Áudio-descrição de animação: caminho para o letramento literário das crianças com deficiência visual

Resumo

Neste trabalho conceitua-se animação como um gênero de linguagem híbrida, essencialmente visual; demonstrando o valor contributivo da animação para o letramento literário das crianças. Apresenta um roteiro possível, como exemplo de aplicação da áudio-descrição numa animação disponível na internet. Argumenta que a falta de acessibilidade a este gênero artístico/literário impossibilita às crianças com deficiência visual de vivenciarem o direito ao lazer, a cultura e a educação. Conclui que a tradução intersemiótica das animações é um caminho valoroso para que se oferte experiências formativas para as crianças com e as sem deficiência, colocando-as em equidade de oportunidades e de direitos.

Palavras-chave: animação; crianças com deficiência visual; áudio-descrição; letramento literário.

Abstract

The present article argues that animation is a textual gender of hybrid language. It shows the value of animation as means of children’s literary literacy. A script of an audio described animation is presented. And it makes the assertion that the lack of accessibility to this art genre avoids children with visual disability from experiencing the right to leisure, culture and education empowerment. It concludes that audio description of animations is a valuable way to offer such experiences, placing children with and without disabilities, on equal state of opportunities and rights.

Keywords: animation; children with visual disability; audio description; literary literacy.

Considerações iniciais

Os desenhos animados, desde a sua criação, sempre atraíram e reuniram diferentes públicos. O reconhecimento da influência deste gênero na formação linguística, ética, cultural e afetiva da pessoa humana tem originado estudos que atravessam diversas áreas do conhecimento, dentre estas, estão: a Linguística, a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia e a Pedagogia. (GIROX, 2002; BOYNARD, 2005; ESPERANÇA; DIAS, 2010).

Assim, o que antes era visto como gênero menor, destinado principalmente às crianças, passa a alcançar estágios tecnológicos e de valoração que imprimem a maioridade a oitava arte – a animação. (CÔRREA, 2006).

Este gênero nos remete ao resgate temporal acerca do momento em que o homem buscou não apenas registrar percepções, pensamentos, desejos, objetivos e devaneios através da arte pictórica, mas o momento em que, através desta arte, buscou fornecer ao leitor a ideia óptica de movimento. Este elemento constitutivo da animação ganha maior vividez através da sonoridade, do jogo claro/escuro, do uso de cores entre outros recursos que possibilitam ao leitor construir sentidos, interpretar, projetar-se na animação.

Entretanto, quando não se tem total ou parcialmente acesso a estes elementos perde-se a possibilidade de melhor apreciação da obra, isto é, a oportunidade de construir sentidos, de vivenciar a experiência catártica, de vivenciar o lúdico, construir o simbólico e de perceber representações sociais contidas nas animações.

Assim, quando a animação não está disponível num formato acessível, por exemplo sem a legendagem ou o closed caption para pessoas surdas e sem áudio-descrição [1] para pessoas com deficiência visual, as animações não beneficiam uma grande parcela de leitores/espectadores que ficam alijados do direito ao lazer, à cultura e à educação.

Dentre estes leitores/espectadores estão, em particular, as muitas crianças cegas ou com baixa visão. Para elas a falta de acessibilidade implica na impossibilidade de equidade formativa no que se refere ao letramento literário, o qual, segundo Cosson (2006), deve fornecer a cada pessoa e a todos uma maneira própria de ver e viver o mundo.

É, então, sob a percepção da falta de acessibilidade às animações e sob a atmosfera de resgate histórico e de percepção dos avanços deste gênero, que discutimos sobre: a) o conceito, o surgimento e a linguagem da animação; b) a relevância desta arte na formação cultural das crianças; c) os prejuízos que a inacessibilidade a essa arte trazem para as crianças com deficiência visual.

No decorrer deste percurso discursivo, defendemos que a áudio-descrição é um caminho contributivo para a vivência da catarse e do deleite; ponte cujo ponto de partida e de chegada é a imagem, o letramento literário, o respeito às idiossincrasias das crianças com deficiência, à efetivação do direito à cultura, ao lazer e à educação; pois a animação, recurso literário, artístico e lúdico, permeado por construções sócio-históricas, traz a perspectiva formativa de valores, de ideologias e de atitudes.

1 – Conceituando “animação”

A animação é um gênero de linguagem híbrida (composto por códigos verbais, visuais e sonoros), cujo panorama histórico e teórico é ainda esquálido. É uma arte dependente dos avanços da tecnologia e que naturalmente tem evoluído consoante os passos dos novos recursos digitais.

A animação, enquanto construção social que produz, reproduz e vivifica práticas e significados culturais, pode ser compreendida como uma das importantes formas de apreensão, reprodução e consolidação da cultura na atualidade (VILARONGA, 2009).

De acordo com Lucena Júnior (2005, p.28),

A palavra ‘animação’, e outras a ela relacionadas, deriva do verbo latino animare (‘dar a vida a’) e só veio a ser utilizada para descrever imagens em movimento no século XX. Portanto, a despeito de estar inserida no conjunto das artes visuais a animação tem no movimento a sua essência. Em verdade, o movimento tem sido motivo de dedicação por parte de desenhistas e pintores desde os tempos mais remotos.

A animação, conhecida como a oitava arte, é caracterizada pela ausência de atores e cenários naturais. Ela difere do cinema de imagem pelo seu processo de construção.      (LUCENA JÚNIOR, 2005; CRUZ, 2006; CÔRREA, 2006).

Neste sentido, Cruz (Ibidem, p. 22) afirma que

[…] afora a finalidade, são diversos os materiais que podem ser utilizados em uma animação, bem como o tratamento dado ao seu conteúdo expressivo. Além da utilização do desenho, podemos citar a animação de pinturas, bonecos, escultura, figuras digitais e, até mesmo, partes do corpo humano. As técnicas de utilização desses materiais dão origem a diversas categorias, tais como a animação tradicional, a rotoscopia, animação digital, animação de recorte, captura de movimento, animação limitada, stop motion (que inclui: animação de massinha, fantoches e bonecos, pixillation, pinscreen etc), entre outros.

Ainda sobre a conceituação da animação, esta autora (op. cit.) assegura que um erro comum de classificação é

[…] resumir a animação à movimentação de desenhos (essa tendência foi popularizada a partir da década de 1920, quando se iniciou a dominação do cartoon norte americano). Segundo Jayne Pilling (1997) o que torna a animação tão difícil de ser definida é justamente o seu caráter de mídia abrangente, a abundância de técnicas e materiais que podem ser usados na realização de um produto animado. Sob o rótulo de ‘animação’, pode ser identificada uma gama de produtos, cuja finalidade nem sempre é artística: filmes publicitários, efeitos especiais e aberturas para cinema e televisão, seriados televisivos, curtas experimentais, longas metragens de entretenimento, além de jogos eletrônicos para computador, internet e celular. (CRUZ, op.cit. p. 21)

A abrangência da animação é o fator que dificulta a construção de um conceito consensual do que seja esta arte.

A distinção entre a animação e o cinema é explicitada por Farias (s./d.) ao explicar que o filme comum registra através da câmara um movimento de 24 fotogramas por segundo. Enquanto que o filme de animação consiste no registro de fases elementares dos movimentos, interrompendo-se a filmagem após a fixação de cada fotograma. Assim, sua unidade fundamental é a imagem, não o plano.

Farias (op.cit.) esclarece, então, que o cinema de animação: compreende: 1) o filme de bonecos; 2) o filme de recortes; 3) o cinema abstrato; 4) o desenho animado; 5) mais recentemente, a animação computadorizada.

Muito embora a animação seja o resultado da união entre sons e imagens, os sons, apenas, não bastam para que se possa compreendê-la, quando não se tem o acesso visual às imagens. Então, toda aquela riqueza de possibilidades compreendida pela animação (sem a acessibilidade comunicacional) fica indisponível às pessoas com deficiência visual, colocando-as em situação de desvantagem cultural, educativa e de lazer, restringindo-as a uma apreciação, por vezes, precária, quando não inexistente, dos produtos animados. Mas de que acessibilidade comunicacional estamos falando? Da áudio-descrição, “uma técnica de tradução visual fundamentada na expressão 3C + EV: concisão, clareza, correção, especificidade e vividez” (LIMA, 2011, p. 13) [2] e que traduz eventos visuais em palavras a serem ouvidas pela leitura eletrônica ou humana (SNYDER, 2011; LIMA, Ibidem.).

2 – A linguagem da animação acessível

Quando o assunto em tela é animação e áudio-descrição é importante sinalizar como a linguagem pode ser entendida nesses contextos. Para nós, ambas construções comunicativas assumem formas e funções diferentes que se completam para atingir o objetivo da arte acessível.

A áudio-descrição é construída a partir de palavras objetivas, vívidas, imagéticas, sucintas o que traz o acesso à comunicação para a centralidade do objeto artístico traduzido em palavras. A animação é construída através da linguagem artística, desautomatizante e verossimilhante, constituída de elementos como textura, tempo, movimento etc, o que convida o leitor a viver experiências lúdicas, informativas e formativas.

A animação, constituída, portanto, por uma linguagem heterogênea, pode combinar materiais de expressão como: “a) a trilha da imagem: imagens em movimento e notações gráficas (letreiros, legendas, inscrições diversas); e b) a trilha sonora: som fônico (diálogo), som musical e som analógico (ruídos)”. (CRUZ, 2006, p. 57).

Então, o conhecimento das diferentes linguagens será necessário ao áudio-descritor para que, nas suas escolhas tradutórias, considere as especificidades da animação, bem como da áudio-descrição, pois, como diz Snyder (2011, p.3) “as escolhas áudio-descritivas são feitas com base num entendimento acerca da cegueira e da baixa visão – áudio-descrevendo do geral para o específico, áudio-descrevendo as cores e as orientações direcionais”. Conforme o autor, o áudio-descritor é, por assim dizer, “(…) ‘uma câmera verbal’, a qual reconta oralmente os aspectos da imagem visual” (Ibidem, p. 4).

Ao considerar, portanto, a especificidade da função do áudio-descritor ao tornar eventos visuais acessíveis, é relevante que no âmbito da arte da animação, assim como de outros gêneros, se preserve os elementos artísticos para que a construção e a inserção da áudio-descrição ocorra de modo harmonioso, tornando-se, portanto, elemento potencializador das possibilidades de construção de sentidos acerca da obra artística.

3 – Relevância da animação para a formação das crianças

A experiência estética vivenciada através do cinema de animação, mais que uma atividade cognitiva e sensorial, é uma atividade que aciona a afetividade, e, por meio das emoções e sentimentos que incita, nutre a subjetividade de seus leitores/espectadores.

A arte possibilita, então, que os leitores/espectadores, desde a tenra idade, atuem sobre o seu próprio equilíbrio interno; projetem-se; vivam outras vidas, em ambientes, espaços e tempos que recriam, refratam o real. A animação, enquanto arte que encanta e envolve o leitor em sua narrativa, possibilita no recriar do mundo

[…] uma forma de compensação aos rigores da experiência no ambiente real – uma capacidade típica do homem (ausente nos outros animais) que permite a elaboração de símbolos; neste caso, um objeto plástico, uma forma autônoma e durável dos símbolos. (LUCENA JÚNIOR, 2005, p.17).

Na animação, com a ajuda dos símbolos da arte, podemos manifestar impulsos e valores significantes, que, de outra maneira, não teriam como serem comunicados (a emoção, o carinho, o desejo, a simpatia, o amor etc). (Idem).

A prática social de ver filmes nutre a construção simbólica e está tão imbricada a formação cultural das pessoas que eles passaram a ser escolarizados e a servir como recurso pedagógico. O lúdico, neste processo, surge como fio condutor do letramento literário e o prazer estético

[…] se realiza na oscilação entre a contemplação desinteressada e a participação experimentadora, é um modo da experiência de si mesmo na capacidade de ser outro, capacidade a nós aberta pelo comportamento estético. (JAUSS; ISER; STIERLE; GUMBRECHT; WEINRICH,1979, p. 98).

Esta projeção no espaço/tempo do texto literário da animação deixa de ser efetivada pelas crianças com deficiência visual quando estas são excluídas do processo formativo, social, cultural, em razão da falta de acessibilidade visual às animações. Os prejuízos para a formação das crianças com deficiência visual incluem a oportunidade de vivenciar o prazer estético que a identificação possibilita e de participar de experiências alheias, as quais consoante Jauss et. al. (1979), em nossa realidade cotidiana, não nos julgaríamos capazes de fazê-lo.

Para a criança com deficiência visual, ainda, a ausência da áudio-descrição nas animações dificulta, limita e impede a construção de imagens mentais suscitadas pelo texto da animação, a ampliação do acervo do conhecimento de mundo e linguístico, a construção do simbólico através do brincar e do faz de conta.

Sem a áudio-descrição, é provável que as crianças com deficiência visual sequer possam fazer parte de algum dos três grupos de leitores/espectadores aos quais Jauss et.al. (1979) se referem, resultando na exclusão dessas crianças. “[…] O primeiro, o que goza sem julgamento, o terceiro, o que julga sem gozar, o intermédio, que julga gozando e goza julgando, é o que propriamente recria a obra de arte”. (JAUSS et.al., Ibidem, p. 103).

No entanto, com a provisão da áudio-descrição (feita sob critérios técnicos, éticos e com objetivo de oferecer pleno empoderamento às pessoas com deficiência visual) (LIMA, TAVARES, 2011), certamente propiciaremos que a criança cega ou com baixa visão venha a fazer parte de um daqueles grupos, inclusive do segundo.

Logo, para que isso ocorra, é preciso que cada vez mais tenhamos áudio-descrições dos eventos visuais, estáticos e dinâmicos sem, de maneira alguma, deixarmos de fora as animações, seja pelas razões expostas ou meramente pelo fato de elas estarem disponíveis às pessoas videntes. Portanto, devendo estar disponíveis para as pessoas com deficiência visual, de sorte que possam ter igualdade de oportunidades culturais, educacionais e de lazer (Decreto Legislativo nº 186/2008; Decreto nº 6.949/2009), conforme defendido anteriormente.

4- Animação com áudio-descrição: um roteiro possível

Como argumentamos, a áudio-descrição, enquanto gênero animação potencializa o processo de comunicação, da força humanizadora, libertária da arte/literatura. A animação com áudio-descrição convida as crianças com deficiência visual a penetrar na narrativa, explorar as possibilidades de interpretação, de projeção, de deleite e de expressão de sentimentos e sentidos e tudo o mais que esse gênero permite as demais crianças.

Por isso, podemos afirmar que a áudio-descrição da animação torna possível às crianças com deficiência visual o letramento literário, compreendido como o caminho formativo que “nos fornece, como nenhum outro tipo de leitura faz, os instrumentos necessários para conhecer e articular com proficiência o mundo da linguagem” (COSSON, 2006, p.30).

Entretanto, a provisão da animação com acessibilidade comunicacional às crianças com deficiência visual não é tarefa trivial que se faz sem aprofundado estudo. Com efeito, essa atividade tradutória é desafiadora para o áudio-descritor, pois ao construí-la tem de considerar o papel fundante e significativo exercido pelos elementos plásticos, os códigos visuais e os acústicos.

Neste sentido, Silva (2009), com base no documento “Áudio description for children”, orienta que devido as particularidades das obras e público infantil, além de respeitar as regras básicas da áudio-descrição ( objetividade, síntese, vividez, fidelidade etc) o áudio-descritor deve respeitar as seguintes regras:

[…]
a) adequar a linguagem (léxico e estruturas sintáticas) ao nível das crianças;
b) preservar a trilha musical. Caso seja necessário transmitir alguma informação vital e se precise sobrepor alguma descrição à música, fazê-lo após a primeira estrofe e usar preferencialmente os intervalos instrumentais ou trechos em que houver repetições;
c) usar a sensibilidade e fazer escolhas lexicais que reflitam a beleza especial das obras infantis. Utilizar adjetivos interessantes e advérbios expressivos (‘peixinhos dourados com grandes e meigos olhos castanhos’). […]
(SILVA, 2009, p. 55)

Considerando estas orientações, podemos afirmar que a áudio-descrição, enquanto modalidade de tradução intersemiótica, para atingir o objetivo de tornar acessível o material visual ou audiovisual exige que o tradutor conheça o público-alvo de seu trabalho e, em particular, no caso da áudio-descrição de obras infantis, esteja ciente da finalidade e características gerais das obras.

