Resumo Os Estudos Culturais (EC) surgem como um novo campo de discussão e debate no contexto do pós Segunda Guerra Mundial, trazendo à tona temas como etnia, raça, cultura, identidade, a fim de contribuir com a construção de uma sociedade menos discriminatória. Os EC surgem com o fim de ressignificar a identidade de grupos historicamente … Continue reading A autoadvocacia dentro do campo dos estudos culturais: um meio para o empoderamento de pessoas com deficiência
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A autoadvocacia dentro do campo dos estudos culturais: um meio para o empoderamento de pessoas com deficiência

Resumo

Os Estudos Culturais (EC) surgem como um novo campo de discussão e debate no contexto do pós Segunda Guerra Mundial, trazendo à tona temas como etnia, raça, cultura, identidade, a fim de contribuir com a construção de uma sociedade menos discriminatória. Os EC surgem com o fim de ressignificar a identidade de grupos historicamente marginalizados na sociedade e na escola (COSTA, 2003). Nesse mesmo contexto do pós-guerra, é proclamada pela ONU a Declaração de Direitos Humanos (1948) declarando a igualdade de todos perante a lei. A história ilumina, no entanto, que desde a sua proclamação, os direitos humanos não tem se efetivado de forma igual para grupos sociais. Pessoas que vivem em desvantagem econômica, mulheres, índios, negros, pessoas com deficiência, entre outros, lutam para conquistar a sua igualdade na sociedade (FERREIRA, 2006). As duas últimas décadas foram marcadas por movimentos sociais importantes de grupos subalternos, emergindo na década de 80 o primeiro movimento de autoadvocacia. Esse princípio ou conceito universal revela a possibilidade de qualquer indivíduo ser advogado de si mesmo, com o objetivo de tornar suas vozes audíveis e contribuir para o empoderamento de grupos vulneráveis. (MENDES, 2010). Para o movimento das pessoas com deficiência esse conceito é lançado em 1986, implicando no desenvolvimento desse grupo social como autônomos do controle de suas vidas e protagonistas na luta contra a discriminação. Tendo por base as referidas discussões, o objetivo deste estudo é discutir o conceito de autoadvocacia dentro da ótica dos estudos culturais e apontar como a relação existente entre esse movimento e o campo em discussão, pode contribuir para romper com a invisibilidade das pessoas com deficiência. Esta pesquisa caracteriza-se como bibliográfica, com aporte na literatura nacional e internacional, e está dividida em três partes. No primeiro momento, apresenta-se o surgimento dos Estudos Culturais e as inovações que ele traz para os conceitos de cultura, identidade e diferença. No segundo momento, apresenta-se o movimento de autoadvocacia. E por fim, mostra-se como o desenvolvimento deste conceito dentro dos Estudos Culturais pode contribuir para o empoderamento das pessoas com deficiência.

Palavras-chave: Estudos Culturais. Autoadvocacia. Pessoas com Deficiência.

ABSTRACT

The Cultural Studies (CE) emerged as a new field of discussion and debate during the post World War II, bring up issues such as ethnicity, race, culture, identity, in order to contribute to build a less discriminatory society. CEs appear in order to reframe the identity of historically marginalized groups in society and at school (Costa, 2003). In this same context of post-war was proclaimed the Declaration of Human Rights (1948). The history illuminates, however, that since the proclamation, human rights has not been effected equally to social groups. People who lives in economically disadvantaged, women, black people, people with disabilities, and others, struggle to gain their equality in society (Ferreira, 2006). The last two decades marked by important social movements of subaltern groups, emerging in the decade 80 the first movement of selfadvocacy. This universal principle or concept reveals the possibility of any individual being a lawyer himself, in order to make their voices audible and contribute to the empowerment of vulnerable groups. (Mendes, 2010). For the movement of disability people this concept begins in 1986, resulting in the development of this social group as autonomous control of their lives and protagonists in the fight against discrimination. Based on these discussions, the objective of this study is to discuss the concept of selfadvocacy within the perspective of cultural studies and show how the relationship between this movement and the Field of cultural studies, can help break the invisibility of people with disabilities. This research is characterized as literature, with input on national and international literature, and is divided into three parts. At first, presents the emergence of Cultural Studies and the innovations it brings to the concepts of culture, identity and difference. In the second instance, shows the movement of selfadvocacy. Finally, it is shown how this concept in the development of cultural studies can contribute to the empowerment of people with disabilities.

Keywords: Cultural Studies. Selfadvocacy. People with Disabilities.

1 – INTRODUÇÃO

Os Estudos Culturais (EC) surgem como um novo campo de discussão e debate no contexto do pós Segunda Guerra Mundial, trazendo à tona temas como etnia, raça, cultura, identidade, a fim de contribuir com a construção de uma sociedade menos discriminatória. Os EC emergem em meio às movimentações de certos grupos sociais que buscam repudiar aqueles que se interpõe, ao longo dos séculos, aos anseios por uma cultura pautada por oportunidades democráticas, com o fim de ressignificar a identidade de grupos historicamente marginalizados na sociedade e na escola (COSTA, 2003).

Nesse mesmo contexto do pós-guerra, é proclamada pela ONU a Declaração de Direitos Humanos (1948) declarando a igualdade de todos perante a lei. No entanto a história ilumina que desde a sua proclamação, os direitos humanos não tem se efetivado de maneira igualitária. O grupo social constituído pelas pessoas com deficiência tem permanecido imerso, ao longo dos séculos, em um contínuo processo de segregação, negação de direitos e exclusão social. A negação de seu direito de estudar, como qualquer outra criança, gera, conforme Ferreira (2004) afirma, invisibilidade das pessoas com deficiência nos espaços sociais e escolares e, consequentemente,

(…) uma forte descrença na capacidade cognitiva dessas pessoas, assim como há uma tendência para não considerá-las capazes de desenvolver atitudes e cidadania responsável, terem criatividade ou serem produtivas (p. 2).

Com o objetivo de romper com esse estigma de infantilização e incapacidade, principalmente no que se refere às tomadas de decisões acerca de suas vidas, necessidades e possibilidades, as duas últimas décadas foram marcadas por movimentos sociais importantes, organizados por pessoas com deficiência ou necessidades especiais (FIGUEIRA, 2008), que lentamente vem conquistando seus direitos e sua plena participação social.

Na década de 80 emerge o primeiro movimento de autoadvocacia, revelando a possibilidade de qualquer indivíduo ser advogado de si mesmo, a fim de tornar suas vozes audíveis e contribuir para o empoderamento de grupos vulneráveis (SOARES, 2010). Esse movimento direciona-se para proporcionar às pessoas com deficiência as ferramentas necessárias para que elas se tornem autores de sua própria história, podendo decidir a respeito de todos os aspectos de sua vida.

O movimento de autoadvocacia é de extrema importância para romper com a exclusão das pessoas com deficiência dos contextos escolar e social e reduzir as experiências de discriminação que sofrem baseadas em crenças incorretas sobre suas condições, contribuindo diretamente com o objetivo do campo dos Estudos Culturais, que é combater a exclusão e discriminação existentes nos diversos espaços da sociedade (DANTAS, 2009).

Dentro dessa perspectiva, o objetivo desta pesquisa bibliográfica é aprofundar o debate acerca da intrínseca relação existente entre o movimento de autoadvocacia e as temáticas que partem dos Estudos Culturais, demonstrando como o exercício da autoadvocacia na ótica dos EC pode romper com a invisibilidade de pessoas com deficiência, contribuindo para o seu empoderamento.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 Breve explanação acerca dos Estudos Culturais

No período do Pós-Segunda Guerra Mundial, em decorrência das grandes transformações trazidas pelo sistema capitalista, principalmente na intensificação das desigualdades no que se refere à etnia, raça, gerações, sexo, as preocupações com as questões culturais vieram à tona de forma contundente, provocando uma verdadeira reviravolta cultural (COSTA, 2003).

Os Estudos Culturais, como um novo campo de discussão e debate, surge em meio a essas transformações, caracterizando-se por considerar a cultura em sentido amplo, passando da reflexão centrada sobre o vínculo cultura-nação, para a abordagem da cultura dos grupos sociais (MATTELART, 2006). Assim, a cultura passou a ser vista como o lócus onde podem ser problematizadas e contestadas as distinções existentes na sociedade capitalista.

