Diversas iniciativas que tem o objetivo de minimizar as imensas desigualdades sociais causadas pelos processos de discriminação e preconceitos contra diversos grupos minoritários tiveram inicio no Brasil nos anos 1960.  Tais ideias baseavam-se nas convenções de Direitos Humanos que tiveram como principais metas a construção de oportunidades de convívio e participação social de modo igualitário. … Continue reading De espectador a protagonista: a pessoa com deficiência visual como consultora em audiodescrição
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Áudio-descrição da logo da RBTV: Revista Brasileira de Tradução Visual. Em um fundo branco, a mão direita faz a letra t em libras. O indicador e o polegar se cruzam, os demais dedos ficam erguidos. Próximo ao indicador há, em verde, 3 ondas sonoras. Abaixo da mão, lê-se RBTV, com letras verdes e com letras Braille em preto.

De espectador a protagonista: a pessoa com deficiência visual como consultora em audiodescrição

Diversas iniciativas que tem o objetivo de minimizar as imensas desigualdades sociais causadas pelos processos de discriminação e preconceitos contra diversos grupos minoritários tiveram inicio no Brasil nos anos 1960.  Tais ideias baseavam-se nas convenções de Direitos Humanos que tiveram como principais metas a construção de oportunidades de convívio e participação social de modo igualitário.

Desse período em diante intensificaram-se muito as políticas publicas que objetivaram criar as condições de participação social desses grupos minoritários, como o das pessoas com deficiência visual. Sabemos que aconteceram uma série de intercorrências no meio do caminho. Há aqueles que acreditam que esses processos são realizados de maneira equivocada ou que tem graves falhas de execução. No entanto, é preciso reconhecer que estes movimentos trouxeram à tona a discussão que até hoje está em curso e cada vez mais sob os holofotes sociais: a acessibilidade e a inclusão das pessoas com deficiência.

No que diz respeito às pessoas com deficiência visual, foram diversas as ações e recursos criados para sua inserção social, ainda que muitos deles tenham, sem sombra de dúvidas, naufragado desde o principio. Uma das iniciativas que logrou êxito nesse processo foi o recurso da audiodescrição (AD), cujas primeiras experimentações começaram no final dos anos 1950, mas que se tornaram consistentes nos anos 1970 (MOTTA; ROMEU FILHO, 2006, p 25).

No Brasil, a AD teve seu marco inicial em 2003, quando ocorreu o festival “Assim Vivemos”, cuja temática é voltada às pessoas com deficiência (MOTTA; ROMEU FILHO, 2006, p 25). Ainda assim, esse recurso de acessibilidade vem tendo maior repercussão com a regulamentação do Decreto nº 5296, que determina sua obrigatoriedade na televisão aberta brasileira, vigorando desde 2011[1]. Desse modo, esse é um momento de expansão da AD no Brasil e de sua reivindicação por parte das pessoas com deficiência visual.

Nossas experiências com a AD tiveram trajetórias mais ou menos semelhantes, começando efetivamente em 2011 quando passamos a participar de grupos de estudos e a consumir produtos com esse recurso. Desde lá temos profunda admiração pelo recurso e pela imensidão de acesso cultural que nos possibilita. A AD nos permite ter as mesmas sensações, percepções e emoções que os demais espectadores da plateia e, acima de tudo, simultaneamente – assistindo junto com os videntes ao mesmo filme, à mesma peça ou espetáculo cultural.

Diante dos notáveis avanços, ainda é preciso refletir sobre o papel das pessoas com deficiência visual na construção da AD no país. Pensamos em um contexto em que nós, sujeitos com deficiência visual – cegos ou com baixa visão (como é o nosso caso) – possamos sair da posição de espectadores e ocupemos o papel de protagonistas esse processo.

Com a evolução e a constituição de mercado – ainda que incipiente – para a AD, há uma grande demanda por profissionais bem preparados e experientes para atuar na área. Dentro de uma equipe de audiodescritores fazem-se presentes diferentes profissionais. É importante conhecermos cada um deles, compreender suas atribuições e especificidades.

