Audiodescrição no Miss DV RS 2011: relato de uma experiência

A noite de sete de junho foi fria. Chovia em Porto Alegre. E, na televisão, o fenômeno Ronaldo se despedia dos gramados. Nenhum desses fatores, no entanto, impediu que o Chalé da Praça XV estivesse absolutamente lotado para um evento único: o I Concurso Miss Deficiente Visual do Rio Grande do Sul.O concurso, promovido pela ACERGS (Associação de Cegos do Rio Grande do Sul), não pretendia apenas escolher a mais bela gaúcha com deficiência visual. O Miss DV pretendia ainda apresentar essas moças a uma sociedade que parece não perceber que cegueira não é sinônimo de reclusão ou dependência. Essas moças trabalham, estudam, tem filhos, cozinham, surfam, fazem dança do ventre, vão à academia. E sonham. Essas treze moças, como tantas outras, sonharam com a coroa de Miss. Sonharam com o traje de gala, com cabeleireiros e maquiadores, com o nervosismo no camarim, com fotos no jornal e entrevistas para a televisão, com o carinho dos fãs. Na noite de sete de junho, sonhos se tornaram realidade.

Impossível imaginar um evento desse porte sem audiodescrição. Uma audiodescrição capaz de traduzir em palavras não apenas as imagens, mas a emoção e a importância daquele momento.

Neste depoimento, relato o processo de trabalho da Mil Palavras para esse evento tão repleto de “primeiras vezes”: o primeiro concurso dessa natureza, nossa primeira audiodescrição ao vivo e uma primeira experiência de trabalho coletivo[1].

No primeiro momento foi realizada uma reunião com a equipe da ACERGS, entidade responsável pela organização do evento. Precisávamos compreender o objetivo do concurso, para que nossa audiodescrição estivesse alinhada com a proposta do evento. Havia a preocupação de que as descrições não fossem demasiadamente frias, uma vez que estaríamos, de certa forma, expondo as candidatas. Como se tratava de um concurso de beleza, ficou acordado que as descrições valorizariam o que cada uma das moças tinha de especial.

Propusemos que a audiodescrição tivesse transmissão aberta, o que foi imediatamente aceito pelos organizadores. Nossos argumentos se baseavam no fato do evento ser especificamente voltado para pessoas cegas, seus familiares e seus amigos. Além disso, era fundamental que as candidatas pudessem ouvir as descrições durante o desfile. Sugerimos que a descrição de cada candidata fosse integrada à fala da apresentadora, ficando a cargo dos audiodescritores a inserção ao vivo de qualquer informação relevante. No entanto, a própria apresentadora sugeriu que o trabalho fosse realizado em parceria e que a audiodescrição tivesse o devido espaço. Definida nossa participação, tratamos de avaliar a melhor forma de comunicação com a apresentadora, a fim de evitar que nossas intervenções se sobrepusessem à sua fala.

Outro ponto a ser levado em consideração em nosso planejamento era o respeito à dinâmica do evento e à ansiedade natural da plateia. Por essa razão, optamos por abrir mão de descrever o corpo de jurados e sugerimos que fosse solicitado a cada um deles que dissesse algumas palavras ao microfone para que dessa forma se fizessem presentes junto àqueles que não poderiam vê-los.

Alguns dias antes do evento, pude participar de um passeio de barco junto com as candidatas e os organizadores. Foi uma oportunidade de observar uma a uma, conversar um pouco, explicar qual seria o meu papel na noite do desfile e, principalmente, estar em contato com o grupo. Isso me permitiu acumular uma série de elementos subjetivos que, certamente, dariam um tom específico à descrição.

Estabelecidas as diretrizes básicas, nos dedicamos a descrever tudo o que poderia ser definido com antecedência. Começamos pelo local do evento, o Chalé da Praça XV. Mais do que um restaurante, o Chalé é um dos mais badalados pontos turísticos de Porto Alegre e merecia ter um pouco de sua história e arquitetura desvendados pela audiodescrição. Visitamos o local de prancheta em punho, tomamos nota dos elementos visuais, pesquisamos mais um tanto e desenvolvemos o que seria a primeira parte do nosso roteiro.