Dentro desse contexto, os Estudos Culturais, a partir de 1964 com o nascimento do Centre for Contemporary Cultural Studies, na Universidade de Birmingham, passam a se desenvolver e produzir uma grande massa de trabalhos. Esse novo campo passa a englobar objetos de estudo até então desprezados pelas ciências humanas e sociais, dentre eles as questões de gênero, de racismo, de deficientes, das comunidades imigrantes, etc.

Todas as expressões que os Estudos Culturais assumiram, faz com que seja difícil caracterizá-los como uma disciplina com limites bem delineados. Para Hall (2003), os Estudos Culturais não se constituem em um conjunto articulado de idéias e pensamentos, mas em um projeto político de oposição, onde as atividades culturais são analisadas para interrogar as funções que elas assumem perante a dominação social.

Os Estudos Culturais direcionam-se no sentido de questionar a ordem vigente e as tradições da cultura erudita que, ao longo dos séculos, vem contribuindo para segregar e marginalizar todos os “outros” que não se enquadram em seus contornos. Dessa forma, os Estudos Culturais apresenta-se como um terreno fértil para estudos e debates sobre a diversidade cultural e os contextos a ela relacionados: exclusão, preconceito e discriminação das minorias (SILVA, 2009).

Todas essas discussões dentro da esfera educacional têm sido muito importantes, pois, permite entender de maneira diferente, mais ampla, a própria educação e os sujeitos que ela envolve. Nesse sentido:

Os Estudos Culturais em Educação constituem uma ressignificação e/ou uma forma de abordagem do campo pedagógico em que questões como cultura, identidade, discurso e representação passam a ocupar, de forma articulada, o primeiro plano da cena pedagógica (COSTA, 2003).

Ao trazer para o plano pedagógico a discussão de temas que se encontram atrelados a relações de poder, os Estudos Culturais têm contribuído para a construção de uma sociedade e uma escola menos discriminatória, onde as diferenças precisam ser reconhecidas, bem como a pluralidade de

manifestações intelectuais, sociais e afetivas (MANTOAN, 2006).

Para problematizar o conceito de cultura, os Estudos Culturais partem do fundamento de que as sociedades modernas distinguem-se das sociedades tradicionais, caracterizando-se por um processo sem-fim de rupturas e fragmentações, sendo marcadas pela diferença (SILVA, 2000). Dentro dessas sociedades de mudanças rápidas, constantes e permanentes, a identidade não é concebida como algo único, fixo, imutável, mas como “pontos temporários de ligação” (HALL, 1998, p.6), onde

somos diariamente confrontados com uma multiplicidade desconcertante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente (HALL, 1998, p. 15).

Vivemos em uma era onde não há mais espaço para sujeitos com identidades plenamente unificadas e apartadas do grupo social em que estão inseridos. Como argumenta Laclau (1990), o simples fato de estarmos vivos faz de nós sujeitos com identidades abertas, inacabadas, cujo fechamento se dá apenas na morte.

Dessa forma, os Estudos Culturais trazem uma importante contribuição para a construção de uma nova identidade social para as pessoas com deficiência, onde a identidade destas não se resume a condição de deficiência que possuem, mas envolve uma multiplicidade de aspectos e características que compõem a singularidade de quem são. Na ótica dos Estudos Culturais, as pessoas com deficiência não são vistas pela perspectiva de sua limitação, mas como um ser humano repleto de sentimentos, emoções, habilidades, que podem ter voz para expressar os seus desejos e pensamentos.

Outra grande contribuição dos Estudos Culturais para a visibilidade das pessoas com deficiência são as idéias que esse campo traz em relação à diferença e diversidade. Em uma sociedade que busca a inclusão, é preciso ter cuidado ao adotar uma postura de aceitação condescendente, pois de forma naturalizada, passa-se a reproduzir o preconceito. Antes de simplesmente “tolerar” ou “incluir”, é preciso problematizar a sociedade em que estamos inseridos, entendendo a cultura de homogeneidade que é imposta aos indivíduos através de estereótipos, para melhor classificá-los (CROCHIK, 1995). Nas palavras de Duschatzky e Skliar (2001):

