RBTV #5: Subsídios para a construção de um código de conduta profissional do áudio-descritor

Resumo

O presente artigo versa a respeito dos princípios que devem nortear eticamente a atuação do áudio-descritor. Alerta sobre os fatores que devem ser evitados na construção e oferta do serviço da áudio-descrição. Traz subsídios para a construção de um código de conduta profissional do áudio-descritor. Conclui que a provisão da áudio-descrição, feita sob valores éticos de um código de conduta profissional, respeitadora do cliente usuário do serviço ou do cliente contratante viabiliza o empoderamento da pessoa com deficiência, respeitando-lhe a cidadania e a dignidade de pessoa humana.

Palavras-chaves: Código de conduta profissional. Ética. Áudio-descritor. Áudio-descrição. Pessoa com deficiência.

Abstract

The present article discusses about the ethical aspects of providing audio description for people with visual disability. It brings suggestions for building a code of conduct of the audio describer and gives hints to avoid attitudinal barriers when audio describing movies, theater, educational materials etc. It concludes that advogating for a code of conduct of the audio describer that respects the empowerment of people with visual disability is necessary and requires profound and incessant efforts from all to make a more inclusive society.

Keywords: people with visual disability, audio description, code of conduct, inclusion

Considerações iniciais

Durante anos, a sociedade negligenciou a pessoa cega a possibilidade de receber informação por meio de desenhos. Neste período, marcado pelo desconhecimento de que a pessoa com deficiência visual é capaz de produzir e compreender imagens, a acessibilidade à informação/comunicação esteve fragilizada, pois fragilizado também estava o entendimento acerca da existência e potencialidades da pessoa com deficiência.

No século XX, a partir da compreensão de que as pessoas com deficiência são sujeitos de direitos, a acessibilidade comunicacional começa a se expandir ao longo das possibilidades de descrição de imagens, obviamente, ainda não com a técnica da áudio-descrição, mas com a descrição/utilização de informações, em áudio, de representações visuais.

Surge, então, nos Estados Unidos, em meados da década de 70, a áudio-descrição, um gênero tradutório que exprime em palavras escritas ou oralizadas aquilo que é visível, e busca promover o empoderamento de pessoas com deficiência. O empoderamento constitui “o processo pelo qual indivíduos, organizações e comunidades angariam recursos que lhes permitam ter voz, visibilidade, influência e capacidade de ação e decisão” (HOROCHOVSKI; MEIRELLES, 2009, p.486). O empoderamento é a palavra motriz que distingue as descrições antes ofertadas à pessoa com deficiência visual e a áudio-descrição a qual pode ser compreendida como:

uma descrição regrada, adequada a construir entendimento, onde antes não existia, ou era impreciso; uma descrição plena de sentidos e que mantém os atributos de ambos os elementos, do áudio e da descrição, com qualidade e independência (LIMA et al., 2009).

Sendo esta a característica que justifica sua grafia hifenizada, ratificada por Lima et al (2009) ao afirmar que :

a ortografia desse vocábulo apresenta um traço de união que nos remete a uma nova construção, a partir da composição de elementos distintos e com significados diversos bem conhecidos, o real sentido da áudio-descrição também nos remete a uma nova compreensão do direito à informação e à comunicação. Por conseguinte, o significado dos vocábulos áudio e descrição é bem mais que a união dos dois elementos que o compõem, não sendo, portanto, a mera narração de imagens visualmente inacessíveis aos que não enxergam. A áudio-descrição implica em oferecer aos usuários desse serviço as condições de igualdade e oportunidade de acesso ao mundo das imagens, garantindo-lhes o direito de concluírem por si mesmos o que tais imagens significam, a partir de suas experiências, de seu conhecimento de mundo e de sua cognição.(p. 3)

Ao buscar garantir às pessoas com deficiência o empoderamento, o direito à informação e à comunicação, através da áudio-descrição, os Estados Unidos , a partir da década de 80, contribuem para a evolução de uma oferta mais significativa da tecnologia assistiva da aúdio-descrição e também para a formação de profissionais tradutores.

Neste período, a função precípua deste serviço assistivo, qual seja a de prover o empoderamento de pessoas com deficiência visual, emana para outros países como Inglaterra, Japão, Alemanha, França, Espanha etc. E apenas no final da década de 90 chega ao Brasil, efetivando-se com maior vigor na segunda metade da década de 2000, inclusive com garantias legais para a provisão do serviço (BRASIL, 2000; ONU, 2006; FRANCO, 2007; RESENDE e VITAL, 2008, SILVA, 2009; LIMA et al. 2009a; LIMA et. al. 2009b).

Considerando este avanço da áudio-descrição, profissionais começam a ser formados para atuar nos mais diversos campos da tradução visual, o que vem a requerer organização nesta formação e, consequentemente, orientação adequada na conduta apropriada para a construção e oferta da áudio-descrição.

Em função disto, o presente artigo pretende trazer contribuições para que se pense os princípios éticos que devem estar presentes na aúdio-descrição e trazer à baila alguns valores e atitudes que devem ser evitados.

Primeiro, explicitamos quem são os sujeitos sociais envolvidos na construção e oferta da áudio-descrição; depois discutimos sobre os temas emergentes quando o assunto em tela é a conduta do áudio-descritor e, por fim, propomos a reflexão acerca das ações e atitudes que podem fragilizar a ação laboral do áudio-descritor.

O cliente da áudio-descrição, o consultor e o áudio-descritor

Como vimos, a áudio-descrição é uma tecnologia assistiva que busca principalmente a inclusão e o empoderamento da pessoa com deficiência visual, contudo este recurso pode ampliar as possibilidades de inserção social e acesso à informação/comunicação às pessoas com deficiência intelectual, disléxicos e idosos em diversos contextos sociais: cinema, teatro, programas de televisão etc (Lima et. AL, 2009 e Lima et AL. 2010, Lima e Lima, 2010). Este gênero tradutório é um recurso que deve alargar as possibilidades de inclusão social para as pessoas que se encontram excluídas, total ou parcialmente da experiência audiovisual.

Partindo deste pressuposto, podemos afirmar que consumidor ou cliente do serviço da áudio-descrição são todos aqueles usuários da áudio-descrição. O cliente da áudio-descrição é, portanto, o consumidor do serviço da áudio-descrição ou o contratante do serviço de áudio-descrição. Pode ser o usuário ou uma pessoa física ou jurídica, que contrata o serviço de áudio-descrição, a ser oferecido aos usuários, destinatários do serviço da áudio-descrição.

Há dois profissionais que devem trabalhar parceiramente na construção e oferta da áudio-descrição: o consultor em áudio-descrição e o áudio-descritor.

O consultor em áudio-descrição é uma pessoa com deficiência visual formada/capacitada para criticar, revisar e propor novas construções tradutórias do texto áudio-descritivo, a partir da observação criteriosa e sustentada na boa técnica da áudio-descrição. O consultor deverá ter formação comprovada ou capacitação comprovada por curso de formação de áudio-descritores.

E o áudio-descritor é o profissional que se ocupa do estudo, construção, socialização, oferta e defesa da áudio-descrição, a qual consiste numa técnica de tradução intersemiótica que tem por objetivo transformar o que é visto em palavras por meio da descrição objetiva, específica e sem inferências tradutórias do áudio-descritor ou consultor.

Reflexões sobre a conduta na atuação do áudio-descritor

Um código de conduta é um instrumento que norteia serviços e relações interpessoais em campos científicos e laborais específicos, é um documento que necessita de uma constante atualização com o contexto social e tecnológico, além de refletir os atuais pilares da atitude e comportamento ético e moral do áudio-descritor.

Neste sentido, é fundamental, para refletirmos sobre as diretrizes que devem compor um código de conduta para áudio-descritores (contrato de trabalho, fornecimento do serviço, relações interpessoais com os clientes, a construção da áudio-descrição de imagens estáticas e dinâmicas etc), que nos debrucemos sobre documentos tais como o Código de Conduta Profissional para Áudio-Descritores e Formadores em Áudio-Descrição[1], Código de Ética del intérprete–ONCE[2], entre outros, revisitando a conceituação do termo CONDUTA de acordo com a consciência social includente.

A conduta é, como o comportamento, uma resposta a uma motivação, mas fazendo intervir componentes psicológicos, motrizes e fisiológicos, refere-se ao estudo do homem em suas relações com o universo e com outros homens (JAPIASSÚ, MARCONDES, 2006), envolve três dimensões: ética, moral, cognição.

[…] A ética está mais preocupada em detectar os princípios de uma vida conforme à sabedoria filosófica, em elaborar uma reflexão sobre as razões de se desejar a justiça e a harmonia e sobre os meios de alcançá-las. A moral está mais preocupada na construção de um conjunto de prescrições destinadas a assegurar uma vida em comum, justa e harmoniosa (JAPIASÚ, MARCONDES, 2006, p. 96).

No contexto da áudio-descrição, essas dimensões estarão sempre imbricadas e delas resultarão a qualidade do serviço de tradução a ser ofertado. Assim, o entendimento acerca da existência e potencial da pessoa com deficiência; a compreensão dos direitos humanos fundamentais; a ciência do como, para quem, para quê e por que fornecer a áudio-descrição; os valores situados na perspectiva inclusivista, a materialização desses valores em ações concretas de respeito ao gênero humano, entre outros aspectos, sustentarão estudos sobre a tradução visual e a garantia da acessibilidade comunicacional, proporcionada pela áudio-descrição.

Ainda sobre a ética, Pires (2006) sinaliza que uma das características dessa dimensão da conduta é o questionamento do valor das nossas ações humanas. Participar do processo de inclusão expressa, portanto, uma atitude teleológica voltada para o aperfeiçoamento ético e moral dos indivíduos na reconstrução social proposta pela inclusão, a qual se baseia em ações como:

  • Reconhecer as diferenças culturais, físicas, linguísticas, intelectuais, sensoriais, étnicas, religiosas, etárias, de gênero, entre as pessoas;
  • Defender a igualdade na diferença: direitos diferentes para garantir a igualdade entre as pessoas;
  • Defender a diferença na igualdade: reconhecer, respeitar e valorizar as peculiaridades de cada um, no todo social;
  • Garantir o direito ao acesso imediato ao espaço comum da vida da comunidade;
  • Favorecer o acesso aos recursos de autonomia;
  • Promover a independência;
  • Viabilizar os processos de empoderamento (empowerment), garantir à pessoa com deficiência seu pleno poder decisório, naquilo que lhe diz respeito;
  • Respeitar a: Biodiversidade, Diversidade humana, Diversidade cultural, Diversidade social.

Estas ações, quando efetivadas sob o manto da ética e da moral, encontram o princípio de sua essência no:

conceito de responsabilidade concebido como engajamento, compromisso com o Outro, mas responsabilidade calculada, com uma intencionalidade de fazer com que o outro assuma, por sua vez, sua singularidade insubstituível (PIRES, 2006).

Este entendimento sustenta o valor primeiro da áudio-descrição: contribuir para o empoderamento da pessoa com deficiência, assegurar-lhe o direito de ser compreendida e tratada como ser indivisível, de “singularidade insubstituível”, dotada de direitos e capaz de cumprir deveres sociais.

Nesta linha, podemos afirmar que ser tradutor visual exige do áudio-descritor atitudes éticas – a de efetivar uma tradução pautada na atenção, prudência, sabedoria, equilíbrio, verdade, objetividade, fidelidade, fidedignidade, confidencialidade e compromisso com o cliente do serviço.

Alguns princípios para a atuação ética do áudio-descritor

Conforme mencionado, a prestação do serviço da áudio-descrição ganha corpo no Brasil a partir da segunda metade da década de 2000, em peças áudio-descritas, filmes e outros eventos áudio-descritos, os quais passam a fazer parte da vida cultural e educacional das pessoas com deficiência visual.

Alguns estudiosos da áudio-descrição começam a refletir internacional e nacionalmente a respeito da certificação dos áudio-descritores, dentre esses estudiosos, Joel Snyder, Bendt Benecke e Francisco Lima, além de se preocuparem com a certificação dos áudio-descritores consideram que a áudio-descrição enquanto atividade intelectual do áudio-descritor não deve ser regrada por lei ou alguma normatização que venha de algum modo restringir, limitar, e mesmo impedir o ato tradutório intelectual do áudio-descritor.

