Prezado Editor, Em função da inauguração do Centro de Estudos Inclusivos da Universidade Federal de Pernambuco (CEI/UFPE), em Agosto de 2004, pesquisei (fiz várias entrevistas com alunos e colegas de trabalho do Professor Roberto, li escritos dele e muito mais) a respeito do economista e sociólogo Roberto Aguiar, pessoa com deficiência visual que foi desbravador … Continue reading Relato de experiência: tributo a um mestre: a trajetória do professor Roberto Aguiar
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Relato de experiência: tributo a um mestre: a trajetória do professor Roberto Aguiar

Prezado Editor,

Em função da inauguração do Centro de Estudos Inclusivos da Universidade Federal de Pernambuco (CEI/UFPE), em Agosto de 2004, pesquisei (fiz várias entrevistas com alunos e colegas de trabalho do Professor Roberto, li escritos dele e muito mais) a respeito do economista e sociólogo Roberto Aguiar, pessoa com deficiência visual que foi desbravador acadêmico do século passado e que neste ano teria 64 anos.

Sobre o Centro de Estudos Inclusivos, Romeu Sassaki escreve:

Foi inaugurado no dia 4 de agosto de 2004 o Centro de Estudos Inclusivos (CEI), sediado no Centro de Educação, da UFPE, e tendo como objetivo fundamental inscrever na agenda educacional, política e social da UFPE a construção de uma sociedade inclusiva, que não se restrinja à Universidade, mas que, a partir dela, se emane para fora de suas dependências. (Sassaki, 2005)[1]

Considerando que este oitavo volume da Revista Brasileira de Tradução Visual é publicado no mês em que se celebra a luta da pessoa com deficiência[2], acho pertinente a submissão para publicação da história desse homem, pai e professor que, ao seu modo e com seu exemplo, advogou pelos direitos da pessoa com deficiência.

Então, Roberto Aguiar:

Profissional com um vasto conhecimento e grande repercussão no meio acadêmico, o Professor Dr. Roberto de Oliveira Aguiar (1947 – 2003) tinha participação ativa não só no meio universitário, mas também na política e na sociedade em geral, desenvolvendo pesquisas e ações que versavam no campo da Sociologia, área de que era grande conhecedor.

Sendo pessoa com uma deficiência visual progressiva, que o levaria à cegueira aos 15 anos de idade, o professor Roberto Aguiar não se deixou ser impedido de realizar seus objetivos, tornando-se ótimo pai de família, excelso professor e reconhecido consultor político.

Conforme relato de familiares, o professor Roberto iniciou sua trajetória acadêmica em 1967, quando prestou vestibular para o curso de graduação em Direito na Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP, tendo sido aprovado em 1º lugar geral.

Durante a graduação, exerceu suas primeiras atividades profissionais como bolsista da biblioteca da Fundação Joaquim Nabuco. Ao concluir com láurea a graduação, o professor Aguiar fez o mestrado em Sociologia na Universidade Federal de Pernambuco, defendendo a dissertação: “O ideal mediúnico no Recife: um estudo de Sociologia do conhecimento”. Ainda durante o Mestrado, tornou-se professor do Departamento de Sociologia da UFPE.

A despeito das dificuldades que o professor encontrou, enquanto profissional e pessoa cega, numa época em que a Inclusão ainda estava longe de ser realidade, seus esforços lograram-lhe grande êxito, tanto na vida acadêmica como na vida pessoal.

Desde a graduação e mesmo depois dela, quando já ensinava na pós-graduação, o Professor Aguiar sempre se deparou com a dificuldade de acesso a materiais didáticos e paradidáticos, adequados à leitura de pessoas cegas. Os materiais em Braille, em particular as revistas, periódicos e livros universitários, são raros em nosso país e, invariavelmente, não acompanham a periodicidade e rapidez em que essas publicações se dão. Antes não era diferente, porém pior, visto que não se dispunha dos recursos eletrônicos de hoje, como a internet, por exemplo. Na Universidade, o professor Roberto Aguiar valia-se de gravações em fitas cassetes, muitas das quais custeadas por ele e gravadas por seus alunos, uma vez que a Universidade não lhe disponibilizava sequer esses recursos básicos, necessários para o exercício de sua profissão. Contudo, o professor Aguiar não esmorecia!

