RBTV #4: Reflexões sobre o pilar da  áudio-descrição:  “descreva o que você vê”

Escrito por: Fabiana Tavares dos Santos Silva, Viviane de Bona, Andreza da Nóbrega, Arruda Silva, Isis Carvalho e Elisangela Viana da Silva.

RESUMO

O presente artigo discute as questões da acessibilidade das pessoas com deficiência visual às imagens que circulam em contextos educacionais, culturais e de lazer.  Defende que a áudio-descrição é, ao mesmo tempo, um recurso assistivo, uma técnica de tradução visual e um gênero textual, situado na filosofia inclusivista.  Aborda a conceituação da áudio-descrição mostrando o que a diferencia  da tipologia descritiva e indicando  quais  as bases  utilizadas pelo áudio-descritor  para tornar  imagens acessíveis.  E ainda, a partir da percepção da imagem, em especial de uma imagem ambígua, comumente trabalhada na Psicologia, reflete o pilar da áudio-descrição “Descreva o que  você vê”. Conclui que essa orientação traz à ação do áudio-descritor a imparcialidade e ao usuário de serviço as possibilidades de interpretação das imagens disponíveis.

Palavras-chave: áudio-descrição, descrição, gênero textual, pilares da áudio-descrição.


ABSTRACT

This article discusses  the  issues  of people accessibility with visual impairments to the images that circulate in educational settings, cultural and leisure activities. Argues that the audio description is, at the same time, an assistive application, a visual translation technique and  textual genre situated  in the inclusivist philosophy.  Discusses the concept of audio description showing distinct of descriptive typology indicating the bases used by the audio-describer to make images accessible.  And besides, from the image perception, especially of an ambiguous image, usually worked in psychology, reflects the pillar of the audio description “Describe what you see.” Concludes that this orientation brings the action of the audio-describer impartiality and the service user the interpretations possibilities of available images.

Keywords: audio description, descrition,genre, pillars of the áudio description

RBTV #3: O direito das crianças com deficiência visual à áudio-descrição

Escrito por Francisco José de Lima e Rosângela A. F. Lima

Resumo

Este artigo apresenta, em primeiro momento, robusta sustentação jurídica para o direito de as pessoas com deficiência visual ter acesso à áudio-descrição, defendendo que a não provisão desse recurso assistivo constitui, tanto negligência para com a educação da criança com deficiência visual, quanto discriminação por razão de deficiência. De um lado, esteia essa defesa em documentos internacionais de defesa das crianças, os quais as salvaguardam de maus tratos, da discriminação e da afronta à sua dignidade de criança e pessoa humana. De outro, sustenta o direito à áudio-descrição, na Constituição Brasileira, a qual define a educação como direito indisponível e garante esse direito a todas as crianças, com igualdade de condições, independentemente de suas características fenotípicas, sociais ou genéticas. Em um segundo momento, este artigo sustenta a defesa pela oferta da áudio-descrição, devido aos benefícios que este recurso assistivo pode trazer para a inclusão cultural e educacional da pessoa com deficiência visual, uma vez que, enquanto técnica de tradução visual, ela permite o acesso às imagens, por intermédio das palavras a serem ouvidas, lidas e/ou faladas, natural ou eletronicamente. Trata, também, de como as visões tradicionalistas sobre a capacidade de a pessoa cega fazer uso das imagens, produzindo-as e/ou as compreendendo, têm levado à negação de direitos, ao prejuízo educacional, e em última instância ao preconceito para com as pessoas cegas. Conclui, fazendo a assertiva de que não se trata de perguntar quando se vai oferecer a áudio-descrição, mas de se buscar as condições para melhor formar os áudio-descritores; melhor prover o serviço de áudio-descrição e melhor aparelhar o público alvo para a recepção desse serviço, começando com a criança pequena, lá na escolinha, até o adulto na universidade ou em outro locus social.

Palavras-chaves: áudio-descrição, direito inclusivo, criança com deficiência visual


Abstract

This article presents robust arguments for the provision of audio description for children with vision disability in Brazil. It supports its point of view on national and international laws and conventions that protect children from all forms of harm and discrimination. Audio description is considered an assistive technology capable of given children access to education, culture and leisure by providing visual information of things and events that originally were not available to blind people. It concludes that it is necessary to invest on training audio describers, improve audio description services and educate blind people about receiving and profiting from audio description accessibility.

Keywords: audio description, people with visual disability, accessibility, attitudinal barriers.

RBTV #3: Leitura comentada da carta sobre os cegos

Escrito por Isabel Pitta Ribeiro Machado (pccinemaempalavras@gmail.com). Trabalho originalmente apresentado em comunicação no COLE- Congresso de Leitura do Brasil- Unicamp, julho de 2005.

Resumo

O presente trabalho se funda na intenção de promover uma discursão crítica da leitura, não só oferecendo uma proposta de debate sobre o conteúdo da Carta sobre os cegos, escrita pelo filósofo iluminista Denis Diderot, mas principalmente, oferecendo um debate sobre a acessibilidade de pessoas com deficiência visual a textos de qualidade que os auxiliem na construção de princípios filosóficos e noções de cidadania.

Palavras-chave: filosofia; pessoa com deficiência; literatura; áudio-descrição; audiodescrição.

RBTV #2: Para inglês ouvir: Política de adoção da audiodescrição na TV digital do Reino Unido

Resumo

O Reino Unido estreou a era da televisão digital em 1998 com o padrão DVB (Digital Video Broadcasting). Onze anos depois, o Ofcom (Office of Communication – órgão regulador do setor de comunicação do Reino Unido) anunciou que 89,8% dos lares ingleses recebiam o sinal digital. Após o desenvolvimento dessa tecnologia, foi iniciado em 2008 o processo de desligamento da transmissão analógica de televisão, que está previsto para terminar em 2012. Além da multiprogramação e da alta qualidade de som e imagem, os ingleses foram os primeiros a conseguirem disponibilizar a audiodescrição como opção de acessibilidade nessa nova mídia. A audiodescrição é um áudio extra que descreve o cenário, o figurino, a movimentação dos personagens e todos os outros elementos que não são compreendidos, principalmente, por pessoas com deficiência visual. O objetivo é acrescentar esse áudio durante os intervalos dos diálogos, sem, no entanto, sobrepor informações contidas na trilha sonora original. Vale lembrar, que este recurso atende também às necessidades de pessoas com dislexia, com deficiência intelectual e ainda idosos.

Atualmente, 10% da programação já possuem audiodescrição e há uma forte pressão para que essa cota aumente para 20%. O presente artigo pretende apontar, através e referências bibliográficas e documentais, algumas especificidades da televisão digital no Reino Unido e como está sendo feita a política de promoção da audiodescrição nesse meio de comunicação. Primeiramente, será exposto o conceito do termo audiodescrição. Depois, será traçado um breve panorama da implementação da TV digital no país, bem como suas estratégias políticas até chegar no switch over e na segunda geração do DVB.

Após essa contextualização, pretende-se analisar as iniciativas políticas para a inserção, promoção e aprimoramento da audiodescrição na televisão digital inglesa. Para isso serão apresentados dois atores chaves no desenvolvimento dessa política: o Ofcom e o RNIB (Royal National Institute of Blind People). O estudo sobre a política de implantação desse recurso de acessibilidade no Reino Unido, onde a audiodescrição está mais difundida, serve como ponto de partida para outros países que pretendem avançar na questão de inclusão social de pessoas com deficiência visual através dos meios de comunicação, principalmente, a televisão.

Palavras chave: Audiodescrição. Televisão Digital. Política de Comunicação. Reino Unido.

DVB. OFCOM.

1. Audiodescrição

Primeiramente, faz-se necessário conceituar o termo audiodescrição uma vez que ele parece ser novo mesmo no Reino Unido, como será comprovado ainda neste artigo através dos dados referentes às últimas pesquisas relativas a esse recurso.

É sabido que pessoas com deficiência visual não usufruem uma recepção de textos audiovisuais, teatrais e outros tipos de conteúdos culturais de forma apropriada às suas necessidades. A audiodescrição é um recurso de acessibilidade que promove uma fruição satisfatória de produções culturais. Esta técnica é um tipo de tradução audiovisual e, por se tratar de tradução de imagens em palavras, ela é considerada uma tradução intersemiótica.

Esse recurso consiste em um áudio extra com descrições de cenários, figurinos, expressões faciais e corporais dos personagens, ações, entrada e saída de personagens e todos aqueles elementos relevantes para a compreensão do conteúdo visual por uma pessoa com dificuldade para usufruir tal conteúdo. Preferencialmente, essa narração deve entrar entre os diálogos e os efeitos sonoros para que não haja sobreposição de informações. Vale lembrar que este recurso atende também às necessidades de pessoas com dislexia, com deficiência intelectual e ainda idosos.

A satisfação de espectadores que utilizam o serviço de audiodescrição foi comprovada em uma pesquisa do Ofcom em 2008 com espectadores que utilizam esse recurso. Entre os principais benefícios apontados estão: o ato de assistir a televisão ficou mais agradável, a sensação de igualdade por poder comentar com pessoas sem deficiência os programas de TV, independência e inclusão social. Porém, segundo o mesmo estudo, ainda há muito para ser melhorado. Os espectadores com deficiência visual responderam que se deve aumentar o número de programas que disponibilizam o recurso, bem como a ampliar dos gêneros de programas e ainda melhorar a forma como é informada a existência da opção do serviço no programa (OFCOM, 2008, p. 30).

Antes de iniciar a exposição sobre a adoção da audiodescrição no Reino Unido e os atores envolvidos nessa temática, abordaremos a implementação da televisão digital neste país bem como as questões políticas e econômicas relacionadas a este processo.

2. TV Digital no Reino Unido

2.1. O Padrão DVB

No início dos anos 90 empresas do setor de comunicação começaram a discutir a viabilidade da criação de uma plataforma pan européia de televisão digital terrestre. Foi então que em 1993 foi criado o Digital Video Broadcasting Project, formado por representantes do setor privado e público. Na mesma época, o Working Group in Digital Television também estava estudando possibilidades para essa nova mídia e trouxe para a discussão novos conceitos como recepção móvel e HDTV (High Definition Television). Entretanto, o Digital Video Broadcasting Project tinha a vantagem de ter membros que eram da European Broadcasting Union o que agilizou a normatização do padrão DVB (Digital Vídeo Broadcasting) (DVB ORG, online).

O projeto DVB era dividido em dois módulos de trabalho: o comercial e o técnico. O grande desafio inicial era desenvolver um padrão que atendesse tanto as tecnologias de broadcasting digital via satélite, cabo e terrestre. O sistema também deveria transportar em pacotes uma combinação de arquivos de áudio, imagem e multimídia, permitindo assim que posteriormente qualquer tipo de nova mídia e diferentes tipos de vídeos e áudios de alta definição pudessem ser transmitidos. O enfoque do padrão foi trazer multiprogramação, interatividade e som e imagem de alta qualidade.

Por causa do avanço do projeto MAC (Multiplexed Analogue Components) da Comissão Européia, que norteou os parâmetros da tecnologia digital, a indústria broadcasting por satélite e por cabo se desenvolveram mais rapidamente do que a terrestre. Por isso, em 1993 o padrão DVB-S (Digital Video Broadcasting for Satellite) foi lançado e no ano seguinte o DVB-C (Digital Video Broadcasting for Cable networks) chegou ao mercado (DVB ORG, online). Entretanto, somente a partir de 1998 é que o público pode usar essa tecnologia.

Após o desenvolvimento desses tipos de padrões e das tecnologias de compressão de dados, está em desenvolvimento a segunda geração do DVB. Uma das novidades é o uso do MPG-4 para a compressão. Vale ressaltar que os novos padrões são compatíveis com a primeira geração.

2.2. Regulamentação do setor

Em 1995, a BSkyB (empresa do conglomerado do australiano naturalizado estadunidense Rupert Murdoch) já liderava o mercado de televisão paga analógica com 75% das assinaturas de televisão via satélite (Goodwin, 2005, p.155), que ultrapassavam os 5 milhões de assinantes. A preocupação do governo era em relação à manutenção dessa liderança na era digital. Para combater uma possível concentração do mercado televisivo nas mãos da empresa, o governo teve que regular a competição econômica no mercado. Por isso, foi criado o Broadcasting Act em 1996, que determinava entre outros pontos, a licença de transmissão para o desenvolvimento da televisão digital de outra maneira além da transmissão via satélite (Broadcasting Act 1996, 8). A estratégia usada para viabilizar isso foi regulamentar a concessão de multiplexadores nacionais. Ou seja, o espectro britânico foi dividido em 6 faixas e cada uma seria controlada por um operador. A empresa fica responsável pela transmissão de 4 a 6 canais em uma faixa do espectro na qual antes era possível transmitir somente um canal. Dos seis multiplexadores, três foram destinados sem custo algum para emissoras de transmissão terrestre existentes (BBC, ITV, Channels 4 e 5 e S4C), e o restante foi destinado a ITC (Independent Television Commission), órgão público responsável na época por regular a televisão comercial. Ela era responsável por determinar quais empresas iriam controlar os outros três multiplexadores (SMITH, 1999). Após uma disputa entre a DTN (Digital Television Network) e a BDB (British Digital Broadcasting), que em 1998 passou a se chamar ONdigital, esta venceu a batalha após desfazer uma aliança com a BSkyB por pressão política. Mas como afirma Goodwin (2005), a BSkyB passou de benevolente sócia para voraz concorrente no campo da plataforma digital. Prova disso foi que a BSkyB lançou seu serviço digital com seis semanas de antecedência em relação à ONdigital. Entretanto, mesmo depois de ser reformulada para ITV Digital, em 2002 foi decretada a falência da ONdigital (GOODWIN, 2005, p. 161-162).

A saída encontrada para o até então fracasso da televisão digital terrestre no Reino Unido foi a criação da Freeview, um consórcio comandado pela BBC, Crown-Castle e BSkyB. Segundo Cave, a participação da BBC é dada pelo controle de um multiplexador, a BSkyB provê alguns canais e a Crown-Castle comanda dois multiplexadores (CAVE, 2006, p.108). Trazendo a proposta de TV digital terrestre gratuita, a Freeview conseguiu mais adesão do público inglês a essa nova mídia. O grande atrativo, diferente do modelo da ITV Digital, era a recepção gratuita de canais, dessa forma, o espectador paga somente o equipamento (set-top box ou aparelho de televisão com o conversor digital integrado). A comprovação do sucesso é que hoje a Freeview é líder no mercado de televisão digital. Todavia, Goodwin (2005) afirma que se o Reino Unido liderou a revolução da TV digital em 2003, muito se deve à televisão digital por satélite e não terrestre.

Apesar de o governo ter anunciado em 1999 que o switch over ocorreria no período de 2006 a 2010, o processo de desligamento do sinal analógico só iniciou em 2008 com previsão de término em 2012 (CAVE, 2006, p. 110). Um dos motivos para o adiamento era que a adesão à nova tecnologia era baixa. Dentre as iniciativas para essa mudança, em 2007, o governo inglês criou um programa de ajuda ao switch over (Digital Switchover Help Scheme) para atender pessoas com mais de 75 anos, pessoas com deficiência que recebem auxílio financeiro do governo, pessoas que recebem cuidado domiciliar e pessoas com deficiência visual. O programa, que pretende atingir 7 milhões de pessoas, irá prestar auxílio em relação a equipamentos, instalação e suporte técnico após o desligamento do sinal analógico. O departamento de Cultura, Mídia e Esporte e a BBC são os responsáveis pelo projeto, cujo custo é estimado em 603 milhões de libras. Para as pessoas atendidas pelo serviço pode haver um custo padrão de 40 libras, mas dependendo da situação financeira da família, essa taxa pode não ser cobrada. Tendo em vista que um dos públicos alvo são pessoas com deficiência visual, foi colocado no projeto que os equipamentos deverão ter configuração compatível para receberem a audiodescrição (Digital Help Scheme Agreement, online).

A prova do deslanche da TV digital no Reino Unido é o relatório sobre progresso dessa nova mídia relativo ao segundo semestre de 2009. Segundo o Ofcom, 89,8% das casas desfrutavam na televisão digital, sendo que 12,9% via cabo, 34,8% via satélite e 40,2% via terrestre – 37,6% Freeview e 2,7% por via satélite gratuito (OFCOM, 2009b).

Em decorrência da completa digitalização do setor, o governo enfrenta a questão do dividendo digital. Desde 2004, o Ofcom está discutindo como será a gestão da parcela do espectro radioelétrico que ficará sem uso devido à menor faixa de banda necessária para a transmissão digital em relação à faixa usada para a transmissão analógica. O órgão busca garantir que o espectro seja explorado com o máximo de aproveitamento e que seus usuários possam ter a flexibilidade de adaptação e inovação no seu uso. Para Leiva (2009), o governo está deixando importantes questões de lado como: reservar freqüências para futuras inovações no uso do espectro; deixar espaço para uso livre de obtenção de licença; e reservar um espaço para o desenvolvimento da televisão móvel. Mas, governo britânico vem sofrendo pressões da Comissão Européia que deseja a harmonização técnica de utilização da subfaixa 790 – 862 MHz para ser destinada à transmissão de dados da telefonia celular, o que pode facilitar o serviço de roaming internacional. Segundo Matthew Howett (BBC NEWS, 2009), o Ofcom está tentando cooperar com a União Européia nesse momento que é propício para a telefonia celular.

3. Audiodescrição no Reino Unido

3.1. Outro tipo de Guarda

Para substituir a Independent Television Commission (ITC), a Radio Authority (RA), o Radiocommunications Agency , o Office of Telecommunications (Oftel) e a Broadcasting Standards Commission (BSC) foi criado em 2003 o Office of Communication (Ofcom) através do Communication Act. Este novo órgão é uma instituição independente responsável por regular a telecomunicação, a radiodifusão e o uso do espectro britânico. Os objetivos do Ofcom foram descritos no White Paper de 2000. Segundo o documento, as três áreas de atuação do órgão seria requerer das empresas auto-regulamentação em relação: 1) à qualidade dos conteúdos, à quantidade de publicidade, aos patrocinadores e à acessibilidade a pessoas com deficiência; 2) às cotas na programação para conteúdos independentes e regionais e à agilidade na transmissão de notícias; 3) à qualidade do serviço público prestado de radiodifusão. Às empresas caberia fazerem sua auto-regulamentação e o Ofcom iria intervir como último recurso para fazer valer os objetivos desse serviço público (SMITH, 2006).

