Resumo Este trabalho tem o objetivo de refletir sobre a áudio-descrição como mediação entre os bens culturais e as pessoas com deficiência visual, para isso, apoia-se em questões que surgiram durante a vivência prática com esse instrumento de acessiblilidade comunicacional, bem como, na teoria da mediação. Ele também sugere a adoção do conceito de mediação … Continuar lendo Mediação inclusiva: acessibilidade para as pessoas com deficiência nos espaços de disseminação artística e cultural
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Áudio-descrição da logo da RBTV: Revista Brasileira de Tradução Visual. Em um fundo branco, a mão direita faz a letra t em libras. O indicador e o polegar se cruzam, os demais dedos ficam erguidos. Próximo ao indicador há, em verde, 3 ondas sonoras. Abaixo da mão, lê-se RBTV, com letras verdes e com letras Braille em preto.

Mediação inclusiva: acessibilidade para as pessoas com deficiência nos espaços de disseminação artística e cultural

Resumo

Este trabalho tem o objetivo de refletir sobre a áudio-descrição como mediação entre os bens culturais e as pessoas com deficiência visual, para isso, apoia-se em questões que surgiram durante a vivência prática com esse instrumento de acessiblilidade comunicacional, bem como, na teoria da mediação. Ele também sugere a adoção do conceito de mediação inclusiva e discute a necessidade de se desenvolver esse tipo de mediação nos ambientes de disseminação cultural.

Palavras Chaves: mediação inclusiva, acessibilidade comunicacional, empoderamento, audiodescrição.

Abstract

This paper intends to reflect upon the audio description technique as mediation between cultural means and people with visual disabilities. These ideas spring from practical experience and on the mediation theory. This study also suggests the adoption of  the concept of inclusive mediation and discusses the necessity of developing this kind of mediation within places of cultural dissemination.

Key words: inclusive mediation, communication accessibility, empowerment, audio description.

Considerações iniciais

A época em que nós seres humanos começamos a determinar espaços para reunir, exibir, colecionar, preservar objetos ou idéias e aglutinar pessoas com o objetivo de apreciar e interpretar esses objetos ou idéias, não tem relevância para este trabalho. O fato que estamos enfocando é que, hoje, além de dispormos de lugares para irmos ao encontro de bens artísticos e culturais como, por exemplo, museus, teatros, cinemas, temos também lugares em que esbarramos neles, ou melhor, eles, os bens artísticos e culturais, vêm até nós, eles estão muitas vezes, entre nós, nas ruas, nos hospitais, nos terminais de transportes coletivos, no nosso caminho diário.

Em muitos desses espaços, principalmente nos tradicionais, entramos em contato com a produção de pessoas, as quais foram definidas como obras de arte. Segundo Ana Mae Barbosa a arte pode ter, entre outras funções, a de uma linguagem aguçadora dos sentidos, que transmite “significados que não podem ser transmitidos por nenhum outro tipo de linguagem, como a discursiva e a científica.” (BARBOSA, 2008: 21), ou seja, é o conhecimento adquirido a partir do contato com a obra.

Quando exposto a bens artísticos, o espectador tem a oportunidade de interagir com a obra e tem o poder de traduzir, do seu próprio modo, aquilo que está percebendo. Esse poder incondicional a pessoa que está interagindo com a obra de arte, o filósofo Jacques Rancière chama de emancipação do espectador (RANCIÈRE, 2010). No nosso entendimento, o poder de tradução, de interpretação e de compreensão de uma obra está diretamente associado à vivência econômica, emocional, educacional, psíquica do sujeito que é exposto à obra. Esse poder parece ser permanentemente renovado por meio da necessidade de compreender o diferente, que nessa situação se apresenta como manifestação artística. Dessa forma, qualquer pessoa pode ter compreensão de um evento artístico, cada pessoa tem o seu leque próprio de entendimento. E qualquer entendimento é empoderador. A emancipação, à qual Rancière se refere, também representa uma coletividade, no sentido que esse poder é comum a qualquer pessoa que foi, está sendo, ou será exposta a uma obra de arte ou evento cultural. Esse poder iguala todos os espectadores numa comunidade da mesma forma que os difere. Poderíamos chamar o acontecimento antagônico, de que um bem artístico permite que os espectadores ao mesmo tempo se unam e se distanciem do outro, de equidade coletiva. Todas as pessoas em contato com expressões artísticas vivenciam a igualdade na diferença. Para que a frase seja verdadeira, para que todos possam vivenciar um evento artístico da sua forma particular e de forma semelhante a uma coletividade, precisamos oferecer condições de recepção similares a todas essas pessoas. A igualdade de recepção à que nos referimos aqui está diretamente ligada às condições da mediação que se propõe a oferecer recursos para que as pessoas com deficiência possam ter acesso à bens artísticos e culturais.

