Gostaria de agradecer à Roberta Lima, ao Professor Domingos Sávio Coelho, e meus colegas, que contribuíram grandemente em relação ao meu entendimento da cultura surda durante a elaboração deste relato. Resumo Este relato parte do conceito de que o contexto em que o surdo vive é toda uma cultura. Cultura essa que é diferente da … Continue reading Considerações a respeito da interação entre ouvintes e surdos: um relato baseado na experiência em um projeto universitário
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Considerações a respeito da interação entre ouvintes e surdos: um relato baseado na experiência em um projeto universitário

Gostaria de agradecer à Roberta Lima, ao Professor Domingos Sávio Coelho, e meus colegas, que contribuíram grandemente em relação ao meu entendimento da cultura surda durante a elaboração deste relato.


Resumo

Este relato parte do conceito de que o contexto em que o surdo vive é toda uma cultura. Cultura essa que é diferente da cultura de uma pessoa ouvinte. Porém essas diferenças não são só linguísticas, mas também de costumes, percepções, entre outras coisas. A finalidade desse relato é tentar mostrar alguns aspectos relacionados à interação entre ouvintes e surdos no que diz respeito à Cultura Surda, partindo da experiência em um projeto de extensão universitária envolvendo pessoas surdas e ouvintes.

Considerations on the interaction between hearing and deaf people: a report based on the experience of a university project

Abstract

 We start from the concept that the context in which deaf people live is an entire culture. That culture is different from a culture of a hearing person. But these differences are not only linguistic, but also related to customs, perceptions and other things. The purpose of this report is to try to show some aspects of the interaction between hearing and deaf people related to the Deaf Culture, based on an experience in a university extension project involving deaf and hearing people.

Introdução

Partimos do conceito de que o contexto em que o surdo vive é toda uma cultura. Destaca-se também que a surdez não traz consigo somente a perda do sentido da audição, mas também a criação de todo esse contexto cultural surdo. E essa compreensão de Cultura Surda é fundamental para o entendimento da Psicologia da Surdez.

Uma das primeiras características peculiares e talvez a mais óbvia que se pode ressaltar em relação à Cultura Surda é a sua língua, que é a de sinais. Mas não se devem reduzir as diferenças culturais somente a diferenças de línguas, embora este seja um ponto fundamental e interessante no que diz respeito à relação Língua Portuguesa-LIBRAS. As diferentes culturas não trazem só diferenças meramente linguísticas ou de costumes, mas também de toda uma percepção do mundo ao redor atrelada às suas experiências e vivências daquele contexto. Então, a Cultura Surda traz consigo sua própria língua, costumes, percepções de mundo e vivências (na Cultura Surda, particularmente, vivências quase na sua totalidade frente a outro contexto cultural, no caso o ouvinte).

O presente texto tem por objetivo, através de um breve relato baseado em algumas experiências de trocas culturais entre surdos e ouvintes em um projeto de extensão da Universidade de Brasília, a descrição de aspectos relacionados à Cultura Surda e algumas reflexões sobre eles. Um dos fatos a serem ressaltados é que, tendo em vista o objetivo proposto, as interações podem ser mais facilmente compreendidas e com maior aproveitamento se analisadas tomando-se um indivíduo de fora da cultura analisada como ponto de partida para essa análise, tornando o relato, nesse caso, uma boa ferramenta para esse fim.

No início das interações

Trata-se, o projeto de extensão aqui descrito, de um Círculo de Cultura Surda, que possui uma série de atividades envolvendo alunos universitários ouvintes e indivíduos surdos, como por exemplo: elaboração de materiais de inclusão dos surdos em escolas, formulação de estratégias de divulgação desses materiais, convivência, interação e compartilhamento de aspectos da Cultura Surda etc. Algumas dessas atividades serão descritas mais detalhadamente à frente.

Uma das bases para as elaborações desses materiais e estratégias citados acima é o conhecimento da Cultura Surda, de vários de seus aspectos, problemáticas e dificuldades. Muitas vezes os alunos que entram no projeto não têm conhecimento prévio sobre a surdez. Então é importante que se dê ênfase na convivência com os surdos e no relacionamento pessoal com eles, pois, além de já se tratar da própria inclusão no contexto universitário, mantendo relações saudáveis, pode-se começar a entrar nesse contexto e assim entender suas necessidades, opiniões etc.

