui na nau com ele vamos, sentados no chão, pela alcatifa.

Acenderam-se tochas.

Entraram. Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao capitão nem a ninguém. Porém um deles pôs olho no colar do capitão, e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal como se lá também houvesse prata. Mostraram-lhes um papagaio pardo que o capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram-lhes um carneiro: não fizeram caso. Mostraram-lhes uma galinha; quase tiverem medo dela: não lhe queriam pôr a mão; e depois a tomaram como espantados. Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados. Não quiserem comer quase nada daquilo; e, se alguma coisa provaram, logo a lançavam fora. Trouxeram-lhes vinho numa taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes água em uma albarrada. Não beberam. Mal a tomaram na boca, que lavaram, e logo a lançaram fora. Viu um deles umas contas de rosário, brancas; acenou que lhes dessem, folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e de novo para as contas e para o colar do capitão, como dizendo que dariam ouro por aquilo. Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos. Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não o queríamos nós entender, porque não lho havíamos de dar. E depois tornou as contas a quem lhe dera. Então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir, sem buscarem maneira de encobrir suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas. O capitão lhes mandou pôr por baixo das cabeças seus coxins; e o da cabeleira esforçava-se por a não quebrar. E lançaram-lhes um manto por cima; e eles consentiram, quedaram-se e dormiram.

Ao sábado pela manhã mandou o capitão fazer vela, e fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e alta de seis a sete braças. Entraram todas as naus dentro; e ancoraram em cinco ou seis braças — ancoragem dentro tão grande, tão formosa e tão segura que podem abrigar-se nela mais de duzentos navios e naus. E tanto que as naus quedaram ancoradas, todos os capitães vieram a esta nau do capitão-mor. E daqui mandou o capitão a Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias que fossem em terra e levassem aqueles dois homens e os deixassem ir com seu arco e setas, e isto depois que fez dar a cada um sua camisa nova, sua carapuça vermelha e um rosário de contas brancas de osso, que eles levaram nos braços, seus cascavéis e suas campainhas. E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de D. João Telo, a que chamam Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho.

Fomos assim de frecha direitos à praia. Ali acudiram logo obra de duzentos homens, todos nus, e com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós levávamos acenaram-lhes que se afastassem e pousassem os arcos; e eles os pousaram, mas não se afastaram muito. E mal pousaram os arcos, logo saíram os que nós levávamos, e o mancebo degredado com eles. E saídos não pararam mais; nem esperava um pelo outro, mas antes corriam a quem mais corria. E passaram um rio que por ali corre, de água doce, de muita água que lhes dava pela braga; e outros muitos com eles. E foram assim correndo, além rio, entre umas moitas de palmas onde estavam outros. Ali pararam. Entretanto foi-se o degredado com um homem que, logo ao sair do batel, o agasalhou e levou até lá. Mas logo tornaram a nós; e com ele vieram os outros que nós leváramos, os quais vinham já nus e sem carapuças. Então se começaram de chegar muitos. Entravam pela beira do mar para os batéis, até que mais não podiam; traziam cabaços de água, e tomavam alguns barris que nós levávamos; enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis. Não que eles de todo chegassem à borda do batel. Mas junto a ele, lançavam os barris que nós tomávamos; e pediam que lhes dessem alguma coisa.

Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas. E a uns dava um cascavel, a outros uma manilha, de maneira que com aquele engodo nos queriam dar a mão. Davam-nos daqueles arcos e setas por sombreiros e carapuças de linho ou por qualquer coisa que homem lhes queria dar. Dali se partiram os outros dois mancebos, que os não vimos mais.

Muitos deles ou quase a maior parte dos que andavam ali traziam aqueles bicos de osso nos beiços. E alguns, que andavam sem eles, tinham os beiços furados e nos buracos uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha; outros traziam três daqueles bicos a saber, um no meio e os dois nos cabos. Aí andavam outros, quartejados de cores, a saber, metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, a modos de azulada; e outros quartejados de escaques. Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha. Ali por então não houve mais fala nem entendimento com eles, por a berberia deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém.