Depois, munidos de fotografias, realizamos um estudo prévio para descrição das candidatas. Sabíamos que isso só poderia ser finalizado no momento do desfile, mas buscamos estabelecer uma estrutura básica de descrição: os vestidos, a cor de pele, os cabelos, etc. Queríamos, ainda, incluir algum detalhe pessoal de cada uma das moças, alguma característica individual e única.

No dia do evento, chegamos cedo ao Chalé a fim de assistir ao ensaio geral. Nesse momento pudemos revisar nossas anotações anteriores, fazer alterações e ajustes e inserir novas informações. Um exemplo foi a parceria com o exército, estabelecida no último momento, que possibilitou que as meninas, ao invés de desfilarem com suas bengalas, fossem conduzidas pela mão por cadetes trajando uniformes históricos.

Em função do nervosismo das candidatas, não pudemos entrar no camarim para vê-las prontas. A solução foi colocar uma audiodescritora junto à entrada do salão. Sua missão era tomar nota das características da candidata que entraria na passarela a seguir e repassar essas informações para que fossem devidamente narradas no momento em que a moça estivesse desfilando. Dessa forma, conseguimos inserir detalhes significativos que evidenciavam algo de muito especial em cada uma das candidatas. Alguns exemplos: um delicado anel em forma de peixinho; ideogramas chineses tatuados no ombro, significando força, vida e felicidade; florzinhas pintadas sobre as unhas das mãos; cordão no pescoço com pingentes que representavam um casal de filhos. Essas informações provocaram sorrisos das candidatas e conferiram emoção ao desfile.

Chegou, enfim, o momento de saber quem seria a representante gaúcha no Miss Brasil DV: as treze candidatas entraram no salão de mãos dadas e se posicionaram em frente ao sofá curvo destinado a comissão julgadora. Vestiam roupa de gala, longos vestidos de musseline e crepe, bordados com pedrarias. Nos lábios, um sorriso cheio de expectativa. Em seguida entraram os cadetes, em traje histórico de Lanceiros de Osório, nas cores branca e azul. Das mãos dos cadetes, cada moça recebeu uma rosa vermelha. No semblante das candidatas, felicidade e tensão. E foram nominadas as vencedoras: como segunda princesa, Rute Antunes de Mello, de 21 anos, um metro e sessenta de altura, cabelos escuros em ondas que chegavam até o meio das costas; a primeira princesa foi Mirian Antunes de Mello, 23 anos e um metro e sessenta e quatro de altura, a pele muito clara e os cabelos castanhos tão longos que lhe chegavam quase até a cintura; e a vencedora, Giselle Guimarães Hubbe, 25 anos de idade e um metro e cinquenta e oito de altura, uma morena de cabelos longos e lisos, castanhos com mechas claras nas pontas, elegante em um vestido preto com largas listras diagonais bordadas com pedrarias prateadas, e um generoso decote na parte de trás, deixando as costas à mostra.

Depois a coroação, lágrimas e sorrisos, abraços, fotos. O encerramento de um evento que ficará na memória por muito tempo.

Possibilitar que cada candidata se reconhecesse nas nossas palavras era o nosso objetivo. Mas a conexão que se estabeleceu entre quem descrevia e quem era descrito superou todas as nossas expectativas. Fazer parte desse momento tão especial foi mais do que gratificante. Ter a audiodescrição divulgada e nosso trabalho reconhecido, também.

Notas de rodapé

[1] A audiodescrição do I Concurso Miss DV RS contou com a colaboração de Bruno Brum Paiva, Cristina Gonçalves, Gabriel Bohrer Schmitt, Glaci Braga, Jorge Rein, Márcia Caspary e Mimi Aragon.

Publicado por

  • Letícia Schwartz

    Graduada em Artes Cênicas pela UFRGS, com especialização em Interpretação Teatral pela Ecole Philippe Gaulier (Londres), é audiodescritora roteirista e narradora. Coordena a equipe de produção da Mil Palavras (http://www.milpalavras.net.br). Também desenvolve oficinas e presta consultoria a projetos de inclusão cultural.View all article by Letícia Schwartz