Neste momento cabe um pequeno esclarecimento sobre o modelo britânico de regulamentação que possui dois tipos de documentos chaves para a criação de uma lei. O primeiro é o Green Paper é um documento resultante de uma consulta liderada pelo governo, que contém propostas com diversas alternativas para futuras políticas governamentais. O Green Paper irá contribuir para a produção do segundo documento que é o White Paper. Este contém fortes recomendações que poderão resultar em uma mudança legislativa. Diferentemente do primeiro, o White Paper é de responsabilidade do departamento relativo à temática do documento (ACCA, 2009). Somente após a discussão do White Paper é feito o projeto de lei que é enviado ao Parlamento e votado para receber, se aprovado, o assentamento real tornando-se lei (LEAL FILHO, 1997, p.43).

Voltando às questões relativas à regulamentação no Reino Unido, Smith (2006) afirma que a criação do Ofcom, através do Communication Act, foi determinada por três fatores: o esforço dos meios de comunicação comercial na convergência digital, a qual foi usada para justificar a desregulamentação do setor; ao comprometimento do novo partido Trabalhista aos princípios de liberalização do mercado e políticas de inovação; a batalha travada entre dois órgãos governamentais (ITC e Oftel); e acordos entre departamentos rivais durante o mandado do partido Trabalhista (SMITH, 2006, p. 937). O Communication Act concedeu ao Ofcom autoridade para fiscalizar o mercado do espectro do Reino Unido na era digital. Entretanto, Harding e O‟Connor (apud SMITH, 2006, p. 936) comentam que a política de desregulamentação lançada com o Communication Act preparou o terreno para o aumento da concentração dos meios de comunicação, ao acabar com as restrições de fusão e controle de empresas estrangeiras (principalmente estadunidense) no setor de comunicação.

Sendo o órgão que regulamenta o setor de comunicação, o Ofcom é o responsável pela política de implementação dos recursos de acessibilidade previstos pelo White Paper de 2000. Antes de analisar os principais pontos da estratégia para a adoção da audiodescrição na televisão digital do Reino Unido, será apresentado rapidamente o RNIB, que é o principal instituto que atende às pessoas com deficiência visual no Reino Unido. Essa entidade pressiona e colabora com o Ofcom para a promoção da audiodescrição no país.

3.2. Lobbista de Peso

O fundador da RNIB foi Thomas Rhodes Armitage, um médico que aos trinta anos perdeu a visão e começou a lutar pela auto-estima e por novas oportunidades para as pessoas com deficiência visual. Em 1868, ele fundou a British and Foreign Society for Improving Embossed Literature for the Blind, que depois se transformou em British and Foreign Blind Association. Mas foi somente em 1953 que foi dado o nome de Royal National Institute of the Blind e mais recentemente, em 2007, foi acrescentado a palavra People ao final do nome.

As áreas de atuação do instituto são: a promoção do Braille através de publicações como revistas, livros, panfletos, contas de banco, partituras musicais, entre outros produtos em Braille; o auxílio a estudantes com deficiência visual, pais, professores, escolas e faculdades que atendem a esse público; treinamento e capacitação para o mercado de trabalho; venda de equipamentos específicos para esse público; prestação de serviço na produção de áudio livros e manutenção da biblioteca nacional da RNIB; promoção e divulgação da audiodescrição e locação e venda de vídeos com esse recurso; suporte para informações sobre deficiência visual via telefone e email. Além de atuar na sociedade com campanhas de conscientização e divulgação de informações relacionadas à deficiência visual (RNIB, 2009b, online).

O RNIB contribui ativamente na promoção e divulgação da audiodescrição para informar a população sobre como ela deve acessar o serviço. Foram disponibilizados no site e em folders (digitais e impressos) informações sobre quais equipamentos são necessários, como usar e quais as vantagens do serviço. A instituição também informa sobre como uma pessoa pode ser beneficiada pelo programa de ajuda para o término da transmissão de sinal analógico de televisão (Digital Swtichover Help Scheme). Como já foi comentado neste artigo, caso o espectador seja candidato ao auxílio, o governo subsidia a compra do aparelho para a recepção do sinal digital de TV (o set-top box) (RNIB, 2009b, online).

Além de pressionar o governo e os radiodifusores, o RNIB também atua junto às produtoras de cinema para a inclusão da audiodescrição nos DVD e nas salas de cinemas. O resultado desse trabalho é que em 2009, mais de 300 salas de cinemas já estavam preparadas para prover aos espectadores cegos um fone de ouvido capaz de receber a transmissão da audiodescrição. E mais de 400 títulos de DVDs com audiodescrição já estavam sendo vendidos nas lojas (YOUR LOCAL CINEMA, online). O RNIB ainda arranja fôlego para ir além das fronteiras britânicas. Em outubro deste ano, foi lançado o projeto Bollywood que pretende expandir e promover a audiodescrição na indústria cinematográfica da Índia. O papel da instituição é aproximar organizações britânicas e indianas que atendem a pessoas com deficiência visual e ainda fazer recomendações para Bollywood adotar a audiodescrição em seus filmes.

4. Uma questão de política pública

A temática da audiodescrição está presente em pesquisas do Reino Unido desde a década de 90. Entre 1992 e 1995, a ITC realizou o projeto Audetel (Audio Described Television). Reguladores, associações de espectadores e empresas de radiodifusão se integraram para desenvolver audiodescrição para a televisão. Foi demonstrado que era possível a transmissão de audiodescrição através dos sinais analógicos da televisão. Esse projeto foi substituído pelo Broadcasting Act de 1996 que determinou que em dez anos 10% dos programas da televisão digital terrestre deveriam ter audiodescrição (GREENING; ROLPH, 2007, p. 128). Outro projeto desenvolvido foi o TIWO (Television in Words), durante 2002 e 2004, que tinha como objetivo criar um sistema computacional que permitisse otimizar a criação de roteiros de audiodescrição e personalizar esse recurso para diferentes audiências (jovens, idosos, pessoas com ou sem memória visual e pessoas que preferem mais ou menos aprofundamento na interpretação do conteúdo) (SALWAY, online). Porém, este estudo esbarra em um ponto importante do processo de produção audiovisual. Poucas são as produções que seguem a risca o roteiro original, ou seja, durante as gravações, a edição ou a finalização de um conteúdo, muitos elementos são alterados em relação ao roteiro de gravação. Para além das fronteiras do Reino Unido, pesquisadores europeus e de outras partes do mundo têm discutido desde 2005 questões relacionadas à acessibilidade e ao acesso às mídias na conferência Media for All. Em sua terceira edição realizada na Antuérpia (Bélgica) em outubro de 2009, foram abordados entre outras temáticas, como legendagem, dublagem, legenda fechada para surdos, a audiodescrição. Além de dois workshops sobre o assunto,

foram apresentados 17 trabalhos sobre aprimoramento das técnicas de audiodescrição e experiências na adoção desse recurso. Um dos trabalhos apresentador foi os primeiros resultados do Pear Tree Project, que tem como objetivo a criação de um padrão de qualidade para a audiodescrição européia. Os países participantes do projeto são Reino Unido, Espanha, Grécia, Bélgica, Polônia, Itália, Irlanda e França. Considerando as especificidades de cada língua, esse trabalho busca padrões para o aperfeiçoamento da audiodescrição nos conteúdos europeus (MEDIA FOR ALL, 2009).

Além da pesquisa, o Reino Unido se destaca por colocar em prática a audiodescrição. Depois da determinação em relação à porcentagem da programação com audiodescrição do Broadcasting Act em 1996, o Communication Act em 2003 ampliou a obrigatoriedade do serviço para a televisão digital a cabo e por satélite. Mas foi com o Code on Television Access Services do Ofcom que determinou 2008 como data limite para a adoção da audiodescrição em 10% da grade de programação (GREENING; ROLPH, 2007, p. 128).

A plataforma digital permitiu a adoção da audiodescrição devido ao avanço tecnológico em relação à televisão analógica. Com o aumento da compressão de dados é possível acrescentar um canal de áudio exclusivo para esse tipo de recurso de acessibilidade. Desse modo, o espectador pode acessar a audiodescrição quando quiser através da ativação desse recurso via controle remoto. A recepção da audiodescrição na plataforma Freeview é mixada no próprio set-top box, permitindo que o espectador altere independentemente o áudio da audiodescrição e o áudio original de acordo com o seu gosto, enquanto na BSkyB (líder na TV por satélite) e na Virgin (líder na TV a cabo) a audiodescrição é pré-mixada junto com o programa original, sendo necessário somente uma configuração de linguagem feita pelo espectador para o modo “narrativo” para a audiodescrição ser ouvida (GREENING; ROLPH, 2007, p. 130).

Apesar da audiodescrição estar presente nos programas de TV, não havia um intenso uso do serviço por falta de divulgação para a população. Por isso, foi realizada entre 1 de fevereiro e 14 de março de 2008 uma campanha para informar a população sobre esse tipo de recurso de acessibilidade. A campanha conduzida pela aliança entre as empresas de radiodifusão e o RNIB com facilitação da Ofcom. A divulgação foi com materiais para a televisão, impressos e para o rádio. Foram feitas duas análises, uma antes (A) e outra depois

(B) da campanha de divulgação. E em 2009, foi feita uma nova consulta (C), porém sem a execução de uma campanha de divulgação prévia. Comparando os resultados das três pesquisas, temos: a porcentagem da população em geral que sabia do serviço foi 37% (A), 60% (B) e 45% (C); e entre as pessoas com deficiência visual foi de 43% (A), 69% (B) e 50% (C). A causa apontada para o não crescimento das porcentagens entre a pesquisa B (em abril de 2008) e a pesquisa C (em 2009) foi a não utilização de uma campanha prévia sobre audiodescrição o que gerou em 2008 um crescimento imediato do conhecimento em relação ao serviço. Desse modo, com relação ao grupo de pessoas com deficiência, foi comprovado a necessidade de se fazer campanhas regulares para a divulgação da audiodescrição para manter um crescimento em relação à campanha B (OFCOM, 2009a).

Em 2009, os maiores canais da televisão inglesa já possuíam audiodescrição em 10% dos programas. Por isso, de 3 de setembro a 12 de novembro do mesmo ano, o Ofcom fez uma consulta pública sobre o futuro da audiodescrição. Foram dadas 3 opções de escolha: 1) não alterar a porcentagem de 10% de programas com audiodescrição; 2) aumentar para 20% de programas com audiodescrição em todos os canais; 3) aumentar para 20% de programas com audiodescrição somente nos 10 canais públicos enquanto os outros 48 canais continuariam a seguir a cota de 10%. O RNIB fez uma campanha para que as pessoas e familiares que a instituição atende respondessem a consulta. A opção sugerida pela instituição foi a de número 2. E a estratégia usada para aumentar a adesão à campanha foi a divulgação no site de informações sobre as opções de envio da resposta e até motivando os espectadores a pedirem para os seus membros do parlamento que participassem da consulta também. Ademais, a entidade sugeriu que os participantes escrevessem sobre as suas experiências em relação à audiodescrição, qual a sua importância e ainda quais aspectos deveriam ser melhorados (RNIB, 2009a, online).

Todavia, o governo não possui um mecanismo de controle para saber se o aumento de 10% para 20% da programação está sendo de programas inéditos ou de reprises. Por exemplo, a BSkyB poderia alcançar a nova cota colocando mais vezes durante a programação um mesmo filme ou programa em horários e canais diferentes. Cabe então à população fiscalizar esse tipo de estratégia e se for o caso, fazer reclamações para que isso não ocorra.

5. Conclusão

O Reino Unido se destaca na implementação da audiodescrição por de fato criar uma política para a adoção de recursos de acessibilidade. O Ofcom, órgão responsável pelo setor de telecomunicação e radiodifusão, assume seu papel fazendo valer as leis criadas para a promoção desse recurso. Através de pesquisas e consultas públicas, o governo consegue ter parâmetros para a manutenção e o aprimoramento da audiodescrição. As empresas de comunicação, por sua vez, conseguem ter um retorno sobre a prestação deste serviço e recebem  também  sugestões  de  quais   tipos  de   programas  são  mais  adequados  para  ter   a audiodescrição, cuja qualidade também  é analisada para melhor atender ao  público.  O RNIB, além  de  pressionar  o  governo,  auxilia  o  Ofcom  durante  as  consultas  públicas  e  as  pesquisas mediando o contato do governo com o público com deficiência visual. E a audiência consome esse serviço e ao mesmo tempo luta pela ampliação da disponibilização desse recurso tanto na televisão digital  quanto  em  outros conteúdos audiovisuais.  Cabe aos outros países analisarem de  maneira  crítica  a  experiência  britânica,  para  que  possam  tirar  proveito  de  pontos  que possam  auxiliar  na  criação  de  uma  política  de  comunicação  para  a  adoção  da  audiodescrição em seus meios de comunicação.

Referências Bibliográficas

ACCA. “ACCA Guide to Parliament”. In: ACCA, 2009. Disponível em http://www.accaglobal.com/pubs/about/public_affairs/unit/policy/uk_parliament/guide4.pdf. Acesso em 21 set. 2009.

BBC NEWS. Digital dividend scheme switched. BBC News, Londres, 5 fev. 2009. Disponível em  http://news.bbc.co.uk/2/hi/technology/7870459.stm. Acesso em 25 set. 2009.

Broadcasting Act (1996). HMSO, London. Disponível em  http://www.opsi.gov.uk/Acts/acts1996/ukpga_19960055_en_1. Acesso em 21 set. 2009.

CAVE, Martin. “The development of digital television in UK” In: CAVE, Martin, NAKAMURA, Kiyoshi (Org). Digital broadcasting: policy and practice in the Americas, Europe and Japan. Cheltenham: Edward Elgar, 2006.

Digital Help Scheme Agreement. Disponível em  http://www.helpscheme.co.uk/en/press/fast_facts#fact05. Acessado em 17 set. 2009.

DVB – Digital Video Broadcasting. “History of DVB Project” In: DVB Project. 2009. Disponível em  http://www.dvb.org/about_dvb/history/ . Acesso em 20 set. 2009.

GOODWIN,   Peter.   “United   Kingdom:   never   mind   the   policy,   feel   the   growth”.   In

Allan Brown and Robert G. Picard, eds. Digital Terrestrial Television in Europe. Mahwah, N.J.: Lawrence Erlbaum Associates, 2005.

GREENING, Joan; ROLPH, Deborah. “Accessibility: raising awareness of audio description in UK”. In CINTAS, Jorge D.; ORERO, Pilar; REMAEL, Aline (Orgs.). Media for all: Subtitling for the Deaf, Audio Description, and Sign Language. Amsterdam: Rodopi, 2007. p. 127 – 138.

LEAL FILHO, Laurindo. A melhor TV do mundo: o modelo britânico de televisão. São Paulo: Summus, 1997.

LEIVA, Trinidad García. “El dividendo digital: desafíos, oportunidades y posiciones nacionales” In: RLCS, Revista Latina de Comunicación Social 64 – 2009 Edita: LAboratorio de Tecnologías de la Información y Nuevos Análisis de Comunicación Socia. Disponível em  http://www.ull.es/publicaciones/latina/09/art/35_834_37_ULEPICC_19/Trinidad_Garcia_Leiva.html. Acesso em 24 set. 2009.

MEDIA FOR ALL: quality made to measure, 3. , 2009, Antuérpia (Bélgica), Parallel Session 4. Disponível em  http://www.mediaforall.eu/pal_4d_mazur_chmiel.html . Acesso em 26 set. 2009.

OFCOM. “Access Services Audio Description: research into awareness levels”. In: Office of Communication, 2008. Disponível em http://www.ofcom.org.uk/research/tv/reports/access_services_audio/. Acesso em 18 set. 2009.

_______. “2009 Research into Awareness and Usage of Audio Description”. In: Office of Communication, 2009a. Disponível em  http://www.ofcom.org.uk/research/tv/reports/research_audio_description/. Acesso em 18 set. 2009.

_______. “The Communication Market: Digital Progress Report – Digital TV, Q2 2009”. In: Office of Communication, 2009b. Disponível em  http://www.ofcom.org.uk/research/tv/reports/dtv/dtu_2009_02/ . Acesso em 18 set. 2009.

RNIB. “History of RNIB”. In: RNIB. 2009a. Disponível em  http://www.rnib.org.uk/aboutus/historyofrnib/Pages/rnibhistory.aspx . Acesso em 20 set. 2009.

______. “Ofcom 2009 review of access services”. In: RNIB. 2009b. Disponível em  http://www.rnib.org.uk/GETINVOLVED/CAMPAIGN/ACCESSTOTV/AUDIODESCRIPTI  ON/Pages/ofcom_access_review.aspx . Acessado em 26 set. 2009.

SALWAY , Andrew. TIWO – Television in Words: Final Report. Disponível em www.computing.surrey.ac.uk/personal/pg/A.Salway/tiwo/TIWO.htm . Acesso em 17 set. 2009.

SMITH, Paul. “The Politics of UK Television Policy: The Introduction of Digital Television”. In: Workshop 24, Regulating Communications in the „Multimedia Age‟, European Consortium of Political Research, 27th Joint Sessions of workshops, University of Mannheim, Germany, 26 – 31 March 1999.

__________. “The politics of UK television policy: the making of Ofcom” In: Media, Culture & Society, 2006 SAGE Publications (London, Thousand Oaks and New Delhi), Vol. 28 , nº 6, p. 929–940. Disponível em  http://tvdigital.files.wordpress.com/2008/09/ofcom-2006-paul smith.pdf . Acesso em 21 set. 2009.

YOUR LOCAL CINEMA.   “Audio described cinema and DVD information”. In: Your Local

Cinema. Disponível em  http://www.yourlocalcinema.com/ad.html . Acesso em 24 set. 2009.

RBTV #2: Áudio-descrição: orientações para uma prática sem barreiras atitudinais

Resumo

O presente artigo lista algumas das barreiras atitudinais contra a pessoa com deficiência, mais comumente encontradas na sociedade e oferece sugestões para evitá-las, quando da oferta do serviço de áudio-descrição, técnica que descreve as imagens ou cenas de cunho visual, promovendo acessibilidade à comunicação e à informação, também para as pessoas cegas ou com baixa visão. Nesse contexto aqui também se trata de questões que envolvem a prática do áudio-descritor, se oferece orientações de como esse profissional da tradução deve atuar para evitar barreiras atitudinais em seu ofício, bem como alerta para o perigo de ações que venham limitar o exercício, a aplicabilidade e os recursos instrumentais que o áudio-descritor pode valer-se na oferta dessa tecnologia assistiva. Dá dicas de como se fazer a áudio-descrição, tanto quanto ressalta que esse gênero de tradução visual é direito constitucional brasileiro, concluindo que, portanto, a áudio-descrição deve ser garantida/oferecida sem custos aos clientes com deficiência que do serviço necessitem.

