Gênios: origens e traços

Resumo

Neste trabalho são sumariadas as origens e os traços que caracterizam as eminências e os gênios. Evidências historiométricas, psicométricas e psiquiátricas são usadas para demonstrar as principais características e traços de personalidade dos gênios em diferentes domínios, bem como, sua complexa relação com as desordens psicopatológicas. Tais evidências sugerem que vários sintomas de psicopatologia parecem ocorrer numa taxa mais elevada e em maior intensidade entre os gênios do que na população em geral e, além disso, a taxa e intensidade destes sintomas variam entre os diversos domínios em que a genialidade se manifesta.

Palavras-chave: Gênios, Inteligência, Habilidade cognitiva, Talentoso, Superdotado.

Abstract

This paper summarized the origins and traits that characterize the eminences and geniuses. Historiometrics, psychiatrics and psychometrics findings are used to demonstrate the main characteristics and personality traits of geniuses in different fields, as well as its complex relationship to psychopathological disorders. Such evidence suggests that various symptoms of psychopathology appear to occur at a higher rate and to a greater extent between the geniuses than in the general population, and in addition, the rate and intensity of these symptoms varies according to the specific fields in which the genius manifests.

Key-words: Genius, Intelligence, Cognitive Ability, Talented, Gifted

As eminências

Em 1926, Catharine Cox, um dos membros da equipe do renomado psicólogo norte-americano Lewis Terman, criador e divulgador do teste de inteligência Stanford-Binet, o mais utilizado no mundo para aferir as habilidades humanas, empreendeu a notável e complexa tarefa que alguns achavam praticamente impossível: estimar o Quociente Intelectual (QI) dos grandes personagens da história da humanidade. Sua hipótese era de que se confirmasse que esses personagens históricos se situam na camada mais elevada da distribuição populacional da escala universal de inteligência, fato este que, então, poderia corroborar que o QI constitui uma capacidade mental básica extremamente funcional no mundo cotidiano. Em outras palavras, foram famosos e produtivos porque foram, sobretudo, eram inteligentes.

O estudo compilou uma lista de mil personagens, baseando-se na extensão que lhes era dedicada nos dicionários biográficos e enciclopédias mais importantes. Depois de comprovar a informação disponível, a lista foi reduzida para 282 personagens. Em seguida, esses personagens foram exaustivamente analisados, assinalando em cada um deles duas pontuações de QI: uma, correspondente à primeira parte da vida (do nascimento até aos 17 anos) e a outra, dos 18 nos em diante.

Cada personagem recebeu inicialmente um escore de 100, a pontuação correspondente à média da população. Posteriormente, adicionavam-se pontos segundo a informação disponível acerca de seus feitos, prestando especial atenção às demonstrações de precocidade. Esses dois conjuntos de escores foram, então, submetidos a uma fórmula de correção para ajustar os dados quanto à fidedignidade, produzindo dois outros conjuntos de pontuações. As correlações entre estes quatro conjuntos de escores variaram de 0,70 a 0,86 (a correlação máxima é 1,0), indicando que eles mediam o mesmo constructo.

Consequentemente, foi calculada a média dos quatro conjuntos para produzir uma simples pontuação para cada personagem histórico. Assim considerando, Cox aplicou uma abordagem historiométrica para obter estimativas de QI para eminentes criadores e líderes da moderna civilização ocidental.

Em particular, ela examinou informação biográfica de um de seus ídolos, Francis Galton, menino prodígio, genial e criativo. No fim de seu primeiro ano de vida, ele conhecia as letras maiúsculas e, 6 meses depois, conhecia todo o alfabeto com letras maiúsculas e minúsculas; ele podia ler com dois anos e meio; lia qualquer livro em inglês antes dos 5 anos (o que estava eu fazendo nesta mesma idade?). Em geral, Galton estava fazendo coisas que a maioria das crianças não consegue fazer até ter o dobro de sua idade. Ele, realmente, era um menino brilhante e se tornou um dos cientistas mais produtivos e criativos de sua geração.

Além de estimar o QI desses personagens históricos, Cox pontuou e ordenou a(s) criação(ões) que cada personagem tinha realizado. O nível de eminência foi baseado na quantidade de espaço devotado a cada figura histórica em função dos trabalhos realizados descritos em referências padronizadas. A correlação entre as estimativas de QI e os níveis de eminência foi 0,25, a qual foi, posteriormente, replicada em vários outros estudos historiométricos, e a mesma parecia se manter para diferentes grupos especializados, tais como, presidentes norte-americanos, monarcas europeus, líderes religiosos, escritores, artistas, compositores, cientistas e comandantes militares, entre outros.

O quociente intelectual de Sir Francis Galton foi estimado em 200, o de John Stuart Mill em 190, o de Goethe e Leibniz em 185, o de Pascal em 180, o de Voltaire em 170, o de Mozart em 150, o de Galileu em 145, o de Kepler em 140, o de Newton em 135, os de Kant, Napoleão e Darwin 130 e os de Cervantes e Copérnico em 105. Interessante notar que, usando estes mesmos critérios, foi possível estimarmos o QI de Santos Dumont em, aproximadamente, 148.

O QI médio dos 282 personagens analisados por Cox foi 155, mas muitos apresentavam QI por volta de 175 e, vários outros, acima de 200. Não obstante, estas estimativas devem ser consideradas como aproximações e entendidas como mera curiosidade. Não devemos, entretanto, concluir apressadamente que os grandes personagens da história são os representantes mais inteligentes da humanidade. É muito provável que, devido aos feitos exigidos para entrar neste panteão de reconhecimento universal, alta inteligência seja um dos requisitos para se tornar um grande personagem da humanidade, mas alta inteligência não garante a realização de grandes feitos valorizados socialmente. Você acredita?

Gênios?

Certamente, muitos de nós, ao adentrarmos na pré-escola, ou escola, já folheamos aquelas grandes enciclopédias histórico-geográficas, repletas de figuras, mapas e, principalmente, de fotos de personagens que jamais vimos em nossa vida. E nos perguntamos, “Por que essas fotos não são de nossos pais, amigos e conhecidos? Por que não são, também, conhecidas de muitos de nossos professores?”. A resposta não é imediata. É preciso que o tempo passe para tomarmos conhecimento de que tais faces foram de personagens que criaram algo que, substancialmente, mudou o destino da Humanidade. Muitos foram cientistas, pintores, escultores, líderes político-religiosos e afins, conhecidos no mundo todo pelo que fizeram. Mas… por que tão poucos?

Nós, gradualmente, ao longo de nossa vida estudantil, fomos descobrindo o segredo. Fomos aprendendo que muitos desses personagens ocupavam muito espaço na história universal. O elemento comum que os unia? A sua genialidade. Todavia, o que é um gênio? Neste tempo atual que vivemos, já moldado pelos estudos especializados da pós-graduação, podemos, imediatamente, identificar muitos gênios, facilmente nomeáveis: Bill Gates, Nelson Mandela, Stephen Hawking, Stephen Spielberg, Paul McCartney, Meryl Streep, Garry Kasparov, Kobe Bryant, José Saramago, Machado de Assis. César Lattes e Steve Jobs entre outros. Os critérios que utilizamos para identificá-los como gênios? Temos certeza de que você, seus amigos e os amigos de seus amigos saberão dizê-los.

