RBTV #3: O direito das crianças com deficiência visual à áudio-descrição

Escrito por Francisco José de Lima e Rosângela A. F. Lima

Resumo

Este artigo apresenta, em primeiro momento, robusta sustentação jurídica para o direito de as pessoas com deficiência visual ter acesso à áudio-descrição, defendendo que a não provisão desse recurso assistivo constitui, tanto negligência para com a educação da criança com deficiência visual, quanto discriminação por razão de deficiência. De um lado, esteia essa defesa em documentos internacionais de defesa das crianças, os quais as salvaguardam de maus tratos, da discriminação e da afronta à sua dignidade de criança e pessoa humana. De outro, sustenta o direito à áudio-descrição, na Constituição Brasileira, a qual define a educação como direito indisponível e garante esse direito a todas as crianças, com igualdade de condições, independentemente de suas características fenotípicas, sociais ou genéticas. Em um segundo momento, este artigo sustenta a defesa pela oferta da áudio-descrição, devido aos benefícios que este recurso assistivo pode trazer para a inclusão cultural e educacional da pessoa com deficiência visual, uma vez que, enquanto técnica de tradução visual, ela permite o acesso às imagens, por intermédio das palavras a serem ouvidas, lidas e/ou faladas, natural ou eletronicamente. Trata, também, de como as visões tradicionalistas sobre a capacidade de a pessoa cega fazer uso das imagens, produzindo-as e/ou as compreendendo, têm levado à negação de direitos, ao prejuízo educacional, e em última instância ao preconceito para com as pessoas cegas. Conclui, fazendo a assertiva de que não se trata de perguntar quando se vai oferecer a áudio-descrição, mas de se buscar as condições para melhor formar os áudio-descritores; melhor prover o serviço de áudio-descrição e melhor aparelhar o público alvo para a recepção desse serviço, começando com a criança pequena, lá na escolinha, até o adulto na universidade ou em outro locus social.

Palavras-chaves: áudio-descrição, direito inclusivo, criança com deficiência visual


Abstract

This article presents robust arguments for the provision of audio description for children with vision disability in Brazil. It supports its point of view on national and international laws and conventions that protect children from all forms of harm and discrimination. Audio description is considered an assistive technology capable of given children access to education, culture and leisure by providing visual information of things and events that originally were not available to blind people. It concludes that it is necessary to invest on training audio describers, improve audio description services and educate blind people about receiving and profiting from audio description accessibility.

Keywords: audio description, people with visual disability, accessibility, attitudinal barriers.

RBTV #3: Leitura comentada da carta sobre os cegos

Escrito por Isabel Pitta Ribeiro Machado (pccinemaempalavras@gmail.com). Trabalho originalmente apresentado em comunicação no COLE- Congresso de Leitura do Brasil- Unicamp, julho de 2005.

Resumo

O presente trabalho se funda na intenção de promover uma discursão crítica da leitura, não só oferecendo uma proposta de debate sobre o conteúdo da Carta sobre os cegos, escrita pelo filósofo iluminista Denis Diderot, mas principalmente, oferecendo um debate sobre a acessibilidade de pessoas com deficiência visual a textos de qualidade que os auxiliem na construção de princípios filosóficos e noções de cidadania.

Palavras-chave: filosofia; pessoa com deficiência; literatura; áudio-descrição; audiodescrição.

RBTV #3: Ergonomia e inclusão laboral de pessoas com deficiência

Resumo

O objetivo deste artigo é apresentar a revisão realizada sobre os elementos da Ergonomia que auxiliam a adaptação dos postos de trabalho às pessoas com deficiência (PD). Aborda-se algumas questões: contribuição da ergonomia no processo de inclusão laboral, influência da análise da tarefa/atividade e a avaliação das capacidades funcionais do trabalhador com deficiência. Também são apresentados e discutidos três métodos e técnicas específicas de adaptação de postos de trabalho à PD encontrados na literatura. Assim, observa-se que a ergonomia é uma ferramenta essencial para o processo de adaptação de postos de trabalho à pessoa com deficiência, na medida em que adapta para facilitar o uso com segurança e conforto para o usuário.

Palavras-chave: ergonomia, postos de trabalho, pessoa com deficiência.


