Resumo O presente artigo tece considerações sobre a natureza tradutória de terminologia específica, aplicada aos estudos científicos. Alerta para os perigos do uso de motores de tradução eletrônica e os erros que podem advir daí, bem como fala dos benefícios da tradução, quando de próprio punho. Apresenta quem são os sujeitos de pesquisa em estudos … Continue reading Escolhas tradutórias no trabalho científico: uma consideração sobre a pesquisa com a percepção de padrões bidimensionais por pessoas com deficiência visual
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Escolhas tradutórias no trabalho científico: uma consideração sobre a pesquisa com a percepção de padrões bidimensionais por pessoas com deficiência visual

Resumo

O presente artigo tece considerações sobre a natureza tradutória de terminologia específica, aplicada aos estudos científicos. Alerta para os perigos do uso de motores de tradução eletrônica e os erros que podem advir daí, bem como fala dos benefícios da tradução, quando de próprio punho. Apresenta quem são os sujeitos de pesquisa em estudos com o reconhecimento háptico de padrões bidimensionais, as expectativas que se tem ao estudar a capacidade de a pessoa com deficiência visual fazer uso ótimo de padrões imagéticos em relevo e conclui com a assertiva de que antes de o estudante ou o estudioso dessa área se lançar a fazer, ele mesmo, uma tradução, ele deve se lembrar que existem profissionais para esse fim. E, se houver a necessidade de tradução de próprio punho, é mister que se considere os aspectos éticos do trabalho tradutório, as considerações técnicas da tradução e de como verter conceitos e vocabulários de uso específico à área de investigação científica pesquisada.

Palavras-chave: tradução; termos técnicos; pessoa com deficiência visual; desenho em relevo; percepção; tato háptico.

Abstract

The present article brings into consideration the nature of translating specific terminology applied to the scientific studies. It warns about the problems with using online translation’s engines. It also discusses the benefits of one making his or her own translation. It presents who are the subjects of research in studies with the haptic recognition of two-dimensional paterns, the expectations when researching about the capability of the person with visual disability at making use of haptic configurations and of images made verbal by means of audio description. It concludes by saying that before a student or a scholar should translate an article himself, he should consider the fact that there is a professional translator to do that for him. However, if he or she needs to translat something by himself or by herself, it is necessary to meet some ethical and technical requirements to obtain a good translation.

Keywords: translation; technical terms; person with visual disability; tactile drawing; perception; haptic touch.

1- Introdução

Para se realizar uma pesquisa é preciso promover o confronto entre os dados, as evidências, as informações coletadas sobre determinado assunto e o conhecimento teórico acumulado a respeito dele. Em geral, isso se faz a partir do estudo de um problema, que ao mesmo tempo desperta o interesse do pesquisador e limita sua atividade de pesquisa a uma determinada porção do saber, a qual ele se compromete a construir naquele momento. (Lüdke e André, 1986, p.2)

Dentro do limite a que o problema de interesse restringe o pesquisador, encontram-se não só a metodologia e técnica pertinentes ao estudo, mas também, e principalmente, o uso adequado da terminologia aplicada às teorias que esteiam sua área de investigação.

Assim, em cada área específica do conhecimento, um paradigma lexicográfico, isto é, um repertório de termos, constitui a base da qual o pesquisador poderá valer-se, comunicando ou recebendo de seus pares o conhecimento produzido.

À medida que o estudioso se debruça sobre a literatura, conduz seus experimentos e produz conhecimento, i. e., progride dentro de uma área específica do saber, os modelos científicos e tecnológicos aprimoram-se com a própria mudança dos conhecimentos alcançados, evoluindo, com eles, os discursos lingüísticos, que os manifestam e sustentam, daí resultando a necessidade da reformulação de sua definição e limites, do seu objeto, dos seus métodos e técnicas, bem como de sua própria metalinguagem (Laface, 1997).