Palavras-chave: áudio-descrição, barreiras atitudinais, pessoas com deficiência, tradução visual, acessibilidade comunicacional.


Abstract

This article discusses the attitudinal barriers commonly practiced against people with disability. A series of hints are given to avoid attitudinal barriers by the audio describer and some of the bases for audio description are summarized to offer visual translators important tools for their work. It stresses the importance of recognizing audio description as an assistive technology, making the assertion that this service is due to people with visual disability without no cost. It concludes that audio describers should be free to make their choices as translators and that ruling their work without robust scientific research can be both harful to audio describers and their clients, as well as to those who higher their work.

Keywords: audio description, attitudinal barriers, people with disability, visual translation, communicational accessibility.

Introdução

Durante muito tempo, as pessoas com deficiência foram vistas como incapazes de aprender e de manifestar conhecimento, sendo a elas denegado o acesso à cultura, tanto quanto ao lazer e à educação.

Na presunção de que essas pessoas nasciam por desígnio divino, que existiam para espiar pecados ou faltas cometidas por seus antecessores, nem se pensava em lhes oferecer meios de acesso à educação mais básica, menos ainda ao conhecimento científico. Assim, as pessoas com deficiência ficaram à margem da sociedade, isto é, asiladas e exiladas socialmente em instituições ou longe dos ambientes sociais.

De acordo com Chicon e Soares (2003, apud LIMA et. ali. 2004, p.09-10), ao longo do tempo, a sociedade demonstrou basicamente três atitudes distintas diante das pessoas com deficiência:

[ ] inicialmente, seguindo a seleção biológica dos espartanos, ela demonstrou menosprezar, eliminar/destruir todas as crianças mal formadas ou deficientes; os bebês que nasciam com alguma deficiência ou “deformação” eram jogados de uma montanha, eliminando-se, assim, o que não era “perfeito”. Posteriormente, numa atitude reativa, provinda da proteção e assistencialismo do Cristianismo, evidenciou-se um conformismo piedoso; e, em seguida, já na Idade Média, o comportamento da sociedade caracterizou-se pela segregação e marginalização da pessoa com deficiência, operadas pelos “exorcistas” e “exconjugadores” da época, os quais acreditavam que as pessoas com deficiência faziam parte de crenças demoníacas, supersticiosas e sobrenaturais. (grifos nossos).

Afastadas do convívio social e sem a possibilidade de estabelecerem eficientemente uma comunicação que as permitisse compartilhar saberes e atuar contributivamente na construção da sociedade em que viviam, às pessoas com deficiência foi negligenciado o acesso e, conseqüentemente, o usufruto dos bens culturais, sociais, artísticos e educacionais que as poderiam ter tornado, de fato, cidadãs.

Foi a partir desse entendimento preconceituoso sobre as pessoas com deficiência que, historicamente, muitas barreiras atitudinais foram construídas e consolidadas, podendo ser encontradas até hoje, nos mais diversos ambientes sociais e sob variadas formas, dentre elas na própria comunicação.

De acordo com Gotti (2006), “As barreiras atitudinais são aquelas estabelecidas na esfera social, em que as relações humanas centram-se nas restrições dos indivíduos e não em suas habilidades”. (http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/txt/revistainclusao2.txt).

As barreiras atitudinais, portanto, partem de uma predisposição negativa, de um julgamento depreciativo em relação às pessoas com deficiência, sendo sua manifestação a grande responsável pela falta de acesso e à conseqüente exclusão e marginalização social vivenciada por todos os grupos vulneráveis, mais particularmente, por aquelas pessoas vulneráveis em função da deficiência.

No entendimento de Guedes (2007, p.31):vvvvv

[  ] a perpetuação das barreiras que reforçam a situação de dependência e exclusão a que as pessoas com deficiência vêm sendo freqüentemente submetidas é causada pela sociedade quando esta não busca promover soluções alternativas de acessibilidade a fim de remover as barreiras que limitam ou impedem a plena atuação dessas pessoas.

Uma vez presentes na comunicação, as barreiras atitudinais podem levar à total exclusão de uma pessoa com deficiência, por exemplo, ao deixar de oferecer o contato acessível com acervos bibliográficos, programas artísticos e arquivos culturais socialmente construídos. Dependências como essas incorrem em outros tipos de exclusão, de semelhante e maior gravidade, como a exclusão do sistema de ensino, do direito ao trabalho etc.

Conforme Sassaki (2004, p.41), a eliminação de barreiras comunicacionais é uma conseqüência da criação de acessibilidades comunicacionais, definidas como sendo a ausência de barreiras:

 [  ] na comunicação interpessoal (face-a-face, língua de sinais, linguagem corporal, linguagem gestual etc.), na comunicação escrita (jornal, revista, livro, carta, apostila etc., incluindo textos em braile, textos com letras ampliadas para quem tem baixa visão, notebook e outras tecnologias assistivas para comunicar) e na comunicação virtual (acessibilidade digital).

Guedes (2007, p.29) ressalta ainda que o acesso à informação também se vê prejudicado diante de barreiras atitudinais, uma vez que elas estão:

[  ] localizadas na profundidade das demais barreiras, enraizadas a ponto de competir com os obstáculos concretos que comumente excluem ou marginalizam as pessoas com deficiência dos processos naturais que promovem o acesso [  ] aos demais sistemas sociais gerais.

Portanto, o fato de a sociedade ainda conceber a existência de barreiras na comunicação pode ser explicado, em parte, pelas dificuldades que encontra em enxergar as pessoas com deficiência como sujeitos produtivos e por creditar a elas o pejo da inferioridade, ambos comportamentos que exemplificam barreiras atitudinais.

Segundo Werneck (2006, p.164), “Ainda não somos permeáveis a uma efetiva comunicação de mão-dupla com pessoas em relação às quais nos sentimos superiores”. Uma vez sentindo-se superior a essas pessoas, a sociedade deixa de estabelecer uma comunicação eficiente, deixa de criar espaços de diálogo para ouvir as demandas das pessoas com deficiência, colocando-se numa atitude que não permite a aprendizagem mútua. Essa atitude de superioridade social, portanto, também é manifestação da barreira atitudinal, a barreira que diminui as pessoas com deficiência, inferiorizando-as, a fim de parecer superior a elas.

Na tomada de consciência de que as barreiras atitudinais são mais freqüentes do que podemos pensar, o presente artigo lista algumas das barreiras mais comumente encontradas na comunicação e oferece sugestões para evitá-las, quando da oferta de áudio-descrição, técnica que descreve as imagens ou cenas de cunho visual, promovendo acessibilidade à comunicação, também para aquelas pessoas cegas ou com baixa visão.

Áudio-descrição: Comunicação legal

Nos dias de hoje, o direito à informação é tema universalmente debatido, tanto que se tornou lugar comum nos depararmos com a máxima que anuncia a chegada da Era da Informação.

Apesar de o direito à informação não figurar explicitamente entre os artigos de nossa Carta Magna que definem o direito social ou fundamental da pessoa humana, a exemplo do direito à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, ao respeito e à liberdade, entendemos que para que se possa usufruir de todos esses direitos, faz-se necessário garantir e preservar o acesso a um canal sem barreiras à informação, isto é, sem barreiras atitudinais e comunicacionais.

Acordes com esse entendimento, no ano de 2004, publicou-se nos anais do Fórum de Barcelona a seguinte afirmação:

Se o direito à comunicação e à informação também é um direito universal, a mídia pública e privada também deveria cumprir com a obrigação de fortalecer valores democráticos, elevar a diversidade e qualidade de seu conteúdo (especialmente no que se refere às crianças), ajudar as pessoas com deficiências físicas a ganhar acesso ao conteúdo, e garantir a normalidade nas suas descrições de minorias sociais. (www.barcelona2004.org apud Franco, http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S000967252006000100008&script=sci_arttext).

Logo, o acesso à informação não pode ser tratado como um tema isolado, uma vez que ele está associado a outros direitos que, igualmente, conferem cidadania às pessoas. A negação do direito à informação, portanto, pode marginalizar pessoas em situação de vulnerabilidade social, tais como as pessoas com deficiência.

A fim de concretizar o direito à comunicação e o pleno acesso à informação, tramita no Senado Federal uma proposta de Emenda Constitucional [1] representada pelo Deputado Federal Nazareno Fonteles, do PT do Piauí, defendendo nova redação para o Artigo 6º da Constituição Federativa, na qual se lê a intenção de incluir a comunicação como direito social:

No que diz respeito à comunicação, há mais de 50 anos o direito à comunicação é reconhecido no ordenamento jurídico de diversos países. A ONU, em dezembro de 1946 reconheceu “a importância transversal da comunicação para o desenvolvimento da humanidade, enquanto um direito humano fundamental – no sentido de básico – por ser pedra de toque de todas as liberdades às quais estão consagradas as Nações Unidas, fator essencial de qualquer esforço sério para fomentar a paz e o progresso no mundo…”. Vale lembrar que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em seu Artigo 19º afirma que “todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão”, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e idéias por qualquer meio de expressão. (grifo nosso).

Ciente da necessidade de se promover e implementar o acesso das pessoas com deficiência aos meios de comunicação, bem como ao compartilhamento dos bens culturais socialmente produzidos, é que o Ministério das Comunicações aprovou, em 27 de junho de 2006, a Portaria Nº. 310, a qual define, entre outros, a áudio-descrição como um recurso de acessibilidade que:

[  ] corresponde a uma locução, em língua portuguesa, sobreposta ao som original do programa, destinada a descrever imagens, sons, textos e demais informações que não poderiam ser percebidos ou compreendidos por pessoas com deficiência visual.

As bases jurídicas da Portaria Nº. 310/2006 estão vinculadas à existência de outros documentos normativos que formam o elenco das medidas constitucionais para a áudio-descrição, quais sejam:

  • Lei Nº. 10.098, de 19 de dezembro de 2000:

    Art. 17. O Poder Público promoverá a eliminação de barreiras na comunicação e estabelecerá mecanismos e alternativas técnicas que tornem acessíveis os sistemas de comunicação e sinalização às pessoas portadoras de deficiência sensorial e com dificuldade de comunicação, para garantir-lhes o direito de acesso à informação, à comunicação, ao trabalho, à educação, ao transporte, à cultura, ao esporte e ao lazer. (http://agenda.saci.org.br/index2.php?modulo=akemi&s=documentos&parametro=1742);

  • Decreto Lei Nº. 5.296, de 02 de dezembro de 2004:

    Art. 59. O Poder Público apoiará preferencialmente os congressos, seminários, oficinas e demais eventos científico-culturais que ofereçam, mediante solicitação, apoios humanos às pessoas com deficiência auditiva e visual, tais como tradutores e intérpretes de LIBRAS, ledores, guias-intérpretes, ou tecnologias de informação e comunicação, tais como a transcrição eletrônica simultânea. (http://agenda.saci.org.br/index2.php?modulo=akemi&s=documentos&parametro=13983);

  • Portaria Nº. 466, de 30 de julho de 2008, em cuja redação determinou:

    Art. 1º. Conceder o prazo [2] de noventa dias, contado da data de publicação desta Portaria, para que as exploradoras de serviço de radiodifusão de sons e imagens e de serviço de retransmissão de televisão (RTV) passem a veicular, na programação por elas exibidas, o recurso de acessibilidade de que trata o subitem 3.3 da Norma Complementar no 01/2006, aprovada pela Portaria no 310, de 27 de junho de 2006, ficando mantidas as demais condições estabelecidas no subitem 7.1 da mesma Norma.

No âmbito geral [3], os seguintes instrumentos legais somam-se aos documentos supramencionados e podem ser interpretados como respaldo para a proposta da áudio-descrição, enquanto medida de acessibilidade básica e indispensável para a Inclusão Social das pessoas com deficiência:

  • Constituição Federativa do Brasil (1988), que defende em seu Artigo 220 que:

    A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição;

  • Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei Nº. 8.069/90):

    Art. 58. No processo educacional respeitar-se-ão os valores culturais, artísticos e históricos próprios do contexto social da criança e do adolescente, garantindo-se a estes a liberdade da criação e o acesso às fontes de cultura.

    Art. 59. Os municípios, com apoio dos estados e da União, estimularão e facilitarão a destinação de recursos e espaços para programações culturais, esportivas e de lazer voltadas para a infância e a juventude. [ ]

    Art. 75. Toda criança ou adolescente terá acesso às diversões e espetáculos públicos classificados como adequados à sua faixa etária.

Em face do exposto, entendemos que em nosso país já se dispõe de uma gama considerável de ordenamentos legais que justificam juridicamente a prática da áudio-descrição como recurso legítimo de acessibilidade.

Assim, quando as barreiras atitudinais forem eliminadas nas emissoras e demais entidades que promovem a cultura, o entretenimento e as artes, e passarem a emitir o “sinal da acessibilidade”, a áudio-descrição será, enfim, uma prática ostensiva.

O alcance social da áudio-descrição

A técnica de áudio-descrição, conforme definido no www.adinternational.org/ADIad.html:

[  ] envolve a acessibilidade aos elementos visuais do teatro, televisão, cinema e outras formas de arte para pessoas cegas, com baixa visão, ou qualquer outra deficiência visual. É um serviço de narração que tenta descrever aquilo que está disponível ao vidente, e é oferecido sem custo adicional ao espectador com deficiência visual – aquelas imagens que uma pessoa que é cega, ou com deficiência visual, antes só podia ter acesso por meio dos sussurros de um colega vidente.

Em teatros, em museus, e assistindo à televisão, a filmes, e a apresentações em vídeo, a áudio-descrição é comentário e narração que guia o ouvinte através da apresentação com descrições concisas, objetivas de novas cenas, cenários, trajes, linguagem corporal, e “piadas visuais”, todos colocados entre trechos de diálogos ou músicas. (http://www.adinternational.org/ADIad.html).

Segundo Graciela Pozzobon, em www.audiodescricao.com.br, a narração de cenas por meio de sussurros ao espectador cego:

[ ] além de ser incompleta, causa incômodo aos espectadores que enxergam, de forma que as pessoas cegas freqüentemente deixam de tentar entender o filme, ou programa. Por outro lado, se imaginarmos uma sala de cinema ou um canal de televisão que ofereça um meio pelo qual a pessoa com deficiência visual ouça o conteúdo do programa com independência, audiodescrito, desenvolvido especialmente para ela, com certeza veremos uma grande parcela deste público, normalmente excluído, assistindo a programas e desfrutando do conteúdo audiovisual com autonomia e conforto da mesma maneira que uma pessoa que enxerga.[4].

Assim, com a oferta da áudio-descrição, ao ir ao cinema, teatro, palestras etc., pessoas cegas ou com baixa visão terão a oportunidade de ampliar o conhecimento advindo do conteúdo das imagens ali apresentadas (em filmes, peças, slides, cartazes, transparências, folders e conhecer os gestos que o expositor estaria fazendo para ilustrar a sua fala), ao mesmo tempo que as demais pessoas da platéia.

Os principais benefícios do oferecimento da áudio-descrição para as pessoas cegas, por exemplo, incluem:

  • [ ] conhecer os ambientes visuais do programa;
  • compreender melhor os materiais televisivos;
  • sentir-se independente;
  • (…) sentir satisfação;
  • alívio dos espectadores sem deficiência visual com quem assistiam aos programas [5].

Numericamente falando, através da áudio-descrição se estaria permitindo o acesso à informação e comunicação a, pelo menos, 48,1%, dos quase 24,5 milhões de brasileiros com deficiência, percentual relativo às pessoas que declararam ter comprometimentos visuais [6]. Porém, os benefícios provenientes da áudio-descrição não se restringem ao público com deficiência visual.

Igualmente, a áudio-descrição permite que pessoas disléxicas, cuja presença de um distúrbio de aprendizagem compromete a capacidade de leitura, escrita e soletração de mais de 5% da população em todo o mundo (http://www.dislexia.org.br/abd/dislexia.html), restituam sua autonomia, pelo simples fato de lançarem mão do recurso sonoro para ouvir aquelas informações cuja leitura lhes poderia causar transtornos e atrasos significativos, prejudicando o entendimento.

Também as principais dificuldades encontradas por uma criança em idade escolar ou, por exemplo, por um profissional disléxico que necessite memorizar textos, tais como, dividir palavras, relacionar letras a seus respectivos sons, reconhecer fonemas e/ou compreender o que lêem [7], passam a ser amplamente minimizadas pelo uso da áudio-descrição, quando, através desse recurso de acessibilidade comunicacional, se substitui ou se complementa a informação visual com a informação sonora.

Já as pessoas analfabetas têm a chance de utilizar o recurso da áudio-descrição para terem acesso ao mundo de conhecimentos e informações que só lhes seria possível adentrar através da leitura e escrita. Sendo a essas pessoas facultado o direito de acessar informações auditivas e, através delas, realizar aprendizagens significativas, já se poderia estimar que, pelo menos 14,6 milhões [8] de brasileiros analfabetos, estariam mais próximos do conhecimento e, assim, mais distantes da marginalização social.

Além de beneficiar diretamente as pessoas com deficiência durante eventos, programas ou espetáculos artísticos e culturais, a áudio-descrição tem um alcance ainda maior quando utilizada como ferramenta pedagógica. Para tanto, imaginemos a seguinte cena: um aluno cego vai à escola e, em sua primeira aula do dia, o professor pede aos alunos que abram o livro na página 15 e concentrem-se na análise de gráficos matemáticos.

 

Apesar de o aluno cego estar inserido numa sala de aula regular, junto com outras crianças com e sem deficiência, são momentos como este que definirão se a metodologia adotada pelo professor e, conseqüentemente, a proposta pedagógica da escola, assumirão ou não uma conduta inclusiva.

O professor inclusivo, ciente de que seu papel como mediador da aprendizagem requer a contemplação das necessidades de todos os alunos, cuidará de áudio-descrever para o aluno cego as informações contidas nos gráficos, tendo para com ele a atenção necessária ao alcance total das informações pretendidas [9].

Sem uma adequada áudio-descrição por parte do professor, ao aluno, incorrer-se-á no que Lima (1998, p.15-16) já antecipava:

[  ] mesmo que o professor tenha habilitação para educação especial, ele poderá estar presumindo que a representação que formula para explicação de dada informação ao aluno sem limitação visual seja a mesma que deveria dar ao aluno cego.  É possível que seu pressuposto seja de que uma vez verbalizando o exemplo dado à sala, isso bastará à compreensão do aluno cego.