O roteiro da áudio-descrição de uma animação deve ser uma construção em que se considere a sinergia entre o som, a imagem e a áudio-descrição. O roteiro, elemento de sistematização da áudio-descrição, precisa focar a trama da animação, as características das personagens e dos ambientes. Além, é claro, de trazer acessíveis os elementos tais como: “créditos, inserções (de textos, títulos ou legendas), textos, títulos, legendas, intertítulos”. (ALVES, 2011, p. 16).

No roteiro da áudio-descrição, o vocabulário empregado deve ser simples, vívido, imagético, específico, expresso através de frases curtas, coordenadas, sem ambiguidades, cacofonias e repetições desnecessárias de palavras. Os verbos, na maioria das situações, devem ser empregados no presente do indicativo; precisam exprimir as ações específicas realizadas pelas personagens. Os adjetivos e os advérbios devem ser selecionados a partir da percepção da expressão linguística que é mais fiel e fidedigna ao que é narrado através da obra artística. (União em Prol da áudio-descrição, 2010; TAVARES et.al., 2010; LIMA, 2011).

Estes elementos linguísticos devem tornar a animação acessível/vívida para a pessoa com deficiência visual. Portanto, não devem refletir a interpretação pessoal do tradutor ou do consultor em áudio-descrição, este responsável pela revisão da áudio-descrição; aqueles, responsáveis pela tradução das imagem em palavras ( LIMA, TAVARES, 2010; SNYDER, 2011)

Além dos aspectos linguísticos comentados, é relevante que o áudio-descritor esteja atento a música como um dos elementos condutores da narrativa e saiba o momento em que “menos é mais” (SNYDER, Idem). Não sobrepondo, neste caso, a áudio-descrição a musicalidade/a narratividade da animação, como orienta o documento “Áudio description for children”:

Crianças pequenas em geral gostam de desenhos animados e longas metragens por causa de suas músicas, antes mesmo de terem idade suficiente para lhes compreender o enredo. Os primeiros vídeos que as crianças provavelmente assistirão serão musicais ou trarão músicas. Algumas crianças com deficiência visual, com deficiências complexas ou crianças muito pequenas podem ter dificuldades em entender a história, mas podem, não obstante, apreciar as músicas. Por isso, é importante que, sempre que possível, as músicas permaneçam intactas, sem descrição sobre elas.

O primeiro verso deve ser isento de descrição. Se há informações importantes a transmitir, estas devem ser inseridas mais tarde na música, durante repetições na música ou durante passagens instrumentais. Pode haver ocasiões em que haja importantes informações na trama a serem transmitidas durante o primeiro coro. Neste caso, o segundo coro deve ser deixado livre de descrição. O mais importante é assegurar que as crianças tenham a oportunidade de aprender o tom e as palavras, e usufruir da música. (Tradução de Vieira, 2010)

A áudio-descrição não deve ser um distrator da mensagem principal da obra. Este recurso deve acrescentar prazer e possibilidades de construção de sentidos ao leitor da animação. Respeitar, portanto, a música e os efeitos sonoros da animação é tão relevante quanto respeitar o momento em que o silêncio é igualmente constitutivo da obra. A respeito dos efeitos sonoros presentes em animações e da inserção da áudio-descrição, o documento supramencionado afirma:

Efeitos sonoros comunicam significativamente a ação, especialmente em desenhos animados. Eles também podem ser muito divertidos – crianças pequenas gostam de os ouvir e imitar. Os efeitos sonoros podem contribuir na fala ecolálica e podem trabalhar em conjunção com a descrição para acrescentar significado a conceitos. É melhor inserir a descrição antes e depois dos efeitos sonoros do que descrever em cima deles.

Na construção do roteiro, outra estratégia de construção linguística que pode ser utilizada pelo áudio-descritor é o uso de palavras de sonorização interessantes, de aliteração e de vocábulos que expressem ritmo. (C.f. “Áudio description for children”). Estes recursos podem atrair a atenção e a concentração da criança, ao proporcionar-lhe a possibilidade de brincar, a partir da linguagem da áudio-descrição, com a linguagem da animação. A áudio-descrição é, neste caso, o passaporte para o faz de conta tecido na animação.

Outro aspecto de relevância na construção do roteiro é o cuidado com a quantidade de informação, assim aquela orientação já mencionada – “menos é mais” – é uma recomendação que orienta o tradutor a procurar as informações que são centrais à trama, caso contrário, a sobrecarga de detalhes sobre vestuário, mobília, ambiente etc poderá prejudicar um dos pilares para a construção da áudio-descrição: a objetividade.

Na construção do roteiro da áudio-descrição da animação, devemos também construir um texto que antecede, apresenta e instrui a áudio-descrição. Esta etapa, nomeada de notas proêmias exige que o tradutor vá além da pesquisa de acervo linguístico referente à obra, ou seja, a urgência de que se conheça o autor, o contexto, as condições de produção, o efeito social da obra etc, fará parte deste primeiro passo para a construção textual do script áudio-descritivo, observando que, nas notas proêmias, não se pode antecipar informações que igualmente não estejam disponíveis aos leitores/espectadores videntes.

Para que se produza então um roteiro coerente com os fundamentos da áudio-descrição, devemos:

  1. Estudar acerca da obra, para termos condições de construirmos as notas proêmias;
  2. Considerar o público alvo da obra;
  3. Observar a obra em seus aspectos gerais e específicos relacionados aos elementos imagéticos, textuais, sonoplásticos.
  4. Pesquisar/selecionar/empregar as palavras mais fiéis, fidedignas, imagéticas, vívidas para expressar o conteúdo da animação;
  5. Construir um texto sucinto, preciso, desprovido de impressões pessoais;
  6. Sincronizar o tempo de cada elemento/situação áudio-descrita com a locução;
  7. Editar, mas não editorializar, a áudio-descrição para ajustá-la harmonicamente a locução áudio-descritiva;
  8. Realizar, em parceria com o consultor com deficiência visual, a revisão áudio-descritiva e textual do roteiro.

Enfim, devemos seguir com precisão as diretrizes da áudio-descrição e o código de ética[3], como subsídios para a atuação do áudio-descritor.

4.1- Traduzindo em palavras a animação “Cheese

O cinema de animação é gerado a partir da apresentação de quadros consecutivos exibidos numa frequência, que possa ser percebida como o movimento.

No excerto abaixo, trazemos alguns quadros da animação “Cheese” para exemplificarmos a aplicação da áudio-descrição neste gênero artístico/literário.

O roteiro proposto deve ser lido, portanto, tendo como referência o texto dinâmico e não as imagens decompostas, as quais ilustram aqui algumas situações áudio-descritas.

É importante considerar, neste caso, que o roteiro expressa escolhas tradutórias, logo, ele pode ser revisitado, alterado, reescrito; esta construção contínua pode e deve ser feita por outros áudio-descritores ou por pessoas amantes da oitava arte, estudiosas da áudio-descrição.                                          Parafraseando Marcelo o G. Tassara (2005), vamos conhecer a áudio-descrição da animação sem medo de revisitar os paraísos da nossa infância!

Notas proêmias

A animação “Cheese”, construída por Peter Harakaly, foi feita em 3 D com duração de 2 minutos e 16 segundos. 3 D é um recurso utilizado por este artista em suas outras duas animações: “Fishin’ Impossible” e “Bedtime Store”.   “Cheese” foi o projeto final de Harakaly para o curso de artes efetivado na escola canadense Vancouver Film School (VFS), em 2007.

O filme é um remember aos desenhos animados da década de 40 e 50, Tom e Jerry e companhia, ao colocar como personagem principal um ratinho marrom e magro, cujas partes internas das orelhas, mãos e pés são alaranjadas. O ratinho é despertado por ondas esverdeadas que representam o cheiro oriundo do queijo.

Os quadros da animação têm fundo preto e na lateral superior direita, em branco, lê-se aniboom.com. [4]

O vídeo está disponível no site www.aniboom.com ou http://smellycat.com.br/2007/10/19/cheese-animacao-de-peter-harakaly/.

Áudio-descrição da animação “Cheese” (HARAKALY, 2007) [5]

Quadro 01[6] – áudio-descrição:

Tempo: 00:01 a 00:03
Aniboom. com Vancouver Film School presents

Fig.01
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig. 01[7]: – áudio-descrição:[8]: Quadro com apresentação de créditos, na parte superior da tela. Mais abaixo, à direita, vê-se um pedaço de queijo mordido.

Quadro 02 – áudio-descrição:

Tempo: 00:04 a 00:06
A short film by Peter Harakaly.
[9] Ondas esverdeadas saem do pedaço de queijo mordido.

Fig.02
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig. 02- áudio-descrição: Quadro com apresentação de créditos, à esquerda, na parte inferior da tela. Ao lado direito destes, vê-se um pedaço de queijo mordido.

Quadro 03 – áudio-descrição:

Tempo: 00:07 a 00:08

Cheese

Fig.03
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig. 03 – áudio-descrição: Quadro onde se lê, ao centro da tela, a palavra cheese. Mais abaixo, do lado direito, há um pedaço de queijo mordido.

Quadro 04 – áudio-descrição:

Tempo: 00:09 a 00:16

Ambiente escuro. Parede com buraco próximo ao chão.

… onda esverdeada entra.

Fig.04
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig. 04- áudio-descrição: Fumaça esverdeada, sinuosa, frente a uma parede verde. Ao lado direito, vê-se, de perfil, saindo de uma fenda semicircular na parede, um focinho de rato, comprido, com ponta arredondada e branca. Ele mostra, parcialmente, a boca fechada, os dentes brancos, o primeiro deles é comprido e estreito, os outros três são menores e mais arredondados.

Quadro 05-áudio-descrição:

Tempo: 00:17 a 00:19
Rato com olhos e boca fechados. Orelhas e ombros caídos.
… Ele caminha seguindo a onda esverdeada.

Fig.05
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig. 05 – áudio-descrição: Onda esverdeada estreita sai da lateral esquerda da tela, curva-se para cima e desce fina e rarefeita até próximo ao centro da tela. À frente, um rato caminha.

Quadro 06 – áudio-descrição:

Tempo: 00:20 a 00:26
Aproxima-se do queijo e cheira.
… afasta a cabeça, aproxima e cheira.

Fig.06
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig.06 – áudio-descrição: O rato cheira o queijo. O rato está de semiperfil, tem cabeça pequena. Mostra orelha esquerda grande, alaranjada, arredondada e caída sobre o ombro. Os olhos, com pálpebras alaranjadas, estão fechados. O focinho está logo acima do queijo amarelo, de onde vem a onda verde, aspirada pelo rato. O ratinho tem pescoço fino e comprido.

Quadro 07- áudio-descrição:

Tempo: 00:27 a 00:33
… O rato abre os olhos, vê o queijo e se afasta.

Fig.07
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig.07- áudio-descrição: O rato olha o queijo. O ratinho aparece da cintura para cima, a cabeça levemente inclinada para trás. Olhos arregalados. As mãos alaranjadas, com quatro dedos finos e de pontas arredondadas, estão erguidas na altura dos ombros e espalmadas para a frente em direção ao queijo.

Quadro 08 – áudio-descrição:

Tempo: 00:34 a 00:35
… e vê a ratoeira

Fig.08
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig.08- áudio-descrição: O rato observa a ratoeira com o queijo. O ratinho está na lateral direita da tela; apóia a mão esquerda na base da ratoeira. Ao fundo, atrás do rato, vê-se a casa dele.

Quadro 09 – áudio-descrição:

Tempo: 00:36 a 00:37
… examina embaixo da ratoeira.

Fig.09
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig. 09 – áudio-descrição: Na lateral esquerda superior da tela, até próximo ao centro, vê-se parte do queijo amarelo sobre o martelo da ratoeira; objeto retangular comprido, de metal, o qual se estende diagonalmente até a extremidade direita da tela. Abaixo deste, de cabeça para baixo, vê-se parte da cabeça do rato. Os olhos grandes, arredondados, com esclera branca e pupila pequena e esverdeada. Abaixo da cabeça do rato, a base da ratoeira.

Quadro 10 – áudio-descrição:

Tempo: 00:38 a 00:45
… vê fósforos atrás da ratoeira.

Fig.10
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig.10- áudio-descrição: Na lateral superior direita da tela, diagonalmente, vê-se chão acinzentado, sobre ele caixa grande, aberta de palitos de fósforos. Quatro deles estão no chão, dois caem das laterais, três estão dentro da caixa com cabeças vermelhas para fora. Na parte inferior da tela, ambiente escuro.

Quadro 11- áudio-descrição:

Tempo: 00: 46 a 00:50
… Pega um palito, parte-o nos dentes.

Fig.11
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig. 11- áudio-descrição: Na lateral esquerda inferior da tela, pedaço de queijo. À direita, o ratinho, de olhos fechados, segura um palito de fósforo entre os dentes.

Quadro 12 – áudio-descrição:

Tempo: 00:51 a 00:55
… prende um pedaço entre a base e o martelo da ratoeira.
… testa o martelo com o dedo.

Fig.12
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig. 12- áudio-descrição: Ratoeira com queijo. Á frente desta, na lateral direita e inferior da tela, vê-se o rato com um dedo da mão esquerda bem próximo ao martelo da ratoeira. Ele está com o corpo voltado para frente, as orelhas estão um pouco caídas e recuadas para trás. Ele vira levemente a cabeça para a ratoeira. Os olhos estão arregalados, braços abertos, a perna esquerda dobrada e perna direita esticada para a direita.

Quadro 13 – áudio-descrição:

Tempo: 00: 56 a 00:59
… empurra o martelo, pula e vira de costas para a ratoeira, tampando os olhos.

Fig.13
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig. 13- áudio-descrição: Na lateral esquerda e inferior da tela, a ratoeira com queijo. Á direita, o rato, com o corpo curvado, está de costas para a ratoeira, com as mãos tapando os olhos. As orelhas dele estão levemente em pé, o rabo fino e comprido passa por baixo da perna direita, a qual está levantada.

Quadro 14 – áudio-descrição:

Tempo: 01:00 a 01:02
…volta-se para o queijo, segura-o, cheira-o e passa a língua nos lábios

Fig.14
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig. 14- áudio-descrição: O rato segura o queijo. Ele está com os olhos fechados e a boca entreaberta. O ratinho passa a língua vermelha e comprida nos lábios, chegando ao canto esquerdo da boca.

Quadro 15 – áudio-descrição:

Tempo: 01:03 a 1:10
… dá uma mordida grande, outra e outra.

Fig.15
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig. 15- áudio-descrição: O rato apresenta olho esquerdo arregalado, orelha esquerda levemente caída. Ele segura o queijo e abre a boca grande, triangular, deixando a mostra os dentes brancos, pequenos, os dois grandes e estreitos dentes incisivos e a língua vermelha.

Quadro 16 – áudio-descrição:

Tempo: 01:11 a 01:16
… O pedaço de palito escorrega…

Fig.16
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig. 16- áudio-descrição: Na lateral direita superior da tela aparece o queijo preso ao martelo da ratoeira, apoiado em um pedaço de palito, o qual está em pé sobre a base da ratoeira.

Quadro 17 – áudio-descrição:

Tempo: 01:17 a 01: 20
… a ratoeira se mexe. O palito cai.

Fig.17
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig. 17- áudio-descrição: Na lateral esquerda superior da tela, o martelo da ratoeira aparece diagonalmente. O pedaço de palito de fósforo está solto entre o martelo e a base da ratoeira.

Quadro 18 – áudio-descrição:

Tempo: 01:21 a 01:30
… O ratinho está sentado, costas na parede, mãos na barriga redonda e pernas abertas.

Fig.18
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig. 18- áudio-descrição: O rato está sentado no chão, encostado na parede. Ele tem as orelhas para baixo, os olhos semiabertos e as mãos apoiadas sobre a barriga redonda. As pernas dele estão levemente flexionadas e abertas, planta dos pés para frente com os três dedos arredondados e curtos apontando para as laterais.

Quadro 19 – áudio-descrição:

Tempo: 01:31 a 1:45
… O rato olha para cima.
Suspira.

Fig.19
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig. 19 – áudio-descrição: Na lateral esquerda e inferior da tela, vê-se parcialmente o martelo da ratoeira com um pedacinho de queijo na borda. O rato está sentado frente à ratoeira. Ele olha para cima.

Quadro 20 – áudio-descrição:

Tempo: 01:46 a 01:48
… vira a cabeça, olha pelo canto dos olhos …

Fig.20
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig. 20- áudio-descrição: Na lateral esquerda e inferior da tela, vê-se parcialmente o martelo da ratoeira com um pedacinho de queijo na borda. O rato está com a cabeça levemente inclinada para a direita. Olha com o canto dos olhos para a ratoeira e esboça um sorriso.

Quadro 21 – áudio-descrição:

Tempo: 01:49 a 01:50
… e vê o finalzinho queijo.

Fig.21
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig. 21- áudio-descrição: Tela preta. Foco de luz circular no pedacinho de queijo.

Quadro 22-áudio-descrição:

Tempo: 01:51 a 01:52
A tela escurece.

Fig.22
Cheese (Harakaly, 2007)

Fig. 22- áudio-descrição: Tela preta.

Quadro 23 – áudio-descrição:

Tempo: 01:53 a 01:55
… Lê-se, em branco, ao centro da tela: Created by Peter Harakaly [10]

Fig.23

Fig. 23- áudio-descrição: Créditos[11]

Considerações finais

O termo animação tem se mostrado de definição variável, de difícil consenso conceitual, em razão da ampla referência a uma diversidade de produtos culturais, de objetivos mercadológicos/culturais e de materiais utilizados na construção estética. A animação, enquanto gênero artístico e literário, apresenta-se numa linguagem heterogênea e narrativa, cujas bases são a imagem e o som.

Animação não é a arte de desenhos que se movem, mas a arte de movimentos que são desenhados. O que acontece entre cada frame é mais importante do que o que acontece em cada frame. (WEELS, 1998 apud CRUZ, 2006, p. 23) [Grifo da autora]

O encadeamento e a progressão de eventos visuais e sonoros responsáveis pelo fio condutor da diegese da animação precisa ser áudio-descrito para que todas as crianças, primeiros destinatários deste gênero, possam estar em situação de equidade de direitos ao acesso a comunicação e atinja o consequente letramento literário/cultural.

É relevante então que a sociedade esteja alerta para o fato de a animação em formato acessível ainda ser escassa no Brasil. Esta escassez coloca as crianças com deficiência visual em desvantagem cultural.

Esta realidade excludente precisa ser modificada através do uso do recurso da áudio-descrição. Caso contrário, a herança cultural referente a esta arte legada aos nossos pósteros continuará inacessível para os que têm deficiência visual.

Assim, para que a experiência catártica possibilitada pela animação seja vivenciada de modo autônomo e prazeroso pelas pessoas com deficiência, é necessário que haja a áudio-descrição e, na negativa desta, às pessoas com deficiência devem reivindicar esse direito nos livros, nos espetáculos, nas novelas, filmes e em todos os eventos visuais.

[…] os indivíduos com deficiência visual e os movimentos sociais abracem a causa, levantem a bandeira da acessibilidade e passem a reivindicar seus direitos. Sem a participação dos principais interessados, a acessibilidade no cinema poderá não ser uma realidade em nosso país, deixando tão significativa parcela da população sem acesso a um considerável veículo de formação. (VILARONGA, 2009, p.5)

A animação acessível, arte que opera uma linguagem fundamentada na técnica da narrativa imagética e no desenho universal de sociedade,

[…] se transformará na arte de realizar o impossível, de materializar as esperanças mais excêntricas e de trazer à tona os temores ocultos do inconsciente coletivo. Tudo isso mascarado por um fluxo contínuo de imagens sintéticas tonitruantes (LUCENA JÚNIOR, 2005, p. 11).

O cinema de animação, quando áudio-descrito a partir de diretrizes técnicas e fundadas no empoderamento, poderá contribuir não apenas com a educação das crianças com deficiência, mas com seu sentimento de pertença na sociedade. (LIMA, 2010). Esta premissa traz ao áudio-descritor a urgência de compreender a oitava arte, o público ao qual ela prioritariamente se destina e as nuanças do trabalho de tradução de obras infantis.

Este texto, com as reflexões aqui propostas, espera servir como ponto de partida para este processo; o ponto de chegada dependerá de cada profissional, do quanto este se dedique à área e do entendimento de que a áudio-descrição é uma técnica que oportuniza a efetivação de direitos, assim sendo, ofertá-la é uma questão ética; estudá-la, uma questão de compromisso com a auto-formação; contribuir com a ampliação deste serviço, uma questão de direito e nclusão.

Áudio-descrição nas animações é mais que um caminho para o letramento literário, é um percurso de garantia e efetivação de direitos. Para o tradutor, é se permitir e possibilitar ao outro (usuário da áudio-descrição) o uso de palavras prenhes de história, vestidas da mágica da arte e carregadas de humanização!

Áudio-descrever é a palavra de ordem que emana da inclusão e dela é revestida de sentido!

Referências

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ALVES, Soraya Ferreira. Por um modelo de audiodescrição brasileiro: um estudo sobre modelos de audiodescrição de filmes de animação. Anais do VII Congresso Internacional da Abralin. Curitiba, 2011. Disponível em < > Acesso em 04/05/2011.
BOYNARD, Ana Lucia Sanguêdo. Desenho animado e formação moral: influências sobre crianças de 0 aos 8 anos de idade . ACTAS DO III SOPCOM, VI LUSOCOM E II IBÉRICO – VOLUME IV. Disponível em < http://www.bocc.ubi.pt/pag/boynard-ana-desenho-animado-formacao-moral. pdf > ou < http://www.livroslabcom.ubi.pt/pdfs/ACTAS%20VOL%204.pdf> Acesso em 30/04/2011.
COELHO, Raquel. A Arte da Animação. Belo Horizonte: Formato, 2000.
CÔRREA, Âdani. O ogro que virou príncipe: uma análise de intertextos presentes em Sherek. Curso de Mestrado em Letras. Pontífica Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Dissertação. 137fl. Rio Grande do Sul, 2006. Disponível em < http://tede.pucrs.br/tde_busca/ arquivo.php?codArquivo=713> Acesso em 12/05/2011.
COSSON, Rildo. Letramento literário – teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2006.
CRUZ, Paula Ribeiro da. Do desenho animado à computação gráfica: a estética da animação à luz das novas tecnologias.Curso de Graduação em Produção em Comunicação e Cultura. Faculdade de comunicação. Universidade Federal da Bahia. Monografia. 150 fl. Salvador, 2006. Disponível em < http://www.bocc.ubi.pt/pag/cruz-paula-desenho-animado-computacao-grafica.pdf> Acesso em 03/05/2011.
ESPERANÇA, Joice Araújo; DIAS, Cleuza Maria Sobral. Meninos versus meninas: representações de gênero em desenhos animados e seriados televisivos sob olhares infantis. Educação, Santa Maria, v. 35, n. 3, p. 533-546, set./dez. 2010. Disponível em < http://cascavel.ufsm.br/revistas/ojs-2.2.2/index.php/reveducacao/article/viewFile/2366/1430 > Acesso em 30/04/2011.
FARIAS, C. O cinema de animação. 2004. Disponível em < http://www.natalpress.com/index.php?Fa=aut.inf_mat&MAT_ID=6394&AUT_ID=24 > Acesso em 24/03/2011.
GIROUX, H. Os filmes da Disney são bons para seus filhos? In STEINBERG,S.; KINCHELOE,J. (org). A criança e a mídia: imagem, educação e participação. São Paulo: Cortez, 2002.
GOMBRICH, E. H. A História da Arte. 16ª. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1999.
JAUSS, Hans Robert; ISER, Wolfegang; STIERLE, Karlheinz; GUMBRECHT, Hans Ulrich; WEINRICH,Harald. LIMA, Luiz Costa ( trad.). A Literatura e o Leitor – textos de estética da recepção. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
LIMA, Francisco J.; TAVARES, Fabiana S. S. Subsídios para a construção de um código de conduta profissional do áudio-descritor. Revista Brasileira de Tradução Visual, 2010. 5ªed. Disponível em < http://www.rbtv.associadosdainclusao.com.br/index.php/principal> Acesso em 03/01/2011.
LIMA, F. VIEIRA, P. (trad.). Áudio description for children. Disponível em <http://www.rbtv.associadosdainclusao.com.br/index.php/principal/announce ment > Acesso em 20/12/2010.
LIMA, Francisco J. Introdução aos estudos do roteiro para áudio-descrição: sugestões para a construção de um script anotado. Revista Brasileira de Tradução Visual, 2011. 7ªed. Disponível em < http://www.rbtv.associadosdainclusao.com.br/index.php/principal>
LUCENA JÚNIOR, Alberto. Arte da animação – técnica e estética através da história. 2ªed. São Paulo: SENAC, 2005.
Norma AENOR – UNE153020. Audiodescripción para personas con discapacidad visual. Requisitos para la audiodescripción y elaboración de audioguías. (Comité Técnico AEN/CTN 153, Ayudas Técnicas para Personas com Discapacidad cuya Secretaría desempeña FENIN). AENOR, Madrid, 2005.
ONU. Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2006). Tradução Oficial/Brasil. Secretaria Especial dos direitos Humanos. Coordenadoria Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência( CORDE). Brasília: 2007.
VILARONGA, Iracema. A dimensão formativa do cinema e a audiodescrição: um outro olhar. Anais do II Encontro Nacional de Estudos da Imagem. Londrina-PR 2009. Disponível < http://www. bengalalegal.com /docs/iracema-vilaronga-rodrigues.pdf > Acesso em 24/03/2011.
ROCHA, A. História da animação. 2010. Disponível em < http://www.proscontemporanea.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=111&Itemid=97 > Acesso em 24/03/2011.
SILVA, Manoela Cristina Correia Carvalho da. Com os olhos do coração: estudo acerca da audiodescrição de desenhos animados para o público infantil. Dissertação. 210fl. Mestrado em Letras e Linguística. Universidade Federal da Bahia. Salvador: 2009.
SNYDER, Joel. LIMA, Francisco; VIEIRA, Paulo ( trad.). Áudio-descrição: uma ajuda para a literacia. 2011. Disponível em < http:// www. rbtv. associados dainclusao. com.br/index.php/.>
TAVARES, Fabiana dos Santos Silva et. al. Reflexões sobre o pilar da áudio-descrição: “descreva o que você vê”. Revista Brasileira de Tradução Visual (RBTV), 2010. Disponível em < http:// www. rbtv. Associados dainclusao. com.br/index.php/.> Acesso em fevereiro de 2010.
ITC Guidance on Standards for Audio Description, 2000. Disponível em< http://www.ofcom.org.uk/static/archive/itc/itc_publications/codes_guidance/audio_de scription/index.asp.html> Acesso em 15/09/2010.
União em Prol da áudio-descrição. – Diretrizes para a áudio-descrição e o código de conduta profissional de áudio-descritores baseados no treinamento e capacitação de áudio-descritores e formadores nos Estados Unidos 2007-2008. Disponível em <http://www.rbtv.associadosdainclusao.com.br/index .php/principal/announcement > Acesso em 20/12/2010.

Sites consultados:

http://www.fca.pucminas.br/saogabriel/ci/npe/projex/2006.2/pdfs/aconstrucaododesenhoanimado.pdf
http://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=ElFzjIyhcjMC&oi=fnd&pg= PA1978&dq=a+historia+da+anima%C3%A7%C3%A3o&ots=iNesn26zHT&sig=D_ZjLM0QHc62uxl9ye4y6Vjf1ic#v=onepage&q&f=false
http://smellycat.com.br/2007/10/19/cheese-animacao-de-peter-harakaly/.
http://www.cursosnocanada.com.br/cursos/ingles-frances/vfs-vancouver-film-school-estudar-arte-entretenimento.php
http://pt.wikipedia.org/wiki/Aniboom
http://www.orkut.com/Community?cmm=41161808&hl=pt-BR
http://comaudiodescricao.blogspot.com/p/comerciais-de-tv.html
http://www. animamundi.com.br/pt/festival/
www.aniboom.com
http://smellycat.com.br/2007/10/19/cheese-animacao-de-peter-harakaly/

Nota de rodapé

[1] A áudio-descrição é uma tecnologia assistiva prevista pela portaria número 310 de 27/07 de 2006 (Diário Oficial da União de 28/07/2006).
[2] Artigo publicado neste volume da RBTV.
[3] Para aprofundamento neste tema, consulte: “União em prol da áudio-descrição” e “Subsídios para a construção de um código de conduta profissional do áudio-descritor”, disponíveis em www.rbtv. associadosdainclusao.com.br.
 [4] Anibom.com é uma comunidade virtual que atende a um público bem específico. Trata-se de uma rede voltada para profissionais e amadores de animação com os mesmos elementos de qualquer outro site como orkut e deviant art. A comunidade faz parte de um projeto que deve funcionar como uma verdadeira vitrine de grandes trabalhos e de aspirantes a profissionais. Os usuários cadastrados tem direito a fazer upload de seus desenhos, elaborar um perfil atraente e torná-lo visível a todos. Aos usuários que querem somente prestigiar o conteúdo, no ambiente virtual encontrarão um bom acervo de filmes de animação.

CEO Aniboom é ex-executivo de televisão israelense Uri Shinar. A empresa Aniboom Awards foi fundada em 2005. Ela organiza competições anuais nas quais filmes animados originais são apresentados para julgamento por um júri e os membros da comunidade Aniboom. Os trabalhos vencedores são premiados com uma seleção de software de animação e literatura; recebem também uma quantidade útil de exposição da indústria que podem levar à ascensão profissional. (Fonte: www.aniboom.com)
[5] A áudio-descrição destes quadros foi feita para ler/ouvir com a exibição da animação.
[6] A enumeração dos quadros refere-se à ordem de entrada deles neste artigo.
[7] As legendas devem ao máximo trazer descritivos que permitam a compreensão da imagem, gráfico etc, dentro das normas técnicas do trabalho científico.
[8] A áudio-descrição dos quadros aqui apresentados, na forma de legendas, visam propiciar a acessibilidade ao conteúdo imagético.
[9] Indicação de que neste período há outros quadros aqui não apresentados.
[10] Créditos: Created by Peter Harakaly. Editinu Supervisor: Rob Wood. Sound Supervisor: Brett Anthony. Head of department: Larry Bana. Program manager: Theresa Trink. Program Assistant: Jeri Weaver. Instructors and mentors: Greg Berridge, Steven Taylor,Keith Yong,Dave Dixon, James Lau, Brett Pascal. It support: Joe Doza, Troy Shannon. Software: Maya 7, Flash MX, Photoshop, Premiere, After effect. peterharakaly.blogspot.com@2006 Vancouver Film School
[11] Procede-se a locução dos créditos de acordo com as diretrizes para a áudio-descrição ( C.f. União em Prol da áudio-descrição).

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  • Fabiana Tavares dos Santos Silva

    Mestranda em Educação Inclusiva (UFPE). Aluna do III Curso de Tradução Visual com ênfase em Áudio-descrição “Imagens que Falam” (CEI/UFPE). Especialista em Literatura Infanto-Juvenil (FAFIRE). Graduada em Letras (FAINTVISA). Professora dos cursos de licenciatura em Pedagogia e Letras (Faculdades Integradas da Vitória de Santo Antão). Professora conteudista e executora do curso de licenciatura em Pedagogia (UFRPE- EaD). Professora da rede pública estadual de Pernambuco.View all article by Fabiana Tavares dos Santos Silva
  • Francisco José de Lima

    Professor Adjunto da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); Coordenador do Centro de Estudos Inclusivos (CEI/UFPE); Idealizador e Formador do Curso de Tradução Visual com ênfase em Áudio-descrição “Imagens que Falam” (CEI/UFPE);Tradutor e intérprete, psicólogo, coordenador do Centro de Estudos Inclusivos. E-mail: cei@ce.ufpe.brView all article by Francisco José de Lima

The Rose – Audio Description – English

Mani is physically battered by his insensitive teacher regularly. When the teacher asks the class to bring a full grown rose for their project, Mani’s anxiety deepens. A timely intervention by CHILDLINE Didi helps reclaim Mani’s life.

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Product Evaluations and Guides: A Review of the Be My Eyes Remote Sighted Helper App for Apple iOS

Originally published on http://www.afb.org/afbpress/pub.asp?DocID=aw160202

Many iPhone users with visual impairments use a video FaceTime or Skype call with a friend for a brief session of sighted help—to find a hotel room door, for instance, or to help set the controls on a washer or dryer. But what if your friends or family members are not available when you need assistance? Or maybe you call the same person again and again, and you worry you might be overstaying your welcome?

Mobile identification and text recognition apps such as TapTapSee, Talking Goggles, and the KNFB Reader can take up a lot of the slack, but there are times when you really do need a working pair of eyeballs. Now, thanks to a new iOS app called Be My Eyes, sighted help is just a tap away.

How Be My Eyes Works

Be My Eyes pairs sighted volunteers with visually impaired individuals who would appreciate a bit of remote assistance. The app is free both to download and to use.

For visually impaired users, the app could not be simpler to use. Most of the screen is taken up by a single control to connect you to the first available helper. Double tap this button and your device will announce, “Creating connection request.” A few seconds later a sort of electronic ring tone begins to play, and soon you are connected to a sighted volunteer through a two-way audio and one-way video connection using the opentok/tokbox video platform.

The volunteer can view your environment through the higher-resolution rear-facing camera. With a connection established, you can converse with the volunteer, introduce yourself (if you like), and ask for help with whatever identification task is at hand. You can disconnect at any time.

When you first open the app you are asked if you need assistance or wish to provide it. In either case you are required to register. You can do this using your Facebook credentials, or you can create a Be My Eyes account with your name, e-mail address and the password of your choice. More about this later.

If you register as a helper, you merely need to leave the app running in the background. When it’s your turn to offer assistance, the app will alert you. If you don’t respond within 10 seconds or so, the app servers will move onto the next person in the queue and alert them. “At first we tried pinging ten people at once, so people requesting assistance would not have to wait so long for a response, but we started getting e-mails from volunteers who were frustrated because they wanted to help, but were not the first to respond,” says Hans Jørgen Wiberg, the service’s founder.

Turning an Idea into a Service

Like many of us, after a few remote FaceTime sessions, Wiberg had the idea that we could more easily obtain sighted help if there were only some way to tap into a wider network than just our friends and family. Unlike most of us, however, Wiberg put action to thought, and he isn’t even a programmer. Wiberg, who lives in Copenhagen, Denmark, is a part-time upholsterer and Regional Chairman of the Danish Association of the Blind.

Wiberg took his idea to a local startup meeting, where people come together to exchange and refine ideas for new businesses and services. There he teamed up with seven others, none of whom were programmers. They formalized their idea and began searching for grant money.

With just a few thousand donated Danish Krone, the group hired outside developers to create an iOS app. They released it in the Danish App Store in November of 2014, and beta tested it with just a handful of users. After the user base reached 150 blind users and 400 helpers, the group was awarded a substantial grant from Velux, a Danish window and skylight company. Development continued until January 15, when the Be My Eyes app and service were released worldwide.

“The response was more than we dreamed,” says Wiberg. “In just a few days we had over 60,000 users, most of them potential helpers,” he says. “The signups came so fast, by the end of the second day we had to suspend the service while we moved to the largest server our provider can host.”

The main app screen displays a running count of the number of sighted and blind users who are registered. It also displays the number of individuals who have been helped—over 10,000 in the first six days. A future app update will also include the numbers of volunteers who are currently available. “This will help users have some idea of how long it will take to either offer or receive help,” says Wiberg.

Putting Be My Eyes Through its Paces

I first tried Be My Eyes just a few days after it was released. The first two attempts were unsuccessful: after 20 minutes I had not yet been connected to a volunteer. I was using the app late on a Sunday evening, around the time when the servers were being swamped with setup requests, so those circumstances may have played a part in the delays.

The next day I tried the app several times, and each time I was connected within 2 minutes. According to Wiberg, this is the norm. “There are going to be people who for some reason cannot answer an alert in time, and we have to connect to several different helpers, one at a time, before a request is answered. Other times there may be server problems caused by our rapid growth. My advice to users seeking help is that if there is no response within 3 or 4 minutes, disconnect and immediately try again.”

My first Monday call was answered by a woman in Britain. My question was simple: “Is this package of teabags caffeinated or decaf?” “Caffeinated,” came the reply, and after a quick “thank you,” I disconnected. Total time: less than 2 minutes from start to finish.

My second request was answered by a man in California. He helped me access my thermostat and find the LCD off setting.

My third session was answered by a man in Germany. I had inadvertently left the plastic cover to a vegetable seed starter on the patio table, and sometime during the night it had blown away. Together the volunteer and I search the backyard for it. We did not find it, but the help was still useful as it saved me the considerable time I might have spent walking around the yard, hoping to encounter it.

One task I did not try, and hope I do not have cause to for some time to come, is getting help with the computer error message that has in the past locked up my screen reader or prevented it from booting. My computer seems to know when all of my friends and family are unavailable. It must—why else would it always choose those times to crash?

On initial setup, the Be My Eyes app uses your iOS device’s default language setting to direct your calls. English speaking helpers are always connected with English speaking help requesters, French with French, and so forth. But the app’s Setting menu offers you the ability to add additional languages, which is how I was able to connect with an English speaking helper in Germany.

Privacy

According to Wiberg, your personal information is not shared with the helper. You may then wonder why you need to enter your name and e-mail address to create a Be My Eyes account. When I posed this question, Wiberg replied, “Both the helper and user can report a problem member, and we can then block that [account] and prevent [the user] from returning.” Unfortunately, the version I tested, 1.2 (45), did not require any e-mail verification, which means someone could make up a series of false accounts and cause mischief. Perhaps verification will be a part of an update in a future version.

Common sense would dictate that Be My Eyes users avoid asking questions about bank or credit card statements, medical reports, or any other information you want to remain private. Wiberg offers a useful rule of thumb: “If you were walking down a street and needed to know what you are considering asking [a Be My Eyes helper], would you feel uncomfortable asking a stranger?” If so, find some other way to obtain the information. Some may wish to consider the opposite scenario: Perhaps there is something you wish to keep private from your friends and family?

It’s probably best to avoid asking a Be My Eyes helper to assist in orientation at a busy intersection or other potentially dangerous scenario. Currently, the app contains no rating system for users to weed out what I can only believe would be a very few bad apples.

What’s Ahead for the Be My Eyes App

Wiberg is determined to keep the service free. He states that currently they have enough money to pay for development and server resources through next September. Consequently, I would not be surprised to see a Donate button pop up in a future release of the app, on the company’s website, or both.

The app is currently available only for iOS devices. There are no immediate plans to create an Android version.

Ironically, the biggest hurdle Be My Eyes currently faces is finding enough blind users. “The response to the opportunity to become volunteers has been overwhelming,” says Wiberg. “If they don’t get the chance to become fully involved, they may grow frustrated and uninstall the app.”

Until I uninstalled it, I had a dinosaur app on my iPhone to entertain my granddaughter. Every so often, even when the app was not running, I received an alert asking if I wanted to play. I can see many potential helpers who might reset their phone or change devices, and forget to restart the app. Perhaps a future update might include a similar gentle reminder to those with the app installed but left closed for several weeks?

I also hope Wiberg and his colleagues publish a Be My Eyes API that would enable other apps to seamlessly link to the app. BlindSquare, which we reviewed in the July 2014 AccessWorld, offers the ability to reach out to someone in your contact list for a bit of e-mail or text message help. Imagine how much more powerful BlindSquare, or the Seeing Eye App for iPhone, would be if users could request sighted help directly from within their accessible navigation app?

As it is now, Be My Eyes is an extremely powerful platform whose time has come. I will still keep both TapTapSee and KNFB Reader on my iPhone home screen, but Be My Eyes will definitely be my fallback—and in many instances, my go-to—resource for those times when greater independence can best be achieved by knowing when and how to ask for help.

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A Tribute to Audio Description

There she comes, red hair faded in dark shadows
There she comes, yellow eyes blacken in lifeless stains
There she comes, blue pale lips open in a doleful smile.

There she comes, flawless hair painted in imaginative pictures
There she comes, lively eyes shining in colorful poetry
There she comes, artistic lips uttering resourceful words

There she comes, yellow hair shining under the bright sun
There she comes, blue eyes sparkling in vibrant rainbows
There she comes, red-Rubi lips open in a dazzling smile.

There she comes to observe and empower.

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  • Francisco José de Lima

    Professor Adjunto da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); Coordenador do Centro de Estudos Inclusivos (CEI/UFPE); Idealizador e Formador do Curso de Tradução Visual com ênfase em Áudio-descrição “Imagens que Falam” (CEI/UFPE);Tradutor e intérprete, psicólogo, coordenador do Centro de Estudos Inclusivos. E-mail: cei@ce.ufpe.brView all article by Francisco José de Lima

Description is not the same as audio description

Hello!

Audio description is a form of visual translation. It differs from everyday description In many aspects. A person who is blind, for instants, may describe what he or she sees when touching a flower, however, he or she will be the recipient of the audio description of the color and other visual cues of that flower. Everyday description does not neccessarily aim the empowerment of people who are blind or have low vision, audio description does!

To make a good audio description one must, therefore, research about what it will be described, observe what it’s being described, edit the description and write an audio description with good language.

Last but not least, If one is going to voice an audio description he or she must do it with good voice skills. See Dr. Snyder’s book The Visual Made Verbal: A Comprehensive Training Manual and Guide to the History and Applications of Audio Description to learn more about how to audio describe.

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A portuguese audio description of Rene Magritte’s Collective Invention

Invenção coletiva (MAGRITTE, 1934)

Áudio-descrição retirada de: O surrealismo e a construção de imagens: contribuições da áudio-descrição para os alunos com deficiência visual, por Fabiana Tavares dos Santos Silva. Artigo disponível na Revista Brasileira de Tradução Visual.

Notas Proêmias
Técnica óleo sobre tela. Dimensões da obra original em centímetros: 73,5 cm x 97,5 cm. Local de exposição: Alemanha. Dimensões da imagem áudio-descrita: 12 cm x7 cm.

The collective invention, 1934 by Rene Magritte

Criatura metade peixe, metade humana deitada lateralmente no chão alaranjado. A criatura está nua, deitada do lado esquerdo, com parte posterior do corpo sendo tocada pelo mar. Tem cabeça de peixe, de cor cinza. Nas costas, na altura da cintura, mostra uma barbatana e na parte abdominal, a nadadeira peitoral toca o chão.

A partir do abdômen, a criatura tem quadris, pernas e pés humanos. A pele é clara, quadril pouco arredondado. As coxas e pernas são magras, os joelhos ossudos. Os pés são compridos e magros.

Uma sombra contorna a lateral esquerda da criatura e a silhueta da parte interna do pé direito até a genitália. Ao fundo, vê-se o céu acinzentado e o mar azul escuro. Na lateral esquerda inferior da tela, assinatura de Magritte.

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Describe it here: Inertia

inertia
Source: http://physics.tutorvista.com/motion/inertia.html

It is your turn now! Write your audio description of the images above in the box below and send it to us. Descriptions in all languages are desired.

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Normas técnicas da audiodescrição nos Estados Unidos e na Europa e seus desdobramentos no Brasil: interpretação em foco

Este artigo é uma parte da tese de doutorado da autora ainda em desenvolvimento. Agradeço leitura e valiosos comentários feitos pela Profª. Drª. Maria Paula Frota


Resumo

Desde seu início, a audiodescrição (AD) é uma prática de caráter intuitivo e começou sendo feita por pessoas do convívio de pessoas com deficiência visual. Como prática institucionalizada, a audiodescrição começou no final da década de 1970 e em alguns países é regulamentada por manuais, como Alemanha (Bayerischer Rundfunk), Reino Unido (ITC Guidance), Espanha (UNE 153020) e Estados Unidos (Audio Description Coalition). O objetivo deste artigo é, a partir da comparação entre as normas existentes nos Estados Unidos e na Europa, refletir sobre a normatização da AD no Brasil, sendo enfocada especialmente a interpretação, aspecto que divide tanto os pesquisadores quanto profissionais da área.

Palavras-chave: Audiodescrição. Normas de AD. Interpretação.

Audio description standards in the United States and Europe and its development in Brazil: focusing on interpretation

Abstract

Since its beginning, audio description has been carried out empirically by sighted people who had contact with visually impaired people. As an institutionalized practice, audio description first appeared in the late 1970s. In some countries such as Germany (Bayerischer Rundfunk), the United Kingdom (ITC Guidance), Spain (UNE 153020) and the United States (Audio Description Coalition) it is regulated by guidelines. Based on the comparison between the guidelines used in the United States and in Europe, this article aims to reflect on creating Brazilian audio description guidelines focusing on interpretation. Both practitioners and researches have different points of view on this issue.

Keywords: Audio description. AD guidelines. Interpretation.

1 Introdução

Este artigo, a partir da comparação entre as normas existentes nos Estados Unidos e na Europa, busca refletir sobre a normatização da AD no Brasil. Será enfocada, especialmente, a questão da interpretação, aspecto que é polêmico tanto entre os pesquisadores quanto entre profissionais da área.

Talvez caiba aqui informar ao leitor ainda leigo, que a audiodescrição (AD) é a transformação de imagem em texto, transformação essa que primeiramente se dá como escrita de um texto denominado “roteiro”, o qual, posteriormente, passará pelo processo conhecido como “narração”, isto é, a sua leitura para o público-alvo. Essa narração é realizada em produtos audiovisuais (imagens dinâmicas) como peças teatrais, cinema e televisão, e em produtos só visuais (imagens estáticas), como por exemplo quadros e esculturas expostos em museus. O principal objetivo da AD é tornar esses eventos culturais acessíveis aos deficientes visuais — conceito que abrange pessoas cegas e com baixa visão, congênita ou adquirida, mas que também compreende outros públicos como pessoas com deficiência intelectual e dislexia[1].

A audiodescrição (AD), desde seu início, é uma prática de caráter intuitivo e começou sendo feita por pessoas do convívio de pessoas com deficiência visual. Como prática institucionalizada, ela começou no final da década de 1970 e é regulamentada por manuais[2] em países como Alemanha (Bayerischer Rundfunk), Reino Unido (ITC Guidance), Espanha (UNE 153020) e Estados Unidos (Audio Description Coalition) (ver Franco, 2010, vol.3). É importante ressaltar que as normas da Espanha e Reino Unido são oficiais e a da Alemanha, assim como de outros países europeus (por exemplo, da Bélgica, e, mais especificamente, Flandres), foram produzidas “individualmente” por profissionais (ver Vercauteren, 2007, p. 140).

O presente artigo tem como objeto a AD de imagens dinâmicas, uma vez que todos os guias ou normas regulamentam esse tipo de imagem e alguns deles não tratam de imagens estáticas. De modo geral, a audiodescrição de imagens dinâmicas, como a de filmes, abarca as questões “o quê?”, “quem?”, “como?”, “quando?” e “onde?”, mas o modo como essas questões são contempladas varia de acordo com o manual ou experiência empírica do audiodescritor.