Sabe-se, com efeito, que o universo de discurso metalingüístico de uma ciência – representação e síntese das suas descobertas e do saber construído -, quando bem elaborado e dotado da desejável precisão, conduz ao aprimoramento da atividade investigadora e da prática profissional correlata, em sua abrangência, de tal forma que esse discurso vem a ser enriquecido com novos “fatos” e correspondentes unidades lingüísticas, reafirmando-se o processo dialético de alimentação e realimentação entre ciência básica e ciência aplicada. (BARBOSA, In LAFACE, Vocabulário Acadêmico: um passo para leitura técnica, 1997, p.13)

2- De como foram traduzidos alguns vocabulários e das razões para a sua escolha tradutória

Muitos dos estudos mais recentes sobre a capacidade de a pessoa com deficiência visual produzir desenhos, reconhecê-los pelo tato, compreender informações imagéticas verbalizadas por meio da áudio-descrição etc. são sustentados por literatura, originalmente produzidas em idioma estrangeiro, sobretudo no idioma inglês e trazem uma gama enorme de vocabulário técnico, termos que, nem sempre têm correspondência linguística direta com o português.

Tal literatura, em geral, não tem tradução para o vernáculo, feita por profissional tradutor, conhecedor da área técnica e da lingua fonte. De fato, nem em português se encontra grande parte dessa literatura, o que impõe aos pesquisadores, mestrandos, doutorandos, mestres e doutores, que eles próprios façam suas traduções, ou recorram à alguém que lhes ajude nessa tarefa.

Cada vez é mais frequente, por exemplo, recorrer-se aos motores de tradução eletrônica, tais como o do www.translate.google.com.br e outros. Esse recurso, além de impreciso, quando muito, permite ao usuário fazer paráfrase do texto original. E, mesmo assim, pode induzir o estudante à leitura equivocada do conteúdo da obra.

Por outro lado, a tradução, de próprio punho, do artigo ou do extrato do livro que se está estudando, ou se pretende citar, é mais rica do ponto de vista da aquisição do conhecimento, uma vez que requer pesquisa tradutória (procura de termos nos dicionários, por exemplo), reflexão a respeito do tema que se está traduzindo etc.

Mas, também aqui, o estudante ou o pesquisador encontra dificuldades, uma vez que se depara com conceitos novos que precisa traduzir para o idioma de destino, em nosso caso, o Português.

Destarte, ao traduzir conceitos novos, por exemplo, o pesquisador deve conduzir outra pesquisa, aprofundando seu conhecimento no estudo da metodologia empregada na pesquisa originária do artigo ou excerto em tela, uma vez que o “agora tradutor” deve buscar na língua de destino a tradução que melhor exprima tal conceito, mesmo que para isso, necessite valer-se de léxicos de uso menos cotidiano, ou de uso diverso ao comum da fala diária, para traduzir a terminologia específica do campo investigado.

A tradução é trabalho intelectual, profissional e permeado por escolhas éticas do que e como traduzir. Não pode ser regrada por lei, mas está sujeita a um código de ética rígido que não dá margem para falseamento da informação, censura ou editoração do conteúdo, por parte do tradutor profissional. Assim, ao traduzir um texto, não só se deve cuidar em o bem traduzir linguística e gramaticalmente, mas também cuidar para que reflita a obra original, o estilo do autor etc., tornando possível ao leitor da tradução a apreciação da obra fonte.

Então, ao traduzir um dado termo, um conceito, uma expressão etc., deve o tradutor certificar-se de que, em seu trabalho, apareça o sentido exato em que o conceito ou terminologia foi empregado pelo autor do texto original.

Cientes, pois, de que uma utilização minuciosa da terminologia, específica à área de investigação, é de suma importância para o bom desempenho de uma pesquisa, ao estudarmos o sistema háptico, a capacidade de a pessoa com deficiência visual fazer uso ótimo de desenhos e outras configurações bidimensionais tangíveis, dedicamo-nos, então, ao estudo do vocabulário concernente à investigação da necessidade da intermediação da visão no reconhecimento de figuras bidimensionais, de modo a produzirmos nossas traduções, isto é material suporte à pesquisa na área supra mencionada.

