Resumo Em 2010, o Programa Diálogos entre Arte e Público, promovido pela Gerência de Serviços de Formação em Artes Visuais da Fundação de Cultura Cidade do Recife em parceria com a FUNARTE, voltou-se para a questão da acessibilidade cultural. A partir dessa experiência, refletiu-se a respeito da mediação cultural, investigando diversos pontos sobre a mediação … Continue reading Mediando diálogos acessíveis
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Mediando diálogos acessíveis

Resumo

Em 2010, o Programa Diálogos entre Arte e Público, promovido pela Gerência de Serviços de Formação em Artes Visuais da Fundação de Cultura Cidade do Recife em parceria com a FUNARTE, voltou-se para a questão da acessibilidade cultural. A partir dessa experiência, refletiu-se a respeito da mediação cultural, investigando diversos pontos sobre a mediação cultural e sua função social; a diversidade do público a quem se destina tal mediação;

a acessibilidade da pessoa com deficiência a bens culturais; e a relação entre políticas públicas e ações inclusivas. Aqui, são trazidos alguns apontamentos e observações resultantes da referida experiência, além da inferência sobre a contribuição desses pontos para a construção de uma sociedade inclusiva.

Palavras-chave: mediação cultural; acessibilidade cultural; políticas públicas; sociedade inclusiva.

Abstract

In 2010, the Project “Diálogos entre Arte e Público”, organized and promoted by the Recife´s Cultural Foundation, together with the institutional partnership of the Brazilian National Foundation of Art, focused the issue of the Cultural Accessibility. From that experience  various  aspects of cultural mediation were considered, including several points about the relation of the cultural mediation and its social role; the diversity of the community for whom this mediation is directed; the accessibility of people with disability to cultural expressions; and the connection between the public policies and inclusive actions.  The present article brings some points and reflections resultant of the referred project experience. It also discusses the contribution of these matters for the achievement of an inclusive society.

Keywords: cultural mediation; cultural accessibility; public policies; inclusive society.

Introdução

Entre arte e público / público e arte existe uma infinidade de diálogos possíveis, seguindo as duas direções. A experiência estética, produzida pelo contato com manifestações artísticas, em suas mais diversas expressões, permite uma relação co-emergente na produção de significados. Obra, indivíduo e mundo são recriados no estabelecimento dessa interlocução.

Neste contexto, tais diálogos constituem um veículo de formação e transformação.

Por meio da arte, é possível desenvolver a percepção e a imaginação para apreender a realidade do meio ambiente, desenvolver a capacidade crítica, permitindo analisar a realidade percebida e desenvolver a criatividade de maneira a mudar a realidade que foi analisada. (BARBOSA, 2008)

A mediação cultural, através de diferentes formas, permeia esse caminho e atua no papel formativo. Estimulando o alumbramento, a compreensão ou a inquietação, até a apropriação das expressões artísticas em sua diversidade, potencializa no indivíduo as possibilidades de leitura do conjunto de fenômenos a sua volta, e pode contribuir, ainda, re-significando, através dos bens culturais, sua compreensão de estar no mundo e de ser humano (BUCCINI, 2009)

No âmbito social, também é amplamente reconhecido o papel da arte e das expressões culturais como meio de constituição, de resgate e de valorização das identidades individuais e coletivas de diferentes grupos sociais. No mesmo sentido, conjuntos de leis, declarações internacionais de direitos humanos, convenções internacionais, estaduais e, até municipais, deixam claro que o acesso à cultura é um direito imanente ao exercício pleno da cidadania e um importante vetor para o desenvolvimento social. Amplia-se, desta forma, o conceito e a atuação da mediação cultural, através de políticas públicas e de ações da iniciativa privada.