Quanto à certificação do áudio-descritor, aqueles formadores consideram imprescindível uma formação pautada em um código de ética claro, objetivo e específico, o qual considere, entre outros aspectos, temas tais como:

1. O entendimento acerca da inclusão social e de quem é o usuário da áudio-descrição

A inclusão social reconhece e defende os direitos de todas as pessoas, esteia-se em documentos nacionais e internacionais, os quais versam sobre os direitos fundamentais da pessoa humana:

Uma sociedade inclusiva vai bem além de garantir espaços adequados para todos. Ela fortalece as atitudes de aceitação das diferenças individuais e de valorização da diversidade humana e enfatiza a importância do pertencer, da convivência, da cooperação e da contribuição que todas as pessoas podem dar para construírem vidas comunitárias mais justas, mais saudáveis e mais satisfatórias. (SASSAKI, 1999, p. 165)

Nesta linha, o usuário da tecnologia assistiva da áudio-descrição deve ser compreendido como:

  • pessoa humana cujo potencial criador, científico ou laboral poderá ser ampliado a partir da oferta de áudio-descrição;
  • o usuário deste serviço é detentor do direito ao acesso aos bens produzidos culturalmente;
  • indivíduo não menos capaz que uma pessoa vidente. Alguém que apenas estabelece relação com o mundo que o cerca de forma diferente, pois se utiliza, também, de meios e instrumentos próprios para fazê-lo, tais como habilidades perceptivas táteis e sinestésicas; sistemas simbólicos alternativos e recursos materiais como a bengala; sistema de escrita Braille; materiais didáticos adaptados etc (MARTINS, p. 160 ; BRASIL,DECRETO LEGISLATIVO, 2008).

2. A atitude constante de investigação, estudo, socialização e defesa da tradução visual

 

a) O áudio-descritor deve assumir a postura de um cientista da tradução visual

A áudio-descrição deve ser alicerçada sob um aporte teórico sólido e específico. O áudio-descritor precisa, portanto, aperfeiçoar contínua e tenazmente sua formação e buscar melhorar a tradução por meio de experiências empíricas.

A fim de evitar a manutenção de barreiras atitudinais, em sua atuação profissional, o áudio-descritor deve buscar ser um cientista da inclusão, da áudio-descrição, da língua e da imagem em seus diferentes espaços de significação.

 

b) A socialização implicará na ampliação dos saberes experienciais

 

Parafraseando Tardif (2002), podemos afirmar que o saber do áudio-descritor é social por várias razões:

  1. porque é partilhado por um grupo de agentes (o profissional formador, o áudio-descritor, o consultor e os clientes do serviço);
  2. porque a posse dos saberes sociais e a utilização repousam sobre todo um sistema que vem garantir a sua legitimidade e orientar a definição e utilização da áudio-descrição nos espaços sociais;
  3. o saber do tradutor é social porque seus próprios objetos são objetos sociais, isto é práticas sociais;
  4. o saber é social, pois como mostra a história, o espaço de compreensão acerca do usuário da áudio-descrição e o serviço de tradução visual evoluem com o tempo e com as mudanças sociais;
  5. esse saber é social por ser adquirido no contexto de uma socialização profissional.

Estas dimensões sociais dos saberes sinalizam que a áudio-descrição é algo que se aprende inter e intrasubjetivamente, logo, a socialização das construções linguísticas, percebidas e obtidas da observação da recepção do público-alvo, são relevantes para a formação permanente do áudio-descritor.

c) A defesa do direito à acessibilidade à informação é uma dimensão da inclusão social.

O áudio-descritor deve estar consciente dos benefícios da áudio-descrição para os usuários diretos e indiretos do serviço. O tradutor também precisa considerar claramente que a acessibilidade comunicacional é um direito assegurado pela legislação internacional e nacional. Logo, advogar pela oferta do serviço deverá ser uma atitude profissional cotidiana do áudio-descritor, para o que ele deverá estar atualizado quanto as leis, normas e resoluções, garantidoras da tecnologia assistiva da áudio-descrição.

 

3. O contrato

a) Pró-labore

O profissional precisa acordar com o contratante o pró-labore relacionado ao tempo de pesquisa, construção, tipo da áudio-descrição (estática ou dinâmica), locução da áudio-descrição.

b) Carga horária

A áudio-descrição simultânea requer muito empenho e habilidade do áudio-descritor em lidar com episódios inusitados; traduzir por tempo prolongado pode se tornar uma atividade exaustiva. Ao ser comunicado acerca da carga horária em que o evento social será vivenciado, o áudio-descritor deverá avaliar as condições para um trabalho realizado, preferencialmente, em parceria. Isto deve ser considerado no contrato.

c) Profissionalismo/compromisso

Com seriedade, compromisso, discrição e objetividade, o áudio-descritor deverá realizar os estudos preliminares, a construção e efetivação da áudio-descrição, sempre considerando as idiossincrasias do público alvo e a recepção dos clientes no decorrer e a posteriori ao serviço assistivo.

Ao construir e ofertar a áudio-descrição, os direitos autorais do autor da obra e do áudio-descritor-roteirista devem ser respeitados.

d) Locução

O tradutor acordará a respeito de quem fará a locução, o tempo de atuação, as condições técnicas e solicitará a assistência técnica para a instalação de equipamento a ser realizada antes da oferta do serviço ou para manutenção durante a tradução, caso seja necessário.

4. O vestuário

Do mesmo modo como o acervo linguístico precisa estar adequado à obra a ser áudio-descrita e aos receptores do serviço, o tradutor, em situação de tradução, precisa adequar vestimentas e posturas, sempre recordando a premissa da invisibilidade. Um áudio-descritor nunca deve ser um distrator para a apresentação do que está descrevendo.

Em espetáculo teatral, por exemplo, principalmente quando o áudio-descritor estiver na platéia, ou à vista desta, deverá usar roupas sóbrias, e de tons escuros. Por outro lado, ao fazer uma áudio-descrição em um evento ao ar livre (um city tour, por exemplo), o áudio-descritor deverá usar roupas leves, confortáveis, ou mais quentes, conforme o clima e outros fatores pertinentes ao evento.

5. A prestação do serviço

a) Pontualidade

O cumprimento da carga horária estabelecida revela respeito aos usuários do serviço.

A áudio-descrição simultânea em teatros, auditórios, cinemas, por exemplo, exigirá a oferta da áudio-descrição, em momento preliminar da tradução da obra principal, assim, deverá ser fornecida a áudio-descrição do ambiente físico, vestuário dos artistas e outras informações que possam ser compartilhadas em notas proêmias, que venham a ampliar a compreensão do texto principal.

Durante a tradução, o pilar “descreva o que você vê” deve ser efetivado fiel, fidedignamente e sem nenhum tipo de censura.

Após a vivência do evento social, percepcionar a reação dos clientes será uma ação relevante para a formação permanente do áudio-descritor.

b) Locução

A locução deve estar adequada à pulsação rítmica da obra. Considerar e respeitar o acesso do cliente aos recursos sonoplásticos, perceber quando os silêncios são constitutivos da narrativa, sentir quando e como inserir a áudio-descrição são ações relevantes na oferta do serviço (TAVARES et. al. 2010).

A locução exigirá do áudio-descritor a efetivação da técnica e a omissão de impressões pessoais. Logo, a função do tradutor no enredo é dirigir a atenção unicamente para o que está sendo áudio-descrito.        Isso significa que ele não pode sobressair à obra áudio-descrita, seja porque não está ali para exibir sua voz, seja porque não está ali para exibir seus “dotes” de locutor, ator, ou de conhecedor do vernáculo.

 

6. A construção da áudio-descrição

A construção da áudio-descrição pressupõe estudo sobre a contextualização, características e campo em que a obra se situa: Arte, Dança, Cinema, Teatro, Pedagogia etc. É o momento de perceber se os elementos linguísticos característicos do gênero textual áudio-descrição foram respeitados com rigor. Ter, quando possível, o autor da obra e um consultor como parceiros na construção do roteiro da tradução será sempre ação valorosa para todos os agentes integrados no campo da acessibilidade comunicacional.

A objetividade, ética e as habilidades linguísticas deverão estar presentes na materialização do pilar “descreva o que você vê”, ou seja, nas escolhas intelectuais do que e como dizer, a objetividade, a ética e as habilidades linguísticas deverão ser justificadas em favor da obra.

7. A oferta da áudio-descrição de imagens estáticas

A áudio-descrição de imagens estáticas deve seguir coerentemente, entre outras diretrizes, as seguintes: descrever de cima para baixo (top down), da esquerda para a direita, descrever de acordo o plano de perspectiva, do primeiro plano para os seguintes, sempre considerando o registro linguístico adequado e o público alvo

Quando se tratar de uma figura ambígua, são necessários cuidados redobrados. A atenção do áudio-descritor deverá contemplar pelo menos duas ou mais traduções da imagem a ser áudio-descrita.

Ao áudio-descrever slides, gráficos e outras configurações em que haja elementos textuais, o áudio-descritor deve incluir na sua áudio-descrição os elementos estéticos/gráficos, a exemplo de palavras em caixa alta, itálico, negrito, trechos em recuo, notas de rodapé, aspas, a grafia de palavras estrangeiras ou nomes próprios etc.

Nas Histórias em Quadrinhos (HQs), a áudio-descrição deve permitir uma leitura (locução) textualmente coerente, e de fácil compreensão do público alvo. É possível que se necessite usar descritivos “subjetivos”, como alegre, feliz etc, o que, porém, deve ser feito com muito comedimento.

Já na áudio-descrição de imagens nos Livros Didáticos, em provas e outros materiais do gênero, o áudio-descritor deve primar por não oferecer indicações da resposta, e primar por dar as condições de o usuário da áudio-descrição chegar às respostas por meio desse serviço.

8. A oferta da áudio-descrição de imagens dinâmicas

Na oferta da áudio-descrição de imagens dinâmicas, muitas das diretrizes comentadas anteriormente serão utilizadas: objetividade, fidelidade, fidedignidade, atenção aos elementos sonoplásticos, a direção (esquerda para a direita) e além dessas, os tempos e intenções da locução .

Quando na obra houver prevalência de vozes masculinas, é interessante que a locução da áudio-descrição seja realizada por uma voz feminina (ou vice-versa), pois o contraste contribuirá para a distinção entre o texto principal e a locução.

A iluminação, movimento, expressões faciais, vestuários, ambientes, ou algo que está causando qualquer som não identificado, também precisam ser áudio-descritos, pois os elementos constitutivos da obra ou intercorrentes em uma dada situação devem ter lugar garantido na áudio-descrição.

 

9. As relações interpessoais com os clientes do serviço

As pessoas com deficiência visual e as demais que queiram utilizar o serviço assistivo merecem respeito, consideração e garantia de que o empoderamento será assegurado. Logo, as interpretações pessoais sobre o que está sendo áudio-descrito jamais encontrarão espaço na tradução visual.

O áudio-descritor, a fim de nutrir saberes experienciais, deverá ser sensível à percepção da resposta dos clientes aos serviços prestados. Ouvir as opiniões das pessoas com deficiência visual, consultá-las acerca da qualidade do serviço será sempre valioso.

10. As relações interpessoais com outros áudio-descritores

A áudio-descrição é gênero tradutório que vem paulatinamente conquistando espaço na academia.

Trabalhar em parceria com outros tradutores repercutirá em aprendizagem para ambos, oportunidade ímpar de permutar saberes, experiências, percepções e ampliar habilidades linguísticas situadas no campo da tradução visual, por exemplo, nas diversas áreas do saber: na Psicologia, Engenharia , Educação, Artes, Direito, Medicina etc.

O áudio-descritor principiante deve submeter seus roteiros a apreciação de áudio-descritores mais experientes e estes devem contribuir ética e respeitosamente na correção dos roteiros a eles apresentados. Todos os áudio-descritores, mais e menos experientes, devem igualmente submeter seus roteiros a apreciação de um consultor capacitado para avaliar a áudio-descrição.