O professor inclusivo poderá lançar mão dos recursos de acessibilidade disponíveis, promovendo oportunidades para a eliminação de barreiras atitudinais entre os alunos, através do estímulo de atividades coletivas de áudio-descrição que envolvam a todos, sensibilizando-os e dando-lhes autonomia para também desenvolverem e se beneficiarem do recurso em conjunto.

Mais significativamente, o professor inclusivo poderá oportunizar a todos os alunos o entendimento de que a áudio-descrição, antes de ser um recurso que beneficia a um ou outro aluno da turma, com essa ou aquela deficiência, constitui-se como um recurso pedagógico que agrega a característica de ser acessível.

Assim, a áudio-descrição pode ser considerada como ferramenta pedagógica de acessibilidade quando a sua aplicação tiver por objetivo:

– minimizar ou eliminar as barreiras presentes nos meios de comunicação que se interponham ao acesso à educação, tais como aquelas presentes no acesso a materiais bibliográficos;

– proporcionar que alunos com deficiência visual, com dislexia e outros tenham acesso aos conteúdos escolares, ao mesmo tempo que o restante da turma;
– permitir que todas as ilustrações, imagens, figuras, mapas, desenhos e demais configurações bidimensionais, presentes nos livros didáticos, fichas de exercícios, provas, comunicados aos pais, cartazes, circulares internas etc., também sejam disponibilizadas através da áudio-descrição;
– zelar pela autonomia, empoderamento e independência dos alunos com deficiência visual e outros usuários do recurso;
– atentar para a descrição de objetos que fazem parte do cotidiano escolar, como a disposição do mobiliário da sala de aula, da planta baixa da escola, da distribuição do acervo na biblioteca, dos espaços de recreação e outros ambientes e produtos de uso comum etc.;
– perceber a transversalidade do recurso, por exemplo, ao estimular que através de uma atividade coletiva de áudio-descrição, durante uma aula de matemática ou de ciências, os alunos possam desenvolver descrições por escrito de tal sorte que as informações ali contidas possam ser aproveitadas nas aulas de língua portuguesa;
– considerar a importância de democratizar as informações e conhecimentos construídos em sala de aula para toda a comunidade escolar, oferecendo este recurso em exposições, mostras, feiras de ciências, apresentações, reuniões de pais e mestres, encontros pedagógicos, aulas de reforço escolar, excursões temáticas, jogos e olimpíadas esportivas, exibição de filmes e nos demais encontros e atividades cuja educação seja o foco;
– reforçar o respeito pela diversidade humana, praticando e divulgando ações de cunho acessível entre os alunos com e sem deficiência;
– atrair parceiros que possam financiar projetos de acessibilidade na escola e a partir dela;
– criar programas e projetos de voluntariado e monitoria que envolvam o público interno da instituição e a comunidade escolar, a fim de capacitar os interessados na temática da áudio-descrição e levar a diante outras iniciativas de acessibilidade;
– promover encontros de formação, reflexão e sensibilização sobre a inclusão social das pessoas com deficiência para professores, funcionários, gestores, alunos e comunidade, fortalecendo a máxima de que a inclusão só poderá ser construída através da perpetuação de práticas acessíveis, ou seja, a partir da eliminação de barreiras tais como as atitudinais e aquelas presentes nos meios de comunicação.

Barreiras atitudinais na áudio-descrição

A fim de auxiliar aos áudio-descritores a construir e desenvolver seus roteiros de maneira inclusiva, isto é, respeitando e contemplando a diversidade humana que deles poderão se servir, apresentamos, a seguir, algumas das barreiras atitudinais que devem ser evitadas desde a concepção dos roteiros até a realização/gravação da áudio-descrição.

Salientamos, contudo, que essas orientações tanto podem servir para as áudio-descrições simultâneas (desenvolvidas em eventos ao vivo, como em peças de teatro, acompanhamento pedagógico, palestras etc.), como para as áudio-descrições pré-gravadas (aquelas mais aplicadas ao cinema e televisão).

Barreira Atitudinal de Generalização: generalizar a forma de realizar a áudio-descrição, baseando suas escolhas e atitudes nas predileções de uma pessoa especificamente ou de um grupo de pessoas com deficiência.

Pelo fato de uma pessoa cega, por exemplo, achar que lhe basta receber umas poucas informações, essenciais para o entendimento da obra, o áudio-descritor não deve generalizar que todas as pessoas cegas prefiram receber as informações dessa mesma maneira, ou seja, muitos outros podem desejar conhecer as minúcias de uma apresentação visual, como os detalhes do figurino dos artistas ou as cores das casas apresentadas em uma cena.

Lembre-se de que a áudio-descrição deve primeiro eleger os elementos essenciais da cena ou imagem; depois, as informações secundárias, sem prejuízo da mensagem central. Contudo, não deve deixar de oferecer os demais elementos sempre que o tempo permitir ou, quando necessário, antes ou intervalo da apresentação.

 Barreira Atitudinal de Padronização: presumir que porque os usuários têm uma dada característica, são cegos, por exemplo, suas respostas ao entendimento da áudio-descrição serão as mesmas entre todos.

Lembre-se de que os usuários da áudio-descrição não formam grupos homogêneos e ainda que tenham características semelhantes, não perderão sua individualidade, pois todos têm seus próprios recursos cognitivos para compreender aquilo que está sendo transmitido. Considere que em uma mesma platéia você poderá áudio-descrever para grupos de pessoas cegas, disléxicas, analfabetas, com baixa visão etc., e que mesmo esses grupos tendo características semelhantes entre si, cada espectador é único.

Barreira Atitudinal de Ignorância: desconhecer as características dos usuários da áudio-descrição.

Lembre-se de que para realizar um bom trabalho de áudio-descrição é preciso conhecer o público a que ela se destina. Poderão fazer uso desse recurso pessoas cegas ou com baixa visão, pessoas com dislexia ou, ainda, pessoas analfabetas que vão ao cinema para assistir a filmes estrangeiros legendados.

Além dos espectadores convencionais, há que se considerar a presença de qualquer outra pessoa que queira fazer uso do serviço. Afinal, assistir a filmes, peças teatrais e a todo tipo de apresentações visuais, aproveitando o serviço de áudio-descrição, pode ser uma opção enriquecedora para qualquer pessoa e as pessoas com deficiência intelectual, certamente, se beneficiarão desta técnica também, visto que ela esclarece com palavras aquilo que se está vendo.

O áudio-descritor que conhece o público para o qual está trabalhando terá maiores chances de acertar em suas escolhas, de evitar expressões preconceituosas e outras atitudes discriminatórias durante a realização do serviço.

Barreira Atitudinal de Medo: temer realizar áudio-descrições de algum gênero ou conteúdo específico que o áudio-descritor julgue ofensivo ao público-alvo do serviço; temer utilizar palavras cujo sentido ilustraria a condição de deficiência de uma pessoa, tais como “cegueira” ou “surdez”, por receio de magoar os espectadores cegos ou surdos que estejam na platéia, ou de ser injusto com eles.

Lembre-se de que as pessoas com deficiência estão atentas a sua realidade e o uso de palavras que reforcem ou admitam a verdade sobre elas só será compreendido como negativo se trouxerem o peso da depreciação, caso contrário, serão apenas palavras descritivas.

 Barreira Atitudinal de Rejeição: recusar-se a interagir com os usuários do serviço de áudio-descrição e seus acompanhantes, adotando comportamentos hesitantes diante da possibilidade de ter o seu trabalho avaliado ou de ter um contato mais aproximado com esse público.

Lembre-se de que para alcançar bons resultados como áudio-descritor é necessário adquirir conhecimentos sobre as necessidades do público a que o serviço se destina, sobre a forma como costuma absorver e compreender as informações recebidas e sobre as possíveis falhas na comunicação geradas a partir desse desconhecimento.

Barreira Atitudinal de Propagação da deficiência: julgar (em virtude de um usuário do serviço de áudio-descrição apresentar uma dada deficiência), que ele tem uma outra deficiência, e que esta o incapacita de compreender a áudio-descrição e o conteúdo descrito.

Lembre-se de que a existência de uma deficiência não implica em outra e de que não existe relação entre deficiência e a capacidade intelectual de uma pessoa. Além do mais, mesmo as pessoas com deficiência intelectual podem entender aos filmes e outros conteúdos, mormente quando auxiliadas pela áudio-descrição.

Aquele que tem uma deficiência terá condições de avaliar, compreender, apreciar ou não um espetáculo áudio-descrito se este vier relacionado a outras características particulares, tais como, o seu grau de escolaridade, sua idade ou as suas preferências pessoais.

Barreira Atitudinal de Inferioridade: acreditar que o espectador com deficiência, mesmo utilizando o recurso da áudio-descrição, tem chances inferiores de alcançar a compreensão das cenas e intenções do filme ou peça exibida, comparativamente aos espectadores videntes.

Lembre-se de que a crença na potencialidade das pessoas, independentemente de suas deficiências ou características particulares, deve permear toda e qualquer atitude do áudio-descritor, cujo serviço prestado deverá objetivar a transmissão fidedigna das informações visuais, tais quais as pessoas videntes têm acesso. Portanto, o áudio-descritor deve concentrar-se, primeiramente, em prestar um bom serviço, deixando que os resultados sejam sentidos pela platéia.

Barreira Atitudinal de Comparação: comparar os espectadores com deficiência com aqueles que não têm deficiência, julgando que os primeiros têm como única motivação para ir ao cinema, teatro etc., a oferta de áudio-descrição.

Lembre-se de que toda pessoa, independente de ter ou não uma deficiência, vai ao cinema, teatro, palestra, museu, casa de espetáculo em geral, interessada em seu conteúdo relacionado. Atrelar as motivações pessoais do espectador à oferta da áudio-descrição é superestimar o papel do áudio-descritor.

 Barreira Atitudinal de Piedade: ter atitudes protetoras para com os usuários da áudio-descrição por sentir dó ou pena deles, em virtude de sua deficiência.

Lembre-se de que a existência da barreira atitudinal de piedade pode levar o áudio-descritor a cometer erros graves como interpretar conteúdos visuais, apresentar conclusões pessoais e antecipar informações para os espectadores com deficiência, podendo lhes dar a impressão de que não bastaria áudio-descrever, mas seria necessário também lhes explicar as descrições ou, ainda, desrespeitar a sequência e o ritmo das cenas, para que as pessoas com deficiência não tenham um “trabalho a mais” na hora de compreendê-las.

Lembre-se, ainda, de que as pessoas com deficiência não devem ser tratadas como coitadinhas; elas são pessoas humanas que merecem respeito por sua dignidade, e atitudes apiedadas não condizem com uma postura inclusiva, devidamente respeitosa.

 Barreira Atitudinal de Adoração do Herói: considerar que uma pessoa com deficiência visual, por exemplo, consumidora do serviço de áudio-descrição, seja “especial”, “excepcional” ou “extraordinária” pelo simples fato de assistir a espetáculos, de frequentar lugares públicos onde comumente se vê pessoas videntes ou sem nenhum tipo de deficiência. Ou, ainda, pelo fato de serem capazes de compreender aquilo que está sendo apresentado e áudio-descrito.

Lembre-se de que todas as pessoas têm seus pontos de força e de fraqueza e isso não necessariamente está ligado à condição de deficiência. Considerar que uma pessoa tem atitudes heróicas simplesmente porque está vivendo a sua vida e superando os obstáculos naturais de sua personalidade e características íntimas, não é uma atitude que acrescenta valor aquela pessoa. Assim como as demais pessoas, as pessoas com deficiência desejariam ser reconhecidas como heroínas quando seus próprios feitos ou atitudes justificassem tal deferência.

Barreira Atitudinal de Baixa Expectativa: acreditar que os usuários da áudio-descrição não poderão compreender aquilo que está sendo apresentado pelo fato de terem uma deficiência. Acreditar que, pelo fato de as pessoas com deficiência visual não serem frequentemente vistas em cinemas ou teatros, por exemplo, elas não se interessam por atividades culturais, sociais, educacionais ou artísticas.

Julgar os limites impostos pela deficiência visual como sendo sinônimos de incapacidade constitui barreira atitudinal que impede o áudio-descritor de sentir a apreciação de seu trabalho.

Lembre-se de que o fato de as pessoas com deficiência não serem vistas nos espetáculos pode ser decorrente da costumeira falta de acessibilidade física e comunicacional que graçam os ambientes em que eles se dão. Além do mais, as barreiras atitudinais abundantemente encontradas pelas pessoas com deficiência acabam, muitas vezes, por lhes desencorajar a frequentar esses lugares.

Barreira Atitudinal de Compensação: oferecer um serviço de áudio-descrição que procure minimizar a eventual falta de acesso à informação visual de uma dada cena, antecipando às pessoas com deficiência visual informações (descrições antecipadas e interpretativas) que as privilegiem.

Lembre-se de que nem tudo que é visto será possível descrever, portanto, não se deve procurar compensar o espectador com deficiência com informações que ainda não estão disponíveis aos demais. A áudio-descrição visa à igualdade de acesso ao conteúdo do filme, portanto, o antecipar ou interpretar, além de desigualar os espectadores, subestima a capacidade de entendimento do espectador com deficiência.

Barreira Atitudinal de Exaltação do modelo: usar a imagem do espectador com deficiência, usuário do serviço de áudio-descrição, como modelo de persistência, coragem e superação diante dos demais espectadores.

Lembre-se de que, quando o assunto é a inclusão de pessoas com deficiência, o único modelo que deve ser ressaltado é o modelo da acessibilidade, do desenho universal, enfim da inclusão de todas as pessoas humanas na sociedade. Em nada auxiliará fazer exaltações sobre o potencial, inteligência ou habilidade de uma dada pessoa com deficiência que não sejam absolutamente verdadeiras.

 Barreira Atitudinal de Estereótipos: pensar no espectador com deficiência, construindo em torno da deficiência generalizações positivas ou negativas sobre todas as pessoas que têm aquela mesma deficiência.

Lembre-se de que não é a deficiência que definirá a capacidade de compreender o que está sendo áudio-descrito, mas sim a clareza, a objetividade e o uso de um vocabulário coerente com a natureza da obra descrita e de seu público.

Barreira Atitudinal de Negação: considerar os espectadores com deficiência da mesma forma que os demais espectadores, não levando em consideração as necessidades reais e específicas advindas de sua deficiência. Na barreira atitudinal de negação, nega-se a existência da deficiência do espectador, neste caso, a áudio-descrição não é oferecida e  se o for, apenas se o fará em algumas situações que terceiros acreditem ser necessárias.

Lembre-se de que negar a deficiência de uma pessoa, em qualquer momento, não é o mesmo que lhe tratar com respeito ou dedicar-lhe o rótulo de “pessoa normal”. Para que a áudio-descrição cumpra, de fato, o seu papel como meio de comunicação inclusivo ou recurso de comunicação acessível, é mister que ela considere não só a existência e a justificativa de usuários com deficiência na platéia, como também conheça as características dessas deficiências. Assim, o áudio-descritor poderá prestar um melhor serviço, alcançando a todos.

Barreira Atitudinal de Substantivação da deficiência: identificar o espectador usuário do serviço a partir do nome do sentido ou órgão relacionado à sua deficiência, como se essa “parte” representasse o “todo” da pessoa.

Lembre-se de que se referir ao espectador com deficiência visual como “o cego” ou “o visual” ou, no caso de pessoas disléxicas, chamá-las de “as disléxicas”, passa a ser pejorativo, não correspondendo a uma atitude inclusiva.

Lembre-se de que, ao interagir com o espectador o áudio-descritor deve buscar conhecer-lhe o nome e a ele identificar-se para que ambos saibam com quem estão falando.

 Barreira Atitudinal de Segregação: obrigar as pessoas com deficiência, usuárias do serviço de áudio-descrição, a ocupar determinados assentos no auditório, agindo de modo a segregá-las, não lhes permitindo a tomada de decisão sobre onde desejam sentar-se.

Lembre-se de que quando por razões técnicas, aos espectadores com deficiência for necessário destinar locais específicos, o áudio-descritor deve informar-lhes as razões e perguntar-lhes se desejam ficar ali.

Lembre-se de que obrigar as pessoas com deficiência a estarem “num lugar a elas destinado”, sem que assim desejem, constitui-se crime e, portanto, é atitude contrária aos preceitos mais básicos de socialização, democracia e cidadania.

Barreira Atitudinal de Adjetivação: adotar adjetivos para designar as pessoas com deficiência, atribuindo-lhes classificações pejorativas como “lentas”, “distraídas”, “desmemoriadas” etc.

Lembre-se de que o uso de tal adjetivação, tanto deteriora individualmente a identidade das pessoas, como o faz coletivamente, a partir da presunção de que o indivíduo com deficiência visual ou o grupo de pessoas com deficiência visual, por exemplo, seriam formados por pessoas “deficientes”(ineficientes), ao passo que o que são designa-se , com melhor conceito, de pessoa com deficiência. Nos dois casos, a barreira atitudinal e o desrespeito residem em adjetivar as pessoas de forma depreciativa.

Algumas dicas para quando for áudio-descrever

* Evite sobrepor a áudio-descrição às falas dos personagens ou efeitos sonoros importantes para a compreensão do produto.

Lembre-se de que assim como os espectadores sem deficiência, os espectadores com deficiência, usuários do serviço de áudio-descrição, devem ter acesso a todas as informações provenientes do material originalmente apresentado, como a trilha sonora e os diálogos, e que a áudio-descrição deverá ser adicionada a esses elementos fundamentais. Assim, as pessoas que buscarem o serviço de áudio-descrição terão acesso a todas as informações do filme, peça ou exibição, podendo compartilhar de suas impressões com os demais espectadores com e sem deficiência.

* Evite classificar desordenamente um conteúdo visual (filme, curta-metragem, peça teatral, desenho animado etc.) como pertencente a um determinado gênero específico. Basear-se numa classificação errônea, poderá levar-lhe a fazer a áudio-descrição de um determinado conteúdo visual, adotando uma impostação de voz ou entonação caricata e equivocada.

Lembre-se de que o fato de um conteúdo visual adotar linguagens como a animação, a computação gráfica ou elementos cênicos que aparentem ser destinados, por exemplo, a um público infantil, não significa que ele seja realmente destinado a esse público.

O trabalho do áudio-descritor deve refletir a atenção de que as ferramentas e linguagens visuais utilizadas nos produtos culturais e artísticos nem sempre são destinadas a um mesmo público, a exemplo do cinema de animação, que produz filmes para todos os gêneros e para todos os públicos, por exemplo, das mais diversas faixas etárias.

* Evite a utilização desnecessária de termos técnicos, de palavreado rebuscado e/ou de expressões tendenciosas e ambíguas que dificultem a compreensão do público assistente.

Lembre-se de que a áudio-descrição deve ser construída a partir de uma linguagem clara, simples, objetiva e acessível para que a compreensão do conteúdo assistido não seja prejudicada e que, ao invés de promover comunicação, se construa novas barreiras comunicacionais através da escolha da linguagem.

* Evite aproveitar todas as pausas entre os diálogos ou cada momento de silêncio para fazer áudio-descrição.

Lembre-se de que haverá momentos em que o silêncio será utilizado de forma intencional, como um elemento importante para o entendimento da trama, e que os usuários do serviço de áudio-descrição também devem ter a oportunidade de conhecer e compreender as intenções geradas a partir da escolha de recursos como esse.

* Evite basear a áudio-descrição em juízos de valor pessoais ou moralismos.

Lembre-se de que, ao prestar um serviço de áudio-descrição, o profissional deve abster-se de qualquer condicionamento íntimo a respeito do conteúdo assistido. Ao aceitar um trabalho de áudio-descrição, é mais aconselhável que o profissional considere previamente a natureza do conteúdo a ser áudio-descrito, evitando aqueles que possivelmente lhes gerariam desconforto.

Considerações finais

Considerando a classificação das barreiras atitudinais aqui apresentadas, bem como as orientações sugeridas a fim de evitá-las na prática de áudio-descrição, concluímos que para que se realize um trabalho de tradução visual de forma acessível, cada profissional deve, cotidianamente, revisar a sua prática, buscando examinar as próprias atitudes a fim de não cometer barreiras sociais que venham a desvirtuar o sentido de seu trabalho.

Salientamos, porém, que as barreiras atitudinais aqui elencadas não esgotam o universo de possibilidades de outras barreiras que podem atingir os diversos perfis humanos e advir da combinação dessas barreiras atitudinais com outras.

Acreditamos que será apenas a partir da eliminação das barreiras atitudinais, presentes nos meios de comunicação, que as pessoas com deficiência visual e os demais beneficiários da democratização da áudio-descrição, como recurso legítimo de acessibilidade, poderão ter garantias de acesso aos demais direitos sociais e fundamentais da pessoa humana, sendo-lhes, daí favorecido o usufruto da educação, do trabalho, do lazer, da cultura e da garantia efetiva de sua liberdade de expressão e manifestação num mundo cada vez mais inclusivo.

Em última instância, é importante que entendamos que a áudio-descrição é recursos assistivo, advindo da área da tradução visual, isso significa que os usuários deste serviço têm  direito constitucional a  essa forma de acessibilidade.

Em outras palavras, isso implica em obrigação de oferta do serviço aos que  estão a frente da organização de eventos culturais, aos que estão a frente da produção de eventos e produtos educacionais e isso significa que é obrigação  de que o serviço prestado  seja  feito  com qualidade  e sem  custo adicional  aos clientes que desse serviço  necessitam.

Por outro lado, não se pode impor regras, normas ou obrigações ao ofício dos tradutores visuais que trabalham com a áudio-descrição, pois eles são, primeiramente, profissionais da tradução. Enquanto tais têm o livre direito de exercer a escolha intelectual da tradução que vão fazer, da qualidade do serviço que vão prestar e da maneira que o farão.

Certamente, diretrizes, dicas, orientações como as que aqui foram apresentadas e muitas outras, deverão fazer parte da formação do áudio-descritor, de seu código de ética, da conduta que deverá ter para com seus clientes, sejam eles os usuários ou os contratantes do serviço de áudio-descrição. No entanto, o áudio-descritor não pode ser tolhido da sua liberdade de expressão por regras que ultrapassem o conhecimento daqueles que eventualmente as venham produzir ou que, de alguma forma, limitem, no presente ou no futuro, a atuação daquele profissional.

No Brasil, assim como na maioria dos demais países, a áudio-descrição ainda é um serviço pouco oferecido e, principalmente, pouco conhecido pelos potenciais clientes.

Com efeito, apesar de a áudio-descrição surgir na academia, a partir de uma dissertação de mestrado, ela ainda é muito pouco  cientificamente investigada, o que significa que não temos  conhecimento basilar suficiente para a construção de regras normativas  que não levem  em consideração  pesquisas, técnicas e opiniões  dos próprios áudio-descritores, dos formadores destes e de seus clientes.

Em suma, as orientações aqui apresentadas não se prestam a regrar o papel do áudio-descritor, sua atuação profissional ou as ferramentas e aplicações com as quais vai trabalhar  ou  ainda em que  situações  as vai  utilizar.

Logo, estas orientações devem ser vistas , quando muito, como diretrizes para o profissional da áudio-descrição, que pretende, com ética e  inclusividade, investir  no campo da tradução  visual para propiciar acessibilidade comunicacional à pessoas  historicamente excluídas por razão de deficiência.

Referências bibliográficas

GUEDES, L. C. Barreiras Atitudinais nas Instituições de Ensino Superior: questão de educação e empregabilidade. Recife. 2007. 270f. Dissertação (Mestrado em Educação), Universidade Federal de Pernambuco – UFPE.

LIMA, F. J.; ARAÚJO, C. M. de; AZEVEDO, G. E. M.; GUEDES, L. C.; BRASILEIRO, A. K. Inclusão da Pessoa com deficiência no Ambiente Social de Trabalho: Sugestões para Seleção e Contratação. Pernambuco: UFPE, 2004.

LIMA, F. J.; TAVARES, Fabiana. Barreiras Atitudinais: Obstáculos à Pessoa com deficiência na Escola. 2007. Disponível em: http://www.saci.org.br/index.php?modulo=akemi&parametro=20411.

SASSAKI, R. K. Inclusão no Lazer e Turismo: Em Busca da Qualidade de Vida. São Paulo: Áurea, 2003.

WERNECK, C. Sociedade Inclusiva. Quem Cabe no seu TODOS? Rio de Janeiro: WVA, 2002.

http://www.barcelona2004.org

http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S000967252006000100008&script=sci_arttext

http://www.camara.gov.br/sileg/integras/460005.pdf

Lei Nº. 10.098/2000

http://agenda.saci.org.br/index2.php?modulo=akemi&s=documentos &parametro=1742

Decreto Nº. 5.296/2004

http://agenda.saci.org.br/index2.php?modulo=akemi&s=documentos& parametro=13983

Portaria 310/2006:

http://www.mc.gov.br/o-ministerio/legislacao/portarias/portaria-310.pdf

Portaria 466/2008:

http://www.mc.gov.br/o-ministerio/legislacao/portarias/portaria-466.pdf

Constituição da República Federativa do Brasil de 1988:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao.htm

Lei Nº. 8.069/1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente):

http://www.planalto.gov.br/ccivil/LEIS/L8069.htm

www.audiodescricao.com.br

http://www.audiodescricao.com.br/www/index.html

http://www.astc.org/resource/access/medad.htm

Censo Demográfico (IBGE, 2000):

http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=132&id_pagina=1

http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/txt/revistainclusao2.txt

http://www.crfaster.com.br/dislexicosfamosos.pdf

Notas de rodapé

[1] http://www.camara.gov.br/sileg/integras/460005.pdf

[2] Com a publicação da Portaria Nº. 661/2008, o prazo de 90 dias e a obrigatoriedade a ele vinculado foram revogados.

[3] Sugerimos a leitura da Lei nº. 4.117, de 27 de agosto de 1962, que institui o Código Brasileiro de Telecomunicações; do Decreto-Lei nº. 236, de 28 de fevereiro de 1967, que modifica e complementa a Lei nº. 4.117, de 1962; da Lei nº. 7.853, de 24 de outubro de 1989, que dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência e consolida as Normas de proteção; da Lei nº 10.048, de 8 de novembro de 2000, que dá prioridade de atendimento às pessoas que especifica; da Lei nº. 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS; do Decreto nº. 52.795, de 31 de outubro de 1963, que aprova o Regulamento dos Serviços de Radiodifusão; do Decreto nº. 3.298, de 20 de dezembro de 1999, que regulamenta a Lei no 7.853, de 24 de outubro de 1989; do Decreto nº. 5.371, de 17 de fevereiro de 2005, que aprova o Regulamento do Serviço de Retransmissão de Televisão e do Serviço de Repetição de Televisão, ancilares ao Serviço de Radiodifusão de Sons e Imagens; do Decreto nº. 5.645, de 28 de dezembro de 2005, que altera o art. 53 do Decreto no 5.296, de 2004; da Instrução Normativa nº. 1, de 02 de dezembro de 2005, da Secretaria de Comunicação Institucional da Secretaria Geral da Presidência da República, que regulamenta o art. 57 do Decreto no 5.296, de 2004; da Norma Brasileira ABNT NBR 15290:2005, que dispõe sobre Acessibilidade em Comunicação na Televisão.

[4] http://www.audiodescricao.com.br/www/index.html

[5] ASTC – “Accessible Practices/ Best Practices/ Audio-Description”, Association of Science – Technology Centres. Disponível online: http://www.astc.org/resource/access/medad.htm

[6] Censo Demográfico (IBGE, 2000).

[7] http://www.crfaster.com.br/dislexicosfamosos.pdf.

[8] Estimativa apresentada pelo IBGE (http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza. php?id_noticia=132&id_pagina=1), referente ao ano de 2002.

[9] Salientamos que, no caso específico de gráficos e outras configurações bidimensionais, constitui-se como recurso de acessibilidade bastante eficiente para a apropriação de informações visuais por pessoas cegas e com baixa visão, a disponibilização concomitante da áudio-descrição e de materiais em relevo que favoreçam a captura háptica (através da ponta dos dedos). O leitor interessado deve recorrer Para maiores informações, sugerimos a leitura dos seguintes artigos: – LIMA, F. J. e DA SILVA, J. A. Algumas considerações a respeito da necessidade de se pesquisar o sistema tátil e de se ensinar desenhos e mapas táteis às crianças cegas ou com limitação parcial da visão. Revista Benjamim Constant, n° 17. Rio de Janeiro: IBCENTRO, 2000; – LIMA, F. J. O efeito do treino com desenhos em relevo no reconhecimento háptico de figuras bidimensionais tangíveis. Livro de Resumos – III Seminário de Pesquisa, página 57. Ribeirão Preto, SP, 2000; – LIMA, F. J. e GUEDES, L. C. A produção do desenho em relevo: a caneta M/H 1.0 como alternativa tecnológica de acesso à educação, por meio da arte. Submetido à Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), 2004.

RBTV #2: A teoria na prática: áudio-descrição, uma inovação no material didático

Resumo

O presente artigo aplica em duas atividades de ciências a técnica da áudio-descrição, a qual consiste na transmissão por meio oral/textual dos elementos essenciais oriundos de uma determinada imagem que esteja presente em uma dada forma de expressão cultural, desde um filme do cinema às páginas dos livros didáticos, permitindo, especialmente em relação a estes últimos, que suas mensagens e conteúdos sejam compreendidos pelo aluno com deficiência visual ou com baixa visão. Isto será comprovado através de dois exemplos práticos de como a áudio-descrição favorece a compreensão de atividades presentes no livro didático. Os benefícios da técnica serão apresentados segundo a literatura da área. O texto será concluído com a assertiva de que a áudio-descrição traz benefícios tanto para os alunos como para os professores no contexto educacional inclusivo.

Palavras-chave: áudio-descrição, livro de ciências, educação inclusiva, deficiência visual, imagem.


Abstract

This article applies audio description techniques on describing images found in a textbook of science. Audio description can be defined as the translation, through oral words or texts, of key elements seen on a certain image, such as those present on various cultural expression, from a movie in the cinema to the pages of text books. It allows people with visual disability to access visual content by reading or listening to the description made for that image. It is asserted that audio description aids blind students to comprehend an assortment of school visual activities and that it benefits both apprentice and teachers as they learn how to better make use of visual images in inclusive classroom settings.

Keywords: audio description, people with disability, textbook, science book, visually impaired people

INTRODUÇÃO

O Primado das Imagens no Contexto Escolar

Nós estamos rodeados por imagens visuais através da televisão, filmes, vídeos, computadores e textos repletos de figuras. O uso destas fontes de imagens é óbvio quando se anda pela escola. As salas de aula, muitas vezes, contêm computadores, televisões, e aparelhos de DVD. As salas de aula das escolas, centros de mídia, e laboratórios de informática estão cheios de imagens visuais. (HIBBING; RANKIN-ERIKSON, 2003).

Como se pode entender do texto acima, a intensificação da utilização de imagens nos ambientes educacionais remete-nos à necessidade de uma reflexão em termos do acesso pelo aluno com deficiência visual à informação imagética presente nos materiais didáticos, assegurando àquele aluno uma menor desigualdade no tocante à permanência em sala de aula regular.

Relação Imagem e Texto Segundo a Teoria da Codificação Dual

Vários autores têm apontado para a relação que as imagens estabelecem com o texto verbal e como se processam tais relações na mente dos alunos, de modo a beneficiarem-se do jogo entre os elementos imagéticos e verbais no contexto escolar.

Hibbing e Rankin-Erikson, 2003 citando Pressley & McCormick (1997) dizem que “As representações verbais do conhecimento são compostas de palavras (o código verbal) para objetos, eventos e idéias. As imagens ou sistema não-verbal representam o conhecimento em “representações não-verbais que retêm alguma semelhança com as percepções que as fazem surgir.” Expandindo essa assertiva, Swanson (1989) explica que:

O conceito de codificação dual, ou codificação do conhecimento em representações tanto verbais quanto não-verbais, sugere que os elementos de ambos os sistemas são intricadamente conectados. Esta conexão entre sistemas de codificação verbais e não-verbais nos permite criar imagens quando ouvimos palavras e gerarmos nomes ou descrições de coisas que vemos em figuras. (SWANSON, 1989, apud HIBBING; RANKIN-ERIKSON, 2003, tradução nossa).

A cognição, de acordo com a TCD, envolve a atividade de dois subsistemas distintos (…) um sistema verbal especializado em lidar diretamente com a linguagem e um sistema não-verbal (imagens) especializado em lidar com objetos e eventos não-linguísticos. Supõe-se que os sistemas sejam compostos de unidades representacionais internas, chamadas de logogens e imagens, que são ativados quando a pessoa reconhece, manipula, ou simplesmente pensa sobre palavras ou coisas. As representações são específicas para cada modalidade, de modo que temos diferentes logogens e imagens correspondentes às propriedades auditivas, hápticas e motoras de linguagem e objetos. Paivio (2006)

Segundo Swanson, bons leitores são capazes de, na mente, criar conexões verbais e não-verbais automaticamente, e “a incapacidade de fazer conexões verbais e não-verbais rápida e eficientemente está relacionada a deficiências de aprendizagem.”

Diante desta interdependência imagem e texto, o aluno com deficiência visual enfrenta uma situação de desigualdade e de exclusão por lhe ter sido historicamente denegado o acesso ao pólo imagético desta dualidade. A áudio-descrição poderia lhe permitir compreender e exercitar mentalmente estas inter-relações. A oferta da áudio-descrição das imagens presentes no material didático vem a ser, portanto, crucial no estabelecimento dessas conexões mentais entre imagem e texto para o aluno com deficiência visual.

ÁUDIO-DESCRIÇÃO – DEFINIÇÃO

A áudio-descrição é uma técnica de representação dos elementos-chave presentes numa dada imagem que, ao dialogar com os elementos de um texto verbal, pode ser descrita também de forma verbal para formar uma unidade completa de significação. A áudio-descrição pode ser de uma imagem estática como uma pintura no museu, de uma escultura em três dimensões, da gravura bidimensional presente nos livros didáticos; ou de imagens dinâmicas que nada mais são do que um conjunto de imagens estáticas que juntas criam a ilusão de movimento como o que se processa nos filmes de cinema, televisão, peças de teatro, ou vídeos de computador.

Conforme se lê em http://www.audiodescricao.com/home.htm:

A audiodescrição é um recurso de tecnologia assistiva que permite a inclusão de pessoas com deficiência visual junto ao público de produtos audiovisuais. O recurso consiste na tradução de imagens em palavras. É, portanto, também definido como um modo de tradução audiovisual intersemiótico, onde o signo visual é transposto para o signo verbal. Essa transposição caracteriza-se pela descrição objetiva de imagens que, paralelamente e em conjunto com as falas originais, permite a compreensão integral da narrativa audiovisual. Como o próprio nome diz, um conteúdo audiovisual é formado pelo som e pela imagem, que se completam. A audiodescrição vem então preencher uma lacuna para o público com deficiência visual.

Iniciando-se em meados da década de 1980, os museus começaram a oferecer tours com áudio-descrição (Snyder, 2002a) e as práticas difundiram-se largamente (ASTC, 2001). Piety (2003, p. 13) nota uma semelhança entre a áudio-descrição de peças de museu e a de conteúdos dos livros. Pois como as áudio-descrições em museus são de imagens estáticas, são as que mais se assemelham às áudio-descrições dos conteúdos encontrados em livros.

Ao trabalhar a passagem da linguagem imagética para a linguagem verbal, a áudio-descrição pode ser classificada como uma modalidade de tradução onde o que se pretende fazer é processar as informações permitindo a sua passagem de uma linguagem para a outra, procurando manter o maior nível de fidelidade entre o que está numa linguagem e o que é veiculado utilizando-se de outra, sendo mais importante preservar a integridade da mensagem do que fazer uma correspondência literalizante palavra por palavra, elemento por elemento.

Todo trabalho de tradução exige disciplina mental, paciência, raciocínio e sensibilidade para se compreender como o outro compreende. Isto não é diferente no caso da áudio-descrição, pois ela requer uma exegese da audiência, no sentido da compreensão de como as audiências receptoras reagirão às diferentes possibilidades de construção dos discursos descritivos. Assim, a áudio-descrição não pode ser empreendida sem um cauteloso planejamento do que é necessário ser veiculado, do que vai, não vai e como vai ser dito, num trabalho de alta seletividade, principalmente sabendo que será necessário lidar com frequentes restrições de tempo, no caso das exibições de imagens dinâmicas ou restrições de espaço, no caso das imagens estáticas, e.g., descrições presentes nos livros didáticos e outras, uma vez que, em todos os casos, se poderá estar diante de abundantes informações visuais. Sob essa égide, nenhuma outra pessoa será melhor em preencher tais requisitos técnicos e científicos que não o profissional para tal treinado e habilitado: o áudio-descritor.