Abstract

The aim of this paper is to present the review undertaken of the elements of ergonomics that help the adjustment of employment to persons with disabilities. It addresses a few issues: the contribution of ergonomics in the process of inclusion of labor, influence the analysis of the task / activity and the evaluation of the functional capabilities of the disabled worker. Are also presented and discussed three specific methods and techniques to adapt workplace to the people with disabilities in literature. Thus, it appears that ergonomics is an essential tool for the adaptation of workplace to people with disabilities, as it adapts to facilitate use with safety and comfort for the user.

Keywords: ergonomics, workplaces, people with disabilities

RBTV #2: Editorial: Revista Brasileira de Tradução Visual: Acesso à informação e à comunicação no mundo virtual para todas as pessoas

Romeu Kazumi Sassaki [2]

Incontestável o valor da Revista Brasileira de Tradução Visual (RBTV), recentemente tornada uma realidade em nosso país, graças ao longo e persistente empenho envidado pelo professor Francisco José de Lima, coordenador do Centro de Estudos Inclusivos (CEI), da Universidade Federal de Pernambuco.

O valor da RBTV se deve a, pelo menos, três fatores: a demanda dos potenciais usuários, o imperativo da legislação nacional e a pressão das normas internacionais. Antes de descrever estes fatores, proponho que relembremos, no próximo parágrafo, do que se trata a RBTV segundo a proposta do próprio prof. Lima.

A RBTV é uma publicação eletrônica, dotada de acessibilidade comunicacional, gratuita, aberta a todas as pessoas (com ou sem deficiência) interessadas em conhecer, divulgar ou relatar experiência sobre estudos imagéticos em diversos campos, tais como: cinema, televisão, teatro, museus e outras mídias em que imagem e som sejam possíveis. A RBTV terá fotodescrição, audiodescrição, legendagem, closed captioning, desenhos em relevo, fotografia, pintura, escultura etc. A RBTV faz parte de um projeto maior (Associados da Inclusão), que trabalhará pelo empoderamento da pessoa com deficiência e que está descrito no site www.associadosdainclusao.com.br.

Demanda dos potenciais usuários

Durante séculos, a existência de pessoas com deficiência foi ignorada, desconhecida ou desconsiderada sempre que fontes como as autoridades constituídas e/ou os setores da sociedade civil: (1) aprovavam leis aplicáveis supostamente a toda a população, (2) construíam ambientes destinados supostamente a toda a população, (3) formulavam políticas públicas que beneficiariam supostamente toda a população, (4) instalavam programas e serviços utilizáveis supostamente por toda a população.

Nesses vários cenários, destaco, em função da RBTV, apenas um eixo transversal: a comunicação bilateral entre fonte e usuário. Portanto, para as fontes acima, as pessoas com deficiência não eram consideradas usuárias, nem mesmo potencialmente. A comunicação entre fonte e usuário estava bloqueada inadvertidamente ou até deliberadamente.

Entretanto, as pessoas com deficiência demandaram a acessibilidade comunicacional a partir de 1980, em termos mundiais e de início timidamente. No decorrer dos últimos 30 anos, essa demanda cresceu e se organizou, tornando-se um poder de pressão junto às autoridades constituídas e à sociedade civil com o objetivo de exigir plena acessibilidade comunicacional em todos os ambientes abertos supostamente a toda a população.

As pessoas com deficiência passaram não só a exigir essa acessibilidade, como também a oferecer conhecimentos e informações sobre os modos pelos quais o acesso comunicacional deveria e deve acontecer. Nesse período de três décadas, surgiu e se desenvolveu o lema “Nada sobre nós, sem nós”. Ele significa que nada (lei, política pública, benefício, programa, serviço, ambiente físico, transporte, tecnologia etc.) a respeito de pessoas com deficiência deverá ser feito sem a participação das próprias pessoas com deficiência em todo o processo de feitura: formulação, discussão, definição, aprovação, implementação, monitoramento, avaliação e reformulação.

A RBTV é o resultado natural da demanda destes potenciais usuários. Em processo simbiótico, a revista beneficiará diretamente as pessoas com deficiência e, indiretamente, as pessoas sem deficiência.