Dentro da equipe de AD, existem o audiodescritor-roteirista, o audiodescritor-narrador, o técnico de áudio e o consultor. O audiodescritor-roteirista, como o nome diz, é aquele que elabora o roteiro, pensa a estrutura da AD dentro de determinada produção artística ou cultural, redige o texto, calcula o tempo e os espaços que a AD poderá ser inserida. O audiodescritor-narrador é aquele que realiza a locução do roteiro, observando a entonação, a velocidade e a modulação da voz afim de torná-la a mais adequada possível para a compreensão do público. O técnico de áudio é o responsável por inserir a locução nos pontos específicos da obra e pela mixagem final do áudio.

O audiodescritor-roteirista e o audiodescritor-narrador podem ou não ser a mesma pessoa. Em alguns casos ocorre a acumulação dessas duas funções por uma única pessoa – o que, por si só, não é bom ou ruim. Acreditamos, porém, que a multiplicidade de profissionais envolvidos na realização de qualquer AD vem contribui significativamente com a qualidade e maior clareza do produto final.

O consultor em AD é a pessoa com deficiência visual – cega ou com baixa visão – que necessariamente deve estar presente em qualquer equipe de produção de AD, atuando junto com os demais profissionais em todas as etapas de trabalho, desde a concepção do projeto até a realização do produto final. Este relato de experiência tem por objetivo apresentar e discutir o papel do consultor em AD dentro do trabalho de produção de determinada obra ou produto cultural.

Qual o perfil do consultor em AD? Que tipo de conhecimentos, habilidades e experiências essa pessoa deve ter? E mais do que isso:  qualquer pessoa com deficiência visual pode ser considerada um consultor em AD? Essas e outras questões serão discutidas na sequência.

Refletindo sobre o perfil e características dos consultores

     Como já fora dito acima, nosso envolvimento como participes de grupo de estudos em AD aconteceu no primeiro semestre de 2011. Já no final do mesmo ano passamos a atuar como consultores, depois de termos feito o curso de extensão: Audiodescrição de Produtos Culturais, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Apesar de aparentemente recente o nosso envolvimento com o recurso e estudo do tema, precisamos dizer também que nós, autores deste relato de experiência já possuíamos uma considerável trajetória acadêmica anterior aos estudos referidos acima. É evidente que a necessidade de experiência acadêmica não é uma regra e que sabemos que talvez algumas pessoas, mesmo sem curso superior, possuem um amplo conhecimento de mundo e podem apresentar as características necessárias para a consultoria em AD.

Contudo, de modo geral, acreditamos que o estudo e o conhecimento científico em diferentes áreas venham a agregar na qualidade de trabalho do consultor. E a partir disso, começamos a responder uma das perguntas deixadas em aberto: Que tipo de conhecimentos, habilidades e experiências o consultor deve ter?.

Todas as pessoas com deficiência visual seja cega ou com baixa visão – o que é o nosso caso – tem experiências de vida e de existência diferentes daquelas que possuem os videntes. Seus modos de perceber o mundo, e nesse caso específico, os produtos audiodescritos são muito importantes para a concepção de um produto com qualidade e excelência.

No entanto, é preciso ponderar que a condição da deficiência visual não confere ao sujeito as ferramentas e os conhecimentos necessários para que este seja diretamente um consultor em AD simplesmente por ter deficiência. Existe uma série de requisitos fundamentais para a construção de uma consultoria qualificada. Em suma, toda pessoa com deficiência visual pode ser um consultor, mas isso não significa que qualquer pessoa cega ou com baixa visão possa ser consultora pelo simples fato de não enxergar ou enxergar pouco.

