O convite para participar da terceira edição do 4º Encontro Diálogos entre Arte e Público (Recife, 2009), com a temática “Educadores entre museus e salas de aula: que diálogos são esses?” foi recebido como um desafio para partilhar reflexões sobre as pesquisas que tem como foco a formação de educadores como mediadores culturais e sociais. … Continue reading RBTV #19: Sobre o Laboratório Metodológico Arte Público – Recife/2009
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Áudio-descrição da logo da RBTV: Revista Brasileira de Tradução Visual. Em um fundo branco, a mão direita faz a letra t em libras. O indicador e o polegar se cruzam, os demais dedos ficam erguidos. Próximo ao indicador há, em verde, 3 ondas sonoras. Abaixo da mão, lê-se RBTV, com letras verdes e com letras Braille em preto.

RBTV #19: Sobre o Laboratório Metodológico Arte Público – Recife/2009

O convite para participar da terceira edição do 4º Encontro Diálogos entre Arte e Público (Recife, 2009), com a temática “Educadores entre museus e salas de aula: que diálogos são esses?” foi recebido como um desafio para partilhar reflexões sobre as pesquisas que tem como foco a formação de educadores como mediadores culturais e sociais.

Minha atuação, desde 2001, junto à equipe independente do Arteducação Produções, no desenvolvimento de ações educativas, na formação de educadores mediadores, na coordenação de cursos de formação e atualização de professores, no desenvolvimento de materiais educativos, assim como, minha atuação no meio acadêmico, na formação inicial de arte/educadores, na orientação de pesquisas de mestrado e na organização de seminários, situam-me numa posição relativamente cômoda para enfrentar o desafio. Essa comodidade relativa me permite ter liberdade para refletir criticamente sobre as propostas e questões inerentes ao campo da mediação cultural e social, visto que não faço parte de uma instituição cultural específica, mas de uma equipe independente e de uma instituição educacional pública. Em contrapartida, essa comodidade agrega as minhas reflexões à responsabilidade de um posicionamento crítico e construtivo.

A questão central em torno da qual construí o texto para minha intervenção nos Diálogos (uma palestra e a condução de um laboratório metodológico) foi a da “democratização do acesso aos bens patrimoniais e culturais”. Essa bandeira tem sido ultimamente usada no Brasil de forma explícita ou implícita como slogan para os investimentos em ações educativas tanto pelas instituições que gerenciam e colocam em circulação os bens patrimoniais, quanto por aqueles que efetivamente põem em prática tais ações. Venho buscando compreender o contexto onde se inscreve essa declaração que vem se naturalizando no campo e se apresenta como um princípio afirmativo que justifica toda uma gama de investimentos em prol da formação de um público fruidor. Tenho buscado problematizar o campo onde essa declaração surge e onde se situa, pois percebo que, apesar de carregar o epíteto da democracia, contraditoriamente foi forjada para reforçar os mecanismos de distinção. A democratização, nesse caso, implica aceitação inquestionável dos valores pertinentes a um campo que se autoproclama exclusivo e hierarquicamente superior. Uma democratização de mão única, que parte do princípio de que os valores referentes aos bens patrimoniais e às obras de arte devem interessar a todos e contribuir para a formação de todos, sem distinção de sexo, idade, etnia, classe social, etc. Valores estes que se fundam em pretensos critérios universais, oriundos de processos hegemônicos eurocêntricos.

Do ponto de vista educacional, lidar com essa contradição é extremamente frustrante. Como empreender uma ação educativa verdadeiramente democrática se as instituições permanecem encasteladas, se os bens culturais permanecem distantes, expostos em vitrines e pedestais em cenários luxuosos? Como pretender a democratização do acesso se as estratégias e discursos usados para esse dito acesso fazem uso de signos e de sistemas interpretativos exclusivos distintos daqueles usados pelos sujeitos que buscam esse acesso?

Penso que uma saída para o impasse em que se encontram as ações educativas é tentar reverter a lógica desse sistema excludente. Ao invés de mediações diretivas e unidirecionais, proponho mediações dialógicas e multidirecionadas. Não um falando por todos e para todos, mas a instauração de diálogos, a circulação da palavra, em processos de interpretações que levam em conta os diferentes lugares de fala dos indivíduos, as diferentes comunidades interpretativas. Uma prática aberta a múltiplas narrativas.

Ao invés de confirmações e afirmações sobre um campo e seus valores, a instauração de dúvidas, a prática do descentramento de pontos de vista.

Ao invés de assumir um conceito de cultura como elemento aglutinador de identidades, pensar a cultura como redes de significados, como comunidades de sentidos, de pertinência e de pertencimento, que revela heterogeneidade e contradições. Uma ideia mais dinâmica de cultura que comporta transfusões e mestiçagens de produtos materiais e crenças (Aguirre, 2009).

Ao invés de se submeter e sucumbir às políticas culturais institucionais, desvelar as entranhas que constituem o campo patrimonial e o campo da arte, deixando emergir os conflitos, enfrentando as contradições inerentes à própria situação das ações educativas frente às instituições que a mantém.