Em resumo, o código de ética do áudio-descritor deve contemplar os seguintes pontos:

  1. O áudio-descritor deve considerar que todo usuário da áudio-descrição é capaz de compreender um evento visual independente de ser pessoa com deficiência visual, adventícia ou congênita, de ser criança, jovem ou adulto, de ser homem ou mulher; de ser oriundo de classes sociais mais ou menos abastadas etc.
  2. O áudio-descritor deve ter consciência da importância de seu trabalho. Deve ser uma pessoa preparada para traduzir eventos visuais em palavras escritas ou oralizadas por pessoa ou meio eletrônico; deve realizar a áudio-descrição consoante as peculiaridades do cliente ou grupo de clientes; deve conhecer e efetivar as diretrizes para a áudio-descricão; deve adequar a áudio-descricão de acordo com a situação comunicativa.
  3. Deve evitar atitudes ou práticas paternalistas e condescendentes, porém respeitando as necessidades dos indivíduos, clientes do serviço da áudio-descrição. O papel do áudio-descritor é o de prover o serviço da áudio-descrição, de modo que o cliente vivencie o empoderamento.
  4. O áudio-descritor não deve esquivar-se do contato físico, se e quando necessário, para relacionar-se com o cliente da áudio-descrição.
  5. Se solicitado pelo contratante, toda informação correspondente à tradução, deve ser confidencial, durante a produção do roteiro e/ou após, conforme lhe for solicitado;
  6. Deve traduzir a imagem com objetividade, fidelidade, fidedignidade, sempre transmitindo o conteúdo sem a censurar ou editoriar.
  7. Não deve emitir juízo de valor em relação ao conteúdo da obra, interpretar, emitir opinião, sons, entoações, expressões de aprovação ou desaprovação ao conteúdo áudio-descrito.
  8. Ao ser consultado para produzir uma áudio-descrição, o áudio-descritor deve considerar, para a aceitação do contrato, sua competência, sua experiência, seu conhecimento e /ou familiaridade com a área em que se dará a áudio-descrição; deve considerar as características do contrato e o cliente do serviço.
  9. Ao prover um serviço de áudio-descrição, o áudio-descritor deve fazê-lo sob um contrato legal e profissional, onde esteja estipulado a forma de pagamento, as condições de trabalho, tempo de execução e demais quesitos peculiares à prestação do serviço específico.
  10. O áudio-descritor deve primar por sua formação continuada, frequentando cursos de formação, assistindo a produções áudio-descritas, participando de grupo de discussão a respeito da áudio-descrição, trocando experiência com áudio-descritores mais experientes etc.
  11. Em caso de áudio-descrições simultâneas, de tempo prolongado, o áudio-descritor deve considerar a participação de outro profissional da área, intercalando com este o ato tradutório. Em obras que requeiram vozes diferentes, considerar a participação de outro áudio-descritor para alternar as locuções.
  12. O pagamento deve contemplar valores diferenciados de acordo com o grau de exigência e complexidade do trabalho, observando as atividades efetivadas pelo áudio-descritor (roteiro, locução, autoração), principalmente, a natureza do material (tradução simultânea, pré-gravada), e ainda considerar o destino e o destinatário da áudio-descrição, o número de usuários do material áudio-descrito, a mídia em que será veiculado, e o tempo previsto para elaboração e execução do serviço.
  13. O áudio-descritor deve entender , acima de tudo, que sua atividade profissional existe em função do empoderamento da pessoa com deficiência visual;
  14. O áudio-descritor deve, em caso de vir-se impedido de chegar a tempo para a áudio-descrição, comunicar ao cliente contratante e , se possível, ao cliente ou clientes usuários do serviço, dizendo que vai atrasar e estimando o tempo deste atraso. Em caso de não poder comparecer ou de o atraso comprometer o serviço, o áudio-descritor deverá informar de sua impossibilidade ao contratante e, se possível, comunicar-se com outro áudio-descritor, com igual competência e prestação de serviço, para que o substitua.
  15. O áudio-descritor deve adequar vestimentas e posturas, sempre recordando a premissa da invisibilidade, ou seja, um áudio-descritor nunca deve ser um distrator, visual ou auditivo, para a apresentação do que está descrevendo.

Se os pontos ou temas acima mencionados não forem considerados, vividos e socializados na construção e oferta da áudio-descrição, poderão ocasionar atitudes que prejudicarão a efetivação desta tecnologia assistiva.

Estas atitudes, que serão discutidas a seguir, podem ser manifestadas na tessitura da áudio-descrição ou nas relações interpessoais com os clientes do serviço. São atitudes nutridas, por exemplo, quando há lacunas no entendimento acerca da potencialidade da pessoa com deficiência ou da amplitude e natureza social e técnica da áudio-descrição.

Faltas graves na construção e/ou na oferta da áudio-descrição

  1. Na tradução da imagem dinâmica ou estática, antecipar aos usuários do serviço informações que configuram os elementos-chaves da mensagem, por exemplo, acerca do clímax de uma narrativa;
  2. Censurar elementos constitutivos da obra traduzida ou eventos imprevistos no decorrer da áudio-descrição;
  3. Realizar a áudio-descrição de modo descontextualizado, isto é, sem estudo prévio da obra e da contextualização; desconsiderar a faixa etária ou campo de atuação laboral do público-alvo e trazer construções linguísticas inadequadas, levando a fragilidades na construção do gênero tradutório;
  4. Desconsiderar opiniões dos usuários do serviço ou de outros tradutores;
  5. Provocar desvio da atenção à obra ou evento áudio-descrito, trazendo, com ênfase, informações secundárias sobrepostas à mensagem principal;
  6. Omitir alguma informação por julgar que será incompreensível para as pessoas com deficiência.
  7. Superestimar as respostas da pessoa com deficiência visual quanto à acessibilidade e compreensão da informação.
  8. Demonstrar pesar, atitude comiserativa nas relações interpessoais com os usuários do serviço.
  9. Não áudio-descrever piadas visuais, sob o entendimento de que a pessoa com deficiência, mesmo utilizando o recurso da áudio-descrição, não as compreenderá.
  10. Parafraseando o código de ética do intérprete para a pessoa surdocega, podemos também afirmar que são faltas graves (Código de Ética del intérprete, ONCE – Organizacion Nacional de Ciegos, 2000):
  11. Tentar convencer a pessoa com deficiência visual a solicitar seus serviços de áudio-descritor;
  12. Tentar tirar proveito em beneficio próprio através das pessoas com deficiência visual;
  13. Falsificar as horas de áudio-descrição prestadas;
  14. Abusar da confiança da pessoa para quem presta serviço.

Essas faltas, conforme se pode ler em “Áudio-descrição: orientações para uma prática sem barreiras atitudinais” (LIMA et.al. 2009), constituem barreiras atitudinais das mais graves como por exemplo, a barreira atitudinal de generalização, superproteção , inferiorização, menos valia , adoração do herói , entre outras.

Considerações finais

Ações que venham, de algum modo, desrespeitar o empoderamento da pessoa com deficiência, limitando e/ou impedindo a inclusão das pessoas com deficiência visual não podem ser consideradas outra coisa que não discriminação.

A provisão da áudio-descrição feita sob valores éticos de um código de conduta profissional, respeitadora do cliente usuário do serviço ou do cliente contratante viabiliza o empoderamento da pessoa com deficiência, respeitando-lhe a dignidade e a cidadania. Por outro lado, a provisão de uma áudio-descrição descompromissada com o empoderamento não serve aos propósitos da verdadeira acessibilidade à informação, à comunicação, à cultura, ao lazer e à educação.

Assim, uma áudio-descrição meramente inferencial, interpretativa e esteada em modelo econômico que se nutre da indústria da deficiência, certamente, se distanciará das reflexões aqui apresentadas e destoará do sentido máximo da prestação do serviço da áudio-descrição. Isto é, desconsiderará a pessoa humana com deficiência, apenas enxergando no indivíduo uma “deficiência incapacitante”.

Por outro lado, a áudio-descrição, na esteira da cidadania, reitera que só será sob os ditames éticos do reconhecimento do homem pelo homem, com suas idiossincrasias, que se verá uma consciência inclusiva ser construída e a sociedade, ainda excludente, ser transformada numa sociedade de cooperação, respeito, humanização e sabedoria.

Referências

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Notas de referências

[1] Disponível em <http://www.rbtv.Associadosdainclusao .com. br/index.php/principal/article/view/54/75> Acesso em 04 de novembro de 2010.

[2] Disponível em <http://www.ahimsa.org.br/centro_de_recursos/projeto_horizonte/CODIGO_DE_ETI CA _DO_INTERPRETE.pdf> Acesso em 04 de novembro de 2010.

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  • Francisco Lima

    Professor Adjunto da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); Coordenador do Centro de Estudos Inclusivos (CEI/UFPE); Idealizador e Formador do Curso de Tradução Visual com ênfase em Áudio-descrição “Imagens que Falam” (CEI/UFPE);Tradutor e intérprete, psicólogo, coordenador do Centro de Estudos Inclusivos. E-mail: cei@ce.ufpe.brView all article by Francisco Lima
  • Fabiana Tavares dos Santos Silva

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RBTV #4: Reflexões sobre o pilar da áudio-descrição: “Descreva o que você vê”

Resumo

O presente artigo discute as questões da acessibilidade das pessoas com deficiência visual às imagens que circulam em contextos educacionais, culturais e de lazer. Defende que a áudio-descrição é, ao mesmo tempo, um recurso assistivo, uma técnica de tradução visual e um gênero textual, situado na filosofia inclusivista. Aborda a conceituação da áudio-descrição mostrando o que a diferencia da tipologia descritiva e indicando quais as bases utilizadas pelo áudio-descritor para tornar imagens acessíveis. E ainda, a partir da percepção da imagem, em especial de uma imagem ambígua, comumente trabalhada na Psicologia, reflete o pilar da áudio-descrição “Descreva o que você vê”. Conclui que essa orientação traz à ação do áudio-descritor a imparcialidade e ao usuário de serviço as possibilidades de interpretação das imagens disponíveis.

Palavras-chave: áudio-descrição, descrição, gênero textual, pilares da áudio-descrição.

Abstract

This article discusses the issues of people accessibility with visual impairments to the images that circulate in educational settings, cultural and leisure activities. Argues that the audio description is, at the same time, an assistive application, a visual translation technique and textual genre situated in the inclusivist philosophy. Discusses the concept of audio description showing distinct of descriptive typology indicating the bases used by the audio-describer to make images accessible. And besides, from the image perception, especially of an ambiguous image, usually worked in psychology, reflects the pillar of the audio description “Describe what you see.” Concludes that this orientation brings the action of the audio-describer impartiality and the service user the interpretations possibilities of available images.

Keywords: audio description, descrition,genre, pillars of the áudio description.

1. Considerações iniciais

 A densidade de imagens visuais que permeia os mais variados espaços físicos, diariamente, em textos de natureza pragmática, da cultura popular ou de cunho educacional, bem como o surgimento de hipertextos oriundos dos diversos ambientes virtuais, tem fomentado a necessidade de discutirmos sobre a acessibilidade das pessoas com deficiência visual a tais produções que incorporam a intersemiose ao conceito amplo de linguagem.

A linguagem imagética é permeada de sentidos/significados, guiada por intencionalidades, aplicada em contextos sociais, educacionais, laborais ou de lazer e cumpre múltiplas funções: informar, divertir, persuadir, instruir, ordenar etc. Quando o acesso a esse viés da comunicação fica prejudicado, prejudicada está à acessibilidade comunicacional. Logo, o direito de participar ativamente na construção, entendimento e avaliação do que é produzido socialmente é infringido.

Esta discussão, acerca do acesso às imagens veiculadas em vários campos, é comunicante com o brotar de gêneros emergentes das situações e necessidades sociocomunicativas e da sintaxe própria da linguagem visual, pressupõe a integração entre as esferas da legislação, da semiótica visual e da linguística.

Nesse sentido, algumas questões surgem como motrizes a construção deste artigo: Existe diferença entre a descrição e a áudio-descrição? A áudio-descrição é um novo gênero textual? Além do pilar “descreva o que você vê” que outros aspectos estão presentes numa áudio-descrição eficiente? Quais são as atitudes esperadas do áudio-descritor em sua prática?

Refletir sobre tais problematizações é também considerar que as imagens contribuem, produzem e até ressignificam as relações sócio-culturais. Imagens são construídas para que se alcance variáveis objetivos na comunicação e essa heterogeneidade de funções pode ser esvaziada de sentido ao leitor que precisando do recurso da áudio-descrição não o encontre disponível.

Este texto surge aportado a várias questões, ampliado por visões diversas e compreensões que convergem na busca de uma sociedade onde a imagem prevalecente seja a do acesso de todos a tudo que lhes é de direito. A imagem feita palavra ou a palavra feita imagem constituem as trilhas deste trajeto.

2. Descrição e Áudio-descrição: revisitando algumas conceituações

 O conceito de áudio-descrição é alvo de muitas reflexões ideológicas, jurídicas, filosóficas, e não se esquiva aos embates linguísticos, situados inclusive na utilização do hífen.

Quanto ao uso desse sinal gráfico em palavras compostas, o “Vocabulário Ortográfico da Língua Brasileira” (2009), publicado pela Academia Brasileira de Letras, no item XIV, afirma que

45. Só se ligam por hífen os elementos das palavras compostas em que se mantém a noção da composição, isto é, os elementos das palavras compostas que mantêm a sua independência fonética, conservando cada um a sua própria acentuação, porém formando o conjunto perfeita unidade de sentido (VOLP, 2009, LXXIX).

Segundo Oliveira (2010), na composição de palavras

temos, via de regra, duas bases para formar uma nova palavra, ou seja, duas idéias particulares, ocorrendo uma especialização de sentido: como em queda-de-braço, dama-de-ferro, força-tarefa, eleitor-fantasma, pente-fino, estação-tubo, seguro-desemprego. Este processo caracteriza-se não apenas pela junção de duas formas independentes, ou a existência de pauta acentual de uma certa natureza, mas a distinção reside no campo morfossemântico. Em seguro-desemprego, por exemplo, há uma unidade significativa em que um dos elementos não pode ser suprimido, assim como em couve-flor, rádio-amador, palavra-chave etc.