Dizemos isso porque, embora tenhamos pouco tempo como consultores, já participamos de quase uma dezena de projetos de AD. Ao mesmo tempo, também somos público consumidor deste produto e, como tal, sempre desejamos que todas as etapas de sua construção sejam feitas com comprometimento, profissionalismo e por pessoal capacitado.

Defendemos a ampla expansão da AD no mercado cultural brasileiro e internacional – na televisão, no cinema, em espetáculos públicos, passeios turísticos, exposições, museus, competições esportivas, entre outros. Mais do que isso, defendemos que essa AD seja sempre um produto feito com alto padrão de qualidade e profissionalismo, contando com consultores à altura desse padrão de exigência.

A partir do nosso constante envolvimento em tais projetos, dos quais iremos exemplificar o que dizemos com um deles mais adiante, percebemos uma série de características que podem ser fundamentais para um consultor em AD. Isso não significa que sejam as únicas formas de se fazer, nem que somos aqueles que propagamos verdades incontestáveis sobre esse tema. Porém, acreditamos que nossa experiência nos confere alguma qualificação para colocar a questão em debate, propondo nossos pontos de vista – que podem ou não estar de acordo com o que pensa o leitor.

Vivenciar a experiência da deficiência visual é um fator importante para que o consultor cego ou com baixa visão saiba aquilo que deve conter a descrição para que seja compreendida e para que seja transmitido os sentimento contido nas imagens. Isso não quer dizer que todas as pessoas com deficiência visual tenham as mesmas necessidades ou que todos sintam e percebam o mundo da mesma maneira. Porém cabe ao consultor expressar o que ele acredita que seria compreendido pela maioria das pessoas com deficiência visual, tocando-as emocionalmente. Eis ai uma de suas maiores responsabilidades: atestar enquanto usuário pela qualidade e eficiência de um produto que será destinado e multiplicado a tantas outras pessoas com deficiência visual.

É fundamental que o consultor de AD tenha uma série de competências que lhe permitam construir um pensamento critico e interpretativo  que proporcione a ele condições de aferir a qualidade e a clareza do texto feito pelo roteirista. Isso significa que é preciso que o consultor possua um mínimo de escolaridade, ou até trajetória acadêmica e trajetória de vida, que lhe confiram capacidade para refletir sobre seu trabalho, tendo uma visão de mundo aguçada aliada ao fato de estar sempre bem informado sobre o que acontece em nossa sociedade.

Também faz-se necessário que possua um bom conhecimento da língua portuguesa, tanto em sua estrutura e gramática, quanto em seu amplo vocabulário e seu uso adequado em diferentes contextos linguísticos e sociais. A substituição de um adjetivo por outro mais pertinente pode ser crucial para a interpretação adequada da AD de determinado produto.

O consultor em AD deve também dominar a temática do produto a ser descrito. Caso não domine o tema completamente, a pessoa deve ser capaz de pesquisar sobre o assunto e cercar-se de todo embasamento possível para que possa expressar-se de modo claro e seguro, emitindo opiniões bem fundamentadas e pertinentes para a compreensão da obra ou produto cultural.

Tais apreensões, pudemos verificar em nosso trabalho como consultores, como estudiosos sobre o campo e, principalmente, de nosso conhecimento empírico como consumidores de AD.

Se é verdade que para uma pessoa com deficiência visual exercer a função de consultoria deve desenvolver competências para tal, também é verdade dizer que uma equipe que objetive fazer AD sem consultoria específica da pessoa com deficiência visual é uma equipe incompleta. É algo imperioso para a qualidade do trabalho a “visão” de mundo do sujeito cego ou com baixa visão, dado que o ponto de vista daquele que vivencia a necessidade de uma descrição é insubstituível. Ninguém melhor para aferir ou indicar suas reais necessidades do que a pessoa que vivencia a deficiência em seu cotidiano. Nenhuma sensibilização ou tentativa de vendar os olhos ou assistir a um filme de olhos fechados  equivale à experiência da deficiência na prática.