A Modernidade inventou e se serviu de uma lógica binária, a partir da qual denominou de diferentes modos o componente negativo da relação cultural: marginal, indigente, louco, deficiente, drogadinho, homossexual, estrangeiro etc. Essas oposições binárias sugerem sempre o privilégio do primeiro termo e o outro, secundário nessa dependência hierárquica, não existe fora do primeiro mas dentro dele, como imagem velada, como sua inversão negativa (p.123)

Tais oposições, que se relacionam com a classificação simbólica da diferença, produzem e mantém a ordem social, pois sempre um dos termos vai ser privilegiado, recebendo um valor positivo, enquanto o outro recebe uma carga negativa, estando vinculados a relações de poder (DANTAS, 2009). Assim, é preciso questionar o padrão de normalidade, com base no qual a sociedade moderna distingue os “normais” dos “anormais”, a fim de não naturalizar, como afirma Veiga Neto (2001), essa diferenciação legitimando como norma certa.

A diversidade, que se encontra diretamente relacionada com a construção social, histórica e cultural das diferenças, constitui-se pela pluralidade incorporada pelas transformações da sociedade em mutação (HALL, 2006). No entanto, mais do que se preocupar em como caracterizar melhor o termo diversidade e quem o compõe, Skliar (2006) esclarece que o mais importante é compreender como as diferenças nos constituem como humanos e como somos feitos de diferenças.

Com base nessas discussões trazidas pelos Estudos Culturais é possível questionar o estigma incapacitante colocado sobre as pessoas com deficiência e compreender que as suas diferenças não devem ser motivo para exclusão. É dentro dessa ótica que surge o movimento de autoadvocacia, trazendo uma nova perspectiva de vida para esse grupo social, onde eles possuam plena participação social, autonomia para falar por eles mesmos e voz para lutar pelos seus direitos.

2.2 O movimento de autoadvocacia e sua inserção nos Estudos Culturais

Conforme mencionado no item anterior, ao longo dos séculos as pessoas com deficiência foram alijadas do direito de escolher e direcionar sua própria vida, sendo confinadas em instituições de caridade e assistencialismo (NEVES, 2000). O direito à educação foi-lhes negado durante muito tempo e, mesmo quando inseridos no ambiente escolar, este, concebido como um espaço de relações sociais, “parece reforçar ainda mais a ordem, a regularidade do comportamento padrão não considerando as diferenças e singularidades dos indivíduos” (SHIMONO, 2008, p. 15).

Todos esses mecanismos de coação e segregação a que foram submetidos esses sujeitos, até mesmo dentro da escola, trouxeram conseqüências na formação de sua identidade, no processo de socialização, nas relações de afetividade com o meio (SHIMONO, 2008). A fim de romper com essa condição de marginalidade, nos últimos anos, as pessoas com deficiência tem se organizado para conquistarem sua visibilidade na sociedade. É dentro desse contexto que floresce o movimento de autoadvocacia, apresentando-se como “uma possibilidade de subverter esse quadro histórico social de exclusão” (SOARES, 2010, p.14).

Esse movimento surge embasado em iniciativas que lutam pela garantia dos direitos humanos para grupos minoritários que, a despeito da Declaração da ONU de 1948, ainda sofrem discriminações e não desfrutam de condições igualitárias na sociedade. Assim, “são iguais que se unem para defender interesses comuns e estabelecer políticas de atendimento de cunho coletivo” (NEVES, 2000, p. 118), em uma luta pela cidadania plena e por melhores condições de vida.

A insatisfação diante da crença de que as pessoas com deficiência são incapazes e impedidas de opinar, decidir, liderar, deu impulso para o desenvolvimento da autoadvocacia. Esse movimento tem seus primeiros alicerces na Suécia, durante os anos 60, quando pessoas com deficiência intelectual começaram a organizar e gerenciar seus próprios grupos de lazer.

Em pouco tempo, esse incipiente movimento de resgate da auto-confiança e auto-estima das pessoas com deficiência, se expandiu e alcançou a Grã-Betanha e o Canadá (NEVES, 2005), onde houve a formação do primeiro grupo de autoadvogados, ao qual deram o nome de People First. A tradução desse termo para o português traz a idéia de “pessoas em primeiro lugar” significando que a pessoa, com todas as suas peculiaridades e características, existe antes da sua deficiência. Nesse sentido, os Estudos Culturais traz grandes contribuições para esse movimento ao proporcionar a discussão das identidades pós-modernas como algo complexo, diariamente mutável e que, portanto, não se limitam a uma única condição ou deficiência.

