RBTV #1: Relatório de experiência

Prezado Editor,

Meu nome é Rosângela Gera. Sou médica e mãe de uma garotinha de sete anos que é cega.

Gostaria de compartilhar com os demais leitores desta revista, minha experiência como mãe, vivenciando a escolarização da Laura e sua aprendizagem com desenhos, numa escola comum, aqui em Colatina, Espírito Santo.

Como disse, a Laura é uma garotinha de 7 anos, que cursou no ano de 2009 o primeiro ano do ensino fundamental de 9 anos , já tendo concluído, portanto, a etapa da educação infantil.

Foto 1: Laura com as colegas na escola brincando com uma caixa surpresa , elas pegam um objeto dentro da caixa e tentam adivinhar o que é antes de retirá-lo .
Foto 1: Laura com as colegas na escola brincando com uma caixa surpresa , elas pegam um objeto dentro da caixa e tentam adivinhar o que é antes de retirá-lo.

Ela aprendeu a ler e escrever em braile, estudando na escola comum, junto com seus colegas , confirmando a assertiva de que a expectativa sobre uma criança cega quanto ao seu aprendizado pode ser a mesma de uma criança vidente, desde que para a primeira, sejam aplicadas as estratégias diferenciadas, necessárias para aquisição de habilidades .

Desde que Laura entrou na escola, aos 2,5 anos , rasgar , cortar, colar, picotar, usar massinhas , palitinhos etc., fizeram parte do rico repertório de estímulos que recebe uma criança para desenvolver sua coordenação motora, a concentração, atenção e tantas outras funções cognitivas . Porém, confesso que entre essas tantas atividades ofertadas a Laura para o seu desenvolvimento, uma lhe foi negligenciada, a do ato de desenhar, de levar a sério o seu potencial para reconhecer desenhos .

Eu não tinha (nunca recebi) informação suficiente para acreditar que deveria investir nesse recurso com a minha filha .

Por outro lado, na escola, as professoras de minha filha, até então nem sequer pensavam na possibilidade de que seria possível que ela tivesse êxito nessa habilidade.

Foto 2: Laura na escola em atividade de equilibrismo no projeto circo, andando em cima de uma corda e segurando um bastão.
Foto 2: Laura na escola em atividade de equilibrismo no projeto circo, andando em cima de uma corda e segurando um bastão.

Na última semana de aula do ensino infantil, minha garotinha chegou em casa chorando, contando que os colegas lhe disseram que “cego só faz rabiscos”.

E foi assim, com ela empunhando o lápis como uma criança pequena que acabou de descobrir essa funcionalidade e com esse sentimento de impotência diante do ato de desenhar que começamos o ano letivo de 2009, primeiro ano dela no ensino fundamental.

Mas a Laura desejava desenhar, queria usar o lápis de cor como seus colegas; a nova professora , com uma postura completamente diferente das professoras dos anos anteriores, acreditava que minha filha, mesmo tendo uma deficiência visual, poderia sim executar a atividade de desenhar e se propôs a estudar o tema para descobrir estratégias que permitissem ensinar essa habilidade à Laura .

 Foto 3: Papel com linhas feitas em relevo , e um espaço entre elas de cerca de 3,0 cm e colocado em uma prancheta forrada que produz relevo no que é escrito sobre ela . Uma letra R em EVA foi colada no papel. E a Laura vai escrevendo a letra R observando o modelo e percebendo o traçado do que escreve.
Foto 3: Papel com linhas feitas em relevo , e um espaço entre elas de cerca de 3,0 cm e colocado em uma prancheta forrada que produz relevo no que é escrito sobre ela . Uma letra R em EVA foi colada no papel. E a Laura vai escrevendo a letra R observando o modelo e percebendo o traçado do que escreve.

Começamos por aquilo que lhe motivava, o que desejava desenhar e uma atividade comum era que as crianças desenhassem na própria agenda referências sobre o tempo naquele dia, se estava ensolarado fazíamos um sol, se nublado, desenhávamos nuvens, e assim por diante.

A professora, então, usou uma prancheta forrada com um material que proporcionava relevo aos riscos que executava, de maneira que Laura podia seguir com os dedos o desenho que ela havia feito. “Então o sol é redondo, e dele saem os raios“. Concluía Laura ao examinar os desenhos da professora.

Foto 4:
Foto 4

De posse de um círculo , examinava seus contornos, contornava-o e em seguida repetia no papel . E começamos com as formas geométricas, descobrimos que delas várias figuras poderiam ser derivadas.

Utilizamos material imantado com as formas geométricas de maneira que ela montava suas figuras numa tela antes de desenhá-las . Um dia fez um palhaço, seu chapéu que era um triângulo, seu corpo, como um quadrado, as pernas no formato de retângulos compridos, retângulos menores para os pés e assim por diante.

Foto 5: Desenho de uma pessoa , feito cabeça, abdome , tórax e extremidades.
Foto 5: Desenho de uma pessoa , feito cabeça, abdome , tórax e extremidades.

Também desenhou uma figura de mulher no dia das mães para ser colocado no mural e foi muito emocionante ver lá o seu desenho.

 O desenho foi feito numa folha de papel cor de rosa recortada na forma de coração. É a representação de uma mulher, cabeça, pescoço, tórax, abdome e extremidades com lápis de cera preto. A professora perguntou se iria deixar o seu desenho sem roupa então ela pintou o tórax e abdome de amarelo e decidiu vestir calça então pintou de vermelho as pernas, depois pintou na região dos pés para fazer o calçado, também vermelho. Fez quatro traços marrons saindo da cabeça em direção vertical para baixo representando os cabelos. No canto superior esquerdo do papel está escrito meu nome Rosângela feito em braile.
Foto 6: Desenho feito pela Laura para ser colocado no mural para o dia das mães. Descrição: O desenho foi feito numa folha de papel cor de rosa recortada na forma de coração. É a representação de uma mulher, cabeça, pescoço, tórax, abdome e extremidades com lápis de cera preto. A professora perguntou se iria deixar o seu desenho sem roupa então ela pintou o tórax e abdome de amarelo e decidiu vestir calça então pintou de vermelho as pernas, depois pintou na região dos pés para fazer o calçado, também vermelho. Fez quatro traços marrons saindo da cabeça em direção vertical para baixo representando os cabelos. No canto superior esquerdo do papel está escrito meu nome Rosângela feito em braile.

Em pouco tempo, com tantos estímulos para desenvolver esta habilidade, ela já segurava no lápis apropriadamente e a professora sempre recomendava: “Rosângela não permita que Laura use o lápis de maneira incorreta em casa, porque ela já sabe como usá-lo , aqui na escola“.

Dessa maneira ela rapidamente aprendeu a reconhecer as letras em bastão em madeira e EVA daí para escrevê-las também não demorou :ela as escreve com uma altura de cerca de 2,0cm e estamos em processo para reduzir suas dimensões .

Também a utilização das formas geométricas para explicar o formato das letras foi essencial: “O A que é um triângulo cortado na metade e o V que é um triângulo de cabeça para baixo, sem o teto“. “O B que é uma reta com dois semicírculos”, e por aí foi.

Os seus livros passaram obrigatoriamente a ter que ter desenhos. Laura adora descobrir e saber como é o corpo do bichinho de quem falamos , o comprimento do rabo, o tamanho do chapéu , e quando não há desenhos, tal qual as outras crianças da sua idade , ela pergunta: “Esse livro não tem figura?“.

E para que nenhum “desavisado “ sobre o tema pergunte : “E pra que criança cega quer desenho?”.

Aqui, eu mesma tenho a resposta, pois é semelhante pergunta que faço quando vejo um livro adaptado para o braile (destinado a crianças cegas), sem as figuras e desenhos do livro original. São folhas e mais folhas impressas, transcritas, sem nenhum desenho, sem nada que possa despertar o interesse nesse sentido, e se fizéssemos o contrário? Se tirássemos os desenhos dos livros infantis que vão para as demais crianças? Alguma ia se interessar por ele?

Crianças cegas não são diferentes . Gostam de encontrar desenhos e outras figuras em seus livros e mais do que isso, precisam deles.

Talvez a resposta seja a de que quem produz os livros não saiba de nada disso e já passou da hora de saber.

A possibilidade de divulgar essas informações, de estudar mais sobre o tema, de descrever nossas experiências, e de poder demonstrá-las é fundamental para que esse assunto passe a fazer parte do cotidiano das escolas, das salas de aula, onde alunos cegos são excluídos de uma atividade tão prazerosa e significativa, como a do desenho.

Não podemos continuar negando essa oportunidade a nossas crianças; elas não podem pagar o ônus da nossa ignorância sobre o tema . E precisamos desmistificar a idéia do professor que diz ao pequeno aluno que quer tocar em desenhos que acabaram de ser expostos no mural da sala: “Tira a mão daí, menino. A gente vê com os olhos!?!?!?

Atenciosamente,
Rosângela Gera.

Published by

RBTV #1: O traço de união da áudio-descrição: versos e controvérsias

RBTV #1: O traço de união da áudio-descrição: versos e controvérsias[1]

Resumo

O presente artigo versa sobre a áudio-descrição, defendendo esse recurso assistivo como meio de acessibilidade à informação, à comunicação, à educação e à cultura para as pessoas com deficiência, mormente para as com deficiência visual. Ilustra o uso da áudio-descrição em vários países e diz como este direito tem sido requerido pelas pessoas com deficiência. Apresenta razões para que se escreva áudio-descrição com o hífen, colocando em debate a controvérsia sobre a grafia desse vocábulo, quando grafado sem o hífen. Conclui fazendo a assertiva de que a áudio-descrição é recurso para a acessibilidade e que “Acessibilidade” no cinema, no teatro e na televisão implica na oferta de áudio-descrição às pessoas com deficiência visual. Ao apresentar tal argumento, o presente artigo defende que com a áudio-descrição “Se você não vê, poderá ouvir; Se você não ouve, poderá ler; e Se você não lê, poderá compreender”. Acrescenta que, se o leitor ainda não se convenceu de que a áudio-descrição é acessibilidade à informação, à comunicação, à educação e à cultura, ele deve convencer-se desse direito e praticar essa acessibilidade, promovendo a cidadania, dignidade e respeito aos direitos da pessoa humana, também nos museus, no cinema, nos teatros e na televisão.

Abstract

The current article deals with audio description, upholding this assistive resource as a medium of accessibility to: information; communication; education and culture for people with disability, especially visually impaired people. It presents the employment of audio description in many countries, and shows how this assistive tool has been demanded by people with disability. It also points out grammatical reasons for writing the Portuguese word “audio-descrição” with hyphen, putting in debate the controversy around the spelling of this word, when written without hyphen. This article closes with the statement that audio description is a resource for accessibility which in cinemas, theaters, and television implies the offering of audio description for people with visual impairment, and doing so, the current article emphasizes: “If you don’t see you will be able to hear. If you can’t hear you will be able to read. If you can’t read you will be able to understand”.  It adds: in case the reader isn’t yet convinced that audio description is accessibility to: information; communication; education and culture, he should get convinced of this right, and putting it into practice promotes: citizenship, dignity and respect for the rights of the human person, in museums, cinemas, theater rooms and television.

Introdução

A narração (oral ou escrita) dos eventos tem sido uma opção há muito utilizada para dar a conhecer a quem deles não participou, viu ou observou.

Como sabemos das “Histórias” e lendas antigas, seriam através dos olhos e da fala de terceiros que se conheceriam as novas terras, a respeito das quais os viajantes que delas voltavam, contavam suas experiências e impressões. Contudo, tais narrativas eram entrecortadas por interpretações, muitas vezes imprecisas, isso quando não eram fantasiosas. Mesmo os registros, em forma de imagens pintadas, esculpidas ou tecidas, podiam representar o que se acreditava ter acontecido ou visto e não o que verdadeiramente ocorrera.

Com o advento das tecnologias de registro audiovisuais, o gravador, a filmadora e as câmeras fotográficas, o acesso aos elementos sonoros e visuais dos eventos passaram a ser freqüentes e amplos, com mais precisão e fidedignidade da imagem vista.

No entanto, na medida em que se ia deixando a narração e se assumindo mais a apreciação da imagem, as pessoas com deficiência visual passavam a ficar mais e mais de fora do mundo das informações, da educação, da comunicação em geral, e do lazer, quando as imagens eram o foco das apresentações.

Nas últimas décadas, contudo, um movimento internacional, desencadeado nos Estados Unidos vem mudando essa situação.

Esteado na técnica da tradução visual e com o princípio de que todos devem ter pleno acesso à informação, à comunicação, à cultura, à educação e ao lazer, bem como com o entendimento de que cabe ao indivíduo decidir sobre o que quer, como quer, quando quer ter a acesso a tudo isso, começou-se a desenvolver o que veio a ser chamado de áudio-descrição.

Assim como a ortografia desse vocábulo apresenta um traço de união que nos remete a uma nova construção, a partir da composição de elementos distintos e com significados diversos bem conhecidos, o real sentido da áudio-descrição também nos remete a uma nova compreensão do direito à informação e à comunicação. Por conseguinte, o significado dos vocábulos áudio e descrição é bem mais que a união dos dois elementos que o compõem, não sendo, portanto, a mera narração de imagens visualmente inacessíveis aos que não enxergam. A áudio-descrição implica em oferecer aos usuários desse serviço as condições de igualdade e oportunidade de acesso ao mundo das imagens, garantindo-lhes o direito de concluírem por si mesmos o que tais imagens significam, a partir de suas experiências, de seu conhecimento de mundo e de sua cognição.

Destarte, se de um lado as imagens como estão, são inacessíveis às pessoas com deficiência visual, de outro, expectadores com essa deficiência estão desejosos de acesso aos construtos visuais das obras e dos eventos que fazem parte de seu dia-a-dia.

“Pessoas com deficiência reivindicam no Congresso legendas e áudio-descrição na televisão.
MADRI, 23 de Setembro (EUROPA PRESS)

– O presidente do Comitê Espanhol de Representantes de Pessoas com Deficiência (Cermi), Luis Cayo, solicitou nesta terça na Câmara dos Deputados a propositura de uma “legislação que obrigue as televisões, os meios áudio-visuais a fazer suas transmissões com legendas, em língua de sinais e com áudio-descrição.

Durante sua intervenção na Comissão para as políticas de inclusão da pessoa com deficiência, Cayo destacou que as televisões acessíveis às pessoas com deficiência funcionam há vários anos em países como os Estados Unidos, Grã Bretanha ou França, todavia “na Espanha é um tema pendente”.
“Esperamos que nesta legislatura seja saudada esta dívida”, asseverou. [2]

Sim, elas estão desejosas e conscientes do direito que têm à esse acesso.

RESOLUÇÃO 96-13 -TELEVISÃO DIGITAL

CONSIDERANDO que a televisão desempenha um importante papel para a educação e inclusão social e cultural e é o passatempo mais popular das pessoas com deficiência visual;

CONSIDERANDO que as pessoas com deficiência visual perdem informações cruciais devido ao grande conteúdo visual de programas de televisão;

CONSIDERANDO que a áudio-descrição (sic) (uma narração descrevendo ações, linguagem corporal, expressões faciais e cenários) já possibilita que milhares de pessoas com deficiência usufruam dos programas de televisão em alguns países;

CONSIDERANDO que pesquisas de opinião mostram que a vasta maioria das pessoas com deficiência visual querem e precisam de áudio-descrição de programas de televisão;

CONSIDERANDO que o artigo 27 da Declaração Universal dos Direitos Humanos reconhece o direito de todos de fazerem parte da vida cultural da comunidade e beneficiarem-se de avanços científicos;

CONSIDERANDO que em alguns países a legislação sobre transmissão televisiva reconhece o direito das pessoas com deficiência visual de usufruírem da televisão com áudio-descrição;

CONSIDERANDO que o advento da televisão digital (que fará mais canais disponíveis) fornece uma solução técnica para a transmissão e recepção da áudio-descrição; e

CONSIDERANDO que os receptores digitais devem ser facilmente utilizáveis por pessoas com deficiência visual a fim de que a televisão digital lhes seja acessível;

Esta Quarta Assembléia Geral da União Mundial de Cegos, em convenção na cidade de Toronto, Canadá, decide:

  1. Exigir dos legisladores que reconheçam o direito das pessoas com deficiência visual de usufruírem da televisão e que dediquem uma parte da capacidade de transmissão digital ao som da áudio-descrição à medida que e quando a televisão digital estiver sendo introduzida;
  2.  Exigir dos canais de televisão que assumam um compromisso para com seus espectadores com deficiência no sentido de introduzirem serviços tão logo um método de transmissão do som da áudio-descrição torne-se disponível; e
  3. C. Exigir a cooperação dos fabricantes de receptores para que incorporem as necessidades das pessoas com deficiência visual ou com baixa visão no projeto dos receptores digitais.

Quarta Assembléia da União Mundial de Cegos (WORLD BLIND UNION)[3].
TORONTO, CANADÁ. 26-30 AGOSTO 1996

Por toda a parte, à busca por uma Sociedade Inclusiva, as pessoas com deficiência têm ocupado espaços e falado para serem escutadas. Suas falas, ainda que um tanto abafadas pelos modelos tradicionais de exclusão e de segregação, estão, contudo, sendo ouvidas cada vez mais. De fato, no que concerne ao acesso à imagens visuais, as pessoas com deficiência visual vêm logrando êxito, seja no estrangeiro, seja no Brasil. E isso pode ser visto nas programações de teatros e cinemas ao redor do mundo.

No Caribe:

Em Cuba, filmes com sistema de áudio-descrição para pessoas com deficiência visual.

ELIZABETH LÓPEZ CORZO

A Amostra de Cinema Cubano, com cinco filmes para cegos e pessoas com baixa visão foi apresentada hoje, na cidade de La Habana, mediante o sistema de áudio-descrição, método inovador na América Latina devido ao enfoque mais integral que lhe outorga a ilha.

José Luis Lobato, cineasta e promotor do projeto, mencionou que na Argentina houve um precedente dessa iniciativa mas, agora, Cuba é o único país que trabalha em profundidade com uma amostra cinematográfica desse tipo.

Este é um evento de importância mundial, uma vez que a nação caribenha o desenvolve tendo em vista o usufruto conjunto de videntes e não-videntes, completamente diferente do que ocorre em outras partes do mundo, que só se destina aqueles com deficiência visual e também aqui se promove a visita ao cinema como um centro cultural fora do âmbito doméstico, disse ele.

Carlos Abel Ramirez, chefe do Departamento de Cultura, Educação e Relações Públicas da Associação Nacional dos Cegos, classificou como muito positivo o projeto devido ao seu cunho social e humano, pois o objetivo desta entidade é a reabilitação integral de seus afiliados e de seu ambiente social.
Acrescentou que se amplia o conhecimento das pessoas com deficiência, enquanto o povo também se instrui sobre as necessidades dessas pessoas e em como podem ser satisfeitas.

O sistema supre, com a voz de um locutor, a falta de percepção das imagens, através de descrições sonoras complementares que detalham os gestos dos personagens, sua aparência, paisagens, e outros, e só foi desenvolvida nos Estados Unidos, Espanha e Itália.

Robert Smith, Vice Presidente do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficas, afirmou que este é um método, que merece uma atenção para alcançar seu objetivo comunicativo, mantendo a sua integridade artística. Ele disse que em breve começarão a distribuir fitas em todos os conselhos de Cuba, através dos Centros Provinciales del Cine.

A continuidade do projeto é de extrema vontade de cultura do país, junto com versões de outros programas na telinha disse Jorge Gonzalez, chefe do Departamento de dublagem do Instituto Cubano de Rádio e TV, e comentou que a apresentação está prevista durante o verão, a partir da coleta em um canal nacional.

Até a data terão sido finalizadas as áudio-descrições de Viva Cuba, La bella del Alhambra, Clandestinos, Páginas del diario de Mauricio e Bailando Cha Cha Chá, enquanto se continua trabalhando nos títulos Se permuta, El brigadista e Fresa y Chocolate[4].

No Havaí:

Teatro Diamond Head para a Pessoa com Deficiência Visual

O Teatro Diamond Head está oferecendo áudio-descrição para as pessoas com deficiência visual no segundo domingo de cada apresentação ao vivo do teatro.

A seguinte lista de datas refere-se às suas apresentações durante esta estação.

Título do Filme e Data da Apresentação

  • Meet Me in St. Louis – December 9 2007
  • Barefoot in the Park – February 10 2008
  • Flower Drum Song – March 30 2008
  • The Producers The Wizard of Oz – May 25 2008
  • The Wizard of Oz – July 20, 2008

Todas as apresentações são as 16:00 e oferecemos um disconto de $5 para as poltronas de $22 e $32, para as pessoas com deficiência visual.

Contato: Melanie Garcia. Box Office Manager/Volunteer Coordinator. Diamond Head Theatre. 520 Makapuu Ave. Honolulu, HI 96816
(808) 733-0277, x.310 [5].

Na Catalunha:

TV3 oferece ‘La gran pellícula’ com áudio-descrição para pessoas com deficiência visual através da TDT.

Desde 16 de fevereiro a TV3 transmite através da TDT, ‘La Gran Pel.lícula’ com a áudio-descrição para pessoas com deficiência visual. A televisão da Catalunha habilitou um canal de áudio específico para a áudio-descrição, como parte de um projeto que prevê um aumento progressivo da programação acessível a pessoas com deficiência visual.

Toda semana, ‘A Gran Pel.lícula’, que é apresentado sexta-feira à noite, irá incorporar comentários descritivos para que as pessoas com deficiência visual possam acompanhar tudo o que acontece e que só é apresentado através da imagem. Com este serviço de áudio, pessoas com deficiência visual podem obter informação sobre todos os elementos necessários para não perder o fio da meada do filme e também informações sobre as atitudes e expressões dos personagens, movimentos, paisagens, o figurino, e assim por diante.

TV3 fez os primeiros lançamentos de filmes com áudio-descrição no final da década de 80, e mais tarde ofereceram-se séries como ‘plats bruts’,’Majoria absoluta’ e ‘L’un per l’autre’. Mas o projeto que agora se coloca em prática planeja oferecer uma programação regular e estável dirigida às pessoas com deficiência visual e ir ampliando-a. Para tornar possível esta expansão, a Televisão da Catalunha, criou um sistema tecnológico específico e apropriado. As áudio-descrições até agora vinham sendo transmitidas através do sistema dual, e isso implicava na eliminação da versão original ou o som estéreo do programa.

Agora, graças às TDT, TVC, se pode destinar um canal de áudio exclusivamente para a áudio-descrição. Para ter acesso a este serviço apenas necessita-se de escolher o canal correspondente dentro do menu de áudios do receptor de TDT.

Há muitos anos, a acessibilidade é um objetivo prioritário da TVC. Diariamente, são oferecidos espaços informativos traduzidos para a língua de sinais catalã, e desde os primórdios do teletexto tem-se incentivado de modo muito importante a legendagem destinada às pessoas com deficiência auditiva.
A Legendagem foi inaugurada no ano de 1990, e desde então a oferta tem aumentado ano após ano. No ano de 2006, foram emitidas um total de mais de 10.000 horas legendadas no conjunto dos diferentes canais (analógicos e digitais). No que concerne à programação, nestes momentos é possível continuar com as legendas em qualquer tipo de programas: informativos, documentários, desenhos animados, séries, filmes, programas culturais e de entretenimento, etc.

No ano de 2003, também foi desenvolvido um sistema tecnológico próprio que permite legendar em tempo real programas ao vivo. O programa “Àgora” é oferecido com legendas, desde há quase dois anos, graças a este sistema, e em 2007, começou-se também a legendar o programa “El temps”. [6]

Em Portugal:

TV Cabo e Canal Lusomundo Gallery adaptam filmes Portugueses para pessoas cegas

No próximo dia 24 de Fevereiro, o canal Lusomundo Gallery apresenta o 15º filme português com áudio-descrição(sic). A TV Cabo/Canal Lusomundo Gallery exibiu o primeiro filme com áudio-descrição em 3 Dezembro de 2004. O filme “O Pátio das Cantigas” tornou-se assim o primeiro filme português a incorporar a áudio-descrição.No próximo dia 24 de Fevereiro, o filme “O Grande Elias”, de Arthur Duarte, torna-se o 15º filme com áudio-descrição sincronizada à disposição no canal Lusomundo Gallery da TV Cabo.

A um ritmo de um filme por mês, o leque dos filmes portugueses vão desde os clássicos, sendo o mais velho de 1935 (“As Pupilas do Senhor Reitor”), até aos filmes contemporâneos, com realizações datadas de 2003, como é o caso de “A Selva” de Leonel Vieira.

