Resumo Neste trabalho são sumariadas as origens e os traços que caracterizam as eminências e os gênios. Evidências historiométricas, psicométricas e psiquiátricas são usadas para demonstrar as principais características e traços de personalidade dos gênios em diferentes domínios, bem como, sua complexa relação com as desordens psicopatológicas. Tais evidências sugerem que vários sintomas de psicopatologia … Continue reading Gênios: origens e traços
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Gênios: origens e traços

Resumo

Neste trabalho são sumariadas as origens e os traços que caracterizam as eminências e os gênios. Evidências historiométricas, psicométricas e psiquiátricas são usadas para demonstrar as principais características e traços de personalidade dos gênios em diferentes domínios, bem como, sua complexa relação com as desordens psicopatológicas. Tais evidências sugerem que vários sintomas de psicopatologia parecem ocorrer numa taxa mais elevada e em maior intensidade entre os gênios do que na população em geral e, além disso, a taxa e intensidade destes sintomas variam entre os diversos domínios em que a genialidade se manifesta.

Palavras-chave: Gênios, Inteligência, Habilidade cognitiva, Talentoso, Superdotado.

Abstract

This paper summarized the origins and traits that characterize the eminences and geniuses. Historiometrics, psychiatrics and psychometrics findings are used to demonstrate the main characteristics and personality traits of geniuses in different fields, as well as its complex relationship to psychopathological disorders. Such evidence suggests that various symptoms of psychopathology appear to occur at a higher rate and to a greater extent between the geniuses than in the general population, and in addition, the rate and intensity of these symptoms varies according to the specific fields in which the genius manifests.

Key-words: Genius, Intelligence, Cognitive Ability, Talented, Gifted

As eminências

Em 1926, Catharine Cox, um dos membros da equipe do renomado psicólogo norte-americano Lewis Terman, criador e divulgador do teste de inteligência Stanford-Binet, o mais utilizado no mundo para aferir as habilidades humanas, empreendeu a notável e complexa tarefa que alguns achavam praticamente impossível: estimar o Quociente Intelectual (QI) dos grandes personagens da história da humanidade. Sua hipótese era de que se confirmasse que esses personagens históricos se situam na camada mais elevada da distribuição populacional da escala universal de inteligência, fato este que, então, poderia corroborar que o QI constitui uma capacidade mental básica extremamente funcional no mundo cotidiano. Em outras palavras, foram famosos e produtivos porque foram, sobretudo, eram inteligentes.

O estudo compilou uma lista de mil personagens, baseando-se na extensão que lhes era dedicada nos dicionários biográficos e enciclopédias mais importantes. Depois de comprovar a informação disponível, a lista foi reduzida para 282 personagens. Em seguida, esses personagens foram exaustivamente analisados, assinalando em cada um deles duas pontuações de QI: uma, correspondente à primeira parte da vida (do nascimento até aos 17 anos) e a outra, dos 18 nos em diante.

Cada personagem recebeu inicialmente um escore de 100, a pontuação correspondente à média da população. Posteriormente, adicionavam-se pontos segundo a informação disponível acerca de seus feitos, prestando especial atenção às demonstrações de precocidade. Esses dois conjuntos de escores foram, então, submetidos a uma fórmula de correção para ajustar os dados quanto à fidedignidade, produzindo dois outros conjuntos de pontuações. As correlações entre estes quatro conjuntos de escores variaram de 0,70 a 0,86 (a correlação máxima é 1,0), indicando que eles mediam o mesmo constructo.

Consequentemente, foi calculada a média dos quatro conjuntos para produzir uma simples pontuação para cada personagem histórico. Assim considerando, Cox aplicou uma abordagem historiométrica para obter estimativas de QI para eminentes criadores e líderes da moderna civilização ocidental.

Em particular, ela examinou informação biográfica de um de seus ídolos, Francis Galton, menino prodígio, genial e criativo. No fim de seu primeiro ano de vida, ele conhecia as letras maiúsculas e, 6 meses depois, conhecia todo o alfabeto com letras maiúsculas e minúsculas; ele podia ler com dois anos e meio; lia qualquer livro em inglês antes dos 5 anos (o que estava eu fazendo nesta mesma idade?). Em geral, Galton estava fazendo coisas que a maioria das crianças não consegue fazer até ter o dobro de sua idade. Ele, realmente, era um menino brilhante e se tornou um dos cientistas mais produtivos e criativos de sua geração.