Destarte, neste artigo trazemos alguns dos termos traduzidos e as razões que nos levaram a fazer as escolhas tradutórias que fizemos para os vocabulários terminológicos da pesquisa.

Consoante Laface (op. cit.),

Vocabulários terminológicos determinam-se como objetos históricos e institucionalizados. Apresentam-se sob a forma de um repertório de termos definidos em áreas diversas de conhecimento e descrevem um certo objeto de valor. Estruturam-se, cognitivamente, fora da língua, mas instrumentalizam-se dela e, com ela, dinamizam o sistema de representação do universo humano. Manifestam-se no discurso e, como parte dele, significam coisas. (Laface, op. cit., p.35)

Uma vez que o estudo da literatura, atinente à pesquisa a respeito do sistema háptico e sua capacidade de reconhecer padrões bidimensionais em relevo, é feito em língua inglesa, e como a apresentação do nosso trabalho é no vernáculo, deparamo-nos com a necessidade de traduzir, total ou em parte, alguns dos estudos daquele idioma, para que também em Português viéssemos ter acesso à informações, em geral não disponíveis à psicólogos, pedagogos e pessoas com deficiência, que não sabendo o idioma inglês, sequer sabem da existência de estudos hápticos, ou que mesmo sabendo o idioma estrangeiro, podem encontrar dificuldade em compreender tecnicamente terminologia tão específica e que faz uso de vocabulário aparentemente de uso hodierno ao comum das pessoas. E isso nos deixou na posição de buscar os léxicos que melhor expressassem, no português, as ideias transmitidas pela literatura original.

Muitos dos termos utilizados nessa literatura mantêm uma relação semêmica com termos de áreas afins, seja da psicologia (e.g. psicologia cognitiva) seja de outras áreas, daí a necessidade, por exemplo, de buscar definições nocionais para termos como imageability, imagery, part entre outros. Tais termos, se aparentemente fáceis de traduzir, por sua definição no dicionário, no contexto empregado não são assim triviais, uma vez que nuances específicas à área de percepção sensorial háptica requerem uma adequação de seu significado específico. Tomemos como exemplo o termo image : quando empregado com a palavra visual (visual image) esse termo pode ser traduzido, sem prejuízo definicional, como imagem visual, sem que haja uma transferência do termo entre áreas que dele fazem uso. Já quando nos referimos a imagem mental de um cego congênito, o uso do termo imagem sofre um prejuízo sinonímico, principalmente se entendermos que não há necessidade de imagem visual para o reconhecimento háptico de figura bidimensional (Lima, 2000; Lima e Silva, 2001).

Como não se pode precisar, de maneira exata, qual é a natureza da representação mental que um sujeito cego faz de dado estímulo, capturado hapticamente do ambiente, optamos por uma tradução cujo significado fosse mais amplo e não restrito à ideia que o termo image, ao ser traduzido por imagem, pode suscitar, isto é, uma associação direta a uma imagem do tipo visual. Assim, ao tratarmos da imagem mental que um indivíduo cego faz de algum objeto ou pessoa, fazemos uso do termo representação mental, ampliado a partir de sua entrada lexicográfica “reprodução do que se tem na idéia”, isto é, “representação mental de uma coisa concreta ou abstrata”. [1]

Embora haja na literatura pertinente aos estudos de como o cérebro produz ou reproduz imagens, optificações e representações mentais, cremos ser mister alertar para o perigo de os deslocar de áreas afins que possam estudar ou fazer uso dos termos imagética, imagística, entre outros, visto que não refletem a definição nocional do vocabulário específico a esta área de conhecimento, pois como diz Laface,

(…) transferências e deslocamentos de termos de um universo de discurso para outro exigem do indivíduo atividades que envolvem, estrategicamente, recursos de natureza lingüística e cognitiva. Essas atividades tornam-se complexas, especialmente, quando se tem de operar, com distensões de uso, a partir de paradigmas definicionais de termos, em registro no dicionário.

