Caro editor, Venho apresentar, na forma de relato de experiência, trabalho que faço de pesquisa com pranchas em relevo para acesso ao invidente do conteúdo pictórico de exposições de arte e sua história. Os estudos para a viabilidade deste trabalho começam em minha graduação em artes plásticas e nesse momento conheço a equipe do MAC-USP … Continuar lendo Trajetória pragmática, acessibilidade à cultura e arte
undefined
Audio Description Worldwide Consortium
Áudio-descrição da logo da RBTV: Revista Brasileira de Tradução Visual. Em um fundo branco, a mão direita faz a letra t em libras. O indicador e o polegar se cruzam, os demais dedos ficam erguidos. Próximo ao indicador há, em verde, 3 ondas sonoras. Abaixo da mão, lê-se RBTV, com letras verdes e com letras Braille em preto.

Trajetória pragmática, acessibilidade à cultura e arte

Caro editor,

Venho apresentar, na forma de relato de experiência, trabalho que faço de pesquisa com pranchas em relevo para acesso ao invidente do conteúdo pictórico de exposições de arte e sua história.

Os estudos para a viabilidade deste trabalho começam em minha graduação em artes plásticas e nesse momento conheço a equipe do MAC-USP coordenada por Amanda Tojal que foi e é minha grande incentivadora. A partir desse momento começam a surgir as oportunidades de novos projetos de acessibilidade.

Em dado momento de meus estudos na graduação senti que deveria desenvolver uma arte que deveria ser uma “arte universal”. Essa colocação, bastante importante, calou fundo em meu pensamento e começou a levantar dúvidas a respeito de se a arte até hoje era realmente universal… Diante desse impasse é que comecei a me preocupar e a trabalhar o tema ao observar meus alunos cegos, pois eles não tiveram a oportunidade de poder apreciar uma obra de arte conhecida e reconhecida “universalmente”. Então, se uma parte da humanidade não tinha acesso a essa informação, a informação não era verdadeiramente universal. Diante dessa situação que me incomodava muito é que comecei a pesquisar e desenvolver alternativas que efetivamente proporcionassem a tão propalada “universalidade da arte” e que pudesse ser realmente universal. Essa sensibilidade e inquietação, fomentada por meus alunos cegos, fez com que eu aprendesse a enxergar as coisas e o mundo como realmente o são. Os resultados desse esforço e dedicação são presenteados com frases, que ouço de meus alunos, como por exemplo: “agora eu sou feliz!” (dita por minha aluna Maria das Graças).

Isso nos mostra que a arte não é só uma expressão humana, mas também uma facilitadora. Não posso deixar de dizer que ao longo deste aprendizado descobri também que o resultado de toda essa pesquisa não se limita apenas a uma área do saber (a arte), o uso dos materiais e pensamentos da multissensorialidade é indicada também para todas as outras áreas do conhecimento humano.

O estudo, a pesquisa e elaboração de reproduções de obras de arte para mim é como a continuidade de meu trabalho de educador e artista. Por ser necessária a leitura o mais detalhada possível, assim como a interpretação e leitura extremamente formal da obra, a busca de informações que elucidem o entorna no ato da criação, a pesquisa da possibilidade de novos materiais para sua produção e, por fim, o prazer de poder averiguar que a reprodução alcançou seu objetivo: a leitura, a produção da imagem mental e interpretação enfim a fruição da obra pelo invidente. Sinto que essa atividade acaba por influenciar todo meu pensamento artístico me levando a produzir inconscientemente obras acessíveis que impelem o observador ao toque e à interação.

Creio que este trabalho com público especial tem inicio na XXIII Bienal de artes de São Paulo, onde tive a oportunidade de convidar um grupo de alunos com síndrome de Down, e logo em seguida foi me dada a oportunidade de ministrar curso de xilografia para cegos na Estação especial da Lapa, também em São Paulo.