É difícil imaginar a história do mundo civilizado sem a contribuição de gênios específicos. Na história ocidental, por exemplo, o que seria da Grécia, sem Aristóteles e Alexandre, o Grande? A Itália, sem Dante e Michelangelo? A Espanha, sem Cervantes e Goya? A França, sem Descartes e Napoleão? A Alemanha, sem Goethe e Beethoven? A Holanda, sem Rembrandt e Vermeer? A Inglaterra, sem Shakespeare e Newton? Os Estados Unidos, sem Jefferson e Whitmam? A Rússia, sem Tólstoi e Lenin? Portugal, sem Saramago e Fernando Pessoa? O Brasil, sem Santos Dumont e Pelé?

Cada uma dessas culturas, em verdade, sofreria uma grande perda não apenas em prestígio e influência, mas, sobretudo, no reconhecimento de sua própria identidade. A Literatura Inglesa, sem os poemas e as peças teatrais de Shakespeare, seria igual a uma Londres sem sua torre, ou sem a Abadia de Westminster, sem a Catedral de Saint Paul e sem o Big Ben. Ora, é imaginar o Brasil sem Pelé?

Não obstante, mais do que conceber o impacto dos gênios em termos da herança cultural mundial, podemos contemplar sua significância em relação a domínios particulares das realizações humanas. Onde estaria a Filosofia, sem Platão? A Matemática, sem Euclides? A Literatura, sem Saramago? A Astronomia, sem Copérnico? A Física, sem Einstein? A Química, sem Lavoisier? A Biologia, sem Darwin? A Medicina, sem Pasteur? A Arte, sem Picasso? A Tecnologia, sem Edison? A Aviação, sem Santos Dumont? O Futebol, sem Pelé?

Seria muito diferente, não?

Gênios fazem a diferença. Que tal, então, procurarmos gênios, bem como, talentos excepcionais, em diferentes domínios como, por exemplo, em nossos bancos escolares? Não temos dúvidas, e achamos que jamais as teremos, de que o futuro da nação está nas mãos dos gênios e dos talentosos.

Gênio e loucura

Criatividade, similar a genialidade, já foi concebida como um fenômeno espiritual. Na antiguidade, ser criativo era ser divino. Quase toda cultura tem seu mito de criação contando as realizações miraculosas de algum poder espiritual. Ao longo do tempo, os seres humanos foram vistos, também, como manifestando criatividade; mas, mesmo assim, a fonte última da criatividade humana frequentemente permanece sendo a espiritual.

Uma concepção intermediária transparece na clássica mitologia grega das Musas. No caminhar da história, Zeus, a divindade suprema no panteão, pai, com Mnemosyne (a personificação da memória), de nove filhas, cada uma das quais responsável por um domínio separado da criatividade humana: poesia épica ou heroica, poesia lírica ou romântica, poesia sagrada, tragédia, comédia, música, dança, astronomia e história. Cada Musa imortal fornecia um guia espiritual ou fonte de inspiração para o criador mortal. Em outras palavras, cada Musa, contribuindo para o mesmo domínio, era o gênio para todos os criadores naquele assunto específico.

Ao longo dos anos, este mito tem inspirado muitas manifestações humanas cotidianas. Por exemplo, podemos dizer que perdemos nossa musa quando perdemos a inspiração para escrever artigos científicos, livros didáticos, dar aulas, ministrar palestras, entre outros. Até parece que nossa musa abandonou-nos porque temos estado, nos últimos tempos, pouco inspirados a escrever. No filme, de 1999, A Musa, Sharon Stone, que é mais relembrada pelo seu profano papel na película, de 1992, Instinto Selvagem, desempenha uma deusa que ajuda um roteirista que tinha perdido seu poder criativo. O filme ilustra o fato de que a criatividade humana era concebida como um dom dos deuses ou dos espíritos. Mesmo durante a Renascença, esta atribuição permaneceu. Por exemplo, Giorgio Vasari, biógrafo do “divino” Michelangelo, declarou que “o grande criador do universo”, especificamente, colocou o artista na terra para este servir como um exemplar do gênio artístico.

Você assistiu ao filme, de 2001, Uma Mente Brilhante? O magistral Russell Crowe representa John Nash, um matemático genial que sucumbe à esquizofrenia paranoide, à sua maneira, até ser laureado com o Prêmio Nobel em Economia. No clássico Frankenstein, um cientista “louco”, notoriamente gritou: “Ele está vivo! Ele está vivo! “quando sua criatura ultrajante ganha vida”. A fascinação de Hollywood com gênios loucos não é exclusivamente confinada ao domínio científico. De Kirk Douglas, como van Gogh no filme Sede de Viver, de 1956, a Ed Harris, como Jackson Pollock, no filme de 2000, Pollock, a associação entre genialidade e loucura é usualmente enfatizada. Hollywood parece ter uma preocupação com a brilhante insanidade, propagando a imagem popular do cientista excêntrico ou do artista atormentado.

Esta fascinação pela genialidade e loucura também pode ser encontrada nos escritos da Antiguidade. O filósofo grego Aristóteles observou que, “Aqueles que se tornaram eminentes em Filosofia, Política, Poesia e nas Artes têm, todos, tendências à melancolia”, enquanto ao Filósofo Romano Sêneca é creditado ter dito que, “Nenhum grande gênio existiu sem algum toque de loucura”. Na verdade, a ideia do gênio louco persistiu ao longo de toda a era moderna e, até mesmo, foi popularizada nos círculos científicos. Não apenas o gênio era concebido como louco, mas também, o era associado com criminalidade e degeneração genética. Sem loucura, não há gênio! Parece que, gênio e loucura não são gêmeos idênticos, mas são gêmeos fraternos. Vela e chama, se nunca juntos, também nunca separados.

O que, de fato, os dados historiométricos, psicométricos e psiquiátricos nos dizem? Acompanhem-nos.

Evidências historiométricas

Registros históricos são repletos de exemplos típicos da associação entre gênio e loucura. De fato, vários pesquisadores têm, exaustivamente, compilado listas de grandes gênios que sucumbiram a uma ou outra doença mental. Esses gênios podem ser criativos, ligados às letras e artes, em geral, e às ciências.

Dentre os gênios que vivenciaram uma séria desordem mental, em algum momento da vida, encontramos os cientistas Newton, Darwin, Galton, Freud; os filósofos Rosseau, Nietzsche, Kierkegaard; os romancistas Balzac, Dostoiévski e Kafka; os dramaturgos Schiller, Lorca e Tennessee Williams; os poetas Emily Dickinson, Rimbaud, Ezra Pound; os pintores Michelangelo, Modigliani e Rothko; e os compositores Schumann, Gershwin e Rachmaninoff.