Em 1984, obteve o título de PhD em economia pela The London School of Economics and Political Science – LSE (Londres/Inglaterra), com tese voltada para os estudos políticos, de cunho bastante inovador e atual, uma vez que já falava em Reformas Políticas. Salienta-se que seu doutoramento marca, para o ensino superior brasileiro, uma conquista de valor ímpar, uma vez que ele foi, senão o primeiro, um dos primeiros pesquisadores com deficiência visual do Brasil a obter o título de Doutor, e um dos 50 cegos do mundo com esse título, na época da conclusão de seu doutoramento.

Seu ex-aluno, hoje professor Ricardo Santiago, relata que

o nível de suas aulas era extremamente alto, ele era muito exigente e, como não podia tomar conta de provas, fazia da seguinte forma: dava as questões e os alunos podiam entregar na outra aula. Mas eram questões tão bem elaboradas que, no final, ninguém sabia exatamente o que teria feito. Então, foi uma das maneiras que eu aprendi que você pode fazer uma prova e deixar o aluno consultar, pois se ele não souber, não vai fazer de jeito nenhum.

Ao longo de sua vida acadêmica, o professor Roberto exerceu muitas atividades de extrema importância, como a Coordenação do programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da UFPE, de 1987 a 1991, e, no período de 1991 a 1994, a presidência da FACEPE (Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco). Enquanto presidente dessa fundação (o segundo de sua história), o professor Roberto teve papel importante na reformulação do estatuto e estruturação dessa instituição de apoio à pesquisa.

Já enquanto professor da Pós-Graduação de Ciências Sociais da UFPE, orientou diversos trabalhos de Mestrado e Doutorado, mas sua atuação como docente não se restringia ao Brasil, visto que mantinha uma forte inserção internacional. Além das várias palestras que proferia no exterior, o que o levava com freqüência a Inglaterra e aos Estados Unidos, o professor Roberto era, naqueles países, professor visitante das universidades London University e da University of Wisconsin, respectivamente.

Ainda como exemplo da inserção do professor Roberto Aguiar no âmbito acadêmico internacional, é importante salientar que foi sob sua influência que se estabeleceram os convênios com as universidades University of Wisconsin e The London School of Economics and Political Science – LSE, assinados pelo professor quando Coordenador da Pós-Graduação de Ciências Sociais da UFPE. Convênios estes que possibilitaram aos alunos e professores desta universidade a oportunidade de cursarem créditos de pós-graduação naquelas instituições estrangeiras.

Aqui no Brasil, entre outras atividades desempenhadas pelo professor Roberto Aguiar, destacam-se sua participação no processo associativo da ASPE (Associação dos Sociólogos de Pernambuco); e seu trabalho na área de Ciências Políticas, sobretudo com questões eleitorais, objeto de estudo de sua tese de Doutorado. A repercussão de seu trabalho fez com que o professor recebesse propostas para entrar na vida política, vindo a ser consultor político de vários candidatos a cargos legislativos como Marco Maciel, Cid Sampaio, Carlos Wilson, Joaquim Francisco, entre outros. Pela época de sua morte, o professor Roberto Aguiar exercia a função de consultor da UNESCO. Antes disso, em 2000, trabalhou como coordenador do Escritório Regional para o Nordeste do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD/NE).

Em 1995, impulsionado pelas mudanças do governo Collor acerca da aposentadoria, o professor Roberto viu-se levado a aposentar-se de suas atividades como docente da Universidade Federal de Pernambuco, fato que lhe causou grande tristeza e lamento, haja vista sua pouca idade para aposentar-se, pois tinha apenas 47 anos e estava no auge do seu pleno exercício intelectual.

Posteriormente, em 1997, prestou concurso para a Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE, tornando-se professor da graduação daquela instituição.

Ampliando suas ações para além da universidade, o Doutor Roberto Aguiar passa a coordenar o estabelecimento de um Mestrado profissionalizante, voltado para funcionários públicos, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Assim, trabalhando para as Nações Unidas, no Brasil, o Doutor Aguiar torna-se o 1° chefe do Escritório Regional da ONU no Nordeste brasileiro, vindo a desenvolver, sob sua coordenação, entre outros, um programa de alfabetização para jovens e adultos.

Em 13 de junho de 2003, com apenas 56 anos, o professor Roberto se vai, porém não antes de oferecer-nos a lição de que pessoa com deficiência não é sinônimo de ineficiência.

