Senhor L e o Assassino da Igreja

Um estralar de dedos foi ouvido no escritório do senhor L e a janela se abriu rápida e silenciosamente, deixando o ar fresco e aromático do fim de tarde tomar o ambiente. Ele desligou o computador, onde trabalhara ininterruptamente desde as 4 da madrugada, depositou uma série de papéis numa gaveta da escrivaninha, trancando-a com uma pequena chave de prata. Com o pé, pressionou a alavanca que fez erguer a tampa da lata de papéis para reciclagem, deslizou a chave para dentro de uma fenda sob a tampa que, ao receber a pressão do objeto, disparou um mecanismo que fez desaparecer a escrivaninha, colocando outra no lugar.
Então, levantando como se levitasse e andando como se deslizasse, ele se aproximou da janela, Lá ficando parado, sorvendo o ar lentamente e olhando para o horizonte, como que sonhasse um sonho de felicidade. Seu rosto brilhava calmamente e seus lábios sorriam, em um sorriso amplo e genuíno de criança que acabara de ganhar um presente.
A tarde estava magnífica. Pela manhã o sol fora escaldante, porém agora a temperatura estava mais amena e o grande astro tinha como batedor uma brisa leve, refrescante e contínua.
De pé ali junto à janela, ele ficou uns 5 minutos, o espírito em atitude de contemplação e os sentidos em êxtase profundo, os pensamentos harmonicamente flutuando pelo universo, sem, contudo, pousarem em nada em particular. Ele era apenas contemplação, mente, espírito e corpo constituindo um todo único e indivisível.
Daí, como que tomado por uma ideia repentina, virou-se e, tão rápido quanto chegara à janela, saiu dali e seguiu para porta. Dedos estralados, indicador tocado na porta e esta e a janela estavam fechadas atrás de si, sem que se pudesse ouvir ruído dos mecanismos. O elevador, sempre à sua espera foi imediatamente acionado para descer, mas nele ele não entrou. Dirigiu-se para a escada e, quando chegou à garagem, ouviu o elevador sinalizar que também ali estava chegando.
Então, sorrindo, disse em voz baixa, para ele mesmo, já que não tinha ninguém por ali: “Ah, você chegou um segundo atrasado, seu elevador tartaruga. Vou ter de acelerar você outra vez”. Então, olhando para seu belo relógio suíço, pensou que não foi nada mal, que os 180 degraus descidos naquela velocidade eram uma boa marca.
Enquanto percorria com os olhos a garagem privativa, seus 4 carros, suas duas motos e suas 3 bicicletas, enquanto decidia por qual veículo optaria, ele se lembrava de quando começou a apostar com o elevador quem chegaria antes.
Ele era um menino, então. No começo, ele apertava o botão do elevador no primeiro andar e disparava pelas escadas para ver quem chegava no térreo na frente. Quando venceu o elevador no terceiro andar, ele comemorou, quebrando uma garrafa de água gaseificada contra o chão do elevador, como se costuma batizar os navios com champanhe. E isso lhe rendeu uma grande reprimenda do pai, uma vez que não tendo contado àquele a razão de seu comportamento, O pai achou que havia sido uma trela do filho. Agora que competia no quinto andar, ele começou a acelerar o elevador, sempre que passava a ganhar com facilidade.
Tão rápido quanto essa lembrança lhe passara pela mente, ele decidira pela bicicleta, com a qual agora percorria os quarteirões de sua rua e alcançava a avenida das Flores.
Essa era uma avenida longa e margeava o rio, passava pelo lado norte do parque e se encontrava com a avenida principal, depois de 13 km de subidas, descidas, curvas para direita e para esquerda, depois de uma reta de 372 metros e uma ponte pensa. Era o caminho perfeito para percorrer naquele fim de tarde tão agradável. Os pássaros que habitavam as árvores ao longo da avenida faziam do passeio uma experiência inesquecível, pela beleza de seus diversificados cantos, pela beleza de suas diferentes plumagens e pelas evoluções que faziam no ar, ao irem de uma árvore para outra.