Com muita frequência, estas desordens terminam de maneira trágica e direta: no suicídio. Dentre estes suicidas famosos estão: Alan Turing, George Eastman, Ernest Hemingway, Jack London, Horacio Quiroga, Virginia Woolf, Vincent Van Gogh e Peter Tchaikovsky. Há, também, aqueles que, sem sucesso, tentaram acabar com a própria vida, tais como, Comte de Saint-Simon, William James, Dorothy Parker, Louy de Maupassant, Maxim Gorky e Hugo Wolf, Camilo Castelo Branco.

Em outras ocasiões, a saúde mental adota um rótulo mais sutil, mas, ainda, pernicioso: o alcoolismo. A lista de gênios alcoólatras na literatura, sozinha, sobrepõe as de todos os outros domínios da criação humana. Dentre eles: Charles Baudelaire, Truman Capote, Samuel Coleridge, William Faulkner, F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Victor Hugo, Samuel Johnson, James Joyce, Jack Kerouac, Jack London, Edgar Allan Poe, Jean Paul Sartre, John Steinbeck, Mark Twain, Tennessee Williams, Thomas Wolfe, Lima Barreto e Nelson Rodrigues etc.

Algum grau de doença mental ficou supostamente evidente em líderes famosos e infames. Dentre eles: Churchill, U. S. Grant, Alexander Hamilton, Adolf Hitler, Howard Hughes, Abraham Lincoln, Martin Luter King, Florence Nightingale e atores prodígios, como, por exemplo, James Dean, Clark Gable, Janis Joplin e outros.

Concluindo, podemos destacar cinco elementos fundamentais da manifestação genial, que são: 1º) comparativamente à população geral, os gênios, em diferentes domínios, parecem exibir alta taxa e alta intensidade de psicopatologia; 2º) quanto mais eminente o gênio tanto mais alta são a taxa esperada e a intensidade dos sintomas psicopatológicos; 3º) dentre as patologias disponíveis, depressão parece ser a mais frequente, ao longo dos seus correlatos de suicídio, alcoolismo e abuso de drogas; 4º) uma linhagem familiar, que produz os gênios mais eminentes, tende, também, a caracterizar uma alta taxa e intensidade de psicopatologia, com a origem familiar apresentando tanto vantagens, quanto desvantagens, isto é, tanto a loucura quanto a genialidade; e 5º) a taxa e a intensidade dos sintomas variam de acordo com o domínio da criação.

Uma curiosidade: a psicopatologia é mais elevada entre gênios artísticos do que entre gênios científicos. Também: governantes tiranos exibem as mais altas taxas de tudo, aproximadamente, 91% deles apresentando alguma psicopatologia. Você assistiu ao filme de 2006, O último rei da Escócia, o qual foi estrelado por Forest Whitaker, que ganhou o Oscar por representar o ditador ugandense Idi Amin? Nele, parece que gênio e loucura são um só personagem, pois o autoritarismo e a impulsividade do mesmo beiravam a insanidade.

Evidências psiquiátricas

Há uma opinião generalizada de que os gênios são loucos. Mas, pensemos: “Se são loucos, como podem ser gênios?”. Frequentemente, a expressão “gênio louco” é popularizada na sociedade, de modo que se reconheça que “insanidade” pode gerar “originalidade”, ou, então, que alguma forma especial de insanidade é parte intrínseca da definição de genialidade.

Uma análise psiquiátrica, baseada nos estudos historiométricos de gênios que faleceram séculos atrás, é muito difícil. Todos sabem que o diagnóstico clínico não é uma tarefa fácil, mesmo quando o paciente, ou cliente, está sentado a nossa frente, em consultórios clínicos. Portanto, qualquer análise baseada em gênios já falecidos é, além de complexa, pura inferência e nada satisfatória.

Um exemplo seria citar o compositor alemão Robert Schumann, que teve uma série, bem documentada, de crises maníaco-depressivas, bem como, uma tentativa de suicídio e internação em instituição mental. Por sua vez, o compositor russo Sergei Rachmaminoff dedicou seu Second Piano Concert a seu psiquiatra e, adicionalmente, o compositor americano George Gershwin, algumas vezes, quando em férias, levava consigo seu terapeuta. Já o pintor holandês Hieronymus Bosch é considerado psicótico, baseado nas imagens fantásticas de suas gravuras. Para estudiosos, seguramente ele era alucinado.

Investigações deste contexto? Diversas. A primeira examinou 15 escritores, alguns dos quais grandes nomes da criatividade literária nos EUA. Contrastando escritores com sujeitos-controle similares à exceção da criatividade literária, análises revelaram que escritores foram cinco vezes mais prováveis de serem tratados por uma desordem afetiva e, além disso, três vezes mais prováveis de serem alcoólatras. Num acompanhamento posterior, conduzido alguns anos depois, foram encontrados que 80% tiveram alguma desordem afetiva, com 30% continuando a sofrer com o alcoolismo e 10% cometendo suicídio.

Na segunda, acompanhou-se 47 notáveis artistas e escritores na Grã-Bretanha. Aproximadamente 1/3 buscou ajuda terapêutica para uma desordem afetiva, sendo os escritores piores que os artistas e os poetas piores que todos. Neste contexto, os não-ficcionistas, como, por exemplo, os biógrafos, permaneceram no melhor estado psicológico que os outros escritores. Ainda, aproximadamente metade dos poetas necessitou de sérios tratamentos médicos em forma de medicamentos, ou mesmo, hospitalização. Uma vez mais, depressão, com outras desordens afetivas, apareceu como sintoma mais frequente, iguais, em conjunto, à mania, em posições imediatamente anteriores.

De acordo com ambas as investigações, conclui-se que a taxa e a intensidade da psicopatologia parecem ser elevadas nos criadores supremos, permitindo-nos inferir que ambas podem: (a) correlacionarem-se positivamente com a magnitude do gênio criativo e (b) parecerem ser mais inerentes nos criadores artísticos do que entre os criadores científicos. Portanto, genialidade e patologia parecem caminhar juntas dentro da mesma linhagem familiar. Mas, isto é assunto para geneticistas.

Evidências psicométricas

Contrastando com os dados historiométricos e psiquiátricos já apresentados, que primaram por serem qualitativos, os dados psicométricos comentados a seguir primam por basearem-se em métodos quantitativos. A Psicometria, área que se ocupa da quantificação dos traços e habilidades humanos, vai muito além do QI. Os pesquisadores neste domínio podem avaliar diferenças individuais, além das já tradicionais avaliações em inteligência. Neste contexto, pesquisadores podem aplicar instrumentos que capturam os traços de personalidade que estão mais proximamente relacionados à psicopatologia. Tal como nos testes de inteligência, os questionários de personalidade podem ser padronizados com grandes amostras, de forma que, qualquer traço, ou característica de personalidade, que fujam dos padrões normais, podem ser enfatizados, ou seja, analisados mais cuidadosamente. No caso dos gênios, os escores extraordinários dos mesmos podem ser contrastados com o escore médio da população. Estas diferenciações são quantitativas, mais do que qualitativas, tais quais foram obtidas nos métodos anteriores.

As evidências psicométricas, em sua maior parte, têm revelado que indivíduos criativos tendem a pontuar acima da média em várias dimensões relacionadas à psicopatologia. Por exemplo, criatividade é positivamente associada com escores na sub-escala de psicoticismo, que é uma das dimensões geradas a partir da análise fatorial das respostas dadas a um inventário de personalidade. Pessoas que pontuam mais elevado do que o normal na sub-escala de psicotismo tendem a ser agressivas, frias, egocêntricas, impessoais, impulsivas, antissociais, sem empatia e muito fechadas. Não obstante, criadores excepcionais nas artes tendem a ter pontuações mais elevadas do que criadores excepcionais nas ciências. Como exercício prático, compare a personalidade de Picasso com a de Einstein para apreciar o quão mais elevado era o primeiro na dimensão psicotismo. Concorda?

Ademais, não é simplesmente o caso de as pessoas criativas pontuarem mais elevadamente em tais dimensões, mas, também, é o caso de as pessoas mais altamente criativas pontuarem mais elevadamente que as menos criativas, as quais, por sua vez, pontuam mais elevadamente que as pessoas não criativas. Essa relação positiva foi demonstrada num estudo de escritores criativos usando o Inventário Multifatorial de Personalidade de Minnesota. Também, aqueles escritores que foram altamente bem-sucedidos em suas carreiras pontuaram de forma mais elevada em outras dimensões deste Inventário, tais como, depressão, hipocondria, paranoia, esquizofrenia etc., do que aqueles que são ainda criativos, mas não tão bem-sucedidos, ainda que, estes últimos pontuem acima do normal em cada uma das dimensões do Inventário. Outros dados revelam que artistas muito bem-sucedidos pontuam de forma mais elevada em psicotismo do que seus colegas profissionais, que, por sua vez, pontuaram mais elevadamente nessa mesma dimensão do que os não-artistas.

Apesar destas associações é importante destacar dois aspectos: 1º) embora indivíduos altamente criativos sejam predispostos a ter escores mais elevados em certas escalas clínicas, seus escores raramente são tão extremos para indicar uma doença autêntica. Ao contrário: seus escores situam-se entre as amplitudes normal e anormal. Seus escores elevados, usualmente, são correlacionados com independência e inconformismo, traços estes que ajudam os gênios a manterem a sua originalidade. Portanto, o que uma pessoa média poderia ver como um acidente, ou circunstância, outra, altamente criativa, vê o mesmo evento como uma oportunidade significativa, ou seja, elas veem algo onde outros não veem nada; 2º) criadores excepcionais pontuam, também, de forma elevada em outros traços psicopatológicos que mascaram os efeitos negativos de qualquer psicopatologia incipiente. Por exemplo: os criadores têm um alto grau de autossuficiência e robustez de ego quando comparados com a população em geral. Por esta razão, eles podem exercer controle metacognitivo sobre qualquer sintoma psicopatológico que possa, eventualmente, aparecer.

Portanto, parece que os gênios sabem tomar vantagens de seus traços psicopatológicos. Como? Convertendo-os em ingredientes-ativos para o fomento de sua criatividade e excelência.

Referências

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Simonton, D.K. (1984). Genius, creativity, and leadership: Historiometric inquiries. Cambridge, MA: Harvard University Press.
Simonton, D.K. (1994). Greatness: Who makes history and why. New York: Guilford Press.
Simonton, D.K. (1999). Origins of genius: Darwinian perspectives on creativity. New York: Oxford University Press.
Simonton, D.K. (2009). Genius 101. New York: Springer.
Sternberg, R.J., Jarvin, L., & Grigorenko, E.L. (2011). Explorations in giftedness. New York: Cambridge University Press.

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Os sons do silêncio

Resumo

As habilidades dos indivíduos importam, particularmente suas habilidades em domínios específicos, pois talentos em diferentes domínios específicos têm diferentes trajetórias evolutivas que variam em função de seu início, do nível mais elevado alcançado e quanto terminam. As oportunidades fornecidas pela sociedade são cruciais em diferentes níveis do processo evolutivo do talento. Argumentamos que a sociedade deve fomentar seus talentos e, principalmente, reconhecer que diferentes processos de aprendizagem são necessários para diferentes níveis de inteligência dos estudantes.

Palavras-chave: talento, inteligência, gênio, aprendizagem, fraude educacional

Abstract

The abilities of individuals do matter, particularly their abilities in specific talent domains. Different talent domains have different developmental trajectories that vary as to when they start, peak, and end. The opportunities provided by society are crucial at every level in the talent-development process. We argue that society must promote these opportunities, and, mainly, understanding that different learning processes are requested as a function of students` different levels of intelligence.

Key-words: giftedness, intelligence, genius, learning, educational fraud

O nivelamento por baixo

A educação do jovem, compromisso de todas as sociedades humanas, é algo que pode ser feito de modo correto ou não. Consistindo em educar cada um, para que este atinja seu melhor potencial, um de seus ideais é permitir que estudantes mais capazes incorporem-na mais intensamente, dela fazendo um processo amplo, variado, profundo e desafiador. Em adição, subjacente a este processo, está a inteligência. Todavia, a ideia de que pessoas, com mais capacidade para tal, possam ser mais bem educadas, soa perigosamente, elitista. Entretanto, qualquer análise, interna ou comparativa, do empenho de escolares brasileiros, como um todo, revela que não estamos sequer conseguindo, em termos destes indicadores, educar nossos escolares adequadamente. Por quê?

Porque parece haver unanimidade, entre pais e educadores que o sistema de ensino das gerações atuais está “pior” do que aquele que nossos pais tiveram e “extremamente pior” do que o que os nossos avós receberam. Dados do analfabetismo funcional brasileiro revelam que 52% são incapazes de postar, sequer, uma carta, bem como, de dizer quando o Brasil conseguiu sua independência. Já, dados das avaliações educacionais revelam, também, que a maioria de nossos escolares de 4ª e 8ª séries não alcança o que deles se espera, colocando o Brasil nos últimos lugares entre 56 países. O risco? Não termos, se assim continuarmos, profissionais minimamente capazes de enfrentar a nova força de trabalho abstrata e simbólica que já se iniciou. Uma das razões é o declínio dos padrões educacionais nas últimas décadas, com editores e educadores que, procurando satisfazer dirigentes escolares, respectivamente, editam, deliberadamente, livros didáticos simplistas, e priorizam vocabulários textuais exíguos, suprimindo palavras mediana, ou elevadamente, complexas por imagens e cores. Tudo dentro do espírito de que “imagem é tudo”, enquanto que, “palavra é nada”. Deixando, com isso, “relaxadas” as exigências de desempenho em ciência, matemática, escrita e literatura e restritas às tarefas de casa, bem como privilegiando trabalhos, muitas vezes feitos por um, mas assinados coletivamente, aceitando pais que requerem professores menos exigentes em notas e cobrando mínimas execuções das tarefas propostas por estes. O slogan, portanto, sendo, nada se cobra, tudo se permite.