Além de estimar o QI desses personagens históricos, Cox pontuou e ordenou a(s) criação(ões) que cada personagem tinha realizado. O nível de eminência foi baseado na quantidade de espaço devotado a cada figura histórica em função dos trabalhos realizados descritos em referências padronizadas. A correlação entre as estimativas de QI e os níveis de eminência foi 0,25, a qual foi, posteriormente, replicada em vários outros estudos historiométricos, e a mesma parecia se manter para diferentes grupos especializados, tais como, presidentes norte-americanos, monarcas europeus, líderes religiosos, escritores, artistas, compositores, cientistas e comandantes militares, entre outros.

O quociente intelectual de Sir Francis Galton foi estimado em 200, o de John Stuart Mill em 190, o de Goethe e Leibniz em 185, o de Pascal em 180, o de Voltaire em 170, o de Mozart em 150, o de Galileu em 145, o de Kepler em 140, o de Newton em 135, os de Kant, Napoleão e Darwin 130 e os de Cervantes e Copérnico em 105. Interessante notar que, usando estes mesmos critérios, foi possível estimarmos o QI de Santos Dumont em, aproximadamente, 148.

O QI médio dos 282 personagens analisados por Cox foi 155, mas muitos apresentavam QI por volta de 175 e, vários outros, acima de 200. Não obstante, estas estimativas devem ser consideradas como aproximações e entendidas como mera curiosidade. Não devemos, entretanto, concluir apressadamente que os grandes personagens da história são os representantes mais inteligentes da humanidade. É muito provável que, devido aos feitos exigidos para entrar neste panteão de reconhecimento universal, alta inteligência seja um dos requisitos para se tornar um grande personagem da humanidade, mas alta inteligência não garante a realização de grandes feitos valorizados socialmente. Você acredita?

Gênios?

Certamente, muitos de nós, ao adentrarmos na pré-escola, ou escola, já folheamos aquelas grandes enciclopédias histórico-geográficas, repletas de figuras, mapas e, principalmente, de fotos de personagens que jamais vimos em nossa vida. E nos perguntamos, “Por que essas fotos não são de nossos pais, amigos e conhecidos? Por que não são, também, conhecidas de muitos de nossos professores?”. A resposta não é imediata. É preciso que o tempo passe para tomarmos conhecimento de que tais faces foram de personagens que criaram algo que, substancialmente, mudou o destino da Humanidade. Muitos foram cientistas, pintores, escultores, líderes político-religiosos e afins, conhecidos no mundo todo pelo que fizeram. Mas… por que tão poucos?

Nós, gradualmente, ao longo de nossa vida estudantil, fomos descobrindo o segredo. Fomos aprendendo que muitos desses personagens ocupavam muito espaço na história universal. O elemento comum que os unia? A sua genialidade. Todavia, o que é um gênio? Neste tempo atual que vivemos, já moldado pelos estudos especializados da pós-graduação, podemos, imediatamente, identificar muitos gênios, facilmente nomeáveis: Bill Gates, Nelson Mandela, Stephen Hawking, Stephen Spielberg, Paul McCartney, Meryl Streep, Garry Kasparov, Kobe Bryant, José Saramago, Machado de Assis. César Lattes e Steve Jobs entre outros. Os critérios que utilizamos para identificá-los como gênios? Temos certeza de que você, seus amigos e os amigos de seus amigos saberão dizê-los.

É difícil imaginar a história do mundo civilizado sem a contribuição de gênios específicos. Na história ocidental, por exemplo, o que seria da Grécia, sem Aristóteles e Alexandre, o Grande? A Itália, sem Dante e Michelangelo? A Espanha, sem Cervantes e Goya? A França, sem Descartes e Napoleão? A Alemanha, sem Goethe e Beethoven? A Holanda, sem Rembrandt e Vermeer? A Inglaterra, sem Shakespeare e Newton? Os Estados Unidos, sem Jefferson e Whitmam? A Rússia, sem Tólstoi e Lenin? Portugal, sem Saramago e Fernando Pessoa? O Brasil, sem Santos Dumont e Pelé?