Quando iniciei meu trabalho no projeto junto aos surdos, o meu conhecimento sobre Cultura Surda e LIBRAS era zero. Minhas interações eram até então extremamente limitadas, pois eu não sabia nem me comunicar, nem como agir junto a essa cultura. Devido ao desconhecimento de LIBRAS e também da timidez frente a um contexto diferente, desconhecido até então, ocorria algumas vezes de algum dos surdos começar a dizer alguma coisa em LIBRAS e eu concordar com tudo o que ele dizia, consentindo com a cabeça, mesmo não entendendo quase nada que ele dizia. Assim, eu perdia muito das interações por timidez e desconhecimento. No início, quem me ensinou bastante, desde o básico, e com muita paciência, foi o Frankson, que era um dos surdos do projeto e que também possuía uma boa fala em português. Frankson ensinava bem devagar, pouco a pouco nos apresentando à LIBRAS e nos introduzindo à Cultura Surda. É interessante ressaltar sua paciência e a dos outros surdos, porque no início nós pouco prestávamos atenção a esse detalhe, mas uma vez que o tempo se passou e novas pessoas iam entrando no projeto, nós víamos, dia após dia, a mesma disposição deles em começar a ensinar desde o início às pessoas novas. Me parece que os surdos apreciam a interação com os ouvintes e estão dispostos a fazer esse movimento no sentido de dar as condições para que isso aconteça, se é da vontade do ouvinte iniciar tais interações e relações, através do ensino de LIBRAS e da convivência dentro do contexto de Cultura Surda.

O aprendizado do básico de LIBRAS se deu relativamente rápido. Mas vale ressaltar que o aprendizado em LIBRAS é contínuo e é algo que se deve praticar, pois, como qualquer outra língua que não a materna, perde-se o vocabulário e o modo de falar mais rapidamente se não há prática. No início, devido ao meu conhecimento nulo de LIBRAS, o ensino se deu em parte num contexto oralizado, ou seja, eu falava, o Frankson fazia leitura labial e me ensinava os sinais em LIBRAS correspondentes àquelas palavras. O próprio Frankson utilizava da fala para mostrar algumas palavras para mim. Mas ao passar do tempo fomos pouco a pouco retirando essa oralização da interação para que pudéssemos gradativamente inserir a interação na Cultura Surda.

Eu faço parte de um grupo musical no qual eu participo na parte vocal e na guitarra. Em determinado dia, pensei em conversar com Frankson sobre eu possuir um grupo musical, talvez até mostrar-lhe um vídeo de uma das apresentações disponibilizado na internet. Mas eu parei um pouco e pensei: “Ele não deve se interessar por isso, já que ele é surdo. Talvez se eu conversasse a respeito disso ele até me achasse inconveniente.” Então eu esqueci esse assunto e conversamos sobre outra coisa. Mas logo após surgiu a oportunidade de falar sobre isso devido ao assunto que estávamos conversando, e eu disse que possuía um grupo musical, até mostrei a ele o vídeo nosso na internet. E, para minha surpresa, ele se mostrou bastante receptivo, até bem animado ao ver o vídeo, fazendo alguns comentários bem-humorados sobre a nossa performance.

Com isso eu percebi que realmente nós, ouvintes, não conhecemos muito bem os surdos nem a sua maneira de pensar. É bem verdade que mesmo dentro da população surda há algumas divergências de opinião a respeito de vários aspectos relacionados a diferentes temas, como: educação dos surdos junto aos ouvintes, inclusão, oralização, o uso do implante coclear (aparelho auditivo para surdos) etc. Mas às vezes nos aproximamos com nossos conceitos pré-formados, com nossa ignorância no que diz respeito à interação e isso nos deixa apreensivos, fazendo com que muitas vezes nos privemos de uma interação mais aberta e rica junto aos surdos, esquecendo-nos de como se dá o próprio processo de relações sociais humanas, em que começamos com nossas dificuldades, diferenças, mas depois conhecendo-nos, habituamo-nos e estabelecemos relações saudáveis. Nesse caso, em relação ao que nós não conhecemos, talvez devêssemos fazer um esforço no sentido de nos aproximarmos e buscarmos compreender e aprender e não nos omitirmos.

