Resumo: O presente artigo trata da acessibilidade ao curso superior de Artes Visuais por parte de alunos com deficiência visual. Denuncia que o atual acesso via vestibular para esse curso, junto ao Instituto de Artes da UFRGS, impõe barreiras aos candidatos com deficiência visual, contraditoriamente ao fato que nesse curso, estuda-se, entre outros autores, os … Continue reading RBTV #5: Cerâmica e inclusão: uma experiência de trabalho na Universidade Federal do RS (UFRGS)
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Áudio-descrição da logo da RBTV: Revista Brasileira de Tradução Visual. Em um fundo branco, a mão direita faz a letra t em libras. O indicador e o polegar se cruzam, os demais dedos ficam erguidos. Próximo ao indicador há, em verde, 3 ondas sonoras. Abaixo da mão, lê-se RBTV, com letras verdes e com letras Braille em preto.

RBTV #5: Cerâmica e inclusão: uma experiência de trabalho na Universidade Federal do RS (UFRGS)

Resumo:

O presente artigo trata da acessibilidade ao curso superior de Artes Visuais por parte de alunos com deficiência visual. Denuncia que o atual acesso via vestibular para esse curso, junto ao Instituto de Artes da UFRGS, impõe barreiras aos candidatos com deficiência visual, contraditoriamente ao fato que nesse curso, estuda-se, entre outros autores, os trabalhos do fotógrafo cego Eugen Bavcar. Sugere-se que devam haver alternativas acessíveis para o ingresso ao curso de Artes Visuais, ou mesmo, que a primeira fase do vestibular para esse curso seja extinta, de modo que não exclua os alunos com deficiência. Conclui-se que tolerância e respeito às diferenças são coisas distintas, e que, no caso deste artigo, esse respeito inclui a igualdade de oportunidade de os alunos com deficiência visual terem acesso ao ensino superior, também no curso de Artes Visuais.

As pessoas com algum tipo de deficiência eram consideradas até o século XVIII como inválidas, incapazes de realizar qualquer função produtiva e, portanto, ficavam excluídas socialmente, não participando do sistema educacional. Somente no século XIX, medidas foram tomadas para criar as primeiras escolas para alunos com necessidades educacionais especiais. Em 1990, em uma conferência organizada pela ONU – Educação para Todos – e na Conferência Mundial de Educação Especial, em 1994, na Espanha, cidade de Salamanca, a função das escolas especiais foi revista e apresentou-se como princípio básico promover a inclusão das pessoas com necessidades educacionais especiais em instituições regulares de ensino, sem nenhuma distinção.

Em relação ao Ensino Superior, a atual legislação brasileira é clara no que se refere ao direito do público especial ao acesso ao Ensino Superior, garantindo o ingresso e a permanência de alunos com deficiência nos cursos de terceiro grau. Entre os requisitos básicos indispensáveis para o atendimento adequado de tal público, está a disponibilização de intérpretes da língua de sinais, a provisão de salas de apoio com todas as tecnologias para alunos com deficiência visual e a eliminação de barreiras arquitetônicas. Apesar do que dispõe a lei, na prática há um longo caminho a ser trilhado para que a inclusão se efetive de fato. Exemplo é o caso que passaremos a analisar a seguir: a inclusão de pessoas com deficiência visual no Instituto de Artes, UFRGS.

No Instituto de Artes, UFRGS, atualmente há um curso de Graduação em Artes Visuais, nas modalidades Bacharelado e Licenciatura. Para ingressar no curso realiza-se uma prova de admissão via vestibular, dividida em duas etapas. Na primeira etapa, é realizada uma prova de desenho de observação, cujos critérios de avaliação se referem à correta representação em perspectiva, proporção, organização espacial, ao uso de luz-sombra. Esta prova é eliminatória em relação à segunda etapa, que se compõe de testes teóricos, comum a todos os cursos da universidade. A partir deste panorama de ingresso universitário, se depreende que uma pessoa cega ou com deficiência visual acentuada tem seu ingresso no Instituto de Artes, UFRGS, dificultado. Curiosamente, um dos conteúdos estudados no curso de Artes Visuais é a produção do fotógrafo cego Eugen Bavcar[1].

Uma pessoa cega pode ser artista, mas como facilitar seu acesso ao curso de Artes Visuais? Foi, entre outros objetivos, pensando em gerar uma demanda para que seja justificada a alteração (passando para uma prova de modelagem, por exemplo) ou mesmo abolição da etapa 1 do vestibular para ingresso no Instituto de Artes da UFRGS, que surgiu a ação de extensão universitária chamada Cerâmica e Inclusão, que procura aproximar a pessoa cega do ambiente universitário, tendo como foco central a arte. Tal ação, desde final de 2008, aborda a inclusão de deficientes visuais no Instituto de Artes, por meio de um curso na área da cerâmica do qual participam pessoas com acuidade de visão normal e pessoas com deficiência visual em diferentes graus. A extensão universitária tem como uma de suas metas retornar os benefícios produzidos pelo meio acadêmico à comunidade, podendo esta usufruí-los sem passar pelos processos de acesso regular à universidade, via vestibular.

Ao receber os alunos com deficiência visual para a ação de extensão, diagnosticamos que eles haviam tido pouco ou nenhum contato com espaços universitários. Nenhum dos alunos havia estado antes no Instituto de Artes, sendo essa aproximação uma experiência nova. O grupo de alunos é muito heterogêneo – há cegos 100%, há aqueles que enxergam apenas 1% e, portanto, lêem em Braille, bem como pessoas que enxergam 30% e podem utilizar-se de materiais com letras ampliadas, até pessoas com 100% de visão. Quanto à faixa etária, variam de 16 a 60 anos. O grau de escolaridade também é variável, sendo em geral escolaridade média. São no total 16 alunos, sendo dois deles professores da UFRGS, um da área agronomia e outro da área de informática.

Como comentado anteriormente, no Instituto de Artes embora existam as modalidades bacharelado e licenciatura, não há nenhuma disciplina específica no currículo para tratar a questão da arte e inclusão. Portanto, a maior parte dos futuros professores não se sente apta a tratar do assunto, pois não estão sendo preparados pedagogicamente para atender aos alunos com deficiência.

Outro ponto importante a ser considerado na inclusão da pessoa cega é a questão da acessibilidade aos espaços de ensino-aprendizagem. Na legislação brasileira, o Decreto nº 5.296/2004 é o que estabelece normas e critérios para a acessibilidade de pessoas com deficiência. O artigo 24 determina que estabelecimentos de ensino em qualquer nível deverão dar condições de acesso e de utilização de todos os seus ambientes às pessoas com deficiência. Em relação à adequação da estrutura física do Instituto de Artes, percebe-se que necessita de investimentos que facilitem a acessibilidade dos estudantes com deficiência, tais como elevador com sensor sonoro, banheiros disponíveis no primeiro andar, sala de aula com melhores condições de trabalho como, por exemplo, a identificação de materiais em Braille para que os alunos possam se locomover e encontrar o que procuram com autonomia. Ou seja, as instalações ainda não estão adaptadas à legislação vigente no que se refere à acessibilidade.

Constatada a realidade apontada acima, passemos a considerar como se dá a ação Cerâmica e Inclusão na prática. Na ação partimos do princípio de que o trabalho com a argila e a cerâmica são propulsores para que, tanto as pessoas videntes como as com deficiência visual tenham sua sensibilidade ampliada, especialmente mediante o contato tátil com o material. Ao curso estão vinculados quatro bolsistas e um professor que atuam por meio de uma metodologia que aborda sensorialidades não somente específicas da visualidade, e sim, realidades perceptivas que ocorrem mediante tato, som, olfato, enriquecendo sobremaneira o conhecimento do que se entende por percepção. Para Elcie F. Salzano Masini em seu artigo, A Educação do Portador de Deficiência Visual — as perspectivas do vidente e do não vidente:

O educador não pode esquecer-se de que a deficiência visual constitui uma privação de estímulos e de informações do meio ambiente. Portanto, sua grande preocupação deverá ser de encontrar os caminhos para o DV ampliar seu contacto com o mundo que o cerca: de um lado, ampliando sua percepção e compreensão dos conhecimentos; de outro, intensificando suas relações e comunicação com os que o cercam”.[2]

É neste contexto que procuramos orientar o aluno com deficiência visual. São levadas em conta suas percepções em relação ao espaço e aos objetos à sua volta. Busca-se sempre autonomia e um ambiente que favoreça o desenvolvimento da criatividade dos envolvidos nas atividades, sejam eles alunos ou instrutores. Na busca da autonomia o aluno é estimulado a conhecer outros espaços do Instituto de Artes e participar de suas atividades (exposições na pinacoteca, concertos e palestras no auditório, ida à biblioteca).

Imagens do Curso Cerâmica e Inclusão. UFRGS. 2009.

Na ação de extensão, o aluno desenvolve projetos pessoais de trabalho, tendo como base vivências particulares. O aluno escolhe e prepara materiais, aprende técnicas de construção cerâmica, elabora formas, cria processos e linguagens, cria por prazer; muitas vezes produz objetos utilitários, mas o que se evidencia é a preponderância do imaginário. É importantíssimo neste processo, nos momentos em que todos realizam as mesmas atividades, que se respeite o ritmo e os limites de cada aluno. Respeitar as diferenças é o primeiro passo para que o aluno se assuma como uma pessoa criativa e capaz. Sublinha-se aqui que não falamos em tolerar diferenças e sim, em respeitar diferenças. Tolerar é ter paciência no sentido de suportar; respeitar; na origem da palavra significa olhar para trás muitas vezes, esperar, prestar atenção. Acreditamos que seja o respeito o que deva prevalecer em qualquer relação que tenha como foco a diferença, no sentido de prestar atenção, escutar o outro.

Imagens de trabalhos feitos pelos alunos do Curso Cerâmica e Inclusão. UFRGS. 2010

Imagem do Curso Cerâmica e Inclusão. UFRGS. 2009.

Observamos que a arte é, não somente no caso do aluno com deficiência, uma excelente ferramenta que estimula a autoconfiança para interpretar e criar o mundo em que vivemos. A aproximação ao ambiente universitário por meio do curso em cerâmica tem se revelado um passo importante para que pessoas cegas e videntes, em suas diferenças, busquem seus direitos e seu espaço na sociedade. É também através da transformação da matéria, modelando a argila e construindo novos objetos, novas formas, criando, que o aluno passa a acreditar que é capaz de produzir e se manifestar criativamente. Consequentemente, há um aumento em sua auto-estima e a troca de experiência com os outros colegas sobre aquilo que criou ajuda no seu entrosamento e na sua inclusão na sociedade. A produção dos alunos tem se revelado múltipla e expressiva, saindo das intenções iniciais rumo ao inesperado. A arte assim cumpre o seu papel fundamental de gerar o que ainda não existe e pensar, re-pensar, criar, re-criar cultura e cidadania. O que percebemos na ação é que, ao moldar a argila, moldamos a nós mesmos, a partir de nossas diferenças.

Fundamentais têm sido os desdobramentos que a ação tem tido em outros âmbitos da Universidade, como o projeto Vendo o Universo direcionado aos alunos com deficiência visual, o qual surgiu a partir do contato do planetário da universidade com os alunos da ação de extensão. Também ocorreu uma aproximação com o programa Incluir[3], da UFRGS, com o qual estamos começando a trabalhar com áudio-descrição e desenvolvimento de matrizes táteis de duas obras de artistas brasileiros (pinturas de Eduardo Vieira da Cunha e Marilice Corona). Pretende-se estimular leituras que partam de outros sentidos além da visão.