Este processo é o que ocorre com a palavra áudio-descrição, ou seja, o vocábulo áudio (De audi(o)- (q.v.).] S.m. 1. Eletrôn. O som audível, reproduzido eletronicamente1) que pode ser classificado gramaticalmente como substantivo masculino, adjetivo ou funcionar como prefixo; quando usado na formação da palavra áudio-descrição não tem o objetivo de mudar, estritamente, o sentido do termo descrição2 (exposição circunstanciada feita pela palavra falada ou escrita), mas de juntos constituírem um novo substantivo com função, significado/sentido próprios (LIMA et.al. 2009):

Áudio-Descrição: Serviço de apoio a comunicação que consiste no conjunto de técnicas e habilidades aplicadas, com objetivo de compensar a carência da capitação da parte visual contida em qualquer tipo de mensagem, fornecendo uma informação sonora adequada que a traduza ou explique, de maneira que o possível receptor com capacidade visual diminuída perceba tal mensagem como um todo harmônico e da forma mais parecida o possível de como seria para uma pessoa que enxerga a compreenderia (AENOR, 2005).

Quanto ao uso do hífen na palavra áudio-descrição, apesar de não termos encontrado este vocábulo dicionarizado nos suportes em que pesquisamos, podemos afirmar, a partir desta regra, que é um substantivo composto, que não perdeu a noção de composição e os dois elementos que o constituem tem sentido/significado na língua portuguesa brasileira, ao contrário do que pode ocorrer quando a palavra áudio funciona como prefixo, por exemplo, em audiofone.

Portanto, é relevante esclarecer que as dúvidas quanto a escrita adequada de áudio-descrição surgem em razão da interpretação das regras que orientam a ortografia de vocábulos como audiovisual, audiofone, audiograma, audiometria etc as quais , de acordo com o Scarton e Smith (2002) e Rios (2009), são constituídas pelo prefixo latino áudio (lat audio), sendo nestes casos desnecessário o uso do hífen, pois este prefixo é um morfema que se coloca antes dos radicais (parte fixa, invariável da palavra) basicamente a fim de modificar-lhes o sentido e raramente produz mudanças na classe gramatical da palavra primitiva.

Baseando-nos em estudos, realizados por Oliveira (2010), sobre estrutura das palavras, podemos afirmar que os vocábulos em que áudio funciona como prefixo

são formados por uma base apenas, ou seja, por elementos que apenas acrescentam um novo significado ao significado primitivo dos vocábulos em questão, mas não criam uma nova palavra, não ocorrendo, portanto, com essas formações, uma especialização de sentido

A estruturação dessas palavras é diferente do que ocorre com áudio-descrição, pois esta não significa descrição, nem áudio, é uma tradução visual, ou seja, as palavras juntas compõem uma nova unidade semântica dissociada da noção expressa pelas unidades que a constitui. Há um “distanciamento entre o significado do todo e o significado das partes que é normal pela própria função da nomeação” (OLIVEIRA, op.cit)

Discutir sobre a escrita da palavra áudio-descrição é tomar consciência não somente da orientação ortográfica vigente no Brasil, mas da natureza semântica que o vocábulo comporta. Nesta linha, concordamos com Lima et al ( 2009, p. 3) ao afirmar que

 a ortografia desse vocábulo apresenta um traço de união que nos remete a uma nova construção, a partir da composição de elementos distintos e com significados diversos bem conhecidos, o real sentido da áudio-descrição também nos remete a uma nova compreensão do direito à informação e à comunicação. Por conseguinte, o significado dos vocábulos áudio e descrição é bem mais que a união dos dois elementos que o compõem, não sendo, portanto, a mera narração de imagens visualmente inacessíveis aos que não enxergam. A áudio-descrição implica em oferecer aos usuários desse serviço as condições de igualdade e oportunidade de acesso ao mundo das imagens, garantindo-lhes o direito de concluírem por si mesmos o que tais imagens significam, a partir de suas experiências, de seu conhecimento de mundo e de sua cognição.

Partindo desse embate semântico, algumas questões surgem no que se refere à descrição e à áudio-descrição: Existe diferença entre tais conceitos? Quais as características pertinentes da áudio-descrição que lhe conferem um conceito particular?

A descrição, no latim descriptione, é definida no dicionário Michaellis (2002, p.245) como

1 Ação ou efeito de descrever. 2 Lit Tipo de composição que consiste em enumerar as partes essenciais de um ser, geralmente adjetivas, de modo que o leitor ou ouvinte tenha, desse ser, a imagem mais exata possível. 3 Enumeração das qualidades ou caracteres (de animal ou pessoa). 4 Enumeração, relação.

Já a áudio-descrição (AD) é compreendida como um serviço cujo alvo são as pessoas cegas ou com baixa visão, o qual é caracterizado por “uma narração adicional que comunica vestimentas, linguagem corporal, e piadas visuais numa apresentação visual” (LIMA3, 2010). Assim, as descrições concisas e objetivas inseridas entre partes do diálogo ou canção ajudam os ouvintes a entender importantes elementos visuais.

Neste sentido, distinguir o texto descritivo e a áudio-descrição é relembrar que o primeiro “resulta sempre de um ato de escolha que engaja uma subjetividade enunciativa, manifestada através da explicitação de certos aspectos daquilo que se descreve” (NEIS, 1985, p. 55 apud FURLANETTO, 2002, p. 89) ( Grifo no original). Enquanto que o segundo, pressupõe objetividade, ética e habilidades linguísticas na materialização do pilar “descreva o que você vê”, exigindo, portanto, do áudio-descritor a efetivação da técnica e a omissão de impressões pessoais.

Por ser uma modalidade um tanto recente, a compreensão acerca da áudio-descrição tem se ampliado, podendo encontrarmos diferentes definições que parecem se complementar, a partir da interação com as diferentes áreas do saber. Destarte, a áudio-descrição pode ser classificada como uma

modalidade de tradução onde o que se pretende fazer é processar as informações permitindo a sua passagem de uma linguagem para a outra, procurando manter o maior nível de fidelidade entre o que está numa linguagem e o que é veiculado utilizando-se de outra (VIEIRA; LIMA, 2010, p. 4).

Esse conceito é reafirmado quando se situa a áudio-descrição no campo intersemiótico, conforme se encontra em http://audiodescricao.com/site/objetivos-do-grupo/

a áudio-descrição é modalidade de tradução audiovisual intersemiótica, onde as imagens, ou sinais visuais, são descritas em áudio, ou sinais acústicos, entre os diálogos. Ela otimiza a compreensão de produtos audiovisuais pelo público com deficiência visual. A AD pode ser pré-gravada (ex. em filmes de DVD), ao vivo (teatro e dança) ou simultânea (em qualquer produto audiovisual que aconteça sem uma preparação prévia, como por exemplo, nos programas de auditório e telejornais). A diferença entre as modalidades ao vivo e simultânea é basicamente a existência de um roteiro. Na primeira modalidade, o roteiro da AD é elaborado junto com o roteiro da peça ou do espetáculo de dança; na segunda modalidade, esse roteiro não existe e o áudio-descritor constrói seu texto na hora.

Serviço ou tecnologia assistiva e modalidade de tradução áudio-visual são definições atribuídas a áudio-descrição, cuja construção é permeada pelo próprio direito constitucional das pessoas que dela precisam e/ou desejam se utilizar. Ratificando esse entendimento, Lima et al. (2009) afirmam que o direito das pessoas com deficiência terem acesso a áudio-descrição é sustentado pela Lei nº 10.098, no Decreto Federal 5.296/2004, e no Decreto Legislativo 186/2008, que convergem na garantia da acessibilidade comunicacional.

Para assegurar esse direito, a pessoa que se propõe a áudio-descrever precisa além de desenvolver algumas técnicas e habilidades linguísticas, as quais comentaremos mais adiante, considerar que

a áudio-descrição não é uma descrição qualquer, despretensiosa, sem regras, aleatória. Trata-se de uma descrição regrada, adequada a construir entendimento, onde antes não existia, ou era impreciso; uma descrição plena de sentidos e que mantém os atributos de ambos os elementos, do áudio e da descrição, com qualidade e independência. É assim que a áudio-descrição deve ser: a ponte entre a imagem não vista e a imagem construída na mente de quem ouve a descrição (LIMA et al., 2009).

E na tessitura da áudio-descrição, do ponto de vista linguístico, surgem substantivas discussões e a necessidade de delinear sua especificidade enquanto gênero textual situado na filosofia inclusivista.

2. 1 – Áudio-descrição: gênero textual emergente?

 Há pelo menos vinte e cinco séculos, no Ocidente, se fala sobre a constituição dos gêneros textuais. Um decurso que origina uma multiplicidade de entendimentos sobre esse tema em que a convergência reside, na maioria dos casos, em distinguir tipologia textual e gênero textual, o primeiro referindo-se à forma e, o segundo, ao conteúdo e função social que o originou e mantém vivo. Esse debate é pertinente quando buscamos compreender a tessitura da áudio-descrição enquanto fenômeno linguístico.

Sob essa égide, é relevante considerar que as denominações que damos aos gêneros não são uma invenção pessoal, mas uma denominação histórica e socialmente constituída.

Um exemplo desse fenômeno linguístico é a áudio-descrição conceitualizada, como vimos, como técnica de tradução e/ou recurso assistivo, mas que, numa crescente, encapsula e transcende tais denominações, quando essencialmente ocorre em resposta ao respeito aos direitos das pessoas com deficiência, e demais indivíduos que dela queiram se utilizar, é marcada por uma necessidade sociocomunicativa, registrada numa forma textual específica, embora não seja estanque, e situada num propósito comunicativo vinculado a constituição de uma sociedade de todos.

De acordo com Marcuschi (2008, p.149), se “adotarmos a posição de Carolyn Millher (1984), podemos dizer que os gêneros são uma ‘forma de ação social’. Eles são um ‘artefato cultural’ importante como parte integrante da estrutura comunicativa de nossa sociedade”. Neste sentido, há muito a discutir e tentar distinguir as idéias de que o gênero áudio-descrição contempla a tipologia descritiva, mas não se limita simetricamente a sua essência textual.

A distinção entre tipo e gênero textual é explicitada por Marcuschi (op.cit., p.154-155):

Tipo textual designa uma espécie de construção teórica (em geral uma sequência subjacente aos textos) definida pela natureza linguística de sua composição (aspectos lexicais, sintáticos, tempos verbais, relações lógicas, estilo). O tipo caracteriza-se muito mais como sequências lingüísticas (sequências retóricas) do que como textos materializados; a rigor, são modos textuais. Em geral, os tipos textuais abrangem cerca de meia dúzia de categorias conhecidas como: narração, argumentação, exposição, descrição, injunção. O conjunto de categorias para designar tipos textuais é limitado e sem tendência a aumentar.

Segundo o autor, a conceituação de tipologia textual não pode ser considerada por uma lente dicotômica em relação à noção de gênero, mas deve situar-se no entendimento da constituição do funcionamento da língua em situações de uso. Assim, ao falarmos sobre gênero textual, estamos nos referindo aos

textos que encontramos em nossa vida diária e que apresentam padrões sociocomunicativos característicos definidos por composições funcionais, objetivos enunciativos e estilos concretamente realizados na integração de forças históricas, sociais, institucionais e técnicas. (…) Os gêneros são entidades empíricas em situações comunicativas e se expressam em designações diversas, constituindo em principio listagens abertas (…) como tal, os gêneros são formas textuais escritas ou orais bastante estáveis, histórica e socialmente situadas (MARCUSCHI, 2008, p.155).

Tais definições nos mobilizam a conceituar a áudio-descrição como um gênero textual, pois o propósito que determina seu formato é a necessidade sociocomunicativa emergente em contextos diferenciados como cultura, educação e lazer, e tal necessidade se refere especificamente à acessibilidade comunicacional das pessoas cegas ou com baixa visão inseridas nesses contextos.

A áudio-descrição enquanto gênero demonstra em sua forma estrutural descritiva o uso de adjetivos; de verbos no presente do indicativo, flexionados na voz ativa; geralmente não apresenta relação de anterioridade/posterioridade, nem exprime impressão do áudio-descritor sobre a mudança de estado emocional de pessoas ou personagens. E ainda há um esquema cognitivo e linguístico a ser respeitado, o qual é constituído desde o plano de fundo de uma imagem estática ou dinâmica a contextualização social, educacional, histórica, política, artística ou mercadológica dessa imagem ou evento a ser áudio-descrito.