Lista dos filmes com áudio-descrição:

  • “O Pátio das Cantigas” de Francisco Ribeiro (Ribeirinho), 1941 Duração: 125 min. Estreou a 3 Dezembro 2004 (Dia Internacional das Pessoas com Deficiência)
  • “O Costa do Castelo” de Arthur Duarte, 1943 Duração: 125 min. Estreou a 28 Janeiro 2005
  • “O Leão da Estrela” de Arthur Duarte, 1947 Duração: 110 min. Estreou a 20 Fevereiro 2005
  • “O Querido Lilás” de Artur Semedo, 1987 Duração: 104 min. Estreou a 30 Março 2005
  • “A Vida é Bela” de Luís Galvão Teles, 1982 Duração: 109 min. Estreou a 29 de Abril 2005
  • “Um Crime de Luxo” de Artur Semedo, 1991, Duração: 87 min. Estreou a 20 Maio 2005
  • “A Selva” de Leonel Vieira, 2003 Duração: 120 min. Estreou a 19 Junho 2005
  • “Fado, História d’uma Cantadeira” de Perdigão Queiroga, 1947 Duração: 108 min. Estreou a 21 Julho 2005
  • “As Pupilas do Senhor Reitor” de Leitão de Barros, 1935 Duração: 102 min. Estreou a 26 Agosto 2005
  • “A Vizinha do Lado” de António Lopes Ribeiro, 1945 Duração: 115 min. Estreou a 29 Setembro 2005
  • “Sonhar é Fácil” de Perdigão Queiroga, 1951 Duração: 94 min. Estreou a 30 Outubro 2005
  • “O Pai Tirano” de António Lopes Ribeiro, 1941 Duração: 118 min. Estreou a 30 Novembro 2005
  • “Maria Papoila” de Leitão de Barros, 1937 Duração: 98 min. 21 Dezembro 2005
  • “Os Três da Vida Airada” de Perdigão Queiroga, 1952 Duração: 98 min. Estreou a 25 Janeiro 2006Próxima estreia
  • “O Grande Elias” de Arthur Duarte, 1950, Duração: 124 min. Estreia a 24 de Fevereiro 2006[7]

No Brasil:

Imagine o que não se pode ver
A experiência pernambucana

Espetáculo O menino que contava estrelas foi o primeiro a disponibilizar a áudio-descrição no Recife.
Mariana, oito anos, é esperta. Morena, cabelos cacheados, inquieta. Nasceu com deficiência visual, o que não está impedindo que ela comece – como toda criança – a compreender o mundo que a cerca. Faz balé. “Danço muito bem. Vou me apresentar no teatro da UFPE. Você conhece?”, pergunta a pequena. Mariana já está acostumada à aúdio-descrição. Viu Irmãos de Fé, do padre Marcelo Rossi, primeiro filme que ofereceu o recurso no país. Na televisão, assiste a programas educativos que permitem que ela construa as imagens que é impossibilitada de ver. No último mês de outubro, a garotinha era uma das mais curiosas na platéia da peça O menino que contava estrelas, que esteve em cartaz no Teatro Joaquim Cardozo, no Recife.

Mariana nasceu com deficiência visual, faz balé, assiste TV e gostou da peça Completando a “lista dos pioneiros”, o espetáculo foi o primeiro no Recife que disponibilizou a áudio-descrição. “A parte que eu mais gostei foi a do dragão.

O menino encontrava um dragão de verdade. Ficou se tremendo”.

A áudio-descrição da peça foi realizada pelos alunos do curso Imagens que falam, detradução visual com ênfase em áudio-descrição, que está sendo ministrado pelo professor Francisco Lima. Cego desde que nasceu, há 44 anos, o professor – doutor em psicofísica sensorial – lida profissionalmente com imagens desde 1996. “Trabalhei com a produção de desenhos que podem ser reconhecidos pelo tato, um recurso que é desconsiderado muitas vezes pelos próprios educadores”.

Atualmente, o professor tem se dedicado a difundir a áudio-descrição que, no caso do teatro, é feita ao vivo. “Repetimos a experiência na peça Os cegos, que também estava no Joaquim Cardozo, e pretendemos continuar fazendo isso. Inicialmente, com as peças deste teatro”, explica.

No campo da arte, além dos palcos e do cinema, a áudio-descrição pode ser utilizada também nos museus. “Seria uma descrição das obras que as outras pessoas conseguem enxergar”, complementa Francisco. Para tornar as artes plásticas completamente acessíveis para pessoas cegas, no entanto, os recursos sensoriais devem ser estimulados. Por que não, por exemplo,disponibilizar reproduções das obras para que os deficientes possam tocá-las?

“É preciso pensar em quais barreiras os deficientes enfrentam. Cada tipo de deficiência é uma barreira diferente. Temos uma lei no Recife, por exemplo, obrigando a fazer maquetes dos prédios públicos importantes, que possam ser tocadas, para os deficientes conhecerem a arquitetura do lugar. Mas isso não sai do papel”, denuncia Anderson Tavares, idealizador da consultoria Visibilidade, que trabalha com acessibilidade.

Diário de Pernambuco,
Imagine o que não se pode ver

Pollyanna Diniz – pollyannadiniz.pe@diariosassociados.com.br [8].

Muito embora venham sendo várias as ações não governamentais voltadas a respeitar o direito de as pessoas com deficiência assistir a um filme, a uma peça teatral ou de visitar um museu com acessibilidade; não obstante os esforços das pessoas com deficiência visual em fazer o Ministério das Comunicações entender que acessibilidade não é opção, mas sim necessidade e direito; a despeito da clareza solar de nosso ordenamento jurídico na garantia do direito à informação, à educação e à cultura, as emissoras de TV brasileiras, representadas pela ABERT, vêm fazendo lobby (e sendo acolhidas pelo Mini-Com) contra a implantação da lei que assegura esse direito aos milhares de cidadãos com deficiência, aqui incluídas pessoas com dislexia, com deficiência intelectual e física.

E não só elas, mas também as pessoas idosas (com dificuldade de leitura) e as pessoas analfabetas, uma vez que, no cinema e nos DVDs os filmes são, em grande parte, legendados e não dublados, o que impede a todas essas pessoas o acesso ao constitucional direito ao lazer que dessas obras poderia advir, caso tivessem áudio-descrição, esse recurso que é definido pela PORTARIA Nº 310, DE 27 DE JUNHO DE 2006 do Ministério das Comunicações como sendo:

3.3. Áudio-descrição (sic): corresponde a uma locução, em língua portuguesa, sobreposta ao som original do programa, destinada a descrever imagens, sons, textos e demais informações que não poderiam ser percebidos ou compreendidos por pessoas com deficiência visual.[9].

A oferta da áudio-descrição eliminaria e/ou minimizaria a atitude excludente de nossa sociedade que ainda não percebeu que não é a deficiência que incapacita a pessoa, mesmo quando e onde lhe impõe limites. Quem incapacita uma pessoa com deficiência é a própria sociedade que não lhe respeita o direito de acesso aos bens e serviços disponíveis às pessoas sem deficiência e que um contribuinte com deficiência, também ajuda pagar com seus impostos.

Logo não se está falando de filantropia ou privilégio quando se reclama pela a oferta da áudio-descrição, nem de um remendo desta. Estamos falando da provisão de um serviço com qualidade para todos a toda hora, pois a toda hora uma pessoa vidente pode ligar a televisão e assistir a um programa. Assim, para que tenha mesma igualdade de acesso a essa programação é que as pessoas com deficiência pleiteiam a áudio-descrição e a acessibilidade a ela associada.

São 10:00 h e Joe, que é cego, quer ver televisão. A mulher e o filho de Joe, que usufruem de capacidade de visão, não estão disponíveis para ler o guia dos programas.
Mesmo que estivessem disponíveis, Joe tentará ser independente e não quer aceder a essa informação através da sua família. É claro que pode ir de canal em canal e esperar cada intervalo para perceber através do áudio que programa é que está a ver. Isso é exatamente o que ele e outros cegos têm feito ao longo dos anos, porque o guia da programação tradicional é puramente visual. E num universo de mais de 200 canais, Joe dispenderia todo o seu tempo navegando, em vez de se divertir com um programa específico. Mas agora, Joe já não é obrigado a navegar inutilmente, graças aos serviços desenvolvidos associados à sua STB.

Barreiras dos Media Convergentes para os Indivíduos Que São Cegos ou Têm Baixa Visão [10]

De modo a responder ao direito de acesso à comunicação e à informação, portanto, surge uma técnica, e um profissional que a emprega: a áudio-descrição e o áudio-descritor, bem como são desenvolvidas tecnologias para a aplicação dessa técnica.

Todavia, a áudio-descrição não é uma descrição qualquer, despretensiosa, sem regras, aleatória. Trata-se de uma descrição regrada, adequada a construir entendimento, onde antes não existia, ou era impreciso; uma descrição plena de sentidos e que mantém os atributos de ambos os elementos, do áudio e da descrição, com qualidade e independência. É assim que a áudio-descrição deve ser: a ponte entre a imagem não vista e a imagem construída na mente de quem ouve a descrição.

Logo, a união dos sentidos se dá por uma ponte em cujas extremidades estão a imagem e a descrição. Essa ponte, o áudio-descritor, vem conduzir a imagem que sem a descrição será inacessível às pessoas com deficiência visual, mas que, com a áudio-descrição, tomará sentido.

Com efeito, para Lívia Mota (2008), a áudio-descrição

“…é um recurso de acessibilidade que permite que as pessoas com deficiência visual possam assistir e entender melhor filmes, peças de teatro, programas de TV, exposições, mostras, musicais, óperas e outros, ouvindo o que pode ser visto. É a arte de transformar aquilo que é visto no que é ouvido,o que abre muitas janelas para o mundo para as pessoas com deficiência visual. Com este recurso, é possível conhecer cenários, figurinos, expressões faciais, linguagem corporal, entrada e saída de personagens de cena, bem como outros tipos de ação, utilizados em televisão, cinema, teatro, museus e exposições”. (grifos nossos) [11]http://www.saci.org.br/index.php?modulo=akemi&parametro=22027.

Estando disponível nos Estados Unidos e Europa, há umas 3 décadas, no Brasil, a áudio-descrição ainda é motivo de espanto para quem, pela primeira vez ouve falar ou lê a respeito dessa tecnologia assistiva de acesso à comunicação/informação.

Mercado inclusivo
10/Dez/2009

Nunca ouvi falar em audiodescrição. Até o dia em que uma amiga publicitária, Neide Cavalcanti, disse que estava se formando na segunda turma do curso de extensão de formação de audiodescritores ou imagens que falam do Centro Estudos Inclusivos, que fica no Centro de Educação Inclusiva (CEI) da UFPE. A técnica é usada para pessoas com deficiência visual, com baixa visão e para os print deisability, os que têm dificuldade de leitura, como analfabetos, crianças e disléxicos, por exemplo.

O coordenador do CEI, Francisco Lima, define a disciplina como uma técnica de descrição voltada aos eventos visuais, imagens, fotos, filmes, tornando-os compreensíveis a pessoas cegas, por intermédio da fala ou escrita de quem descreve tais eventos.”

Moema Luna é jornalista e responsável pela coluna JC Marketing e Comunicação. http://jc3.uol.com.br/comercial/coluna.php?canal=5&dth=2009-12-10

O próprio Ministério das Comunicações e outros têm dado provas de não entender/saber o alcance dessa tecnologia e do que ela significa em termos de direitos humanos. Exemplo disso é a deplorável e controversa Portaria 661/08 que protelou a obrigatoriedade de as televisões oferecerem áudio-descrição em suas programações, conforme manda nosso ordenamento jurídico lei 10098/00 e decreto 5296/04.

Segundo Quico (2005),

Num estudo realizado em 1998, a American Foundation for the Blind verificou que a maioria das pessoas com deficiências visuais que tinham utilizado o serviço de Áudio-Descrição consideraram este como muito útil, bem como davam preferência aos conteúdos com Áudio-Descrição (sic). Os principais benefícios do serviço citados por pessoas invisuais ou com deficiências visuais graves foram os seguintes:

  • ficar a conhecer os ambientes visuais do programa,
  • compreender melhor os materiais televisivos,
  • sentir-se independente,
  • sentir-se igual a uma pessoa sem deficiências visuais,
  • sentir satisfação,
  • alivio dos espectadores sem deficiência visual com quem assistiam aos programas. [11]

E o desconhecimento sobre os benefícios da áudio-descrição perpassa outras áreas sociais, como a da educação que, por seu ministério não obriga que os livros didáticos estejam disponíveis aos alunos com deficiência visual com a descrição dos elementos visuais, muitas vezes necessários para o completo entendimento e conseqüente aprendizagem do conteúdo desses livros.

Em defesa da áudio-descrição

Pelo caráter incipiente da áudio-descrição no Brasil, até mesmo entre alguns dos áudio-descritores brasileiros, verifica-se controvérsia, por exemplo, quanto à grafia do termo áudio-descrição, o qual tem aparecido escrito como “áudiodescrição”, “áudio descrição” e, mais freqüentemente, na forma de “audiodescrição”. E como se grafa a palavra áudio-descrição, então?

Como se pode ver pela grafia adotada neste artigo, o autor optou por a grafar com hífen, mantendo o acento agudo no a do primeiro elemento do léxico.

