Parece-nos que, invariavelmente, quando os recursos educacionais são elaborados, quem os elabora não reflete a respeito do usuário real que deles vai fazer uso. Tal prática tem gerado um hiato entre a construção de manuais e livros didáticos e a prática pedagógica, mormente, quando se trata de disciplinas em que, de alguma forma, se visa … Continue reading Contribuições da áudio-descrição no ensino de Artes
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Áudio-descrição da logo da RBTV: Revista Brasileira de Tradução Visual. Em um fundo branco, a mão direita faz a letra t em libras. O indicador e o polegar se cruzam, os demais dedos ficam erguidos. Próximo ao indicador há, em verde, 3 ondas sonoras. Abaixo da mão, lê-se RBTV, com letras verdes e com letras Braille em preto.

Contribuições da áudio-descrição no ensino de Artes

Parece-nos que, invariavelmente, quando os recursos educacionais são elaborados, quem os elabora não reflete a respeito do usuário real que deles vai fazer uso. Tal prática tem gerado um hiato entre a construção de manuais e livros didáticos e a prática pedagógica, mormente, quando se trata de disciplinas em que, de alguma forma, se visa ao desenvolvimento dos sentidos (audição, tato e mesmo olfato) e à compreensão das imagens, como é o caso da disciplina de Artes.

O acesso, por todos, aos conteúdos imagéticos nos livros didáticos foi um dos temas basilares ministrados na disciplina “Tópicos Atuais de Educação 1 – Temática: Introdução ao Estudo da Áudio-descrição, voltada à Educação”, disciplina que cursamos no mestrado em educação da UFPE em 2010.

Instigados pelas discussões em sala de aula, ao refletirmos sobre as contribuições dos recursos pedagógicos para o processo de ensino-aprendizagem, decidimo-nos por submeter para publicação na RBTV a descrição da imagem abaixo, como um passo que pode servir como input para que editoras e seus autores visualizem que a tradução visual é emergencial e pode contemplar não só as pessoas com deficiência visual (com cegueira ou com baixa visão), mas, também, todos aqueles que têm uma deficiência intelectual ou estão em processo de alfabetização e letramento.

Nesta linha, reconhecemos que é o recurso da áudio-descrição um caminho que pode trazer significados para disciplinas que trabalhem com base no uso das imagens, como ocorre no ensino de Artes.

Nas escolas brasileiras, apesar de o ensino dessa matéria ser obrigatório, desde a determinação da LDB 9394/96, nem todos os cursos de Pedagogia, por exemplo, oferecem tal disciplina. E, será que ao se a oferecer, se vai pensar o ensino das imagens considerando as pessoas com deficiência visual?

Com o objetivo de contribuir para um ensino de qualidade para Todos, muita literatura tem surgido, ressaltando a necessidade de pensar a educação, também para um público que antes não era encontrado na escola comum/regular. Essa literatura contempla a áudio-descrição de imagens? Ela ensina os professores a fazer uso das imagens de maneira comunicativa, acessível e produtiva para pessoa com deficiência visual?

Em um breve exercício, ao analisar alguns livros e manuais para professores, verificamos que não há menção ao trabalho artístico a ser realizado com, por e para Todos os alunos, incluindo os que têm deficiência visual. Nesta linha, o que se verifica é que nas atividades sugeridas o enxergar está na centralidade dos exercícios e ações.

E, neste sentido, questionamos: Como inserir o aluno com deficiência visual em atividades que requerem a interpretação e, por vezes, até a reprodução de imagens? Um caminho seria o oferecimento da áudio-descrição, como etapa primeira, como veremos a seguir.

Buscamos, a partir da acessibilidade fornecida por esse recurso assistivo, despertar o professor, ministrante da disciplina de Artes, para realizar com todos os alunos as atividades que, inicialmente, só eram propostas aos alunos videntes.

Então, aqui segue nossa áudio-descrição como contribuição para a reflexão e discussão sobre a áudio-descrição no livro didático: “Para gostar de aprender Arte”, livro distribuído pelo MEC às escolas estaduais de Pernambuco.