Imperativo da legislação nacional

A legislação brasileira constitui outro fator desencadeante para a criação da RBTV. Devemos cumpri-la. No que se refere à acessibilidade comunicacional, nossas leis garantem as seguintes medidas, em resumo:

Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), instituído pela Lei n. 9.998, de 17/8/2000, e regulamentado pelo Decreto n. 3.624, de 5/10/2000. Cabe ao Ministério das Comunicações aplicar os recursos do Fust, por exemplo, (a) Na implantação de acessos individuais para prestação do serviço telefônico, em condições favorecidas, a estabelecimentos de ensino, bibliotecas e instituições de saúde; (b) Na implantação de acessos para utilização de serviços de redes digitais de informação, destinadas ao acesso público, inclusive da internet, em condições favorecidas, a estabelecimentos de ensino e bibliotecas, incluindo os equipamentos terminais para operação pelos usuários; (c) Na instalação de redes de alta velocidade, destinadas ao intercâmbio de sinais e à implantação de serviços de teleconferência entre estabelecimentos de ensino e bibliotecas; (d) No fornecimento de acessos individuais e equipamentos de interface a instituições de assistência a deficientes; (e) No fornecimento de acessos individuais e equipamentos de interface a deficientes carentes.

Critérios e normas de acessibilidade, instituídos pela Lei n. 10.098, de 19/12/2000. A acessibilidade é aqui entendida como “a supressão de barreiras e obstáculos nas vias e espaços públicos, no mobiliário urbano, na construção e reforma de edifícios e nos meios de transporte e de comunicação”. O poder público: (a) Promoverá a eliminação de barreiras na comunicação e estabelecerá mecanismos e alternativas técnicas que tornem acessíveis os sistemas de comunicação e sinalização às pessoas com deficiência visual, auditiva e com dificuldade de comunicação, para garantir-lhes o direito de acesso à informação, à comunicação, ao trabalho, à educação, ao transporte, à cultura, ao esporte e ao lazer; (b) Implementará a formação de profissionais intérpretes de escrita em braile, língua de sinais e de guias-intérpretes, para facilitar qualquer tipo de comunicação direta à pessoa com deficiência visual, auditiva e com dificuldade de comunicação. Os serviços de radiodifusão sonora e de sons e imagens adotarão plano de medidas técnicas com o objetivo de permitir o uso da língua de sinais ou outra subtitulação, para garantir o direito de acesso à informação às pessoas com deficiência auditiva.

Política Nacional do Livro, instituída pela Lei n. 10.753, de 30/10/2003. São diretrizes pela política, entre outras: assegurar ao cidadão o pleno exercício do direito de acesso e uso do livro; assegurar às pessoas com deficiência visual o acesso à leitura. São considerados livros, entre outros: livros em meio digital, magnético e ótico, para uso exclusivo de pessoas com deficiência visual e livros impressos no sistema braile. Cabe ao Poder Executivo implementar programas anuais para manutenção e atualização do acervo de bibliotecas públicas, universitárias e escolares, incluídas obras em sistema braile.

Acesso da criança com deficiência à informação, assegurado no Artigo 23, da Convenção sobre os Direitos da Criança, que foi promulgada pelo Decreto n. 99.710, de 21/11/1990. Assim, o Brasil assumiu o dever de promover, com espírito de cooperação internacional, um intercâmbio adequado de informações nos campos da assistência médica preventiva e do tratamento médico, psicológico e funcional das crianças com deficiência, inclusive a divulgação de informações a respeito dos métodos de reabilitação e dos serviços de ensino e formação profissional, bem como o acesso a essa informação, a fim de que o nosso país possa aprimorar sua capacidade e seus conhecimentos e ampliar sua experiência nesses campos.

Política Nacional para a Integração da Pessoa com Deficiência, disposta pela Lei n. 7.853, de 24/10/1989, tendo esta lei sido regulamentada pelo Decreto n. 3.298, de 20/12/1999. Cabe aos órgãos e às entidades do poder público (1) Assegurar à pessoa com deficiência o pleno exercício de seus direitos básicos (por ex., educação, cultura); (2) Garantir o efetivo atendimento das necessidades (por ex., comunicacionais) de pessoa com deficiência, sem o cunho assistencialista; e (3) Viabilizar as seguintes medidas: (a) Promover o acesso da pessoa com deficiência aos meios de comunicação social; (b) Apoiar e promover a publicação e o uso de guias de turismo com informação adequada à pessoa com deficiência; (c) Incentivar a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico em todas as áreas do conhecimento relacionadas com a pessoa com deficiência. São objetivos desta Política Nacional, entre outros, o acesso, o ingresso e a permanência da pessoa com deficiência em todos os serviços oferecidos à comunidade.

 

Combate à discriminação, compromisso adotado pelos signatários da Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas com Deficiência, promulgada pelo Decreto n. 3.956, de 8/1/2001. Assim, o Brasil se comprometeu a tomar medidas de caráter legislativo, social, educacional, trabalhista ou de qualquer outra natureza, para, entre outras ações, (a) Eliminar progressivamente a discriminação e os obstáculos de comunicação; (b) Colaborar para o desenvolvimento de meios e recursos destinados a facilitar ou promover a vida independente, a auto-suficiência e a integração total, em condições de igualdade, à sociedade das pessoas com deficiência; (c) Criar canais de comunicação eficazes que permitam difundir entre as organizações públicas e privadas que trabalham com pessoa com deficiência os avanços normativos e jurídicos ocorridos para a eliminação da discriminação contra as pessoas com deficiência.

 

Sistemas e meios de informação e comunicação, utilizados, com segurança e autonomia, total ou assistida, por pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, assegurados pelo Decreto n. 5.296, de 2/12/2004. Tornou-se obrigatória, 12 meses após a publicação deste Decreto, a acessibilidade nos portais e sítios eletrônicos da administração pública na rede mundial de computadores (internet), para o uso das pessoas com deficiência visual, garantindo-lhes o pleno acesso às informações disponíveis. Os telecentros comunitários instalados ou custeados pelos Governos federal, estadual, municipal ou do Distrito Federal devem possuir instalações plenamente acessíveis e, pelo menos, um computador com sistema de som instalado, para uso preferencial por pessoas com deficiência visual. Caberá ao poder público incentivar a oferta de aparelhos de telefonia celular que indiquem, de forma sonora, todas as operações e funções neles disponíveis no visor, bem como de aparelhos de televisão equipados com recursos tecnológicos que permitam sua utilização de modo a garantir o direito de acesso à informação às pessoas com deficiência auditiva ou visual. Nesses recursos, incluem-se: (a) o circuito de decodificação de legenda oculta; (b) o recurso para Programa Secundário de Áudio (SAP); (c) as entradas para fones de ouvido com ou sem fio. Estes recursos deverão ser obrigatoriamente contemplados pelo projeto de desenvolvimento e implementação da televisão digital. Cabe ainda ao poder público: (1) Adotar mecanismos de incentivo para tornar disponíveis em meio magnético, em formato de texto, as obras publicadas no Brasil [a indústria de medicamentos deve disponibilizar exemplares de bulas dos medicamentos em meio magnético, braile ou em fonte ampliada e os fabricantes de equipamentos eletroeletrônicos e mecânicos de uso doméstico devem disponibilizar exemplares dos manuais de instrução em meio magnético, braile ou em fonte ampliada]; (2) Apoiar preferencialmente os congressos, seminários, oficinas e demais eventos científico-culturais que ofereçam apoios humanos às pessoas com deficiência auditiva e visual, tais como tradutores e intérpretes da Língua de sinais brasileira (Libras), ledores, guias-intérpretes, ou tecnologias de informação e comunicação, tais como a transcrição eletrônica simultânea. A Anatel, através do Decreto n. 5.645, de 28/12/05, regulamentou a utilização, entre outros, dos seguintes sistemas de reprodução das mensagens veiculadas para as pessoas com deficiência auditiva ou visual: (a) subtitulação por meio de legenda oculta; (b) janela com intérprete da Libras; e (c) descrição e narração em voz de cenas e imagens.

 

Requisitos de acessibilidade no ensino superior, dispostos pela Portaria n. 3.284, de 7/11/2003. Para fins de autorização e reconhecimento e de credenciamento de instituições de ensino superior, bem como para renovação, o Ministério da Educação determina os seguintes requisitos de acessibilidade, entre outros: (1) Em relação a alunos com deficiência visual, a instituição interessada deve manter sala de apoio equipada com máquina de datilografia braile, impressora braile acoplada ao computador, sistema de síntese de voz, gravador e fotocopiadora que amplie textos, software de ampliação de tela, equipamento para ampliação de textos para atendimento a alunos com baixa visão, lupas, réguas de leitura, scanner acoplado a computador. (2) Em relação a alunos com deficiência auditiva, a instituição deve propiciar intérprete de língua de sinais/língua portuguesa, especialmente quando da realização e revisão de provas, complementando a avaliação expressa em texto escrito ou quando este não tenha expressado o real conhecimento do aluno.