Nos caminhos da mediação

Teixeira Coelho define mediação cultural como: “processos de diferente natureza cuja meta é promover a aproximação entre indivíduos ou coletividades e obras de cultura e arte” (COELHO, 1999, pg. 248). Ainda citando Coelho (1999), ele acrescenta que essa aproximação, dos indivíduos com a cultura “é feita com o objetivo de facilitar a compreensão da obra, seu conhecimento sensível e intelectual – com o que se desenvolvem apreciadores ou espectadores, na busca da formação de públicos para a cultura – ou de iniciar esses indivíduos e coletividades na prática efetiva de uma determinada atividade cultural” (COELHO, 1999: 248). Considerando-se esses aspectos, nos interessa refletir sobre as condições oferecidas às pessoas com deficiência visual para a apreciação de um evento artístico. Percebe-se que a acessibilidade comunicacional, especialmente a audiodescrição, pode ser entendida como mediação cultural. Assim a audiodescrição, gênero tradutório de imagens, teria como mediadora as funções assinaladas por Coelho.

Entende-se como acessibilidade comunicacional toda ação que facilita a interação entre as pessoas e o ambiente. São exemplos de instrumentos de acessibilidade comunicacional: a libras – língua brasileira de sinais, a audiodescrição, entre outros instrumentos tais como: o código de escrita Braille, os softwares leitores de tela como o Virtual Vision, Jaws e o NVDA, legendas em português e aparelhos tecnológicos que oferecem recursos para ampliar a recepção de informação das pessoas surdas ou cegas, ou com paralisia cerebral, etc. Essas ferramentas estão incluídas na categoria da tecnologia assistiva[1].

Compreende-se que esses instrumentos de acessibilidade comunicacional agem como mediadores culturais. Mediação referindo-se a “tudo que intervém entre uma obra e sua recepção” (HEINICH, 2008). Ana Mae Barbosa define mediação como “um processo de acompanhamento semiótico e de inter-relação semiótica necessário que intervém em cada ocasião de fabricação de signos” (BARBOSA, 2009: 36).  Na audiodescrição, esta operação tradutória segue a seguinte ordem: imagem – palavra – imagem. A utilização da áudio-descrição, assim como, de outros instrumentos assistivos, em espaços de disseminação cultural,  poderia ser considerada uma forma específica de mediação? A proposta é que essa mediação além de cumprir com o objetivo de mediar, estaria comprometida em mediar para o público de pessoas com deficiência. A este tipo de mediação chamamos de mediação inclusiva.

O que é mediação inclusiva?

O exemplo que segue ilustra uma situação em que houve mediação, mas não houve mediação inclusiva.  O depoimento do aluno Gustavo Tavares Dantas (2010), na Revista Brasileira de Tradução Visual – RBTV, explicita a dificuldade de compreender uma aula de campo em visita ao Espaço Ciência. Ele é pessoa com deficiência visual e, na época, ano de 2007, estava cursando o segundo período de Pedagogia.

“(…) as informações prestadas por alguns colegas da turma em muito pouco contribuíam para a minha ambientação. Expressões como “ali tem uma entrada” é exemplo da descrição que faziam, e que em nada ajudava para o meu entendimento a respeito do ambiente” (DANTAS, 2010).

Ele se pergunta como poderia compreender as experiências se elas eram apresentadas principalmente por recursos visuais. Quando decide se dirigir ao monitor, o desamparo é ainda maior: “A linguagem utilizada pelos monitores, somadas às expressões gestuais sem nenhuma descrição, me fizeram, de uma vez por todas, desistir de entender o que acontecia, passando a fingir que não me importava com o fato de estar sendo negligenciado” (DANTAS, 2010).