A cada deslocamento de termos, intra e inter-áreas de conhecimento, há a necessidade de uma adequação de suas respectivas bases semântica e nocional a um certo tipo de linguagem, devendo, em princípio, assegurar consensos informacionais de fatos e de acontecimentos, traduzidos nas diferentes linguagens e posicionados nos diferentes universos de discursos – requisito básico para a produção e reformulação do saber institucionalizado. (Laface, 1997, p.35).

A fim de tentarmos uma adequação terminológica do vocabulário no vernáculo aos termos encontrados no original inglês, não nos restringimos a traduções herméticas, daí que, por exemplo, para o uso do termo part, em inglês, fomos buscar um léxico cujas definições semêmicas fossem mais amplas que a tradução parte.

Assim, consultando Laudelino Freire (Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa, 1954), encontramos para o verbete acessório a seguinte definição: s.m. Tudo que entra na composição de um quadro para melhorar o desenho principal.

Já em Francisco da Silveira Bueno (1960), verificamos que a palavra acessório significa também: “adj. que não é fundamental; junto a uma coisa, sem fazer parte dela; s.m. aquilo que se junta ao objeto principal, ou é dependente deste; complemento; atributo”. Tal abrangência de significado nos fez optar pela tradução acessório para o termo part, uma vez que aquela tradução não se restringia a “aquilo que se junta ao objeto principal”, ao contrário, estendia-se à ideia de complemento; atributo.

Por que fomos buscar a palavra acessório? Ora, para Brunswik (apud Lederman, 1993), “certos atributos tendem a ocorrer juntamente com outros, em categorias de nível básico. Por exemplo, penas, asas, e um bico tendem a ocorrer um com outro, mais freqüentemente que qualquer um deles o faz com a pele”.

Consoante Lederman (1993), o nível básico é aquele que traz a maior quantidade de informação do objeto, e melhor reflete uma estrutura correlacional no mundo.

Mas, o que vem a ser part ? O que vem a ser acessório? Aquilo que se junta ao objeto principal, ou é dependente deste? Seu complemento? Seu atributo? O botão complementa um fogão? Faz parte dele? Não é fundamental para seu reconhecimento? A porta inteira ou dupla constitui atributos de uma geladeira? A mão do pilão é complemento do objeto principal? Um fogão ou um pilão são dependentes do botão e da mão de pilão, respectivamente? Um telefone deixa de ser telefone porque lhe falta o fio? A falta do fio num telefone impede que esse objeto seja reconhecido como telefone? Um carro sem rodas, sem os bancos, sem o volante e sem os espelhos deixa de ser carro? Não é reconhecido como tal?

As respostas a essas perguntas não estão prontas e acabadas, e nem essas questões podem ser resolvidas com o vocabulário parte sem ressalvas ou restrições, podendo, contudo, ser melhor expressadas, ao nosso entendimento, pelo termo acessório.

Não se trata aqui de criação terminológica nem mesmo de revisão terminológica, mas, no exercício da tradução, da busca de uma versão que mais amplamente exprima o texto original, com as nuances definicionais que o termo exige para a adequação de sua metalinguagem ao vernáculo, pois, como diz Mário Ferreira dos Santos, ” ao estudarmos os termos, as idéias e os conceitos, vimos que pode haver termos equívocos, não, porém, conceitos equívocos, porque se os termos, quando equívocos, são os mesmos, os conceitos, que eles significam, são diversos. Assim, há termos equívocos, não, porém, conceitos equívocos.”

Nossa escolha pelos termos vertidos esteia-se na postura de quem busca o léxico dentro de seu paradigma, sem, contudo, deixar de levar em consideração cuidados exigidos pelo limite e natureza de nosso trabalho.