1 – Tornando os diálogos entre arte e público acessíveis

Trazendo esse diálogo para o contexto social e buscando uma concepção mais ampla de cultura, consideramos a dimensão da cultura enquanto direito à cidadania (PMC, 2008). A mediação, desta forma, incluída no aspecto formativo, opera na “universalização do acesso à cultura e nas ações de inclusão social através da cultura” (PMC, 2008). No campo dos direitos humanos e, mais especificamente, dos direitos culturais[1], tocamos na questão da universalização, e na concepção do “TODOS[2] social”. Nesta direção, falar, ou melhor, considerar verdadeiramente, a heterogeneidade da existência humana é fundamental para que a mediação aconteça.

Assim, tanto na relação direta arte/expectador, como em sua dimensão social, não é interessante ver a mediação cultural, como “ponte com uma única direção”, não reconhecendo, “tapando as diferenças” dos seus interlocutores (MARTINS, 2010). Mirian Celeste Martins, ao refletir sobre a mediação em diferentes direções, nos lembra que Jorge Larrosa

[…] nos convida a pensar uma comunidade realmente plural, uma comunidade babélica: ‘qualquer comunicação é babélica porque, no ato mesmo de comunicar-se, qualquer sentido se multiplica e nos multiplica, confunde-se e nos confunde’. Habitar babelicamente nossa condição babélica é ‘habitar uma língua múltipla’, valorizando e não escamoteando as diferenças, os ruídos, a estranheza. (MARTINS, 2010)

Portanto, é fundamental que, nesses diálogos entre a arte e o público, consideremos as diferentes formas de perceber o mundo desses interlocutores e, principalmente, suas diferentes formas de ser. Em múltiplos diálogos buscamos meios comuns de entendimento entre as partes. No diálogo da mediação cultural se não consideramos as diferenças, estamos obstruindo o acesso, estamos impedindo o direito.

Tornar os diálogos entre arte e público acessíveis pode ser, por exemplo, fazer com que o visível seja sentido com as mãos ou traduzido em palavras; transformar o que é ouvido em imagem. Ou por que não, nesse processo, explorar todos os sentidos! Conceber os espaços culturais em locais cujos “serviços estejam adequados para serem alcançados, acionados, utilizados e vivenciados por qualquer pessoa, independente de sua condição física ou comunicacional.” (SARRAF, 2010, p.28) Mais ainda, estimular o interesse dos indivíduos pelas diferentes formas de manifestação da arte, valorizar suas próprias expressões. Contribuir, enfim, para que “TODAS” as pessoas participem da vida cultural de suas comunidades (WERNECK, 2006), independente do meio que utilizam para se locomover ou dos sentidos, pelos quais apreendam a realidade externa.

2 – Diálogos entre Arte e Público “Acessibilidade Cultural: o que é acessível e para quem?”

Considerando aspectos relativos à mediação cultural, à universalização das expressões artísticas e à democratização do acesso aos bens culturais, o Programa Diálogos entre Arte e Público, promovido desde 2006 pela Gerência de Serviços de Formação em Artes Visuais da Fundação de Cultura Cidade do Recife, em 2010, pautou suas ações em torno da seguinte pergunta: “Acessibilidade Cultural: o que é acessível e para quem?”. O Programa, que se propõe atuar na esfera da formação de público de artes visuais, ampliando seu alcance, abordou, através de três ações principais[3], os seguintes questionamentos: Quando e como uma produção cultural torna-se acessível para todos os possíveis públicos? Que estratégias são ou podem ser utilizadas pelos diversos atores sociais (profissionais da cultura, educadores, pesquisadores, militantes, usuários, entre outros) envolvidos na promoção da acessibilidade cultural? Qual a formação necessária para os profissionais que atuam e pensam o tema? Quais experiências e práticas são desenvolvidas pela iniciativa privada, pela sociedade civil, e pelo poder público?

Quando falamos de todos os públicos possíveis, incluímos o segmento das pessoas com deficiência, que inegavelmente, enfrentam barreiras diversas nesse acesso, que nos planos, programas e agendas do poder público e da sociedade civil, intenciona-se irrestrito, democrático e universal.

Através da experiência de realização das ações do referido programa de formação de público, foi possível conhecer e reconhecer muitas das barreiras arquitetônicas, comunicacionais, atitudinais, instrumentais, programáticas e metodológicas [4], que enfrentam as pessoas com alguma deficiência para ir ao teatro, assistir a um filme em um cinema, ou apreciar obras de arte em um museu. Reconhecemos também a dificuldade para executar ações que parecem simples, como ler um livro em uma biblioteca, participar de um curso, ou palestra. Ao visualizar tais barreiras nos museus, nos teatros, em bibliotecas, em toda sorte de centros e equipamentos culturais, fica ainda mais claro que o obstáculo principal ao acesso não é a deficiência, a ausência ou diminuição de algum sentido, ou ainda a dificuldade de locomoção. Os prédios são projetados, as exposições desenhadas, as pautas de teatros e cinemas são preenchidas sem que seja prevista a heterogeneidade, à qual nos referimos acima.

Tomamos como referência Vigostky (apud NOGUEIRA, 2010), ao falar da implicação do equilíbrio social no desenvolvimento da criança com deficiência. “O que realmente decide o destino de uma pessoa, não é a deficiência em si mesma, mas sim as conseqüências sociais, suas realizações psicossociais.” (NOGUEIRA, 2010, p.56). Se a deficiência “perturba o curso” habitual do contato de um indivíduo com a cultura de seu meio, essa, por sua vez, se dá em uma sociedade que não permite a inserção desse indivíduo, tornando-se, na maioria das vezes, a própria sociedade, da forma como se constitui, o maior obstáculo (NOGUEIRA, 2010).

2.1 – Desconstruindo barreiras

Desde a inclusão das questões sobre as pessoas com deficiência nas discussões sobre os direitos humanos, nas últimas décadas do século XX (WERNECK, 2006), podemos acompanhar o gradual crescimento de estudos e pesquisas, com o objetivo, entre outros, de criar e desenvolver meios que viabilizem ou facilitem o acesso das pessoas com deficiência a várias atividades sociais. Hoje é possível encontrar em diferentes ferramentas, tecnologias e recursos assistivos[5], utilizando meios concretos e virtuais, das mais complexas às mais simples soluções para contornar as dificuldades causadas pelos diferentes tipos de deficiência.

Se fossem aplicados devidamente em prédios públicos, em veículos de comunicação e em equipamentos culturais, teríamos desconstruído grande parte das barreiras arquitetônicas e comunicacionais às pessoas com deficiência. Contudo, é lamentável que os avanços nos âmbitos sociais e humanos, em alguns casos, não acompanhem os avanços tecnológicos. Ainda é incipiente a presença da aplicação desses recursos nas pautas e programas dos governos e de ações da iniciativa privada. Tendo, a construção de uma sociedade verdadeiramente inclusiva sido inserida em diversas “cartas de intenções” internacionais e nacionais, há mais de três décadas, a efetivação, no Brasil, do conjunto de leis, regulamentos e normas conquistados, principalmente pela mobilização da sociedade civil, segue com atraso.

A despeito desse atraso e dos entraves encontrados pelas ações inclusivas, focando mais especificamente as ações de mediação cultural, podemos identificar pontos de abertura e de realizações nesta área. Experiências que surgem como nascentes, fontes de um fluxo de novas e sucessivas transformações que, esperamos, brevemente, se configurem em uma realidade ampla e favorável, no que diz respeito à inserção efetiva das pessoas com deficiência na vida cultural do país.

Em 2010, foi possível reunir algumas dessas experiências na publicação Diálogos entre Arte e Público – Caderno de Textos III[6], o qual também se configurou como um veículo acessível.