2 Normas técnicas: Reino Unido, Espanha, Alemanha e Estados Unidos

 

Gert Vercauteren, no capítulo “Towards a European guideline for audio description”, do livro Media for all, analisa os diferentes guias europeus (Flandres, Alemanha, Espanha e Reino Unido), verificando as semelhanças e diferenças para propor a criação de uma orientação internacional, assim como elementos que ainda precisam ser pesquisados. De modo geral, ele indica que as orientações estão divididas em duas partes. Na primeira são descritas as etapas de trabalho, como assistir ao material, revisar o roteiro, gravar, entre outras. E, na segunda, são tratados os aspectos práticos da escrita do roteiro.

O autor assinala que as instruções podem ser reduzidas ou sintetizadas a quatro questões: O quê, Quanto, Quando e Como descrever. Vale ressaltar que essas quatro questões são interconectadas, estando uma implicada na outra. Sobre o quê deve ser descrito, Vercauteren aponta que as diretrizes parecem concordar que tudo o que acontece na tela deve ser mencionado e isso pode ser dividido em três categorias: imagens, sons (difíceis de identificar) e textos na tela, como créditos iniciais e finais, legendas, placas etc. Já em relação à segunda pergunta “quanto deve ser descrito”, as normas não dizem muito a respeito e as diferenças estão no que é relevante e no volume de informação a ser descrito. Vercauteren afirma que esse é um tópico que precisa ser aprofundado. Na norma alemã é dito que essa é “uma questão que não pode ser completamente respondida”; já a do Reino Unido afirma que “muita descrição pode ser exaustiva ou irritante”. O autor questiona se seria possível definir uma quantidade máxima de descrição.

As questões “o quê” e “quanto” descrever são bem interligadas, talvez mesmo inseparáveis, ou seja, constituem um só aspecto não desmembrável, na medida em que ambas dizem respeito à relevância e portanto seleção das imagens. O que será priorizado dependerá do áudio do produto audiovisual e o tempo de silêncio disponível para descrever. Aí surge a terceira questão: quando descrever. Todos os guias concordam que as descrições devem ser feitas nos intervalos das falas. Contudo, esses não podem ser preenchidos totalmente, já que as músicas e efeitos sonoros são importantes para o produto.  Outro aspecto referente a esse tópico é a antecipação de cenas, a qual pode ser feita desde que não interfira no desenvolvimento da trama e que a sincronia não seja extremamente importante.

O como descrever dependerá do tempo de silêncio disponível e do que é mais relevante descrever de acordo com o conteúdo da imagem e a linguagem do produto, seja ela, cinematográfica, televisiva, teatral etc. Muitas vezes, por conta de um espaço curto de silêncio, a ação é priorizada em detrimento da narrativa fílmica, por exemplo, ou, em outras palavras, do enquadramento e direção da cena. Vercauteren mostra que é nesse ponto que as orientações possuem mais definições e onde residem também as maiores diferenças. O como descrever, para esse autor, pode ser dividido em linguagem/estilo de descrição e diferentes classes de palavras (Vercauteren, 2007, p. 142-7).

Com relação ao estilo, algumas orientações são mais centradas na ação, como a norma espanhola, e outras são mais detalhadas, como o manual inglês ITC Guidance. A partir da comparação das normas feita por Vercauteren e do estudo comparativo das normas feito pelo Royal Institute of Blind People (RNIB) (2010) é possível assinalar as seguintes convergências:

  1. a descrição deve usar o tempo presente na narrativa;
  2. o texto deve ser coloquial — vocabulário rebuscado e frases complexas devem ser evitados —, já que a descrição é escrita para ser escutada;
  3. a linguagem deve ser adaptada ao público e gênero do material;
  4. a clareza é o objetivo principal. Além de saber priorizar as informações, o audiodescritor deve saber quais elementos podem ser antecipados;
  5. os acontecimentos não devem ser interpretados nem julgados através de opiniões;
  6. a linguagem cinematográfica deve ser evitada;
  7. a expressão “nós vemos” deve ser evitada; e
  8. títulos, créditos e informações relativas à AD devem ser gravados.

As diferenças entre as normas estão no uso de adjetivos e advérbios, no momento da nomeação dos personagens e, principalmente, na quantidade de informação descrita e no fornecimento de informações adicionais.

Nas diretrizes do Audio Description Coalition (EUA) é normatizado que o audiodescritor deve “us[ar] apenas adjetivos e advérbios que não ofereçam juízo de valor e que não sejam eles próprios sujeitos à interpretação” (p.8). A norma UNE: 152030 (Espanha) diz que o audiodescritor deve usar “adjetivos concretos” evitando aqueles de significado impreciso, e não menciona o uso de advérbios (p.8). Já o ITC Guidance afirma que o uso de “descriptive adjectives” é muito importante na audiodescrição, podendo melhorar consideravelmente a compreensão de uma cena, mas não pode refletir o ponto de vista do audiodescritor (p.20). São dados dois exemplos para diferenciar uma descrição objetiva de outra subjetiva:

“Ela senta em um sofá verde escuro mofado” — é uma indicação objetiva.

“Ela senta em um sofá verde escuro mofado horroroso” — é uma indicação subjetiva, aceitável somente se a feiura do sofá fosse a questão (tradução nossa)[3].

O uso de advérbios também é permitido, já que, segundo as orientações analisadas, ajuda na descrição da ação deixando-a mais clara, mas devem ser usados com cautela. Na norma são dados exemplos de advérbios considerados descritivos e específicos (“bruscamente”, “com cuidado”, “com cautela”, “jovialmente”, “ansiosamente”, “arrogantemente”)[4], e vagos e interpretativos (“caracteristicamente”, “claramente”, “instintivamente”, “sem dúvida”, “devidamente”)[5] (p.21).

A defesa do uso de determinados adjetivos e advérbios em detrimento de outros está relacionada à questão da interpretação. Contudo, não fica claro o que significa “interpretação” em cada uma das normas.  O uso dos advérbios “bruscamente”, “com cuidado”, “com cautela”, “jovialmente” etc. não será feito a partir da interpretação do audiodescritor? E que adjetivos e advérbios não são sujeitos à interpretação? O que as normas procuram assegurar é uma descrição objetiva em detrimento de uma subjetiva. Até que ponto isso é possível?

Ainda em relação à comparação entre as normas, não há consenso quanto ao momento de nomeação dos personagens. As diretrizes dos Estados Unidos e da Alemanha definem que o personagem só é chamado pelo nome depois que este é mencionado na trama. Duas exceções são descritas na norma alemã: em filmes de época e quando um personagem é nomeado tardiamente na trama. No estudo comparativo das normas feito pelo RNIB (2010, p. 6), é informado que as orientações da França e da Grécia concordam com a alemã e desencorajam os audiodescritores a nomearem os personagens antes que seus nomes apareçam no produto. A norma espanhola não tem orientação a esse respeito. Já as diretrizes do Reino Unido propõem que os nomes dos personagens só não devem ser mencionados logo no início se a trama requerer que a identidade do personagem seja revelada posteriormente. E essa orientação é seguida na prática. Os audiodescritores optam pela nomeação dos personagens desde o início, antes mesmo deles serem mencionados nos diálogos.

Para Vercauteren é fundamental que se chegue a um acordo em relação à nomeação dos personagens para a criação das diretrizes internacionais. Ele sugere alguns elementos para uniformizá-la, tomando como princípio que os personagens serão nomeados após os nomes serem mencionados no produto, seja verbalmente ou partir de sua inserção em uma legenda, exceto: (i) quando os personagens principais são nomeados tardiamente na trama, pois pode ser útil nomear antes na audiodescrição, ajudando a evitar confusão entre os espectadores e facilitando o trabalho do audiodescritor. Contudo, essa regra não pode ser aplicada quando a identidade do personagem precisa ser revelada tardiamente; (ii) quando pessoas famosas aparecem, podendo nomeá-las imediatamente (por exemplo, no documentário COP 15, Marina Silva aparece e o nome dela não é mencionado, nem inserido como legenda. Nesse caso, o audiodescritor poderia nomeá-la imediatamente); (iii) quando vários personagens (novos) são introduzidos ao mesmo tempo tornando-se útil nomeá-los logo para evitar confusão; e (iv) quando vários personagens estão dialogando sendo importante informar quem está falando para garantir a compreensão dos espectadores (Vercauteren, 2007, p. 146).

Sobre a quantidade de informação nos roteiros, Julian Bourne argumenta que ela pode variar desde o estritamente necessário até uma descrição minuciosa, que pode ser excessiva e atrapalhar a compreensão da trama (Bourne, 2007, p. 181). De modo geral, as diretrizes reconhecem a dificuldade que é definir qual a quantidade de informação necessária, levando em consideração a narrativa audiovisual e tendo em vista que as preferências do público variam de acordo com a idade, gênero, grau de escolaridade, interesse ou expertise no assunto e o tipo de deficiência visual. O estilo adotado tem relação direta com a quantidade de informação oferecida, uma vez que o que centra-se  na ação fornece menos detalhes da trama e é mais conciso do que o estilo floreado que fornece mais elementos sobre  o ambiente, os aspecto físico, a roupa e a idade dos personagens. O roteiro de um longa-metragem baseado na norma espanhola usa aproximadamente 5.000 palavras na AD; já no roteiro baseado na norma do Reino Unido usam-se aproximadamente 7.800 palavras (ver Bourne, 2007, Alves, 2011, no 22). Isso pode ser percebido no exemplo abaixo de uma cena do filme As horas:

AD britânica: Clarissa, se protegendo do frio da manhã nublada enrolada em um casaco de pele de camelo, com lenço cinza, brincos de âmbar pendurados nas orelhas e óculos escuros, carrega flores, pelo bairro da baixa Manhatan onde carne é empacotada, em direção ao edifício de uma antiga fábrica.

AD espanhola: Clarissa caminha pelas ruas de Nova Iorque com um grande buquê de flores nos braços (tradução nossa).[6]

Com relação ao uso de informações adicionais, Bourne assinala que as diretrizes dos Estados Unidos determinam que as descrições sejam puramente objetivas, sem explicação ou explicitação do seu significado, como pode ser percebido no caso da descrição das expressões faciais exemplificada abaixo. No guia da Audio Description Coalition é dito: “Permita aos ouvintes formarem suas próprias opiniões e tirarem suas próprias conclusões. Não editorialize, não faça inferências, não explique, não analise, nem tente “ajudar” de modo algum os ouvintes” (p. 8). Já o ITC Guidance informa que para os pesquisadores britânicos a explicação pode ajudar a minimizar possíveis confusões (ITC Guidance, p. 15), e são dados os seguintes exemplos comparando descrições dos dois países:

Ela aperta os lábios e franze os olhos.

Ela fica de queixo caído e com os olhos arregalados.

Enquanto que,

Ela franze os olhos desconfiada.

Ela fica de queixo caído, em choque (ITC Guidance, p.16, tradução nossa)[7].

Enquanto as diretrizes dos Estados Unidos não aceitam o uso de explicações, as do Reino Unido defendem que elas facilitam a compreensão, mas a explicação nunca deve interpretar ou adiantar uma informação. Bourne (2007, p.189) assinala que, por um lado, o ITC Guidance adverte que não se pode interpretar; porém, por outro lado, recomenda o uso de advérbios interpretativos.

Outra diferença, e essa bem importante, é a maneira pela qual essas normas foram criadas (ver Franco, 2010, vol.3). A norma espanhola, como indicado na introdução do próprio documento, é fruto do consenso entre usuários, empresas, emissoras e profissionais do setor. É informado que foram especialmente levadas em conta as opiniões, preferências e experiências das pessoas cegas e com baixa visão e dos profissionais que prestam esse serviço (UNE: 153020, p.3). Contudo, não é mencionada a maneira pela qual esses dados foram coletados e nem a quantidade de participantes, o que dificulta a avaliação da recepção dessas regras em relação ao público-alvo.  Nas diretrizes para audiodescrição e código de conduta para os audiodescritores da Audio Description Coalition é informado que esses documentos foram “desenvolvidos a partir do treinamento, experiência, conhecimento e recursos conjuntos de um grupo de áudio-descritores[8] e formadores de diversas partes dos Estados Unidos conhecidos como Audio Description Coalition” (p. 59-60). Não há menção à participação de usuários de AD na elaboração dessas diretrizes, o que impossibilita saber se estas são ou não bem aceitas pelo público-alvo. Já no ITC Guidance, na introdução do documento, é informado que este é fruto de uma pesquisa realizada ente 1992 e 1995 com 200 participantes e são descritos os mecanismos utilizados como, por exemplo, questionários sobre hábitos televisivos e as dificuldades enfrentadas; sessões de programas e filmes audiodescritos em que foram ouvidas as opiniões do público; e entrevistas periódicas de um grupo de cem pessoas que receberam, a partir de receptores/codificadores especiais, de sete a dez horas de programação audiodescrita semanalmente. No final dessa introdução é mostrado que há diferentes formas bem-sucedidas de audiodescrever e que a aceitação do público varia de acordo com as expectativas, necessidades e experiências das pessoas:

Em meio a um volume considerável de experiências valiosas, a pesquisa revelou que há muitas definições para uma audiodescrição de sucesso, não apenas porque os estilos de descrição diferem, mas porque há muitas diferenças fundamentais no que se refere às expectativas, necessidades e experiências do público (ITC Guidance, p.4)[9].

As normas da Espanha e Estados Unidos são amplas, se referem a diferentes produções, como teatro, ópera, dança, audioguia para museus, filmes etc. Já a norma do Reino Unido foi produzida especificamente para a televisão e, por conseguinte, contempla os diferentes gêneros televisivos, como novelas, documentários, programas infantis etc. Bourne assinala que apesar de a norma do Reino Unido parecer mais consistente, na medida em que foram realizadas pesquisas de recepção para a sua produção e evidenciar a existência de diferentes estilos de AD, ela não abarca as diferentes modalidades nas quais pode ser utilizada e é, às vezes, contraditória no que se refere à interpretação (2007, p.179-198). Ainda sobre a comparação entre as diretrizes europeias, Vercauteren conclui que:

As diretrizes atuais em Flandres, Alemanha, Espanha e Reino Unido são, definitivamente, ferramentas valiosas para a promoção da acessibilidade e o desenvolvimento da audiodescrição (pré-gravada), mas são pouco mais que um ponto de partida, já que são bastante vagas em algumas questões, enquanto, em outros casos, lhes falta estrutura e até mesmo algumas informações básicas.  De fato, algumas questões são deixadas sem resposta e várias questões precisam ser estudadas, não só em relação a como descrever (por exemplo, quando os créditos iniciais coincidem com uma cena de ação, como expressões faciais devem ser descritas), mas também no que diz respeito a quanto deve ser descrito ou que informações devem ser priorizadas.

A fim de acelerar o processo de acessibilidade nos países onde não há audiodescrição ou onde ela é quase inexistente, seria útil a elaboração de um conjunto de diretrizes internacionais que atendesse as necessidades de todos os diferentes tipos de descritores e que contivesse todas as informações necessárias a garantir descrições de alta qualidade. O presente levantamento pode ser usado como ponto de partida e como um primeiro esboço para o delineamento de tópicos de pesquisa (Vercauteren, 2007, p.147-8, tradução nossa)[10].

Como mencionado por Vercauteren, ainda há várias questões que precisam ser investigadas melhor, como quanto, o que e como descrever, principalmente as questões concernentes ao que deve ser priorizado e como expressões faciais e gestos devem ser descritos. Por exemplo, no filme Tropa de elite, o capitão Nascimento faz um gesto em que gira o braço 360º graus na posição vertical a frente do corpo. Descrever esse gesto como “Capitão Nascimento ordena que revistem o ambiente” é intepretação? Será que a descrição sem a interpretação ou explicitação do sentido do gesto permitirá a compreensão da ação ou desfocará a atenção do espectador? As diretrizes existentes não orientam quanto a essas questões e, por conseguinte, como defende o autor, são um importante ponto de partida, mas não podem ser pensadas como normas finais ou acabadas. Se as normas locais existentes já não dão conta de várias questões, será que normas internacionais conseguirão contemplar tantos pontos, levando ainda em consideração a heterogeneidade dos públicos, que será ainda maior em normas internacionais? Para as normas funcionarem, sejam locais ou internacionais, elas precisam aceitar várias exceções como propôs Vercauteren em relação à uniformização da nomeação dos personagens, para abarcar as especificidades dos produtos audiovisuais. Acredito que normas internacionais não serão eficientes, pois a diversidade do público se amplia e mesmo que seja possível uniformizar alguns aspectos das normas locais, nem todos podem ser uniformizados, como por exemplo, a maior aceitação de descrições centradas na ação em um lugar e de descrições mais detalhadas em outro.