Acenamos-lhes se fossem; assim o fizeram e passaram-se além do rio. Saíram três ou quatro homens nossos dos batéis, e encheram não sei quantos barris de água que nós levávamos e tornamo-nos às naus. Mas quando assim vínhamos, acenaram-nos que tornássemos. Tornamos e eles mandaram o degredado e não quiseram que ficasse lá com eles. Este levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá as dar ao senhor, se o lá houvesse. Não cuidaram de lhe tirar coisa alguma, antes o mandaram com tudo. Mas então Bartolomeu Dias o fez outra vez tornar, ordenando que lhes desse aquilo. E ele tornou e o deu, à vista de nós, àquele que da primeira vez o agasalhara. Logo voltou e nós trouxemo-lo. Esse que o agasalhou era já de idade, e andava por louçainha todo cheio de penas, pegadas pelo corpo, que parecia asseteado como S. Sebastião. Outros traziam carapuças de penas amarelas; outros, de vermelhas; e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida, de baixo a cima daquela tintura; e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa, que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela. Nenhum deles era fanado, mas todos assim como nós. E com isto tornamos e eles foram-se.

À tarde saiu o capitão-mor em seu batel com todos nós outros e com os outros capitães das naus em seus batéis a folgar pela baía, em frente da praia. Mas ninguém saiu em terra, porque o capitão o não quis, sem embargo de ninguém nela estar. Somente saiu — ele com todos nós — em um ilhéu grande, que na baía está e que na baixa-mar fica mui vazio. Porém é por toda a parte cercado de água, de sorte que ninguém lá pode ir a não ser de barco ou a nado. Ali folgou ele e todos nós outros, bem uma hora e meia. E alguns marinheiros, que ali andavam com um chinchorro, pescaram peixe miúdo, não muito.

Então volvemo-nos às naus, já bem de noite.

Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o capitão de ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu. Mandou a todos os capitães que se aprestassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou naquele ilhéu armar um esperável, e dentro dele um altar mui bem corregido. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual foi dita pelo padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes, que todos eram ali. A qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.

Ali era com o capitão a bandeira de Cristo, com que saiu de Belém, a qual esteve sempre levantada, da parte do Evangelho. Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação da história do Evangelho, ao fim da qual tratou da nossa vinda e do achamento desta terra, conformando-se com o sinal da Cruz, sob cuja obediência viemos, o que foi muito a propósito e fez muita devoção.

Enquanto estivemos à missa e à pregação, seria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos como a de ontem, com seus arcos e setas, a qual andava folgando. E olhando-nos, sentaram-se. E, depois de acabada a missa, assentados nós à pregação, levantaram-se muitos deles, tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e a dançar um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias — duas ou três que aí tinham — as quais não são feitas como as que eu já vi; somente são três traves, atadas entre si. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra, senão enquanto podiam tomar pé.

Acabada a pregação, voltou o capitão, com todos nós, para os batéis, com nossa bandeira alta. Embarcamos e fomos todos em direção à terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo, na dianteira, por ordem do capitão, Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar levara, para lho dar; e nós todos, obra de tiro de pedra, atrás dele. Como viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pousassem os arcos; e muitos deles os iam logo pôr em terra; e outros não. Andava aí um que falava muito aos outros que se afastassem, mas não que a mim que parecesse que lhe tinham acatamento ou medo. Este que os assim andava afastando trazia seu arco e setas, e andava tinto de tintura vermelha pelos peitos, espáduas, quadris, coxas e pernas até baixo, mas os vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor. E a tintura era assim vermelha que a água a não comia nem desfazia, antes, quando saía da água, parecia mais vermelha. Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava entre eles, sem implicarem nada com ele para fazer-lhe mal. Antes lhe davam cabaças de água, e acenavam aos do esquife que saíssem em terra. Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao capitão; e viemo-nos às naus, a comer, tangendo gaitas e trombetas, sem lhes dar mais opressão. E eles tornaram-se a assentar na praia e assim por então ficaram.

Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e pregação, a água espraia muito, deixando muita areia e muito cascalho a descoberto. Enquanto aí estávamos, foram alguns buscar marisco e apenas acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um tão grande e tão grosso, como em nenhum tempo vi tamanho. Também acharam cascas de berbigões e ameijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira. E tanto que comemos, vieram logo todos os capitães a esta nau; por ordem do capitão-mor, com os quais ele se apartou, e eu na companhia. E perguntou a todos se nos parecia bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para melhor a mandar descobrir e saber dela mais do que nós agora podíamos saber, por irmos de nossa viagem. E entre muitas falas que no caso se fizeram, foi por todos ou a maior parte dito que seria muito bem.

E nisto concluíram. E tanto que a conclusão foi tomada, perguntou mais se lhes parecia bem tomar aqui por força um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza, deixando aqui por eles outros dois destes degredados. Sobre isto acordaram que não era necessário tomar por força homens, porque era geral costume dos que assim levavam por força para alguma parte dizerem que há ali de tudo quanto lhes perguntam; e que melhor e muito melhor informação da terra dariam dois homens destes degredados que aqui deixassem, do que eles dariam se os levassem, por ser gente que ninguém entende. Nem eles tão cedo aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor estes outros o não digam, quando Vossa Alteza cá mandar. E que portanto não cuidassem de aqui tomar ninguém por força nem de fazer escândalo, para de todo mais os amansar e apacificar, senão somente deixar aqui os dois degregados, quando daqui partíssemos. E assim, por melhor a todos parecer, ficou determinado. Acabado isto, disse o capitão que fôssemos nos batéis em terra e ver-se-ia bem como era o rio, e também para folgarmos.

Fomos todos nos batéis em terra, armados e a bandeira conosco. Eles andavam ali na praia, à boca do rio, para onde nós íamos; e, antes que chegássemos, pelo ensino que dantes tinham, puseram todos os arcos, e acenavam que saíssemos. Mas, tanto que os batéis puseram as proas em terra, passaram-se logo todos além do rio, o qual não é mais largo que um jogo de mancal. E mal desembarcamos, alguns dos nossos passaram logo o rio, e meteram-se entre eles. Alguns aguardavam; outros afastavam-se. Era, porém, a coisa de maneira que todos andavam misturados. Eles ofereciam desses arcos com suas setas por sombreiros e carapuças de linho ou por qualquer coisa que lhes davam. Passaram além tantos dos nossos, e andavam assim misturados com eles, que eles se esquivavam e afastavam-se. E deles alguns iam-se para cima onde outros estavam. Então o capitão fez que dois homens o tomassem ao colo, passou o rio, e fez tornar a todos.

A gente que ali estava não seria mais que a costumada. E tanto que o capitão fez tornar a todos, vieram a ele alguns daqueles, não porque o conhecessem por senhor, pois me parece que não entendem, nem tomavam disso conhecimento, mas porque a gente nossa passava já para aquém do rio. Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas daquelas já ditas, e resgatavam-nas por qualquer coisa, em tal maneira que os nossos trouxeram dali para as naus muitos arcos e setas e contas. Então tornou-se o capitão aquém do rio, e logo acudiram muitos à beira dele. Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim nos corpos, como nas pernas, que, certo, pareciam bem assim. Também andavam, entre eles, quatro ou cinco mulheres moças, nuas como eles, que não pareciam mal.

Entre elas andava uma com uma coxa, do joelho até o quadril, e a nádega, toda tinta daquela tintura preta; e o resto, tudo da sua própria cor. Outra trazia ambos os joelhos, com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas e com tanta inocência descobertas, que nisso não havia vergonha alguma. Também andava aí outra mulher moça, com um menino ou menina ao colo, atado com um pano (não sei de quê) aos peitos, de modo que apenas as perninhas lhe apareciam. Mas as pernas da mãe e o resto não traziam pano algum.

Depois andou o capitão para cima ao longo do rio, que ocorre sempre chegado à praia. Ali esperou um velho, que trazia na mão uma pá de almadia.

Falava, enquanto o capitão esteve com ele, perante nós todos, sem nunca ninguém o entender, nem ele a nós quantas coisas lhe demandávamos acerca de ouro, que nós desejávamos saber se na terra havia. Trazia este velho o beiço tão furado, que lhe caberia pelo furo um grande dedo polegar, e metida nele uma pedra verde, ruim, que cerrava por fora esse buraco. O capitão lha fez tirar. E ele não sei que diabo falava e ia com ela direito ao capitão, para lha meter na boca. Estivemos sobre isso rindo um pouco; e então enfadou-se o capitão e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho, não por ela valer alguma coisa, mas por amostra. Depois houve-a o capitão, segundo creio, para, com as outras coisas, a mandar a Vossa Alteza.

Andamos por aí vendo a ribeira, a qual é de muita água e muito boa. Ao longo dela há muitas palmas, não mui altas, em que há muito bons palmitos. Colhemos e comemos deles muitos. Então tornou-se o capitão para baixo para a boca do rio, onde havíamos desembarcado.

Além do rio, andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante dos outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então além do rio Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém, que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras e salto real, de que eles se espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo muito os segurou e afagou, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-se para cima. E então o capitão passou o rio com todos nós outros, e fomos pela praia de longo, indo os batéis assim, rente da terra. Fomos até uma lagoa grande de água doce, que está junto com a praia, porque toda aquela ribeira do mar é apaulada por cima e sai a água por muitos lugares. E depois de passarmos o rio, foram uns sete ou oito deles andar entre os marinheiros que se recolhiam aos batéis. E levaram dali um tubarão, que Bartolomeu Dias matou, lhes levou e lançou na praia.

Bastará dizer-vos que até aqui, como quer que eles um pouco se amansassem, logo duma mão para a outra se esquivavam, como pardais, do cevadoiro. Homem não lhes ousa falar de rijo para não se esquivarem mais; e tudo se passa como eles querem, para os bem amansar. O capitão ao velho, com quem falou, deu uma carapuça vermelha. E com toda a fala que entre ambos se passou e com a carapuça que lhe deu, tanto que se apartou e começou de passar o rio, foi-se logo recatando e não quis mais tornar de lá para aquém. Os outros dois, que o capitão teve nas naus, a que deu o que já disse, nunca mais aqui apareceram — do que tiro ser gente bestial, de pouco saber e por isso tão esquiva. Porém e com tudo isto andam muito bem curados e muito limpos. E naquilo me parece ainda mais que são como aves ou alimárias monteses, às quais faz o ar melhor pena e melhor cabelo que às mansas, porque os corpos seus são tão limpos, tão gordos e formosos, que não pode mais ser. Isto me faz presumir que não têm casas nem moradas a que se acolham e o ar, a que se criam, os faz tais.

Nem nós ainda até agora vimos casa alguma ou maneira delas. Mandou o capitão àquele degredado Afonso Ribeiro, que se fosse outra vez com eles. Ele foi e andou lá um bom pedaço, mas à tarde tornou-se, que o fizeram eles vir e não o quiseram lá consentir. E deram-lhe arcos e setas; e não lhe tomaram nenhuma coisa do seu. Antes — disse ele — que um lhe tomara umas continhas amarelas que levava, e fugia com elas, e ele se queixou e os outros foram logo após, e lhas tomaram e tornaram-lhas a dar; e então mandaram-no vir. Disse que não vira lá entre eles senão umas choupaninhas de rama verde e de fetos muito grandes, como de Entre Doiro e Minho.

E assim nos tornamos às naus, já quase noite, a dormir. À segunda-feira, depois de comer, saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos, mas não tantos como as outras vezes. Já muito poucos traziam arcos. Estiveram assim um pouco afastados de nós; e depois pouco a pouco misturaram-se conosco. Abraçavam-nos e folgavam. E alguns deles se esquivavam logo. Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha ou por qualquer coisa. Em tal maneira isto se passou que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles, onde outros muitos estavam com moças e mulheres. E trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas de aves, deles verdes e deles amarelos, dos quais, segundo creio, o capitão há de mandar amostra a Vossa Alteza. E, segundo diziam esses que lá foram, folgavam com eles. Neste dia os vimos mais de perto e mais à nossa vontade, por andarmos quase todos misturados. Ali, alguns andavam daquelas tinturas quartejados; outros de metades; outros de tanta feição, como em panos de armar, e todos com os beiços furados, e muitos com os ossos neles, e outros sem ossos. Alguns traziam uns ouriços verdes, de árvores, que, na cor, queriam parecer de castanheiros, embora mais pequenos. E eram cheios duns grãos vermelhos pequenos, que, esmagados entre os dedos, faziam tintura muito vermelha, de que eles andavam tintos. E quanto mais se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam. Todos andam rapados até cima das orelhas; e assim as sobrancelhas e pestanas. Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece uma fita preta, da largura de dois dedos.