Realizada anualmente desde 2008, a publicação tornou-se uma importante estratégia de difusão do programa de formação de público. Reunindo textos de colaboradores das mais diversas localidades do país e do exterior, consolida os encontros presenciais permitindo-lhes atingir um maior número de pessoas e conferindo maior visibilidade às questões ligadas à formação cultural. Para a terceira edição, foi aberta uma chamada pública de textos, que reuniu colaboradores em torno da acessibilidade cultural, compreendida em um horizonte diverso de discursos e práticas, desejos e demandas, políticas públicas e iniciativas da sociedade civil.

Entre os autores, está a maior parte dos convidados do V Encontro – Diálogos entre Arte e Público, também realizado em 2010, ampliando a abrangência deste e complementando os seus diálogos. Maria Isabel Leite, com o texto “Criança pequena e museu – uma relação possível (e desejada)”; João Vicente Ganzarolli trouxe questões relacionadas à cegueira dentro do universo das artes; Viviane Sarraf, através de seu texto, apontou novos desafios para a mediação cultural, focando as potencialidades sensoriais dos museus; O Programa Igual Diferente do MAM de São Paulo relata experiências de mediação através da Língua Brasileira de Sinais; o Projeto Fotolibras de Recife mostra imagens produzidas por seus alunos; e o Profº Drº Francisco Lima e colaboradores trazem no artigo “Arte, educação e inclusão: orientações para áudio-descrição em museus” contribuições da tradução visual para a acessibilidade museológica. Também encontramos experiências da Pinacoteca de São Paulo e outros importantes textos que fazem reflexões pertinentes às possíveis respostas para a pergunta lançada pelos organizadores: “Acessibilidade Cultural: o que é acessível e para quem?”.

Além da versão impressa, foi produzida a versão acessível da publicação. Os textos em áudio e traduzidos em Libras e as imagens, com áudio-descrição, compõem o DVD, encartado no Caderno. Assim, são abertas novas possibilidades de contato com o conteúdo dos artigos, propiciando autonomia a pessoas com deficiência visual ou auditiva. E, principalmente, poderá servir como exemplo para que novas publicações considerem essa importante parcela do público, além de contribuir para o fortalecimento da Língua Brasileira de Sinais e da Áudio-descrição.

Na produção da versão acessível, contamos com a parceria do Centro de Estudos Inclusivos da UFPE no direcionamento dos seguintes profissionais: um áudio-descritor e locutor para versão em áudio; duas intérpretes de Libras; profissional de informática envolvido com acessibilidade digital e um consultor em acessibilidade[7]. O processo requereu bastante dedicação e cuidado, mas o resultado foi na mesma medida, gratificante.

Foram necessários estudos prévios dos artigos da publicação por parte dos profissionais. A realização da leitura e gravação do áudio aconteceu em estúdio de rádio e resultou em cerca de 9 horas de leitura, acessíveis no DVD. A leitura procurou seguir normas específicas para a natureza do texto científico, incluindo notas de rodapé, referências e números de página, por exemplo. Os roteiros da áudio-descrição da capa e das imagens foram feitos previamente e depois gravados.

Para o vídeo em Libras, as tradutoras e intérpretes, fizeram um estudo em profundidade dos sinais que traduziriam os textos em língua portuguesa. Consultaram a comunidade surda para verificar os sinais de expressões específicas do universo das artes e da cultura, além de elaborarem um glossário, contendo sinais de novas expressões e nomes de instituições, entre outros. As gravações, em estúdio de vídeo duraram duas semanas e resultaram em mais de 20 horas de filmagem, disponíveis no DVD. A situação ideal de gravar a tradução em câmera digital, o que facilitaria a etapa da edição, infelizmente não foi possível. Por isso, neste caso, utilizamos um tempo extenso para esta etapa. Finalizadas as duas versões, áudio e vídeo, seguiu-se à revisão final, a realização da autoração, que organiza as informações em “menus”, além de incluir a versão escrita, no formato pdf, possibilitando a apreciação através de programas leitores de tela, em computador.