As reformas educacionais, em nome do multiculturalismo curricular, minimizaram diferenças de desempenho estudantil, levando educadores entusiasmados a fomentarem autoestima, independente do desempenho escolar. Desta forma, currículos politicamente comprometidos negligenciaram as habilidades específicas e a inteligência geral dos estudantes. Rigor e padrões de qualidade intelectual, substituídos pela valorização da diversidade e variáveis periféricas, “nivelaram por baixo” a educação básica, fundamental e média, brasileiras, tornando tudo “mais fácil” para estudantes de “inteligência média” e “facilitando em demasia” as demandas para os estudantes talentosos.

A negligência do talento

A mesma dinâmica envolvida no processo de “nivelamento por baixo”, através do qual o sistema educacional procura ajudar o estudante pouco talentoso, tem, também, um efeito redutor sobre o desenvolvimento do estudante talentoso, a saber: para atender os estudantes da cauda inferior da distribuição das habilidades cognitivas, os menos talentosos, educadores brasileiros, num primeiro momento, simplesmente suprimiram do currículo a exposição à literatura séria, o que foi seguido pela simplificação da mesma para que esta pudesse ser acessível a todos. Mas, enquanto isto ocorria, assuntos que estes materiais tratavam, capazes de empurrar os melhores estudantes até seus limites intelectuais, capacitando-os a lerem, e compreenderem, os clássicos, foram suprimidos. Ao oferecer este currículo simplificado, educadores impedem que estudantes mais talentosos movam-se, por si próprios, em busca de seu potencial máximo. Sem opção, estes talentosos seguirão, sim, o ritmo que lhes é oferecido em sala de aula. Ou seja, ao invés de lerem “A Odisseia”, por exemplo, lerão obras de autoajuda. Mas, estes mesmos alunos, melhor se ajudariam se não lessem estas últimas.

As políticas públicas atuais colocam os mesmos talentosos dentro, e os mais talentosos fora do sistema educacional. Um mínimo de recursos, para não dizer zero, é aplicado pensando-se nos mais capazes. Ademais, programas voltados para estudantes brilhantes, de algum modo tão em desvantagem quanto os com dificuldades de aprendizagem, atraem pouco suporte financeiro, e, ocasionalmente, hostilidade. Considerados elitistas, raramente são tolerados pelo sistema escolar. Por quê? Pelo fato de muitos educadores esquecerem que muitas crianças talentosas são pobres e vivem em ambientes totalmente desfavoráveis. Em verdade, investimentos em crianças desfavorecidas, econômica e socialmente, têm significados práticos, assim como têm investimentos dirigidos para estudantes talentosos, cognitivamente desfavorecidos. Assim sendo, a educação brasileira precisa fazer, com urgência, um upgrade na amplitude superior da habilidade cognitiva, isto é, considerar mais, e melhor, a educação dos talentosos.

A extensão, e qualidade, da aprendizagem na educação brasileira são baixas de modo geral, pois, os padrões básicos do que uma pessoa, de habilidade mediana, pode aprender estão rebaixados. Isto faz com que o estudante talentoso tenha pouco, ou quase nenhum, estímulo para estudar intensamente. Isto se deve, por um lado, ao fato de os pais não quererem que a “carga” de trabalhos, para serem feitos em casa, seja intensificada pelo professor e, de outro, pelo fato de educadores, gradativamente, nivelarem por baixo seus padrões supondo que em “simplificando” significado e conteúdo, todos podem aprender como o esperado. A realidade é que, num sistema educacional universal, muitos estudantes não alcançarão um nível de educação tido como básico. No sistema atual, predomina a tendência de enriquecer a educação das crianças na cauda inferior da distribuição da habilidade cognitiva. Contrastando, proponho que o sistema educacional não negligencie os talentosos, mas, sim, que equilibre a distribuição da habilidade cognitiva.

O último a entrar e o primeiro a sair

De modo geral, a sociedade brasileira, como um todo, tem respondido aos seus cidadãos talentosos com o “som” do silêncio, ignorando-os. Atitude negativa, identificadora inegável da indiferença, em relação aos que possuem elevadas habilidades cognitivas e reconhecido talento, denota, aos que a estudam, que há extremidade inferior e superior no contínuo das habilidades humanas. Porém, a ênfase, a identificação, o fomento e a alocação de recursos aos programas educacionais não têm sido iguais para ambas as extremidades. A extremidade inferior tem sido invariavelmente privilegiada. De fato, 99,9% dos fundos destinados à educação especial têm sido dirigidos para a extremidade inferior, fazendo com que educação especial seja entendida, apenas, como sinônimo de crianças excepcionais, englobando, neste todo, indistintamente, tanto aqueles com dificuldades de aprendizagem, quanto os que têm deficiência intelectual. O que faz parecer, à sociedade, que os talentosos não necessitam de qualquer educação especial. E que eles próprios, talentosos, podem, e devem, suprir suas próprias necessidades, pois, entendem que o mérito maior de serem talentosos eles já o possuem.

De um lado, o Brasil, ao longo dos últimos 20 anos, tem se voltado para proteger os direitos das minorias. Há leis, para melhor ou pior, voltadas à proteção de muitos grupos, grandes ou pequenos. Por exemplo, é possível citar programas de ação afirmativa, que reconhecem a discriminação demonstrada para com certos grupos minoritários e, algumas vezes, para com o sexo feminino. Numerosos programas que buscam garantir direitos e acesso iguais às pessoas com deficiência. E é certo que também as crianças, independente das dificuldades de aprendizagem que possam apresentar, devem ser identificadas e fomentadas. Por outro lado, os talentosos, ainda que talentosos, raramente são reconhecidos. E, infelizmente, quando são identificados, não tem havido programas de atendimento que busquem fomentar e enriquecer suas habilidades especiais e genuínas. Em outras palavras, os talentosos, tais como, as minorias, são tão desprotegido legalmente quanto qualquer grupo minoritário pode ser.

As prioridades colocadas tanto nos programas de fomento, quanto na capacitação de professores para o ensino de talentosos, caracterizam-se dentro do fenômeno “o último a entrar e o primeiro a sair”. Frequentemente, estes programas de fomento e capacitação de talentosos são os últimos, ou estão entre os últimos, a serem colocados em prática quando as condições estão boas. Sendo, também, os primeiros a serem excluídos quando as condições estão ruins. Outro problema enfrentado pelos talentosos em suas escolas é o nivelamento, por baixo, dos padrões de excelência. Na minha geração, a nota 10 representava um excelente trabalho (e olha que a maioria dos estudantes queria alcançar tal nota). Mas, hoje, basta receber uma nota cinco, que lhe garanta a aprovação, para a maioria dos estudantes agradecer em prece a obtenção de tal pontuação. Por causa disso, raramente os talentosos são desafiados a produzir o seu melhor. Fruto disso, a qualidade da educação tem sido rebaixado, substancialmente, em todos os níveis. E, professores e pais estão satisfeitos com conteúdos que, na maioria das vezes, alcançam padrões muito inferiores. Assim considerando, nosso sistema escolar, em geral, parece desvalorizar o talento, e não há dúvida de que nós estamos pagando o preço por tal atitude.