Na época em que o movimento de autoadvocacia surgiu, a confinação das pessoas com deficiência em instituições de caridades era muito forte, o que tornava esse grupo social invisível na malha social e sem oportunidades de participação efetiva. O movimento do People First iniciou então, uma acirrada luta em prol da retirada das pessoas com deficiência dessa patente de custódia e assistencialismo, a fim de inseri-las na sociedade de forma plena. A partir desse momento, houve o florescimento de ações, conferências, convenções, que permitiram o surgimento de líderes de dentro do próprio movimento, fato esse que fortaleceu muito a visibilidade das pessoas com deficiência enquanto porta-vozes de seus direitos. O movimento adquiriu uma dimensão internacional e possui hoje grupos de autoadvogados espalhados por vários países como Grã Bretanha, Austrália, México, Colômbia, Canadá, Nova Zelândia, etc (NEVES, 2005).

No Brasil, especificamente, o conceito de autoadvocacia foi lançado em 1986, durante o IX Congresso Mundial da Liga Internacional de Associações para Pessoas com Deficiência Mental, realizada no Rio de Janeiro sob o comando da Federação Nacional das APAES. Esse congresso foi o passo inicial para o desenvolvimento da autoadvocacia no nosso país, e desde então, esse movimento vem paulatinamente se difundindo, mas ainda é pouco conhecido e incentivado (GLAT, 2004). Disto resulta a importância de pesquisas que oportunizem a expansão e o conhecimento do mesmo.

Organizado e dirigido por e para pessoas com deficiência, a autoadvocacia norteia-se pelo princípio básico que o próprio indivíduo, tenha ele a deficiência que tiver, tem o direito e o dever de participar de decisões sobre a sua pessoa (NEVES, 2005). Nesse sentido, a autoadvocacia configura-se como:

A ação ou o discurso de uma pessoa sobre seu próprio comportamento sem a intervenção de outras pessoas. É a extensão natural do processo de empoderamento e se espelha na experiência de outros grupos na sociedade que tem buscado substituir a intervenção de outros pela sua própria ação. (GARNER; SANDOW, 1995, p. 2).

 Esse movimento surge fundamentado no paradigma do empoderamento, tornando-se uma extensão deste, pois a autoadvocacia representa uma ferramenta para romper com o assujeitamento de grupos sociais marginalizados, oportunizando as pessoas com deficiência o sentimento de pertencimento, de reconhecimento dos seus direitos e de sua capacidade de lutar de forma pró-ativa (SOARES, 2010).

A autoadvocacia configura-se como um termo multifacetado, podendo ser ao mesmo tempo uma filosofia, um movimento político ou um programa de suporte psicoeducacional (GLAT, 2004). Nas palavras de Corrigan (2008, p.17), a autoadvocacia é definida como “um princípio ou conceito universal que se aplica a toda a gente”. Assim, a autoadvocacia se apresenta como um conceito inovador que orienta movimentos sociais de grupos desempoderados (SOARES, 2010) trazendo uma nova perspectiva de vida para esses grupos.

Assim como os Estudos Culturais, que luta contra a marginalização e discriminação de grupos sociais distintos, o movimento de autoadvocacia objetiva quebrar as barreiras do preconceito e da exclusão em relação às pessoas com deficiência. Essas barreiras atitudinais apresentam-se muito mais complexas do que as barreiras físicas, já que dependem de mudanças culturais e do desenvolvimento de novos valores nas relações que permeiam a sociedade e as pessoas com deficiência (SHIMONO, 2008, p.16). O exercício da autoadvocacia na vida de jovens com deficiência apresenta-se como uma importante ferramenta para romper com a visão científica e clínica que se tem acerca da pessoa com deficiência como alguém que “não tem controle sobre seu próprio comportamento, sem condições de agir independentemente no dia a dia” (GLAT, 2004, p. 2).