O curso de LIBRAS

Uma parte do projeto de que participávamos junto aos surdos era a criação de um material específico para um curso de LIBRAS. Esse material consistia de pequenos vídeos e/ou animações com situações e temáticas relacionadas à Cultura Surda em geral. Essa mídia serviria para mostrar aos alunos as dificuldades, as diversas ocorrências no cotidiano do surdo, as diferenças culturais etc. Esses roteiros de situações ou histórias da vida do surdo deveriam ser criados pelos alunos ouvintes que trabalhavam no projeto, transcritos para português adaptados para LIBRAS e depois mostrados aos surdos, para que estes dessem suas opiniões e/ou modificassem alguma coisa no roteiro. Esses roteiros de histórias, uma vez terminados, dariam início aos vídeos e animações. Esses vídeos/animações seriam interpretados em LIBRAS e seriam utilizados no curso de LIBRAS.

Além do objetivo explícito dessa parte do projeto, que era elaborar um material para o curso de LIBRAS, havia também alguns objetivos implícitos a se cumprirem dentro do método utilizado nessa elaboração. Não que fossem objetivos secundários, mas que deveriam ser atingidos, devido à maneira como a atividade fora organizada.

Um desses objetivos era fazer o aluno ouvinte atentar ao fato de que realmente nós pouco sabemos sobre o cotidiano e a Cultura Surda e, assim, fazê-lo procurar se envolver mais e conhecer mais a Cultura Surda. Seria mais fácil se as narrativas fossem feitas pelos próprios surdos, uma vez que eles mesmos passam por situações próprias de seu contexto todos os dias. Mas tendo em vista esse objetivo, foi dado aos alunos ouvintes escrever sobre isso, exatamente porque eles não vivem essas situações.

O aluno teria que, primeiramente, pensar em alguma situação pela qual o surdo passa. Ele teria que se imaginar sendo um surdo em determinada situação e tentar expressar no roteiro todas essas implicações, e isso com suas percepções e experiências de ouvinte. Ou seja, isso requereria que o aluno descentralizasse o seu pensamento no que diz respeito à sua condição de ouvinte e então teria que elaborar uma situação sob outro ponto de vista, diferente do seu, que seria o do surdo. Caso contrário, a história não seria fidedigna, não mostraria ao outro os diversos aspectos da Cultura Surda na vida do indivíduo, mas somente demonstraria a visão de um ouvinte sobre o contexto do surdo, e não a visão do surdo sobre seu próprio contexto. Isso demandava aos alunos certo custo cognitivo, uma vez que as suas ideias teriam de ser elaboradas dessa maneira, já demonstrando ao aluno, nessa tarefa, o seu desconhecimento prévio sobre as implicações da surdez na vida de uma pessoa.

Ainda sim, como se pôde observar ao longo do desenvolvimento desse trabalho, mesmo após os alunos terem formulado essas histórias, ao apresentá-las aos surdos, o que acontecia era que as histórias eram quase sempre modificadas por alguns fatores principais: a) por causa da questão da adaptação Português-LIBRAS; e b) a não semelhança com histórias reais. Houve ainda algumas dificuldades em relação ao uso de metáforas, mas não foi um dos fatores principais.

Um dos fatos interessantes que aprendemos sobre LIBRAS no projeto é que ela é a Língua Brasileira de Sinais, mas não é a língua portuguesa sinalizada. A estrutura gramatical de LIBRAS é diferente daquela da língua portuguesa. E não só a estrutura gramatical, mas toda a construção dela. Primeiramente, em LIBRAS não se utiliza tanto conjunções. Por exemplo, quando se fala em português “Loja de Skate” ou “juntamente com você”, em LIBRAS se diz “Loja Skate” e “junto você”. Outra diferença é que não se usa de artigos como “a”, “o”, as”, os” junto a substantivos. E quando é para se diferenciar o gênero de algumas palavras, usam-se os sinais da própria palavra juntamente com o sinal “homem” ou “mulher”. Por exemplo, em português, as palavras “primo” e “prima” ou “tio” e “tia”, se expressariam em LIBRAS “primo-homem” e “primo-mulher” ou “tio-homem” e “tio-mulher”. Também, quando se está comunicando em LIBRAS, não se conjugam os verbos, eles permanecem no infinitivo. Então, no caso da frase “Eu fui ontem para a escola”, em LIBRAS poderia se dizer “Eu ir ontem escola”. Também se percebe que LIBRAS é uma língua bastante objetiva. Não só no que diz respeito à sua construção gramatical, mas também no seu desenvolvimento, ou seja, ela não se mostra muito prolixa. Enquanto em português alguém poderia desenvolver uma ideia em um parágrafo todo, se utilizando de várias palavras, em LIBRAS poder-se-ia desenvolver a mesma ideia em uma linha, bem objetivamente.