Descrição

Tela em óleo, com medidas originais de 50 X 60 cm, sem título, pertencente à série “Olhos que não querem ver”, do artista Alexandre Silva dos Santos Filho (Alixa), pode ser encontrada na proporção de 16,5 X 10,5, na página 19 do livro “Para gostar de aprender arte – sala de aula e formação de professores”, escrito por Rosa Iavelberg, publicado pela editora Artmed em 2003.

Alixa, professor do Departamento de Artes da Universidade do Pará, demonstra uma poética visual que inclui o imaginário amazônico e a cultura iconográfica paraense, nesses vinte e sete anos de criação em arte. Sob influência de Bacon (1909 -1992), que por seu turno foi influenciado por Velazquez (1599-1660) e Goya (1746-1828), o artista macapaense produz a obra supracitada em 1985, procurando relacionar a cultura dos “seres da floresta” (índios) com o meio urbano.

Na imagem, em tons pastéis, pode-se ver ao fundo, de cima para baixo, pátinas pretas, marrons com variações para o claro ou escuro, assemelhando-se ao telhado de uma oca; na parte inferior, observa-se um tom marrom escuro que compõe o restante do plano de fundo da imagem.

A tela, a partir de um ângulo frontal de leitura, mostra um homem do peitoral para cima, o ombro direito não é visualizado. Vê-se que o homem segura com a mão esquerda um telefone cinza, na altura da orelha. O fio aspiralado preto do telefone aparece, parcialmente, pendurado em direção ao chão. O homem tem a pele do corpo na tonalidade marrom, enquanto a cor de sua face é de tom amarelo. Ele usa no pescoço um colar branco, largo e marrom escuro na extremidade superior.

O homem apresenta um cabelo de corte arredondado (característico dos índios caiapós), pintado com tinta avermelhada, com variações de tons marrom e preto tracejando fios de cabelos. Ele franze a testa, quase unindo as sobrancelhas que são pretas e pressiona os olhos, também pretos. A boca está aberta, deixando à mostra lábios finos e marrons que desenham uma imagem semelhante a um losango, preenchido interiormente pela cor preta.

Os traços faciais do homem são delicados; o rosto é fino na mandíbula e largo na altura das bochechas e testa. O homem tem pescoço curto; no nariz dele há uma pequena saliência na parte de cima e aponta para baixo. O queixo é pequeno, contribuindo para o formato ovalado do rosto. Na bochecha direita, há uma pintura de um V deitado, cuja extremidade superior aponta para a orelha do homem e a inferior, para o maxilar

Por fim, observa-se que a parte mais elevada da orelha direita do homem, a hélice, não pode ser vista, está coberta por cabelos. Contudo, pode-se observar o bico azul de uma caneta sobre a cartilagem auricular, passando pelo lóbulo da orelha, estendendo-se diagonalmente, até a altura do peito do homem. A caneta é branca com tampa azul e contém a logomarca BIC. A assinatura de Alixa e o ano da obra estão registrados na cor preta, do lado esquerdo da imagem, abaixo do colar do homem.

Como citar esse artigo [ISO 690/2010]:
Silva Fabiana Tavares dos Santos 2010. Contribuições da áudio-descrição no ensino de Artes [online]. [visto em 18/ 12/ 2018]. Disponível em: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/contribuicoes-da-audio-descricao-no-ensino-de-artes/.
Revista Brasileira de Tradução Visual

Este artigo faz parte da edição de número volume: 3, nº 3 (2010).
Para conhecer a edição completa, acesse: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/rbtv-3-sumario.

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  • Mestranda em Educação Inclusiva (UFPE). Aluna do III Curso de Tradução Visual com ênfase em Áudio-descrição “Imagens que Falam” (CEI/UFPE). Especialista em Literatura Infanto-Juvenil (FAFIRE). Graduada em Letras (FAINTVISA). Professora dos cursos de licenciatura em Pedagogia e Letras (Faculdades Integradas da Vitória de Santo Antão). Professora conteudista e executora do curso de licenciatura em Pedagogia (UFRPE- EaD). Professora da rede pública estadual de Pernambuco.View all posts by Fabiana Tavares dos Santos Silva

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