Na esteira do entendimento acerca da distinção entre a descrição e a áudio-descrição, situa-se a intencionalidade da segunda em tornar acessível para a pessoa com deficiência visual o que não está disponível, através do tato, ou, imediatamente, pela fonte sonora natural do material. Além disso, é um gênero construído para ser lido por alguém, por exemplo pelo professor, ou mesmo pelo leitor de tela com sintetizador de voz; é um texto permeado pela função inclusivista de promover equiparação de oportunidades comunicativas, sociais, culturais entre as pessoas que queiram e/ou necessitem se utilizar do serviço e os demais sujeitos sociais.

Além disso, vale destacar a característica paratextual da áudio-descrição que nos recorda a propriedade mutável de um gênero textual , explicitada por Marcuschi (2008), posto que a áudio-descrição, situada em um domínio discursivo, terá em seu bojo características divergentes para atender as necessidades, objetivos, expectativas de seus usuários, embora sempre conforme alguns aspectos universais os quais já foram comentados ao longo deste artigo e serão expandidos no próximo item.

3- As bases da áudio-descrição: reflexões sobre a ação e postura do áudio-descritor

Ao preencher as lacunas informacionais de imagens estáticas ou dinâmicas não captadas por determinado público, o áudio-descritor não pode interferir em tais imagens e precisa seguir fielmente a regra geral “Descreva o que você vê!”. Aí reside uma especialização na constituição do gênero áudio-descrição e na veiculação deste: a objetividade.

Assim, na medida em que utiliza descritivos que atribuem qualidade e vivacidade a imagens e ações, o tradutor assume o papel de ator invisível, indispensável para o trabalho, cuja função no enredo é dirigir a atenção unicamente para o que está sendo descrito.

Como podemos depreender, fica evidente que esse profissional está sempre fazendo escolhas intelectuais do que dizer e essas deverão ser justificadas a favor da obra. Nesta linha, para prevenir que a individualidade do profissional se sobreponha a obra, é fundamental que a áudio-descrição esteja alicerçada pelo aporte teórico até hoje postulado.

Dentre os passos para áudio-descrever uma imagem, destaca-se a análise prévia da obra. De acordo com a norma espanhola UNE/153020 (AENOR, 2004), nesta etapa devem ser considerados três critérios, a saber:

a) As obras devem conter “espaços de mensagem” que permitam introduzir a informação áudio-descritiva nos momentos essenciais para poder continuar a trama.

b) Ao realizar a áudio-descrição, evitar a provocação de cansaço do ouvinte deficiente visual, por saturação de informação ou ansiedade pela ausência da mesma.

c) A áudio-descrição deve ser realizada no mesmo idioma no qual se apresenta a informação sonora da obra.

Partindo de tais orientações, podemos afirmar que ao realizar a áudio-descrição é emergente a construção de um repertório de informações sobre o que é possível dizer para possibilitar aos usuários da áudio-descrição a melhor construção imagética. No entanto, vale salientar que, muitas vezes, quando se trata de uma imagem dinâmica, o tempo é limitado para realizar as devidas inserções descritivas; considerando tal restrição, a descrição deve ser clara, objetiva e concisa, com uma linguagem direta e apropriada de acordo com o público-alvo (crianças, jovens, adultos).

Contudo, se a imagem for estática, a exemplo das contempladas nos livros didáticos, além das orientações já mencionadas para a realização de uma AD, temos de considerar algumas particularidades. Primeiramente, partir da visão mais geral da imagem, apresentando uma espécie de resumo do que é visto. E, em seguida, consoante a The Audio Description Coalition Standards and Code of Professional Conduct (2010), detalhar as minúcias, tendo como ponto de partida a percepção dos elementos situados da esquerda para direita, do plano mais próximo para o mais distante.

Quanto a apresentação das áudio-descrições das imagens dos livros didáticos, cremos que um percurso possível seria o de seguir o esquema aplicado aos trabalhos acadêmicos para inserção de informações complementares, que pode ser feito através do dispositivo de nota de rodapé, cuja finalidade é incluir no final da página informações complementares sem sobrecarregar o texto.

Essas descrições poderão ser lidas pelo professor na sala de aula, pelos pais ou responsáveis que acompanham o desenvolvimento escolar do aluno, ou até mesmo pelo próprio colega de classe. Outro recurso complementar, dialoga com a era digital e os avanços tecnológicos, seria disponibilizar o livro didático, na versão on line ou em CD-Rom, nesse caso todo o livro seria digitalizado e áudio-descrito com as notas de rodapé inseridas simultaneamente através de locução .

Independente da imagem ser estática ou dinâmica, a apropriação do contexto é fundamental para a qualidade da áudio-descrição, seja ela efetivada ao vivo, como no caso de teatro e dança; gravada, como em filmes; ou ainda esteja escrita acompanhando imagens estáticas, registradas em suportes textuais diversos: livros, folders, blogs etc. Nesse estudo prévio o áudio-descritor fundamenta a elaboração do roteiro, comumente utilizado quando o material artístico, cultural, publicitário é dinâmico.

O roteiro é um recurso de suporte para a execução do trabalho do áudio-descritor que deverá ser discutido, preferencialmente, por mais de um profissional, por isso recomenda-se que o tradutor dialogue com artistas ou pessoas envolvidas na atividade em questão. Assim, quanto mais o roteiro é debatido, analisado e revisado, mais susceptível a acertos.

Neste caso, é também relevante lembrar que nem sempre quem faz o roteiro realizará a locução, portanto, é essencial que o texto seja claro e fiel ao objeto da áudio-descrição para que qualquer pessoa possa fazer a elocução dele. Assim, sugere-se que os tempos e intenções da locução sejam previstos mediante a inclusão de rubricas.                 Sumarizando as diretrizes em comento, o site http:// www. adinternational. org/ ADIad.html orienta que em meio aos elementos essenciais para a atitude do áudio-descritor estão: utilização da tipologia textual descritiva, objetividade, unidade processual e temática, repertório linguístico, neutralidade, pulsação rítmica (a locução acompanha a batida rítmica da obra), respeito ao silêncio comunicativo (a exemplo da sonoplastia que se constitui como elemento semiótico e comunicativo), apropriação da técnica de equipamentos (a fim de evitar variações de volume e interferência com ruídos na utilização do microfone), invisibilidade do áudio-descritor.

Em consonância com os desafios lançados às atitudes e posturas do áudio-descritor, reflitamos acerca de um território até hoje pouco contemplado na áudio-descrição: a percepção, compreensão e tradução visual de imagens ambíguas. Um conteúdo que nos convida a pensar sobre “Como possibilitar ao usuário da áudio-descrição as diversas leituras de uma mesma imagem? Qual o ponto de partida da áudio-descrição de uma imagem estática?” Essas entre outras questões serão discutidas a seguir.

4 – Percepção da figura: compreender para descrever

A compreensão que temos de uma imagem está vinculada a nossa percepção. Segundo Grieve (2009), a percepção é o processamento em nível do cérebro que transforma as informações dadas pelos nossos sentidos em experiência imediata do mundo.

No entanto, de acordo com esse mesmo autor, as nossas experiências passadas também exercem influência ativa sobre a percepção, além das influências do contexto na modificação do que percebemos.

Pode-se inferir, portanto, que uma mesma imagem visual pode ser percebida/compreendida de diferentes formas em um grupo, e quando essa imagem é ambígua essa compreensão pode dar margens à confusão.

Ao estudar o tema da percepção, em algumas disciplinas de Psicologia, faz-se uso de imagens que possibilitam diversas interpretações e que justamente por isso são relevantes ao estudo da percepção visual. Esse processo cerebral se constituirá a partir de aspectos como a integridade dos nossos sentidos, experiências prévias, o contexto em que percebemos e o nosso foco de atenção.

Uma figura ambígua muito utilizada com a finalidade de estudar a percepção é a que favorece o questionamento: ‘O que você vê, duas silhuetas de rostos em lados opostos ou um cálice?’ Então, há de se dar relevância a essa figura, pois se considerarmos como premissa da áudio-descrição “Descreva o que você vê”, a imagem aponta para uma especialidade dessa técnica, à medida que de fato possibilita ver mais de uma imagem a depender do foco que o observador escolhe.

Esse foco de atenção, segundo Frostig et al (1980) funda-se na faculdade da percepção visual que é a percepção de figura-fundo, conceituando a figura como a parte do campo perceptual que consiste no centro da atenção do indivíduo e que deve ser enxergada em relação ao fundo constantemente. Assim, a percepção da imagem dependerá da escolha do que é figura (o tema da imagem) e o que é fundo.

Ao realizar-se a áudio-descrição de uma figura ambígua, são necessários alguns cuidados e a atenção do áudio-descritor, que deve descrever pelo menos duas ou mais imagens que aparecem na mesma. Essa é a proposição para a realização da áudio-descrição de uma figura ambígua, evitar a censura de uma determinada informação contida na imagem.

A fim de demonstrar como uma imagem ambígua precisa ser áudio-descrita4 é que será apresentada a áudio-descrição de duas possibilidades de percepção da figura em questão: uma quando a figura é focada a partir da cor preta, vendo-se dois rostos que estão frente a frente e outra quando o foco de atenção da figura está na cor branca e pode-se observar um cálice.

A figura5 tem cerca de 8,5 cm de altura por 8,5 cm de largura e está nas cores preta e branca.

Ao se focar a atenção na cor preta vê-se no canto direito da imagem a silhueta de um rosto de perfil olhando para a esquerda. O rosto é visto, em uma perspectiva vertical, do topo da testa até o terço superior do pescoço e, numa perspectiva horizontal, é visto da ponta do nariz sendo interrompido onde seria a orelha.

Assim, no canto superior direito vê-se um contorno curvo no que seria a sua testa sem cabelos, logo abaixo o contorno perde a continuidade abruptamente iniciando o que parece ser o côncavo do olho, seguido de um contorno reto e diagonal formando a silhueta do nariz pontiagudo. Logo abaixo há duas ondulações pequenas e pontiagudas, entre as quais forma-se a letra V deitada compondo o que parecem ser os lábios entreabertos, seguidos de uma ondulação maior e mais arredondada parecendo o queixo proeminente, que continua em um contorno pouco irregular e diagonal terminando no início de um contorno reto e vertical assemelhando-se ao começo do pescoço. A frente desse rosto há outro perfil idêntico olhando para a direita e entre esses perfis há um espaço branco.

Já se o foco é dado à cor branca da imagem, que é também a parte mais central da imagem, vê-se o que seria um cálice. De baixo para cima, há uma faixa vertical e reta que próximo a extremidade inferior inicia um afunilamento formando a base do cálice, o afunilamento termina em outra faixa vertical e reta mais estreita iniciando o que se assemelha a haste do cálice.       A haste do cálice se alarga mais um pouco e apresenta um contorno pequeno e curvo seguido de um contorno pequeno e pontiagudo, também seguido de outro contorno pequeno e curvo igual ao primeiro. Continuando, a haste se afunila novamente para logo num contorno reto e diagonal ir se alargando formando um V no que parece o topo do cálice.

Cada uma das imagens é vista de acordo com a cor de escolha do observador, nesse sentido, é criado um cenário ambíguo, onde se vê uma ou outra imagem e elas têm contornos em comum a serem especificados. A imagem em branco, mais central, é formada entre as imagens em preto que são laterais, dessa forma, a base do cálice é formada no espaço entre os pescoços e bases dos queixos dos dois perfis de rostos em preto; a haste do cálice é formada entre o que seriam os queixos, os lábios entreabertos e a parte inferior do nariz; já o topo do cálice é formado entre os narizes, os côncavos dos olhos e as testas sem cabelos.

5- Palavras finais

A áudio-descrição é um gênero textual que tem diretrizes técnicas para ser efetivado, está ancorado em fundamentos da filosofia inclusivista e, no plano jurídico, que garante o direito a informação, constitui uma tecnologia assistiva. Enquanto serviço ou recurso assistivo, objetiva tornar acessível o vasto conteúdo imagético que compõe os diversos contextos sociais.

Lima et al. legitimam e ampliam este entendimento ao defender que

A técnica tradutória da áudio-descrição, recurso assistivo de incontestável relevância para inclusão da pessoa com deficiência visual é um gênero textual, cujas diretrizes incluem procedimentos desde a sua produção até a oferta do serviço ao público cliente. Essas diretrizes versam a respeito de como lidar com o público com deficiência visual, do atendimento a ele devido; da atenção para com suas necessidades de pessoa com deficiência; do respeito à idiossincrasia de cada um dos clientes etc (2010).

Neste sentido, o profissional habilitado para prestar o serviço ou outro indivíduo que queira parceiramente auxiliar alguém a fazer uso da áudio-descrição precisa orientar-se pela premissa “descreva o que você vê”. Contudo, não é simples seguir essa regra maior, pois a percepção visual é algo subjetivo e que, geralmente, depende da escolha do áudio-descritor, do ambiente e de experiências prévias, aspectos tão substantivos quanto a neutralidade, objetividade e a fidelidade ao que é lido pelo tradutor, seja diante de uma imagem estática ou dinâmica.