Ao dizermos áudio-descrição, estamos dizendo de áudio e estamos dizendo de descrição. Os termos mantêm individualmente seu sentido original, porém, constituindo novo sentido, numa nova unidade semântica. Quanto à prosódia e à grafia das palavras em separado, elas são mantidas, logo não havendo razão que justificasse as unir na grafia ou as escrever em separado, sem hífen. Isto é, a junção dos termos áudio e descrição pelo hífen leva ao entendimento de uma nova construção semântica, com sentido próprio, sem que cada termo se destitua por completo de seu sentido original.

Fundir áudio e descrição, sem a correta grafia, portanto, pode levar a uma idéia imprecisa do que, de fato, ela é, um novo termo, com elementos constitutivos conhecidos, mas que mantém a acentuação e demais atributos gráficos dos elementos em separado e, por conseguinte, com sentido próprio e distinto do significado que têm os termos áudio e descrição individualmente.

Quando se une diferentes elementos com hífen e não se perde o sentido original de cada elemento constitutivo, constrói-se na relação uma nova unidade semântica com sentido próprio e concernente ao novo vocábulo. Não se dar conta disso é um equívoco que pode levar a conclusões errôneas.

No extrato abaixo vê-se exemplo do erro que o autor pode cometer, quando a despreocupação com o uso da grafia correta ou o aligeiramento na decisão de que escrita adotar dão lugar à pesquisa, ao estudo e, enfim, à investigação científica minuciosa.

Você está com uma pressa danada e quer saber se “salário mínimo” se grafa com hífen ou sem ele. Numa consulta ao dicionário, você rapidamente vê “salário-mínimo” com hífen e se dá por satisfeito: vai usar a expressão com o hífen.

Nada disso! Numa consulta mais atenta, você verá que “salário-mínimo” com hífen tem um significado diferente do que está imaginando. A expressão não significa o valor mínimo que o trabalhador brasileiro deve receber como salário. Nesse caso, devemos grafar sem o hífen: “salário mínimo”. “Salário-mínimo” é uma expressão popular que possui outro sentido: “Esse time é salário-mínimo” = “Esse time é muito fraco, não vale nada”.

Quando queremos nos referir à remuneração mínima dos assalariados, utilizamos as palavras “salário” e “mínimo” no sentido básico delas, o que não acontece na expressão com hífen, que é usada para adjetivar alguma coisa.[12]

O excelso, polêmico e não menos criticado gramático e filólogo da língua portuguesa Napoleão Mendes de Almeida, confirma o uso de hífen, quando os elementos constitutivos de um vocábulo mantém prosódia e grafia originais, formando nova palavra com sentido próprio. E Napoleão concorda com essa regra, sem deixar de seu purismo no que tange às normas gramaticais e ortográficas, bem como sem deixar de ser crítico ferrenho do uso de hífen, dizendo que esse traço-de-união “é desnecessário e mero ‘enfeite’ que deve ser eliminado”.

Justifica-se o hífen em algumas das palavras compostas por justaposição, a saber, naquelas formadas por dois termos que têm significação própria quando isolados e, no se unirem para formar o composto, conservam ambos, além da significação, a grafia e a prosódia que lhes são peculiares: guarda-chuva, couve-flor, papel-moeda, amor-perfeito. “Justifica-se” ficou dito, mas não nos esqueçamos de que esse enfeite existe quase que exclusivamente no nosso idioma. (Almeida, 1996:244-245)

Alinhados com o Gramático, sustentamos que o uso do hífen não é exclusivo de nossa Língua, como se pode verificar em outros idiomas como no inglês e francês.

Com efeito, também nesses idiomas há os que adotam o traço-de-união ao grafarem áudio-descrição. Seria mesmo por “enfeite”?

Audio-Description
Bernd Benecke
Bayerischer Rundfunk, Munich, Germany

RÉSUMÉ
L’audio-description est présentée principalement selon deux axes: son développement récent et les principales étapes de réalisation de ce mode de transfert linguistique.
(A áudio-descrição é apresentada principalmente segundo dois eixos: seu desenvolvimento recente e as principais etapas de realização deste modo de transferência lingüística).

ABSTRACT
This paper deals mainly with two aspects of audio-description: the development of this mode of language transfer and the main steps in the preparation of an audio-description.
(Este artigo trata principalmente de dois aspectos da áudio-descrição: o desenvolvimento deste modo de tradução lingüístico E os passos principais no preparo da áudio-descrição).

MOTS-CLÉS/KEYWORDS
audio-description, blind and visually-impaired people, German TV channels, recording (Palavras chave áudio-descrição, pessoas cegas e com deficiência visual, canais de televisão alemã, gravação) [13]

Centre Dramatique Régional de Tours
DE GAULLE EN MAI
Textes organisés par Jean-Louis Benoit
Extraits du Journal de l’Elysée de Jacques Foccart
Avec Jean-Marie Frin, Arnaud Décarsin, Luc Tremblais, Laurent Montel, Dominique Compagnon
Ce sont des extraits du journal de Jacques Foccart consacré à cette période qui nous ont permis de construire ce spectacle (…)
Représentation avec audio-description
Jeudi 11 décembre 2008
(Estes são extratos do jornal de Jaques Foccart dedicados a este período que nos permitiram construir este espetáculo: (…)

Representação com áudio-descrição.

Quinta, 11 de dezembro de 2008 [14]

Bringing ballet to the blind – News – audio-description at the Kentucky Center for the Arts – Brief Article

Dance Magazine,
June, 2002
by Janet Weeks

Dancers aren’t the only ones warming up before The Nutcracker performances at the Kentucky Center for the Arts in Louisville. Out front, a trained audio-description volunteer also prepares for a live performance. As the flowers waltz, the volunteer, settled into the light booth or some other suitable space, broadcasts an auditory scene for blind patrons who listen from their seats using a receiver and earphone. The center’s audio-description program celebrates its tenth anniversary this season and for the first time it’s offering the service for modern dance as well as ballet devotees. (Trazendo Ballet aos cegos – Notícia – Áudio-descrição no Centro de Artes de Kentucky- Breve artigo. Os dançarinos não são os únicos a se aquecerem antes da apresentação do “The Nutcracker”, no Kentucky Center for the Arts de Louisville. Lá na frente, um voluntário treinado em áudio-descrição também se prepara para uma performance ao vivo) [15]

Ficando demonstrado o uso desse sinal gráfico em outros idiomas, em mesma expressão de que fazemos uso, a saber, áudio-descrição e ficando demonstrado que, até mesmo o grande Gramático brasileiro Napoleão Mendes de Almeida reconhece a justificativa para o uso de hífen em vocábulo composto, conforme citado, passemos a analisar, pois, o léxico áudio-descrição, quanto ao significado em separado de seus elementos e a relação destes quando juntos.

Segundo o popular Dicionário do Aurélio:

Áudio: [De audi(o)- (q.v.).] S.m. 2. Cin. A parte sonora de um filme.
Descrição: [Do lat. Descriptione.] S.f. 1. Ato ou efeito de descrever. 2. Exposição circunstanciada feita pela palavra falada ou escrita. (FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda,2004)

Aqui, há de se notar que a descrição se presta “pela palavra falada ou escrita”, portanto não sendo de se admirar que desse termo derivem áudio-descrição, a descrição escrita de imagens estáticas (de fotografias, pinturas, esculturas etc.), ou das expressões, figurinos em filmes e peças teatrais, tanto quanto a parte sonora de um filme, em processo de legendagem para o sistema close caption, voltado aos indivíduos surdos, cujo acesso aos áudios do filme se dá, por exemplo, pela descrição dos sons necessários à compreensão da obra e que não são deduzidos da informação visual ou escrita da cena.

Consoante o excelso lexicógrafo Caldas Aulete:

Descrição: s.f. discurso por meio do qual se descreve ou representa alguma coisa ou pessoa; narração circunstanciada; enumeração dos caracteres que distinguem uma pessoa ou coisa.(Aulete, 1968)

Observemos que a narração a que o termo descrição nos remete, quando da áudio-descrição é uma narração dos atributos visuais não compreendidos dos diálogos e efeitos sonoros do filme, o que deixa patente a manutenção desse significado ao se constituir a palavra áudio-descrição (descrição com palavras, narração, dos eventos imagéticos, das características da cena ou dos elementos dela).

Portanto, o termo descrição é adequadamente aplicado nessa construção do vocábulo para melhor determinar que a descrição não seja confundida com interpretação. Com efeito, na áudio-descrição, descreve-se o que se vê e não o que se pensa ou que se acha ter visto.

A áudio-descrição vem completar, ampliar o conhecimento que se pode alcançar de uma dada cena ou filme, mas será a cognição que fará a diferença, de fato. Assim, o papel do áudio-descritor é levar à mente do usuário do serviço, por meio da descrição, oral ou escrita, aquilo que ele vê, da forma que vê, com a maior completude e exatidão que o tempo lhe permitir, dentro de regras e premissas profissionais, sólidas e éticas.

Para sustentarmos com maior profundidade este entendimento, tomemos mais uma vez o que vem significar áudio e descrição, agora na definição do renomado dicionário Michaelis:

áudio
áu.dio2
sm (lat audio) Telev 1 Faixa do espectro reservada ao som, em contraposição ao vídeo. 2 Coluna do script destinada às falas e anotação de sons.[16]

descrição
des.cri.ção
sf (lat descriptione) 1 Ação ou efeito de descrever. 2Lit Tipo de composição que consiste em enumerar as partes essenciais de um ser, geralmente adjetivas, de modo que o leitor ou ouvinte tenha, desse ser, a imagem mais exata possível. (grifos nossos)[17]

Como fica patente, a relação de script, de descrição circunstanciada, de narração pela fala em registro oral ou pelo próprio registro escrito, bem como a relação de tradução da imagem em som, tornando-o “oposição à imagem”, mas correspondente ao filme, torna o vocábulo áudio-descrição um termo com sentido específico e inovador, cujos elementos assumem o significado da tradução visual mediado pelo audiodescritor.

Por assim dizer, então, o áudio-descritor é o (hífen) que une a obra ao expectador, dando novo sentido a ambos, o sentido da acessibilidade, da cidadania, do respeito que cada espectador deve ter ao se deparar com uma obra, seja ela cultural, educacional ou outra.

Entretanto, mais que uma questão gramatical o hífen da áudio-descrição é o  traço de união entre a audição das pessoas com deficiência visual e a imagem visual pretendida pelo autor; entre a inacessibilidade e a compreensão; entre o desrespeito e o reconhecimento de direitos.

Ainda assim, lancemos olhos ao novo acordo ortográfico da língua portuguesa, previsto para entrar em vigor no ano que nos soma à porta, e vejamos o que ele nos diz:

Segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, apresentado por Ernani Terra, o emprego do hífen (-)

continua a ser usado nas palavras compostas, na ligação dos pronomes oblíquos enclíticos (colocados depois da forma verbal) e mesoclíticos (colocados no meio da forma verbal) ao verbo e na ligação dos sufixos de origem tupi: couve-flor, segunda-feira, entregá-lo, entregá-lo-íamos, sabiá- guaçu.[18]

O autor observa que “no entanto, as palavras em que se perdeu a noção de composição deverão ser escritas sem o hífen”, o que não é o caso do vocábulo áudio-descrição, em que se mantém o sentido dos elementos em separado.

O autor observa ainda que não se usa hífen quando:

a) quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s: antirreligioso, antissemita, contrarregra, cosseno
b) quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por vogal diferente dela: antireo, autoestrada, coeducação.

Em todos esses casos, certificamos que não é acolhida a justificativa da grafia de áudio-descrição sem o (hífen).

Ao consultarmos o site http://www.colegiocastroalves.g12.br, verificaremos que:

Nova RegraRegra AntigaComo Será
Não usamos mais hífen em compostos que, pelo uso, perdeu-se a noção de composiçãomanda-chuva, pára-quedas, pára-quedista, pára-lama, pára-brisa, pára-choque, pára-ventomandachuva, paraquedas, paraquedista, paralama, parabrisa, parachoque, paravento
Obs: o uso do hífen permanece em palavras compostas que não contêm elemento de ligação e constitui unidade sintagmática e semântica, mantendo o acento próprio, bem como naquelas que designam espécies botânicas e zoológicas: ano-luz, azul-escuro, médico-cirurgião, conta-gotas, guarda-chuva, segunda-feira, tenente-coronel, beija-flor, couve-flor, erva-doce, mal-me-quer, bem-te-vi etc.[19]

Também aqui, nada se vê que obsta o uso do hífen em áudio-descrição. Pelo contrário, se confirma que nos casos em que os elementos mantêm sentido e grafia originais, porém constituindo nova unidade semântica com sentido próprio, a indicação é de se fazer uso desse traço-de-união.