Observando tudo isso, ele pedalava, não mais rápido que os pedestres caminhavam pelas calçadas. De fato, ele parava de pedalar, deixando a bicicleta seguir até ela não mais tivesse força para as rodas completarem novo ciclo. Então, dava novo impulso, mas apenas o suficiente para que a bicicleta se mantivesse em um movimento lento, rítmico e equilibrado.
Assim ele cobria os metros, as centenas de metros, os quilômetros. E, ao fazê-lo, ia mentalmente tirando fotos, pois fotos eram o que efetivamente tirava, com os olhos. Nada lhe passava despercebido; nada lhe ficava fora das fotografias mentais que ia registrando despretensiosamente, despreocupadamente a cada nova mudança de cenário. A habilidade viso-imagética que tinha para fotografar mentalmente tudo que ocorria ao seu redor era tanta que ele brincava de unir as lembranças em novas configurações, colocando a passearem juntas na praça central, a mulher morena de cabelos castanhos, presos em rabo de cavalo, com a jovem negra, de rastafári e óculos, embora ambas tivessem sido vistas, uma no ponto de ônibus, 3 dias antes, e a outra, no supermercado, há duas horas. Todas as imagens eram manipuladas em uma projeção dentro de sua cabeça. E ele também fazia isso por meio digital, depois de desenhar à mão ou no computador, pois a habilidade que tinha era tal que seus desenhos pareciam verdadeiras fotos profissionais.
ele ia passeando, tirando as fotos, brincando com elas e tirando novas fotos que se somavam ao seu acervo mental.
Agora, contudo, ele já completara o circuito e pedalava pela avenida Principal. O relógio digital de sua bicicleta marcava exatamente 17 e 45 quando ele parado no semáforo da Principal com a rua das Torres, via na esquina da direita, um adolescente que se aproximava de um senhor maltrapilho, de mãos estendidas e com cara de pedinte. O jovem trazia uma pequena sacola plástica com 3 maçãs e duas laranjas. Ainda do lado direito, na esquina oposta , uma vendedora de caldo-de-cana dava troco a um garoto que tinha uma garrafinha plástica verde na mão esquerda e um copo do delicioso líquido na outra.
Na esquina da esquerda, na calçada oposta à da vendedora de caldo de cana, um casal se beijava no rosto, ele seguindo pela Principal, ela, apressando-se à atravessar a rua das Torres. Como que se a esperando do outro lado, na esquina da esquerda do ciclista, uma jovem de aparência estudantil, fitava a mulher que logo antes estava na esquina diagonal a ele, beijando em despedida o homem alto e de chapéu. Agora, juntas na calçada da Principal, elas se uniram e seguiram pela avenida, num caminhar gingado e saltitante, como ele pôde acompanhar pelo retrovisor de sua bicicleta.
A uns 30 metros dali, à frente dele, a igreja de São Pedro, magnificamente edificada acima de uma longa escadaria de mármore, recebia de portas abertas, uma dúzia e meia de pessoas que subiam os degraus, como em uma procissão, ocupando cada espaço, uns mais à frente e acima, outros mais abaixo, logo atrás.
Eles constituíam um animado, mas não menos organizado cortejo de jovens e idosos religiosos, cujas aparências denotavam a despreocupação com as coisas mundanas e com as dificuldades do comum das pessoas.
Subindo aquelas escadas, pareciam mesmo que estavam prestes a falar com Deus, suas roupas impecáveis, seus semblantes irradiando felicidade e suas risadas, alegria.
Nesse momento o semáforo abre e o ciclista que até agora vinha pedalando sua bicicleta preguiçosamente, parte como uma flecha e, em um segundo, alcança a moto que, num instante atrás, estava parada junto à calçada, na frente da escadaria da igreja.
No entanto, a moto acelera fundo, assim que seu passageiro pula na garupa, deixando para trás, atônitos os transeuntes que não podiam acreditar no que viram: uma moto para na frente das escadas da igreja. Dela salta um passageiro. Sem tirar o capacete, Ele sobe as escadas, trazendo na mão uma sacola de supermercado. Já quase no topo, toca no braço esquerdo de um homem que se vira para ver quem o abordava. Ao ver o motoqueiro, o tal homem fica imóvel, olhos arregalados e boca entreaberta. O motoqueiro diz algo e, colocando a mão na sacola, tira de lá um revólver e atira à queima roupa no homem que não teve tempo, sequer de sair do degrau em que estava.
Embora uma dezena de pessoas poderiam ter se lançado contra o motoqueiro que agora retirava-se rapidamente dali, ninguém esboçou o mais leve movimento. E agora era tarde. A moto partira à toda, com o assassino na garupa.
Assim, antes de que tivessem alguma atitude, a moto desaparecia entre os carros, ônibus e mais motos, uma vez que eram quase seis horas e aquela avenida era uma das mais movimentadas da cidade naquele horário.
Num instante, então, começou a gritaria, a correria desordenada, a confusão: “Ele está morto! Gritavam alguns. “Socorro!” Berravam outros. “Ajudem, pelo amor de Deus!” Suplicavam as senhoras. “Chamem um médico!” Bradavam os velhos. Mas, ninguém fazia nada de fato, a não ser os jovens que tiravam fotos com seus Smartphones e tablets e postavam no face book, twitter e blogs pessoais diversos.
A possante moto, agora, ia velozmente pela Principal, ultrapassando pela direita, subindo nas calçadas para desviar do trânsito e liderando outras motos nos corredores entre os carros. Junto dela, o ciclista que antes tivera parado no semáforo, vinha grudado em seu passageiro.
Tendo visto o ocorrido, pois nada passava despercebido aos olhos atentos dele, o ciclista colocara-se a pedalar velozmente, alcançando a moto, bem quando ela partia da igreja, levando na garupa o assassino.
Agora, irremediavelmente preso por aquele ciclista, o passageiro puxava à reboque aquele misterioso estranho que guiava sua bicicleta apenas com a mão direita. A esquerda, como uma garra, prendia-se à cinta do fugitivo, com uma força que era impossível fazê-la soltar.
O motorista da moto, vendo que o ciclista não soltava do passageiro e este não podia deixar de se segurar com ambas as mãos, sob pena de cair, passou a tentar derrubar o ciclista, de todas as formas:
Curvas com a moto deitada; guinadas para direita e esquerda e o ciclista sempre junto, parecendo ser uma extensão deles; freada brusca, quebra-molas vencidos em alta velocidade, finas em postes e em outros veículos eram tiradas, mas o ciclista apenas jogava a perna direita para trás, ficando em pé no pedal esquerdo, sem perder um centímetro na perseguição. Tudo era tentado, mas o ciclista estava ali, inabalável, irredutível na sua decisão de acompanhar aquela moto insana.
Agora, contudo, perseguidor e perseguidos estavam numa parte mais estreita da avenida, logo antes da ponte. Um ônibus à frente, um caminhão vindo na via contrária e o motoqueiro e seu comparsa, irresolutos na decisão de derrubar seu perseguidor, guiam a moto para entre os dois veículos, os quais em poucos metros estariam lado a lado. Parece que o ciclista encontrou seu fim: Continuar seguindo a moto implicará em estourar sua cabeça contra a traseira do ônibus; soltar-se, na velocidade em que estava, era pedir para cair e arrebentar-se contra o asfalto ou, quando menos, se tivesse sorte apenas ficar com alguma lesão permanente.
20, 15, 10 metros e, uma brusca puxada para a direita e o ônibus literalmente se jogava para o acostamento, parando metade na pista, para pegar uma passageira que decidira, de último momento, dar com as mãos para o ônibus parar.
O ciclista a vira lá, loira, cerca de um metro e setenta, esguia, blusa vermelha e calça blue jeans e sandálias brancas. Nos ombros, uma mochila azul marinho, típica dos estudantes universitários.
Ela era linda e agora, sem saber, salvava a vida dele.