A adoção pelo movimento do lema ‘nada sobre nós sem nós’, da Convenção dos Direitos da Pessoa com Deficiência (ONU, 2008), expressa que ninguém sabe mais sobre as pessoas com deficiência do que elas próprias, e nesse sentido, “a participação nas decisões passa a representar os anseios das pessoas com deficiência, que almejam independência e autodeterminação para viver em sociedade” (SHIMONO, ano, p. 27).

Para alcançar os objetivos a que se propõe, o movimento de autoadvocacia está alicerçado em quatro diretrizes fundamentais, que englobam tanto o aspecto político quanto o educacional (no sentido mais amplo). São elas (GLAT e FELLOWS, 1999 in GLAT 2004):

  • Eliminação de rótulos: a pessoa é considerada em primeiro lugar e não a deficiência, pois o rótulo de deficiente tem um efeito muito limitador e discriminador na vida dessas pessoas.
  • Identidade própria: paralelo ao objetivo de eliminação de rótulos, uma das metas do movimento é proporcionar as pessoas com deficiência a afirmação de suas identidades, como indivíduos únicos e singulares.
  • Autonomia e participação: um dos grandes objetivos, talvez o maior, da autoadvocacia é proporcionar aos jovens com deficiência independência e autonomia nas decisões que afetam as suas vidas. O princípio que norteia essa diretriz é o pressuposto que todos, enquanto cidadãos, possuem o direito de fazer suas escolhas e arcar com os erros e conseqüências advindas delas.
  • Defesa de seus próprios direitos: um dos pilares da autoadvocacia, como o próprio nome expressa, é desenvolver nos jovens com deficiência a habilidade para serem porta-vozes de seus direitos, sem necessitarem de pais ou tutores para falar em nome deles.

Todas essas diretrizes que fundamentam o movimento de autoadvocacia direcionam-se no sentido de desconstruir o estigma colocado pela família e pela sociedade sobre as pessoas com deficiência. A respeito dessa discussão, Goffman (1988) demonstra como categorizamos o estranho à nossa frente, imputando-o atributos a priori, deixando de se relacionar com o sujeito real. Nesse sentido, a autoadvocacia possui o condão de desmistificar o pré-julgamento que há sobre as pessoas com deficiência, principalmente quanto à incapacidade de tomar decisões e ter o controle de suas vidas.

Para eliminar esses rótulos e assim possibilitar participação efetiva, o movimento de autoadvocacia dentro do campo dos Estudos Culturais, concebe a identidade não como um núcleo essencial, mas como um contingente, apresentada como um produto da intersecção de diferentes componentes, de discursos políticos e culturais, de histórias particulares (Woodward, 2000) e características únicas. Na ótica dos Estudos Culturais,

a deficiência deixa de ser uma categoria fechada em si mesma e, assim, a pessoa deficiente passa a ser um sujeito histórico, ocupa um lugar social, num tempo marcado (CAIADO, 2003, p. 188)

Dessa forma, a autoadvocacia está presente na vida de pessoas que conseguem romper com a condição de invisibilidade e assumem o seu papel de cidadãos, vivendo de maneira digna como qualquer outro indivíduo. Importante destacar que qualquer sujeito, independente do grau de deficiência e comprometimento que possua, pode tornar-se um autoadvogado, pois a autonomia se manifesta de maneira singular em cada indivíduo. Assim como esclarece Glat (2004), quando para uns a autoadvocacia pode representar o engajamento em um movimento em prol da defesa dos direitos das pessoas com deficiência, para outros pode representar – porém não menos importante – aprender a expressar os seus sentimentos e vontades perante os membros da família, escolher o que vai vestir, etc.

Nesse sentido, o movimento de autoadvocacia também se insere na perspectiva dos Estudos Culturais, pois, objetiva problematizar as diferenças e lutar contra o discurso da homogeneidade. Duschatsky e Skiliar (2001) alertam sobre a tolerância às diferenças, pois esta pode ser traduzida como sinônimo de aceitação, não permitindo que o outro se constitua como sujeito político. Assim, tanto o movimento de autoadvocacia quanto os Estudos Culturais buscam não se adequar a essa falsa tolerância que mascara as desigualdades, mas celebrar as diferenças e as identidades ‘flutuantes’, como afirma Hall (2003), que caracterizam a sociedade pós-moderna em que estamos inseridos.