Posto isso, a seguir compartilharemos com o leitor mais alguns de nossos sentimentos sobre a AD, contando na prática como ocorreu uma de nossas experiências como consultores de AD.

Experimentando a consultoria

Entre os diversos projetos e trabalhos de consultoria que estivemos envolvidos com AD, um dos mais recentes – e que nos trouxe grande satisfação e reflexão – foi a exposição fotográfica “Sombras e Lugares”. As fotos de Roberto Giuliani, com curadoria de Luiz Carlos Felizardo, estiveram expostas em Porto Alegre, no mês de maio de 2012 no saguão da Reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

No dia 16 de maio, como extensão da programação do II Seminário Nacional de Acessibilidade em Ambientes Culturais da UFRGS, ocorreu uma sessão de AD ao vivo de dez fotos da exposição. O trabalho foi desenvolvido pelo BLA! – Branco Laboratório de Audiodescrição, um grupo gaúcho que se dedica ao estudo da AD – do qual fazemos parte como consultores.

É importante salientar que estivemos presentes na realização deste projeto desde o recebimento do convite, feito pelo professor Eduardo Cardoso – docente da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, pesquisador na área da acessibilidade e grande apoiador da expansão da AD – para tornar as fotos acessíveis até a realização do trabalho e a apresentação ao vivo do produto final.  Contamos isso para contextualizar a forma como nós, consultores em AD, nos sentimos parte integrante desse projeto desde sua concepção.

Tal entendimento por parte de uma equipe de AD e por parte dos produtores culturais – que procuram o serviço – é importante para agregar qualidade e credibilidade à AD. Na medida em que os consultores sentem-se realmente integrantes do grupo de trabalho irão desempenhar melhor sua função, trazendo contribuições significativas e indispensáveis à realização do produto final. Os consultores serão ouvidos e interrogados em todas os etapas do processo – não apenas na apresentação final do resultado – e estarão a par de todas as discussões, debates e dúvidas que possam surgir ao longo do trabalho – como aconteceu conosco na exposição “Sombras e Lugares”.

Há pouquíssimo tempo atrás, quem imaginaria uma exposição de fotos acessível a pessoas com deficiência visual? E agora, que através das infinitas possibilidades trazidas pela AD esse sonho já é possível, novas considerações, questionamentos e debates são pertinentes.

Termos alguém com deficiência visual na equipe de audiodescritores é também um posicionamento político no sentido de propor que os sujeitos passem de plateia à protagonista. Isso põe em xeque algumas medidas que podem parecer advindas de uma espécie de assistencialismo governamental ou da sociedade no sentido de estabelecer posições sociais fixas a certos grupos minoritários. Uma das implicações da consultoria em AD, é demonstrar que pessoas com baixa visão ou cegas, podem exercer funções para além daquelas que comumente lhes são oferecidas no mercado de trabalho, estando de acordo com a qualificação e formação de cada uma dessas pessoas.

Além disso, a presença do consultor dá credibilidade ao trabalho da AD, que passa a ser testado e aperfeiçoado por uma pessoa que, acima de tudo, representa esse público consumidor de AD. O consultor vivencia a deficiência visual na prática e enxerga o mundo por esse ângulo. Outros deficientes visuais identificam-se com essa pessoa, sentindo-se, assim, contemplados por saber que o trabalho contou com essa revisão e consultoria.

Os próprios consultores, por suas diferentes vivências, convívio e redes de relacionamento, têm papel preponderante na divulgação do recurso da AD entre as pessoas com deficiência visual. Além disso, o consultor é aquela pessoa que deve primar constantemente pela qualidade da AD e para que esse trabalho seja sempre entendido com seriedade e realizado por profissionais competentes.

Mais do que reivindicar a necessidade do consultor em uma equipe de AD – que já é um entendimento comum entre a maioria das pessoas que trabalham na área -, queremos mostrar o quanto o produto final pode ganhar, em termos em qualidade e eficiência.