A leitura do áudio-descritor pode, portanto, ser desafiadora quando o que está em tela é uma imagem estática e de estímulo ambíguo. Ao áudio-descrever uma imagem ambígua, buscamos demonstrar que a escolha do áudio-descritor pode ser uma censura visual. Para evitar essa censura, é necessário que ele se coloque na ambigüidade. Logo, oferecer as informações inacessíveis ao tato, serve como meio de ampliar uma prática que deve contemplar os mais diversos níveis de complexidade dessa atividade e ainda explorar territórios pouco contemplados com este serviço.

Neste sentido, todos nós, sejamos ou não tradutores profissionais da áudio-descrição devemos travar um compromisso ético de difundir e incorporar a áudio-descrição no cotidiano, favorecendo a todos, sem exceção, um mundo de construção de imagens e acessibilidade.

Concluímos nossas reflexões evidenciando que o tema que as move, a áudio-descrição, carrega em si uma horizontalidade de questões que precisam ser percebidas, compreendidas, (re)definidas. Assim, nas frestas das nossas palavras registramos o convite para os que queiram construir mais um filete desses trilhos de respeito ao direito da pessoa humana ser, pertencer e participar da constituição de uma sociedade que sendo plural, aprenderá, a crer e respeitar seu próprio gênero.

Referências

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Notas de rodapé

[1] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 3ª ed. Revista e atualizada. Curitiba, ed. Positivo, 2004.
[2] Ibidem.
[3] Informação traduzida pelo referido autor, retirada do site da Association of Science – Technology Centers (http://www.astc.org/resource/access/medad.htm) e postada no site da RBTV (www.rbtv.associadosdainclusao.com.br) no dia 27/05/2010.
[4] Na terceira edição da RBTV (2010), disponível em http://www.rbtv.associadosdainclusao.com.br/index.php/principal, pode-se encontrar a áudio-descrição da   figura ambígua ‘A moça e a velha’ também usada na Psicologia.
[5] Figura retirada da p. 179 do livro ‘Introdução à Psicologia de Hildgard’ (ATKINSON et. al. 2002).

 

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RBTV #4: Das primeiras descrições até o AUDETEL: A audiodescrição no Reino Unido antes da Televisão Digital

Resumo

O artigo aqui apresentado é uma análise sobre o início do desenvolvimento da audiodescrição no Reino Unido em 1982 até a criação do Broadcasting Act de 1996, que determinou a legislação para a televisão digital do país, meio de comunicação em que a audiodescrição foi inserida e obteve maior alcance e adesão popular. Esse tipo de narração descritiva começou nos palcos teatrais através de alianças entre entidades que atendiam pessoas com deficiência, pessoas com deficiência visual, pessoas interessadas nesse novo recurso de acessibilidade e teatros. E na década de 90, uma ambição pan-européia deu origem ao projeto AUDETEL, que mesmo não conseguindo os resultados esperados, contribuiu para o desenvolvimento da audiodescrição em terras britânicas.

Palavras-chave: audiodescrição, pessoa com deficiência visual, Reino Unido, AUDETEL

Abstract

This paper brings an analyses about the beginning of the audio description’s development in United Kingdom in 1982 until the release of the Broadcasting Act 1996, which determined the legislation of the digital television, the media where the audio description was insert and had the greater spread and support of the population. This kind of description started on the theatre stages through collaboration between people with disabilities institutions, people with visual disabilitiy, people interested with the new accessibility and theatres. And in the 90’s, an pan-European ambition created the AUDETEL project, which even not getting the approached results, it contributed with the audio description development in Britain lands.

Keywords: audio description, people with visual disability, United Kingdom, AUDETEL

Introdução

Para os telespectadores britânicos terem em 2010 mais de 20% de programação com a opção da audiodescrição na televisão digital, foi necessária uma política pública específica, a motivação e atuação de atores sociais e a disseminação da audiodescrição em teatros, museus e cinemas. Este artigo apresenta como a audiodescrição chegou no Reino Unido e como ela se espalhou até chegar à televisão digital.

Histórico da Audiodescrição no Reino Unido

Se a audiodescrição começou nos Estados Unidos, não demorou muito para os britânicos trazerem a novidade para o outro lado do Atlântico. Entre 1982 e 1984, Monique Raffray e Mary Lambert trocaram correspondências com o casal Cody e Margaret Pfansthiel, que em 1985 em visita ao Reino Unido cedeu uma entrevista a elas. O resultado saiu na edição de outono daquele ano do British Journal of Visual Impairment (BJVI) (RAFRRAY; LAMBERT, 1997). O artigo detalhou o processo de produção da audiodescrição em Washington DC, os elementos importantes que devem ser descritos e de que maneira eles poderiam ajudar no desenvolvimento do serviço em outros países (RAFRRAY; LAMBERT, 1985). Anos depois foi a vez de Mary Lambert ir aos Estados Unidos para aprender técnicas e para saber o que estava sendo feito nos palcos americanos.

No mesmo período o Royal National Institute of Blind people (RNIB), principal instituição que atende a pessoas com deficiência visual no Reino Unido, tomou conhecimento desse recurso de acessibilidade, mas concordou em esperar a publicação do BJVI para começar a desbravar essa nova área. Foi então que no começo do ano seguinte o RNIB convidou o South Regional Association for the Blind (SRAB) para formar um grupo de trabalho sobre o desenvolvimento da audiodescrição no Reino Unido. Durante 1986 e 1993, houve reuniões freqüentes entre os membros, que além do RNIB e da SRAB, também contava com representantes do Artsline, SHAPE, Arts Council, Carnegie Council, National Theatre, RSC, Duke of Yorke’s Theatre, Theatre Royal of Windsor e audiodescritores. A inspiração estava por toda parte e em agosto de 1986 o Robin Hood Theatre contatou o RNIB para falar sobre o seu novo projeto Theatre for the Blind. Meses depois, naquele teatro foi encenada A Delicate Balance, a primeira peça com audiodescrição informal em solo britânico (RAFRRAY; LAMBERT, 1997).

Já em 1987, o RNIB fez dois workshops sobre audiodescrição e no mesmo ano o Theatre Royal of Windsor, que tinha recém instalado um sistema de transmissão sonoro via infravermelho para melhor prover o áudio a pessoas com audição comprometida, contatou os consultores do instituto para verificar as possibilidades de se adaptar o sistema para disponibilizar o serviço de audiodescrição. Tanto a idéia deu certo que no ano seguinte foi realizada a primeira peça com audiodescrição formal – ou seja, com audiodescritores treinados e recepção via fone de ouvido – do Reino Unido (RAFFRAY; LAMBERT, 1997). Essa performance é considerada oficialmente a primeira a ser realizada pelos britânicos. Roz Chalmers (2010) confirma que um dos fatores que ajudaram a disseminação da audiodescrição nos teatros britânicos foi exatamente a existência prévia do sistema elaborado para amplificar o som para aqueles espectadores que não podiam ouvir claramente as falas e os efeitos sonoros das peças.

Vale ressaltar que, devido aos workshops do RNIB, no qual participavam pessoas com e sem deficiência visual, desde o início das apresentações audiodescritas havia uma preocupação em avaliar o que estava sendo produzido, por isso havia grupos de discussão para dar o feedback a todos àqueles envolvidos com audiodescrição. As informações coletadas serviram para semear a necessidade de uma padronização das técnicas de audiodescrição. Inclusive durante um seminário organizado pelo RNIB para informar gerentes de teatros sobre as vantagens do serviço de audiodescrição, foi levantada a questão da profissionalização e do trabalho voluntário do audiodescritor. Foi acordado que essas duas modalidades poderiam conviver e que deveriam ser estudadas cuidadosamente no desenvolvimento da audiodescrição (RAFFRAY; LAMBERT, 1997).

Ainda em 1990, foi formalizada a criação do Audio Description London Group, mais tarde rebatizado como London Audio Description Service (LADS), cuja presidente foi Monique Raffray. Segundo Monique Raffray e Mary Lambert (1997) esse grupo realizava reuniões e junto com o RNIB fomentava o desenvolvimento da audiodescrição no país. Atas de fóruns de consumidores da LADS datados de 1996 e de 1997 mostram que os principais pontos discutidos entre audiodescritores e pessoas com deficiência visual foram: deslocamento até o teatro, preço dos ingressos, qualidade e elementos da audiodescrição, qualidade e conforto do equipamento utilizado na recepção, publicidade das peças em cartaz e métodos para o feedback dos espectadores (LADS, 1996, 1997).

E para a audiodescrição se esparramar pelas salas de espetáculos – em 1997 já havia 40 em todo o país – cursos para a formação de audiodescritores foram sendo feitos a partir de técnicas absorvidas em visitas de estudos aos Estados Unidos. Concomitantemente, o RNIB continuava a arregaçar as mangas para fazer lobby em diversos segmentos. Em relação a participação do RNIB, Monique Raffray e Mary Lambert (1997) afirmam

como resultado do lobby do RNIB, a Lei de Radiodifusão de 1990 incluiu uma referência específica às pessoas cegas ou com baixa visão. Pela primeira vez na legislação de radiodifusão, o governo exigiu que os candidatos a novas licenças deveriam indicar como eles pretendiam promover a compreensão e a fruição de cegos e pessoas com baixa visão. Esse compromisso não teria sido possível se já não existisse a audiodescrição no teatro1 (RAFFRAY; LAMBERT, 1997, tradução nossa).

O trecho citado encontra-se no item 3 b do artigo 15º do capítulo 2 da primeira parte do Broadcasting Act 1990. Apesar de estar implícita em 1990, a obrigatoriedade da audiodescrição só veio com o Broadcasting Act de 1996, quando veio à tona a legislação para a televisão digital terrestre2.

Em 1991 o RNIB fez uma pesquisa chamada Needs Survey que trouxe resultados significativos para aquele momento efervescente da audiodescrição. Para o teatro, a notícia de que 15% das pessoas com deficiência visual iam ao teatro e Marcus Weisen, diretor do departamento de lazer do RNIB, afirmou que com o aumento da disponibilização do serviço de audiodescrição nos teatros, esse público em específico iria freqüentar muito mais. Mas para o diretor, o grande desenvolvimento da audiodescrição só viria com a inserção do recurso na programação televisiva (WEISEN, 1992, p. 108), pois a pesquisa mostrou que mais de 94% das pessoas com deficiência visual possuíam televisão e desses 96% a usavam regularmente. Desse modo, pode-se concluir que esse meio de comunicação é uma das principais fontes de informação e entretenimento para essa parcela da população, cujas preferências eram similares ao do público em geral. Segundo a Eurostat, em 1991, os britânicos assistiam a 23,8 horas de televisão por semana. A pesquisa do RNIB afirma que pessoas com deficiência visual de todas as idades participantes da pesquisa assistiam a 15 horas/semana e, se considerado àqueles com mais de 70 anos, que eram 83% dos participantes da pesquisa (ITC, 1993c), a cota aumentava para 20 horas porque a maioria vivia sozinha e a televisão era o seu passatempo. Outra constatação foi de que surpreendentemente, havia “menos proprietários de aparelhos de rádio do que de televisores” 3 (ITC, 1993b, tradução nossa). Logo se poderia cogitar de que isso estivesse relacionado a questões financeiras e sociais, entretanto não estava, pois a pesquisa mostrou que 80% dos cegos e 70% de pessoas com baixa visão estavam desempregados. E ainda, se 91% das pessoas com deficiência visual possuíam rádio, 11% delas não o utilizavam. Mesmo o programa In Touch, produzido pela rádio BBC 4 especificamente para esse público com comprometimento visual, era conhecido por 20% dos entrevistados (PETTIT; SHARPE; COOPER, 1995). Todas essas informações coletadas na pesquisa do RNIB foram determinantes para que o Reino Unido fosse escolhido o país piloto do projeto AUDETEL. A estimativa do mercado britânico para o AUDETEL era de aproximadamente 4,4 milhões de pessoas. A seguir será apresentado de modo mais detalhado o projeto AUDETEL.