Piety (2003, p. 32) citando Basil Hatim faz uma triangulação entre interpretação, tradução e áudio-descrição para então denominar esta última de ‘transrepresentação’:

Como um processo de linguagem, a descrição visual pode ser vista como um membro da família das atividades de tradução e interpretação. De acordo com Metzger (1999), ‘Tanto a tradução e a interpretação lidam com a comunicação de um dado texto para uma outra linguagem’. Uma questão-chave aqui é que o texto que está sendo comunicado é composto de elementos visuais (cenas, sinais, sorrisos, etc.) em vez de linguagem formalizada. Se tradução é o que acontece quando o escrito é convertido para o escrito e interpretação quando o conversacional é convertido em conversacional (HATIM, 1997), então a descrição visual pode ser vista como transrepresentação porque toma as informações visuais cruas e as converte em linguagem.

O exercício de transrepresentação do visual para a linguagem escrita ou falada provocará um enriquecimento na capacidade de expressão de quem empreende a áudio-descrição, pois a riqueza de informações advindas do mundo visual tenderá a enriquecer no outro pólo a capacidade de expressão no mundo lingüístico através do esforço de fazer equivaler os elementos essenciais do não-verbal a formas verbais.

A ÁUDIO-DESCRIÇÃO E SEUS BENEFÍCIOS PARA A PESSOA COM DEFICIÊNCIA

De acordo com Fels, Udo, Ting, & Diamond, 2006; Packer, 2005; Schmeidler & Kirchner, 2001 apud AFB, a áudio-descrição, segundo indivíduos que dela vêm se utilizando, traz possibilidades de independência e igualdade com indivíduos videntes, ao mesmo tempo, maior socialização, pois permite o diálogo sobre os conteúdos presentes nas diversas formas de expressão cultural.

“…Vídeo descrição pode também beneficiar audiências secundárias de até um milhão e meio de crianças entre 6 e 14 anos, com deficiências de aprendizagem por capturar a sua atenção e aumentar as suas habilidades de processar informações.” (Federal Communication Comission, 21 de Julho de 2000)
“A áudio-descrição é também usada em salas de aula comuns, já que as descrições propiciam oportunidades de aprendizagem adicionais para construir o vocabulário e desenvolver habilidades de descrição.” http://main.wgbh.org

A ÁUDIO-DESCRIÇÃO DAS IMAGENS NO MATERIAL DIDÁTICO

Dado o caráter estratégico do material didático no desenvolvimento intelectual dos alunos, é mister ampliar o estudo de técnicas que venham, de forma padronizada e segura, adequá-lo a uma ampla gama de necessidades estudantis, mormente de acordo com os princípios do desenho universal.

Nas palavras de Marentette (2004), o Desenho Universal inclui os seguintes componentes:

  • Múltiplos meios de representação;
  • Múltiplos meios de expressão;
  • Múltiplos meios de envolvimento;
  • Uso equitativo;
  • Flexibilidade no uso;
  • Informações perceptíveis
  • Tolerância ao erro;
  • Baixo esforço físico;
  • Tamanho e espaço apropriados para o uso;
  • Comunidade de aprendizes;
  • Ambiente inclusivo, acolhedor com alto nível de expectativas.

Assim, como se tem visto nos muitos exemplos de sucesso alcançados pela aplicação da técnica de tradução visual em outras mídias, a áudio-descrição trará, ao espaço escolar, significativa contribuição para a aprendizagem dos alunos com e sem deficiência.

A título de ilustração da assertiva acima, tomemos os seguintes exemplos: 1. Em um exercício (acerca da força da gravidade, extraído de um livro de Ciências da 2ª. Série do Ensino Fundamental, Descobrindo o Ambiente (1991), página 31, encontramos as figuras abaixo (Fig.1; Fig.2) sem nenhuma áudio-descrição:

“Qual das ilustrações representa o cesto que exige mais esforço para ser carregado?”

Figura do lado esquerdo: Menina carregando cesto de flores. Figura do lado direito: Menino carregando cesto de frutas.
Figura do lado esquerdo: Menina carregando cesto de flores.
Figura do lado direito: Menino carregando cesto de frutas.

A pergunta óbvia a se fazer é: como poderá o aluno com deficiência visual responder a esta questão sem que lhe seja oferecida a áudio-descrição das imagens, visto que ela é crucial para a compreensão do que é pedido no exercício?
Sequer foi ofertada legenda como pista para as imagens.

Consideremos, agora, essa atividade com a oferta de áudio-descrição
“Qual das ilustrações representa o cesto que exige mais esforço para ser carregado?”

Figura da esquerda em que uma menina carrega sorridente um cesto de flores.

Figura da direita em que um menino com boca contorcida carrega um cesto de frutas.

Como segundo exemplo, igualmente sem áudio-descrição, nem legenda, também do mesmo livro de Ciências, analisemos o seguinte exercício encontrado nas páginas 92-93:

“Observe a ilustração da página ao lado, pense e responda no caderno:”

Figura 3: Desenho, sem descrição, da parte hidráulica de uma casa.
Figura 3: Desenho, sem descrição, da parte hidráulica de uma casa.
  1. Onde fica o hidrômetro? Para que ele serve?
  2. Em que lugar fica armazenada a água que chega da rua?
  3. Siga os canos coloridos de azul e descubra: para onde vai a água da caixa?
  4. Siga os canos coloridos de marrom e descubra: para onde vai a água usada?
  5. Que acontecerá com a água da caixa se alguém esquecer a torneira aberta?
  6. Chico demorou 10 minutos no banho. Quantos litros de água ele gastou, se de seu chuveiro saem 20 litros de água por minuto?
  7. Compare suas descobertas com as de seus colegas. Pequenas atitudes podem contribuir muito para evitar o desperdício da água potável. Pensem conversem e descubram como usar o melhor da água no seu dia-a-dia.

O texto apresentado no exercício acima está em quase total dependência da imagem que com ele se relaciona. Aqui cabe bem a indagação: como poderia a criança com deficiência visual responder às perguntas propostas sem ter acesso aos elementos visuais presentes na imagem que lhe permitiriam a compreensão dos conteúdos propostos?

Agora, notemos a imagem do referido texto acompanhada de sua áudio-descrição:

“Observe a ilustração da página ao lado, pense e responda no caderno:”

Um cano azul leva água, que passa por um hidrômetro e sobe para a laje de cima do primeiro andar enchendo quase toda a caixa d’água a qual também possui uma bóia. Da caixa, também por canos azuis, a água desce, no primeiro andar, para uma pia, para o vaso sanitário e para o chuveiro, onde uma menininha está tomando banho, e para a pia do andar térreo, onde uma mulher lava os pratos. Canos marrons saem da parte de baixo da pia, do vaso, do chuveiro, da pia da cozinha e se juntam na caixa de esgoto, do lado de fora da casa, e à qual está ligado um grande cano marrom que vai dar na rua.

Vemos, a partir do exemplo, que a áudio-descrição da imagem permitiria ao aluno com deficiência visual ou com baixa visão compreender de onde a água veio (do hidrômetro, por canos azuis); onde ficou armazenada (na caixa d’água) e qual o seu destino após utilizada (cano de esgoto, por canos marrons). Ao proceder à feitura da áudio-descrição, o autor, o editor, ou o professor poderiam ser levados a refletir sobre a conveniência de substituir o nome “Chico” por um nome feminino ou colocar uma figura de gênero masculino em lugar da figura da menina, uma vez que uma criança com baixa visão pode ter dificuldade de identificar, na imagem, o gênero da figura.

Considerações finais

Do que aqui foi apresentado, pois, só podemos concluir pela importância/necessidade  da oferta da áudio-descrição nos livros didáticos, não só para ganho dos alunos com deficiência, mas para todos que desses livros vão fazer uso, aí incluídos os próprios professores.

Então, por que denegar à criança com deficiência a oferta de um recurso simples e de baixo custo que traz benefícios a todos? A saber: ao áudio-descritores, aqueles trabalhadores que serão contratados para elaborar as melhores descrições possíveis das imagens presentes no material didático que exercitam suas habilidades verbais esforçando-se por oferecer uma descrição que apresente de forma lógica e inteligível os elementos essenciais presentes nas imagens; aos professores que terão o seu tempo de aula otimizado por ter a áudio-descrição já ofertada no material didático; ao aluno com deficiência visual que poderá fazer o exercício junto com os seus colegas; e ao aluno sem deficiência visual que terá seu poder de percepção dos elementos presentes na imagem consideravelmente elevado.

Certamente não é pelo investimento econômico que se fará na melhoria da educação também não é pela impossibilidade de encontrar profissionais capacitados para fazer áudio-descrições das imagens contidas nos livros didáticos, logo é possível que a resposta esteja no entendimento de que as pessoas com deficiência não fazem uso desses materiais ou que se o fazem não são capazes de aprender as informações imagéticas neles contidas, em ambos os casos a resposta esteia-se em barreiras atitudinais que levam ao aluno com deficiência prejuízos de ordem educacional e mesmo social.

Os autores do presente artigo têm, portanto, diversas razões para acreditar que a áudio-descrição traz benefícios a todos, no seio de uma sociedade para todos. E dentre essas razões, certamente, a de que a técnica da áudio-descrição apresenta possibilidades reais de aplicação na construção de um material didático mais acessível ao aluno com deficiência visual, pois acrescenta informações ao texto que, de outra forma, ficariam em silêncio em seu diálogo com a informação textual.

Bibliografia

HIBBING, A. N.;  RANKIN-ERICKSON, J. L. (2003). A picture is worth a thousand words: Using visual images to improve comprehension for middle school struggling readers. The Reading Teacher, 56(8), 758-771.

 MARENTETTE, Lynn V. Thinking, Learning, and Communicating through Multimedia Views from a School Psychologist. In: Kristóf Nyíri (ed.) A Sense of place: the global and the local in Mobile Communication. Vienna: Passagen Verlag, 2005.

OLIVEIRA, Nyelda Rocha de; WYKROTA, Jordelina Lage Martins. Ciências. Descobrindo o ambiente. Belo Horizonte: Formato, 1991.

PAIVIO, Alan. Dual coding theory. In: CONFERENCE ON “PATHWAYS TO LITERACY ACHIEVEMENT FOR HIGH POVERTY CHILDREN,” The University of Michigan School of Education, September 29-October 1, 2006.

RICARDO, Edson; NERY, Pedro. [Sem título]. Belo Horizonte: Formato, 1991. Il. col. p. 31.

RICARDO, Edson; NERY, Pedro. [Sem título]. Belo Horizonte: Formato, 1991. Il. col. p. p. 92-93.

http://www.audiodescricao.com/home.htm

http://www.afb.org/Section.asp?SectionID=44&TopicID=338&DocumentID=4032

http://cct.georgetown.edu/academics/theses/PhilPiety.pdf

http://main.wgbh.org

http://cs.felk.cvut.cz/~xmikovec/bis/UI_Analysis.html

RBTV #1: O traço de união da áudio-descrição: versos e controvérsias

RBTV #1: O traço de união da áudio-descrição: versos e controvérsias[1]

Resumo

O presente artigo versa sobre a áudio-descrição, defendendo esse recurso assistivo como meio de acessibilidade à informação, à comunicação, à educação e à cultura para as pessoas com deficiência, mormente para as com deficiência visual. Ilustra o uso da áudio-descrição em vários países e diz como este direito tem sido requerido pelas pessoas com deficiência. Apresenta razões para que se escreva áudio-descrição com o hífen, colocando em debate a controvérsia sobre a grafia desse vocábulo, quando grafado sem o hífen. Conclui fazendo a assertiva de que a áudio-descrição é recurso para a acessibilidade e que “Acessibilidade” no cinema, no teatro e na televisão implica na oferta de áudio-descrição às pessoas com deficiência visual. Ao apresentar tal argumento, o presente artigo defende que com a áudio-descrição “Se você não vê, poderá ouvir; Se você não ouve, poderá ler; e Se você não lê, poderá compreender”. Acrescenta que, se o leitor ainda não se convenceu de que a áudio-descrição é acessibilidade à informação, à comunicação, à educação e à cultura, ele deve convencer-se desse direito e praticar essa acessibilidade, promovendo a cidadania, dignidade e respeito aos direitos da pessoa humana, também nos museus, no cinema, nos teatros e na televisão.

Abstract

The current article deals with audio description, upholding this assistive resource as a medium of accessibility to: information; communication; education and culture for people with disability, especially visually impaired people. It presents the employment of audio description in many countries, and shows how this assistive tool has been demanded by people with disability. It also points out grammatical reasons for writing the Portuguese word “audio-descrição” with hyphen, putting in debate the controversy around the spelling of this word, when written without hyphen. This article closes with the statement that audio description is a resource for accessibility which in cinemas, theaters, and television implies the offering of audio description for people with visual impairment, and doing so, the current article emphasizes: “If you don’t see you will be able to hear. If you can’t hear you will be able to read. If you can’t read you will be able to understand”.  It adds: in case the reader isn’t yet convinced that audio description is accessibility to: information; communication; education and culture, he should get convinced of this right, and putting it into practice promotes: citizenship, dignity and respect for the rights of the human person, in museums, cinemas, theater rooms and television.

Introdução

A narração (oral ou escrita) dos eventos tem sido uma opção há muito utilizada para dar a conhecer a quem deles não participou, viu ou observou.

Como sabemos das “Histórias” e lendas antigas, seriam através dos olhos e da fala de terceiros que se conheceriam as novas terras, a respeito das quais os viajantes que delas voltavam, contavam suas experiências e impressões. Contudo, tais narrativas eram entrecortadas por interpretações, muitas vezes imprecisas, isso quando não eram fantasiosas. Mesmo os registros, em forma de imagens pintadas, esculpidas ou tecidas, podiam representar o que se acreditava ter acontecido ou visto e não o que verdadeiramente ocorrera.

Com o advento das tecnologias de registro audiovisuais, o gravador, a filmadora e as câmeras fotográficas, o acesso aos elementos sonoros e visuais dos eventos passaram a ser freqüentes e amplos, com mais precisão e fidedignidade da imagem vista.

No entanto, na medida em que se ia deixando a narração e se assumindo mais a apreciação da imagem, as pessoas com deficiência visual passavam a ficar mais e mais de fora do mundo das informações, da educação, da comunicação em geral, e do lazer, quando as imagens eram o foco das apresentações.

Nas últimas décadas, contudo, um movimento internacional, desencadeado nos Estados Unidos vem mudando essa situação.

Esteado na técnica da tradução visual e com o princípio de que todos devem ter pleno acesso à informação, à comunicação, à cultura, à educação e ao lazer, bem como com o entendimento de que cabe ao indivíduo decidir sobre o que quer, como quer, quando quer ter a acesso a tudo isso, começou-se a desenvolver o que veio a ser chamado de áudio-descrição.

Assim como a ortografia desse vocábulo apresenta um traço de união que nos remete a uma nova construção, a partir da composição de elementos distintos e com significados diversos bem conhecidos, o real sentido da áudio-descrição também nos remete a uma nova compreensão do direito à informação e à comunicação. Por conseguinte, o significado dos vocábulos áudio e descrição é bem mais que a união dos dois elementos que o compõem, não sendo, portanto, a mera narração de imagens visualmente inacessíveis aos que não enxergam. A áudio-descrição implica em oferecer aos usuários desse serviço as condições de igualdade e oportunidade de acesso ao mundo das imagens, garantindo-lhes o direito de concluírem por si mesmos o que tais imagens significam, a partir de suas experiências, de seu conhecimento de mundo e de sua cognição.

Destarte, se de um lado as imagens como estão, são inacessíveis às pessoas com deficiência visual, de outro, expectadores com essa deficiência estão desejosos de acesso aos construtos visuais das obras e dos eventos que fazem parte de seu dia-a-dia.

“Pessoas com deficiência reivindicam no Congresso legendas e áudio-descrição na televisão.
MADRI, 23 de Setembro (EUROPA PRESS)

– O presidente do Comitê Espanhol de Representantes de Pessoas com Deficiência (Cermi), Luis Cayo, solicitou nesta terça na Câmara dos Deputados a propositura de uma “legislação que obrigue as televisões, os meios áudio-visuais a fazer suas transmissões com legendas, em língua de sinais e com áudio-descrição.

Durante sua intervenção na Comissão para as políticas de inclusão da pessoa com deficiência, Cayo destacou que as televisões acessíveis às pessoas com deficiência funcionam há vários anos em países como os Estados Unidos, Grã Bretanha ou França, todavia “na Espanha é um tema pendente”.
“Esperamos que nesta legislatura seja saudada esta dívida”, asseverou. [2]

Sim, elas estão desejosas e conscientes do direito que têm à esse acesso.

RESOLUÇÃO 96-13 -TELEVISÃO DIGITAL

CONSIDERANDO que a televisão desempenha um importante papel para a educação e inclusão social e cultural e é o passatempo mais popular das pessoas com deficiência visual;

CONSIDERANDO que as pessoas com deficiência visual perdem informações cruciais devido ao grande conteúdo visual de programas de televisão;

CONSIDERANDO que a áudio-descrição (sic) (uma narração descrevendo ações, linguagem corporal, expressões faciais e cenários) já possibilita que milhares de pessoas com deficiência usufruam dos programas de televisão em alguns países;

CONSIDERANDO que pesquisas de opinião mostram que a vasta maioria das pessoas com deficiência visual querem e precisam de áudio-descrição de programas de televisão;

CONSIDERANDO que o artigo 27 da Declaração Universal dos Direitos Humanos reconhece o direito de todos de fazerem parte da vida cultural da comunidade e beneficiarem-se de avanços científicos;

CONSIDERANDO que em alguns países a legislação sobre transmissão televisiva reconhece o direito das pessoas com deficiência visual de usufruírem da televisão com áudio-descrição;

CONSIDERANDO que o advento da televisão digital (que fará mais canais disponíveis) fornece uma solução técnica para a transmissão e recepção da áudio-descrição; e

CONSIDERANDO que os receptores digitais devem ser facilmente utilizáveis por pessoas com deficiência visual a fim de que a televisão digital lhes seja acessível;

Esta Quarta Assembléia Geral da União Mundial de Cegos, em convenção na cidade de Toronto, Canadá, decide:

  1. Exigir dos legisladores que reconheçam o direito das pessoas com deficiência visual de usufruírem da televisão e que dediquem uma parte da capacidade de transmissão digital ao som da áudio-descrição à medida que e quando a televisão digital estiver sendo introduzida;
  2.  Exigir dos canais de televisão que assumam um compromisso para com seus espectadores com deficiência no sentido de introduzirem serviços tão logo um método de transmissão do som da áudio-descrição torne-se disponível; e
  3. C. Exigir a cooperação dos fabricantes de receptores para que incorporem as necessidades das pessoas com deficiência visual ou com baixa visão no projeto dos receptores digitais.