O léxico de um indivíduo não constitui lista de palavras, mas texto aberto para noções e conceitos, próprios a esse indivíduo e próprios ao universo cultural ao qual pertence. Ao necessitar de uma palavra, ele não busca apenas uma definição, mas um intercâmbio com os dados de experiência, por onde circulam os sentidos. A escolha de uma palavra e não de outra nasce da necessidade de uma busca de adequação vocabular, relacionada a diferentes visões do universo histórico-cultural. Determinam-se, por essa escolha, relações de unidades lexicais, associadas a um contexto temático, colocando-se a interação do que é de experiência com o que é de existência. (Laface, 1997, p. 35)

Por não termos nos restringido a uma única definição do termo acessório, vimos nessa palavra um léxico que trazia uma quantidade rica de informações representadas pelo termo, em inglês, part, supra mencionado.

Assim, ao havermos traduzido part por acessório, fizemo-lo levando em consideração que neste termo também se encerrava a noção daquilo que se junta ao objeto principal, seu complemento, ou seu atributo.

 

3- De quem são os sujeitos de pesquisa no estudo da percepção háptica, do que se pesquisa e das expectativas que se tem perante os sujeitos estudados

 

Antes de entrarmos em novo tópico, permita-nos salientar, mais uma vez, que esta breve reflexão sobre os fundamentos metodológicos e terminológicos de pesquisa, a partir de uma preocupação com os aspectos tradutórios de terminologia específica, não pretende, em hipótese alguma, fazer uma revisão dos diversos conceitos que permeiam a literatura sobre a capacidade de a pessoa com deficiência visual produzir, reproduzir ou reconhecer desenhos em relevo, imagens hápticas e áudio-descritas, porém mostrar a preocupação e a busca dos fundamentos que alicerçam o estudo que envolve a percepção háptica e sua transcrição pictórica.

Examinando a literatura sobre os estudos feitos na área de investigação da percepção tátil, então, constatamos que estes têm sido feitos através de uma abordagem metodológica experimental positivista, onde tarefas ¾ que envolvem o reconhecimento háptico de figuras de objetos tridimensionais (produzidas em relevo), mas que em seu uso natural diário são manuseados total ou parcialmente, ou do reconhecimento desses próprios objetos feitos em tamanhos reduzidos ¾ são revolvidas por sujeitos videntes vendados (em geral, alunos de cursos de psicologia, ao nível de graduação).

Outro grupo de sujeitos, também usados nessas tarefas, é formado por pessoas cegas congênitas ou pessoas que passaram a ter deficiência visual logo após o nascimento (early blind), cego de infância; ou aqueles que ficaram cegos posteriormente (late blind ou adventitious blind), cegos adventícios.

Os cegos congênitos são usados em menor número devido a dificuldade de se conseguir tais indivíduos, uma vez que são encontrados em número mais reduzido e uma série de empecilhos intervêm para o recrutamento de tais sujeitos (ver M. Heller, 1991).

Já os observadores vendados, vindos da Universidade, são abundantes e, muitas vezes, voluntários ou fazem as tarefas como parte de alguma matéria de sua graduação.

Quando se busca investigar a mediação da visão no processo de reconhecimento de figuras bidimensionais, procura-se comparar os sujeitos cegos com pessoas com visão normal, propondo-lhes tarefas, nas quais estes deverão estar vendados, a fim de que se perceba se o fato de terem a experiência visual lhes afeta o desempenho nesta tarefa.

Comparam-se esses dois grupos, pois, controladas as demais variáveis, se o grupo CC (cegos congênitos) obtiver desempenho diverso ao do grupo VV (videntes vendados), digamos, sendo inferiores em seu desempenho, tal diferença sugerirá que houve uma mediação da visão, já que o grupo VV foi melhor sucedido na tarefa do que o grupo de pessoas cegas congênitas.

Por outro lado, se esse grupo obtiver desempenho similar ou superior ao dos videntes, na tarefa, isso indicará que ele lançou mão de estratégias diferentes para a resolução do problema, portanto, não se valendo da experiência visual, uma vez que os sujeitos cegos congênitos, jamais tendo enxergado, não poderiam fazer representações mentais do tipo entendidas como representações visuais, além de propor que essas estratégias não são de imaginação, i.e., de formação de imagens, mas sim de representação mental.