AUDETEL

O projeto “AUDETEL: Audiodescrição de televisão para pessoas com deficiência visual e idosos”4 (tradução nossa) teve uma grande importância tanto na divulgação da audiodescrição, quanto no aumento da pressão em relação a política de promoção desse recurso e ainda deixou resquícios por alguns anos. O projeto foi semeado pela União Européia e tinha com objetivo produzir as especificações européias (e possivelmente mundiais) do sistema para codificar e decodificar a audiodescrição para a programação televisiva5 (ITC, 1993a). O ambicioso AUDETEL foi motivado principalmente por causa de uma especificidade técnica do sistema televisivo PAL utilizado na Europa. Diferente do sistema NTSC, que possuía 3 canais de áudio, o sistema europeu só tinha 1 canal de áudio. Dessa forma, enquanto os Estados Unidos poderiam transmitir a audiodescrição por um desses canais, no velho continente estava estudando outras maneiras de se prover esse serviço, como através do NICAM-728 ou do teletexto, porém isso traria implicações na transmissão do sinal televisivo. Outro ponto destacado foi em consideração a necessidade de se usar um conversor externo ou interno ao aparelho de TV (ITC, 1993a). Vale lembrar que naquela época pouco se falava em televisão digital, por isso a preocupação era de acoplar um equipamento extra ao aparelho de televisão para receber o sinal da audiodescrição no sistema analógico. Inclusive no relatório final número 3, cujo tema é “estratégias para a indústria e a cadeia de produção”, elaborado pelo ITC diz

O sistema de televisão digital poderá dar mais flexibilidade tendo em vista que há mais capacidade para adicionar pequenos áudios (o áudio estéreo irá ocupar menor de 1% da codificação de 34 Mbits/s). A opção de transmitir a audiodescrição sem compressão está aberta. Finalmente, a televisão digital poderá oferecer a audiodescrição muito barata, sem comprimir o áudio 6 (ITC, 1993c).

Neste ponto cabe um questionamento ainda sem resposta: por que investir no AUDETEL se eles já sabiam que com a implementação da TV digital a transmissão e recepção da audiodescrição seria mais fácil e barata?

No início dos anos 90, empresas do setor de comunicação começaram a discutir a viabilidade da criação de uma plataforma pan européia de televisão digital terrestre. Em 1993 foi criado o Digital Video Broadcasting Project, formado por representantes do setor privado e público. Na mesma época, o Working Group in Digital Television também estava estudando possibilidades para essa nova mídia e trouxe para a discussão novos conceitos como recepção móvel e HDTV (High Definition Television). Entretanto, o Digital Video Broadcasting Project tinha a vantagem de ter membros que eram da European Broadcasting Union o que agilizou a normalização do padrão DVB (Digital Vídeo Broadcasting) (DVB, 2010). O padrão foi adotado em toda a Europa a partir de 1998. Joan Greening (2010) afirma que o AUDETEL foi um tempo perdido, pois depois de concluído o projeto logo veio a televisão digital e não havia mais razão para promover a audiodescrição na televisão analógica.

Mas voltando ao projeto, uma vez definido o escopo do projeto os participantes iniciaram seus trabalhos. A coordenação foi da Independent Television Commission (ITC), órgão independente do governo britânico que trabalhava com as questões de radiodifusão do país, e contava com a participação do RNIB, da finlandesa Finnish Federation of teh Visually Handicapped; das emissoras ITV (Independent Television) e BBC (British Broadcasting Company); da Universidade de Manchester; da empresa de software Softel, britânica que atua até hoje provendo software para a produção de roteiro de audiodescrição; da italiana Seleco e da dinamarquesa ReTechnology (WEISEN, 1992).

Entre 1991 e 1995, o AUDETEL foi desenvolvido com muitas pesquisas em diversas áreas: equipamentos de produção, transmissão e recepção; produção e gravação da audiodescrição; recepção e avaliação da audiodescrição; padronização da audiodescrição. Por isso, a seguir serão brevemente citados alguns dos trabalhos realizados.

A Universidade de Manchester fez um estudo abordando qual poderia ser o ritmo mais confortável para os espectadores da narração da audiodescrição. Foram distribuídos questionários através da revista New Beacon do RNIB e através de entidades que atendiam pessoas com deficiência visual. As perguntas eram sobre o hábito de assistir televisão como horas por semana (34% assistiam de 10 a 20 horas semanais, 33% assistiam menos de 10 horas e 33% mais de 20 horas por semana), ajuda recebida por familiares e amigos que descreviam as cenas, a importância dos gêneros televisivos e dependendo do tipo quanto de conteúdos eles perdiam. Os resultados contribuíram para dar andamento às primeiras pesquisas que estavam sendo feitas na área (ITC, 1993b).

O RNIB provia relatórios de atividades e pesquisas realizadas. Em um deles foi o Review of current Expertise on Audio Description, no qual foi exposto um panorama do conhecimento acumulado em audiodescrição. Foram relatadas as experiências de produções audiodescritas e cursos de formação de audiodescritores nos Estados Unidos, no Japão, na França, na Espanha, na Finlândia e no Reino Unido. Na conclusão foram apresentados requisitos para o desenvolvimento da audiodescrição com qualidade, entre eles estavam: reconhecimento de que audiodescrição é uma modalidade profissional, constante feedback dos usuários e treinamento intensivo e formal para audiodescritores (ITC, 1993c).

Outro relatório do RNIB buscou indicar estratégias legislativas para introduzir o AUDETEL na Europa. Através da análise da formulação de políticas pela União Européia, o instituto pretendia apontar uma tática coordenada de promoção da audiodescrição em toda a comunidade européia. Apesar de todo o esforço, ao final foi admitido que a criação de legislação européia da audiodescrição seria mais uma forma emergencial de fomentar um único mercado europeu de audiodescrição. Como um reflexo da maneira que a audiodescrição estava se desenvolvendo no Reino Unido, o RNIB afirmou que quem realmente contribui para o crescimento desse tipo de acessibilidade foi a indústria de radiodifusão, cujo interesse e boa vontade ainda eram os determinantes para a disponibilização do serviço (ITC, 1993c).

Fugindo um pouco da política e entrando na área prática, um dos trabalhos foi a realização de testes de transmissão. Participaram a ITV, a BBC, o RNIB, o Softel e uma empresa que fornecia o decodificador para a recepção.  Foram transmitidas durante 4 meses de 4 a 5 horas de programação com audiodescrição por semana para 100 participantes que haviam recebido o set top box teste do projeto. Após essa etapa foi feita uma pesquisa de recepção e os resultados foram: 89% dos participantes acharam que a audiodescrição os ajudou; 8% acharam que o recurso os distraiu; 93% estavam satisfeitos com o serviço e 54% estavam interessados no serviço. Contudo, confessaram que a compra do equipamento dependeria do preço e da facilidade do uso. Além de verificar a transmissão e recepção do sinal da audiodescrição e da funcionalidade do software utilizado, havia também uma preocupação nos métodos de elaboração da audiodescrição (ITC, 1993c). Cada emissora contratou dois audiodescritores: Louise Fryer e James O’Hara, que foram treinados por Veronika Hyks (diretora editorial do projeto e autora do guia ITV para audiodescritores). As pesquisas de recepção eram feitas via telefone e grupos de discussão. A maioria da audiência respondeu que a qualidade do som era ruim, mas agradecia a iniciativa. Mesmo com os testes não ouve interesse da empresa de receptores de audiodescrição em produzir em grande escala tais equipamentos. Segundo Veronika Hyks (2010), o RNIB deveria ter subsidiado a compra de equipamentos para pressionar a produção.

Depois de tantos estudos e relatórios, o AUDETEL perdeu forças com a implementação da televisão digital.  Mesmo não tendo atingido o seu objetivo, o AUDETEL contribuiu para aumentar a pressão sobre a disponibilização da audiodescrição na televisão e ainda para mostrar o grande potencial daquele serviço se implementado no Reino Unido.

Considerações finais

Ao ponderar sobre o início da audiodescrição até o final do projeto AUDETEL com a chegada da televisão digital no Reino Unido, este artigo buscou dar subsídios sobre os motivos que contribuíram para o desenvolvimento da audiodescrição naquele país, que com a televisão digital culminou em uma política eficaz de promoção da audiodescrição nessa mídia, chegando ao ponto de ter em 2010 as principais emissoras com mais de 20% de programação com audiodescrição (OFCOM, 2010). Como foi visto acima, contexto político e tecnológico e as instituições e pessoas que lutaram pelo desenvolvimento desse recurso de acessibilidade auxiliaram nesse processo.

Referências

CHALMERS, Roz. Roz Chalmers: Entrevista [jun. 2010]. Entrevistadora: Flávia Oliveira Machado. Londres: National Theatre of London.
DVB. History of DVB Project. DVB 2010. Disponível em: < http://www.dvb.org/about_dvb/history/index.xml> Acesso em 15 jul. 2010.
GREENING, Joan. Joan Greening: Entrevista [jun. 2010]. Entrevistadora: Flávia Oliveira Machado. Londres: RNIB.
HYKS, Veronika. Veronika Hyks: Depoimento [jun.2010]. Entrevistadora: Flávia Oliveira Machado. Londres: IMS.
ITC. The Audetel project: audio description of television for the visually disabled and elderly. Final report: Volume 1; Strategies for manufacturing and networking. London, 28 Feb. 1993a.
____. The Audetel project: audio description of television for the visually disabled and elderly. Final report: Volume 2; Optimisation of an audio description service for visually handicapped and elderly people; human and technical factors. London, 28 Feb. 1993b.
____. The Audetel project: audio description of television for the visually disabled and elderly. Final report: Volume 3; The production of audio described programmes. Optimisation of the production process, and guidelines for describers. London, 28 Feb. 1993c.
LADS. London Audio Description Service. Consumer’s Forum. Reeport. London. 6 Jun. 1996.
______.London Audio Description Service. Consumer’s Forum. London. 12 Jun. 1997.
PETTIT, Bridget; SHARPE, Katharine; COOPER, Steven; AUDETEL: Enhancing television for visually impaired people. The British Journal of Visual Impairment, Londres, 1996, v. 14, nº 2, mai. 1996, p. 48-52.
RAFFRAY, Monique; LAMBERT, Mary. Audio Description in UK: The founding years (1982-92). Royal National Institute of Blind People. Relatório 20 f. Londres. Dezembro, 1997.
_______. The play’s the thing. The British Journal of Visual Impairment. Londres. Autumn, 1985.
WEISEN, Marcus. The audio description scene is set . . . to develop.Londres, New Beacon, Março 1992, v. 76, nº 896, p. 107-110.

Notas de rodapé

[1] as a result of RNIB lobbying, the 1990 Broadcasting Act includes a specific reference to blind and partially sighted people. For the first time in broadcasting legislation, the Government requires that applicants for the new broadcasting licenses must indicate what they intend to do to promote the understanding and enjoyment of blind and partially sighted people. This commitment would not have been possible had there not been audio description in the theatre already (RAFFRAY; LAMBERT, 1997).
[2] Sobre o desenvolvimento da audiodescrição na televisão digital britânica ver estudo de caso sobre esse tema na dissertação (em fase de elaboração) Acessibilidade na Televisão Digital: Estudo de caso sobre a política de promoção da audiodescrição na televisão digital do Brasil de autoria de Flávia Oliveira Machado.
[3]  radio ownership and use is marginally lower than that for televisions (ITC, 1993b).
[4] AUDETEL: Audio description of Television for the Vissually Disable and Elderly
[5] produce the specifications of a Pan European (and possibly worldwide) system for encoding and decoding the audio description of television programme (ITC, 1993a)
[6] Digital TV systems should allow much greater flexibility as they have space capacity for small additions like audio (stereo audio will account for less than 1% of the data in a 34 Mbits/s codec). The option to transmit the description without any compression is open. Ultimately digital TV to the home may be able to offer AD very cheaply, without use of the speech compression (ITC, 1993c).

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  • Flávia Oliveira Machado

    Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Televisão Digital da UNESP/Bauru, está desenvolvendo em sua dissertação um estudo sobre as políticas públicas para a promoção da audiodescrição na TV digital brasileira. O projeto é orientado pelo Prof. Dr. Antonio Carlos de Jesus (acj13jesus@faac.unesp.br ).View all article by Flávia Oliveira Machado

RBTV #3: O direito das crianças com deficiência visual à áudio-descrição

Escrito por Francisco José de Lima e Rosângela A. F. Lima

Resumo

Este artigo apresenta, em primeiro momento, robusta sustentação jurídica para o direito de as pessoas com deficiência visual ter acesso à áudio-descrição, defendendo que a não provisão desse recurso assistivo constitui, tanto negligência para com a educação da criança com deficiência visual, quanto discriminação por razão de deficiência. De um lado, esteia essa defesa em documentos internacionais de defesa das crianças, os quais as salvaguardam de maus tratos, da discriminação e da afronta à sua dignidade de criança e pessoa humana. De outro, sustenta o direito à áudio-descrição, na Constituição Brasileira, a qual define a educação como direito indisponível e garante esse direito a todas as crianças, com igualdade de condições, independentemente de suas características fenotípicas, sociais ou genéticas. Em um segundo momento, este artigo sustenta a defesa pela oferta da áudio-descrição, devido aos benefícios que este recurso assistivo pode trazer para a inclusão cultural e educacional da pessoa com deficiência visual, uma vez que, enquanto técnica de tradução visual, ela permite o acesso às imagens, por intermédio das palavras a serem ouvidas, lidas e/ou faladas, natural ou eletronicamente. Trata, também, de como as visões tradicionalistas sobre a capacidade de a pessoa cega fazer uso das imagens, produzindo-as e/ou as compreendendo, têm levado à negação de direitos, ao prejuízo educacional, e em última instância ao preconceito para com as pessoas cegas. Conclui, fazendo a assertiva de que não se trata de perguntar quando se vai oferecer a áudio-descrição, mas de se buscar as condições para melhor formar os áudio-descritores; melhor prover o serviço de áudio-descrição e melhor aparelhar o público alvo para a recepção desse serviço, começando com a criança pequena, lá na escolinha, até o adulto na universidade ou em outro locus social.