Quarta Assembléia da União Mundial de Cegos (WORLD BLIND UNION)[3].
TORONTO, CANADÁ. 26-30 AGOSTO 1996

Por toda a parte, à busca por uma Sociedade Inclusiva, as pessoas com deficiência têm ocupado espaços e falado para serem escutadas. Suas falas, ainda que um tanto abafadas pelos modelos tradicionais de exclusão e de segregação, estão, contudo, sendo ouvidas cada vez mais. De fato, no que concerne ao acesso à imagens visuais, as pessoas com deficiência visual vêm logrando êxito, seja no estrangeiro, seja no Brasil. E isso pode ser visto nas programações de teatros e cinemas ao redor do mundo.

No Caribe:

Em Cuba, filmes com sistema de áudio-descrição para pessoas com deficiência visual.

ELIZABETH LÓPEZ CORZO

A Amostra de Cinema Cubano, com cinco filmes para cegos e pessoas com baixa visão foi apresentada hoje, na cidade de La Habana, mediante o sistema de áudio-descrição, método inovador na América Latina devido ao enfoque mais integral que lhe outorga a ilha.

José Luis Lobato, cineasta e promotor do projeto, mencionou que na Argentina houve um precedente dessa iniciativa mas, agora, Cuba é o único país que trabalha em profundidade com uma amostra cinematográfica desse tipo.

Este é um evento de importância mundial, uma vez que a nação caribenha o desenvolve tendo em vista o usufruto conjunto de videntes e não-videntes, completamente diferente do que ocorre em outras partes do mundo, que só se destina aqueles com deficiência visual e também aqui se promove a visita ao cinema como um centro cultural fora do âmbito doméstico, disse ele.

Carlos Abel Ramirez, chefe do Departamento de Cultura, Educação e Relações Públicas da Associação Nacional dos Cegos, classificou como muito positivo o projeto devido ao seu cunho social e humano, pois o objetivo desta entidade é a reabilitação integral de seus afiliados e de seu ambiente social.
Acrescentou que se amplia o conhecimento das pessoas com deficiência, enquanto o povo também se instrui sobre as necessidades dessas pessoas e em como podem ser satisfeitas.

O sistema supre, com a voz de um locutor, a falta de percepção das imagens, através de descrições sonoras complementares que detalham os gestos dos personagens, sua aparência, paisagens, e outros, e só foi desenvolvida nos Estados Unidos, Espanha e Itália.

Robert Smith, Vice Presidente do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficas, afirmou que este é um método, que merece uma atenção para alcançar seu objetivo comunicativo, mantendo a sua integridade artística. Ele disse que em breve começarão a distribuir fitas em todos os conselhos de Cuba, através dos Centros Provinciales del Cine.

A continuidade do projeto é de extrema vontade de cultura do país, junto com versões de outros programas na telinha disse Jorge Gonzalez, chefe do Departamento de dublagem do Instituto Cubano de Rádio e TV, e comentou que a apresentação está prevista durante o verão, a partir da coleta em um canal nacional.

Até a data terão sido finalizadas as áudio-descrições de Viva Cuba, La bella del Alhambra, Clandestinos, Páginas del diario de Mauricio e Bailando Cha Cha Chá, enquanto se continua trabalhando nos títulos Se permuta, El brigadista e Fresa y Chocolate[4].

No Havaí:

Teatro Diamond Head para a Pessoa com Deficiência Visual

O Teatro Diamond Head está oferecendo áudio-descrição para as pessoas com deficiência visual no segundo domingo de cada apresentação ao vivo do teatro.

A seguinte lista de datas refere-se às suas apresentações durante esta estação.

Título do Filme e Data da Apresentação

  • Meet Me in St. Louis – December 9 2007
  • Barefoot in the Park – February 10 2008
  • Flower Drum Song – March 30 2008
  • The Producers The Wizard of Oz – May 25 2008
  • The Wizard of Oz – July 20, 2008

Todas as apresentações são as 16:00 e oferecemos um disconto de $5 para as poltronas de $22 e $32, para as pessoas com deficiência visual.

Contato: Melanie Garcia. Box Office Manager/Volunteer Coordinator. Diamond Head Theatre. 520 Makapuu Ave. Honolulu, HI 96816
(808) 733-0277, x.310 [5].

Na Catalunha:

TV3 oferece ‘La gran pellícula’ com áudio-descrição para pessoas com deficiência visual através da TDT.

Desde 16 de fevereiro a TV3 transmite através da TDT, ‘La Gran Pel.lícula’ com a áudio-descrição para pessoas com deficiência visual. A televisão da Catalunha habilitou um canal de áudio específico para a áudio-descrição, como parte de um projeto que prevê um aumento progressivo da programação acessível a pessoas com deficiência visual.

Toda semana, ‘A Gran Pel.lícula’, que é apresentado sexta-feira à noite, irá incorporar comentários descritivos para que as pessoas com deficiência visual possam acompanhar tudo o que acontece e que só é apresentado através da imagem. Com este serviço de áudio, pessoas com deficiência visual podem obter informação sobre todos os elementos necessários para não perder o fio da meada do filme e também informações sobre as atitudes e expressões dos personagens, movimentos, paisagens, o figurino, e assim por diante.

TV3 fez os primeiros lançamentos de filmes com áudio-descrição no final da década de 80, e mais tarde ofereceram-se séries como ‘plats bruts’,’Majoria absoluta’ e ‘L’un per l’autre’. Mas o projeto que agora se coloca em prática planeja oferecer uma programação regular e estável dirigida às pessoas com deficiência visual e ir ampliando-a. Para tornar possível esta expansão, a Televisão da Catalunha, criou um sistema tecnológico específico e apropriado. As áudio-descrições até agora vinham sendo transmitidas através do sistema dual, e isso implicava na eliminação da versão original ou o som estéreo do programa.

Agora, graças às TDT, TVC, se pode destinar um canal de áudio exclusivamente para a áudio-descrição. Para ter acesso a este serviço apenas necessita-se de escolher o canal correspondente dentro do menu de áudios do receptor de TDT.

Há muitos anos, a acessibilidade é um objetivo prioritário da TVC. Diariamente, são oferecidos espaços informativos traduzidos para a língua de sinais catalã, e desde os primórdios do teletexto tem-se incentivado de modo muito importante a legendagem destinada às pessoas com deficiência auditiva.
A Legendagem foi inaugurada no ano de 1990, e desde então a oferta tem aumentado ano após ano. No ano de 2006, foram emitidas um total de mais de 10.000 horas legendadas no conjunto dos diferentes canais (analógicos e digitais). No que concerne à programação, nestes momentos é possível continuar com as legendas em qualquer tipo de programas: informativos, documentários, desenhos animados, séries, filmes, programas culturais e de entretenimento, etc.

No ano de 2003, também foi desenvolvido um sistema tecnológico próprio que permite legendar em tempo real programas ao vivo. O programa “Àgora” é oferecido com legendas, desde há quase dois anos, graças a este sistema, e em 2007, começou-se também a legendar o programa “El temps”. [6]

Em Portugal:

TV Cabo e Canal Lusomundo Gallery adaptam filmes Portugueses para pessoas cegas

No próximo dia 24 de Fevereiro, o canal Lusomundo Gallery apresenta o 15º filme português com áudio-descrição(sic). A TV Cabo/Canal Lusomundo Gallery exibiu o primeiro filme com áudio-descrição em 3 Dezembro de 2004. O filme “O Pátio das Cantigas” tornou-se assim o primeiro filme português a incorporar a áudio-descrição.No próximo dia 24 de Fevereiro, o filme “O Grande Elias”, de Arthur Duarte, torna-se o 15º filme com áudio-descrição sincronizada à disposição no canal Lusomundo Gallery da TV Cabo.

A um ritmo de um filme por mês, o leque dos filmes portugueses vão desde os clássicos, sendo o mais velho de 1935 (“As Pupilas do Senhor Reitor”), até aos filmes contemporâneos, com realizações datadas de 2003, como é o caso de “A Selva” de Leonel Vieira.

Lista dos filmes com áudio-descrição:

  • “O Pátio das Cantigas” de Francisco Ribeiro (Ribeirinho), 1941 Duração: 125 min. Estreou a 3 Dezembro 2004 (Dia Internacional das Pessoas com Deficiência)
  • “O Costa do Castelo” de Arthur Duarte, 1943 Duração: 125 min. Estreou a 28 Janeiro 2005
  • “O Leão da Estrela” de Arthur Duarte, 1947 Duração: 110 min. Estreou a 20 Fevereiro 2005
  • “O Querido Lilás” de Artur Semedo, 1987 Duração: 104 min. Estreou a 30 Março 2005
  • “A Vida é Bela” de Luís Galvão Teles, 1982 Duração: 109 min. Estreou a 29 de Abril 2005
  • “Um Crime de Luxo” de Artur Semedo, 1991, Duração: 87 min. Estreou a 20 Maio 2005
  • “A Selva” de Leonel Vieira, 2003 Duração: 120 min. Estreou a 19 Junho 2005
  • “Fado, História d’uma Cantadeira” de Perdigão Queiroga, 1947 Duração: 108 min. Estreou a 21 Julho 2005
  • “As Pupilas do Senhor Reitor” de Leitão de Barros, 1935 Duração: 102 min. Estreou a 26 Agosto 2005
  • “A Vizinha do Lado” de António Lopes Ribeiro, 1945 Duração: 115 min. Estreou a 29 Setembro 2005
  • “Sonhar é Fácil” de Perdigão Queiroga, 1951 Duração: 94 min. Estreou a 30 Outubro 2005
  • “O Pai Tirano” de António Lopes Ribeiro, 1941 Duração: 118 min. Estreou a 30 Novembro 2005
  • “Maria Papoila” de Leitão de Barros, 1937 Duração: 98 min. 21 Dezembro 2005
  • “Os Três da Vida Airada” de Perdigão Queiroga, 1952 Duração: 98 min. Estreou a 25 Janeiro 2006Próxima estreia
  • “O Grande Elias” de Arthur Duarte, 1950, Duração: 124 min. Estreia a 24 de Fevereiro 2006[7]

No Brasil:

Imagine o que não se pode ver
A experiência pernambucana

Espetáculo O menino que contava estrelas foi o primeiro a disponibilizar a áudio-descrição no Recife.
Mariana, oito anos, é esperta. Morena, cabelos cacheados, inquieta. Nasceu com deficiência visual, o que não está impedindo que ela comece – como toda criança – a compreender o mundo que a cerca. Faz balé. “Danço muito bem. Vou me apresentar no teatro da UFPE. Você conhece?”, pergunta a pequena. Mariana já está acostumada à aúdio-descrição. Viu Irmãos de Fé, do padre Marcelo Rossi, primeiro filme que ofereceu o recurso no país. Na televisão, assiste a programas educativos que permitem que ela construa as imagens que é impossibilitada de ver. No último mês de outubro, a garotinha era uma das mais curiosas na platéia da peça O menino que contava estrelas, que esteve em cartaz no Teatro Joaquim Cardozo, no Recife.

Mariana nasceu com deficiência visual, faz balé, assiste TV e gostou da peça Completando a “lista dos pioneiros”, o espetáculo foi o primeiro no Recife que disponibilizou a áudio-descrição. “A parte que eu mais gostei foi a do dragão.

O menino encontrava um dragão de verdade. Ficou se tremendo”.

A áudio-descrição da peça foi realizada pelos alunos do curso Imagens que falam, detradução visual com ênfase em áudio-descrição, que está sendo ministrado pelo professor Francisco Lima. Cego desde que nasceu, há 44 anos, o professor – doutor em psicofísica sensorial – lida profissionalmente com imagens desde 1996. “Trabalhei com a produção de desenhos que podem ser reconhecidos pelo tato, um recurso que é desconsiderado muitas vezes pelos próprios educadores”.

Atualmente, o professor tem se dedicado a difundir a áudio-descrição que, no caso do teatro, é feita ao vivo. “Repetimos a experiência na peça Os cegos, que também estava no Joaquim Cardozo, e pretendemos continuar fazendo isso. Inicialmente, com as peças deste teatro”, explica.

No campo da arte, além dos palcos e do cinema, a áudio-descrição pode ser utilizada também nos museus. “Seria uma descrição das obras que as outras pessoas conseguem enxergar”, complementa Francisco. Para tornar as artes plásticas completamente acessíveis para pessoas cegas, no entanto, os recursos sensoriais devem ser estimulados. Por que não, por exemplo,disponibilizar reproduções das obras para que os deficientes possam tocá-las?

“É preciso pensar em quais barreiras os deficientes enfrentam. Cada tipo de deficiência é uma barreira diferente. Temos uma lei no Recife, por exemplo, obrigando a fazer maquetes dos prédios públicos importantes, que possam ser tocadas, para os deficientes conhecerem a arquitetura do lugar. Mas isso não sai do papel”, denuncia Anderson Tavares, idealizador da consultoria Visibilidade, que trabalha com acessibilidade.

Diário de Pernambuco,
Imagine o que não se pode ver

Pollyanna Diniz – pollyannadiniz.pe@diariosassociados.com.br [8].

Muito embora venham sendo várias as ações não governamentais voltadas a respeitar o direito de as pessoas com deficiência assistir a um filme, a uma peça teatral ou de visitar um museu com acessibilidade; não obstante os esforços das pessoas com deficiência visual em fazer o Ministério das Comunicações entender que acessibilidade não é opção, mas sim necessidade e direito; a despeito da clareza solar de nosso ordenamento jurídico na garantia do direito à informação, à educação e à cultura, as emissoras de TV brasileiras, representadas pela ABERT, vêm fazendo lobby (e sendo acolhidas pelo Mini-Com) contra a implantação da lei que assegura esse direito aos milhares de cidadãos com deficiência, aqui incluídas pessoas com dislexia, com deficiência intelectual e física.

E não só elas, mas também as pessoas idosas (com dificuldade de leitura) e as pessoas analfabetas, uma vez que, no cinema e nos DVDs os filmes são, em grande parte, legendados e não dublados, o que impede a todas essas pessoas o acesso ao constitucional direito ao lazer que dessas obras poderia advir, caso tivessem áudio-descrição, esse recurso que é definido pela PORTARIA Nº 310, DE 27 DE JUNHO DE 2006 do Ministério das Comunicações como sendo:

3.3. Áudio-descrição (sic): corresponde a uma locução, em língua portuguesa, sobreposta ao som original do programa, destinada a descrever imagens, sons, textos e demais informações que não poderiam ser percebidos ou compreendidos por pessoas com deficiência visual.[9].

A oferta da áudio-descrição eliminaria e/ou minimizaria a atitude excludente de nossa sociedade que ainda não percebeu que não é a deficiência que incapacita a pessoa, mesmo quando e onde lhe impõe limites. Quem incapacita uma pessoa com deficiência é a própria sociedade que não lhe respeita o direito de acesso aos bens e serviços disponíveis às pessoas sem deficiência e que um contribuinte com deficiência, também ajuda pagar com seus impostos.

Logo não se está falando de filantropia ou privilégio quando se reclama pela a oferta da áudio-descrição, nem de um remendo desta. Estamos falando da provisão de um serviço com qualidade para todos a toda hora, pois a toda hora uma pessoa vidente pode ligar a televisão e assistir a um programa. Assim, para que tenha mesma igualdade de acesso a essa programação é que as pessoas com deficiência pleiteiam a áudio-descrição e a acessibilidade a ela associada.

São 10:00 h e Joe, que é cego, quer ver televisão. A mulher e o filho de Joe, que usufruem de capacidade de visão, não estão disponíveis para ler o guia dos programas.
Mesmo que estivessem disponíveis, Joe tentará ser independente e não quer aceder a essa informação através da sua família. É claro que pode ir de canal em canal e esperar cada intervalo para perceber através do áudio que programa é que está a ver. Isso é exatamente o que ele e outros cegos têm feito ao longo dos anos, porque o guia da programação tradicional é puramente visual. E num universo de mais de 200 canais, Joe dispenderia todo o seu tempo navegando, em vez de se divertir com um programa específico. Mas agora, Joe já não é obrigado a navegar inutilmente, graças aos serviços desenvolvidos associados à sua STB.

Barreiras dos Media Convergentes para os Indivíduos Que São Cegos ou Têm Baixa Visão [10]

De modo a responder ao direito de acesso à comunicação e à informação, portanto, surge uma técnica, e um profissional que a emprega: a áudio-descrição e o áudio-descritor, bem como são desenvolvidas tecnologias para a aplicação dessa técnica.

Todavia, a áudio-descrição não é uma descrição qualquer, despretensiosa, sem regras, aleatória. Trata-se de uma descrição regrada, adequada a construir entendimento, onde antes não existia, ou era impreciso; uma descrição plena de sentidos e que mantém os atributos de ambos os elementos, do áudio e da descrição, com qualidade e independência. É assim que a áudio-descrição deve ser: a ponte entre a imagem não vista e a imagem construída na mente de quem ouve a descrição.

Logo, a união dos sentidos se dá por uma ponte em cujas extremidades estão a imagem e a descrição. Essa ponte, o áudio-descritor, vem conduzir a imagem que sem a descrição será inacessível às pessoas com deficiência visual, mas que, com a áudio-descrição, tomará sentido.

Com efeito, para Lívia Mota (2008), a áudio-descrição

“…é um recurso de acessibilidade que permite que as pessoas com deficiência visual possam assistir e entender melhor filmes, peças de teatro, programas de TV, exposições, mostras, musicais, óperas e outros, ouvindo o que pode ser visto. É a arte de transformar aquilo que é visto no que é ouvido,o que abre muitas janelas para o mundo para as pessoas com deficiência visual. Com este recurso, é possível conhecer cenários, figurinos, expressões faciais, linguagem corporal, entrada e saída de personagens de cena, bem como outros tipos de ação, utilizados em televisão, cinema, teatro, museus e exposições”. (grifos nossos) [11]http://www.saci.org.br/index.php?modulo=akemi&parametro=22027.