Cada uma dessas culturas, em verdade, sofreria uma grande perda não apenas em prestígio e influência, mas, sobretudo, no reconhecimento de sua própria identidade. A Literatura Inglesa, sem os poemas e as peças teatrais de Shakespeare, seria igual a uma Londres sem sua torre, ou sem a Abadia de Westminster, sem a Catedral de Saint Paul e sem o Big Ben. Ora, é imaginar o Brasil sem Pelé?

Não obstante, mais do que conceber o impacto dos gênios em termos da herança cultural mundial, podemos contemplar sua significância em relação a domínios particulares das realizações humanas. Onde estaria a Filosofia, sem Platão? A Matemática, sem Euclides? A Literatura, sem Saramago? A Astronomia, sem Copérnico? A Física, sem Einstein? A Química, sem Lavoisier? A Biologia, sem Darwin? A Medicina, sem Pasteur? A Arte, sem Picasso? A Tecnologia, sem Edison? A Aviação, sem Santos Dumont? O Futebol, sem Pelé?

Seria muito diferente, não?

Gênios fazem a diferença. Que tal, então, procurarmos gênios, bem como, talentos excepcionais, em diferentes domínios como, por exemplo, em nossos bancos escolares? Não temos dúvidas, e achamos que jamais as teremos, de que o futuro da nação está nas mãos dos gênios e dos talentosos.

Gênio e loucura

Criatividade, similar a genialidade, já foi concebida como um fenômeno espiritual. Na antiguidade, ser criativo era ser divino. Quase toda cultura tem seu mito de criação contando as realizações miraculosas de algum poder espiritual. Ao longo do tempo, os seres humanos foram vistos, também, como manifestando criatividade; mas, mesmo assim, a fonte última da criatividade humana frequentemente permanece sendo a espiritual.

Uma concepção intermediária transparece na clássica mitologia grega das Musas. No caminhar da história, Zeus, a divindade suprema no panteão, pai, com Mnemosyne (a personificação da memória), de nove filhas, cada uma das quais responsável por um domínio separado da criatividade humana: poesia épica ou heroica, poesia lírica ou romântica, poesia sagrada, tragédia, comédia, música, dança, astronomia e história. Cada Musa imortal fornecia um guia espiritual ou fonte de inspiração para o criador mortal. Em outras palavras, cada Musa, contribuindo para o mesmo domínio, era o gênio para todos os criadores naquele assunto específico.

Ao longo dos anos, este mito tem inspirado muitas manifestações humanas cotidianas. Por exemplo, podemos dizer que perdemos nossa musa quando perdemos a inspiração para escrever artigos científicos, livros didáticos, dar aulas, ministrar palestras, entre outros. Até parece que nossa musa abandonou-nos porque temos estado, nos últimos tempos, pouco inspirados a escrever. No filme, de 1999, A Musa, Sharon Stone, que é mais relembrada pelo seu profano papel na película, de 1992, Instinto Selvagem, desempenha uma deusa que ajuda um roteirista que tinha perdido seu poder criativo. O filme ilustra o fato de que a criatividade humana era concebida como um dom dos deuses ou dos espíritos. Mesmo durante a Renascença, esta atribuição permaneceu. Por exemplo, Giorgio Vasari, biógrafo do “divino” Michelangelo, declarou que “o grande criador do universo”, especificamente, colocou o artista na terra para este servir como um exemplar do gênio artístico.

Você assistiu ao filme, de 2001, Uma Mente Brilhante? O magistral Russell Crowe representa John Nash, um matemático genial que sucumbe à esquizofrenia paranoide, à sua maneira, até ser laureado com o Prêmio Nobel em Economia. No clássico Frankenstein, um cientista “louco”, notoriamente gritou: “Ele está vivo! Ele está vivo! “quando sua criatura ultrajante ganha vida”. A fascinação de Hollywood com gênios loucos não é exclusivamente confinada ao domínio científico. De Kirk Douglas, como van Gogh no filme Sede de Viver, de 1956, a Ed Harris, como Jackson Pollock, no filme de 2000, Pollock, a associação entre genialidade e loucura é usualmente enfatizada. Hollywood parece ter uma preocupação com a brilhante insanidade, propagando a imagem popular do cientista excêntrico ou do artista atormentado.