Aos nossos talentosos não está sendo dada a chance de desenvolver suas capacidades, de qualquer tipo e grau, as quais eles são capazes. Intelectualmente eles estão sendo desmotivados e desestimulados a alcançarem suas potencialidades máximas. Tais atitudes e comportamentos colocam, indubitavelmente, a nação em declínio. E precisamente por causa da valorização que se pratica da mediocridade, em detrimento da excelência. A nação precisa entender que nossos talentosos são os nossos “recursos naturais” mais valiosos, os quais, se os quisermos conservados, desenvolvidos e tornados acessíveis no futuro, necessitam ter revista, e modificada, tal atitude, de modo similar ao que se faz para qualquer outro recurso natural valioso. Enfim, necessitamos educar desde os pais, passando pelos professores, dirigentes educacionais até chegar a cada um que trabalha nas escolas. Pois, reconhecer, valorizar e fomentar os talentosos é fundamental para não ouvirmos apenas um som: o do silêncio dos que, mesmo muito capazes, foram preteridos por coisas extremamente insignificantes.

Nepotismo, Meritocracia e Igualitarismo

Há na literatura vários termos para se referir ao talento intelectual. Para alguns teóricos, o termo descreve um contínuo de habilidade, variando de “levemente talentoso” (QI 115-129, topo 2,5%) a “moderadamente talentoso” (130-144, topo 1%), “altamente talentoso” (145-159, topo 0,13%), “excepcionalmente talentoso” (topo 0,003%) e “profundamente talentoso” (topo 0,000003%), ainda que estas amplitudes de QI, e respectivas porcentagens de distribuição, possam variar ligeiramente. Outros termos, comumente relacionados, tais como, “superdotado”, “alta habilidade”, “alto potencial”, “hábil”, “superior”, “excepcional”, “supernormal”, “precoce”, “rápido”, “prodígio” e “gênio”, entre outros, são usados como sinônimos, existindo, ainda, aqueles que significam diferentes categorias ou níveis de desenvolvimento.

Gênio é o mesmo que superdotado? Uma pessoa com talento é o mesmo que um gênio? Usualmente estes termos são empregados como sinônimos, o que é incorreto. Superdotado é uma pessoa que apresenta um quociente intelectual muito superior à média da população, que é estabelecido em 100. Uma pessoa é considerada superdotada quando obtém uma pontuação superior a 130 ou 140 num teste de QI. Se fizéssemos um cálculo do número de superdotados que se espera encontrar no Brasil, teríamos que consultar uma curva normal para saber a porcentagem de pessoas que se situam acima de uma pontuação de 130. A estatística nos diz que 2,14% da população se situaria acima de 130. Se no Brasil há 200 milhões de habitantes então a previsão é que existirá algo, por volta de quatro milhões de pessoas superdotadas. Acima de 140 se situaria 0,13% da população, ou seja, pouco mais que 260 mil pessoas, seriam as consideradas extremamente inteligentes. Contudo, todos compartilham uma ideia comum: que há manifestações do potencial humano que diferenciam, intelectualmente, uma pessoa de seus grupos de referências, os quais podem ser seus pares, colegas ou conterrâneos.

Uma pessoa com talento é aquela que desenvolveu uma habilidade especial. Uma pessoa pode ter uma habilidade especial para realizar cálculos; outra, em música ou dança, e assim por diante. O talento supõe, portanto, habilidade específica em um determinado campo técnico, artístico ou profissional. Os chamados “sábios-idiotas” podem possuir um talento superdesenvolvido, enquanto todas as suas demais habilidades são escassas ou nulas. O gênio é praticamente igual ao talentoso: além de possuir habilidade excepcional em algum domínio, também é criativo. Frequentemente, as virtudes do gênio são atribuídas a uma combinação de inteligência, motivação e contexto sociocultural. O gênio requer uma alta inteligência, persistência, criatividade e um forte caráter.

Por outro lado, muitas teorias sobre o talento, ou sobre superdotados, são, fundamentalmente, conectadas às teorias da inteligência. A teoria da inteligência geral (fator g), teoria do talento que é, define-o como um QI acima de particular limiar. A teoria das inteligências múltiplas, outra teoria do talento, já admite, por sua vez, que o talento intelectual é estabelecido, num domínio particular, pelo desempenho de alto nível. A teoria triárquica da inteligência é uma teoria do talento em que o talento intelectual é determinado através do elevado desempenho em uma ou mais áreas, seja esta analítica, criativa ou do pensamento crítico. Todas, entretanto, fazem referência à inteligência e à sua mensuração, sem deixar de enfatizar o papel dos processos evolutivos nas mesmas, com algumas destacando a estabilidade da natureza e o nível do talento intelectual ao longo da vida, enquanto outras, as transformações evolutivas que ocorrem no tempo.

Todavia, independente do termo empregado, e do enquadramento teórico, muitas outras considerações determinam a relevância que um dado sistema educacional dá ao talento intelectual. Especialmente no que tange à sua definição, como ele pode ser identificado e como aquele, identificado como tal, pode ser tratado. Estas considerações são altamente contextualizadas no sistema educacional considerado, mas, certamente, envolvem aspectos econômicos, político-culturais e psicológicos que, embora em um sistema educacional multidimensional e diverso, exigem uma dimensão de compreensão particularmente importante, ou seja, mecanismos pelos quais as oportunidades educacionais são distribuídas entre os indivíduos dentro do sistema. Neste caso, embora haja muitas variantes de tais esquemas de distribuição, três são salientes dentro dos variados cenários educacionais atuais: (1) plutocracia/nepotismo/oligarquia, (2) meritocracia e (3) igualitarismo.

O primeiro esquema refere-se aos sistemas educacionais em que oportunidades e privilégios são distribuídos em função da riqueza (plutocracia), influências familiares (nepotismo) e classe social (oligarquia). Estes mecanismos de distribuição foram, comumente, característicos dos antigos sistemas educacionais, tais como, aqueles das antigas civilizações, período medieval e da era pré-industrial. Porém, ainda que, ao longo dos séculos 20 e 21, estes mecanismos tenham se desvanecido, seus resíduos são, ainda, altamente influentes em fracos sistemas educacionais, nos quais, apenas uma pequena minoria da população tem acesso à oportunidades educacionais, do tipo, por exemplo, educação superior (como ocorre na maioria dos países africanos). Influência, esta, que diminui em sistemas educacionais mais fortes.    O importante, entretanto, é que, nestes sistemas, as oportunidades educacionais são motivadas por riqueza, conexões familiares, privilégios das classes sociais, todas elas externas aos indivíduos, de forma que o talento intelectual é irrelevante neste processo.