Também nesses experimentos, busca-se utilizar sujeitos cegos adventícios, já que eles teriam, além da experiência visual, também a experiência tátil, o que, presumivelmente, faria com que eles desempenhassem suas tarefas com maior acurácia que os sujeitos vendados, uma vez que esses não teriam a percepção tátil tão especializada; e melhor que os cegos congênitos, visto que estes últimos não têm a experiência visual e raramente possuem experiência com configurações bidimensionais do tipo desenhos.

É freqüente, na pesquisa com percepção tátil, o uso de tarefas com o tato ativo e passivo. No caso do tato passivo, os sujeitos observam os estímulos depositados nas palmas de suas mãos ou em seus dedos, não operando propositalmente sobre o estímulo. Já no caso do tato ativo, o sujeito pode averiguar hapticamente o objeto, pegando-o, levantando-o, enfim explorando-o ativamente

Assim, de acordo com Gibson (1962), o tato é passivo quando o observador não faz movimentos voluntários e a informação é imposta a um indivíduo com a mão estacionária, esse tipo de tato, ainda conforme o autor, não é ecologicamente válido e leva a experiências subjetivas. Já o tato é ativo quando os sujeitos fazem movimentos propositais para a obtenção de informações sobre o mundo e leva a uma captura superior da informação.

A latência entre o recebimento do estímulo e a verbalização do sujeito, reconhecendo o objeto ou a figura apresentada, embora por vezes registrada, nem sempre é levada em consideração, uma vez que há grande variação de tempo no reconhecimento dos padrões e, dado tempo suficiente ao sujeito, este tem possibilidade de ter melhor resolução da tarefa. Logo, ainda que o indivíduo leve mais tempo para resolução do problema o que importa é que ele o resolva. Com efeito, a natureza sequencial de captura da informação, bem como a pequena acuidade espacial da ponta dos dedos fazem com que o tato seja mais lento no reconhecimento de certas configurações comparativamente com a visão.

Por outro lado, exemplos de trabalhos, onde o tempo é registrado e tomado em consideração, podem ser vistos em estudos que buscam verificar se a eliminação da dificuldade de acesso à memória semântica facilita ou agiliza o reconhecimento de padrões bidimensionais, i.e., onde se busca eliminar a dificuldade de nomeação da tarefa de reconhecimento de figuras (e.g. Heller et. alii, 1996). De fato, em seu estudo de 1996, Heller descreve que a informação de categoria ajudou na acurácia e velocidade do reconhecimento de figuras, tanto quando fora oferecida no início da tarefa, como quando oferecida depois de os sujeitos terem tateado cada figura, porém antes de tentarem algum reconhecimento.

Consoante Pathak e Pring (1989),

Surpreendentemente tem havido pouca pesquisa acerca de como os cegos congênitos reconhecem figuras em relevo ( mas veja em Kennedy, 1980, uma exceção ). De fato, nem o reconhecimento de objeto nem de figura tem recebido muita atenção, provavelmente porque teorias tais como as de von Senden ( 1960 ) e Revesz ( 1950 ) sugerem que a compreensão de como características se combinam em um objeto depende da visão. (p. .337)

Com efeito, no Brasil, pesquisas nesta área de investigação científica são ainda menos privilegiada e muito pouco tem sido produzido ou publicado sobre o sistema tátil, à exceção do estudo de Zedu, Yano, Souza e Da Silva, (1992), Lima (1998 e 2001), Duarte (2010a, 2010b).