Esta fascinação pela genialidade e loucura também pode ser encontrada nos escritos da Antiguidade. O filósofo grego Aristóteles observou que, “Aqueles que se tornaram eminentes em Filosofia, Política, Poesia e nas Artes têm, todos, tendências à melancolia”, enquanto ao Filósofo Romano Sêneca é creditado ter dito que, “Nenhum grande gênio existiu sem algum toque de loucura”. Na verdade, a ideia do gênio louco persistiu ao longo de toda a era moderna e, até mesmo, foi popularizada nos círculos científicos. Não apenas o gênio era concebido como louco, mas também, o era associado com criminalidade e degeneração genética. Sem loucura, não há gênio! Parece que, gênio e loucura não são gêmeos idênticos, mas são gêmeos fraternos. Vela e chama, se nunca juntos, também nunca separados.

O que, de fato, os dados historiométricos, psicométricos e psiquiátricos nos dizem? Acompanhem-nos.

Evidências historiométricas

Registros históricos são repletos de exemplos típicos da associação entre gênio e loucura. De fato, vários pesquisadores têm, exaustivamente, compilado listas de grandes gênios que sucumbiram a uma ou outra doença mental. Esses gênios podem ser criativos, ligados às letras e artes, em geral, e às ciências.

Dentre os gênios que vivenciaram uma séria desordem mental, em algum momento da vida, encontramos os cientistas Newton, Darwin, Galton, Freud; os filósofos Rosseau, Nietzsche, Kierkegaard; os romancistas Balzac, Dostoiévski e Kafka; os dramaturgos Schiller, Lorca e Tennessee Williams; os poetas Emily Dickinson, Rimbaud, Ezra Pound; os pintores Michelangelo, Modigliani e Rothko; e os compositores Schumann, Gershwin e Rachmaninoff.

Com muita frequência, estas desordens terminam de maneira trágica e direta: no suicídio. Dentre estes suicidas famosos estão: Alan Turing, George Eastman, Ernest Hemingway, Jack London, Horacio Quiroga, Virginia Woolf, Vincent Van Gogh e Peter Tchaikovsky. Há, também, aqueles que, sem sucesso, tentaram acabar com a própria vida, tais como, Comte de Saint-Simon, William James, Dorothy Parker, Louy de Maupassant, Maxim Gorky e Hugo Wolf, Camilo Castelo Branco.

Em outras ocasiões, a saúde mental adota um rótulo mais sutil, mas, ainda, pernicioso: o alcoolismo. A lista de gênios alcoólatras na literatura, sozinha, sobrepõe as de todos os outros domínios da criação humana. Dentre eles: Charles Baudelaire, Truman Capote, Samuel Coleridge, William Faulkner, F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Victor Hugo, Samuel Johnson, James Joyce, Jack Kerouac, Jack London, Edgar Allan Poe, Jean Paul Sartre, John Steinbeck, Mark Twain, Tennessee Williams, Thomas Wolfe, Lima Barreto e Nelson Rodrigues etc.

Algum grau de doença mental ficou supostamente evidente em líderes famosos e infames. Dentre eles: Churchill, U. S. Grant, Alexander Hamilton, Adolf Hitler, Howard Hughes, Abraham Lincoln, Martin Luter King, Florence Nightingale e atores prodígios, como, por exemplo, James Dean, Clark Gable, Janis Joplin e outros.

Concluindo, podemos destacar cinco elementos fundamentais da manifestação genial, que são: 1º) comparativamente à população geral, os gênios, em diferentes domínios, parecem exibir alta taxa e alta intensidade de psicopatologia; 2º) quanto mais eminente o gênio tanto mais alta são a taxa esperada e a intensidade dos sintomas psicopatológicos; 3º) dentre as patologias disponíveis, depressão parece ser a mais frequente, ao longo dos seus correlatos de suicídio, alcoolismo e abuso de drogas; 4º) uma linhagem familiar, que produz os gênios mais eminentes, tende, também, a caracterizar uma alta taxa e intensidade de psicopatologia, com a origem familiar apresentando tanto vantagens, quanto desvantagens, isto é, tanto a loucura quanto a genialidade; e 5º) a taxa e a intensidade dos sintomas variam de acordo com o domínio da criação.