E é pela união que devemos optar no caso da áudio-descrição, uma vez que mais que a controvérsia sobre a grafia deste vocábulo, o debate a ser feito é o da defesa de as pessoas com deficiência terem acesso à áudio-descrição,

como meio de resposta social à barreira comunicacional que os filmes e outros recursos televisivos, de cinema, de teatros e outros impõem às pessoas cegas      ou com baixa visão, quando o recurso da A-d não é oferecido.

Logo, não nos debatamos pelo que há de controvérsia na A-d, mas nos detenhamos no que nela nos une.  Em outras palavras, não nos descuidemos do traço que nos une na áudio-descrição: o direito humano de se ter acesso com igualdade de condições e oportunidade aos bens e serviços devidos a todos, sejamos pessoas com deficiência ou não.

Ademais, áudio-descrição é nada menos que acessibilidade, e acessibilidade é áudio-descrição, significando que, como dizem os poetas,

Se você não vê, poderá ouvir;
Se você não ouve, poderá ler;
Se você não lê, poderá compreender.”

Entretanto, se você ainda não se convenceu de que áudio-descrição é direito à informação, à comunicação, à cultura, lazer e educação, convença-se de que ela é tudo isso e pratique a acessibilidade, promovendo a cidadania, dignidade e respeito à pessoa humana, também nos museus, no  cinema, nos teatros e na televisão.

Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Dicionário de Questões Vernáculas. 3. Ed. São Paulo: Editora Ática, 1996. p. 244-245.

AULETE, Caldas. Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa. 5ª ed. Rio de Janeiro, Delta S.A., 1968.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 3ª ed. Revista e atualizada. Curitiba, ed. Positivo, 2004.

MOTTA,   Maria Villela de Mello.   Audiodescrição – recurso de acessibilidade para a inclusão cultural das pessoas com deficiência visual,  2008.   In:  http://www.saci.org.br/index.php?modulo=akemi&parametro=22027

QUICO, Célia.  Acessibilidade e Televisão Digital e Interactiva: o caso particular do serviço de Áudio-Descrição destinado a pessoas invisuais ou com deficiências visuais graves”. In:  Estratégias de Produção em Novos Media, Edição COFAC/ Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. ISBN: 972-8881-08-8, 2005.


Notas de rodapé

[1] controvérsia(con.tro.vér.si:a) sf.1. Diferença de opiniões ou discussão quanto a uma ação, afirmação, teoria, proposta ou questão; POLÊMICA2. P.ext. Ação de negar, contradizer ou de se opor a algo; CONTESTAÇÃO; IMPUGNAÇÃO3. P.ext. Debate de idéias; POLÊMICA[F.: Do lat. controversia, ae.] www.aulete.com.br

Published by

  • Francisco Lima

    Professor Adjunto da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); Coordenador do Centro de Estudos Inclusivos (CEI/UFPE); Idealizador e Formador do Curso de Tradução Visual com ênfase em Áudio-descrição “Imagens que Falam” (CEI/UFPE);Tradutor e intérprete, psicólogo, coordenador do Centro de Estudos Inclusivos. E-mail: cei@ce.ufpe.brView all article by Francisco Lima
  • Rosângela A. F. Lima

    Professora adjunto do Centro de Artes e Comunicação- UFPE, coordenadora do Letras/Libras- Pólo UFPE.View all article by Rosângela A. F. Lima
  • Paulo André de Melo Vieira

    Mestrando em Educação da Universidade Federal de Pernambuco. Áudio-descritor certificado pelo curso de Tradução Visual “Imagens que falam” do Centro de Estudos Inclusivos (CEI)View all article by Paulo André de Melo Vieira

RBTV #1: Em defesa da áudio-descrição: contribuições da convenção sobre os direitos da pessoa com deficiência

Resumo:

O presente artigo alerta sobre a necessidade e urgência da divulgação/conscientização dos usuários sobre o  serviço da áudio-descrição. Denuncia que milhares de pessoas ficam diariamente alijadas do direito constitucional ao lazer e à educação, total ou parcialmente, pois a programação televisiva, tanto quanto as de cinema, teatro e das casas de cultura, mostra de artes, feira de artes e de museus, não são acessíveis ao público com deficiência, invariavelmente por falta de acessibilidade física e, certamente, devido às barreiras atitudinais e comunicacionais, advindas da falta da oferta de áudio-descrição  das imagens e outras configurações visuais, que se tornam  inacessíveis às pessoas com deficiência visual, por conta da não oferta desse serviço assistivo. Sustenta o direito de as pessoas com deficiência terem áudio-descrição   na Lei nº 10.098, no Decreto Federal   5.296/2004  e  no Decreto Legislativo 186/2008.  Os autores fazem a assertiva de que o reconhecimento legal, nacional e internacional dos direitos não basta para garantir às pessoas com deficiência o desfrute de todos os seus direitos. Concluem que é urgente  que os operadores do direito tanto quanto os indivíduos com deficiência, detentores do direito à áudio-descrição,  saibam interpretar as leis garantidoras desse serviço assistivo, entendê-lo, respeitá-lo e garanti-lo em todas as suas formas e instâncias


Abstract:

The current article warns about the need and urgency of making audio description service more widely available , as well as about the need of making users aware of the benefits of such assistive tecnology. It denounces the fact that thousands of people remain lacking their constitutional right to education and entertainment, whether total or partially blind, since programs on television, as well as cinema films, theaters and houses of culture, art exhibts, fairs of arts and museums remain inaccessible to disabled citizens, as a rule, due to lack of physical accessibility and, certainly, also due to attitudinal and communication barriers, wherever there is no offer of audiodescription of images, this way, they become inaccessible to people with disabilities. This article stresses the right to audiodescription based on the following brazilian laws: “Lei nº 10.098”; “Decreto Federal 5.296/2004” and on “Decreto Legislativo 186/2008”. The authors state that legal, national and international, acknowledgement of these rights is not bottom-line in warranting that people with disabilities will actually enjoy them. They conclude that it is urgent that law operators as well as people with disabilities, owners of the right to audiodescription, know how to: interpret the laws which guarantee this assistive service; understand such right; and guarantee it in all its forms and instances.

1- Introdução

Segundo a ABERT (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), já em 2004 existiam 186 geradoras de programação no Brasil, dentre as quais 34 estavam no estado de São Paulo.

De acordo com a Wikipedia, existem no Brasil 10 estações de TV comerciais (Band; RBTV; CNT; Rede Diário; Rede Gazeta; Rede Globo; NGT; Rede Record; SBT; Rede TV);  03  estatais (TV Brasil; NBR; Tv Cultura);  2 legislativas (TV Câmara; TV Senado); 1 judiciária (TV Justiça); 36 segmentadas (Agronegócio: Canal do Boi; Terra Viva; Agro Canal; Novo Canal; Canal Rural; Educativas: TV Cultura; Sesc TV; Canal Futura; TV Escola; Paraná Educativa; Esporte: TV Esporte Interativo; Jovem: MixTV; M1 Station TV; MTV Brasil; Rede União; TV Mundial; Rede 21; PlayTV; Notícias: Record News; RIT Notícias; Religiosas: Rede Gênesis; Rede Gospel; Rede Boas Novas; TV Aparecida; TV Canção Nova; TV Século 21; Rede Vida; RIT TV; Rede Super; TV Mundo Maior; TV Novo Tempo; Rede Familia; Vendas: Rede TV+; Polishop TV; Shoptime.com; Shop Tour).

Isso significa que milhares de horas semanais de transmissão televisiva, englobando lazer, cultura, educação, etc., chegam às casas dos milhões de brasileiros espalhados entre os grandes centros e os locais mais longínquos do nosso país. E destes milhões de brasileiros, 24,6 milhões têm alguma deficiência. Segundo o IBGE (Censo 2000), 14,5% da população total do Brasil apresentam algum tipo de deficiência, são pessoas com ao menos alguma dificuldade de enxergar, ouvir, locomover-se, ou com alguma deficiência física ou mental.

Ainda segundo o IBGE, entre 16,6 milhões de pessoas com algum grau de deficiência visual, quase 150 mil se declararam cegos.

É importante destacar também que a proporção de pessoas com deficiência aumenta com a idade, passando de 4,3% nas crianças até 14 anos, para 54% do total das pessoas com idade superior a 65 anos. À medida que a estrutura da população está mais envelhecida, a proporção de pessoas com deficiência aumenta, surgindo um novo elenco de demandas para atender às necessidades específicas deste grupo.

Dentre as pessoas com deficiência estão também aquelas com deficiência física, que não podem manter-se em posição para assistir televisão (dependendo das informações auditivas mais do que das visuais advindas da televisão).

Todas essas pessoas, porém não só elas, ficam diariamente alijadas do direito constitucional ao lazer e à educação, total ou parcialmente, devido ao fato de que a programação televisiva, tanto quanto a de cinema, teatro e, por vezes, das casas de cultura, mostra de artes, feira de artes, museus, etc., não são acessíveis a esse público, invariavelmente por falta de acessibilidade física e, certamente, devido às barreiras atitudinais e comunicacionais, mormente aquelas advindas das imagens e outras configurações visuais não descritas, portanto, inacessíveis à pessoa com deficiência visual.

Compondo o grupo de pessoas excluídas do acesso aos conteúdos televisivos, de cinema, teatro, museus e outros, estão também as pessoas dislexas ou que são analfabetas, pessoas que  têm dificuldade e, às vezes, estão totalmente impedidas de entender o conteúdo escrito, por exemplo, aqueles encontrados em filmes legendados ou em informações por escrito, disponíveis aos visitantes de museus e similares.

De acordo com dados da Associação Brasileira de Dislexia, as pessoas com esse transtorno ou distúrbio de aprendizagem têm a leitura, a escrita e a soletração comprometidas, sendo este considerado “o distúrbio de maior incidência nas salas de aula”. A ABD aponta, ainda, que “Pesquisas realizadas em vários países mostram que entre 05% e 17% da população mundial é disléxica”.

Em relação aos analfabetos, estima-se que, no ano de 2002, o número de brasileiros analfabetos chegou a 14,6 milhões, sendo “11,8% da população de 15 anos ou mais de idade, contra 17,2% em 1992. O País tinha 32,1 milhões de analfabetos funcionais, e 65,7% dos estudantes com 14 anos de idade estavam defasados”. Todo  esse contingente de pessoas analfabetas ou alfabetizadas funcionais estão alijadas do direito de acesso à cultura, advindo de filmes legendados, simplesmente pelo fato de esses filmes não terem legendas áudio-descritas. Entretanto, são as pessoas com deficiência  visual que, em grande número, mais se beneficiarão da áudio-descrição e que, sem ela, têm o seu direito de acesso à comunicação, à educação e  à  cultura denegados, parcial ou totalmente.

Como fica patente, não podemos continuar a ignorar todas essas pessoas e suas necessidades especiais de acesso aos bens e serviços, dentre os quais a cultura e a educação, enquanto bens, e a áudio-descrição, enquanto serviço para aquisição desses bens.

2 – Marco Legal

Vindo transformar essa realidade excludente e de negação de direitos constitucionais às pessoas com deficiência visual (cegas ou com baixa visão), com dislexia, com algumas deficiências físicas e intelectuais, bem como de modo a ampliar o acesso à cultura e à educação aos milhares de cidadãos brasileiros analfabetos, em 19 de dezembro de 2000, promulgou-se a Lei Federal nº 10.098, importante lei sobre a acessibilidade comunicacional que, quatro anos mais tarde, seria regulamentada pelo Decreto Federal 5.296, de dezembro de 2004.

Art. 17. O Poder Público promoverá a eliminação de barreiras na comunicação e estabelecerá mecanismos e alternativas técnicas que tornem acessíveis os sistemas de comunicação e sinalização às pessoas portadoras de deficiência sensorial e com dificuldade de comunicação, para garantir-lhes o direito de acesso à informação, à comunicação, ao trabalho, à educação, ao transporte, à cultura, ao esporte e ao lazer. (Lei Nº. 10.098/2000).

De acordo com o decreto que regulamenta a Lei supracitada:

Art. 5

2. Caberá ao Poder Público incentivar a oferta de aparelhos de televisão equipados com recursos tecnológicos que permitam sua utilização de modo a garantir o direito de acesso à informação às pessoas portadoras de deficiência auditiva ou visual.

Parágrafo único. Incluem-se entre os recursos referidos no caput:
I – circuito de decodificação de legenda oculta;
II – recurso para Programa Secundário de Áudio (SAP); e
III – entradas para fones de ouvido com ou sem fio.

Art. 53. A ANATEL regulamentará, no prazo de doze meses a contar da data de publicação deste Decreto, os procedimentos a serem observados para implementação do plano de medidas técnicas previsto no art. 19 da Lei no 10.098, de 2000.

