Uma versão anterior deste trabalho foi publicada em http://mindfulresearch.co.uk/2011/08/29/autistic-spectrum-captions-and-audio-description/ O texto a seguir foi originalmente escrito por Judith Fellowes publicado em: audiodescriptionworldwide.com/rbtv/autistic-spectrum-captions-and-audio-description e traduzido por Tereza R. Gomes abaixo. Resumo Este artigo aborda como a áudio-descrição, destinada às pessoas cegas ou com deficiência visual, e legendas, destinadas às pessoas surdas ou com deficiência auditiva, podem dar … Continue reading Espectro autístico, legendas e áudio-descrição
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Audio Description Worldwide Consortium
Áudio-descrição da logo da RBTV: Revista Brasileira de Tradução Visual. Em um fundo branco, a mão direita faz a letra t em libras. O indicador e o polegar se cruzam, os demais dedos ficam erguidos. Próximo ao indicador há, em verde, 3 ondas sonoras. Abaixo da mão, lê-se RBTV, com letras verdes e com letras Braille em preto.

Espectro autístico, legendas e áudio-descrição

Uma versão anterior deste trabalho foi publicada em http://mindfulresearch.co.uk/2011/08/29/autistic-spectrum-captions-and-audio-description/


O texto a seguir foi originalmente escrito por Judith Fellowes publicado em: audiodescriptionworldwide.com/rbtv/autistic-spectrum-captions-and-audio-description e traduzido por Tereza R. Gomes abaixo.


Resumo

Este artigo aborda como a áudio-descrição, destinada às pessoas cegas ou com deficiência visual, e legendas, destinadas às pessoas surdas ou com deficiência auditiva, podem dar suporte a pessoas com outras deficiências e necessidades de acessibilidade, em particular com autismo.
Palavras-chave: Espectro autístico, legendas, áudio-descrição, necessidades de acessibilidade, televisão.

Abstract

This article discusses how audio description intended for people who are blind or visually impaired and captions intended for people who are deaf or hard of hearing can support people with other access needs particularly autism.
keywords: Autistic spectrum, captions, audio description, access needs.

Introdução

Você deve estar pensando o que é que legendagem e áudio-descrição (A-D) têm a ver com o espectro autístico. Afinal, não são as legendas para as pessoas surdas com deficiência auditiva e a áudio-descrição para as pessoas com deficiência visual?

Nestes últimos anos a pesquisa que fiz revelou que a áudio-descrição e as legendas podem beneficiar, e são utilizadas por pessoas com espectro autístico.

Muitas das discussões para um ambiente mais acessível, seja físico ou digital, começam com raciocínios tais como ‘rampas para cadeirantes são úteis para carrinhos de bebês’. Legendas e áudio-descrição são uma rampa metafórica e fornecem valor de um tipo diferente às pessoas com espectro autístico. Não há nada de novo em dar um novo propósito para a tecnologia, cada um que promove desenvolvimento tem histórias de como os usuários dão um novo propósito aos seus produtos.

1. O que é espectro autístico?

Evitarei diagnósticos médicos aqui, uma vez que analiso o assunto de uma perspectiva de experiência de usuários. Sou fortemente influenciada pelo modelo social de deficiência, que dá enfoque no que as pessoas podem fazer ao invés do que elas não podem fazer, e a neurodiversidade que interpreta o espectro autístico não como algo separado ou que falta, mas como parte de uma gama do comportamento humano. Vou examinar como o espectro autístico afeta a interação e o entrosamento das pessoas. Tipicamente, as pessoas com o espectro autístico, o que inclui também as pessoas com Asperger, lutam para entender as emoções humanas e para interagir com as pessoas.

Assim, as pessoas com espectro autístico, por exemplo:

  • Podem não compreender o sarcasmo ou certos tipos de humor.
  • Podem lutar para compreender comunicações não-verbais tais como ler as emoções no rosto de outra pessoa e as inferências da linguagem corporal.
  • Podem não saber se uma pessoa está com raiva, triste, desapontada ou alegre.
  • Podem ter dificuldade em reconhecer rostos diferentes e identificar pessoas.
  • Podem lutar com o processamento de áudio, como por exemplo compreender pessoas que conversam de forma muito rápida ou diversas pessoas que falam ao mesmo tempo, talvez com ruídos de fundo.

Outra característica do espectro autístico é um foco intenso em uma pequena área de interesse, e o termo técnico para isso é Monotropismo.

O significado de Monotropismo é que uma pessoa com espectro autístico focaliza com grande detalhamento uma ou duas coisas, ao invés de observar tudo amplamente. O que significa que qualquer área de assunto é observada com grande detalhamento e cada detalhe de algo deve ser compreendido ou toda a informação pode se tornar inválida.

Em uma entrevista que fiz com uma pessoa com espectro autístico, ela me disse que todo link em uma página na web tinha que ser seguido. Isto é, todas as referências e todos os hyperlinks. Leva muito tempo para entrar em tudo, e se alguma das informações conflitar com o modelo mental do próprio indivíduo, então tudo ficaria inválido.

O monotropismo pode na verdade ser de grande valia em alguns ambientes onde é necessário precisão, detalhamento e grande exatidão. Qualquer equipe multidisciplinar pode se beneficiar ao ter em seu grupo um membro com espectro autístico, garantindo que todos os detalhes estejam corretos.

O espectro autístico inclui uma gama muito ampla de pessoas, desde aquelas que são não-verbais com autismo de alto funcionamento e Aspergers (pessoas com QI acima da média e que se sobressaem em sua própria esfera de ação).

2. Por que legendas e áudio-descrição ajudam?

Considerando estas duas características do espectro autístico (compreendendo a emoção e entrosamento humanos, e o Monotropismo), o que é que as legendas e a áudio-descrição podem fornecer?

A áudio-descrição foi originalmente elaborada para atender às pessoas com deficiência visual. Ela preenche o que é necessário, fornecendo informações que sejam puramente visuais em um formato de áudio e é utilizada em televisão, teatro e cinema. Então, por exemplo, se você estiver assistindo Eastenders, e Phil Mitchell entrasse na sala com raiva, a áudio-descrição poderia ser ‘Phil entra na sala com rosto zangado’. Isto ajuda alguém com espectro autístico porque identifica a emoção que pode ser de difícil captura para ele, e também fornece outra pista de entrada para reforçar a informação. Se a pessoa com autismo estiver com dificuldade em identificar as diferentes pessoas da cena, a áudio-descrição nomeia a pessoa de forma que os aspectos visuais e auditivos ajudem a criar um entendimento completo.

Da mesma forma, as legendas dão um reforço para o que está acontecendo visualmente e o que está sendo dito; identifica outros sons, canto de pássaros, pneus de carro cantando no asfalto, letras de músicas, etc. Para alguém com espectro autístico, a legenda dá maior amplitude de compreensão e contextualização, por meio de um segundo canal de entrada.

As pessoas com espectro autístico podem ter dificuldade com o processamento de áudio, ou seja, com a filtragem de sons diferentes, e ter dificuldade em distinguir entre o que é e o que não é relevante.

Se houver sobrecarga de áudio, com muitos sons diferentes, devido a questões de processamento de áudio, que algumas pessoas com espectro autístico têm, todo ou grande parte do áudio pode ficar completamente sem sentido e as legendas dão um suporte, quando isso ocorre.

É sabido que hoje a televisão possui muito mais questões de ruído ambiente do que no passado. Isto significa que todos nós perderemos uma palavra ou outra de tempos em tempos, não importando se somos surdos ou tenhamos deficiência auditiva. Assim como ocorre com os problemas de processamento de áudio, criados por ruídos adicionais, a perda de palavras, para a pessoa com o espectro autístico, pode ser crítica se este precisar de informações completas. As legendas ajudam a preencher as lacunas, de forma que, através de diversos canais, é fornecida uma cena completa.

Fornecer apoio adicional de visualização através da áudio-descrição e legendagem permite que as pessoas com o espectro autístico assistam à televisão sem ficarem perguntando aos familiares ou amigos: “o que quer dizer isso?”, “Quem é ele(a)?” e “Por que aconteceu isso?”.

3. Onde me deparei com isto?

Eu encontrei este comportamento pela primeira vez quando testava o uso de IPTV (serviços televisivos) para a BBC em 2010, com participantes com espectro autístico.

Quem mais pode ser beneficiado pela legendagem e áudio-descrição?

Depois disso, em 2011, em testagem de plataforma de televisão com a BBC eu também me deparei com um participante com TDAH (Transtorno de Deficiência de Atenção-Hiperatividade) que achou a áudio-descrição extremamente útil; e uma participante com Dislexia que utilizava as legendas para melhorar a sua escrita.

Mas então, o que isto nos diz sobre acessibilidade? Provavelmente, nos diz que há uma comunidade muito maior que pode se beneficiar da áudio-descrição e legendas do que apenas as pessoas cegas ou com deficiência visual e as pessoas surdas.

4. Debates acalorados

Existem diversos debates acalorados, em especial sobre legendagem. No Reino Unido temos muita sorte que a BBC legende 100% dos programas transmitidos e que outros programas do Reino Unido estejam acompanhando.

Na internet é uma história diferente, com muito material de vídeo que não recebe legendagem. A áudio-descrição é ainda uma entidade rara. Agora podemos dizer que há todo um grupo de pessoas que podem se beneficiar com estes recursos. Não está claro exatamente quantas pessoas há no Reino Unido com espectro autístico, incluindo os Asperger, mas se estima que mais de 1% das crianças têm essa condição e crianças tornam-se adultos.

O diagnóstico de crianças nas escolas está muito mais acurado do que era há 20, 30 ou 50 anos atrás. O que pode significar que há muitas pessoas que nunca foram e nunca serão diagnosticadas.

5. Concluindo

Eu me deparei com este comportamento em estudos qualitativos pequenos, portanto não possuo grandes números a compartilhar. Mas senti que isto era uma descoberta muito interessante que merecia ser compartilhada. Agradeço em particular à BBC por autorizar estes projetos de pesquisa com participantes com espectro autístico, e à Jamie Knight e Lion por reverem e darem assessoria neste artigo. Espero que mais pesquisadores apoiem esta pesquisa e que possamos legendar e áudio-descrever o mundo. Todo feedback é bem vindo.

6. Referências

Social model of disability:
Neurodiversity: http://mikestanton.wordpress.com/my-autism-pages/what-is-neurodiversity/
Ambient Noise:http://www.bbc.co.uk/blogs/tv/2011/03/is-the-background-music-too-loud.shtml
Statistics: how many people have autistic spectrum disorders?
Jamie Knight and Lion:http://pluslion.com/

Como citar esse artigo [ISO 690/2010]:
Fellowes Judith Gomes Tereza R. 2012. Espectro autístico, legendas e áudio-descrição [online]. [visto em 20/ 09/ 2019]. Disponível em: http://audiodescriptionworldwide.com/associados-da-inclusao/rbtv/espectro-autistico-legendas-e-audio-descricao/.
Revista Brasileira de Tradução Visual

Este artigo faz parte da edição de número volume: 13, nº 13 (2012).
Para conhecer a edição completa, acesse: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/rbtv-13-sumario.

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  • Judith is a user experience consultant who is passionate about making technology usable and accessible for all. She promotes inclusion and diversity in all her work.Judith’s interest in the human challenges of technology led her to specialise in that area and she undertook a Masters in Usability at Lancaster University in 2002 gaining a distinction for her thesis on scenario based design.Judith’s research work has encompassed a wide range of devices and software including Web, IPTV, PC and mobile. Her clients have included Vodafone, the BBC, HSBC and Orange.View all posts by Judith Fellowes
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