Ao propor uma abordagem voltada para o público cego, partimos de obras de arte contemporânea (duas pinturas) de artistas que estão produzindo na contemporaneidade, para podermos nos valer de entrevistas com os artistas, para desta forma, explorar conceitos e contextos presentes nas obras escolhidas a partir de um lugar de diálogo que nos afaste de interpretações mecânicas. A aproximação a uma obra de arte pode acontecer de inúmeras formas e essa é uma das características da obra artística contemporânea, sendo a diversidade da mediação um campo aberto à experimentação e invenção.

Salientamos também que a inclusão pela via da extensão universitária só ocorre quando se dá uma inter-relação entre a comunidade e o meio acadêmico e que a extensão pode ser uma importante via para que a pessoa com deficiência aproxime-se do ambiente acadêmico, ampliando as possibilidades de seu acesso à universidade.

Bibliografia:

LEITE, Maria. R. S. D. T. e SILVA, Glicélio R. S. Inclusão da pessoa com deficiência visual nas instituições de educação superior de Belo Horizonte. In.: <http://www.unieducar.org.br/biblioteca/Incluso%20da%20Pessoa%20com%20Deficincia%20Visual%20nas%20Instituies%20de%20Educao%20Superior%20de%20Belo%20Horizonte.pdf>, acessado em 20/07/2010.
MATURANA, Umberto. Emoções e linguagem na educação e na política. Trad. José F. Campos Fortes. Belo Horizonte. Ed. UFMG, 2002.
MASINI, Ecie F. S. “A educação do portador de deficiência visual – as perspectivas do vidente e do não vidente.” In: Em Aberto, ano 13, n. 60, p. 60 – 77, out/dez.,1993.
OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. 22 ed. Petrópolis: Vozes, 2008.
SILVA, Maria C. R. F., KIRST, Adriane C. Museu de Arte, Inclusão da Pessoa Cega, desafios do Educativo. In: <http://www.ceart.udesc.br/revista_dapesquisa/ volume3/numero1/plasticas/adriane-mariacristina.pdf>

Notas de rodapé

[1] Fotógrafo esloveno cego, radicado francês. Para conhecer um pouco do trabalho e pensamento do fotógrafo, ver: BAVCAR, Eugen. Memória do Brasil. São Paulo: Cosac& Naify, 2003 e BAVCAR, Eugen. “Um outro olhar.” Revista Humanidades. nº 49, janeiro de 2003.
[2] In: SORIANO, E.(org.) Tendências e desafios da educação especial. BRASIL, Secretaria de Educação Especial. Brasília: SEESP, 1994. P.4
[3] Programa de Acessibilidade na Educação Superior (Incluir) do governo federal que propõe ações que garantem o acesso pleno de pessoas com deficiência às instituições federais de ensino superior. Para maiores informações ver: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12257&Itemid=495

Como citar esse artigo [ISO 690/2010]:
Zanatta Cláudia 2010. RBTV #5: Cerâmica e inclusão: uma experiência de trabalho na Universidade Federal do RS (UFRGS) [online]. [visto em 19/ 11/ 2018]. Disponível em: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/ceramica-e-inclusao-uma-experiencia-de-trabalho-na-universidade-federal-do-rs-ufrgs/.
Revista Brasileira de Tradução Visual

Este artigo faz parte da edição de número volume: 5, nº 5 (2010).
Para conhecer a edição completa, acesse: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/rbtv-5-sumario.

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  • Possui graduação em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2000), graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1996) e mestrado em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2003). Atualmente é professora assistente no Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Cerâmica, atuando principalmente nos seguintes temas: arte, cerâmica, vídeo, inclusão e arte pública. Atualmente realiza doutorado em Espaço Público na UPV, Espanha, e tem desenvolvido pesquisas voltadas ao tema da inclusão e acessibilidadeView all posts by Cláudia Zanatta

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