A título de exemplo, trazemos primeiramente trecho da descrição da foto de Roberto Giuliani “Rio de Janeiro, Brasil, 2010”, feita pela roteirista Mimi Aragón – uma grande roteirista.com ampla experiência em AD -, antes e depois das sugestões e apontamentos feitos por nós consultores.

Rio de Janeiro, Brasil, 2010 – (…) A mulher tem o rosto voltado para o Pão de Açúcar, que aparece ao longe, mais ou menos no centro da foto. À direita, vemos parte da Ilha da Boa Viagem; à esquerda, a Ilha dos Cardos e, mais ao fundo, o declive do Morro do Pico, ainda na orla de Niterói.

Nesse trecho em específico questionamos à roteirista quais elementos compunham os pontos citados – Ilha de Boa Viagem, Ilha dos Cardos e Morro do Pico – e como eram esses locais (ou pelo menos o que era visto deles na imagem), no que diz respeito ao que se poderia ver delas, como os tipo de formação rochosa ou vegetação ou ainda se tinha alguma construção ou peculiaridade especifica por exemplo. Diante de nosso apontamento, Mimi Aragón reescreveu o trecho apontado e a versão final, apresentada sessão de AD ao vivo, foi a seguinte:

Rio de Janeiro, Brasil, 2010. (…) A mulher tem o rosto voltado para o Pão de Açúcar, que aparece ao longe, mais ou menos no centro da foto. À direita, vemos parte da Ilha da Boa Viagem, uma grande formação arredondada e coberta de mata densa, em cujo topo destaca-se a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem. À esquerda da foto, uma pequena ponta rochosa da Ilha dos Cardos.  Ao fundo, ainda na orla de Niterói, o declive do Morro do Pico avança mar adentro.

Outro exemplo que entendemos interessante para trazer ao debate é a foto “Porto, Portugal, 2007”, descrita por Márcia Caspary – outra renomada audiodescritora-roteirista -, teve como primeira versão o seguinte texto:

Porto, Portugal, 2007 – O horizonte divide de um lado a outro o céu e o mar, aparentemente com  iguais proporções. Pequena silhueta de um banhista abaixo à direita, com água pela cintura, braço esquerdo erguido, com a mão na altura da cabeça O por do sol inunda e mescla a paisagem com tons avermelhados e laranja. O sol, de um amarelo ofuscante, está à direita e parece mergulhar antes em uma camada de nuvens condensadas acima do horizonte, outras nuvens esparsas pelo céu. As águas são levemente encrespadas e tranquilas, (típicas do norte de Portugal). Uma série de três pequenas ondulações corre para a maré, que não está visível. Há uma relação visual oblíqua entre o sol e o banhista, o qual não se identifica se é criança ou adulto.

Diante desse texto, fizemos alguns questionamentos à roteirista: 1) Esse banhista que aparece na imagem é homem ou mulher, adulto ou criança? É possível saber?; 2) As “águas típicas do norte de Portugal” não seria uma informação privilegiada? Somente olhando a foto, temos como saber que essas águas são típicas dessa região?; 3) A palavra “maré” não estaria usada equivocadamente? O correto não seria “beira” da praia?

Após nossos apontamentos a versão final, reescrita pela autora e apresentada ao vivo na sessão de AD das fotos, foi a seguinte:

Porto, Portugal, 2007. A linha do horizonte divide de um lado a outro o céu e o mar em proporções equivalentes. Abaixo, à esquerda, a pequena silhueta de um banhista com água pela cintura. Não se identifica se é criança ou adulto. Seu braço esquerdo está erguido, com a mão na altura da cabeça, enquanto o punho direito mergulha na água. O por-do-sol inunda e mescla a paisagem com tons avermelhados e laranja. O Sol, de um amarelo ofuscante, está à direita e semi-encoberto por uma camada de nuvens acima do horizonte. Seus últimos raios tingem de cobre as águas levemente onduladas e tranquilas. Uma série de três marolas desliza para a beira.