Estando disponível nos Estados Unidos e Europa, há umas 3 décadas, no Brasil, a áudio-descrição ainda é motivo de espanto para quem, pela primeira vez ouve falar ou lê a respeito dessa tecnologia assistiva de acesso à comunicação/informação.

Mercado inclusivo
10/Dez/2009

Nunca ouvi falar em audiodescrição. Até o dia em que uma amiga publicitária, Neide Cavalcanti, disse que estava se formando na segunda turma do curso de extensão de formação de audiodescritores ou imagens que falam do Centro Estudos Inclusivos, que fica no Centro de Educação Inclusiva (CEI) da UFPE. A técnica é usada para pessoas com deficiência visual, com baixa visão e para os print deisability, os que têm dificuldade de leitura, como analfabetos, crianças e disléxicos, por exemplo.

O coordenador do CEI, Francisco Lima, define a disciplina como uma técnica de descrição voltada aos eventos visuais, imagens, fotos, filmes, tornando-os compreensíveis a pessoas cegas, por intermédio da fala ou escrita de quem descreve tais eventos.”

Moema Luna é jornalista e responsável pela coluna JC Marketing e Comunicação. http://jc3.uol.com.br/comercial/coluna.php?canal=5&dth=2009-12-10

O próprio Ministério das Comunicações e outros têm dado provas de não entender/saber o alcance dessa tecnologia e do que ela significa em termos de direitos humanos. Exemplo disso é a deplorável e controversa Portaria 661/08 que protelou a obrigatoriedade de as televisões oferecerem áudio-descrição em suas programações, conforme manda nosso ordenamento jurídico lei 10098/00 e decreto 5296/04.

Segundo Quico (2005),

Num estudo realizado em 1998, a American Foundation for the Blind verificou que a maioria das pessoas com deficiências visuais que tinham utilizado o serviço de Áudio-Descrição consideraram este como muito útil, bem como davam preferência aos conteúdos com Áudio-Descrição (sic). Os principais benefícios do serviço citados por pessoas invisuais ou com deficiências visuais graves foram os seguintes:

  • ficar a conhecer os ambientes visuais do programa,
  • compreender melhor os materiais televisivos,
  • sentir-se independente,
  • sentir-se igual a uma pessoa sem deficiências visuais,
  • sentir satisfação,
  • alivio dos espectadores sem deficiência visual com quem assistiam aos programas. [11]

E o desconhecimento sobre os benefícios da áudio-descrição perpassa outras áreas sociais, como a da educação que, por seu ministério não obriga que os livros didáticos estejam disponíveis aos alunos com deficiência visual com a descrição dos elementos visuais, muitas vezes necessários para o completo entendimento e conseqüente aprendizagem do conteúdo desses livros.

Em defesa da áudio-descrição

Pelo caráter incipiente da áudio-descrição no Brasil, até mesmo entre alguns dos áudio-descritores brasileiros, verifica-se controvérsia, por exemplo, quanto à grafia do termo áudio-descrição, o qual tem aparecido escrito como “áudiodescrição”, “áudio descrição” e, mais freqüentemente, na forma de “audiodescrição”. E como se grafa a palavra áudio-descrição, então?

Como se pode ver pela grafia adotada neste artigo, o autor optou por a grafar com hífen, mantendo o acento agudo no a do primeiro elemento do léxico.

Ao dizermos áudio-descrição, estamos dizendo de áudio e estamos dizendo de descrição. Os termos mantêm individualmente seu sentido original, porém, constituindo novo sentido, numa nova unidade semântica. Quanto à prosódia e à grafia das palavras em separado, elas são mantidas, logo não havendo razão que justificasse as unir na grafia ou as escrever em separado, sem hífen. Isto é, a junção dos termos áudio e descrição pelo hífen leva ao entendimento de uma nova construção semântica, com sentido próprio, sem que cada termo se destitua por completo de seu sentido original.

Fundir áudio e descrição, sem a correta grafia, portanto, pode levar a uma idéia imprecisa do que, de fato, ela é, um novo termo, com elementos constitutivos conhecidos, mas que mantém a acentuação e demais atributos gráficos dos elementos em separado e, por conseguinte, com sentido próprio e distinto do significado que têm os termos áudio e descrição individualmente.

Quando se une diferentes elementos com hífen e não se perde o sentido original de cada elemento constitutivo, constrói-se na relação uma nova unidade semântica com sentido próprio e concernente ao novo vocábulo. Não se dar conta disso é um equívoco que pode levar a conclusões errôneas.

No extrato abaixo vê-se exemplo do erro que o autor pode cometer, quando a despreocupação com o uso da grafia correta ou o aligeiramento na decisão de que escrita adotar dão lugar à pesquisa, ao estudo e, enfim, à investigação científica minuciosa.

Você está com uma pressa danada e quer saber se “salário mínimo” se grafa com hífen ou sem ele. Numa consulta ao dicionário, você rapidamente vê “salário-mínimo” com hífen e se dá por satisfeito: vai usar a expressão com o hífen.

Nada disso! Numa consulta mais atenta, você verá que “salário-mínimo” com hífen tem um significado diferente do que está imaginando. A expressão não significa o valor mínimo que o trabalhador brasileiro deve receber como salário. Nesse caso, devemos grafar sem o hífen: “salário mínimo”. “Salário-mínimo” é uma expressão popular que possui outro sentido: “Esse time é salário-mínimo” = “Esse time é muito fraco, não vale nada”.

Quando queremos nos referir à remuneração mínima dos assalariados, utilizamos as palavras “salário” e “mínimo” no sentido básico delas, o que não acontece na expressão com hífen, que é usada para adjetivar alguma coisa.[12]

O excelso, polêmico e não menos criticado gramático e filólogo da língua portuguesa Napoleão Mendes de Almeida, confirma o uso de hífen, quando os elementos constitutivos de um vocábulo mantém prosódia e grafia originais, formando nova palavra com sentido próprio. E Napoleão concorda com essa regra, sem deixar de seu purismo no que tange às normas gramaticais e ortográficas, bem como sem deixar de ser crítico ferrenho do uso de hífen, dizendo que esse traço-de-união “é desnecessário e mero ‘enfeite’ que deve ser eliminado”.

Justifica-se o hífen em algumas das palavras compostas por justaposição, a saber, naquelas formadas por dois termos que têm significação própria quando isolados e, no se unirem para formar o composto, conservam ambos, além da significação, a grafia e a prosódia que lhes são peculiares: guarda-chuva, couve-flor, papel-moeda, amor-perfeito. “Justifica-se” ficou dito, mas não nos esqueçamos de que esse enfeite existe quase que exclusivamente no nosso idioma. (Almeida, 1996:244-245)

Alinhados com o Gramático, sustentamos que o uso do hífen não é exclusivo de nossa Língua, como se pode verificar em outros idiomas como no inglês e francês.

Com efeito, também nesses idiomas há os que adotam o traço-de-união ao grafarem áudio-descrição. Seria mesmo por “enfeite”?

Audio-Description
Bernd Benecke
Bayerischer Rundfunk, Munich, Germany

RÉSUMÉ
L’audio-description est présentée principalement selon deux axes: son développement récent et les principales étapes de réalisation de ce mode de transfert linguistique.
(A áudio-descrição é apresentada principalmente segundo dois eixos: seu desenvolvimento recente e as principais etapas de realização deste modo de transferência lingüística).

ABSTRACT
This paper deals mainly with two aspects of audio-description: the development of this mode of language transfer and the main steps in the preparation of an audio-description.
(Este artigo trata principalmente de dois aspectos da áudio-descrição: o desenvolvimento deste modo de tradução lingüístico E os passos principais no preparo da áudio-descrição).

MOTS-CLÉS/KEYWORDS
audio-description, blind and visually-impaired people, German TV channels, recording (Palavras chave áudio-descrição, pessoas cegas e com deficiência visual, canais de televisão alemã, gravação) [13]

Centre Dramatique Régional de Tours
DE GAULLE EN MAI
Textes organisés par Jean-Louis Benoit
Extraits du Journal de l’Elysée de Jacques Foccart
Avec Jean-Marie Frin, Arnaud Décarsin, Luc Tremblais, Laurent Montel, Dominique Compagnon
Ce sont des extraits du journal de Jacques Foccart consacré à cette période qui nous ont permis de construire ce spectacle (…)
Représentation avec audio-description
Jeudi 11 décembre 2008
(Estes são extratos do jornal de Jaques Foccart dedicados a este período que nos permitiram construir este espetáculo: (…)

Representação com áudio-descrição.

Quinta, 11 de dezembro de 2008 [14]

Bringing ballet to the blind – News – audio-description at the Kentucky Center for the Arts – Brief Article

Dance Magazine,
June, 2002
by Janet Weeks

Dancers aren’t the only ones warming up before The Nutcracker performances at the Kentucky Center for the Arts in Louisville. Out front, a trained audio-description volunteer also prepares for a live performance. As the flowers waltz, the volunteer, settled into the light booth or some other suitable space, broadcasts an auditory scene for blind patrons who listen from their seats using a receiver and earphone. The center’s audio-description program celebrates its tenth anniversary this season and for the first time it’s offering the service for modern dance as well as ballet devotees. (Trazendo Ballet aos cegos – Notícia – Áudio-descrição no Centro de Artes de Kentucky- Breve artigo. Os dançarinos não são os únicos a se aquecerem antes da apresentação do “The Nutcracker”, no Kentucky Center for the Arts de Louisville. Lá na frente, um voluntário treinado em áudio-descrição também se prepara para uma performance ao vivo) [15]

Ficando demonstrado o uso desse sinal gráfico em outros idiomas, em mesma expressão de que fazemos uso, a saber, áudio-descrição e ficando demonstrado que, até mesmo o grande Gramático brasileiro Napoleão Mendes de Almeida reconhece a justificativa para o uso de hífen em vocábulo composto, conforme citado, passemos a analisar, pois, o léxico áudio-descrição, quanto ao significado em separado de seus elementos e a relação destes quando juntos.

Segundo o popular Dicionário do Aurélio:

Áudio: [De audi(o)- (q.v.).] S.m. 2. Cin. A parte sonora de um filme.
Descrição: [Do lat. Descriptione.] S.f. 1. Ato ou efeito de descrever. 2. Exposição circunstanciada feita pela palavra falada ou escrita. (FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda,2004)

Aqui, há de se notar que a descrição se presta “pela palavra falada ou escrita”, portanto não sendo de se admirar que desse termo derivem áudio-descrição, a descrição escrita de imagens estáticas (de fotografias, pinturas, esculturas etc.), ou das expressões, figurinos em filmes e peças teatrais, tanto quanto a parte sonora de um filme, em processo de legendagem para o sistema close caption, voltado aos indivíduos surdos, cujo acesso aos áudios do filme se dá, por exemplo, pela descrição dos sons necessários à compreensão da obra e que não são deduzidos da informação visual ou escrita da cena.

Consoante o excelso lexicógrafo Caldas Aulete:

Descrição: s.f. discurso por meio do qual se descreve ou representa alguma coisa ou pessoa; narração circunstanciada; enumeração dos caracteres que distinguem uma pessoa ou coisa.(Aulete, 1968)

Observemos que a narração a que o termo descrição nos remete, quando da áudio-descrição é uma narração dos atributos visuais não compreendidos dos diálogos e efeitos sonoros do filme, o que deixa patente a manutenção desse significado ao se constituir a palavra áudio-descrição (descrição com palavras, narração, dos eventos imagéticos, das características da cena ou dos elementos dela).

Portanto, o termo descrição é adequadamente aplicado nessa construção do vocábulo para melhor determinar que a descrição não seja confundida com interpretação. Com efeito, na áudio-descrição, descreve-se o que se vê e não o que se pensa ou que se acha ter visto.

A áudio-descrição vem completar, ampliar o conhecimento que se pode alcançar de uma dada cena ou filme, mas será a cognição que fará a diferença, de fato. Assim, o papel do áudio-descritor é levar à mente do usuário do serviço, por meio da descrição, oral ou escrita, aquilo que ele vê, da forma que vê, com a maior completude e exatidão que o tempo lhe permitir, dentro de regras e premissas profissionais, sólidas e éticas.

Para sustentarmos com maior profundidade este entendimento, tomemos mais uma vez o que vem significar áudio e descrição, agora na definição do renomado dicionário Michaelis:

áudio
áu.dio2
sm (lat audio) Telev 1 Faixa do espectro reservada ao som, em contraposição ao vídeo. 2 Coluna do script destinada às falas e anotação de sons.[16]

descrição
des.cri.ção
sf (lat descriptione) 1 Ação ou efeito de descrever. 2Lit Tipo de composição que consiste em enumerar as partes essenciais de um ser, geralmente adjetivas, de modo que o leitor ou ouvinte tenha, desse ser, a imagem mais exata possível. (grifos nossos)[17]

Como fica patente, a relação de script, de descrição circunstanciada, de narração pela fala em registro oral ou pelo próprio registro escrito, bem como a relação de tradução da imagem em som, tornando-o “oposição à imagem”, mas correspondente ao filme, torna o vocábulo áudio-descrição um termo com sentido específico e inovador, cujos elementos assumem o significado da tradução visual mediado pelo audiodescritor.

Por assim dizer, então, o áudio-descritor é o (hífen) que une a obra ao expectador, dando novo sentido a ambos, o sentido da acessibilidade, da cidadania, do respeito que cada espectador deve ter ao se deparar com uma obra, seja ela cultural, educacional ou outra.

Entretanto, mais que uma questão gramatical o hífen da áudio-descrição é o  traço de união entre a audição das pessoas com deficiência visual e a imagem visual pretendida pelo autor; entre a inacessibilidade e a compreensão; entre o desrespeito e o reconhecimento de direitos.

Ainda assim, lancemos olhos ao novo acordo ortográfico da língua portuguesa, previsto para entrar em vigor no ano que nos soma à porta, e vejamos o que ele nos diz:

Segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, apresentado por Ernani Terra, o emprego do hífen (-)

continua a ser usado nas palavras compostas, na ligação dos pronomes oblíquos enclíticos (colocados depois da forma verbal) e mesoclíticos (colocados no meio da forma verbal) ao verbo e na ligação dos sufixos de origem tupi: couve-flor, segunda-feira, entregá-lo, entregá-lo-íamos, sabiá- guaçu.[18]

O autor observa que “no entanto, as palavras em que se perdeu a noção de composição deverão ser escritas sem o hífen”, o que não é o caso do vocábulo áudio-descrição, em que se mantém o sentido dos elementos em separado.

O autor observa ainda que não se usa hífen quando:

a) quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s: antirreligioso, antissemita, contrarregra, cosseno
b) quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por vogal diferente dela: antireo, autoestrada, coeducação.

Em todos esses casos, certificamos que não é acolhida a justificativa da grafia de áudio-descrição sem o (hífen).

Ao consultarmos o site http://www.colegiocastroalves.g12.br, verificaremos que:

Nova Regra Regra Antiga Como Será
Não usamos mais hífen em compostos que, pelo uso, perdeu-se a noção de composição manda-chuva, pára-quedas, pára-quedista, pára-lama, pára-brisa, pára-choque, pára-vento mandachuva, paraquedas, paraquedista, paralama, parabrisa, parachoque, paravento
Obs: o uso do hífen permanece em palavras compostas que não contêm elemento de ligação e constitui unidade sintagmática e semântica, mantendo o acento próprio, bem como naquelas que designam espécies botânicas e zoológicas: ano-luz, azul-escuro, médico-cirurgião, conta-gotas, guarda-chuva, segunda-feira, tenente-coronel, beija-flor, couve-flor, erva-doce, mal-me-quer, bem-te-vi etc.[19]

Também aqui, nada se vê que obsta o uso do hífen em áudio-descrição. Pelo contrário, se confirma que nos casos em que os elementos mantêm sentido e grafia originais, porém constituindo nova unidade semântica com sentido próprio, a indicação é de se fazer uso desse traço-de-união.

E é pela união que devemos optar no caso da áudio-descrição, uma vez que mais que a controvérsia sobre a grafia deste vocábulo, o debate a ser feito é o da defesa de as pessoas com deficiência terem acesso à áudio-descrição,

como meio de resposta social à barreira comunicacional que os filmes e outros recursos televisivos, de cinema, de teatros e outros impõem às pessoas cegas      ou com baixa visão, quando o recurso da A-d não é oferecido.

Logo, não nos debatamos pelo que há de controvérsia na A-d, mas nos detenhamos no que nela nos une.  Em outras palavras, não nos descuidemos do traço que nos une na áudio-descrição: o direito humano de se ter acesso com igualdade de condições e oportunidade aos bens e serviços devidos a todos, sejamos pessoas com deficiência ou não.

Ademais, áudio-descrição é nada menos que acessibilidade, e acessibilidade é áudio-descrição, significando que, como dizem os poetas,

Se você não vê, poderá ouvir;
Se você não ouve, poderá ler;
Se você não lê, poderá compreender.”

Entretanto, se você ainda não se convenceu de que áudio-descrição é direito à informação, à comunicação, à cultura, lazer e educação, convença-se de que ela é tudo isso e pratique a acessibilidade, promovendo a cidadania, dignidade e respeito à pessoa humana, também nos museus, no  cinema, nos teatros e na televisão.

Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Dicionário de Questões Vernáculas. 3. Ed. São Paulo: Editora Ática, 1996. p. 244-245.

AULETE, Caldas. Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa. 5ª ed. Rio de Janeiro, Delta S.A., 1968.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 3ª ed. Revista e atualizada. Curitiba, ed. Positivo, 2004.

MOTTA,   Maria Villela de Mello.   Audiodescrição – recurso de acessibilidade para a inclusão cultural das pessoas com deficiência visual,  2008.   In:  http://www.saci.org.br/index.php?modulo=akemi&parametro=22027

QUICO, Célia.  Acessibilidade e Televisão Digital e Interactiva: o caso particular do serviço de Áudio-Descrição destinado a pessoas invisuais ou com deficiências visuais graves”. In:  Estratégias de Produção em Novos Media, Edição COFAC/ Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. ISBN: 972-8881-08-8, 2005.


Notas de rodapé

[1] controvérsia(con.tro.vér.si:a) sf.1. Diferença de opiniões ou discussão quanto a uma ação, afirmação, teoria, proposta ou questão; POLÊMICA2. P.ext. Ação de negar, contradizer ou de se opor a algo; CONTESTAÇÃO; IMPUGNAÇÃO3. P.ext. Debate de idéias; POLÊMICA[F.: Do lat. controversia, ae.] www.aulete.com.br