Pensando nos benefícios que o desenho e o desenhar podem trazer às crianças, jovens e adultos com deficiência visual, seja no lazer, brincando de desenhar uma estrela, um barco, seja na educação formal ¾ biologia, geografia e matemática (aprendendo com representações anatômicas do corpo humano ou de outro animal; com mapas, gráficos e figuras geométricas), seja na reabilitação de pessoas que perderam a visão total ou parcialmente (aprendendo numa aula de mobilidade, através de um diagrama em relevo o caminho que percorrerá na rua), Lima (1998) desenvolveu uma caneta que faz pontos em relevo, permitindo à pessoa com deficiência visual desenhar com uma mão, vendo com a outra o desenho que está sendo produzido, sem que tenha de virar o papel, o que ocorre com a maioria dos demais dispositivos para a produção de desenho pela pessoa cega ou com baixa visão.

Atualmente, estuda-se na Universidade Federal de Ouro Preto, a possibilidade de produzir tal caneta em série e com baixo custo. Isso permitirá ampliar possibilidades de pesquisa na área do reconhecimento háptico de imagens, bem como unir à pesquisa com áudio-descrição de imagens estáticas, o uso de desenhos hápticos como facilitadores da construção de um banco de memória de configurações pictóricas.

Como o campo da áudio-descrição é igualmente área incipiente no Brasil, redobrado cuidado deve-se dar à terminologia própria dessa área de estudo e de tradução visual. E, da mesma forma, deve-se atentar para que não se reproduza na pesquisa com áudio-descrição as barreiras atitudinais que, muitas vezes permeiam a pesquisa com a capacidade de reconhecer desenhos pelo tato (Lima 2001; Lima, 2010).

4- Palavras finais

Pelo que aqui já expressamos, fazemos a assertiva de que antes de o estudante ou o estudioso dessa área se lançar a fazer, ele mesmo, uma tradução, ele deve se lembrar que existem profissionais para esse serviço. Mas, se pela necessidade tiver de traduzir, é mister que considere os aspectos éticos do trabalho tradutório, as considerações técnicas da tradução e de como verter conceitos e vocabulários de uso específico, tanto quanto de despir-se do espírito traduzido pela fala: “eu sou da área e sei, portanto, como traduzir, visto que entendo o que leio, melhor que um tradutor que não é da área”.

Ora, assim como o tradutor conhece o texto na medida que precisa conhecer para a tradução, não o conhecendo para efeito do conteúdo intrínsico ao campo, o estudioso de área conhece o texto na medida em que lhe serve ao conhecimento de área. Então, nem um tradutor conhecerá mais que o cardiologista o artigo que ele, o primeiro traduziu para o segundo, nem este conhecerá mais o texto de cardiologia em seu vernáculo que o tradutor lhe poderá traduzir do idioma original de publicação.

Em suma, saber dos aspectos metodológicos, tradutórios e conceituais de um estudo é crucial para que se conduza uma pesquisa séria em todas as áreas. E, portanto, isso não é diferente para os estudos sobre a pessoa com deficiência visual e a percepção de padrões bidimensionais.

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[1] In BUENO, Francisco da Silveira ¾ Dicionário Escolar da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, 1960.

Como citar esse artigo [ISO 690/2010]:
Lima Francisco José de 2011. Escolhas tradutórias no trabalho científico: uma consideração sobre a pesquisa com a percepção de padrões bidimensionais por pessoas com deficiência visual [online]. [visto em 14/ 08/ 2020]. Disponível em: http://audiodescriptionworldwide.com/associados-da-inclusao/rbtv/escolhas-tradutorias-no-trabalho-cientifico-uma-consideracao-sobre-a-pesquisa-com-a-percepcao-de-padroes-bidimensionais-por-pessoas-com-deficiencia-visual/.
Revista Brasileira de Tradução Visual

Este artigo faz parte da edição de número volume: 6, nº 6 (2011).
Para conhecer a edição completa, acesse: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/rbtv-6-sumario.

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  • Professor Adjunto da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); Coordenador do Centro de Estudos Inclusivos (CEI/UFPE); Idealizador e Formador do Curso de Tradução Visual com ênfase em Áudio-descrição “Imagens que Falam” (CEI/UFPE);Tradutor e intérprete, psicólogo, coordenador do Centro de Estudos Inclusivos. E-mail: cei@ce.ufpe.brView all posts by Francisco José de Lima

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