Partindo dessas premissas que orientam minhas pesquisas no campo da mediação cultural, pensei em um laboratório metodológico para exercitar essas polaridades. A ideia foi apresentada para o grupo como uma conversa informal sobre mediação, ou seja, não pretendíamos exercer exatamente uma mediação, mas, procurar estabelecer uma conversa entre educadores sobre as potencialidades e limitações daquele espaço museográfico: o Museu do Homem do Nordeste. Tínhamos, portanto, um espaço instituído de grande relevância para o contexto cultural local e nacional como cenário e foco de nossas reflexões.

Elaborei seis questões/instruções em pares: duas sobre aquele museu, duas sobre o homem no contexto daquele Museu e duas sobre a ideia de Nordeste, pensando também naquele contexto. As questões/instruções em pares foram elaboradas sob distintas perspectivas ideológicas: uma tendo como princípio o peso da tradição e a outra tendo como norte uma perspectiva de transformação social. O grupo foi dividido em seis pequenos grupos e as instruções foram distribuídas sem inicialmente os participantes terem conhecimento sobre as distinções entre as questões – eles sabiam apenas que cada grupo teria uma tarefa diferenciada a exercitar.

Questões/instruções sobre museu:

  • Observe o espaço museográfico procurando perceber como está organizado: observe o modo como as obras estão expostas, a iluminação, enfim, tudo que puder perceber sobre sua organização. Destaque na museografia os recursos e estratégias de mediação que facilitam a sua visita.
  • Dê uma volta pelo espaço museográfico observando se há recursos de mediação disponíveis. Se houver, observe-os e selecione um deles. Analise sua função, seu potencial e o discurso que esse dispositivo engendra nas obras e nos visitantes.

Questões/instruções sobre homem:

  • Quais objetos/obras revelam com maior precisão o sentido de homem do Nordeste presente em você? Justifique suas escolhas.
  • Dê um passeio pelo espaço do museu e observe os objetos e obras expostos. Escolha um objeto ou conjunto de objetos que te atrai, seja de forma positiva ou negativa. Invente uma história sobre esses objetos para contar ao grupo.

Questões/instruções sobre Nordeste:

  • Se você fosse convidado a criar um guia turístico sobre a cultura do Nordeste, quais obras/objetos/conhecimentos desse museu você destacaria neste guia? Justifique suas escolhas.
  • Qual a finalidade de ter em Recife um museu dedicado ao homem do Nordeste? Será que o homem do Nordeste é diferente do homem do Sul, do Sudeste e do Norte? O que pode qualificar o homem do Nordeste?

Os grupos se dispersaram e eu procurei acompanhar alguns percursos. Depois de uma hora voltamos a nos encontrar e cada grupo apresentou a sua instrução e começamos um debate. Vale salientar que o grupo era composto de educadores com diferentes experiências: educadores de museus, alguns do próprio Museu do Homem do Nordeste; educadores da educação formal, de diferentes níveis e estudantes de cursos de artes e afins. A heterogeneidade de pontos de vista é sempre salutar em encontros como esses.

Em linhas gerais, a discussão girou em torno de alguns conceitos de museu que permeiam o campo cultural hegemônico, como a ideia de preservação, de memória e de conservação que buscamos desconstruir a partir de indagações sobre quem determina o que deve ser conservado e quais os critérios para a difusão desse patrimônio. Acredito que tenha ficado claro para os educadores ali presentes que o discurso engendrado pelo museu foi construído por uma específica classe social que busca legitimar o seu ponto de vista da história social e cultural da região Nordeste. A seleção dos objetos e os dispositivos expográficos falam por si só.

Como educadores, levantamos algumas possibilidades de mediação para o contexto e ousamos pensar em concepções mais sistêmicas de curadoria e expografia para falar de um homem e de uma mulher dessa região, levando em conta as experiências de vida daqueles indivíduos ali presentes.

Sei que o confronto de ideias gerado nesse desafio provocou desconforto em alguns educadores e alimentou outros, como a mim mesma, com possibilidades de ações educativas mais consistentes e coerentes com desejos de transformação.

REFERÊNCIAS

# Aguirre, Imanol. El acceso al patrimonio cultural: retos y debates. Pamplona: UPNA – Cuadernos de la Cátedra Jorge Oteiza, 2008 .
# BARBOSA, Ana Mae; COUTINHO, Rejane Galvão (Org.). Arte/educação como mediação cultural e social. São Paulo: Editora UNESP, 2009.

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Galvão Coutinho, Rejane. "RBTV #19: Sobre o Laboratório Metodológico Arte Público – Recife/2009". Audio Description Worldwide Consortium, 2018. Available in: <http://audiodescriptionworldwide.com/associados/rbtv-19-sobre-o-laboratorio-metodologico-arte-publico-recife-2009/>. Access on: 2018/09/24

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