RBTV #2: Relato de experiência: ensinando Laura a fazer desenhos em relevo

Caro Editor, ao ler a seção relato de experiência desta Revista, em que apresentava o texto da Rosângela Gera, falando sobre a experiência da filha que, sendo cega, aprendia a desenhar e se beneficiar dessa atividade rica para a aprendizagem e para o lazer das crianças, senti-me estimulada a escrever também e compartilhar meu relato sobre esse tópico, já que fui eu a professora de Laura, durante todo esse processo de ensino de como ela poderia reconhecer os desenhos e de como os poderia desenhar.

Assim, falar de desenho hoje, me emociona pela gratificante experiência que vivenciei no ano de 2009. Foram muitas descobertas e aprendizagens, em particular, com a atividade de ensino de desenho a uma criança cega. Ensiná-la a desenhar foi marcante pela satisfação que isso trouxe a minha aluna, Laurinha.

Esta trajetória teve início uma semana antes de as aulas começarem, quando ao visitá-la em sua casa, ela me mostrou toda empolgada o seu estojo, cheio de lápis e giz de cera. Nessa hora fiquei intrigada, o que fazer com aquele estojo? A menina era cega. Poderia ela escrever com aqueles lápis e giz de cera? E quando fossem atividades relacionadas ao desenho, o que a Laura iria fazer? Sem ter uma resposta pronta, comecei a pesquisar sobre o tema e, junto com a mãe de Laura, descobrimos estratégias que contribuiriam para aquisição dessa habilidade.

Comecei por aquilo que motivava Laura naquele momento, investiguei o que ela desejava desenhar, e uma atividade cotidiana que fazíamos era que as crianças desenhassem, na própria agenda, referências sobre o tempo naquele dia, se ensolarado faziam um sol, se nublado desenhavam nuvens e assim por diante. Para isso, adaptamos  uma prancheta, forrando-a com uma tela de nylon, que proporcionava alto relevo aos riscos que executava de maneira que ela podia seguir com os dedos o desenho que havia feito.  “…Então o sol é redondo…”; de posse  então de um círculo , examinava seus contornos, contornava-o e em seguida repetia no papel.

No início foi difícil, pois ela empunhava o lápis com muita dificuldade, não tinha firmeza, seus primeiros traços saíram muito fracos, não permitindo que ela sentisse seus próprios riscos, mas isso não foi motivo de desânimo. Eu compreendi a dificuldade que ela apresentava, entendendo que não tinha a ver com sua deficiência visual. Isso se devia a outro fator, pois essa prática havia sido negligenciada pelos meus colegas que no decorrer dos anos não a ensinaram a desenhar, e eu tinha que ensinar como empunhar um lápis, como fazemos com as crianças menores que entram na escola.

Foto 1: Desenho de um sol, na cor alaranjada feito por aluna com deficiência visual.
Foto 1: Desenho de um sol, na cor alaranjada feito por aluna com deficiência visual.

Não demorou muito, aos poucos os riscos de Laura ganhavam firmeza. Lembro do dia que ela fez o seu primeiro sol, um círculo com os raios saindo dele, a coleguinha do lado, ao ver seu desenho expressa em bom tom: “Laura como seu desenho está lindo! o sorriso dela foi tão intenso que neste momento tive a certeza de quanto o desenhar era importante para ela.”

Foto 2: Desenho da figura humana, na cor verde, representando a amiga de Laura.
Foto 2: Desenho da figura humana, na cor verde, representando a amiga de Laura.

E isso se confirmou quando Laura expressou no meu ouvido o desejo de desenhar sua melhor amiga, ela fez a cabeça, tronco, abdômen e extremidades, mostrando perfeita noção sobre o esquema corporal.  Para fazer os cabelos, Laura pediu para passar as mãos no cabelo da amiga para saber se era liso ou cacheado. É difícil descrever o que sentimos ao ver um desenho produzido por uma criança cega, que nunca enxergou e que o seu desenho podia ser admirado pelos colegas. Fiquei imaginando o que a Laura devia sentir nesse momento.

Outro material adaptado para que Laura aprendesse a fazer e reconhecer desenhos foi a prancheta de velcro com a caneta de lã.  Retiramos a tinta da caneta e colocamos um pedaço de lã, fizemos um nó na ponta para que não se soltasse da caneta.  As crianças adoraram esse material, todos queriam a prancheta, queriam desenhar como a Laura, ela fazia traços e formas, a lã grudava no velcro e assim permitia a exploração tátil do seu desenho, essa prancheta foi muito útil para trabalhar a coordenação, já que a caneta era fina e Laura precisava ter firmeza ao segurá-la.