Considerações Finais

            O século XXI marca o início de uma era em defesa de grupos sociais historicamente vulneráveis, colocados à margem da sociedade e impedidos de exercerem muitos dos seus direitos humanos fundamentais. A despeito da Declaração de Direitos Humanos da ONU ter sido publicada desde a década de 40, pessoas de origens e com diferentes condições não desfrutam do princípio da igualdade e da dignidade humana da mesma maneira que os demais cidadãos.

Nesse mesmo contexto em que foi publicada a referida Declaração, período em que o mundo passava por grandes transformações devido a Segunda Guerra Mundial, nasce o campo dos Estudos Culturais, constituindo-se um terreno fértil para discussão e debate sobre a teoria cultural, bem como os temas que se relacionam a ela como exclusão, preconceito, discriminação das minorias, subalternidade, etc. Apesar de não possuírem as delimitações de uma disciplina comum, todas as discussões que perpassam os Estudos Culturais permeiam a problematização dos fatores que perpetuam a marginalização de membros de raças e etnias distintas, de pessoas pertencentes a grupos populares, classes em situação de desvantagem econômica e inúmeros outros (COSTA, 2003).

Dentre estes grupos sociais marginalizados, encontram-se as pessoas com deficiência que foram, ao longo dos séculos, privadas de ocuparem diversos espaços sociais e escolares, bem como impedidas de exercerem sua cidadania de maneira plena.

Nesse panorama histórico de exclusão, surgem muitos movimentos e iniciativas que objetivam lutar por melhores condições de vida para essas pessoas. Neste estudo, destacamos o movimento da autoadvocacia que surgiu na década de 60 e configura-se como uma ferramenta para possibilitar a participação plena das pessoas com deficiência na sociedade e, principalmente, no controle de suas vidas.

No decorrer do texto, situamos os Estudos Culturais, conceituamos o movimento de autoadvocacia e demonstramos a intrínseca relação existente entre este movimento e o campo dos Estudos Culturais para o empoderamento de pessoas com deficiência. Ao problematizar os conceitos de cultura, identidade, diferença, diversidade, os Estudos Culturais trazem grandes contribuições para que se possa compreender a pessoa com deficiência além de sua limitação e vê-la como um sujeito com uma identidade própria. Na ótica deste campo é possível compreender as diferenças como algo que nos completa enquanto seres humanos e não como algo que nos inferioriza. Assim, tais diferenças devem constituir motivo para celebração e não para preconceito, estigmas, exclusão.

O movimento de autoadvocacia insere-se nessa perspectiva dos Estudos Culturais, uma vez que constitui uma ferramenta para a visibilidade e empoderamento de grupos sociais marginalizados. Este movimento viabiliza a desconstrução do mito de incapacidade propagado há tanto tempo no imaginário social em relação às pessoas com deficiência, que faz delas pessoas infantilizadas e impedidas de opinar, decidir, se posicionar. Ao possibilitar que as pessoas com deficiência tornem-se porta-vozes de seus direitos e das escolhas concernentes às suas vidas, a autoadvocacia constrói uma nova identidade e um novo olhar da sociedade em relação a esse grupo social.

Portanto, concluímos este estudo afirmando que o movimento de autoadvocacia na ótica dos Estudos Culturais, ambos objetivando lutar contra a discriminação e o preconceito existente nos diversos espaços sociais, constitui um esplêndido caminho para romper com a invisibilidade e proporcionar o empoderamento de pessoas com deficiência.

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Como citar esse artigo [ISO 690/2010]:
Dantas Taísa Caldas 2011. A autoadvocacia dentro do campo dos estudos culturais: um meio para o empoderamento de pessoas com deficiência [online]. [visto em 17/ 06/ 2019]. Disponível em: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/a-autoadvocacia-dentro-do-campo-dos-estudos-culturais-um-meio-para-o-empoderamento-de-pessoas-com-deficiencia/.
Revista Brasileira de Tradução Visual

Este artigo faz parte da edição de número volume: 7, nº 7 (2011).
Para conhecer a edição completa, acesse: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/rbtv-7-sumario.

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