No minúsculo espaço que se abriu entre caminhão e ônibus à frente da moto e da bicicleta, entram eles, o motoqueiro com seu passageiro assassino e o misterioso ciclista , o primeiro, fechando os olhos instintivamente, esperando o crash do ciclista contra o ônibus, o barulho de metal e do corpo de seu perseguidor esmagando-se contra aquela parede de ferro em movimento, esperando, talvez, ser, ele próprio, arrastado para baixo do caminhão que vinha no sentido contrário, esperando, ao abrir os olhos, ver o sangue e o que restaria daquele insistente ciclista e, quiçá dele próprio e de seu passageiro. Este, com os olhos esbugalhados, gritava um “vamos morrer” desesperado, ao ver o que estava para acontecer. O habilidoso ciclista, porém, dominando a situação com destreza e fleuma extraordinárias, mantinha-se firme no selim de sua bicicleta, pilotando-a como a um caça americano.
Segundos se passaram, mas nem um crash, nem um solavanco e, abrindo os olhos, o motoqueiro viu o ônibus dando uma puxada para direita, como se tivesse dando espaço para que passassem, bem em cima da hora. Mas, ainda haveria tempo para isso? O ônibus conseguiria dar abertura suficiente para que moto e bicicleta seguissem seu percurso?
Um centímetro a menos e tudo estaria acabado. Não acabou! Agora eles voavam entre o caminhão e o ônibus e se viam entrando na ponte.
Devida a falta de conservação do asfalto, na entrada da ponte, porém, a moto se desequilibrou e, desviando de sua pista, passou a andar na contramão, indo em direção a uma caminhoneta do corpo de bombeiros que entrava à toda na ponte pelo outro lado. Aí, um tranco, um grito, o inconfundível barulho de ferro se chocando e moto, motoqueiro e passageiro foram lançados no ar e na água, no rio lá embaixo.
Num segundo, eles iam em direção à caminhonete, no outro, o ciclista misterioso desferia tão grande chute contra a moto que esta foi lançada para lateral da ponte, quebrando-a e despencando lá de cima.
Com uma freada ensurdecedora, que tirou fumaça do asfalto, a caminhonete parou e, os bombeiros, prontamente se puseram a trabalhar no resgate dos tripulantes da moto, viu o ciclista pelo seu retrovisor, quando já saía da ponte, deixando para trás o caos momentâneo que se abatera no local da cena do acidente.
Num relâmpago, pessoas se aglomeravam, vindas de todos os lados e sabe-se de onde mais.
Então, ele pedalou mais duas quadras, entrou a direita e parou em um estacionamento, sem ter sido acompanhado por uma alma que fosse. Ele simplesmente se tornara invisível na ponte. Todos viam o acidente e ninguém prestava atenção nele.
Desmontando, perguntou ao segurança onde poderia deixar sua bicicleta por algumas horas. Indicado que a deixasse presa no canto do salão, lá prendeu-a numa barra própria para esse fim.
Então, ele pagou por 4 horas adiantado e depositou seu capacete num armário destinado a guardar os pertences dos usuários do estacionamento.
Calmamente, dirigiu-se ao banheiro
E, lá, lavou o rosto, trocou de camiseta, colocando uma de gola polo bege (ele sempre tinha alguma peça de roupa extra em sua mochila); tirou dela um boné branco que deitou na cabeça, até lhe cobrir toda a testa, colocou um par de óculos tipo fundo de garrafa e, numa naturalidade imensa, saiu para rua, como se tivesse entrado ali portando esses objetos e vestindo aquela camiseta.
O segurança, agora conversando com outro cliente que chegava não viu o ciclista saindo e, 5 minutos depois de ali ter chegado, ele já seguia de volta para avenida, tão transformado que quem quer que o tivesse visto antes não o reconheceria: O modo de andar, o jeito de olhar, suas feições, tudo havia mudado de tal sorte que ele não parecia mais que com um jovem estudante compenetrado e sonhador.
Nesse novo corpo, ele caminhou de volta, em direção à ponte, onde, agora, dois homens estavam deitados, recebendo cuidados dos soldados do corpo de bombeiros.
De alguma forma conseguindo passar entre os curiosos que se aglomeravam entorno dos acidentados, o jovem se aproximou de um deles que ainda estava com os olhos fechados, respirando fortemente e, se reclinando sobre ele sussurrou: Eu vi o que você fez lá atrás na igreja, assassino!”