1o O processo de regulamentação de que trata o caput deverá atender ao disposto no art. 31 da Lei no 9.784, de 29 de janeiro de 1999.

2o A regulamentação de que trata o caput deverá prever a utilização, entre outros, dos seguintes sistemas de reprodução das mensagens veiculadas para as pessoas portadoras de deficiência auditiva e visual:
I – a sub-titulação por meio de legenda oculta;
II – a janela com intérprete de LIBRAS; e
III – a descrição e narração em voz de cenas e imagens. (grifo nosso, Decreto Nº. 5.296/2004)

Tais instrumentos legais ampliaram significativamente o conceito de acessibilidade à comunicação, tanto trazendo às pessoas surdas a legenda, em  close caption, e janela com língua de sinais, quanto trazendo às pessoas cegas a áudio-descrição, em canal secundário de áudio (canal sap). Não se omitindo quanto às barreiras comunicacionais em outras instâncias, determinaram que esse acesso deve se dar também em eventos educacionais/acadêmicos, em conferências, congressos, seminários etc., onde quer que imagens sejam exibidas e pessoas com deficiência visual delas necessitem conhecer, para o lazer, educação ou outra razão.

Art. 59. O Poder Público apoiará preferencialmente os congressos, seminários, oficinas e demais eventos científico-culturais que ofereçam, mediante solicitação, apoios humanos às pessoas com deficiência auditiva e visual, tais como tradutores e intérpretes de LIBRAS, ledores, guias-intérpretes, ou tecnologias de informação e comunicação, tais como a transcrição eletrônica simultânea. (Decreto Nº. 5.296/2004).

Em uníssono com nossa Carta Maior, em junho de 2006, o Ministério das Comunicações publicou a Portaria 310, tornando obrigatória a acessibilidade na programação das televisões abertas, em todo o território nacional. Assim, ficou determinada a obrigatoriedade de veiculação diária de programas com acessibilidade (no caso das pessoas com deficiência visual, pela oferta da áudio-descrição), a princípio com duas horas, devendo progressivamente ir aumentando até chegar a programação total.

O Ministério das Comunicações, ainda, concedeu carência de dois anos para que as emissoras se preparassem para iniciar suas transmissões com áudio-descrição e a legenda oculta em seus programas, respondendo ao previsto pelo referido Decreto e à lei de acessibilidade comunicacional a que ele regulamentava.

9.1.1 No prazo de 2 (dois) anos, contado a partir da publicação desta Norma, para as estações transmissoras ou retransmissoras localizadas em cidades com população superior a 1.000.000 (um milhão) de habitantes. (Portaria 310, de 27 de junho de 2006).

Em julho de 2008 o Ministério das Comunicações publicou a portaria 466, agora dando prazo de 90 dias para que as emissoras passassem a incluir a áudio-descrição em seus programas, nos termos da mencionada Portaria 310 de 2006.

Em 14 de outubro de 2008, porém, o Ministro de Estado das Comunicações, Ministro Hélio Costa, assinou a Portaria nº 661, suspendendo a portaria anterior, não revogando, contudo, o previsto pelo Decreto 5.296 de 2006 e demais dispositivos legais que sustentam a acessibilidade comunicacional, já apresentados neste texto.

Rezava, então, a Portaria de 30 de julho de 2008, na qual o Ministério das Comunicações definia o prazo de noventa dias para que se começasse a oferta de áudio-descrição em canais televisivos:

Portaria  nº 466, de 30 de julho  de 2008

O MINISTRO DE ESTADO DAS COMUNICAÇÕES, no uso das atribuições que lhe confere o art. 87, parágrafo único, incisos II e IV, da Constituição,

Considerando que a Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000, incumbe ao Poder Público promover a eliminação de barreiras na comunicação e estabelecer mecanismos e alternativas técnicas que tornem acessíveis os sistemas de comunicação às pessoas com deficiência sensorial e com dificuldade de comunicação para garantir-lhes o direito, entre outros, de acesso à informação, à comunicação, à cultura, e ao lazer,

Considerando que o Decreto no 5.296, de 02 de dezembro de 2004, que regulamenta a mencionada Lei, alterado pelo Decreto no 5.645, de 28 de dezembro de 2005, estabeleceu a competência do Ministério das Comunicações para dispor, em Norma Complementar, acerca dos procedimentos para a implementação dos mecanismos e alternativas técnicas acima referenciados, determinando que esses procedimentos deveriam prever a utilização de subtitulação por meio de legenda oculta, janela com intérprete de LIBRAS e a descrição e narração em voz de cenas e imagens,

Considerando que, além de investimentos, a implementação desses recursos de acessibilidade pelas exploradoras de serviços de radiodifusão de sons e imagens, nos termos do cronograma constante da Norma no 001/2006, aprovada pela Portaria no 310, de 27 de junho de 2006, requer mão-de-obra especializada em quantidade suficiente para atender a demanda do setor,

Considerando o requerimento apresentado pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão – ABERT em que noticia ser a quantidade de profissionais especializados na produção do recurso de áudio-descrição, existente atualmente no mercado nacional, insuficiente para atender, nos termos do cronograma supracitado, a demanda do setor de radiodifusão de sons e imagens, e

Considerando ainda que, na busca de solução para a questão apresentada, o Ministério das Comunicações, em 23 de julho daquele ano, promoveu reunião com representantes do setor de radiodifusão, do setor de produção de áudio-descrição, do Comitê Brasileiro de Acessibilidade e da União Brasileira de Cegos na qual obteve a garantia, dos representantes do setor de produção de áudio-descrição e do representante do Comitê Brasileiro de Acessibilidade e da União Brasileira de Cegos, de que a demanda requerida pelo setor de radiodifusão poderia ser atendida dentro do prazo de três meses com a formação de, aproximadamente, cento e sessenta profissionais com a qualificação exigida para a produção de áudio-descrição, resolve:

Art. 1o Conceder o prazo de noventa dias, contado da data de publicação desta Portaria, para que as exploradoras de serviço de radiodifusão de sons e imagens e de serviço de retransmissão de televisão (RTV) passem a veicular, na programação por elas exibidas, o recurso de acessibilidade de que trata o subitem 3.3 da Norma Complementar no 01/2006, aprovada pela Portaria no 310, de 27 de junho de 2006, ficando mantidas as demais condições estabelecidas no subitem 7.1 da mesma Norma.

Art. 2o Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação.

HÉLIO COSTA

3 –  O direito à Áudio-descrição no contexto do Decreto Legislativo 186 de 9 de julho de 2008

Seria redundância  legal advogar pelo direito da pessoa com deficiência aos bens e serviços culturais, bem como à equiparação de condições se esse direito fosse de pronto  respeitado. Acontece que não o é! Como confirma a Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência, “(…) as pessoas com deficiência continuam a enfrentar barreiras contra sua participação como membros iguais da sociedade e violações de seus direitos humanos em todas as partes do mundo”. Portanto, também no Brasil.

Fosse nossa Carta Maior respeitada na íntegra,  nenhuma outra lei seria necessária se a pessoa com deficiência fosse, realmente, reconhecida como pessoa, e enquanto tal fosse percebida como tendo direitos, não iguais às demais, mas consoante as suas próprias necessidades e/ou características específicas, visto que é assim que a Constituição Brasileira proclama.

A todos deve ser garantido o direito de ir e vir, às pessoas com deficiência devem adicionalmente ser garantidos os meios/recursos para que exerçam aquele direito.

A todas as crianças é devido o direito à educação, às crianças com deficiência este direito deve ser acompanhado pelo direito de acesso à escola, de acesso aos ambientes educacionais, de acesso aos meios e recursos que viabilizem a educação, etc.  Corrobora nosso entendimento, o fato de  a referida Convenção reconhecer “a importância da acessibilidade aos meios físico, social, econômico e cultural, à saúde, à educação e à informação e comunicação, para possibilitar às pessoas com deficiência o pleno gozo de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais” (Decreto Legislativo 186/08).

Assim é que, sustentados na  Convenção, defendemos que o direito à cultura, ao lazer e tudo o mais que advém da aprendizagem pela cultura e da saúde pelo lazer,  devem estar garantidos a todas as pessoas, e isso significa  garanti-los a todas as pessoas, sem qualquer adjetivação. No entanto, a adjetivação de um indivíduo em pessoa com deficiência requer tratamento desigual, sem o que, é sabido, não se promoverá a igualdade dessas pessoas com aquelas sem tal adjetivação.  Portanto, a “re-edição” de dispositivo garantidor  do direito da pessoa com deficiência não se trata de mera redundância. De fato, não fosse legislar pelo direito das crianças com deficiência, pelo direito das mulheres com deficiência, pelo direito dos trabalhadores com deficiência, enfim, pelo direito das pessoas com deficiência, estas não seriam tidas como pessoas, trabalhadores, mulheres ou crianças.

Sumariando e, por assim dizer, re-editando a Carta Universal dos Direitos da Pessoa Humana, agora com a adjetivação de pessoa humana com deficiência, países de todo o mundo se unem para dizer que as pessoas com deficiência são pessoas, e são pessoas com deficiência  que requerem  respeito e cuidado, consoante suas necessidades, porém sem paternalismos e sem privilégios. De fato, reconhecer-lhes os direitos, garantir-lhes o acesso a esses direitos é  efetivamente dever de cada um  dos indivíduos da sociedade universal, e  certamente  não é privilégio e nem paternalismo.

Em uníssono com este entendimento, o Brasil reconhece e ratifica os ditames da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, na forma de decreto legislativo com força de emenda constitucional (Decreto Legislativo 186/2008).

Por si só este feito é um dos mais significativos passos no reconhecimento de que o cidadão brasileiro com deficiência é pessoa humana, como  foi definido, pela primeira vez em nosso país, em nossa Constituição de 1988.

Não obstante, o reconhecimento legal, nacional e internacional dos direitos da pessoa com deficiência não é suficiente para garantir a essas pessoas o desfrute de todos os seus direitos. É mister que os operadores do direito tanto quanto os cidadãos com deficiência, detentores desse  direito, saibam interpretá-lo, entendê-lo, respeitá-lo e garanti-lo, em todas as suas formas e instâncias.

Assim é que  se reconhece na Convenção que: “a deficiência é um conceito em evolução e que a deficiência resulta da interação entre pessoas com deficiência e as barreiras devidas às atitudes e ao ambiente que impedem a plena e efetiva participação dessas pessoas na sociedade em igualdade de oportunidades com as demais pessoas”. Em outras palavras, reconhece-se  que a sociedade e suas barreiras atitudinais  impõem incapacidades a essas pessoas, que quando muito teriam limites inerentes às suas deficiências.

Máxime para as pessoas cegas, a advocacia de seus direitos passa pela própria educação dos indivíduos com deficiência visual, quanto aos serviços a que têm direito e dos meios ou vias para alcançá-los. Como afirmamos acima, não se trata de requerer privilégios, mas de saber interpretar os instrumentos jurídicos como ferramentas garantidoras da igualdade de acesso e desfrute  do que está socialmente disponível às pessoas não cegas.

Neste artigo fazemos um recorte do direito de acesso à comunicação, à informação, à cultura, à educação e aos demais bens culturais, por  meio da áudio-descrição de eventos visuais, os quais sem este recurso limitam e/ou impedem o pleno exercício do direito à educação, ao lazer e à cultura em geral.

A Convenção sobre o direito das pessoas com deficiência, por mais de uma vez, nos permite sustentar a tese do direito à áudio-descrição, considerando a intencionalidade da Convenção e dos pressupostos que a sustentam.

Já no primeiro artigo, a Convenção  nos alerta para o fato de que as pessoas com deficiência encontram barreiras físicas e sociais  que “podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas” (Decreto 186/2008).

Não é difícil perceber que a barreira comunicacional, advinda da ausência de áudio-descrição, por exemplo nas peças publicitárias, quanto ao uso de preservativos em que se pretende a educação das pessoas a respeito de DST/Aids, exclui da população alvo dessas peças as pessoas cegas ou com baixa visão a quem tais informações visuais  não chegam.

Ora, o direito à saúde é direito de todas as pessoas, sejam elas sem deficiência ou com essa adjetivação. Não propiciar, portanto, igualdade de acesso à informação para as pessoas com deficiência visual é discriminá-las por razão de deficiência, uma vez que não é a cegueira que as impede de receber a informação, mas o obstáculo  ocasionado pela falta da áudio-descrição, a qual é, em última instância, uma alternativa comunicacional para os eventos visuais.

“Discriminação por motivo de deficiência” significa qualquer diferenciação, exclusão ou restrição baseada em deficiência, com o propósito ou efeito de impedir ou impossibilitar o reconhecimento, o desfrute ou o exercício, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais nos âmbitos político, econômico, social, cultural, civil ou qualquer outro. Abrange todas as formas de discriminação, inclusive a recusa de adaptação razoável;” (Decreto Legislativo 186/2008)

O acesso à comunicação, no sentido mais amplo, está previsto na referida Convenção, conforme se pode ler:

Artigo 2

Definições Para os propósitos da presente Convenção:

“Comunicação” abrange as línguas, a visualização de textos, o braille, a comunicação tátil, os caracteres ampliados, os dispositivos de multimídia acessível, assim como a linguagem simples, escrita e oral, os sistemas auditivos e os meios de voz digitalizada e os modos, meios e formatos aumentativos e alternativos de comunicação, inclusive a tecnologia da informação e comunicação acessíveis; (Decreto Legislativo 186/2008)

Consideremos, agora, o artigo terceiro, mormente quando diz:

Princípios gerais. Os princípios da presente Convenção são:
a) O respeito pela dignidade inerente, a autonomia individual, inclusive a liberdade de fazer as próprias escolhas, e a independência das pessoas.
c) A plena e efetiva participação e inclusão na sociedade;
e) A igualdade de oportunidades;
f) A acessibilidade; (Decreto Legislativo 186/2008)

Seria flagrante afronta a tais princípios negar a uma pessoa com deficiência visual o direito de, por si só, decidir o que e quando assistir na televisão, cinema ou mesmo num DVD, condicionando-a tomar tal decisão se e quando uma pessoa vidente lhe estivesse disponível para ler a legenda do DVD, descrever  a cena de um filme, ou o número de telefone exibido na tela da televisão.

É mister, então, frisar que cada vez mais as pessoas precisam de conhecimentos culturais gerais, muitos dos quais veiculados na televisão, noticiários, documentários, etc, para a obtenção  de emprego, por exemplo.

Assim, a áudio-descrição vem constituir-se numa ferramenta de acesso laboral tanto quanto para o lazer e para a educação. Se às pessoas videntes está garantido o  acesso às informações visuais, estas devem, igualmente, serem disponibilizadas às pessoas com deficiência visual. De outra forma, essas pessoas estarão novamente sendo discriminadas por razão de deficiência, já que nem mesmo o conceito de “adaptação razoável” pode servir de justificativa para a não oferta da áudio-descrição.

Considerando as grandes cifras destinadas à produção das obras televisivas e de cinema, o investimento de um percentual mínimo para a áudio-descrição não pode ser justificativa razoável para denegar direito fundamental da pessoa com deficiência visual.

Ademais, uma vez áudio-descrito um filme, por exemplo, a áudio-descrição pode ser agregada como mais um produto derivado de uma dada obra. Por exemplo, poder-se-á em um CD divulgar o áudio original do filme, acrescido da áudio-descrição, o que permitirá que um motorista ouça seu filme no carro, enquanto dirige. A áudio-descrição permitirá com que ele veja em sua mente, aquilo que temporariamente seus olhos não podem alcançar.

Com a adoção  da Convenção como emenda constitucional à nossa Carta Maior, o Brasil se compromete a pesquisar e desenvolver recursos de acessibilidade, eliminando em todas as instâncias, pública ou privadas, barreiras comunicacionais, atitudinais e outras, de modo a respeitar os direitos fundamentais da pessoa com deficiência.

f) Realizar ou promover a pesquisa e o desenvolvimento de produtos, serviços, equipamentos e instalações com desenho universal, conforme definidos no Artigo 2 da presente Convenção, que exijam o mínimo possível de adaptação e cujo custo seja o mínimo possível, destinados a atender às necessidades específicas de pessoas com deficiência, a promover sua disponibilidade e seu uso e a promover o desenho universal quando da elaboração de normas e diretrizes;

g) Realizar ou promover a pesquisa e o desenvolvimento, bem como a disponibilidade e o emprego de novas tecnologias, inclusive as tecnologias da informação e comunicação, ajudas técnicas para locomoção, dispositivos e tecnologias assistivas, adequados a pessoas com deficiência, dando prioridade a tecnologias de custo acessível; (Decreto Legislativo 186/2008)

Ora, a áudio-descrição se encaixa no previsto uma vez que advém de pesquisa, inclusive acadêmica, registrada em dissertações e teses, bem como em artigos científicos, encontrados em universidades de renome e reconhecimento internacional.

Além disso,  a áudio-descrição permite o acesso a constructos educacionais, por exemplo, na áudio-descrição de uma teleaula, ou de slides apresentados, por exemplo na cadeira de neurofisiologia a alunos de psicologia.

Desconsiderar o custo benefício desse recurso e a viabilidade  de sua implantação é tripudiar sobre nossa Constituição, sobre a emenda que agora dela faz parte e principalmente sobre milhões de pessoas com deficiência visual, com dislexia, com deficiência física e outras.

Especial atenção devemos dar para o papel da áudio-descrição na garantia do direito de igualdade e oportunidade devido às crianças com deficiência. Não podemos dizer que as crianças com deficiência visual terão igualdade de oportunidades, menos ainda, igualdade de condições de decidirem pelo que lhes é de direito, se essas crianças forem impedidas do acesso às informações visuais como aquelas contidas nos materiais didáticos (nos livros que trazem figuras, gráficos, mapas, etc.), nos materiais paradidáticos e destinados ao lazer, os quais trazem fotos, figuras para pintar, entre outros.

Uma criança cega que recebe a áudio-descrição das imagens contidas em seu livro, melhor pode acessar as informações e conceitos dele advindos.

Uma criança com baixa visão que recebe a áudio-descrição de uma figura pode melhor “visualizar” aquilo que está vendo e  cujos detalhes não distingue.

A aquisição dos conceitos de novos vocabulários, bem como a oportunidade de discutir os eventos visuais com seus coleguinhas que enxergam,  podem ser facilitados, mediados ou viabilizados pela áudio-descrição.

Sem ela,  se desconsiderará mais um item  da Convenção, e por conseqüência, aviltar-se-á mais uma vez nossa Carta Maior, ao se descumprir o Decreto 186/08 em seu artigo 7.

Artigo 7

Crianças com deficiência

  1. Os Estados Partes tomarão todas as medidas necessárias para assegurar às crianças com deficiência o pleno exercício de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais, em igualdade de oportunidades com as demais crianças.
  2. Em todas as ações relativas às crianças com deficiência, o superior interesse da criança receberá consideração primordial. (Decreto Legislativo 186/2008)

O reconhecimento de que não é a deficiência que incapacita a pessoa, mas as barreiras que a ela são impostas, bem como a busca pela independência moral, ética, física, profissional e de toda sorte, vem se somar na tentativa de tornar as pessoas com deficiência livres das peias sociais  que as colocam como dependentes  daqueles que não lhes devem mais do que o respeito.

É sabido, que o ser humano, enquanto ser social depende de sua espécie, no entanto, tal dependência não pode dar vez a uma relação de privação das liberdades mais fundamentais a que toda pessoa humana tem direito: a liberdade de ir e vir, a liberdade de acesso ao trabalho e lazer, a liberdade de acesso às informações e a liberdade de expressar sobre elas.

Como tais liberdades têm sido denegadas, a Convenção traz, com clareza solar, dispositivo que rejeita tal situação. E, ao fazê-lo, fundamenta mais uma vez o pleito por uma áudio-descrição que esteja disponível em todas as instâncias e a todas as pessoas que dela necessitem, para que o acesso à informação e tudo que dele decorre, possa ser desfrutado pelas pessoas cegas, tanto quanto as informações visuais são para as pessoas videntes. Sem meias palavras, a Convenção diz:

Art 9 – Acessibilidade

  1. A fim de possibilitar às pessoas com deficiência viver de forma independente e participar plenamente de todos os aspectos da vida, os Estados Partes tomarão as medidas apropriadas para assegurar às pessoas com deficiência o acesso, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, ao meio físico, ao transporte, à informação e comunicação, inclusive aos sistemas e tecnologias da informação e comunicação, bem como a outros serviços e instalações abertos ao público ou de uso público, tanto na zona urbana como na rural. Essas medidas, que incluirão a identificação e a eliminação de obstáculos e barreiras à acessibilidade, serão aplicadas, entre outros, a:
    b) Informações, comunicações e outros serviços, inclusive serviços eletrônicos e serviços de emergência;

Artigo 21

Liberdade de expressão e de opinião e acesso à informação Os Estados Partes tomarão todas as medidas apropriadas para assegurar que as pessoas com deficiência possam exercer seu direito à liberdade de expressão e opinião, inclusive à liberdade de buscar, receber e compartilhar informações e idéias, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas e por intermédio de todas as formas de comunicação de sua escolha, conforme o disposto no Artigo 2 da presente Convenção, entre as quais:
a) Fornecer, prontamente e sem custo adicional, às pessoas com deficiência, todas as informações destinadas ao público em geral, em formatos acessíveis e tecnologias apropriadas aos diferentes tipos de deficiência;
b) Aceitar e facilitar, em trâmites oficiais, o uso de línguas de sinais, braille, comunicação aumentativa e alternativa, e de todos os demais meios, modos e formatos acessíveis de comunicação, à escolha das pessoas com deficiência; (grifo nosso)
d) Incentivar a mídia, inclusive os provedores de informação pela Internet, a tornar seus serviços acessíveis a pessoas com deficiência; (Decreto Legislativo 186/2008)

Como se vê, sobejamente, o Decreto, e a Convenção que ele aprova, hora em comento, sintetiza a defesa pela dignidade humana da pessoa com deficiência, pela igualdade de condições, pela igualdade de oportunidades, pela igualdade de acesso, pela quebra de barreiras atitudinais, e, fortemente, pela promoção da acessibilidade (física, cultural, comunicacional, entre outras).

A constante defesa desses direitos, ao longo da Convenção, de um lado denuncia o quanto eles vêm sendo negados, de outro, diz da premência de torná-los realidade, num momento histórico, em que milhões de pessoas por todo o mundo são excluídas, desrespeitadas, discriminadas, por razão de deficiência.

Certamente, a áudio-descrição não dará cabo de toda essa mazela social, no entanto, enquanto um serviço mediador  de acesso à cultura, enquanto um serviço assistivo  de baixo custo e enquanto uma ferramenta de acessibilidade comunicacional, contempla os princípios fundamentais desta Convenção  e vem contribuir para a independência das pessoas com deficiência, seu acesso à informação, à educação, ao trabalho e ao lazer.

Em suma, a áudio-descrição é um exemplo claro de que se pode fazer muito, investindo economicamente  pouco, para beneficiar a tantos.

A A-d, neste diapasão, é  Acesso à Dignidade, é Acesso ao Direito,  é áudio-descrição.

4 – Da necessidade da áudio-descrição

Pelo cenário até aqui exposto, do desconhecimento de que significa a áudio-descrição para as pessoas que dela se beneficiarão e do desconhecimento que se tem das leis que sustentam a reivindicação pela oferta da áudio-descrição, urge a necessidade de, de um lado divulgar/conscientizar os usuários do serviço da áudio-descrição a respeito da existência deste, de seu direito de o exigir, e de os informar, acima de tudo, a respeito dos benefícios que tal serviço trará às pessoas, mormente àquelas com deficiência visual; de outro lado, é mister que profissionais sejam treinados/capacitados na oferta do serviço de áudio-descrição, para trabalhar nos diversos segmentos, teatro, cinema, televisão, museu e no sistema educacional em geral.

Mais do que isso, contudo, estamos falando de que essa conscientização sobre a oferta da áudio-descrição resultará em propiciar a centenas de milhares de pessoas o acesso ao lazer, à cultura e à própria educação com qualidade, quesitos constitucionais, ainda hoje denegados às pessoas com deficiência, quando as imagens estão no foco da questão.

Assim, crianças cegas não recebem livros com desenhos e outras configurações gráficas bidimensionais; jovens não desfrutam da programação televisiva, adultos são privados de áreas da ciência a qual poderiam estar inseridos; idosos não aproveitam na totalidade os passeios que fazem, todos pela ausência das informações advindas do contato com as imagens ou com o contato precário com elas, quando são pessoas com baixa visão. E estas são muitas, quando se considera que cerca de  95% dos idosos, com mais de 75 anos, terão alguma perda visual.

Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de:

(…) III – atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino;
V – acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um;
(…) § 1º – O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo.
2º – O não-oferecimento do ensino obrigatório pelo Poder Público, ou sua oferta irregular, importa responsabilidade da autoridade competente.
(Constituição Federativa do Brasil, 1988).