 

Pressão das normas internacionais

 

Antes do advento da internet, a pressão internacional – para que cada país implementasse os tratados de direitos referentes a pessoas com deficiência – tinha pouca força de influência, embora conhecida e apoiada no interior dos meios especializados. Já com a globalização nas comunicações virtuais, essa pressão se tornou ágil, instantânea, abrangente, enfim poderosa.

Uma das inúmeras bandeiras defendidas pelo segmento das pessoas com deficiência é a da acessibilidade comunicacional, seja ela digital, em pessoa, por escrito, por telefonia ou qualquer outro meio. A RBTV é também uma resposta à pressão internacional por uma comunicação totalmente acessível de, para e sobre pessoas com deficiência em toda a sua diversidade.

Mas a mobilização mundial pela acessibilidade comunicacional remonta aos primórdios da luta pelos direitos protagonizada por pessoas com deficiência, pois o direito à informação e à comunicação acessíveis fazia parte do conjunto de direitos. A mobilização, portanto, teve a seguinte trajetória histórica:

Ao longo dos 12 meses de 1981, foi realizada uma enorme quantidade de ações em comemoração ao Ano Internacional das Pessoas Deficientes (AIPD), instituído em 16/12/1976 (Resolução 31/123) pela Organização das Nações Unidas (ONU). O lema do AIPD já dizia tudo: “Participação Plena e Igualdade”, ou seja, participação das pessoas com deficiência em todas as áreas da sociedade com igualdade em dignidade e em direitos (conforme estabelecidos na Declaração dos Direitos das Pessoas Deficientes, de 9/12/1975).

Em 3/12/1982, através da Resolução 37/52, a ONU adotou o Programa Mundial de Ação relativo às Pessoas com Deficiência (PMAPD), que contém detalhes operacionais sobre como implementar todos os direitos das pessoas com deficiência, formulados durante o AIPD.

O período de 1983 a 1992 foi oficializado como a Década das Pessoas Deficientes das Nações Unidas (Resolução 37/53, de 3/12/1982) e utilizado para avançar mais ainda na implementação dos direitos defendidos no acima referido PMAPD.

Em 14/10/1992, a ONU instituiu o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência para ser comemorado anualmente no dia 3 de dezembro, também para difundir, defender e implementar os direitos destas pessoas (Resolução 47/3).

Em 20/12/1993, a ONU lançou as 22 Normas sobre a Equiparação de Oportunidades para Pessoas com Deficiência, documento no qual o direito de acesso ao ambiente físico e à informação e comunicação constitui a Norma 5 (Resolução 48/96).

Finalmente, em 13/12/2006, a ONU adotou a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, que foi ratificada pelo Brasil com valor de emenda constitucional através do Decreto Legislativo n. 186, de 9/7/2008, e promulgada pelo Decreto n. 6.949, de 25/8/2009.

Este documento reconhece a importância da acessibilidade aos meios físico, social, econômico e cultural, à saúde, à educação, à informação e comunicação, para possibilitar às pessoas com deficiência o pleno gozo de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais. O conceito de comunicação abrange as línguas, a visualização de textos, o braile, a comunicação tátil, os caracteres ampliados, os dispositivos de multimídia acessível, assim como a linguagem simples, escrita e oral, os sistemas auditivos e os meios de voz digitalizada e os modos, meios e formatos aumentativos e alternativos de comunicação, inclusive a tecnologia da informação e comunicação acessíveis. O conceito de língua abrange as línguas faladas e de sinais e outras formas de comunicação não-falada.