Palavras-chaves: áudio-descrição, direito inclusivo, criança com deficiência visual


Abstract

This article presents robust arguments for the provision of audio description for children with vision disability in Brazil. It supports its point of view on national and international laws and conventions that protect children from all forms of harm and discrimination. Audio description is considered an assistive technology capable of given children access to education, culture and leisure by providing visual information of things and events that originally were not available to blind people. It concludes that it is necessary to invest on training audio describers, improve audio description services and educate blind people about receiving and profiting from audio description accessibility.

Keywords: audio description, people with visual disability, accessibility, attitudinal barriers.

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The Rose – Audio Description – English

Mani is physically battered by his insensitive teacher regularly. When the teacher asks the class to bring a full grown rose for their project, Mani’s anxiety deepens. A timely intervention by CHILDLINE Didi helps reclaim Mani’s life.

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Product Evaluations and Guides: A Review of the Be My Eyes Remote Sighted Helper App for Apple iOS

Originally published on http://www.afb.org/afbpress/pub.asp?DocID=aw160202

Many iPhone users with visual impairments use a video FaceTime or Skype call with a friend for a brief session of sighted help—to find a hotel room door, for instance, or to help set the controls on a washer or dryer. But what if your friends or family members are not available when you need assistance? Or maybe you call the same person again and again, and you worry you might be overstaying your welcome?

Mobile identification and text recognition apps such as TapTapSee, Talking Goggles, and the KNFB Reader can take up a lot of the slack, but there are times when you really do need a working pair of eyeballs. Now, thanks to a new iOS app called Be My Eyes, sighted help is just a tap away.

How Be My Eyes Works

Be My Eyes pairs sighted volunteers with visually impaired individuals who would appreciate a bit of remote assistance. The app is free both to download and to use.

For visually impaired users, the app could not be simpler to use. Most of the screen is taken up by a single control to connect you to the first available helper. Double tap this button and your device will announce, “Creating connection request.” A few seconds later a sort of electronic ring tone begins to play, and soon you are connected to a sighted volunteer through a two-way audio and one-way video connection using the opentok/tokbox video platform.

The volunteer can view your environment through the higher-resolution rear-facing camera. With a connection established, you can converse with the volunteer, introduce yourself (if you like), and ask for help with whatever identification task is at hand. You can disconnect at any time.

When you first open the app you are asked if you need assistance or wish to provide it. In either case you are required to register. You can do this using your Facebook credentials, or you can create a Be My Eyes account with your name, e-mail address and the password of your choice. More about this later.

If you register as a helper, you merely need to leave the app running in the background. When it’s your turn to offer assistance, the app will alert you. If you don’t respond within 10 seconds or so, the app servers will move onto the next person in the queue and alert them. “At first we tried pinging ten people at once, so people requesting assistance would not have to wait so long for a response, but we started getting e-mails from volunteers who were frustrated because they wanted to help, but were not the first to respond,” says Hans Jørgen Wiberg, the service’s founder.

Turning an Idea into a Service

Like many of us, after a few remote FaceTime sessions, Wiberg had the idea that we could more easily obtain sighted help if there were only some way to tap into a wider network than just our friends and family. Unlike most of us, however, Wiberg put action to thought, and he isn’t even a programmer. Wiberg, who lives in Copenhagen, Denmark, is a part-time upholsterer and Regional Chairman of the Danish Association of the Blind.

Wiberg took his idea to a local startup meeting, where people come together to exchange and refine ideas for new businesses and services. There he teamed up with seven others, none of whom were programmers. They formalized their idea and began searching for grant money.

With just a few thousand donated Danish Krone, the group hired outside developers to create an iOS app. They released it in the Danish App Store in November of 2014, and beta tested it with just a handful of users. After the user base reached 150 blind users and 400 helpers, the group was awarded a substantial grant from Velux, a Danish window and skylight company. Development continued until January 15, when the Be My Eyes app and service were released worldwide.

“The response was more than we dreamed,” says Wiberg. “In just a few days we had over 60,000 users, most of them potential helpers,” he says. “The signups came so fast, by the end of the second day we had to suspend the service while we moved to the largest server our provider can host.”

The main app screen displays a running count of the number of sighted and blind users who are registered. It also displays the number of individuals who have been helped—over 10,000 in the first six days. A future app update will also include the numbers of volunteers who are currently available. “This will help users have some idea of how long it will take to either offer or receive help,” says Wiberg.

Putting Be My Eyes Through its Paces

I first tried Be My Eyes just a few days after it was released. The first two attempts were unsuccessful: after 20 minutes I had not yet been connected to a volunteer. I was using the app late on a Sunday evening, around the time when the servers were being swamped with setup requests, so those circumstances may have played a part in the delays.

The next day I tried the app several times, and each time I was connected within 2 minutes. According to Wiberg, this is the norm. “There are going to be people who for some reason cannot answer an alert in time, and we have to connect to several different helpers, one at a time, before a request is answered. Other times there may be server problems caused by our rapid growth. My advice to users seeking help is that if there is no response within 3 or 4 minutes, disconnect and immediately try again.”

My first Monday call was answered by a woman in Britain. My question was simple: “Is this package of teabags caffeinated or decaf?” “Caffeinated,” came the reply, and after a quick “thank you,” I disconnected. Total time: less than 2 minutes from start to finish.

My second request was answered by a man in California. He helped me access my thermostat and find the LCD off setting.

My third session was answered by a man in Germany. I had inadvertently left the plastic cover to a vegetable seed starter on the patio table, and sometime during the night it had blown away. Together the volunteer and I search the backyard for it. We did not find it, but the help was still useful as it saved me the considerable time I might have spent walking around the yard, hoping to encounter it.

One task I did not try, and hope I do not have cause to for some time to come, is getting help with the computer error message that has in the past locked up my screen reader or prevented it from booting. My computer seems to know when all of my friends and family are unavailable. It must—why else would it always choose those times to crash?

On initial setup, the Be My Eyes app uses your iOS device’s default language setting to direct your calls. English speaking helpers are always connected with English speaking help requesters, French with French, and so forth. But the app’s Setting menu offers you the ability to add additional languages, which is how I was able to connect with an English speaking helper in Germany.

Privacy

According to Wiberg, your personal information is not shared with the helper. You may then wonder why you need to enter your name and e-mail address to create a Be My Eyes account. When I posed this question, Wiberg replied, “Both the helper and user can report a problem member, and we can then block that [account] and prevent [the user] from returning.” Unfortunately, the version I tested, 1.2 (45), did not require any e-mail verification, which means someone could make up a series of false accounts and cause mischief. Perhaps verification will be a part of an update in a future version.

Common sense would dictate that Be My Eyes users avoid asking questions about bank or credit card statements, medical reports, or any other information you want to remain private. Wiberg offers a useful rule of thumb: “If you were walking down a street and needed to know what you are considering asking [a Be My Eyes helper], would you feel uncomfortable asking a stranger?” If so, find some other way to obtain the information. Some may wish to consider the opposite scenario: Perhaps there is something you wish to keep private from your friends and family?

It’s probably best to avoid asking a Be My Eyes helper to assist in orientation at a busy intersection or other potentially dangerous scenario. Currently, the app contains no rating system for users to weed out what I can only believe would be a very few bad apples.

What’s Ahead for the Be My Eyes App

Wiberg is determined to keep the service free. He states that currently they have enough money to pay for development and server resources through next September. Consequently, I would not be surprised to see a Donate button pop up in a future release of the app, on the company’s website, or both.

The app is currently available only for iOS devices. There are no immediate plans to create an Android version.

Ironically, the biggest hurdle Be My Eyes currently faces is finding enough blind users. “The response to the opportunity to become volunteers has been overwhelming,” says Wiberg. “If they don’t get the chance to become fully involved, they may grow frustrated and uninstall the app.”

Until I uninstalled it, I had a dinosaur app on my iPhone to entertain my granddaughter. Every so often, even when the app was not running, I received an alert asking if I wanted to play. I can see many potential helpers who might reset their phone or change devices, and forget to restart the app. Perhaps a future update might include a similar gentle reminder to those with the app installed but left closed for several weeks?

I also hope Wiberg and his colleagues publish a Be My Eyes API that would enable other apps to seamlessly link to the app. BlindSquare, which we reviewed in the July 2014 AccessWorld, offers the ability to reach out to someone in your contact list for a bit of e-mail or text message help. Imagine how much more powerful BlindSquare, or the Seeing Eye App for iPhone, would be if users could request sighted help directly from within their accessible navigation app?

As it is now, Be My Eyes is an extremely powerful platform whose time has come. I will still keep both TapTapSee and KNFB Reader on my iPhone home screen, but Be My Eyes will definitely be my fallback—and in many instances, my go-to—resource for those times when greater independence can best be achieved by knowing when and how to ask for help.

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A Tribute to Audio Description

There she comes, red hair faded in dark shadows
There she comes, yellow eyes blacken in lifeless stains
There she comes, blue pale lips open in a doleful smile.

There she comes, flawless hair painted in imaginative pictures
There she comes, lively eyes shining in colorful poetry
There she comes, artistic lips uttering resourceful words

There she comes, yellow hair shining under the bright sun
There she comes, blue eyes sparkling in vibrant rainbows
There she comes, red-Rubi lips open in a dazzling smile.

There she comes to observe and empower.

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  • Francisco Lima

    Professor Adjunto da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); Coordenador do Centro de Estudos Inclusivos (CEI/UFPE); Idealizador e Formador do Curso de Tradução Visual com ênfase em Áudio-descrição “Imagens que Falam” (CEI/UFPE);Tradutor e intérprete, psicólogo, coordenador do Centro de Estudos Inclusivos. E-mail: cei@ce.ufpe.brView all article by Francisco Lima

Description is not the same as audio description

Hello!

Audio description is a form of visual translation. It differs from everyday description In many aspects. A person who is blind, for instants, may describe what he or she sees when touching a flower, however, he or she will be the recipient of the audio description of the color and other visual cues of that flower. Everyday description does not neccessarily aim the empowerment of people who are blind or have low vision, audio description does!

To make a good audio description one must, therefore, research about what it will be described, observe what it’s being described, edit the description and write an audio description with good language.

Last but not least, If one is going to voice an audio description he or she must do it with good voice skills. See Dr. Snyder’s book The Visual Made Verbal: A Comprehensive Training Manual and Guide to the History and Applications of Audio Description to learn more about how to audio describe.

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A portuguese audio description of Rene Magritte’s Collective Invention

Invenção coletiva (MAGRITTE, 1934)

Áudio-descrição retirada de: O surrealismo e a construção de imagens: contribuições da áudio-descrição para os alunos com deficiência visual, por Fabiana Tavares dos Santos Silva. Artigo disponível na Revista Brasileira de Tradução Visual.

Notas Proêmias
Técnica óleo sobre tela. Dimensões da obra original em centímetros: 73,5 cm x 97,5 cm. Local de exposição: Alemanha. Dimensões da imagem áudio-descrita: 12 cm x7 cm.

The collective invention, 1934 by Rene Magritte

Criatura metade peixe, metade humana deitada lateralmente no chão alaranjado. A criatura está nua, deitada do lado esquerdo, com parte posterior do corpo sendo tocada pelo mar. Tem cabeça de peixe, de cor cinza. Nas costas, na altura da cintura, mostra uma barbatana e na parte abdominal, a nadadeira peitoral toca o chão.

A partir do abdômen, a criatura tem quadris, pernas e pés humanos. A pele é clara, quadril pouco arredondado. As coxas e pernas são magras, os joelhos ossudos. Os pés são compridos e magros.

Uma sombra contorna a lateral esquerda da criatura e a silhueta da parte interna do pé direito até a genitália. Ao fundo, vê-se o céu acinzentado e o mar azul escuro. Na lateral esquerda inferior da tela, assinatura de Magritte.

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Describe it here: Inertia

inertia
Source: http://physics.tutorvista.com/motion/inertia.html

It is your turn now! Write your audio description of the images above in the box below and send it to us. Descriptions in all languages are desired.

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