Provavelmente, nem os colegas de turma de Gustavo nem o monitor do Espaço Ciência tinham conhecimento da áudio-descrição. Tampouco o Espaço Ciência, órgão de divulgação científica da Secretaria de Ciência e Tecnologia (SECTEC), do Governo do Estado, onde são desenvolvidas atividades educacionais e projetos sociais, tinha – ainda não tem – recursos de acessibilidade comunicacional.

Áudio-descrição como mediação

Poderíamos dizer, segundo Reuven Feuerstein, que Gustavo estava evitando cair no quadro da Síndrome de Privação Cultural. As pesquisas de Feuerstein demonstram que pessoas que vivem em situações de exclusão social e cultural apresentam “limitações à curiosidade, à interação e a exploração, bem como em conceitualizar, abstrair, simbolizar e representar” (MEIER, 2007: 28). É no sentido inverso, que o mediador da AD trabalha. O áudio-descritor possibilita a interação do usuário com o evento áudio-descrito permitindo que haja a interpretação do conteúdo traduzido e autonomia para compreender conteúdos simbólicos representados por eventos culturais. A áudio-descrição abre o caminho para a acessibilidade cultural e para a exposição a esses bens culturais “trazem à tona, sob determinadas circunstâncias, questões de identidade, memória, identidade cultural, pertencimento, autoestima” (WILDE, 2009: 24). Ela busca suprimir a lacuna deixada a partir do momento em que o espectador cego não percebe a informação contida em evento imagético, provavelmente escolhidos para explicar, detalhar, complementar, representar, simbolizar algo. Traz Sentimento de pertencimento que dá sentido à vida. (HALL, 2000).

Na áudio-descrição podemos encontrar o aspecto pedagógico da mediação. Faz parte do roteiro da áudio-descrição as notas proêmias que, segundo Lima (2011),

antecede, apresenta e instrui a própria áudio-descrição, oferecendo, entre outras,  informações a respeito  daqueles elementos, cujas descrições não seriam possíveis de fazer no corpo do texto áudio-descritivo, por falta de tempo (no caso de áudio-descrição dinâmica, nos filmes, por exemplo), ou por falta de espaço, no caso de áudio-descrição estática (em imagens contidas em livros, em catálogos, cardápios e outros) (LIMA, 2011:14).

Além de contribuir para esclarecer o próprio recurso tradutório a que a a-d se presta, as notas proêmias irão fornecer conhecimentos sobre a obra que está sendo áudio-descrita, como por exemplo:

o tema da obra;  a autoria da obra; o tipo/técnica utilizada na obra; as propriedades das imagens; o estilo; a natureza  da obra (se são gravuras, fotografias, brasões, selos, sinetes, lacres, chancelas, estampilhas, papéis selados,  desenhos etc.); o estado da obra (se o documento ou imagem é original, réplica,  cópia, ou se está em bom estado de conservação etc.); a descrição de personagens (dos filmes, dos espetáculos e livros),  ou de pessoas (um palestrante em um seminário, por exemplo); a descrição do figurino, do cenário, etc.; a definição de termos utilizados na áudio-descrição; e tudo mais que for essencial à compreensão da obra e da áudio-descrição em si, mas que não se tem tempo para se áudio-descrever durante a locução, ou espaço, no corpo da redação áudio-descritiva (LIMA, 2011:15).

Nessa etapa do processo de mediação, também está imbricada a formação do usuário da áudio-descrição. Ainda que a noção de mediação cultural apresente uma preocupação com a dimensão pedagógica e educacional, o termo surge filiado à democratização cultural e designa o modus operandi dessa ideologia (PUPO, 2011).

Isso nos leva a refletir sobre a prática das políticas públicas no nosso Estado de Pernambuco. Observamos que no que se refere à oferta de mediadores inclusivos em espaços públicos, houve pouco avanço em quantidade e qualidade, o que reflete no número reduzido de pessoas com deficiência nos ambientes de cultura e lazer.