Uma curiosidade: a psicopatologia é mais elevada entre gênios artísticos do que entre gênios científicos. Também: governantes tiranos exibem as mais altas taxas de tudo, aproximadamente, 91% deles apresentando alguma psicopatologia. Você assistiu ao filme de 2006, O último rei da Escócia, o qual foi estrelado por Forest Whitaker, que ganhou o Oscar por representar o ditador ugandense Idi Amin? Nele, parece que gênio e loucura são um só personagem, pois o autoritarismo e a impulsividade do mesmo beiravam a insanidade.

Evidências psiquiátricas

Há uma opinião generalizada de que os gênios são loucos. Mas, pensemos: “Se são loucos, como podem ser gênios?”. Frequentemente, a expressão “gênio louco” é popularizada na sociedade, de modo que se reconheça que “insanidade” pode gerar “originalidade”, ou, então, que alguma forma especial de insanidade é parte intrínseca da definição de genialidade.

Uma análise psiquiátrica, baseada nos estudos historiométricos de gênios que faleceram séculos atrás, é muito difícil. Todos sabem que o diagnóstico clínico não é uma tarefa fácil, mesmo quando o paciente, ou cliente, está sentado a nossa frente, em consultórios clínicos. Portanto, qualquer análise baseada em gênios já falecidos é, além de complexa, pura inferência e nada satisfatória.

Um exemplo seria citar o compositor alemão Robert Schumann, que teve uma série, bem documentada, de crises maníaco-depressivas, bem como, uma tentativa de suicídio e internação em instituição mental. Por sua vez, o compositor russo Sergei Rachmaminoff dedicou seu Second Piano Concert a seu psiquiatra e, adicionalmente, o compositor americano George Gershwin, algumas vezes, quando em férias, levava consigo seu terapeuta. Já o pintor holandês Hieronymus Bosch é considerado psicótico, baseado nas imagens fantásticas de suas gravuras. Para estudiosos, seguramente ele era alucinado.

Investigações deste contexto? Diversas. A primeira examinou 15 escritores, alguns dos quais grandes nomes da criatividade literária nos EUA. Contrastando escritores com sujeitos-controle similares à exceção da criatividade literária, análises revelaram que escritores foram cinco vezes mais prováveis de serem tratados por uma desordem afetiva e, além disso, três vezes mais prováveis de serem alcoólatras. Num acompanhamento posterior, conduzido alguns anos depois, foram encontrados que 80% tiveram alguma desordem afetiva, com 30% continuando a sofrer com o alcoolismo e 10% cometendo suicídio.

Na segunda, acompanhou-se 47 notáveis artistas e escritores na Grã-Bretanha. Aproximadamente 1/3 buscou ajuda terapêutica para uma desordem afetiva, sendo os escritores piores que os artistas e os poetas piores que todos. Neste contexto, os não-ficcionistas, como, por exemplo, os biógrafos, permaneceram no melhor estado psicológico que os outros escritores. Ainda, aproximadamente metade dos poetas necessitou de sérios tratamentos médicos em forma de medicamentos, ou mesmo, hospitalização. Uma vez mais, depressão, com outras desordens afetivas, apareceu como sintoma mais frequente, iguais, em conjunto, à mania, em posições imediatamente anteriores.

De acordo com ambas as investigações, conclui-se que a taxa e a intensidade da psicopatologia parecem ser elevadas nos criadores supremos, permitindo-nos inferir que ambas podem: (a) correlacionarem-se positivamente com a magnitude do gênio criativo e (b) parecerem ser mais inerentes nos criadores artísticos do que entre os criadores científicos. Portanto, genialidade e patologia parecem caminhar juntas dentro da mesma linhagem familiar. Mas, isto é assunto para geneticistas.

Evidências psicométricas

Contrastando com os dados historiométricos e psiquiátricos já apresentados, que primaram por serem qualitativos, os dados psicométricos comentados a seguir primam por basearem-se em métodos quantitativos. A Psicometria, área que se ocupa da quantificação dos traços e habilidades humanos, vai muito além do QI. Os pesquisadores neste domínio podem avaliar diferenças individuais, além das já tradicionais avaliações em inteligência. Neste contexto, pesquisadores podem aplicar instrumentos que capturam os traços de personalidade que estão mais proximamente relacionados à psicopatologia. Tal como nos testes de inteligência, os questionários de personalidade podem ser padronizados com grandes amostras, de forma que, qualquer traço, ou característica de personalidade, que fujam dos padrões normais, podem ser enfatizados, ou seja, analisados mais cuidadosamente. No caso dos gênios, os escores extraordinários dos mesmos podem ser contrastados com o escore médio da população. Estas diferenciações são quantitativas, mais do que qualitativas, tais quais foram obtidas nos métodos anteriores.

As evidências psicométricas, em sua maior parte, têm revelado que indivíduos criativos tendem a pontuar acima da média em várias dimensões relacionadas à psicopatologia. Por exemplo, criatividade é positivamente associada com escores na sub-escala de psicoticismo, que é uma das dimensões geradas a partir da análise fatorial das respostas dadas a um inventário de personalidade. Pessoas que pontuam mais elevado do que o normal na sub-escala de psicotismo tendem a ser agressivas, frias, egocêntricas, impessoais, impulsivas, antissociais, sem empatia e muito fechadas. Não obstante, criadores excepcionais nas artes tendem a ter pontuações mais elevadas do que criadores excepcionais nas ciências. Como exercício prático, compare a personalidade de Picasso com a de Einstein para apreciar o quão mais elevado era o primeiro na dimensão psicotismo. Concorda?

Ademais, não é simplesmente o caso de as pessoas criativas pontuarem mais elevadamente em tais dimensões, mas, também, é o caso de as pessoas mais altamente criativas pontuarem mais elevadamente que as menos criativas, as quais, por sua vez, pontuam mais elevadamente que as pessoas não criativas. Essa relação positiva foi demonstrada num estudo de escritores criativos usando o Inventário Multifatorial de Personalidade de Minnesota. Também, aqueles escritores que foram altamente bem-sucedidos em suas carreiras pontuaram de forma mais elevada em outras dimensões deste Inventário, tais como, depressão, hipocondria, paranoia, esquizofrenia etc., do que aqueles que são ainda criativos, mas não tão bem-sucedidos, ainda que, estes últimos pontuem acima do normal em cada uma das dimensões do Inventário. Outros dados revelam que artistas muito bem-sucedidos pontuam de forma mais elevada em psicotismo do que seus colegas profissionais, que, por sua vez, pontuaram mais elevadamente nessa mesma dimensão do que os não-artistas.

Apesar destas associações é importante destacar dois aspectos: 1º) embora indivíduos altamente criativos sejam predispostos a ter escores mais elevados em certas escalas clínicas, seus escores raramente são tão extremos para indicar uma doença autêntica. Ao contrário: seus escores situam-se entre as amplitudes normal e anormal. Seus escores elevados, usualmente, são correlacionados com independência e inconformismo, traços estes que ajudam os gênios a manterem a sua originalidade. Portanto, o que uma pessoa média poderia ver como um acidente, ou circunstância, outra, altamente criativa, vê o mesmo evento como uma oportunidade significativa, ou seja, elas veem algo onde outros não veem nada; 2º) criadores excepcionais pontuam, também, de forma elevada em outros traços psicopatológicos que mascaram os efeitos negativos de qualquer psicopatologia incipiente. Por exemplo: os criadores têm um alto grau de autossuficiência e robustez de ego quando comparados com a população em geral. Por esta razão, eles podem exercer controle metacognitivo sobre qualquer sintoma psicopatológico que possa, eventualmente, aparecer.

Portanto, parece que os gênios sabem tomar vantagens de seus traços psicopatológicos. Como? Convertendo-os em ingredientes-ativos para o fomento de sua criatividade e excelência.

Referências

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Sternberg, R.J., Jarvin, L., & Grigorenko, E.L. (2011). Explorations in giftedness. New York: Cambridge University Press.

Como citar esse artigo [ISO 690/2010]:
Silva José Aparecido da Santos Rosemary Conceição dos 2012. Gênios: origens e traços [online]. [visto em 12/ 07/ 2020]. Disponível em: http://audiodescriptionworldwide.com/associados-da-inclusao/rbtv/genios-origens-e-tracos/.
Revista Brasileira de Tradução Visual

Este artigo faz parte da edição de número volume: 12, nº 12 (2012).
Para conhecer a edição completa, acesse: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/rbtv-12-sumario.

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