Entre o rico legado que o professor Roberto nos deixou, encontram-se os artigos: “A Frente do Recife e o Populismo em Pernambuco” (Comunicações, 30, PIMES/UFPE, 1987); “O Custo das Campanhas Eleitorais no Brasil” (Cadernos de Estudos Sociais, FUNDAJ, 1989); e “Financial Costs of the Brasilian Elections (H. Alexander, Organizador, 1993); e o livro, “Recife da Frente ao Golpe. Ideologias Políticas em Pernambuco” (1993).

Entretanto, talvez tenha sido na própria pessoa do professor Roberto, o exemplo da riqueza do seu legado. Antes de ser um “portador de deficiência”, antes de ser um cego, antes mesmo de ele ser uma pessoa com deficiência visual, ele era um homem, um ser humano completo com limites, defeitos, gostos, ambição, afeto e dotado de uma inteligência ímpar, a qual soube usar para o benefício da humanidade, tanto com o exemplo de sua vida, quanto com suas aulas, com o registro escrito de suas reflexões e pensamentos. De fato, o professor Aguiar não passou por esta vida, deixando-a passar, porém, construiu nela a passagem de muitos. A passagem de outros que, tendo uma deficiência, terão, no exemplo do professor Roberto, alguém para se mirar e para desejar um dia ser assim: um pai, um amigo, um professor, um cientista ou um escritor, escritor que o professor Roberto o foi, de mão cheia!

Escritor crítico e criativo, ele achava que o papel do intelectual era polemizar e “desafinar o coro dos contentes”; e estava sempre a discutir e a implantar idéias novas. A exemplo disso, seu irmão, o Professor Albino Aguiar, relata que, certa vez, em época de eleição para reitor na UFPE, o Prof. Roberto propôs uma terceira chapa, a Alternativa, em contrapartida às chapas da situação e da oposição, vinculada com o sindicato dos servidores federais, proposição que causou enorme repercussão nos corredores da universidade. Ele não foi eleito, mas provocou expressiva movimentação no cotidiano universitário, comenta o Professor Albino.

Naquele momento, o professor Roberto não foi eleito, porém agora sua eleição como membro da história da educação no Brasil é inconteste. Sua votação é unânime, ele é nosso mestre!

Nota de rodapé

[1] Inclusão: a pessoa com deficiência na universidade, artigo publicado na Revista Nacional de Reabilitação, ano IX, n. 47, nov./dez. 2005, p. 8-11.
[2] Dia Nacional de Luta da Pessoa Portadora de Deficiência: a cada 21 de setembro é comemorado o Dia Nacional de Luta das Pessoas com deficiência (Lei Nº 11.133, DE 14 DE JULHO DE 2005), dia que  foi escolhido pelo movimento social em Encontro Nacional, em 1982, com todas as entidades nacionais de e para pessoas com deficiência . Esse dia foi escolhido pela proximidade com a primavera e o dia da árvore numa representação do nascimento das reivindicações de cidadania e participação plena em igualdade de condições pelas pessoas com deficiência.  A data 21 de setembro é, pois, comemorada e lembrada todos os anos desde então em todos os estados; serve de momento para refletir e buscar novos caminhos nas lutas da pessoa com deficiência, e também como forma de divulgar essas lutas por inclusão social. cedipod.org.br/dia21.htm

Nota: Visando demonstrar, ainda que minimamente, nosso reconhecimento pelas contribuições que o professor Roberto Aguiar nos ofereceu a todos, em particular à Universidade Federal de Pernambuco, o Centro de Estudos Inclusivos, enquanto representante desta universidade, se junta à autora neste relato bibliográfico e rende àquele professor o merecido tributo.

Coordenação do Centro de Estudos Inclusivos (CEI/UFPE, 21 de setembro de 2011).

Capa do livro: “Recife da frente ao golpe. Ideologias Políticas em Pernambuco”, de Roberto Oliveira de Aguiar (1993)
Capa do livro: “Recife da frente ao golpe. Ideologias Políticas em Pernambuco”, de Roberto Oliveira de Aguiar (1993)
Como citar esse artigo [ISO 690/2010]:
Silva Patrícia 2011. Relato de experiência: tributo a um mestre: a trajetória do professor Roberto Aguiar [online]. [visto em 04/ 07/ 2020]. Disponível em: http://audiodescriptionworldwide.com/associados-da-inclusao/rbtv/relato-de-experiencia-tributo-a-um-mestre-a-trajetoria-do-professor-roberto-aguiar/.
Revista Brasileira de Tradução Visual

Este artigo faz parte da edição de número volume: 8, nº 8 (2011).
Para conhecer a edição completa, acesse: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/rbtv-8-sumario.

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