Na educação, a áudio-descrição permitirá a pessoas cegas pleitear profissões nas áreas da arquitetura, da química, da geografia, das artes, da computação, dentre outras que hoje são vistas como inatingíveis para as pessoas cegas, uma vez que essas profissões fazem uso de grandes porções de conteúdo visual. Não obstante, várias pessoas cegas ou com baixa visão já estão nessas áreas, embora não tenham acesso às imagens por meio de áudio-descrição. E isso exige delas grandes esforços e desprendimento de energia que poderia estar sendo usada para outra atividade, caso a áudio-descrição lhes estivesse disponível.

Para as crianças pequenas, a áudio-descrição faculta o acesso a conceitos novos e à elaboração de conceitos ainda não bem formados; permite a aquisição de novos vocabulários e o acesso ao lazer, o qual será partilhado com as demais crianças que enxergam, levando à inclusão de todas (www.rnib.org.uk).

Exemplo disso é sua aplicação nos jogos (tipo vídeo-games). Crianças cegas poderão jogar e discutir sobre o que jogaram, a que fase chegaram etc., falando com seu coleguinha que enxerga. E ambas as crianças poderão, então, partilhar seu conhecimento sobre o jogo. Nos dias de hoje, essas situações são raras e as crianças cegas ficam com poucas chances de discutir/brincar com seus coleguinhas quando os jogos são o mediador ou assunto da conversa.

Os benefícios da narração descritiva, isto é, da áudio-descrição, pode ser aquilatado a partir de uma áudio-descrição feita durante uma visita ao museu. Nestes casos, a áudio-descrição feita por um áudio-descritor conhecedor da capacidade das pessoas com deficiência visual em apreciar as configurações bidimensionais, permitirá maior e adequada acessibilidade dessas pessoas aos museus e seus conteúdos. Isso se alcançará, por exemplo, pela utilização de recurso de áudio gravado, acessado a partir de um aparelho de CD, em cuja mídia está um roteiro com a descrição das obras apresentadas num dado trajeto.

Na apresentação de slides, tem-se orientado a inclusão de informação sonora, podendo o apresentador gravar previamente o texto ou legenda disponíveis no slide, bem como a descrição das imagens nele contidas. (www.rnib.org.uk).

A áudio-descrição pode, ainda, servir como eliminador de preconceitos e de discriminação como a que recentemente se viu ocorrer quando o TJ do Maranhão negou a participação de candidato cego em concurso para magistratura.

O presidente do TJ-MA, Raimundo Cutrin, disse, por meio de assessoria de imprensa, que a atividade de juiz é incompatível com a falta de visão. Segundo ele, juízes têm de fazer inspeções, correções e interrogatórios, atividades que exigem “visão apurada”.

No último dia 7, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) determinou reserva de 5% a 20% das vagas para pessoas com deficiência em todos os concursos para magistratura do país. A decisão não faz ressalva a cegos. A determinação, contudo, dá autonomia aos tribunais para definir os editais, observando a “compatibilidade entre as funções a serem desempenhadas e a deficiência do candidato”. folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u459168. shtml

Para além do fato de que um juiz não deve prejulgar, nem mesmo baseado naquilo que vê, sabendo que a visão pode ser facilmente iludida e sabendo que, se de um lado  é a visão que captura as imagens, de outro, é o cérebro que as analisa e delas tira suas conclusões, apenas por preconceito se pode aduzir que uma pessoa cega não seria capaz de exercer a função de magistrado. Um juiz não deve julgar meramente pelo que lhe é apresentado às vistas, mas julgar pelos fatos que lhes chegam à mente, à razão. Com efeito, alhures, muitos são os exemplos de juízes cegos atuando nas mais diversas áreas: Sir John Fielding (1721-1780), Bill Kempton; Diane Cram; John Lafferty, Thomas “TJ” Loftus; Joseph Donahey; Richard Conway Casey; Richard B. Teitelman,  e uma dezena de outros magistrados.

A “lacuna” de acesso às informações visuais, largamente usada como argumento para discriminar pessoas cegas no ofício do magistrado no Brasil, pode ser tranquilamente suplantada por um áudio-descritor que atue como perito em tradução visual, em auxílio ao juiz. E, como é sabido,  ter o apoio de peritos não é incomum na atuação dos magistrados que, por exemplo,  se valem de perito que interprete fotos de um crime, identificando, por exemplo, se a arma e o corpo estão em posições condizentes com esta ou aquela tese da defesa ou da acusação.

Logo, o áudio-descritor judiciário pode colaborar com o magistrado com deficiência visual ou com dislexia, mas também com eventuais cidadãos com deficiência visual, e.g. pessoas idosas com baixa visão que, contra si, estão sendo usadas imagens numa dada ação, da qual precisem de maiores detalhes da imagem para melhor defender-se. A igualdade de condições no ato de defender-se deve ser perseguida com a maior retidão, sob pena de, não tendo esse direito respeitado, o cidadão com deficiência visual ser discriminado por razão de deficiência (Lei 3.956/2001).

Com efeito, o excelso desembargador Antonio Fernando Bayma Araújo  reconheceu que se obrara preconceituosamente contra a pessoa com deficiência, donde sentenciou que se suspendesse o concurso que negara a participação de pessoas com deficiência visual.

 Atendendo pleito da seccional maranhense da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/MA), em Mandado de Segurança impetrado na última segunda-feira, o desembargador Antonio Fernando Bayma Araújo concedeu liminar suspendendo o concurso para preenchimento de vagas para o cargo de juiz do Tribunal de Justiça do Maranhão até que seja feita a readaptação do edital do certame, garantindo a participação de portadores de deficiência visual total ou parcial, bem como a realização das provas em “braile”, “ampliada”, “leitura de prova”, utilização de “ledor” ou outros mecanismos de auxílio aos deficientes.

O desembargador afirmou que tentar proibir a participação de deficientes visuais no concurso é uma atitude preconceituosa, discriminatória e segregacionista, na medida em que, sem qualquer amparo legal, gera prejuízos não só na órbita material do direito, mas, sobretudo, de ordem moral e pessoal.

“A manutenção da regra, sem uma resposta imediata do Poder Judiciário, causa transtorno não só a quem pretende se inscrever no concurso na qualidade de deficiente, mas a toda a sociedade”, assinalou o desembargador Bayma Araújo.

O desembargador considera que o TJ não pode incorrer na violação a direito líquido e certo consistente no impedimento da participação dos portadores de deficiência visual no concurso para provimento do cargo de juiz de direito substituto de entrância inicial.

“Direito não se pede, exige-se. A igualdade é para todos, e não para uma parte”, sentenciou o magistrado.

“A decisão do desembargador Bayma Araújo foi justa e coerente, tendo em vista que o edital do mencionado concurso traz em seu bojo previsão claramente inconstitucional, evidenciando um preconceito injustificáve e promovendo uma acintosa violação aos direitos fundamentais da pessoa humana”, ressaltou o presidente da OAB/MA, José Caldas Gois, ao ser informado da decisão.

Para a OAB, na parte que proíbe a participação de cegos no concurso, o edital é absolutamente contrário à lei e chega-se mesmo ao ponto em que a regra estabelecida no mesmo implicaria na obrigação de que membros do Poder Judiciário, com base em disposição ilegal, viesse a praticar ato definido em lei como crime, ao indeferir, de plano, por exemplo, o pedido de inscrição de pessoa cega ou portadora de deficiência visual.

“Se os empregadores privados não podem discriminar os trabalhadores, para critérios de admissão em razão de serem portadores de deficiência, com muito maior razão não pode o Estado, a Administração Pública e, principalmente, o Poder Judiciário, a quem incumbe, a defesa da Ordem Jurídico Constitucional.

A norma contida na Constituição visa promover, e não impedir, o ingresso de todos, inclusive dos deficientes, em igualdade de condições, no serviço público”, salientou a OAB no Mandado de Segurança. ( imirante.globo.com/jus-ma/plantao/plantao.asp?codigo1=811)

 5 – Considerações Finais

Como pudemos observar, são várias as áreas em que a áudio-descrição respeita o direito de acesso às mais diversas formas de comunicação/informação a que as pessoas com deficiência têm direito.

Não é desconhecido, por exemplo, a linda, poética e significativa áudio-descrição feita pelo cosmonauta Iuri Alieksieievitch Gagarin, em que, ao ver a terra de onde ninguém jamais vira antes, descreveu nosso planeta como: “A Terra é azul!”, trazendo aos que a terra não podiam ver a informação de que cor ela era. E quantos mundos azuis deixam de ser acessíveis às pessoas com deficiência visual pela ausência da áudio-descrição, em particular, e pelas demais barreiras comunicacionais em geral?

Enumerá-las é quase impossível, tantas são as formas que tomam, mas uma coisa é possível fazer e é disso que estamos tratando aqui: romper com barreiras, para a participação de todos numa sociedade para todos e que não pára todos os que têm alguma deficiência.

Portanto, que atuemos em busca e defesa do recurso da áudio-descrição para que seja mais um serviço de tecnologia assistiva disponível às pessoas com deficiência. E mais:  que esse serviço seja prestado com a qualidade e freqüência que merecem seus usuários: a melhor!

 BIBLIOGRAFIA:

AUDETEL,  The European AUDETEL Newsletter: bringing television to life for visually impaired audiences. Audetel Newsletter 1, November 1992, pp. 1-5.

AUDETEL CONSORTIUM. Audetel developments 1992-1995. VHS videocassette (disponible en la ITC), 1995.

BARDISA, Lola. Cómo enseñar a los niños ciegos a dibujar. Madrid: ONCE, 1992.

BRASIL,  Lei Nº. 10.098/2000. Disponível em: agenda.saci.org.br

BRASIL, Decreto Nº. 5.296/2004. Disponível em agenda.saci.org.br

BRASIL, Portaria 310/2006. Disponível em: mc.gov.br/o-ministerio/legislacao/portarias

BRASIL, Portaria 466/2008. Disponível em: mc.gov.br/o-ministerio/legislacao/portarias

BRASIL,  Constituição da República Federativa do Brasil (1988). Disponível em: planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao

BRASIL, Decreto Legislativo 186, de julho de 2008. Disponível em: senado.gov.br/bdsf/item/id/99423

LIMA, F. J. Ensinando reconhecer desenhos pelo tato: o efeito do treino no desempenho de pessoas cegas na nomeação de figuras examinadas hapticamente. Submetido à Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), 2004.

ROYAL NATIONAL INSTITUTE FOR THE BLIND.  Blind and partially sighted adults in Britain: the RNIB survey. Londres: HMSO Publications, 1991.

WEISEN, Marcus. The AUDETEL Project: deliverable 2. Review of current expertise on audiodescription. Londres: Royal National Institute for the Blind, 1992.

Published by

  • Rosângela A. F. Lima

    Professora adjunto do Centro de Artes e Comunicação- UFPE, coordenadora do Letras/Libras- Pólo UFPE.View all article by Rosângela A. F. Lima
  • Francisco Lima

    Professor Adjunto da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); Coordenador do Centro de Estudos Inclusivos (CEI/UFPE); Idealizador e Formador do Curso de Tradução Visual com ênfase em Áudio-descrição “Imagens que Falam” (CEI/UFPE);Tradutor e intérprete, psicólogo, coordenador do Centro de Estudos Inclusivos. E-mail: cei@ce.ufpe.brView all article by Francisco Lima
  • Lívia C. Guedes

    Áudio-descritora, Pedagoga e Mestra em Educação pela UFPE.View all article by Lívia C. Guedes

RBTV #1: Índice

Áudio-descrição da capa:

Fotografia em preto e branco nas dimensões 15 cm x 21 cm e formato retrato, onde se vêem, em primeiro plano, duas figuras humanas – um homem e uma mulher – em um flagrante de carnaval.

No segundo plano, mais ao longe, há pessoas desfocadas, em frente a uma construção de tijolos aparentes, com duas janelas.

Vê-se, em parte, o lado esquerdo de uma mulher jovem, de rosto arredondado, de olhos escuros, a qual fita um ponto à esquerda além da foto. Ela usa chapéu de tonalidade clara e aba circular com laço de fita sobre a copa. A mulher tem a pele morena e traja uma fantasia carnavalesca com mangas volumosas, formadas em parte por tecido e em parte por lantejoulas circulares e brilhantes. Seus lábios, em um suave sorriso, deixam-lhe à mostra os dentes. Ela abraça um rapaz por trás, recostando-lhe a face direita no braço esquerdo, pouco abaixo do ombro.

O homem é jovem, tem rosto alongado, cabelos curtos e crespos e a pele morena. Está com a face voltada para o rosto da mulher que o abraça. Os lábios do homem são grossos e estão levemente abertos. Ele traja uma camisa clara com desenhos de coqueiros no lado inferior esquerdo e usa um cordão escuro com pingente. Na mão direita, segura um pano à altura do abdômen.


Sumário:


Published by