O caderno de textos acessível, como elemento de um programa maior, esbarrou em entraves burocráticos e orçamentários, além de imprevistos de produção. O resultado, no entanto, foi bastante satisfatório, na medida em que, ao falar de acessibilidade, mostra-se como um produto acessível. É exemplo que deve ser seguido e, com certeza, aprimorado por outras iniciativas da mesma instituição ou de outras, em diferentes localidades.

É importante ressaltar que a publicação foi realizada com orçamento dentro dos padrões de outros produtos editoriais, demonstrando a plena possibilidade e viabilidade de iniciativas como esta. Não esquecendo, principalmente, de seu valor social e humano.

Considerações finais: políticas culturais e inclusão

No presente artigo, ao relatar a experiência do Programa Diálogos entre Arte e Público, trouxemos questões que permeiam a mediação cultural e social; pontuamos alguns fatores relativos aos direitos culturais e à heterogeneidade do conjunto de cidadãos que possui o direito à participação da vida cultural de sua comunidade; além de termos focado o acesso da pessoa com deficiência aos bens culturais.

Em relação à mediação cultural e social, podemos citar Ana Mae Barbosa, que discorre sobre os direcionamentos e investimentos de museus e centros culturais voltados a tal atividade:

O esforço que se emprega para ampliar o contato, o discernimento, o prazer da população com a cultura que a cerca, resulta em benefícios sociais como qualidade das relações humanas e compreensão de si e do outro. (BARBOSA, 2008)

Aqui, expandimos tal colocação às políticas culturais em geral, que permeiam as ações governamentais, da iniciativa privada e da sociedade civil. Os investimentos e esforços de tais ações que, entre outros aspectos, visem à a universalização e democratização da cultura, devem considerar a questão da inclusão.

No entanto, ao mesmo tempo em que vemos o crescente desenvolvimento de recursos e tecnologias, que se propõe a diminuir ou até a anular as barreiras arquitetônicas e comunicacionais, as quais fazem dos equipamentos culturais e outras ações relacionadas à cultura, inacessíveis às pessoas com deficiência, continuamos a Esbarrar nas barreiras atitudinais, metodológicas e programáticas das instituições responsáveis pela promoção de tais políticas, por exemplo,  pela não previsão de meios para efetivar a acessibilidade em seus programas; pela falta de discussão, de sensibilização e conscientização dos quadros das instituições de cultura para lidar com questões relativas às várias deficiências; pelo distanciamento por parte dos profissionais e gestores culturais de setores capacitados para lidar com tais questões, como associações e centros de estudos e pesquisa e, finalmente, pela falta de previsão orçamentária para medidas que promovam a inclusão.

Com essas “faltas” e “nãos”, somando-os a entraves burocráticos e, muitas vezes, a falta de conhecimento teórico e informações legais, poderíamos falar, por que não, que a acessibilidade cultural também esbarra em barreiras institucionais.

Podemos ter como exemplos de gargalos: a recente, ou melhor, tardia, discussão sobre reformas e adaptações de prédios tombados; também a idéia, equivocada, do alto custo de medidas de promoção do acesso. Sobre esta última é importante ressaltar que o equívoco se dá na medida em que o custo social da exclusão de uma parcela da sociedade à vida cultural de sua comunidade é infinitamente maior que qualquer gasto/investimento que se venha fazer na área. Também é equívoco não aplicar em acessibilidade, enquanto há tanta  aplicação de valores significativos em inovações gráficas, editoriais, expográficas e na promoção de grandes eventos com altos “cachês” para celebridades de diversas linguagens artísticas, só para citar alguns exemplos. Desta forma, por que não aplicamos valores justos em projetos e ações de grande valor social e humano? Mais ainda, por que não aplicamos tais quantias, valorizando direitos e cumprindo leis que existem e, cada vez mais, estão sendo cobradas?

Felizmente podemos ver uma mudança gradual neste panorama em nosso país. Há alguns anos temos visto o surgimento de incentivos públicos, a partir de editais, a projetos voltados à acessibilidade cultural das pessoas com deficiência; produções de eventos teatrais e cinematográficos com acessibilidade comunicacional; museus buscando soluções das mais diversas formas e meios, para tornar seus acervos acessíveis. Em Pernambuco e, especificamente, em Recife é crescente esse movimento.

O surgimento de uma realidade em transformação está sendo possível pela organização da sociedade civil em torno do tema, também pela pressão de órgãos competentes para que as normas, leis e regulamentos sejam cumpridos, além da gradual adesão dos agentes que movimentam o processo cultural.

Em 2010 – ano em que a Organização das Nações Unidas, através da Resolução 45/91[8], determina como marco para a conclusão, com êxito, de uma sociedade para TODOS – nos damos conta de que temos um longo caminho, ainda por trilhar. Ao mesmo tempo, nos vemos em um movimento crescente em favor à valorização da diversidade. Lidar com cultura é lidar com a existência humana, esta que: “[…] assim como a arte, encontra várias formas de desabrochar, valorizando sempre a heterogeneidade”. (WERNECK, 2006)

Neste sentido, acreditamos que tomar como desafio o reconhecimento de que ainda não construímos uma sociedade para todos, ao mesmo tempo, avançar disseminando ações, idéias, demandas e desejos de democratização cultural em nossa região e em nosso país é contribuir para o fortalecimento deste percurso, até a efetivação de uma sociedade verdadeiramente inclusiva.

Referências

BARBOSA, Ana Mae. Mediação cultural é social. In: BARBOSA, A. M.; COUTINHO R. G. (orgs.). Arte/Educação como mediação cultural e social. São Paulo: Editora UNESP, 2009. p. 13-22.
BERSCHI, Rita. Introdução À Tecnologia Assistiva. Centro Especializado em Desenvolvimento Infantil – CEDI. Porto Alegre, 2008. Disponível em: . Acesso em: 10 mai 2011.
BRASIL. Caderno “Diretrizes Gerais para o Plano Nacional de Cultura”. Brasília, 2007. Disponível em: <http://www.cultura.gov.br/pnc>. Acesso em: 21 abr. 2010
BUCCINI, Regina. s/ título. In: SANTOS, Anderson Pinheiro (org.). Diálogos entre Arte e Público: caderno de textos. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, v. 3, 2010. p. 7-8.
BUCCINI, Regina. Diálogos 2009. In: SANTOS, Anderson Pinheiro (org.). Diálogos entre Arte e Público: caderno de textos. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, v. 2, 2009. p. 10-11.
CONSELHO MUNICIPAL DE POLÍTICA CULTURAL. Plano Municipal de Cultura 2009/2019. Recife: Prefeitura da Cidade do Recife, 2008.
MARTINS, Mirian Celeste. Aprendizes da arte, mediadores e professores: olhares compartilhados? In: SANTOS, Anderson Pinheiro (org.). Diálogos entre Arte e Público: caderno de textos. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, v. 3, 2010. p. 117-121.
NOGUEIRA, A.C. Franco. A arte e o perceber: a experiência do ateliê de artes para pessoas com deficiência visual. In: SANTOS, Anderson Pinheiro (org.). Diálogos entre Arte e Público: caderno de textos. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, v. 3, 2010. p. 56-59.
LIMA, F.J.; VIEIRA, P.A.M; RODRIGUES E. R.; PASSOS, S.São Marcos. Arte, educação e inclusão: orientações para áudio-descrição em museus. In: SANTOS, Anderson Pinheiro (org.). Diálogos entre Arte e Público: caderno de textos. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, v. 3, 2010. p. 42-51.
GARCIA, Amélia. Arte-educação e as rosas: dialogando com as práticas pedagógicas e a formação dos professores. In: SANTOS, Anderson Pinheiro (org.). Diálogos entre Arte e Público: caderno de textos. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, v. 3, 2010. p. 79-82.
WERNECK, Cláudia. Sociedade Inclusiva: Quem cabe no seu TODOS?. Rio de Janeiro: WVA, 2006. 3ª ed. 240 p.
<http://www.escoladegente.org.br> Acesso em: 01 nov. 2010

Nota de rodapé

[1] Os direitos culturais que garantem a igualdade e a plena oferta de condições para a expressão e fruição culturais são cada vez mais reconhecidos como parte de uma nova geração dos direitos humanos. (Caderno “Diretrizes Gerais para o Plano Nacional de Cultura”. Brasília, 2007. Disponível em: <http://www.cultura.gov.br/pnc>. Acesso em: 21 abr. 2010)
[2] Em seu livro Sociedade Inclusiva: Quem cabe no seu TODOS, Cláudia Werneck objetiva discutir o uso da palavra “TODOS” nos mais diferentes contextos da sociedade brasileira. O termo aparece escrito em caixa alta ao longo de todo o texto.
[3]  Em 2010, em parceria com a FUNARTE, o programa Diálogos entre Arte e Público realizou três ações: o V Encontro: Diálogos entre Arte e Público; O Grupo de Trabalho Acessibilidade Cultural – GTAC; Caderno de Textos III.
[4] No Brasil, a palavra acessibilidade costuma ser associada apenas a questões físicas e arquitetônicas, mas este vocábulo expressa um conjunto de dimensões diversas, complementares e indispensáveis para que haja um processo de efetiva inclusão. O consultor em inclusão, Romeu Kazumi Sassaki explica, em estudo realizado por ele e hoje disseminado em todo o Brasil, quais os seis tipos de acessibilidade: atitudinal, arquitetônica, comunicacional, instrumental, metodológica e programática. (Disponível em: http://www.escoladegente.org.br. Acesso em: 01 nov. 2010).
[5] “Tecnologia Assistiva – TA é um termo ainda novo, utilizado para identificar todo o arsenal de recursos e serviços que contribuem para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com deficiência e conseqüentemente promover vida independente e inclusão.” (BERSCHI, Rita. Introdução À Tecnologia Assistiva. Centro Especializado em Desenvolvimento Infantil – CEDI. Porto Alegre, 2008. Disponível em: . Acesso em: 10 mai 2011.)
[6] Diálogos entre Arte e Público – Caderno de Textos Vol. III. Coordenação: Regina Buccini e André Aquino |Edição de textos e conteúdos: Anderson Pinheiro.
[7] Consultor em Acessibilidade: Profº Dr.ºFrancisco José de Lima| Autoração acessível: Bruno Hipólito | Locução e áudio-descrição: Paulo Vieira | Tradução e interpretação em LIBRAS: Juliana Mª de Melo e Mireli Mª da Silva.
[8] Resolução 45/91 de 14 de dezembro de 1990 – Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas – ONU, Nova York.

Como citar esse artigo [ISO 690/2010]:
Pio Regina Buccini 2011. Mediando diálogos acessíveis [online]. [visto em 17/ 06/ 2019]. Disponível em: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/mediando-dialogos-acessiveis/.
Revista Brasileira de Tradução Visual

Este artigo faz parte da edição de número volume: 7, nº 7 (2011).
Para conhecer a edição completa, acesse: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/rbtv-7-sumario.

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  • Fundação de Cultura da Cidade do RecifeGraduada em Licenciatura em Educação Artística – Artes Plásticas na Universidade Federal de Pernambuco em 1999. Na mesma instituição, concluiu curso Especialização em Literatura Brasileira, em 2001. Atualmente é Gerente de Serviços de Formação em Artes Visuais da Fundação de Cultura Cidade do Recife e, desde 2009, coordena o Projeto Diálogos entre Arte e Público, que em 2010, através de diversas ações, focalizou o debate acerca da acessibilidade cultural de pessoas com deficiência em Recife.View all posts by Regina Buccini Pio

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