E o capitão mandou àquele degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados, que fossem lá andar entre eles; e assim a Diogo Dias, por ser homem ledo, com que eles folgavam. Aos degredados mandou

que ficassem lá esta noite. Foram-se lá todos, e andaram entre eles. E, segundo eles diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação, em que haveria nove ou dez casas, as quais eram tão compridas, cada uma, como esta nau capitania. Eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas de palha, de razoada altura; todas duma só peça, sem nenhum repartimento, tinham dentro muitos esteios; e, de esteio a esteio, uma rede atada pelos cabos, alta, em que dormiam. Debaixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma num cabo, e outra no outro. Diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os achavam; e que lhes davam de comer daquela vianda, que eles tinham, a saber, muito inhame e outras sementes, que na terra há e eles comem. Mas, quando se fez tarde, fizeram-nos logo tornar a todos e não quiseram que lá ficasse nenhum. Ainda, segundo diziam, queriam vir com eles.

Resgataram lá por cascavéis e por outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos e carapuças de penas verdes, e um pano de penas de muitas cores, maneira de tecido assaz formoso, segundo Vossa Alteza todas estas coisas verá, porque capitão vo-las há de mandar, segundo ele disse. E com isto vieram; e nós tornamo-nos às naus. À terça-feira, depois de comer, fomos em terra dar guarda de lenha e lavar roupa.

Estavam na praia, quando chegamos, obra de sessenta ou setenta sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para nós, sem se esquivarem. Depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos; e misturaram-se todos tanto conosco que alguns nos ajudavam a acarretar lenha e a meter nos batéis. E lutavam com os nossos e tomavam muito prazer. Enquanto cortávamos a lenha, faziam dois carpinteiros uma grande cruz, dum pau que ontem para isso se cortou. Muitos deles vinham ali estar com os carpinteiros. E creio que o faziam mais por verem a ferramenta de ferro com que a faziam, do que por verem a cruz, porque eles não têm coisa que de ferro seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em um pau entre duas talas, muito bem atadas e por tal maneira que andam fortes, segundo diziam os homens, que ontem a suas casas foram, porque lhas viram lá. Era já a conversação deles conosco tanta que quase nos estorvavam no que havíamos de fazer.

O capitão mandou a dois degredados e a Diogo Dias que fossem lá à aldeia (e a outras, se houvessem novas delas) e que, em toda a maneira, não viessem dormir às naus, ainda que eles os mandassem. E assim se foram. Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios por essas árvores, deles verdes e outros pardos, grandes e pequenos, de maneira que me parece haverá muitos nesta terra. Porém eu não veria mais que até nove ou dez. Outras aves então não vimos, somente algumas pombas seixas, e pareceram-me bastante maiores que as de Portugal. Alguns diziam que viram rolas; eu não as vi. Mas, segundo os arvoredos são muitos e grandes, e de infindas maneiras, não duvido que por esse sertão haja muitas aves! Cerca da noite nos volvemos para as naus com nossa lenha. Eu, creio, senhor, que ainda não dei conta aqui a Vossa Alteza da feição de seus arcos e setas. Os arcos são pretos e compridos, as setas também compridas e os ferros delas de canas aparadas, segundo Vossa Alteza verá por alguns que — eu creio — o capitão a ela há de enviar.

À quarta-feira não fomos em terra, porque o capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e fazer levar às naus isso que cada um podia levar. Eles acudiram à praia; muitos, segundo das naus vimos. No dizer de Sancho de Tovar, que lá foi, seriam obra de trezentos. Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degredado, aos quais o capitão ontem mandou que em toda maneira lá dormissem, volveram-se já de noite, por eles não quererem que lá ficassem. Trouxeram papagaios verdes e outras aves pretas, quase como pegas, a não ser que tinham o bico branco e os rabos curtos. Quando Sancho de Tovar se recolheu à nau, queriam vir com ele alguns, mas ele não quis senão dois mancebos dispostos e homens de prol. Mandou-os essa noite mui bem pensar e tratar. Comeram toda a vianda que lhes deram; e mandou fazer-lhes cama de lençóis, segundo ele disse. Dormiram e folgaram aquela noite.

E assim não houve mais este dia que para escrever seja. À quinta-feira, derradeiro de abril, comemos logo, quase pela manhã, e fomos em terra por mais lenha e água. E, em querendo o capitão sair desta nau, chegou Sancho de Tovar com seus dois hóspedes. E por ele ainda não ter comido, puseram-lhe toalhas. Trouxeram-lhe vianda e comeu. Aos hóspedes, sentaram cada um em sua cadeira. E de tudo o que lhes deram comeram muito bem, especialmente lacão cozido, frio, e arroz. Não lhes deram vinho, por Sancho de Tovar dizer que o não bebiam bem.