De acordo com este tratado internacional de direitos humanos, são obrigações dos Estados Partes, entre outras, (a) Realizar ou promover a pesquisa e o desenvolvimento de produtos, serviços, equipamentos e instalações com desenho universal; (b) Realizar ou promover a pesquisa, o desenvolvimento, disponibilidade e o emprego de novas tecnologias, inclusive as tecnologias da informação e comunicação, ajudas técnicas para locomoção, dispositivos e tecnologias assistivas, adequados a pessoas com deficiência; (c) Tomar medidas a serem aplicadas, entre outros, a informações, comunicações e outros serviços, inclusive serviços eletrônicos; (d) Promover o acesso de pessoas com deficiência a novos sistemas e tecnologias da informação e comunicação, inclusive à internet; (e) Promover, desde a fase inicial, a concepção, o desenvolvimento, a produção e a disseminação de sistemas e tecnologias de informação e comunicação, a fim de que esses sistemas e tecnologias se tornem acessíveis a custo mínimo; (f) Assegurar que as pessoas com deficiência possam exercer seu direito à liberdade de expressão e opinião, inclusive à liberdade de buscar, receber e compartilhar informações e ideias, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas e por intermédio de todas as formas de comunicação de sua escolha (por ex., incentivando a mídia, inclusive os provedores de informação pela internet, a tornar seus serviços acessíveis a pessoas com deficiência); (g) Tomar medidas para que as pessoas com deficiência possam ter acesso a bens culturais em formatos acessíveis, ter acesso a programas de televisão, cinema, teatro e outras atividades culturais, em formatos acessíveis e ter acesso a locais que ofereçam serviços ou eventos culturais, tais como teatros, museus, cinemas, bibliotecas e pontos turísticos, bem como, tanto quanto possível, ter o acesso a monumentos e locais de importância cultural nacional.

Conclusão

Pelo exposto, a Revista Brasileira de Tradução Visual é, no contexto do segmento das pessoas com deficiência, um produto natural da demanda dos potenciais usuários, do imperativo da legislação nacional e da pressão das normas internacionais. A RBTV é, também, uma solução ao problema central apontado nestes três fatores. A RBTV tem um enorme desafio a enfrentar, contribuindo com a sua parte em benefício dos quase 26 milhões de pessoas com deficiência existentes em nosso país.

[1] Citação bibliográfica:

SASSAKI, Romeu Kazumi. Revista brasileira de tradução visual: Acesso à informação e à comunicação no mundo virtual para todas as pessoas. Recife/PE, ano I, n. 2, Mar/Jun 2010.

[2] Consultor de inclusão social e autor dos livros “Inclusão: Construindo uma Sociedade para Todos (7.ed., Rio de Janeiro: WVA, 2006)” e “Inclusão no Lazer e Turismo: em busca da qualidade de vida (São Paulo, Áurea 2003).” E-mail: romeukf@uol.com.br

.

RBTV #3: Estudo da comunicabilidade das imagens: contribuições para o processo de ensino-aprendizagem na escola inclusiva

Escrito por Ernani Nunes Ribeiro e Francisco J. Lima

Resumo

O presente trabalho tem origem em uma pesquisa de mestrado em Educação, (área de Educação Inclusiva), a qual propõe analisar a comunicabilidade das imagens, como suplemento ou complemento aos textos em livros didáticos. Aqui, discutem-se as contribuições da comunicabilidade das imagens, sob a perspectiva de uma Escola para Todos, o que implica em oferecer uma Educação com qualidade, igualdade de condições e oportunidade de acesso a todo o processo educacional, ao ensino e à aprendizagem, também às pessoas com deficiência auditiva ou surdas. Defende-se que ao estarem ao nosso redor, as imagens têm 3 funções básicas de comunicação: De Ornato, de Complemento e de Suplemento. Conclui-se que se usadas bem, as imagens são grande aliadas para a inclusão educacional da pessoa com deficiência auditiva ou surdas, na medida em que servem como facilitadoras na sua aprendizagem, isto é, no entendimento do texto escrito.

Palavras chaves: Comunicabilidade das Imagens, ensino-aprendizagem, Inclusão da pessoa surda, livro didático, inteligência viso-espacial.

  • RBTV #3: Estudo da comunicabilidade das imagens: contribuições para o processo de ensino-aprendizagem na escola inclusiva (doc, 108 KB)
  • [Download not found]
  • RBTV #3: A importância da pesquisa acadêmica para o estabelecimento de normas da audiodescrição no Brasil

    Escrito po Eliana P. C. Franco (Universidade Federal da Bahia)

    Resumo

    O presente artigo versa sobre a necessidade de estearem em pesquisas científicas as bases para a criação de diretrizes que venham normatizar a audiodescrição no Brasil. Afirma que as pesquisas de opinião sobre a recepção do serviço não dão conta de sustentar a criação de regras para a audiodescrição. Faz a ressalva de que um consultor com deficiência visual, ou um pequeno grupo de pessoas com essa deficiência não pode servir como base para a construção de uma norma. Conclui que a pesquisa sistemática é a metodologia mais adequada para a investigação acadêmica a respeito da audiodescrição.