Foto 3: Figura representando uma árvore (em verde) e um balanço na cor rosa. Da árvore vê-se a copa e o tronco. Do balanço vem-se riscos representando respectivamente: as barras de sustentação lateral e superior, bem como as correntes e o assento.
Foto 3: Figura representando uma árvore (em verde) e um balanço na cor rosa. Da árvore vê-se a copa e o tronco. Do balanço vem-se riscos representando respectivamente: as barras de sustentação lateral e superior, bem como as correntes e o assento.

Além dos desenhos Laura começou a fazer as letras do seu nome que tinham o traçado contínuo, como exemplo L, U, G. Esse trabalho com o nome foi feito paralelo ao reconhecimento das formas geométricas e dos desenhos que podemos formar através de suas derivações, assim também ocorreu com as letras do alfabeto.

Para as letras era feita uma associação, como exemplo: o B é como se fosse dois semicírculos, um em cima do outro, o V é como um triângulo de cabeça para baixo sem o teto.

Rapidamente ela conseguiu aprender as letras em bastão e em pouco tempo já estava escrevendo na sua prancheta.  Para se orientar no espaço da folha eu fiz uma régua vazada de uns 2 centímetros e meio.

Teve um dia que ela chegou empolgada com a tarefa de casa e logo foi tirando a atividade da pasta e falou: “Tia, você não vai acreditar que eu fiz o meu nome sozinha, só o G que eu não sabia…” e quando ela tirou a folha da pasta a coleguinha do lado leu rapidinho: “LAURA GERA”, ela parecia que ia explodir de alegria, mas não é por menos, ela sempre sonhou em poder escrever de lápis também.

Foto 4: Figura com o nome Laura escrito com letras de forma.
Foto 4: Figura com o nome Laura escrito com letras de forma.

Várias outras experiências positivas aconteceram no decorrer do ano.  Hoje tenho certeza que um grande passo foi dado pela Laura, que nós também acertamos em investir nessa habilidade, e isso não foi nada mirabolante, apenas propiciamos a oportunidade para ela.

Desenhar faz parte da vida de todo mundo, o desenho alegra, encanta. Dou como exemplo os livros de histórias, qual criança gostaria de ler um livro sem nenhuma gravura? Simplesmente um livro assim não é interessante, e com esse pensamento nós também adaptamos todos os livros de histórias, tínhamos o cuidado de fazer desenhos com grande diversidade de texturas para que ela apreciasse, explorasse e os reconhecesse.  Isso se tornou uma prática tão constante que Laura se recusava a ler livros que não os tivesse. Sem contar que todas as crianças queriam levar os livros em Braille, que puderam ser compartilhados entre a turma, pois tinha as duas escritas.

Para encerrar esse relato gostaria de exemplificar mais um fato ocorrido já no final do ano, que comprova como a inclusão é maravilhosa.  Após fazer a atividade, três colegas pegaram a prancheta de desenho, pediram o papel, pois queriam fazer desenhos para Laura, elas sentaram no chão, e com o giz de cera começaram a fazê-los, primeiramente foi uma casa, assim que terminaram chamaram a Laura e lhe entregaram a prancheta, para que fizesse o reconhecimento do desenho, vendo que ela não estava conseguindo identificar a outra colega, foi intervindo: “também você desenhou muito embolado, deixa que eu vou fazer outro Laura” e assim o  fez.

Depois pegou a mão dela e falou: “Olha, aqui é o telhado…” e foi descrevendo o seu desenho, depois elas queriam ensiná-la a fazer outros desenhos, e pediram para que Laura fizesse um coração, ao sinalizar que não sabia fazer, a outra coleguinha retirou um coração de EVA que estava no mural e o entregou, para que Laura o contornasse.

E dessa forma as meninas foram se entendendo, buscando estratégias diferentes, assim como eu mesma fazia.

Senti-me gratificada, elas pareciam ser meu espelho, nesta hora percebi o significado daquele velho dito popular: “as palavras comovem, os exemplos arrastam”.

Sei que há muito a aprender, a caminhada da Laura será grande, mas espero que essa sementinha plantada possa crescer, frutificar e dar frutos a tantas outras crianças cegas e tantos professores e assim como eu, poderão ter o privilégio de vivenciar momentos simples, mas que eternizam a prática pedagógica.

Por fim, gostaria de fazer uma nota, deixando meus sinceros agradecimentos ao Professor Francisco Lima, que foi nosso mestre, incansável, sempre disposto a contribuir e partilhar, suas ricas idéias e ensinamentos, os quais propiciaram-me um caminho de descobertas e à pequena Laura, a satisfação para sua vida escolar.

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