3 Normas de Ad no Brasil

Aqui no Brasil estamos reeditando o item 6 da norma ABNT NBR 15290, que se refere à audiodescrição, criada em 2005:

6 Diretrizes para o áudio com a descrição de imagens e sons

Para que sejam garantidas as condições de acessibilidade, a descrição de imagens e sons deve atender aos requisitos de 6.1 a 6.3.

6.1 Características gerais para a descrição em áudio de imagens e sons

A descrição em áudio de imagens e sons deve transmitir de forma sucinta o que não pode ser entendido sem a visão. Devem ser evitados monotonia e exageros.

6.2 Compatibilidade

A descrição deve ser compatível com o programa:

  1. a) a narração deve ser objetiva na programação para adultos e mais poética em programas infantis;
  2. b) em filmes de época devem ser fornecidas informações que facilitem a compreensão do programa;
  3. c) a descrição subjetiva deve ser evitada.

6.3 Diferenciação

No SAP, a descrição em áudio de imagens e sons deve estar diferenciada do som do programa. Para permitir melhor compreensão do programa, sempre que possível, a descrição deve aproveitar as pausas naturais entre os diálogos.

Essa norma é superficial, pois não define o que se entende por narração (locução) mais objetiva em programas de adultos e mais poética em programas infantis, assim como não deixa claro o que entende por descrição subjetiva, e, geralmente, não é levada em consideração pelos audiodescritores. Contudo, ela pode ser considerada um avanço no debate sobre AD em nosso país. Se em 2012 ainda estamos dando os primeiros passos para o desenvolvimento desse recurso de tecnologia assistiva, em 2005, a AD tinha acabado de ser iniciada como prática formal e não era conhecida por aqui com a nomenclatura atual. Para a reedição da norma, a ABNT conta com um grupo de trabalho, formado por audiodescritores e usuários, que está reelaborando a normatização através de reuniões e grupo de debates na internet.

É interessante notar que algumas questões que estavam presentes na discussão para elaboração da norma da ABNT de 2005 — como pode ser visto na Ata da 17ª reunião da Comissão de Estudo Acessibilidade em Comunicação, ocorrida em 2003 — continuam presentes hoje. Cecília Maria Oka apresentou nessa reunião as dificuldades e questões envolvidas nas experiências de audiodescrição de filmes, desenvolvidas pela LARAMARA – Associação brasileira de Assistência ao Deficiente Visual, em 2002. Foram elencados os seguintes pontos:

a) terminologia: descrição, leitura, narração;
b) narradores – assistir previamente o filme;
c) usar filmes dublados ou com poucas legendas;
d) dificuldade em conseguir filmes dublados;
e) dosar a descrição de cenários, personagens etc.;
f) sobreposição do som do filme X som da descrição;
g) descrição poética X descrição subjetiva X descrição objetiva;
h) Sintonia entre narradores;
i) contextualização prévia do filme;
j) resumo X leitura da legenda;
k) descrição individual X descrição para grupos;
l) plateia de pessoas com e sem deficiência visual – incômodos;
m) contraste e cor legenda X fundo;
n) cenas e diálogos rápidos;
o) bate-papo após o filme (ABNT, 2003).

É possível destacar como tópicos ainda em debate: a terminologia, a quantidade de informação a ser descrita e a descrição poética X subjetiva X objetiva.

Eliana Franco, no artigo “A importância da pesquisa acadêmica para o estabelecimento de normas da audiodescrição no Brasil”, defende o uso das pesquisas de recepção como base para elaboração da norma, como pode ser percebido no trecho a seguir:

O grupo de trabalho prevê a participação de todos aqueles que têm se envolvido com a audiodescrição de uma forma ou de outra, através da prática, do estudo, da curiosidade, da recepção e da combinação de duas ou mais destas. Contudo, para que não caiamos em algumas ciladas ou discussões infrutíferas baseadas em preferências pessoais e opiniões subjetivas, argumento aqui a valiosa contribuição da pesquisa acadêmica, mais precisamente da pesquisa de recepção sistemática que tem sido desenvolvida por grupos de pesquisa de algumas universidades brasileiras, para a elaboração de normas da audiodescrição (Franco, 2010, vol.3, p. 3).

Além da defesa do uso de pesquisas de recepção para embasamento das normas, a autora traz duas importantes reflexões, quais sejam: 1 — a possibilidade ou não da existência de um consenso em relação às normas a serem adotadas no Brasil, uma vez que as expectativas, necessidades e preferências serão diferentes de acordo com os perfis das pessoas com deficiência visual nas diferentes regiões de nosso país; 2 — o papel de consultor exercido por pessoas com deficiência visual, já que, como a AD ainda é nova em nosso país, as pessoas ainda estão se acostumando com esse recurso e podem não estar aptas para atuar nesta posição.

Franco parte do texto da norma do Reino Unido em que há diferentes estilos de AD válidos, salienta as diferenças nos públicos com deficiência visual no Brasil, questiona se é possível escolher entre esses estilos e conclui que:

Nossa tarefa, enquanto acadêmicos e profissionais da área, é contribuir para que o grau de generalização das normas a serem adotadas pela ABNT seja o menor possível, uma vez que ele deverá estar respaldado por pesquisas de recepção bem fundamentadas, onde as variáveis em questão são consideradas e as preferências observadas são testadas em diversos grupos de pessoas com deficiência visual, com diferentes perfis e de diferentes regiões do Brasil (Franco, 2010, vol.3, p. 13).

Outro artigo importante para esse debate é “Propostas para um modelo brasileiro de audiodescrição para deficientes visuais”, de Soraya Ferreira Alves, Veryanne Couto Teles e Tomás Verdi Pereira. Nele, os autores delineiam as diferenças entre os modelos de audiodescrição espanhol (centrado na ação) e inglês (detalhado), apresentam as sugestões de pessoas com deficiência visual que participaram de uma pesquisa de recepção[11], na qual foram apresentados quatro curtas-metragens confeccionados a partir desses modelos, e, por fim, expõem um modelo de audiodescrição proposto pelo grupo do qual fazem parte na Universidade de Brasília. A pergunta que regeu a pesquisa foi: “Qual o modelo de AD que melhor atende às necessidades dos deficientes visuais quando assistem aos filmes?” (p. 13). Alguns dos pontos que segundo Vercauteren precisam ser aprofundados são discutidos de forma breve nesse artigo. Por exemplo, com relação à nomeação e determinação da função ou profissão dos personagens, os autores sugerem que, apesar das controvérsias, é fundamental que sejam anunciados logo para facilitar a compreensão. Isso porque eles puderam verificar pela pesquisa que os participantes não conseguiram identificar a profissão de uma personagem (empregada doméstica) sem a sua definição na AD. Em cenas com muitos personagens é mais fácil o entendimento pelo nome do que pelas características, como “menina loira de vestido rosa conversa com homem alto de preto que dá o braço a uma mulher alta, loira, que dá a mão a um menino loiro de uns oito anos…” (p.25). E personagens de uma série ou saga, por já serem conhecidos pelo público, podem ser nomeados desde o início. Podemos perceber então, que o que define a regra é o próprio produto audiovisual que é único.

Em relação à descrição de expressões faciais e gestos, que denotam estados emocionais dos personagens, eles defendem que devem ser descritos os elementos que levem o espectador a inferir o estado emocional, contudo, informações adicionais são importantes, na medida em que facilitam a compreensão. Ao invés de dizer “ela está triste”, o audiodescritor deve informar que “ela leva as mãos ao rosto e chora” (p.24).

A defesa de que o audiodescritor “não deve interpretar o que vê” é constante, como podemos perceber, dentre outras, nas recomendações referentes aos adjetivos — “Os adjetivos descritivos são muito importantes na AD, pois tornam a cena clara para o espectador, mas não devem refletir a interpretação pessoal do audiodescritor” (p.23) —, aos advérbios — “Os advérbios ajudam na descrição de uma ação, tornando-a o mais clara e aproximada possível, mas devem ser usados cuidadosamente, a fim de se evitarem interpretações” (p.23) —, e aos estados emocionais — “Informações adicionais podem reduzir ou evitar confusões, mas não propomos interpretar sentimentos ou cenas, apenas dar informações mais precisas quando necessário” (p. 24). Porém, os autores fazem a ressalva de que o audiodescritor é “um observador ativo […] [que] edita o que vê, ou seja, seleciona o que é mais importante para a compreensão e a apreciação de um evento” (p. 23). É interessante notar que os autores concordam com o posicionamento das diretrizes do Reino Unido em relação às informações adicionais e emprego de advérbios, enquanto que para o uso de adjetivos foi seguida a orientação da norma espanhola.

Talvez seja interessante que novos estudos reflitam sobre os sentidos sociais dos gestos e expressões faciais, a construção e memorização da imagem mental nas pessoas com deficiência visual e a interpretação na AD. Se podemos dizer, de maneira genérica, que para os videntes a memória do personagem é visual e por isso não é necessária a repetição frequente de seu nome e nem sua nomeação desde o início, será que esperar a nomeação do personagem no filme não é querer manter o padrão dos videntes para as pessoas com deficiência visual? E, partindo do mesmo princípio, se a maior parte dos espectadores videntes ao ver um gesto ou expressão facial compreende o seu sentido de acordo com as características do mesmo; será que a maioria dos espectadores deficientes visuais pelas características conseguirá compreender seu significado? Vale lembrar que a AD trabalha em conjunto com o diálogo e sons da trama que possibilitam que o receptor faça inferência sobre os significados. Contudo, nem sempre isso será suficiente. Traduzir o gesto em palavras, ou melhor, explicar ou interpretar (dependendo de como se entenda esse termo) o gesto ou expressão facial e nomear os personagens desde o início não seria adequar a linguagem ao público, ao invés de subestimar a inteligência, como a norma norte-americana advoga?

Iwona Mazur e Agnieszka Chmiel, no capítulo “Audio description Made to Measure: Reflections on Interpretation in AD Based on the Pear Tree Project Data”, do livro Media for All 3: Audiovisual translation and media accessibility at the crossroads (2012), afirmam que a interpretação é o ponto que, em geral, não há consenso tanto entre o público-alvo quanto entre os pesquisadores e que, especialmente, no começo das normatizações da AD, julgamentos subjetivos não eram bem vindos e a objetividade era favorecida a fim de evitar qualquer manipulação ou atitude paternalista. Contudo, nem sempre estava claro que julgamentos eram considerados subjetivos e que tipo de interpretação era mais objetiva e poderia ser incluída na AD (p. 174). Elas afirmam que é extremamente difícil descrever as expressões faciais objetivamente e de forma rápida, na medida em que o rosto humano é capaz de expressar emoções altamente complexas. Apesar de a tristeza ou alegria poderem ser objetivamente descritas pelo choro ou pelo sorriso, há várias emoções e expressões faciais mais complexas que dificultam a descrição objetiva. Um simples ato de levantar as sobrancelhas, por exemplo, pode significar ansiedade, alívio, surpresa, ironia e muitas outras emoções quando combinada com movimentos de outros músculos faciais.

As autoras dialogam com a proposta de Elmar Dosch e Bernd Benecke de que o audiodescritor deve descrever somente as expressões faciais importantes e de forma mais sofisticada, dizendo, por exemplo, “ele aperta os olhos e os lábios e suas bochechas estão vermelhas” ao invés de “ele olha para ela nervoso”[12]. Dosh e Benecke afirmam que o audiodescritor deve ser extremamente cauteloso na descrição das expressões faciais, na medida em que dependendo da escolha, ela pode distorcer a profundidade do filme. Já Mazur e Chmiel afirmam que não estão convencidas de que tais descrições podem cobrir toda a gama de sentimentos complexos expressos no rosto dos personagens e de que sua compreensão e interpretação serão tão fáceis pelo público com deficiência visual quanto são para o público vidente (p.178).

Elas mostram que Pilar Orero e Vercauteren abordam essa temática de uma perspectiva narrativa e cognitiva e assinalam que para esses autores a AD deve incluir descrições subjetivas das emoções desde que vários estudos confirmem que algumas emoções são universais e corretamente identificadas. Orero e Vercauteren dão alguns exemplos, entre eles, a substituição da descrição “pálpebras e sobrancelhas levantam e o queixo fica caído” pela interpretação “surpresa”[13] (p. 179).

As autoras concluem que são necessárias mais pesquisas de recepção com pessoas com deficiência visual, mas também são necessários estudos sobre a percepção e o comportamento humano através da narrativa para a produção de audiodescrições de melhor qualidade (p. 186-7).

É interessante notar que as autoras evidenciam que no campo da audiodescrição, as noções de descrição e interpretação são tratadas, frequentemente, dicotomicamente e propõe, assim como a autora deste artigo, que a oposição binária seja substituída pela lógica de gradação. Esse tratamento dicotômico pode levar à distorção do que acontece na práxis audiodescritiva, pois, não se pode chegar nem em uma descrição absoluta como gesto neutro, objetivo, isento e nem em uma interpretação puramente subjetivista e criativa.

Como toda dicotomia, essa também hierarquiza os dois elementos, vistos como absolutos, opostos e totalizantes. Pode-se perceber uma certa vilanização do termo “interpretação” nas regras e trabalhos teóricos da AD, pois a ele se atribui valor subjetivista. Contudo, a práxis audiodescritiva vem se mostrando diferente.

O objetivo não é apagar a oposição dicotômica e hierarquizada (descrever/interpretar), mesmo porque continuaremos utilizando os termos dessa distinção, mas, o intuito é, ao desconstruir essa dicotomia, problematizar a relação entre esses dois termos que a constitui.

Derrida aponta que descontruir a oposição significa operar um duplo gesto, no qual, em um primeiro momento há a inversão da hierarquia e em outro o deslocamento. Vale ressaltar que esses momentos não são necessariamente cronológicos (2001, p.48).

Na inversão, os termos são operados no interior do sistema desconstruído, mostrando-se suas ambiguidades, contradições. Derrida sinaliza que “a necessidade dessa fase é estrutural; ela é, pois, a necessidade de uma análise interminável: a hierarquia da oposição dual sempre se reconstitui. (…) o momento da inversão não é jamais um tempo morto” (2001, p.48).

O deslocamento seria o momento, nesse duplo movimento e duplo vínculo, no qual se mudaria de terreno e não se permaneceria mais no interior do sistema desconstruído. Como mostra Derrida:

É preciso também, por essa escrita dupla, justamente estratificada, deslocada e deslocante, marcar o afastamento entre, de um lado, a inversão que coloca na posição inferior aquilo que estava na posição superior, que desconstrói a genealogia sublimante ou idealizante da oposição em questão e, de outro, a emergência repentina de um novo “conceito”, um conceito que não se deixa mais — que nunca se deixou — compreender no regime anterior (Derrida, 2001, p.48-49).

Nesse momento, Derrida utiliza o que chamou de “indecidíveis”, que são unidades de simulacro que “não se deixam mais compreender na oposição filosófica (binária) e que, entretanto, habitam-na, opõem-lhe resistência, desorganizam-na, mas, sem nunca constituir um terceiro termo, sem nunca dar lugar a uma solução na forma da dialética especulativa” (2001, p.49).

Derrida propõe pensar as oposições dialéticas numa oposição horizontal e paritária e não em escalas hierárquicas. Em outras palavras, seria a substituição da lógica hierarquizante por uma lógica de gradação. Na verdade, o que se pretende é através do questionamento, decompor e reorganizar os discursos.