    Palavras-chave: audiodescrição; pessoa com deficiência; inclusão; pesquisa sistemática; áudio-descrição

    RBTV #2: Para inglês ouvir: Política de adoção da audiodescrição na TV digital do Reino Unido

    Escrito por Flávia Oliveira Machado

    Resumo

    O Reino Unido estreou a era da televisão digital em 1998 com o padrão DVB (Digital Video Broadcasting). Onze anos depois, o Ofcom (Office of Communication – órgão regulador do setor de comunicação do Reino Unido) anunciou que 89,8% dos lares ingleses recebiam o sinal digital. Após o desenvolvimento dessa tecnologia, foi iniciado em 2008 o processo de desligamento da transmissão analógica de televisão, que está previsto para terminar em 2012. Além da multiprogramação e da alta qualidade de som e imagem, os ingleses foram os primeiros a conseguirem disponibilizar a audiodescrição como opção de acessibilidade nessa nova mídia. A audiodescrição é um áudio extra que descreve o cenário, o figurino, a movimentação dos personagens e todos os outros elementos que não são compreendidos, principalmente, por pessoas com deficiência visual. O objetivo é acrescentar esse áudio durante os intervalos dos diálogos, sem, no entanto, sobrepor informações contidas na trilha sonora original. Vale lembrar, que este recurso atende também às necessidades de pessoas com dislexia, com deficiência intelectual e ainda idosos.

    Atualmente, 10% da programação já possuem audiodescrição e há uma forte pressão para que essa cota aumente para 20%. O presente artigo pretende apontar, através e referências bibliográficas e documentais, algumas especificidades da televisão digital no Reino Unido e como está sendo feita a política de promoção da audiodescrição nesse meio de comunicação. Primeiramente, será exposto o conceito do termo audiodescrição. Depois, será traçado um breve panorama da implementação da TV digital no país, bem como suas estratégias políticas até chegar no switch over e na segunda geração do DVB.

    Após essa contextualização, pretende-se analisar as iniciativas políticas para a inserção, promoção e aprimoramento da audiodescrição na televisão digital inglesa. Para isso serão apresentados dois atores chaves no desenvolvimento dessa política: o Ofcom e o RNIB (Royal National Institute of Blind People). O estudo sobre a política de implantação desse recurso de acessibilidade no Reino Unido, onde a audiodescrição está mais difundida, serve como ponto de partida para outros países que pretendem avançar na questão de inclusão social de pessoas com deficiência visual através dos meios de comunicação, principalmente, a televisão.

    Palavras chave: Audiodescrição. Televisão Digital. Política de Comunicação. Reino Unido.

    RBTV #2: Inclusão e cultura surda: observando questões acerca da surdez

    Escrito por Liane Carvalho Oleques [lioleques@gmail.com]

    Resumo

    Este artigo é um recorte da pesquisa de mestrado “Desenho infantil: entre a palavra e a imagem” que faz uma análise da produção gráfica de uma criança surda em paralelo a uma criança ouvinte. Assim, foi necessário conhecer e expor as questões que envolvem a surdez em toda sua complexidade, dando base a pesquisa. Num primeiro momento ressaltam-se alguns aspectos do processo de ensino e aprendizagem da educação especial introduzindo as questões concernentes a surdez e suas especificidades. Autores como Gonzalez (2007), Lucia Reily (2007), Vigotski (1997), Oliver Sacks (1998), Ronice de Quadros (1997) e Márcia Goldfeld dão base ao trabalho no tocante ao ensino especial bem como a cultura surda.

    Palavras-chaves: educação especial, deficiência, surdez e cultura surda


    Abstract

    This article is part of a research Masters’ Playground Design: between word and image “which analyzes the graphic production of a deaf child in parallel with a hearing child. It was therefore necessary to understand and explain the issues surrounding deafness in all its complexity, giving basic research. At first it is worth highlighting some aspects of the teaching and learning of special education by introducing the issues concerning deafness and its specificities. Authors such as Gonzalez (2007), Lucia Reily (2007), Vygotsky (1997), Oliver Sacks (1998), Ronice Frame (1997) and Marcia Goldfeld are the basis of work with regard to special education and deaf culture.