Souza (2004) fala da dificuldade dos indivíduos privados culturalmente, pela falta de mediação, de buscarem significado para os acontecimentos de sua vida. Situando a problemática da falta de mediação inclusiva para as pessoas cegas ou com baixa visão, constatamos que a maioria das salas de cinema, dos teatros e dos museus de Pernambuco. Apenas três casas de espetáculo possuem cabine de tradução. Nenhum espaço possui o equipamento adequado para a transmissão da áudio-descrição, que consiste dos mesmos aparelhos utilizados para uma tradução simultânea.

No âmbito municipal, Prefeitura da Cidade do Recife esforça-se para cumprir um Termo de Ajustamento de Conduta – TAC, emitido pelo Ministério Público, a fim de se ofereça acessibilidade nas salas de espetáculo.

Na perspectiva de uma inclusão para todos, de Sassaki (1997), a Política Nacional de Inclusão tem como uma de suas metas a valorização das diferenças, mas isso parece não se concretizar quando principalmente os ambientes públicos deixam de oferecer acessibilidade às pessoas com deficiência que sem essas ferramentas dificilmente terão a oportunidade de acessar os conhecimentos e provavelmente apresentarão uma redução no repertório de produção das formas de significação, de identificação cultural e desenvolvimento individual.

A mediação inclusiva é um fator motivador da presença de pessoas com deficiência em lugares públicos. É uma perspectiva para receber pessoas com qualquer tipo de limitação, seja ela a física, a auditiva, a visual ou a cognitiva, em ambientes destinados à disseminação da arte e da cultura. Caillet (2009) defende que o público só frenquentará os espaços de difusão de arte quando “se sentir verdadeiramente ‘em casa’, acompanhado por mediadores que o conheçam bem” (CAILLET, 2009: 82). Ela chama atenção para mediadores capacitados, que conheçam as especificidades do público atendido. Entendendo o mediador como um dispositivo, uma máquina ou um ser humano que age como um intérprete, que se utiliza de um processo semiótico inserir os interpretantes, e atua para facilitar, desenvolver, efetivar, enriquecer, ampliar e mesmo questionar o processo interpretativo. (DARRAS, 2009: 36).

Considerações finais

A implantação da mediação inclusiva demanda o envolvimento de pessoas com deficiência preparadas para contribuir com o planejamento e exige preparo técnico que quem vai executá-la.  Levantamos algumas dúvidas para que possam ajudar a elaborar estratégias de mediação inclusiva.  De que forma poderia ser delineada a relação do mediador e do mediado, no âmbito da mediação inclusiva? Quais as intervenções materiais e subjetivas que a áudio-descrição pode promover nas pessoas que desenvolvem, nas que oferecem e nas que recebem a mediação inclusiva?

Acreditamos que, com a oferta da mediação inclusiva, será possível colaborar para desenvolver estratégias que possam ser usadas em programas de formação de mediadores culturais, bem como na elaboração de políticas públicas que possam assegurar o uso de instrumentos de acessibilidade comunicacional, mais especificamente a áudio-descrição, nos espaços públicos de disseminação de cultura.

Referências bibliográficas

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Nota de rodape

[1] Tecnologia assistiva é um termo utilizado para identificar todo o arsenal de recursos e serviços que contribuem para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com deficiência e, consequentemente, promover vida independente e inclusão. (MAYER, 2011)

Como citar esse artigo [ISO 690/2010]:
Tavares Liliana Barros 2011. Mediação inclusiva: acessibilidade para as pessoas com deficiência nos espaços de disseminação artística e cultural [online]. [visto em 28/ 10/ 2020]. Disponível em: http://audiodescriptionworldwide.com/associados-da-inclusao/rbtv/mediacao-inclusiva-acessibilidade-para-as-pessoas-com-deficiencia-nos-espacos-de-disseminacao-artistica-e-cultural/.
Revista Brasileira de Tradução Visual

Este artigo faz parte da edição de número volume: 9, nº 9 (2011).
Para conhecer a edição completa, acesse: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/rbtv-9-sumario.

Publicado por

  • Psicóloga, Mestre em Educação pela UFPE, Professora de Psicologia da Faculdade de Saúde – FPS e da UFRPE. Áudio-descritora pelo CEI/UFPE.View all posts by Liliana Barros Tavares

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