Desse modo, através desses exemplos práticos de descrições de fotos revisadas por nós, buscamos mostrar a relevância do trabalho de consultoria. Não pretendemos aqui criticar ou questionar o trabalho das roteiristas em questão – as quais, justamente por admirarmos imensamente seu trabalho, foram escolhidas para ilustrar esse relato e autorizaram que citássemos seus textos.

Mais uma vez fica evidente a importância do trabalho feito por uma equipe completa, composta por diversos profissionais, todos competentes e bem preparados. Equipes que ao contarem com consultores qualificados para essa função, além de seu trabalho técnico de revisão dos roteiros, possa ser um elo entre o público e os profissionais que fazem a AD.

E por fim, apenas um começo…

Tentamos com esse relato de experiência expor nossas reflexões e vivências enquanto consultores em AD, o que não significa ser a melhor ou a única forma de fazer. O mais importante nesse momento de expansão da AD é que tragamos diversas temáticas ao debate, principalmente a consultoria – algo fundamental, porém ainda pouco discutido por aqueles que a executam.

Sabemos que como quase pioneiros que somos ainda teremos muito a apreender e muito a melhorar em nossa prática de consultoria. Esperamos também, que cada vez mais esse trabalho seja tratado de modo profissional, de tal modo que os consultores sejam valorizados em todos os sentidos. Além disso, fica clara a necessidade de termos mais profissionais capacitados para exercer a revisão dos roteiros. Cabe reiterar também, essa função é tão importante quanto a do roteirista ou a do narrador ou outras que fazem parte do processo da AD.

Toda experiência que acumulamos neste curto, mas intenso, período como consultores de AD nos permite refletir criticamente sobre como a função vem sendo executada. Talvez, seja até contraproducente termos profissionais que não conheçam minimamente os processos de composição da AD, ou que tomem a revisão apenas como a anuência de entendimento ou não do que é descrito.

Respeitamos todas as opiniões em contrário, mas cremos que a AD além de um recurso de acessibilidade é um produto artístico. E como tal, mais do que entendimento, deve provocar emoções e sensações naqueles que a consomem. Isso porque, sentir e emocionar-se também com a AD oo menos através dela é algo que dificilmente se conseguirá com uma AD “neutra”..

Não queremos dizer com isso, porém, que a interpretação deve superar a informação. Acreditamos, sim, que se a informação puder ser repassada de modo a provocar sensações em quem a ouve, será muito mais interessante do que uma descrição meramente informativa.

Em nossas observações e sugestões feitas nos roteiros anteriormente citados, objetivamos, além de um melhor entendimento por parte das pessoas com deficiência visual, proporcionar ao público um maior número de informações possível – e que essas fossem repassadas de modo tão informativo quanto literário. Certamente outros trabalhos que realizamos foram mais complexos e demandaram muito mais interferências, e por isso mesmo, cabe ressaltar a qualidade informativa, linguística e literária do texto produzido pelas roteiristas Mimi Aragón e Márcia Caspary.

Ainda nessa esteira de pensamento, a consultoria não é apenas uma profissão essencial ao trabalho das equipes de AD, ele tem um potencial que ultrapassa tal funcionalidade. No momento em que a pessoa com deficiência visual é, ao mesmo tempo, plateia e participe da construção de um produto cultural, isso lhe confere também um papel de protagonista nos processos de produção de cultura e de criação de recursos de acessibilidade.

Diante de nossa experiência sentimo-nos muito mais identificados com a AD quando soubemos que pessoas cegas ou com baixa visão faziam parte das equipes que trabalham com este recurso. Ou seja, o fato de participar ativamente dos processos socioculturais proporciona a esses sujeitos que tenham protagonismo no cenário da produção artística e cultural – o que é importantíssimo para eliminar os preconceitos e barreiras atitudinais.