O segundo esquema, a meritocracia, assume que o acesso às oportunidades educacionais é baseado na habilidade e nas realizações (mérito), também o necessitando ser em lugares em que as situações não ocorrem assim. O argumento que sustenta tal hipótese é o fato de os sistemas educacionais serem estratificados e agregados, de maneira que as escolas mais avançadas eduquem os estudantes mais hábeis, viabilizando lhes prosseguir estudos em instituições universitárias até que, formados, possam retribuir às sociedades que os apoiaram. No mundo, vários são os sistemas educacionais que têm tentado adotar mecanismos baseados no mérito. O objetivo? Viabilizar o acesso às oportunidades educacionais, para a criação de gerações altamente produtivas, que possam influenciar o desenvolvimento da ciência e tecnologia em seus países. A ideia de identificar crianças intelectualmente talentosas, tratando-as de maneira especial, está enraizada nesta doutrina, com seu elemento-chave baseado, apenas, nas características internas do indivíduo. Todavia, outros aspectos imediatamente surgem, tais como, no questionamento “De que forma características internas devem ser selecionadas?”, bem como, “Onde se situam as linhas divisórias entre crianças talentosas e não talentosas?”, “Como os critérios de inclusão devem ser definidos?” e “Como os estudantes talentosos, e não talentosos, devem ser educados num mesmo sistema educacional?”.

Finalmente, a doutrina do igualitarismo sustenta que, todos os indivíduos devem ser tratados como iguais, tendo as mesmas oportunidades educacionais e privilégios. Neste contexto, a suposição é de que todas as crianças, embora diferentes em seus perfis específicos, têm habilidades e, portanto, também direitos iguais às oportunidades educacionais que possam lhes desenvolver suas habilidades, quaisquer que estas sejam. Esta abordagem assume que todas as crianças são hábeis, embora em graus diferentes, e que é tarefa do sistema educacional ajustar-se de modo que as necessidades de cada um sejam alcançadas, e suas habilidades realizadas. Este enfoque muito tem influenciado o conceito e a educação do talentoso intelectual.

Entretanto, a maioria dos sistemas educacionais atuais, como, por exemplo, em Israel e Cingapura, que declaram se basear no mérito, enquanto França e Espanha, no igualitarismo, adota uma mistura dos elementos da meritocracia e do igualitarismo, mas não sem disputas. Estas, refletindo os aspectos sociais, culturais e econômicos em que tais sistemas estão inseridos, deixam claro que, a realidade da educação do talentoso intelectual, aqui envolvendo sua definição, processo de identificação, serviços e resultados desejados, está, necessariamente, alinhada a tais abordagens ou doutrinas, especialmente, em face das restrições sociais e políticas que estas refletem. Tudo se assemelha, portanto, a uma crise silenciosa, em que talentos estão sendo, constantemente, perdidos.

Educando o talento

Anos atrás, a Academia Nacional de Ciência, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos, realizou um estudo buscando entender quais seriam as habilidades dos norte-americanos para competir na busca de empregos de qualidade numa economia globalizada. A conclusão, geralmente referida como “Caçando Tempestade”, revelou, após a primeira linha de seu título, que como nação, os Estados Unidos estaria se tornando menos competitiva. Todos nós vivemos numa economia, tal como escreveu Francis Cairncross, no “The Economist”, em que a ‘distância está morta´…. e ela realmente está”. Não mais competimos para empregos, ou clientes, com vizinhos próximos à nossa rua; pois, agora competimos com nossos vizinhos ao redor do globo. Ademais, muitos destes indivíduos são altamente talentosos e todos são intensamente motivados.

Vários estudos têm indicado que entre 50 e 85 % do crescimento no PIB de uma nação, ao longo dos últimos 50 anos ou mais, pode ser atribuído aos avanços nestes campos do saber. Não obstante, enquanto apenas 4 a 5 % da força de trabalho é composta por cientistas e engenheiros, estes indivíduos desproporcionalmente criam empregos para outros 96-95%. Por exemplo, afirma-se que durante anos recentes quando apenas 700 engenheiros estavam trabalhando no desenvolvimento e no manufaturamento do Apple iPod, 14.000 empregos adicionais foram criados nos estados Unidos e, aproximadamente, 28.000 novos empregos foram criados em outros países. Um antigo presidente da Cal Tech observou que um único e verdadeiramente excelente cientista é mais valoroso do que 1.000 cientistas muito bons. De fato, parece improvável que 1.000 cientistas medianos poderiam ter produzido a Teoria Geral da Relatividade, não importa quanto tempo eles dispusessem. Nem poderiam 1.000 escritores medianos terem produzido os trabalhos de Shakespeare. Nem poderiam 1.000 compositores medianos terem criado as músicas de Beethoven.

O padrão de vida de uma nação depende substancialmente das habilidades de seus cidadãos para competirem por empregos de qualidade e, portanto, o bem-estar de nossa sociedade como um todo depende desproporcionalmente do sucesso em reconhecer e amadurecer aqueles indivíduos que tomam o papel de liderança na criatividade, inovação e, geralmente, pensam fora dos padrões ditos normais.

Assim, reconhecer e educar jovens promissores, bem como, maximizar as oportunidades para que os mesmos possam contribuir para a sociedade é atualmente uma das missões mais importantes de nossos educadores. O futuro da nação está em como educamos os nossos jovens talentosos. Entretanto, para isso devemos desmistificar dois argumentos que têm sido frequentemente usados para impedir políticas que focalizem atenção especial aos estudantes talentosos.

Primeiro, a crença de que o talento se equipara ou é sinônimo de sem- esforço, desempenho superior ou que a produção criativa ou inovação é ampla e possível a qualquer um em nossa cultura. Alguns dirigentes educacionais argumentam que nenhum atendimento especial ou programas específicos são necessários para crianças ou jovens com talentos ou dons acadêmicos especiais. De acordo com esta visão, visto que jovens talentosos requerem pouco esforço ou instrução para serem bem sucedidos, eles deveriam participar em classes inclusivas, heterogêneas e receberem instruções diferenciadas apenas quando e se parecesse razoável oferecer. Alguns ainda entendem que agrupar crianças talentosas em função de suas habilidades e altas realizações em classes especiais é antidemocrático e elitista. A verdade é uma só: estas crianças também necessitam de atenção e educação especial. O talento precisa ser fomentado.

O segundo argumento enfatiza que programas dirigidos aos talentosos existem apenas para fomentar um segmento da sociedade. A percepção comum é que a seleção dos programas para talentosos é algo relativamente arbitrário. Usualmente entende-se que os talentosos originam-se, em maior parte, das classes sociais mais afluentes. Ainda que seja verdade que a maioria origina-se da classe média, há muitos oriundos de outros segmentos sociais e com variadas características demográficas. O princípio é um só: o talento deve ser identificado e fomentado esteja onde estiver.

Em nossa sociedade haverá sempre indivíduos que inspiram-nos admiração, ou inveja, por sua rapidez em aprender, pelo desempenho gracioso, ou pelas ideias inovadoras. Por realizarem tudo isso, aparentemente, sem qualquer esforço, e por fazerem contribuições magistrais em seus campos de saber, estas pessoas talentosas nos intrigam. E, portanto, tentativas para entender, desenvolver e fomentar suas habilidades são os pilares da educação futura.