Acabado de comer, metemo-nos todos no batel e eles conosco. Deu um grumete a um deles uma armadura grande de porco montês, bem revolta. Tanto que a tomou, e meteu-a logo no beiço, e porque se lhe não queria segurar, deram-lhe uma pouca de cera vermelha. E ele ajeitou-lhe seu adereço detrás para ficar segura, e meteu-a no beiço, assim revolta para cima. E vinha tão contente com ela, como se tivera uma grande jóia. E tanto que saímos em terra, foi-se logo com ela, e não apareceu mais aí. Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez deles; e de aí a pouco começaram a vir mais. E parece-me que viriam, este dia, à praia quatrocentos ou quatrocentos e cinqüenta. Traziam alguns deles arcos e setas, que todos trocaram por carapuças ou por qualquer coisa que lhes davam. Comiam conosco do que lhes dávamos. Bebiam alguns deles vinho; outros o não podiam beber. Mas parece-me, que se lho avezarem, o beberão de boa vontade. Andavam todos tão dispostos, tão bem feitos e galantes com suas tinturas, que pareciam bem. Acarretavam dessa lenha, quanto podiam, com mui boa vontade, e levavam-na aos batéis.

Andavam já mais mansos e seguros entre nós, do que nós andávamos entre eles. Foi o capitão com alguns de nós um pedaço por este arvoredo até uma ribeira grande e de muita água, que a nosso parecer, era esta mesma, que vem ter à praia, e em que nós tomamos água. Ali ficamos um pedaço, bebendo e folgando, ao longo dela, entre esse arvoredo, que é tanto, tamanho, tão basto e de tantas prumagens, que homem as não pode contar. Há entre ele muitas palmas, de que colhemos muitos e bons palmitos. Quando saímos do batel, disse o capitão que seria bom irmos direitos à cruz, que estava encostada a uma árvore, junto com o rio, para se erguer amanhã, que é sexta-feira, e que nos puséssemos todos em joelhos e a beijássemos para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. E assim fizemos. A esses dez ou doze que aí estavam acenaram-lhe que fizessem assim, e foram logo todos beijá-la. Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo parece, não têm, nem entendem em nenhuma crença. E portanto, se os degredados, que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa intenção de Vossa Alteza, se hão de fazer cristãos e crer em nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque, certo, esta gente é boa e de boa simplicidade. E imprimir-se-á ligeiramente neles qualquer cunho que lhes quiserem dar. E pois Nosso Senhor, que lhes deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens, por aqui nos trouxe, creio que não foi sem causa. Portanto Vossa Alteza, que tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar de sua salvação. E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim.

Eles não lavram, nem criam. Não há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outra alimária, que costumada seja ao viver dos homens. Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e frutos, que a terra e as árvores de si lançam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos. Neste dia, enquanto ali andaram, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som dum tamboril dos nossos, em maneira que são muito mais nossos amigos que nós seus. Se lhes homem acenava se queriam vir às naus, faziam-se logo prestes para isso, em tal maneira que se a gente todos quisera convidar, todos vieram. Porém não trouxemos esta noite às naus, senão quatro ou cinco, a saber: o capitão-mor, dois; Simão de Miranda, um, que trazia já por pajem; e Aires Gomes, outro, também por pajem. Um dos que o capitão trouxe era um dos hóspedes que lhe trouxeram da primeira vez, quando aqui chegamos, o qual veio hoje aqui, vestido na sua camisa, e com ele um seu irmão; e foram esta noite mui bem agasalhados, assim de vianda, como de cama, de colchões e lençóis, para os mais amansar.