Além disso, esse processo de identificação com a AD e com os produtos culturais fazem com que cada vez mais as pessoas com deficiência visual desejem estar presentes na vida cultural, o que é frutífero para diluir os estereótipos de vitimização e de inferioridade desse grupo social.

Sendo assim, o trabalho em consultoria de AD exige uma série de habilidades e competências por parte daqueles que desejam ingressar nessa função. Ter domínio das técnicas efetuadas para audiodescrever, aliada às percepções e vivências cotidiana desses indivíduos com deficiência visual configuram um acréscimo fundamental para a qualidade do produto. Esse ponto de vista, confere uma forma diferente de pensar e construir os projetos e produtos a serem audiodescritos.  Afinal, não há sensibilização ou exercício que substitua a experiência cotidiana daqueles que tem deficiência visual.

Assim como a AD no Brasil ainda nem completou uma década de implantação, a função de consultor também é nova e requer uma detida reflexão sobre seus processos e implicações, além da opção por quais caminhos desejamos seguir.  Buscamos nesse relato de nossas experiências e percepções, apresentar aspectos que acreditamos que possam contribuir para o debate e para a ampliação da quantidade e qualificação dos revisores de AD. Ainda assim, sabemos que temos uma longa trajetória pela frente, na medida em que a AD se prolifera e floresce com mais intensidade no meio cultural.

Além de pensarmos na constituição de mais uma possibilidade de mercado para quem tem deficiência visual, trabalhar com AD nos proporciona um imenso prazer. Nos colocamos aqui na dupla posição de pesquisadores implicados com suas experiências e com a isenção necessária, e ao mesmo tempo, como admiradores da AD com qualidade, que sentem prazer em assistir produtos que tenham esse recurso.

Por fim, esse é apenas o começo de nossa trajetória como consultores em AD. Ainda temos muito a aprender e a compartilhar nesse admirável mundo novo da AD. Da mesma forma como fazemos com os textos que revisamos, procuramos escrever neste relato, aquilo que nos incomoda, os aspectos que desejamos que se modifiquem e também aqueles que nos satisfazem como consultores em AD. Então, temos um árduo e prazeroso desafio pela frente, que pretendemos tatear, sentir suas nuances e fazer da AD, não só um recurso de acessibilidade, mas um mundo de possibilidades.

Referência

MOTTA, Lívia Maria Villela de Mello; ROMEU FILHO, Paulo. Transformando imagens em palavras. São Paulo: Secretaria dos Direitos das Pessoas com Deficiência do Estado de São Paulo; 2010

Nota de rodapé

[1] A lei sobre audiodescrição, promulgada em 2000 e regulamentada em 2004, obrigando que todos os canais brasileiros de televisão aberta tivessem inicialmente 2 horas de programação com audiodescrição. A quantidade de horas do recurso será ampliada progressivamente, chegando 24 horas de programação audiodescrita em 2021.

 

Como citar esse artigo [ISO 690/2010]:
Mianes Felipe Leão Soares Mariana Baierle 2012. De espectador a protagonista: a pessoa com deficiência visual como consultora em audiodescrição [online]. [visto em 25/ 04/ 2019]. Disponível em: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/de-espectador-a-protagonista-a-pessoa-com-deficiencia-visual-como-consultora-em-audiodescricao/.
Revista Brasileira de Tradução Visual

Este artigo faz parte da edição de número volume: 12, nº 12 (2012).
Para conhecer a edição completa, acesse: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/rbtv-12-sumario.

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  • Graduado em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS). Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Doutorando em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Endereço: Av. Getúlio Vargas, nº 536, apto 311 bloco d2, CEP - 90150-002 – Porto Alegre – RS. Fone: 51-99417965View all posts by Felipe Leão Mianes
  • Graduada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade católica do Rio Grande do Sul. Mestre em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Endereço: Rua Veador Porto, 174/202 - Santana – Porto Alegre-RS - CEP 90610-200 - Porto Alegre – RS; Fone 51- 8433 7368.View all posts by Mariana Baierle Soares

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