Tendo em vista todas essas diferenças, adaptadas as narrativas para o Português Adaptado para LIBRAS, foram feitas muitas modificações por parte dos surdos do projeto, em todos esses quesitos citados, não só nos gramaticais, mas também no que diz respeito ao grande volume de palavras contidas nas histórias, que quase sempre era resumido ao máximo. Mas, novamente, isso serviu para que os alunos atentassem a mais um aspecto da Cultura Surda: suas peculiaridades linguísticas.

A outra diferença ressaltada na correção das histórias foi que, quando os alunos ouvintes mostravam as suas histórias sobre situações do cotidiano da Cultura Surda aos surdos participantes do projeto, elas eram diversas vezes modificadas não só em sua estrutura gramatical, mas em todo o contexto e sentido da história. Isso acontecia porque muitas vezes as histórias não correspondiam a situações verossímeis da vida dos surdos. O aluno ouvinte, esforçando-se para criar uma história que se adequasse ao contexto da Cultura Surda, por vezes supunha que determinada situação ocorria de tal maneira, vendo a situação, ainda assim, do ponto de vista de um ouvinte. Mas o surdo, sabendo como aconteciam na realidade situações como aquela, corrigia a história, mostrando como, de fato, ocorria no cotidiano. Algumas vezes a história era “virada ao avesso”, e todo o sentido que o ouvinte imprimiu na história desaparecia, e surgia o sentido real dos acontecimentos na Cultura Surda. Dessa maneira, deu-se aos alunos ouvintes a oportunidade de, em meio à visualização das diferenças, perceber e ir captando as nuanças que diferenciam as duas culturas – ouvinte e surda. Por exemplo, uma história, em que um surdo trabalhava em um supermercado e não conseguia se comunicar com um cliente ouvinte, foi corrigida por um dos surdos, por achar que a história mostraria melhor o contexto da Cultura Surda com o cliente sendo o surdo e o atendente sendo o ouvinte.

E essa era, talvez, a parte em que mais se aprendia sobre Cultura Surda: em contato com as diferenças do contexto em que o surdo vive. E os alunos, depois de terem suas histórias modificadas, iam, gradativamente, criando histórias mais parecidas e fiéis ao contexto surdo, uma vez que, percebendo as diferenças e peculiaridades da cultura, poderiam, após essas correções, ver a mesma situação com um olhar cada vez mais acurado, tomando como base o ponto de vista do surdo.

Houve ainda um fato interessante observado algumas vezes no decorrer do projeto: alguns alunos ouvintes, na comunicação com os surdos, às vezes utilizavam de metáforas – recorrentes na língua portuguesa – na conversa. Por várias vezes os surdos estranhavam bastante as expressões utilizadas, ficando sem entender o sentido da frase. Afirmações como: “a descrição científica mata a Cultura Surda” eram recebidas com estranhamento e dúvidas sobre o sentido da afirmação, por interpretar o sentido da palavra matar literalmente. É raro nas conversas com os surdos eles utilizarem de metáforas. Percebe-se que, além de objetiva no sentido do volume de palavras, LIBRAS também se mostra objetiva no que diz respeito ao modo de transmissão das informações, não utilizando muito de metáforas.

Algumas das experiências relatadas e suas observações podem ajudar o leitor ouvinte a entender melhor o conceito de Cultura Surda e também ajudar a reconhecer essa cultura e, previamente a um contato com surdos, mostrar situações dificultosas e alertar sobre o modo de se portar (ou não) diante de algumas delas, já explicando um pouco mais sobre alguns aspectos de sua natureza. Não se pretende abordar todos os temas relacionados à Cultura Surda neste relato, mas estes talvez se mostrem úteis ao entendimento e ao conhecimento da Cultura Surda em algumas de suas dimensões.

Como citar esse artigo [ISO 690/2010]:
Santiago Lucas Germano 2012. Considerações a respeito da interação entre ouvintes e surdos: um relato baseado na experiência em um projeto universitário [online]. [visto em 25/ 04/ 2019]. Disponível em: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/consideracoes-a-respeito-da-interacao-entre-ouvintes-e-surdos-um-relato-baseado-na-experiencia-em-um-projeto-universitario/.
Revista Brasileira de Tradução Visual

Este artigo faz parte da edição de número volume: 12, nº 12 (2012).
Para conhecer a edição completa, acesse: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/rbtv-12-sumario.

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