O futuro da nação depende de como educamos os talentosos

A tese que defendemos é a de que o futuro do Brasil depende de uma “elite” muito especial, que seja, apropriadamente, educada visando a direção do país, gostemos disso ou não. E seus membros, em sua maioria, estão, certamente, ainda que não necessariamente, entre os academicamente talentosos. Portanto, devemos estar seguros do que, realmente, é ensinado a esta elite. Necessitamos ensinar-lhes mais integridade, prudência, autodisciplina, coragem moral, virtude, bondade e, principalmente, sabedoria e humildade.

Mas, o que é, em termos práticos, uma elite “muito especial”? Teria a mesma definição da elite que hoje dirige o país? Pense no seu município. Quais são as pessoas que têm impacto direto na vida econômica, educacional, social e cultural do mesmo? Você constatará, facilmente, que o que é visto, ouvido e criado, em todos estes contextos, é originado por todas as pessoas especialmente talentosas que o movem. Estes talentos compõem uma elite. Ou seja, são as pessoas que se configuram com o que há de mais valorizado, e de melhor qualidade, em um grupo social. Amplie sua indagação. Pense na nação. As principais ocupações que ela absorve compõem-se de médicos, engenheiros, cientistas, jornalistas, religiosos, economistas, entre outros. E todas estas ocupam prestigiado destaque em suas ações junto à nação. Outras posições similares são ocupadas, também, por administradores, banqueiros, empresários, cineastas e docentes, de escolas básicas a superiores, usineiros etc. Do mesmo modo, também as donas de casa, com suas atividades cívicas, religiosas, filantrópicas e políticas, entre outras, que fomentam o funcionamento da nação.

Agregados, todos estes cidadãos produzem um substancial efeito na cultura, economia, política e educação brasileiras. O que eles têm em comum? Todos pertencem a uma elite talentosa, ou seja, pequeno grupo que desempenha, de modo otimizado, suas habilidades e, a despeito de seu limitado tamanho, em relação aos milhões de habitantes da nação, são os que terão um grande impacto no futuro do Brasil. Por isso, nós, necessariamente, devemos educá-los para serem conscienciosos, preparando-os para lidarem com as demandas que, através do exercício de seus respectivos papéis, são requisitadas na sociedade. Logo, o que estou demonstrando é que nossa elite já é talentosa, faltando-lhe, apenas, que seja sábia. Neste sentido, nós estamos educando-os corretamente? Não. O problema com a educação dos talentosos é que a mesma não envolve a quantidade de escolaridade, nem o treinamento profissional, mas, sim, treinamento como cidadão. Entre os talentosos que se tornarão membros desta elite, muitos tomarão decisões que afetarão a vida de todos nós, exatamente em função das posições que os mesmos ocuparão. Nós necessitamos, assim, estruturar sua educação de modo que eles tenham a oportunidade de se tornarem, não só eruditos, mas, também, sábios.

O fomento da sabedoria requer um tipo especial de educação. Ou seja, o domínio das ferramentas da expressão verbal. Não porque os talentosos necessitem, apenas, comunicar-se na vida diária, mas porque tais ferramentas são indispensáveis para o pensamento preciso em nível avançado. Os talentosos precisam fazer julgamentos, intencionais ou não, que afetam a vida das pessoas, para além de sua família e amigos. Por isso, o fomento da sabedoria requer o estudo avançado da filosofia, da psicologia, da sociologia e do humanismo em geral. Haja vista que elas precisam conhecer o que significam a virtude e a bondade. Finalmente, e indispensável, é o fato de a sabedoria, por si, requerer que ensinemos os talentosos a reconhecer seus próprios limites e incapacidades, isto é, compreender o que é humildade.

Expressão verbal é o que a elite faz em seu cotidiano. A grande maioria dos trabalhos dos membros da elite consiste em ler, teclar, escrever, ouvir, pensar, refletir e conversar. Poucos destes membros fazem o seu trabalho através de habilidades físicas. Consequentemente, advém daí a importância das habilidades verbais no ensino da educação para os talentosos. Isto compreende o entendimento da linguagem, das regras gramaticais, da estrutura semântica das frases, bem como, dos princípios do raciocínio e suas relações com a linguagem. Ademais, a expressão verbal envolve a habilidade para resolver os tipos básicos de falácias e os princípios da retórica, tanto enquanto ferramenta para a expressão, quanto proteção contra ser enganado pela retórica mal utilizada. Por sua vez, a elite precisa ser ensinada a formar julgamentos justos e corretos. Por estarem numa posição de poder que afeta as pessoas em geral, além de amigos e familiares próximos, os membros da elite devem ser hábeis em avaliar as consequências de tomadas de decisões incorretas. Uma das tarefas especiais da educação dos talentosos é aprofundá-los no estudo do que significa a bondade, bondade esta como a que se aplica à virtude. E a bondade como um modo de pensar o como viver a vida humana. Finalmente, os talentosos devem admitir que, para influenciar outros, é fundamental que reconheçam os seus próprios limites, bem como, que também eles podem vir a fracassar. Aliás, a experiência internalizada da humilhação é, para muitos, o pré-requisito para a humildade.

A habilidade especial é o bem mais precioso que uma criança talentosa possui. O tratamento especial destas crianças não é, portanto, elitista. E, do mesmo modo que fomentamos habilidades atléticas e musicais, devemos fomentar e treinar, também, os dons especiais dos talentosos, os quais, na realidade, constituem a elite especial que moverá o Brasil. Afinal, o futuro da nação depende de como nós os educamos no presente.

Esta negligência do talento tem causado vários prejuízos, tanto à educação das crianças com baixa habilidade acadêmica, quanto àquelas que têm baixos e altos desempenhos acadêmicos. Dentre estes prejuízos encontra-se a humilhação por expectativas irracionais e a negligência do que elas poderiam aprender, em função da busca do que elas não podem aprender, entre outros. Do mesmo modo, esta atitude prejudica a evolução de estudantes talentosos, desmotivando-os, deixando-os satisfeitos com menos que o seu melhor. Além disso, prejudica aqueles que estão na média ao elaborar, para os mesmos, questões inadequadas, tomando-os por imbecis. O que se pode fazer para consertar isso? O sistema educacional brasileiro deve fundamentar-se na natureza da realidade humana, e não mais na psicologia de “achismos”. A qual assola, e imbeciliza o País, de norte a sul.

Referências bibliográficas

Da Silva, J.A. (2003). Inteligência Humana: Abordagens biológicas e cognitivas. São Paulo. Lovise
Da Silva, J.A. (2005). Inteligência: resultado da genética, do ambiente ou de ambos? São Paulo: Lovise.
Da Silva, J.A. (2007) Inteligência para o sucesso pessoal e profissional. Ribeirão Preto: FUNPEC-Editora.
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