    Keywords: special education, disability, deafness and deaf culture

    RBTV #2: Artes visuais para deficientes visuais: o papel do professor no ensino de desenho para cegos

    Escrito por Diele Fernanda Pedrozo de Morais [fernandaufpr@hotmail.com]

    Resumo

    Este artigo apresenta parte do referencial teórico e prático da pesquisa desenvolvida junto aos alunos da Escola de Educação Especial Professor Osny Macedo Saldanha, na qual atuo como docente desde 2006. Neste percurso, tive como principal objetivo encontrar alternativas do ensino do desenho, com o intuito de realizar uma pesquisa na qual as pessoas implicadas tivessem “algo a dizer e fazer”. No decorrer deste texto busca-se discutir além das questões específicas do ensino do desenho, a valorização da criança não-visual, apontando que o modo pelo qual esta se apropria dos conhecimentos não está destituído de significados – culturais, sociais ou afetivos – pelo fato desta “não enxergar”. É inegável a importância da visão para o desenvolvimento da criança, sendo assim, justifica-se o impacto que sua ausência pode causar no desenvolvimento do indivíduo, no entanto, se indaga sob quais parâmetros essas concepções estão sendo calcadas. As reflexões neste ponto se pautaram na experiência como docente, no contato com a realidade da criança não-visual, e principalmente, na busca incansável de conscientizar as pessoas ditas “normais” de que a criança pode, e deve, se desenvolver como um ser integral, não considerando somente suas limitações, mas sim, suas potencialidades.

    Palavras-chave: Deficiente Visual; Ensino do Desenho; Inclusão; Pesquisa-ação.


    Abstract

    This article shows part of theoretical and practical referencial of developed research together with the students from Escola de Educação Especial Professor Osny Macedo Saldanha, which I am teacher since 2006. On this course, I had as main target to find out alternatives from drawing’s education, with the intention to realize a research which the involved people had “something to say or to do”. During this text seeks to discuss besides of specific questions from drawing’s education, the recognition of blind child appointing that the mode which one appropriates of skills is not related of cultural, social and affective meaning because of this one does not see. It is undeniable the importance of sight for the children’s development, thus, it justifies the impact that their absence can cause on the development of individual, however if inquires under what parameters these conceptions are being based. The reflections on this issue were discussed on the experience like teacher, in contact with the reality of blind child, and mainly, on the tireless pursuit to let the “normal” people aware that the children can and must develop as a integral human, not considering only their limitations, but your potentials.

    Keywords: Blind; Drawing’s Education; Inclusion; Action research.

    RBTV #2: Áudio-descrição: orientações para uma prática sem barreiras atitudinais

    Escrito por Francisco J. Lima, Lívia C. Guedes, Marcelo C. Guedes

    Resumo

    O presente artigo lista algumas das barreiras atitudinais contra a pessoa com deficiência, mais comumente encontradas na sociedade e oferece sugestões para evitá-las, quando da oferta do serviço de áudio-descrição, técnica que descreve as imagens ou cenas de cunho visual, promovendo acessibilidade à comunicação e à informação, também para as pessoas cegas ou com baixa visão. Nesse contexto aqui também se trata de questões que envolvem a prática do áudio-descritor, se oferece orientações de como esse profissional da tradução deve atuar para evitar barreiras atitudinais em seu ofício, bem como alerta para o perigo de ações que venham limitar o exercício, a aplicabilidade e os recursos instrumentais que o áudio-descritor pode valer-se na oferta dessa tecnologia assistiva. Dá dicas de como se fazer a áudio-descrição, tanto quanto ressalta que esse gênero de tradução visual é direito constitucional brasileiro, concluindo que, portanto, a áudio-descrição deve ser garantida/oferecida sem custos aos clientes com deficiência que do serviço necessitem.

    Palavras-chave: áudio-descrição, barreiras atitudinais, pessoas com deficiência, tradução visual, acessibilidade comunicacional.


    Abstract

    This article discusses the attitudinal barriers commonly practiced against people with disability. A series of hints are given to avoid attitudinal barriers by the audio describer and some of the bases for audio description are summarized to offer visual translators important tools for their work. It stresses the importance of recognizing audio description as an assistive technology, making the assertion that this service is due to people with visual disability without no cost. It concludes that audio describers should be free to make their choices as translators and that ruling their work without robust scientific research can be both harful to audio describers and their clients, as well as to those who higher their work.

    Keywords: audio description, attitudinal barriers, people with disability, visual translation, communicational accessibility.