E hoje, que é sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manhã, saímos em terra, com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio contra o sul, onde nos pareceu que seria melhor chantar a cruz, para melhor ser vista. Ali assinalou o capitão o lugar, onde fizessem a cova para a chantar. Enquanto a ficaram fazendo, ele com todos nós outros fomos pela cruz rio abaixo do rio, onde ela estava. Dali a trouxemos com esses religiosos e sacerdotes diante cantando, em maneira de procissão. Eram já aí alguns deles, obra de setenta ou oitenta; e, quando nos viram assim vir, alguns se foram meter debaixo dela, para nos ajudar. Passamos o rio, ao longo da praia e fômo-la pôr onde havia de ficar, que será do rio obra de dois tiros de besta. Andando-se ali nisto, vieram bem cento e cinqüenta ou mais. Chantada a cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiramente lhe pregaram, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos. Ali estiveram conosco a ela obra de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos de joelhos, assim como nós. E quando veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco e alçaram as mãos, ficando assim, até ser acabado; e então tornaram-se a assentar como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim todos, como nós estávamos com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados, que, certifico a Vossa Alteza, nos fez muita devoção. Estiveram assim conosco até acabada a comunhão, depois da qual comungaram estes religiosos e sacerdotes e o capitão com alguns de nós outros. Alguns deles, por o sol ser grande, quando estávamos comungando, levantaram-se, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinqüenta ou 55 anos, continuou ali com aqueles que ficaram. Esse, estando nós assim, ajuntava estes, que ali ficaram, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles falando, lhes acenou com o dedo para o altar e depois apontou o dedo para o céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós assim o tomamos. Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta de cima e ficou em alva; e assim se subiu, junto com o altar, em uma cadeira. Ali nos pregou do Evangelho e dos apóstolos, cujo é o dia, tratando, ao fim da pregação, deste vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, o que nos aumentou a devoção. Esses, que estiveram sempre à pregação, quedaram-se como nós olhando para ele. E aquilo, que digo, chamava alguns que viessem para ali. Alguns vinham e outros iam-se. E, acabada a pregação, como Nicolau Coelho trouxesse muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda, houveram por bem que se lançasse uma ao pescoço de cada um. Pelo que o padre frei Henrique se assentou ao pé da cruz e ali, a um por um, lançava a sua atada em um fio ao pescoço, fazendo-lha primeiro beijar e a levantar as mãos. Vinham a isso muitos; e lançaram-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinqüenta. Isto acabado — era já bem uma hora depois do meio-dia — viemos a comer às naus, trazendo o capitão consigo aquele mesmo que fez aos outros aquela mostrança para o altar e para o céu e um seu irmão com ele. Fez-lhe muita honra e deu-lhe uma camisa mourisca e ao outro uma camisa destoutras. E, segundo que a mim e a todos pareceu, esta gente não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, senão entender-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer, como nós mesmos, por onde nos pareceu a todos que nenhuma idolatria, nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados ao desejo de Vossa Alteza.

E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar, porque já então terão mais conhecimento de nossa fé, pelos dois degredados, que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram ambos. Entre todos estes que hoje vieram, não veio mais que uma mulher moça, a qual esteve sempre à missa e a quem deram um pano com que se cobrisse. Puseram-lho a redor de si. Porém, ao assentar, não fazia grande memória de o estender bem, para se cobrir. Assim, senhor, a inocência desta gente é tal, que a de Adão não seria maior, quanto a vergonha. Ora veja Vossa Alteza se quem em tal inocência vive se converterá ou não, ensinando-lhes o que pertence à sua salvação. Acabado isto, fomos assim perante eles beijar a cruz, despedimo-nos e viemos comer. Creio, senhor, que com estes dois degredados ficam mais dois grumetes, que esta noite se saíram desta nau no esquife, fugidos para terra. Não vieram mais.

E cremos que ficarão aqui, porque de manhã, prazendo a Deus, fazemos daqui partida. Esta terra, senhor, me parece que da ponta que mais contra o sul vimos até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta, é tudo praia-palma, muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa. Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre Doiro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem. Porém o melhor fruto, que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que aí não houvesse mais que ter aqui esta pousada para esta navegação de Calicute, isso bastaria. Quanto mais disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa santa fé.

E nesta maneira, senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo. E pois que, senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro — o que dela receberei em muita mercê. Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro, da vossa Ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.

[Ass.] Pero Vaz de Caminha
[Extraído de Jaime Cortesão, A carta de Pero Vaz de Caminha
(Lisboa: Portugália, 1967, pp. 221-57), apud Darcy Ribeiro &
Carlos de Araujo Moreira Neto (orgs.), A fundação do Brasil:
Testemunhos, 1500-1700. Petrópolis, RJ: Vozes, 1992, pp. 84-91.]

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