Se por um lado, toda descrição envolve um certo grau inevitável de interpretação, que não é totalmente livre nem autônoma, por outro, há interpretações que excedem esse certo grau inevitável e podem não ser aceitas. Daí, a importância de se refletir sobre quais os limites da interpretação.

Partindo, então, agora para os critérios que possibilitam uma audiodescrição o mais neutra e o mais objetiva possível e tendo como referência que cada produto audiovisual terá características específicas que levam a soluções diferentes em cada roteiro de audiodescrição, impossibilitando a formulação de normas e critérios válidos para todos os produtos, sugiro tomar como referência a proposta de Paulo Henriques Britto para tradução poética.

Britto, no artigo “Correspondência formal e funcional em tradução poética”, mostra que o que se deve esperar na tradução de um poema é a captação de algumas das características mais importantes do poema original, na medida em que em poesia não é possível estabelecer uma nítida separação entre forma e sentido, sendo necessária na tradução a reconstrução da totalidade poética, constituída por sons, significados, imagens e até mesmo a disposição visual no papel.  “Portanto, a tradução de um poema é uma operação bem mais complexa que a redistribuição de sentidos diversos por significantes diversos; os fatores que devem ser levados em conta são de toda ordem: formal, semântica, sintática, lexical, morfológica, fonética, prosódica, gráfica” (Britto, 2006, p. 3).

Este autor sinaliza que o tradutor deve elencar os diversos elementos presentes no poema observando a contribuição de cada um deles, de modo a tentar recriá-los na tradução o máximo possível. Deste modo o tradutor deve:

a) identificar as características poeticamente significativas do texto poético;

b) atribuir uma prioridade a cada característica, dependendo da maior ou menor contribuição por ela dada ao efeito estético total do poema; e

c) recriar as características tidas como as mais significativas das que podem efetivamente ser recriadas – ou seja, tentar encontrar correspondências para elas (Britto, 2006, p.4).

No desenvolvimento dessa análise o tradutor deve optar pela correspondência formal ou funcional que significam respectivamente, manter a forma do poema ou escolher outra que apesar de estruturalmente diferente possua as mesmas conotações ou conotações próximas na língua de chegada.

Trazendo essa reflexão para a audiodescrição, e fazendo um paralelo com os pontos colocados por Britto, o audiodescritor deve a) identificar as características mais significativas da cena, levando em consideração o áudio do produto para não repetir uma informação desnecessária, contudo, se for importante para o desenvolvimento da trama, mesmo estando presente no áudio, a informação pode e deve ser reforçada na descrição, se houver tempo disponível; b) atribuir uma prioridade, prestando atenção para as características não só na cena, mas na sua relevância em todo o produto, e; c) recriar essas características mais significativas levando em consideração: 1) o que deve ser explicitado e o que deve se manter implícito; 2) que a estrutura frasal deve estar em consonância com o plano da cena ou movimento da câmera, por exemplo, em um close informar primeiro o significado da expressão e depois quem é enfocado e o que faz (Atônito, João olha para Maria), um suspense pode ser reproduzido através de uma pausa na locução  e; 3) que os adjetivos e advérbios — normalmente relacionados à interpretação pelos audiodescritores  — devem ser usados para auxiliar na composição da cena. Em outras palavras, o audiodescritor deve escolher, a partir das especificidades da cena, uma forma de reproduzir o visual no texto que mantenha conotações as mais próximas possíveis das imagens.

Talvez seja interessante associar a essas etapas, na avaliação de uma descrição mais adequada, o critério quantitativo. Assim sendo, precisamos definir, a partir de pesquisas de recepção, se as audiodescrições ficam mais adequadas aos diferentes perfis que compõem o público brasileiro com deficiência visual quando há o equilíbrio entre o que se deve deixar para o público inferir e o que deve ser explicado, e quando a estrutura frasal (como, por exemplo: Atônito, Ramiro olha para Maria ou Ramiro olha para Maria atônito) e o adjetivos e advérbios – sem estarem presentes em todas as descrições – auxiliam na composição da cena. Para tal avaliação é importante que os audiodescritores conheçam as categorias — explicitação e inferência e coerências local e global, propostas por Sabine Braun (2007, 2008) —, tendo em vista que essas estratégias podem ajudar a melhorar as ADs limitando a “interpretação”.

A construção de significados na AD envolve alguns fatores. Primeiro: o produto audiovisual — texto fonte — possui uma série de sinais culturalmente determinados. O audiodescritor cumpre, assim como qualquer tradutor, os papéis de espectador e de reescritor. A leitura e reescrita efetuadas pelo audiodescritor serão singulares, na medida em que a maneira pela qual efetuará esses papéis será determinada por sua historicidade. Talvez o principal cuidado deva ser não oferecer uma subjetividade “vestida” de objetividade, já que, como Maria Paula Frota indica, “autor e tradutor […] são livres e regidos. São livres para decidir e escolher, mas as decisões e escolhas que lhes são possíveis fazer já estão previamente determinadas pela sociedade, pela linguagem” (1996, p. 88).

4 Considerações finais

Este artigo teve como ponto de partida a comparação das normas existentes, abordando as principais divergências – como a nomeação de personagens, o uso de adjetivos e advérbios e a interpretação –, de modo a debater e refletir sobre a reedição da norma de AD no Brasil com o intuito de fornecer subsídios que auxiliem na discussão em curso. O enfoque na interpretação se deve a este ser o ponto de maior controvérsia entre os pesquisadores e profissionais.

É importante ressaltar que o trabalho do audiodescritor consiste em reconhecer os elementos que compõem as imagens de acordo com os contextos em que estão inscritos e não na descrição dos sentidos intrínsecos às imagens. Assim, a interpretação do audiodescritor será limitada pela comunidade interpretativa. Em outras palavras, não é porque reconhecemos que múltiplas leituras ou interpretações são possíveis que somos conduzidos a um relativismo absoluto, onde qualquer interpretação será válida. Os audiodescritores se apropriam dos elementos configurando sentidos para eles segundo um conjunto de práticas. Assim como não é possível impedir que o audiodescritor exponha, em alguma medida, suas inferências ou, em outras palavras, interprete, é possível, viável e importante que se debatam limites da interpretação, não necessariamente para evita-la, mas para melhor organizarmos esse novo campo e definirmos o que não será aceitável em nossas práticas. Ainda que o quiséssemos, a audiodescrição não pode ser nem totalmente descritiva (objetiva) e nem totalmente interpretativa (subjetiva), sendo necessária avaliação constante do quanto isso é possível e aceitável.

Os adjetivos e os advérbios, ao mesmo tempo em que qualificam e, por isso, podem evidenciar mais rapidamente uma opinião, julgamento ou valoração, sendo descrições tidas como subjetivas, e, portanto como interpretações, podem tornar a descrição mais interessante e até mais precisa, na medida em que propicia e não impede ou mesmo destrói a fruição na relação espectador-obra e agiliza a compreensão da dramaticidade cênica. Já as descrições tidas como objetivas, e, portanto neutras — nas quais seriam deixadas para os espectadores as inferências acerca do que acontece em cena — podem ser um entrave no envolvimento do público com a obra, pois podem criar obstáculos e retardar a compreensão de algum elemento da trama.

Apesar de ainda existirem vários pontos que precisam ser investigados melhor e de a interpretação provavelmente continuar dividindo profissionais, público-alvo e pesquisadores por muito tempo, a audiodescrição vem avançando bem rapidamente na academia em nosso país.

5 Referências

ALVES, Soraya; TELES, Veryanne Couto; PEREIRA, Tomás Verdi. Proposta para um modelo brasileiro de audiodescrição para deficientes visuais  In: Tradução & Comunicação, no 22, 2011.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. Ata da 17ª reunião da Comissão de Estudo Acessibilidade em Comunicação, 2003. Disponível em: Acesso em: jan/2012.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 15290: acessibilidade em comunicação na televisão. Rio de Janeiro, 2005. Disponível em: http://www.abnt.org.br. Acesso em: out/2009.
Audio Description Coalition. Diretrizes para áudio-descrição e Código de conduta profissional para áudio-descritores baseados no treinamento e capacitação de áudio-descritores e formadores dos Estados Unidos. Trad. Paulo André de Melo Vireira. 2007-2008.
BOURNE, Julian. El impacto de las Directrices ITC en el estilo de cuatro guiones AD en inglés  In: Traducción y accesibilidad Subtitulación para sordos y audiodescripción para ciegos: nuevas modalidades de Traducción Audiovisual. Frankfurt: Peter Lang, 2007.
BRAUN, Sabine. Audio Description from a discourse perspective: a socially relevant framework for research and training. University of Surrey, 2007. Disponível em: Acesso em: 20/06/09
BRAUN, Sabine. Audio description research: state of the art and beyond In: Translation Studies in the New Millennium 6, 2008.
BRITTO, Paulo H. “Correspondência formal e funcional em tradução poética”. In Souza, Marcelo Paiva de, et al. Sob o signo de Babel: literatura e poéticas da tradução. Vitória: PPGL/MEL / Flor&Cultura, 2006.
DERRIDA, Jacques. Posições. Trad. Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.
FRANCO, Eliana. A importância da pesquisa acadêmica para o estabelecimento de normas da audiodescrição no Brasil  In: Revista Brasileira de Tradução Visual,  vol.3, 2010.
FRANCO, Eliana; ARAÚJO, Vera Santiago. Questões terminológico-conceituais no campo da tradução audiovisual In: Tradução em Revista no 11, 2011/2.
FROTA, Maria Paula. Tradução, pós-estruturalismo e interpretação In: Cadernos de Tradução nº I, 1996.
ITC Guidance on Stardards for Audio Description, 2000. Disponível em: http://www.ofcom.org.uk/static/archive/itc/itc_publications/codes_guidance/audio_description/index.asp.html
MAZUR, Iwona; CHMIEL, Agnieszka. Audio description Made to Measure: Reflections on Interpretation in AD Based on the Pear Tree Project Data In: Media for All 3: Audiovisual translation and media accessibility at the crossroads. New York: Rodopi, 2012.
NORMA AENOR —  UNE 153020. Audiodescripción para personas con discapacidad visual Requisitos para la audiodescripción y elaboración de audioguías. AENOR, Madrid, 2005.
RAI, Sonali; GREENING, Joan; PETRÉ, Leen. A Comparative Study of Audio Description Guidelines Prevalent in Different Countries. Royal Institute of Blind People, 2010 Disponível em: http://www.rnib.org.uk/professionals/solutionsforbusiness/tvradiofilm/Pages/international_AD_guidelines.aspx Acesso em: março/2012.
VERCAUTEREN, Gert. Towards a European guideline for audio description  In: DÍAZ CINTAS, Jorge (Org.). Media for all: Subtitling for the Deaf, Audiodescription, and Sign Language. New York: Rodopi, 2007.

Nota de rodapé

[1] Ainda são poucas as pesquisas que analisam a eficácia da audiodescrição para outros públicos, estando essa afirmação mais embasada na experiência empírica. Entretanto, recentemente, o grupo Tramad, coordenado pela Profa. Dra. Eliana Franco, fez um estudo piloto com quatro alunos da APAE de Santo Amaro da Purificação, no interior da Bahia, no qual testou a audiodescrição de um curta-metragem. As questões que nortearam esse estudo, cujos resultados foram apresentados no Congresso Media for All, em 2011, em Londres, foram: 1 – A audiodescrição destinada às pessoas com deficiência visual melhora a compreensão do público com dificuldades de aprendizagem? 2 – Em caso afirmativo, em que medida a AD destinada às pessoas com deficiência visual é eficiente para espectadores com dificuldades de aprendizagem? A principal e mais importante conclusão do estudo foi que, embora de grande ajuda, a AD destinada a deficientes visuais não é suficiente para a compreensão total do produto audiovisual, sendo necessário, para tornar o filme o mais acessível possível, interpretar os significados implícitos nas imagens assim como fazer a relação entre eles. O grupo considera esse estudo um passo inicial e pretende que sirva como orientação para novas pesquisas sobre o impacto da audiodescrição no público formado por pessoas com deficiência intelectual.
[2] Para me referir ao conjunto de regras de AD, utilizarei termos como “guia”, “manual”, “orientação”, “diretriz” e “norma” intercambiavelmente.
[3]‘She sits down on a dark green moth-eaten sofa’ – is an objective statement.
‘She sits down on a hideous dark green moth-eaten sofa’ – is subjective and would only be acceptable if the ugliness of the sofa were the issue.
[4] Brusquely, carefully, cautiously, jovially, eagerly, haughtily, anxiously.
[5] Characteristically, clearly, instinctively, arguably, suitably.
[6] AD britânica: Clarissa wrapped up against the cold overcast morning, in a camel-hair coat and grey scarf with amber earrings dangling from her ears, and tinted glasses, carries the flowers through the meat-packing district of Lower Manhattan towards an old factory building.
AD espanhola: Clarissa camina por las calles de Nueva York con un gran ramo de flores entre los brazos.
[7] She purses her lips and narrows her eyes./ Her mouth drops open and her eyes widen. / Whereas,/ She narrows her eyes suspiciously./ Her mouth drops open in shock.
[8] Franco e Araújo em seu artigo sobre Tradução Audiovisual na Tradução em Revista (no11) apontam que falta na audiodescrição, assim como em outras áreas da TAV, terminologia e conceituação comuns, assim como uniformidade na grafia do termo que é, por alguns, escrito áudio-descrição e, por outros, audiodescrição. Nas citações aqui apresentadas, preservarei a grafia adotada pelo autor, contudo, a grafia que utilizarei nesse trabalho, como pode já ser percebido desde o título é audiodescrição.
[9] Among a large volume of valuable experience, the research revealed that there are many definitions of successful audio description, not merely because describing styles differ, but because there are many fundamental differences in audience expectation, need and experience (ITC Guidance, p.4).
[10] The current guidelines in Flanders, Germany, Spain and the United Kingdom are definitely valuable tools in the promotion of accessibility and the development of (recorded) audio description, but they are little more than a starting point since they remain rather vague on some issues, whereas in other instances they lack structure and even miss some basic information. Indeed, some questions are left unanswered and various issues have to be studied, not only with regard to how describe (e.g. what do opening titles coincide with an action scene, how should facial expressions be described), but also regarding how much should be described or how information can be prioritized.
In order to speed up the accessibility process in countries where audio description is not or hardly existent, it would be useful to draw up one set of international guidelines catering for the needs of all different types of describers and containing all the information necessary to provide high-qualify descriptions. The present survey can be used as a starting point and as a first outline for the delineation of research topics.
[11] Realizada pelo grupo de pesquisa do qual os autores fazem parte na Universidade de Brasília.
[12] For example: instead of “He looks at her nervously” the following description could be used: “He squints, his cheeks are flushed, his lips pressed together”.
[13] The following description: the uper eyelids and brows rise, and the jaw drops open can be simply replaced with a subjective (yet quite universal) interpretation of this expression: surprise.

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  • Larissa Magalhães Costa

    Doutora em Estudos da Linguagem (PUC-Rio), com a tese intitulada Audiodescrição em filmes: história, discussão conceitual e pesquisa de recepção, é audiodescritora desde 2008 e, atualmente, coordenadora do setor de audiodescrição do CPL-Soluções em Acessibilidade. Possui formação em roteiro e locução de audiodescrição, atuando, majoritariamente, na produção e revisão de roteiros e no treinamento de novos audiodescritoresView all article by Larissa Magalhães Costa

Autistic spectrum, captions and audio description

A previous version of this paper Was published on http://mindfulresearch.co.uk/2011/08/29/autistic-spectrum-captions-and-audio-description/


Abstract

This article discusses how audio description intended for people who are blind or visually impaired and captions intended for people who are deaf or hard of hearing can support people with other access needs particularly autism.

keywords: Autistic spectrum, captions, audio description, access needs, television

Introduction

You may be thinking what have captions and audio description (AD) got to do with autistic spectrum. Aren’t captions for D/deaf and hard of hearing people and audio description for visually impaired people? In this last couple of years research I’ve conducted has revealed that audio description and captions can be of benefit and are used by people on the autistic spectrum.

