Caro editor, Sou Isabel Pitta Ribeiro Machado – Bacharel em Filosofia (UNICAMP), Graduada em Fonoaudiologia (PUCC) e em Agronomia (Universidade de Padova – Itália), Audiodescritora da ONG Vez da Voz (vezdavoz.com.br), Coordenadora do Projeto de Inclusão Social, Cultura e Digital do Ministério da Cultura: Ponto de Cultura Cinema em Palavras (Centro Braille), Professora do Curso … Continue reading Relato de experiência: a linguagem cinematográfica na áudiodescrição
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Áudio-descrição da logo da RBTV: Revista Brasileira de Tradução Visual. Em um fundo branco, a mão direita faz a letra t em libras. O indicador e o polegar se cruzam, os demais dedos ficam erguidos. Próximo ao indicador há, em verde, 3 ondas sonoras. Abaixo da mão, lê-se RBTV, com letras verdes e com letras Braille em preto.

Relato de experiência: a linguagem cinematográfica na áudiodescrição

Caro editor,

Sou Isabel Pitta Ribeiro Machado – Bacharel em Filosofia (UNICAMP), Graduada em Fonoaudiologia (PUCC) e em Agronomia (Universidade de Padova – Itália), Audiodescritora da ONG Vez da Voz (vezdavoz.com.br), Coordenadora do Projeto de Inclusão Social, Cultura e Digital do Ministério da Cultura: Ponto de Cultura Cinema em Palavras (Centro Braille), Professora do Curso de “Introdução à Formação de Audiodescritores” – Rede Municipal (Campinas / SP).

Venho partilhar aqui um pouco de meus onze anos de experiência em audiodescrição de filmes. Vale lembrar que aprendi a audiodescrever com as pessoas com deficiência visual do Centro Braille de Campinas e foram elas que me ajudaram a perceber um novo modo de estudar cinema.

A linguagem cinematográfica na audiodescrição

Por sua própria natureza, o audiodescritor não se contenta em ver o mundo. Ele quer, de todo modo, que o outro também o veja. Porém, deve buscar a objetividade da imagem, enquanto esta busca, em nós, a subjetividade.

Como professora de história do cinema, com formação em filosofia, vejo a audiodescrição não como uma tradução visual, nem mesmo como mera linguagem, mas como uma forma artística de expressão, visto que a descrição pressupõe um olhar, que nada mais é do que uma lente subjetiva daquilo que chamamos de realidade. Subjetiva porque existem muitas possibilidades de perceber-se o visível e de se sentir a esfera periférica da imagem para além de seu foco, uma vez que este, ao mesmo tempo em que define uma imagem, impede o vislumbre de outros entendimentos.

Como audiodescritora, faço uma descrição clara e objetiva das informações visuais, buscando seguir as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas para a Audiodescrição (ABNT-AD), que sugerem as diretrizes para a produção do roteiro; porém, diante dos poucos espaços sem diálogos no filme, devo escolher quais serão as informações descritas. É essa escolha a que me refiro como sendo uma possibilidade de expressão artística, pois a escolha é uma atitude de liberdade e, como tal, pode ser considerada uma expressão da arte.

Houve um movimento na história do cinema, denominado Construtivismo Russo, que se caracterizou por expor o modo de construir os artefatos do filme por meio da montagem. Tomando como exemplo o filme Encouraçado Potenkim (1925), do diretor Sergei Eisenstein, percebe-se que, em alguns momentos, o diretor quer mostrar, mais do que a ação em si, o efeito que ela produz no espectador. Esse efeito, esse sentido, se dá, muitas vezes, por meio da articulação dos planos e dos movimentos de câmera que, juntos, sugerem conceitos. Sem ter acesso a esses movimentos, não se pode compreender a maneira pela qual o conceito foi introjetado no imaginário do espectador.

Para ajudar a melhor entender a importância da linguagem cinematográfica estar presente na audiodescrição, cito o texto de Leandro Saraiva[i],

Expondo o modo de construir os artefatos que nos sensibilizam, o construtivismo foi uma pedagogia para os sentidos. O melodrama que se desenvolveu na fase heróica da burguesia, contra o teatro aristocrático, era também uma pedagogia para o olhar. Mas a dramatização moral do mundo buscada pelo melodrama é tão mais eficiente quanto mais consiga ocultar suas operações, transmitindo a ideia de uma ordem natural das coisas. O construtivismo, expressão de uma revolução que quer refazer o mundo e encerrar toda a alienação humana, trabalha expondo o modo como as coisas são feitas. Os objetos construtivistas não são orgânicos: eles são feitos de fragmentos justapostos, pedaços do mundo que compõem um novo objeto. No limite, o construtivismo nega mesmo a função de representação do mundo – ou seja, nega a mais tradicional das funções definidoras da arte. O objeto construtivista sugere em sua “fatura” que, já que tudo é construção, tudo poderia ser diferente. ”

E, assim, diferentes são os roteiros de audiodescrição, pois no olhar não existe a medida exata, mas a certeza da pluralidade.

Qualquer que seja o objeto do olhar, deve haver uma audiodescrição para complementar nosso entendimento, pois a descrição do visível é o melhor dos desafios, é o gesto da palavra, é como se déssemos à imagem um gosto e um perfume. A descrição do visível pode levar o homem a se confortar na loucura, a se confrontar com a paz. É puro deleite dos sentidos.

E de que maneira podemos mostrar às pessoas com deficiência visual o sentido do filme, quando esse lhes é dado por meio dos artifícios da montagem? Evidenciando-os, ou seja, descrevendo-os oralmente a partir do roteiro da audiodescrição.

Um roteiro de audiodescrição assemelha-se ao roteiro de um filme que consiste na construção de pedaços de tempo e pedaços de espaço. A edição de um filme é feita por meio de uma montagem e de uma articulação de planos. Se, para o diretor de um filme, ela é fundamental para que o espectador vidente compreenda o sentido que ele quer dar ao filme, por que não o seria também para o espectador cego? Bem, se ele não tiver acesso a tais informações, ele nem sequer poderá, por si próprio, responder.

No roteiro de um filme, estabelecemos o local das cenas, o que acontecerá, de que forma, quais os personagens etc. Na produção do roteiro de audiodescrição de um filme, partimos dele pronto e editado e, então, (em um processo contrário do da roteirização), desconstruímos, desmembramos as ações em forma de um novo roteiro – agora de audiodescrição – descrevendo os cenários, os deslocamentos de espaço e de tempo, os detalhes dos enquadramentos e os movimentos de câmera.

Um dos objetivos das mostras de cinema para um espectador que enxerga é, após a exibição, reunir as pessoas e discutir a forma e o conteúdo dos filmes. Essa é uma das formas de se absorver a cultura do cinema.

Com a introdução da audiodescrição no cinema e na televisão, o espectador com deficiência visual estará sendo, paulatinamente, incluído nesse público. Ele será naturalmente introduzido nesse debate e a melhor maneira para que isso aconteça é formarmos um público com deficiência visual. Esse processo inclui a educação visual, a partir da qual, assim como os videntes, a pessoa com deficiência visual assistirá a filmes e poderá, por meio do debate, desenvolver um olhar/juízo crítico sobre a obra cinematográfica. Esse olhar crítico se constrói com conhecimento e apropriação dos elementos fílmicos. Informar as pessoas com deficiência visual de que um filme é mais do que uma sequência de ações sucessivas é tarefa fundamental daqueles que pretendam descrever a sétima arte, tornando-a verdadeiramente acessível.

A linguagem cinematográfica pode contribuir para o processo de educação visual da pessoa com deficiência visual e, por meio da audiodescrição, nas palavras do professor Milton de Almeida, “produzir, em arte e simulação, as imagens da nossa memória e as formas da nossa imaginação do real[ii].

A terminologia cinematográfica que nos propomos utilizar na audiodescrição pode causar, de início, um certo estranhamento, mas, após o processo de assimilação dessa linguagem, pode enriquecer a imaginação da pessoa que não enxerga e, desse modo, ajudá-la a melhor compor suas idéias sobre o filme, a construir seus próprios conceitos, a formar uma opinião para debater de modo igualitário sobre um filme e sua linguagem. Desse modo – ressalto – , o audiodescritor deve procurar conhecer o estilo e a gramática peculiar do cineasta antes de se propor a audiodescrever um filme dele.

Para o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, por exemplo, as cores e a caracterização dos personagens são elementos de destaque. Para o sueco Ingmar Bergman, são os primeiros planos e o silêncio entre os personagens que nos fazem entender que o espaço sem diálogos não deve ser totalmente preenchido com descrições. Enfim, como em uma tradução literária em que o tradutor deve bem conhecer o autor que traduz, o mesmo cuidado deve anteceder o trabalho do audiodescritor.

Não basta a inclusão social das pessoas com deficiência visual na utilização dos espaços acessíveis para a audiodescrição: é preciso ter respeito e zelo pela qualidade da audiodescrição para que, desse modo, a pessoa com deficiência visual possa realmente conhecer a obra e construir uma autonomia intelectual para poder versar sobre questões visíveis dessa arte que é o cinema, pois só assim essa pessoa irá incluir-se culturalmente. Sem uma autonomia intelectual, não há uma verdadeira inclusão cultural.

Nota de rodapé

[i] MASCARELLO, Fernando (org.) Montagem Soviética. in: História do Cinema Mundial. Campinas, SP: Papirus, 2006.
[ii] ALMEIDA, Milton José de. Cinema Arte da Memória. Campinas, SP: Autores Associados, 1999. p.12

Como citar esse artigo [ISO 690/2010]:
Machado Isabel Pitta Ribeiro 2011. Relato de experiência: a linguagem cinematográfica na áudiodescrição [online]. [visto em 20/ 07/ 2019]. Disponível em: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/relato-de-experiencia-a-linguagem-cinematografica-na-audiodescricao/.
Revista Brasileira de Tradução Visual

Este artigo faz parte da edição de número volume: 8, nº 8 (2011).
Para conhecer a edição completa, acesse: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/rbtv-8-sumario.

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