Por um momento, o homem não se mexeu. Ele tentava entender o que acontecera: tudo ia bem, ele fizera o serviço limpo e sem atropelos como, ademais, era sua prática. subira na garupa do Queiroz, que o esperava com a moto ligada e partiram, antes que alguém das escadarias da igreja tivesse percebido o que acontecera. No momento seguinte, ele quase cai, puxado por uma força intensa que o prendia pela cinta da calça. De fato, não fosse segurar com toda força na cintura do Queiroz, ele teria sido arrastado da moto que partia na toda.
Ao olhar de lado, ele vê um ciclista acompanhando a moto, guiando a bicicleta com apenas uma das mãos.
O Queiroz passou quebra-molas em velocidade, subiu em calçadas, tirou fina de postes e o desgraçado do ciclista estava grudado a eles como uma sombra. Então, aquilo: a fina no ônibus, a entrada errada na ponte o chute na moto e eles dois mergulhando nas águas do Grande Rio, como se fossem dois suicidas malucos.
E, agora, alguém lhe dizia aos ouvidos que viu o serviço. Num segundo ele pensa em tudo isso e no outro, pula de pé, como se tivesse visto um fantasma à sua frente. Tudo que vê, no entanto, é um jovem quatro olhos, com cara de abestalhado, uma multidão de idiotas curiosos por sangue e morte, uns bombeiros atrapalhados com o Queiroz e ninguém que parecesse lhe ter dirigido a palavra.
Daí, o jovem com óculos de fundo de garrafa, dando um passo em sua direção, grita: “moço, não pula não!”. Ele não ia pular, mas, vendo o jovem se aproximar repentinamente, por instinto recuou um passo.
Acontece que atrás dele estava a lateral quebrada da ponte e ele quase se desiquilibrou ao se afastar.
O soldado, vendo o homem ali em pé e, respondendo sem pensar ao que o jovem gritara, agarrou o homem pela cintura, prendendo-o com uma força de brutamonte que era.
E o jovem continuou, em seu gritinho histérico: Cuidado, ele tem um revólver no bolso direito. De fato ele o tinha. Era seu Tauros calibre 38 que usara para fazer o serviço. Mas, como aquele quatro olhos sabia disso, pensou Tião? Era tarde, o soldado brutamonte que o segurava com um braço, buscava no bolso indicado a arma com o outro. Tendo-a encontrado, chamou o parceiro e, num segundo, de vítima de acidente, o passageiro da moto era preso, pois alguém no meio da multidão gritava que um homem havia sido assassinado, nas escadas da igreja de São Pedro, minutos antes.
A confusão na ponte agora era generalizada e dela se distanciava um jovem de boné branco enterrado até os olhos, óculos fundo de garrafa e de mochila.
Logo depois da ponte, ele se dirigiu ao ônibus que há pouco quase fora a razão de sua morte e que ainda estava lá parado por conta do acidente. Ele deu sinal ao motorista que abriu a porta do transporte público, deixando-o entrar.
A sorte lhe sorriu. Ela estava lá, linda, cabelos longos, com cachinhos dourados que lhe molduravam o rosto levemente arredondado, de testa pequena, sobrancelha pretas esculpidas, olhos que eram dois aquários de um azul celeste intenso, límpidos e sinceros.
O nariz era um cumprimento à arte e parecia ter sido colocado naquela face como uma peça de adorno sublime. As orelhas pequenas eram como duas conchas preciosas. A boca era emoldurada por lábios de um vermelho vivo que não encontrava cor igual na natureza ou que pudesse ter sido produzido pelas mãos humanas.
Ao sorrir, dentes de um branco marfim desfilavam a beleza e a perfeição da mais bela obra prima jamais realizada pelo homem. O queixo da moça, tal qual o todo de seu rosto era primoroso, uma mostra de que a oitava maravilha estava ali, viva e sentada naquele banco de ônibus, para o qual ele mesmo se dirigia e agora se sentava, bem ao lado dela.
Seria ela a mulher de seus sonhos? Seria ela a princesa de seu reino encantado. Sim, ele sabia que sim e sabia que com ela teria muitas aventuras. Sem ela, porém, que teria apenas desventuras. E isso, ele, naquele mesmo instante, decidiu que não iria deixar acontecer.

Fim

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