Many of the arguments for a more accessible environment either physical or digital start off with arguments like ‘ramps for wheelchair users are helpful for prams or baby buggies’. Captions and audio description are a metaphorical ramp and provide a different kind of value to people on the autistic spectrum. There is nothing new in the repurposing of technology, every developer has stories on how users repurposed their design.

What is autistic spectrum?

I am going to avoid any medical diagnoses here as I am looking at this from a user experience perspective. I am strongly influenced by the social model of disability which focuses on what people can do rather than what they can’t do and neurodiversity which interprets autistic spectrum not as something separate or faulty but as part of the range of human behaviour. I will look at how being on the autistic spectrum affects peoples interaction and engagement. Typically people on the autistic spectrum, which also includes Aspergers struggle with understanding human emotions and engagement.

So for example they:

  • May not understand sarcasm or certain forms of humour.
  • May struggle to understand non-verbal communications such as reading the emotion on another persons face and the inferences of body language.
  • May not know if someone is angry, sad, disappointed or entertained?
  • May have difficulty recognising different faces and identifying people.
  • May struggle with audio processing for example understanding people talking very quickly or several people talking at the same time perhaps with background noise.

Another feature of autistic spectrum is an intense focus on a small area of interest, the technical term for this is Monotropism.

What Monotropism means is that somebody on the autistic spectrum focuses in great detail on one or two things rather than looking at everything broadly. This means that any subject area is looked at in great detail and every detail of something must be understood or all the information may be invalidated. In one interview I conducted with a person on the autistic spectrum I was told that every link on a web page had to be followed. That is every reference and every hyperlink. That makes it very time consuming to look at everything and if any of the information conflicts with the individuals own mental model then its all invalidated.

Monotropism can actually be of great benefit in some environments where you need precision, detail and great accuracy. Any multi-disciplinary team can benefit from an autistic spectrum member ensuring that all the details are right.

The autistic spectrum includes a very wide range of people from those who are non-verbal to people with high functioning autism and Aspergers who have an above average IQ and may excel in their own field.

Why do captions and audio description help?

So looking at these two aspects of the autistic spectrum

  • Understanding human emotion and engagement
  • Monotropism

What is it that captions and audio description provide?

Audio description was originally designed for people who are visually impaired. It meets their needs by providing information that is purely visual into an audio format and is used for television, theatre and cinema. So for example if you were watching Eastenders and Phil Mitchell came into the room angrily the audio description might be ‘Phil walked into the room looking angry’. Where this helps someone on the autistic spectrum is it identifies the emotion which may be difficult for them to pin down and it also provides another input track to reinforce the information. If the person is struggling to identify the different people in the scene, audio description names the person so the visuals and the audio help create a complete picture.

Captions again provide a reinforcement of what is going on visually and what is being said. Captions should identify the speaker and what’s being said, identify other sounds, birds singing, car tyres screeching etc and song lyrics. For somebody who is on the autistic spectrum it gives a greater depth of understanding and context by providing a second input stream. People on the autistic spectrum may struggle with audio processing, that is filtering out different sounds and distinguishing between what’s relevant and what is not relevant. If there is an audio overload with lots of different sounds because of the audio processing issues some people on the autistic spectrum have, all or most of the audio could be rendered totally meaningless and captions provide a backup for when this occurs.

It is now acknowledged that television has a lot more ambient noise issues than in the past. This means we will all miss words from time to time regardless of whether we are D/deaf or hard of hearing. As well as the audio processing problems created by additional noise, missing words for someone who is on the autistic spectrum may be critical if they have a need for complete information, the subtitles help fill in the gaps so from several different streams a complete picture is provided.

Providing additional viewing support through audio description and captions allows people on the autistic spectrum to watch television without asking family and friends, ‘What does that mean?’, ‘Who’s that?’ and ‘Why did that happen?’.

Where did I come across this

I first came across this behaviour when user testing IPTV (Television services) for the BBC in 2010 with participants on the autistic spectrum.

Who else can audio description and captioning help.

In further television platform testing with the BBC in 2011 I also came across a participant with ADHD who found audio description massively helpful and a participant with Dyslexia who used captions to help her improve her spelling.

So what does this tell us about access? Probably that there is a much bigger community that can benefit from audio description and captions than just Blind and D/deaf people.

Heated debates

There are lots of heated debates particularly about captioning. In the UK we are very lucky that the BBC caption 100% of UK broadcast programmes and the other UK broadcasters are catching up. On the web it’s a different story with a lot of video material not being captioned. Audio description is still a rarer entity. Now we can say there is a whole group of people who these features may support. It’s unclear exactly how many people there are in the UK on the autistic spectrum including Aspergers but estimates suggest over 1% of children have the condition and children grow into adults. Screening of children in schools is far more sophisticated than it was twenty, thirty or fifty years ago. What this may mean is there are a lot of people who have never been diagnosed and never will be diagnosed.

In closing

I have come across this behaviour in small qualitative studies so I don’t have big numbers to share but I felt this was a very interesting finding that deserved to be shared. Particular thanks to the BBC for commissioning these research projects with autistic spectrum participants and to Jamie Knight and Lion for reviewing and advising on this post. I hope more researchers will back up this research and we can caption an audio describe the world. I would appreciate any feedback.

References

Social model of disability:
Neurodiversity: http://mikestanton.wordpress.com/my-autism-pages/what-is-neurodiversity/
Ambient Noise:http://www.bbc.co.uk/blogs/tv/2011/03/is-the-background-music-too-loud.shtml
Statistics: how many people have autistic spectrum disorders?
Jamie Knight and Lion:http://pluslion.com/

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  • Judith Fellowes

    Judith is a user experience consultant who is passionate about making technology usable and accessible for all. She promotes inclusion and diversity in all her work.Judith’s interest in the human challenges of technology led her to specialise in that area and she undertook a Masters in Usability at Lancaster University in 2002 gaining a distinction for her thesis on scenario based design.Judith’s research work has encompassed a wide range of devices and software including Web, IPTV, PC and mobile. Her clients have included Vodafone, the BBC, HSBC and Orange.View all article by Judith Fellowes

Espectro autístico, legendas e áudio-descrição

Uma versão anterior deste trabalho foi publicada em http://mindfulresearch.co.uk/2011/08/29/autistic-spectrum-captions-and-audio-description/


O texto a seguir foi originalmente escrito por Judith Fellowes publicado em: audiodescriptionworldwide.com/rbtv/autistic-spectrum-captions-and-audio-description e traduzido por Tereza R. Gomes abaixo.


Resumo

Este artigo aborda como a áudio-descrição, destinada às pessoas cegas ou com deficiência visual, e legendas, destinadas às pessoas surdas ou com deficiência auditiva, podem dar suporte a pessoas com outras deficiências e necessidades de acessibilidade, em particular com autismo.
Palavras-chave: Espectro autístico, legendas, áudio-descrição, necessidades de acessibilidade, televisão.

Abstract

This article discusses how audio description intended for people who are blind or visually impaired and captions intended for people who are deaf or hard of hearing can support people with other access needs particularly autism.
keywords: Autistic spectrum, captions, audio description, access needs.

Introdução

Você deve estar pensando o que é que legendagem e áudio-descrição (A-D) têm a ver com o espectro autístico. Afinal, não são as legendas para as pessoas surdas com deficiência auditiva e a áudio-descrição para as pessoas com deficiência visual?

Nestes últimos anos a pesquisa que fiz revelou que a áudio-descrição e as legendas podem beneficiar, e são utilizadas por pessoas com espectro autístico.

Muitas das discussões para um ambiente mais acessível, seja físico ou digital, começam com raciocínios tais como ‘rampas para cadeirantes são úteis para carrinhos de bebês’. Legendas e áudio-descrição são uma rampa metafórica e fornecem valor de um tipo diferente às pessoas com espectro autístico. Não há nada de novo em dar um novo propósito para a tecnologia, cada um que promove desenvolvimento tem histórias de como os usuários dão um novo propósito aos seus produtos.

1. O que é espectro autístico?

Evitarei diagnósticos médicos aqui, uma vez que analiso o assunto de uma perspectiva de experiência de usuários. Sou fortemente influenciada pelo modelo social de deficiência, que dá enfoque no que as pessoas podem fazer ao invés do que elas não podem fazer, e a neurodiversidade que interpreta o espectro autístico não como algo separado ou que falta, mas como parte de uma gama do comportamento humano. Vou examinar como o espectro autístico afeta a interação e o entrosamento das pessoas. Tipicamente, as pessoas com o espectro autístico, o que inclui também as pessoas com Asperger, lutam para entender as emoções humanas e para interagir com as pessoas.

Assim, as pessoas com espectro autístico, por exemplo:

  • Podem não compreender o sarcasmo ou certos tipos de humor.
  • Podem lutar para compreender comunicações não-verbais tais como ler as emoções no rosto de outra pessoa e as inferências da linguagem corporal.
  • Podem não saber se uma pessoa está com raiva, triste, desapontada ou alegre.
  • Podem ter dificuldade em reconhecer rostos diferentes e identificar pessoas.
  • Podem lutar com o processamento de áudio, como por exemplo compreender pessoas que conversam de forma muito rápida ou diversas pessoas que falam ao mesmo tempo, talvez com ruídos de fundo.

Outra característica do espectro autístico é um foco intenso em uma pequena área de interesse, e o termo técnico para isso é Monotropismo.

O significado de Monotropismo é que uma pessoa com espectro autístico focaliza com grande detalhamento uma ou duas coisas, ao invés de observar tudo amplamente. O que significa que qualquer área de assunto é observada com grande detalhamento e cada detalhe de algo deve ser compreendido ou toda a informação pode se tornar inválida.

Em uma entrevista que fiz com uma pessoa com espectro autístico, ela me disse que todo link em uma página na web tinha que ser seguido. Isto é, todas as referências e todos os hyperlinks. Leva muito tempo para entrar em tudo, e se alguma das informações conflitar com o modelo mental do próprio indivíduo, então tudo ficaria inválido.

O monotropismo pode na verdade ser de grande valia em alguns ambientes onde é necessário precisão, detalhamento e grande exatidão. Qualquer equipe multidisciplinar pode se beneficiar ao ter em seu grupo um membro com espectro autístico, garantindo que todos os detalhes estejam corretos.

O espectro autístico inclui uma gama muito ampla de pessoas, desde aquelas que são não-verbais com autismo de alto funcionamento e Aspergers (pessoas com QI acima da média e que se sobressaem em sua própria esfera de ação).

2. Por que legendas e áudio-descrição ajudam?

Considerando estas duas características do espectro autístico (compreendendo a emoção e entrosamento humanos, e o Monotropismo), o que é que as legendas e a áudio-descrição podem fornecer?

A áudio-descrição foi originalmente elaborada para atender às pessoas com deficiência visual. Ela preenche o que é necessário, fornecendo informações que sejam puramente visuais em um formato de áudio e é utilizada em televisão, teatro e cinema. Então, por exemplo, se você estiver assistindo Eastenders, e Phil Mitchell entrasse na sala com raiva, a áudio-descrição poderia ser ‘Phil entra na sala com rosto zangado’. Isto ajuda alguém com espectro autístico porque identifica a emoção que pode ser de difícil captura para ele, e também fornece outra pista de entrada para reforçar a informação. Se a pessoa com autismo estiver com dificuldade em identificar as diferentes pessoas da cena, a áudio-descrição nomeia a pessoa de forma que os aspectos visuais e auditivos ajudem a criar um entendimento completo.

Da mesma forma, as legendas dão um reforço para o que está acontecendo visualmente e o que está sendo dito; identifica outros sons, canto de pássaros, pneus de carro cantando no asfalto, letras de músicas, etc. Para alguém com espectro autístico, a legenda dá maior amplitude de compreensão e contextualização, por meio de um segundo canal de entrada.

As pessoas com espectro autístico podem ter dificuldade com o processamento de áudio, ou seja, com a filtragem de sons diferentes, e ter dificuldade em distinguir entre o que é e o que não é relevante.

Se houver sobrecarga de áudio, com muitos sons diferentes, devido a questões de processamento de áudio, que algumas pessoas com espectro autístico têm, todo ou grande parte do áudio pode ficar completamente sem sentido e as legendas dão um suporte, quando isso ocorre.

É sabido que hoje a televisão possui muito mais questões de ruído ambiente do que no passado. Isto significa que todos nós perderemos uma palavra ou outra de tempos em tempos, não importando se somos surdos ou tenhamos deficiência auditiva. Assim como ocorre com os problemas de processamento de áudio, criados por ruídos adicionais, a perda de palavras, para a pessoa com o espectro autístico, pode ser crítica se este precisar de informações completas. As legendas ajudam a preencher as lacunas, de forma que, através de diversos canais, é fornecida uma cena completa.

Fornecer apoio adicional de visualização através da áudio-descrição e legendagem permite que as pessoas com o espectro autístico assistam à televisão sem ficarem perguntando aos familiares ou amigos: “o que quer dizer isso?”, “Quem é ele(a)?” e “Por que aconteceu isso?”.

3. Onde me deparei com isto?

Eu encontrei este comportamento pela primeira vez quando testava o uso de IPTV (serviços televisivos) para a BBC em 2010, com participantes com espectro autístico.

Quem mais pode ser beneficiado pela legendagem e áudio-descrição?

Depois disso, em 2011, em testagem de plataforma de televisão com a BBC eu também me deparei com um participante com TDAH (Transtorno de Deficiência de Atenção-Hiperatividade) que achou a áudio-descrição extremamente útil; e uma participante com Dislexia que utilizava as legendas para melhorar a sua escrita.

Mas então, o que isto nos diz sobre acessibilidade? Provavelmente, nos diz que há uma comunidade muito maior que pode se beneficiar da áudio-descrição e legendas do que apenas as pessoas cegas ou com deficiência visual e as pessoas surdas.

4. Debates acalorados

Existem diversos debates acalorados, em especial sobre legendagem. No Reino Unido temos muita sorte que a BBC legende 100% dos programas transmitidos e que outros programas do Reino Unido estejam acompanhando.

Na internet é uma história diferente, com muito material de vídeo que não recebe legendagem. A áudio-descrição é ainda uma entidade rara. Agora podemos dizer que há todo um grupo de pessoas que podem se beneficiar com estes recursos. Não está claro exatamente quantas pessoas há no Reino Unido com espectro autístico, incluindo os Asperger, mas se estima que mais de 1% das crianças têm essa condição e crianças tornam-se adultos.

O diagnóstico de crianças nas escolas está muito mais acurado do que era há 20, 30 ou 50 anos atrás. O que pode significar que há muitas pessoas que nunca foram e nunca serão diagnosticadas.

5. Concluindo

Eu me deparei com este comportamento em estudos qualitativos pequenos, portanto não possuo grandes números a compartilhar. Mas senti que isto era uma descoberta muito interessante que merecia ser compartilhada. Agradeço em particular à BBC por autorizar estes projetos de pesquisa com participantes com espectro autístico, e à Jamie Knight e Lion por reverem e darem assessoria neste artigo. Espero que mais pesquisadores apoiem esta pesquisa e que possamos legendar e áudio-descrever o mundo. Todo feedback é bem vindo.

6. Referências

Social model of disability:
Neurodiversity: http://mikestanton.wordpress.com/my-autism-pages/what-is-neurodiversity/
Ambient Noise:http://www.bbc.co.uk/blogs/tv/2011/03/is-the-background-music-too-loud.shtml
Statistics: how many people have autistic spectrum disorders?
Jamie Knight and Lion:http://pluslion.com/

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  • Judith Fellowes

    Judith is a user experience consultant who is passionate about making technology usable and accessible for all. She promotes inclusion and diversity in all her work.Judith’s interest in the human challenges of technology led her to specialise in that area and she undertook a Masters in Usability at Lancaster University in 2002 gaining a distinction for her thesis on scenario based design.Judith’s research work has encompassed a wide range of devices and software including Web, IPTV, PC and mobile. Her clients have included Vodafone, the BBC, HSBC and Orange.View all article by Judith Fellowes
  • Tereza R. Gomes

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