São eles: Brasil+500 – Bienal de São Paulo, Arte Russa – OCA, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Museo Tissem Bornemisza – Madri, Banco Real – SP, Obras Gravadas de Luiz Sacilotto – UNICID, Memorial do Imigrante – SP, Museu Paulista-USP – SP, Museu do Futebol no Pacaembu – SP, assim como para a continuidade do desenvolvimento dessa atividade foram necessárias dezenas de visitas técnicas a entidades e profissionais de referência como I.C.P.C. (Instituto de Cegos Padre Chico em São Paulo, Museo Tiflológico em Madri, I.B.C. (Instituto Benjamin Constant) no Rio de Janeiro, O.N.C.E (Organización Nacional de Ciegos Españoles) em Madri, U.I.C. (Unione Italiana Ciechi) em Firenze, Cité dês sciences & de I’ndustrie em Paris.

No começo das pesquisas produzi relevos com argila os quais me deram problemas de resistência na reprodução para as pranchas em flexi-paper no processo em vacuum forming, quase todas quebravam por causa da pressão e compressão da matriz, além de ser um processo muito caro, atualmente desenvolvo as matrizes esculpindo em base de plastilina em positivo a qual gera um molde de silicone em negativo e por fim este me possibilita duplicar diversos relevos em resina acrílica que após tratamento da uma aparência de mármore polido.

Outro processo paralelo do relevo em resina e que é apresentado ao invidente antecedendo a esse relevo é a prancha de figura/fundo que mostra os elementos principais da composição e toda a relação da composição formal produzido com recorte à laser do EVA preto que é fixado sobre placa de poliestireno amarelo (combinação de máxima visibilidade: preto sobre amarelo) de posse da prancha e do relevo inicia-se a leitura tátil pelo invidente inicialmente com a prancha figura/fundo em EVA para que ele possa ter uma primeira aproximação da composição formal e a partir dessa consciência apresenta-se o relevo em resina possuidor de todos os detalhes que compõem a obra original, contemplando assim toda a riqueza visual da obra agora tátil e acessível.

Outra preocupação quanto à acessibilidade diz respeito ao espaço expositivo, nesse sentido se desenvolvem mapas táteis ou de localização com aproximadamente dois milímetros de altura para que o invidente possa se conscientizar antecipadamente da distribuição e circulação à qual irá ingressar, permitindo-lhe uma maior autonomia e independência de seu deslocamento no espaço até então totalmente desconhecido.

Em toda a produção de materiais acessíveis não é esquecido o acesso à informação escrita, pois devemos facilitar toda e qualquer informação pertinente da obra, do artista, da entidade e literária, assim termino por produzir etiquetas com material de grande longevidade e de excelente leitura tátil material este que é utilizado tanto por público com baixa visão como por invidentes, trata-se de texto em Braille em suporte de poliéster transparente sobre mesmo texto em tinta com tipos ampliados e adesivados aos relevos.

Com a produção de obras acessíveis às pessoas com deficiência visual, creio poder dar-lhes acesso não só à informação, mas também à cultura e ao lazer. Acima de tudo, mais que ensinar arte a essas pessoas, tenho aprendido com elas como fazer um mundo mais digno e acessível para todos.

Como citar esse artigo [ISO 690/2010]:
Ballestero-Álvarez José Alfonso 2010. Trajetória pragmática, acessibilidade à cultura e arte [online]. [visto em 28/ 11/ 2020]. Disponível em: http://audiodescriptionworldwide.com/associados-da-inclusao/rbtv/trajetoria-pragmatica-acessibilidade-a-cultura-e-arte/.
Revista Brasileira de Tradução Visual

Este artigo faz parte da edição de número volume: 5, nº 5 (2010).
Para conhecer a edição completa, acesse: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/rbtv-5-sumario.

Publicado por

  • Possui graduação em Licenciatura Plena em Educação Artística pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo (1999), mestrado em Artes pela Universidade de São Paulo (2003) e Doutorado em Poéticas Visuais pela Universidade de São Paulo (2007). Tem experiência na área de Artes, com ênfase em desenho, pintura, gravura e escultura, atuando principalmente nos seguintes temas: multissensorialidade e acessibilidadeView all posts by José Alfonso Ballestero-Álvarez

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *