Resumo O presente artigo faz uma breve revisão da literatura em que se aborda a capacidade de a pessoa cega congênita total reconhecer padrões bidimensionais tangíveis, comparativamente com as pessoas cegas adventícias e pessoas videntes, em situação de experimento, vendadas. Lembra as barreiras atitudinais que têm impedido ou limitado as interpretações dos dados em pesquisa … Continue reading Breve revisão no campo de pesquisa sobre a capacidade de a pessoa com deficiência visual reconhecer desenhos hapticamente
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Breve revisão no campo de pesquisa sobre a capacidade de a pessoa com deficiência visual reconhecer desenhos hapticamente

Resumo

O presente artigo faz uma breve revisão da literatura em que se aborda a capacidade de a pessoa cega congênita total reconhecer padrões bidimensionais tangíveis, comparativamente com as pessoas cegas adventícias e pessoas videntes, em situação de experimento, vendadas. Lembra as barreiras atitudinais que têm impedido ou limitado as interpretações dos dados em pesquisa científica a respeito da capacidade de a pessoa cega fazer uso de desenhos em relevo, e apresenta os 3 principais entendimentos sobre a capacidade de as pessoas com deficiência visual reconhecer mapas táteis e outras configurações planas, concluindo pela necessidade de que às pessoas com deficiência visual se deve favorecer o uso de padrões bidimensionais hápticos.

Palavras-chave: configurações hápticas; desenhos em relevo; mapas táteis; pessoas com deficiência visual; cegos adventícios; barreiras atitudinais.

Abstract

The present article makes a concise review on the area concerning the capability of blind individuals at recognizing two-dimensional configurations. Three atitudinal barriers that shun or limit using haptic configuration with persons with visual disability are dis cussed and the main 3 viewpoints about the capability of blind people at making sense of tactile maps are presented. It concludes by making the assertion that haptic drawings should be taught to blind children the earliest.

Keywords: haptic configurations; raised-line drawing; tactile maps; people with visual disability; adventitiously blind; attitudinal barriers.

 

1- Introdução

Muitas são as situações em que a pessoa com deficiência visual é colocada ou vista como sendo incapaz, apenas por ter alguma deficiência; compreendida como sendo inferior no desempenho de atividades, ou sua produção depreciada, meramente por razão de deficiência, isto é, simplesmente por a produção ser oriunda de uma pessoa com deficiência visual.

Esse modo de ver a pessoa com deficiência é definido como barreira atitudinal, sendo cada um dos 3 casos acima mencionados distinguidos taxonomicamente como:

1 – Barreira Atitudinal de Baixa Expectativa

A barreira atitudinal de baixa expectativa é o juízo antecipado e sem fundamento (conhecimento ou experiência) de que a pessoa com deficiência é incapaz de fazer algo, de atingir uma meta etc;

2 – Barreira Atitudinal de Inferiorização

A barreira atitudinal de inferiorização é uma atitude constituída por meio da comparação pejorativa que se faz do resultado das ações das pessoas com deficiência em relação a outros indivíduos sem deficiência, sob a justificativa de que o que foi alcançado pelos primeiros é inferior, exclusivamente em razão da deficiência;

3 – Barreira Atitudinal de Menos Valia

A barreira atitudinal de menos valia consiste na avaliação depreciativa das potencialidades, ações e produções das pessoas com deficiência. Esta avaliação é incitada pela crença de que a pessoa com deficiência é incapaz ou que o que conseguiu alcançar, o que produziu tem menos valor do que efetivamente lhe é devido.

 

Em artigo sobre a preeminência da visão, Lima (2000)  mostra como essas barreiras atitudinais estão presentes, tanto no senso comum, quanto nas pesquisas científicas, que concluem (antes nos estereótipos que nos dados efetivamente disponíveis), pela incapacidade de a pessoa cega ou com baixa visão vir reconhecer ou produzir desenhos hápticos.

 

As barreiras atitudinais consistem em comportamentos, nem sempre intencionais, mas que acabam por limitar ou impedir o desenvolvimento de pessoas com deficiência, hora por a subestimar, hora por a superestimar.

Assim é que há campos em que a pessoa com deficiência não é vista como pertencente. E isso ocorre em muitas áreas do conhecimento, da produção científica e/ou tecnológica, em que a pessoa com deficiência é vista como intrusa, um estorvo, inapropriada  etc.

Tomemos como exemplo uma pessoa com deficiência visual que queira fazer uma faculdade de enfermagem.  Ora, não é esperado que uma pessoa cega venha ser médica ou enfermeira. Então, se um indivíduo com deficiência visual desejar fazer um curso de enfermagem, ele certamente encontrará resistência em ser aceito pelo diretor da faculdade, de ser aceito por seus professores e, provavelmente pelos seus próprios colegas, que irão achar que um curso de enfermagem não é  lugar  para uma pessoa cega.

No presente artigo, veremos uma breve revisão da literatura de uma área, na qual pessoas com deficiência visual são, em geral, tidas como incapazes de nela estar, dela fazer parte, dela se beneficiar dos ganhos educacionais, de cultura ou lazer. E essa área terá desdobramentos importantes na educação das pessoas com deficiência, visto que possibilitará a inserção da pessoa com deficiência em campos como os da arquitetura e das engenharias; da matemática e da estatística; da química, biologia e física; das artes plásticas e da geografia e tantas outras mais que fizerem uso de mapas, desenhos, pinturas e quaisquer outras imagens, em geral.

Referimo-nos, obviamente, à área da produção e reconhecimento de figuras planas pela pessoa com deficiência visual, mormente às pessoas cegas, em particular as pessoas cegas congênitas totais.

Nesta área, quando se tratar de pesquisas científicas, a pessoa cega, se for vista sob a égide das barreiras atitudinais, será tida como sendo incapaz de desenhar ou de compreender desenhos  hapticamente, esteado em resultados de baixo desempenho dessas pessoas em tarefas com tais configurações. Contudo, se examinada sob a ótica da inclusão, se encontrarão alternativas para explicar e justificar os baixos resultados dos sujeitos com deficiência visual, observadores que se submetem a ser sujeitos de pesquisa no tema.

 

2-  A Pessoa com Deficiência Visual na Pesquisa com Padrões Bidimensionais Hápticos

A ausência de uso de padrões bidimensionais para pessoa com deficiência é exemplo de que temos muito que caminhar, antes de podermos falar de um país acessível comunicacional, programático e sem barreiras atitudinais. Nos espaços públicos e de uso público faltam mapas táteis; nos museus e galerias de arte estão ausentes os desenhos e outras representações gráficas bidimensionais tangíveis; os livros didáticos carecem de figuras em relevo e assim por diante, num total descuido pela educação visográfica das pessoas com deficiência visual e numa clara denúncia de barreiras atitudinais, resumidas na crença infundada de que aquelas pessoas são incapazes de apreciar tais recursos.

No que concerne ao reconhecimento de desenhos em relevo, antes de mais nada, devemos dizer que, se dada a condição adequada, o aluno com deficiência terá tanto sucesso quanto os demais.  Os limites impostos pela visão podem ser superados tecnológica e procedimentalmente, por exemplo, oferecendo às pessoas orientações sobre como produzir desenhos, sobre quais são as regras e convenções que regem  a produção  das diferentes formas de imagens, como no caso da fotografia, por exemplo, e sobre a existência e o uso de equipamentos para a construção dos desenhos e demais configurações planas.

Se tais informações forem oferecidas, dando aos indivíduos a oportunidade de trabalharem com as imagens autônoma e independentemente, sem que a deficiência visual seja vista como incapacitante (e reconhecendo que impõe limites a serem superados), isso certamente reduzirá a percepção equivocada de que a pessoa com deficiência visual  não é capaz de se beneficiar do uso  e/ou contato com figuras planas.

Então, a habilidade de a pessoa com deficiência reconhecer desenhos e outras configurações gráficas não está exclusivamente dependente do tato e dos recursos tecnológicos: o reconhecimento de configurações bidimensionais estará, também,  relacionado com mudanças atitudinais básicas, de investimento de pequeno porte e de boa vontade.

Exemplo de que certos procedimentos simples e de baixo custo podem contribuir na melhoria do desempenho das pessoas com deficiência visual nessa área é a verbalização do material gráfico/visual por intermédio de técnicas tradutórias de áudio-descrição, ou apenas de oferta de alguma informação geral, por meio da fala, como a oferta de  categorias superordenadas, que orientem o reconhecimento háptico.

Corroborando essa assertiva, em seu estudo de 1996, Heller descreve que a informação de categoria ajudou na acurácia e velocidade do reconhecimento de figuras, tanto quando fora oferecida no início da tarefa, como quando oferecida depois de os sujeitos terem tateado cada figura, porém antes de tentarem algum reconhecimento.

Também no estudo de Lima e Da Silva (2000) a oferta de categoria superordenada elevou significativamente o reconhecimento dos desenhos pelo tato, tanto para os sujeitos cegos congênitos como para os cegos adventícios e videntes vendados.

Heller et alli, no  artigo Produção e Interpretação de desenhos em perspectiva por pessoas cegas e videntes (1996), apresentam a animadora afirmação de que indivíduos cegos congênitos foram capazes de descobrir aspectos  de perspectiva, sem “feedback”.

Esses resultados sugerem que os cegos congênitos são certamente capazes de compreender o ponto de vista de outra pessoa e podem representar eficientemente, com desenhos em alto relevo, tais pontos de vista. (HELLER et alii,  1996).

Nesse artigo fica ainda mais clara a ajuda que o desenho bidimensional pode dar às pessoas com deficiência visual quanto ao conhecimento do mundo sob uma égide antes pouco explorada.

A descoberta de que os indivíduos cegos congênitos progrediram sem “feedback” é interessante e sugestiva. É provável que experiências com desenhos, mesmo na ausência de comentários externos ou instrução, levasse a maior progresso na interpretação de desenhos em perspectiva feitos por cegos. Talvez  maiores progressos pudessem ser propiciados por uma instrução criteriosa e feedback, mormente se a instrução e o feedback forem planejadas, levando em consideração a habilidade que os sujeitos cegos já têm.

De fato, relata o autor:

Alguns desses indivíduos ficaram abismados quando, pela primeira vez, examinaram  o conjunto de figuras do experimento, e chamaram a atenção para que essa era a primeira vez que tinham uma compreensão de como os objetos pareciam para as pessoas videntes.

Sobre a produção de desenho em alto relevo por pessoas com deficiência visual, o autor complementa:

Embora, inicialmente, os indivíduos cegos congênitos não produzissem desenhos que revelassem uma compreensão de perspectiva geométrica,  eles foram capazes de se beneficiarem da pequena experiência derivada da tarefa de desenhar no primeiro experimento. Estes resultados têm importância prática considerável e são relevantes para o desenvolvimento de equipamentos sensoriais de serventia para cegos. Configurações gráficas tangíveis podem requerer explicações, ou dicas orais, se tais configurações representarem perspectiva ou escorço.[1] Isso provavelmente vale para todos os cegos (ver Heller, Kennedy & Joyner, 1995). Embora os cegos congênitos fossem capazes de descobrir o significado da perspectiva, sem feedback, eles não demostraram uma compreensão ingênita imediata do conceito, antes da exposição ao conjunto de estímulos do experimento.

Sugere-se que os que desenvolvem ou avaliam equipamentos para cegos congênitos não devam pressupor a incapacidade de os cegos aprenderem a compreender as configurações gráficas de perspectiva.

Pesquisas futuras devem ser direcionadas para a investigação e interpretação de como os cegos vêem escorços de 3/4, por causa das implicações evidentes para o desenvolvimento de equipamentos de serventia para cegos e de gráficos tangíveis.  Tais considerações são importantes para o desenvolvimento de equipamentos de serventia para cegos, uma vez que alguns deles pressupõem o conhecimento dos princípios que governam a representação de espaços tridimensionais numa superfície plana. Parece haver pouca dúvida de que as implicações de visões unidimensionais de objetos de três dimensões podem ser prontamente entendidas por muitos sujeitos, independente de enxergarem ou não.  (Heller et alii,  1995, p. 1058)

Assim, afirma o autor  em seu estudo de 1989a:

Mais importante, algumas figuras tangíveis foram fáceis para a maioria dos observadores cegos adventícios. Isso indica que pelo menos parte da dificuldade que as pessoas videntes têm com as figuras pode ser atribuída a uma falta de familiaridade com padrões táteis em geral, e  uma falta específica de familiaridade com figuras tangíveis.

Diante do desempenho superior dos cegos adventícios em nomear figuras, parece sensato ser otimista quanto à utilidade do uso de desenhos para os cegos. Kennedy (1982) e Millar (1975, 1976)  também defenderam a idéia de que as pessoas cegas devem ser incentivadas a desenhar.”  (Heller, 1989a)

 

Com efeito, Kennedy et alii  mostraram que os indivíduos cegos  podem compreender  figuras  em alto-relevo e que esses indivíduos  mostraram  uma compreensão básica de espaço em seus desenhos (KENNEDY, 1993;  KENNEDY & DOMANDER, 1984;  KENNEDY & FOX, 1977;  KENNEDY & GABIAS, 1985;  HELLER, 1989a e  b).

Heller (1991), por sua vez, demonstra-nos que mesmo os cegos congênitos são capazes de fazer e reconhecer figuras bidimensionais,  afirmando em seu estudo que,  se for dado tempo suficiente para o indivíduo cego  observar hapticamente dada configuração bidimensional,  esse indivíduo será certamente capaz  de produzir representações de perspectiva através do desenho, e capaz de interpretar perspectivas em desenhos. O autor também afirma que “pessoas cegas congênitas provaram ser capazes de entender configurações espaciais complexas e que parecem capazes de desenhar transformações imaginadas de perspectivas” (Heller, 1991).

Millar (1991), a seu turno, apresentou um estudo com crianças cegas congênitas, que desenhavam pela primeira vez.  A autora salientou que as crianças cegas podem compreender subitamente como usar seu conhecimento gráfico preexistente, quando lhes são dadas as informações pertinentes,  sugerindo o uso de desenho em alto relevo para essas crianças.

Para  Hatwell (1985),  os sujeitos cegos têm dificuldade com geometria devido à  falta de materiais que lhes habilitem o desenho de figuras bidimensionais e não devido a problemas com sua cognição.

Consoante  Kerr (1983),  os cegos processam imagens espaciais da mesma forma  que os videntes o fazem, porém  mais devagar, sugerindo que  o processo de imagens não é especificamente visual  em essência.

Heller (1989a, 1989b, 1991);  Heller  e Joyner (1993);  Heller e Kennedy (1990);  Heller, Kennedy e Joyner (1995);  Kennedy (1993);  Millar (1975, 1991) também  apontaram o benefício  que o treinamento com padrões  bidimensionais pode  trazer às pessoas com deficiência visual, uma vez  que esses padrões  podem comunicar  informações espaciais úteis a esses sujeitos.

Heller (1989a e b)  descobriu que  os sujeitos cegos e videntes eram capazes de identificar  desenhos  em relevo de objetos comuns, com dificuldades  variando como função  da figura  e de sua característica.  Essas  dificuldades foram minoradas, isto é, o reconhecimento aumentou  quando aos sujeitos foi oferecido um conjunto de rótulos que descreviam as figuras observadas.  Interessantemente, neste trabalho,  foi a descoberta de que  os indivíduos cegos adventícios  tinham  uma ampla vantagem sobre os sujeitos cegos congênitos  e os observadores videntes vendados  quanto ao reconhecimento das figuras.  Tais  vantagens, de acordo com o autor,  dão-se  tanto pela experiência que os cegos adventícios  têm  com  figuras bidimensionais,  comparativamente  com os cegos congênitos, bem como  por  terem aqueles sujeitos  habilidades táteis  maiores  que os sujeitos videntes.

Lederman  e colaboradores (1990), ao contrário,  relataram  baixo desempenho no reconhecimento de figuras tangíveis  por cegos  e videntes vendados, com  ainda menor  reconhecimento das configurações por cegos congênitos.  Os dados desse trabalho  levaram esses autores  a propor que o sistema háptico  pode exigir a assistência  de mediação de imagem visual para o reconhecimento  de figuras   bidimensionais.

Heller, Calcaterra, Burson e Tyler (1996) apresentaram dados que parecem corroborar as  teorias que presumem que o tato pode precisar de uma mediação da imagem visual, i. e., que a imagem visual ajuda a percepção tátil na nomeação de desenho em alto relevo, uma vez que os cegos congênitos de seu quarto experimento obtiveram desempenho “mais baixo que os cegos adventícios e que o grupo de videntes controle, mesmo quando a informação de categoria foi dada na situação de antes do exame dos estímulos”.

Tais dados, diferentemente de estudos anteriores (Heller, 1989a), ao apresentar cegos congênitos desempenhando bem pior que os videntes, não são contraditórios àquele estudo, uma vez que os estímulos foram diversos e que alguns indivíduos CC (cegos congênitos) foram melhores que os participantes VV (videntes vendados), de onde é proposto que parte da dificuldade no reconhecimento de figuras em alto relevo pode  provir de problemas na localização de categorias ou dos nomes das figuras e não da mera percepção dos padrões.

Lima (1998)  faz assertiva de que o menor  reconhecimento háptico  das figuras bidimensionais (encontrado no seu experimento 3),  comparativamente  com o que poderia ser esperado para um reconhecimento visual,  reside no fato de os cegos  congênitos totais não estarem  acostumados  com as convenções   da linguagem pictórica, e não porque o sistema háptico  seja  incapaz de reconhecer desenhos em relevo,  nem  porque  seja necessária  uma mediação da visão, para esse  reconhecimento.  Com efeito,  Lima e Da Silva (2000)  demonstram que  cegos congênitos, cegos adventícios e videntes vendados  tiveram desempenho semelhante  no reconhecimento háptico de desenhos, não tendo havido diferença estatística  significativa entre  os grupos.

Por sua vez, Lederman e Klatzky (1987),  creditam o baixo reconhecimento de padrões  bidimensionais, pelo tato, tanto ao fato de  os cegos congênitos  jamais terem tido experiência visual, como ao fato de  os desenhos serem réplicas  em relevo de seus originais em tinta, os quais, segundo as autoras, são representações “empobrecidas” do tridimensional e carecem de informações inerentes aos objetos 3-D.

Klatzky e Lederman (1993);  Lederman, Klatzky, Chataway e  Summers (1990); Loomis,  Klatzky e Lederman (1991)  afirmam que o sistema háptico  está melhor adequado à percepção  de objetos  tridimensionais, porém  esse sistema  demonstra baixo desempenho  ao se deparar  com  figuras bidimensionais, uma vez que  os desenhos seriam representações “insuficientes”  de configurações tridimensionais,  visto que lhes faltam características importantes, inerentes  aos padrões  tridimensionais. Essa insuficiência dos desenhos em representar configurações tridimensionais, diminuiria o reconhecimento daqueles.

Bailes  e Lambert  (1986) investigaram os efeitos da experiência visual inicial no processo de informação háptica, semelhante às que são encontradas num contorno de um mapa bidimensional.  Eles alegaram   que  há indícios de que o tato seja menos eficaz do que a visão no processo de informações espaciais, citando, como exemplo, os testes de reconhecimento de padrões, onde os videntes se saem  melhor do que os indivíduos cegos.

Os  resultados obtidos  neste experimento  não sustentam a hipótese de que o reconhecimento dos observadores cegos congênitos é mais suscetível às demandas da memória do que o dos observadores cegos adventícios, uma vez que estes dois grupos não diferiram  significativamente entre si, no reconhecimento, nas estratégias usadas, etc (p. 456). Os videntes, porém, foram mais rápidos e exatos do que os sujeitos cegos congênitos e os sujeitos cegos adventícios.

Todos os grupos cometeram poucos erros com os estímulos apresentados com maior duração.   Diferentes estratégias foram relacionadas pelos observadores cegos e videntes, sendo elas,  de imagens  e verbais, respectivamente.

Já no estudo de Cornoldi  et alii  (1991) é sugerido que   a ausência de diferença entre videntes e sujeitos cegos, com muitos padrões complexos,  pode ser devida ao fato de que pessoas  cegas  não usam imagem visual  num caminho  específico e exclusivo. Nesse estudo, foi constatado pelos autores que  há  diferença individual na capacidade da memória.

Segundo Kitchin et alii (1997), atualmente as conclusões dos pesquisadores sobre a capacidade das pessoas com deficiência visual ou cegas em compreender relações geográficas tais como distância, configuração e hierarquia, podem ser divididas em três posições. O primeiro desses grupos sugere que a visão é o sentido espacial por excelência. Para esse grupo os indivíduos cegos congênitos são incapazes de raciocínio espacial porque jamais experienciaram os processos perceptuais (por exemplo, visão) necessários para compreender arranjos espaciais.

Sob a égide do segundo grupo, as pessoas com deficiência visual podem compreender e manipular mentalmente conceitos espaciais, mas porque a informação é baseada em pistas hápticas e auditivas, esse conhecimento e compreensão são inferiores àqueles baseados na visão.

Já sob a égide do terceiro grupo, os indivíduos com deficiência visual possuem as mesmas habilidades para processar e entender conceitos espaciais e que quaisquer diferenças, sejam em termos quantitativos ou qualitativos, podem ser explicadas por variáveis intervenientes tais como acesso a informação, experiência ou fadiga.

Acordes com esta última visão, muitas pesquisas têm enfatizado  a necessidade  de se introduzir o ensino de mapas táteis às crianças cegas o mais cedo possível e demonstrado  que o uso desses mapas   pode ser um meio útil de  fornecer às pessoas com deficiência visual  informações espaciais complexas,  as quais não lhes estão prontamente disponíveis  através  da experiência direta ao percorrer um caminho (Ungar, Blades e  Spencer, 1993; 1995; 1996a,  1996b). Isso porque os indivíduos cegos e com baixa visão teriam dificuldade  em construir uma representação precisa  e flexível de seu ambiente,  tão somente  a partir de uma experiência  direta de mobilidade  por esse ambiente  (Rosa e Ochaíta, 1993).

Consoante  Ungar et alii (1994),  o conhecimento do caminho de determinado lugar   impõe limitações no nível de mobilidade a que uma pessoa pode alcançar, i. e.,  passagens alternativas ou atalhos não são  deduzidos desse conhecimento.   Isso pode ser problemático,  quando uma pessoa com deficiência visual muda-se para uma nova região ou  precisa frequentar  um grande  logradouro público desconhecido

Todavia,  muito pouco  se tem  estudado  sobre  como  mapas táteis são utilizados  por pessoas com deficiência visual.  Menos ainda se tem  considerado  o modo pelo qual  os cegos  formam  representações mentais do  espaço, a partir  de experiência direta e de mapas táteis,  a despeito de os psicólogos, há muito,  se   interessarem   em saber  de que maneira as pessoas  manipulam e formam  representações mentais do ambiente espacial (UNGAR  et alii,  1996).

Segundo Marston e Golledge (1997), a falta de visão dificulta prever pistas para perceber e corrigir padrões espaciais; acessar conhecimento espacial para localizar atalhos; bem como dificulta  o  acesso ao conhecimento espacial para integrar uma via conhecida  em uma compreensão espacial  ampla,   o que restringe  muitas pessoas com deficiência visual a  rotas já conhecidas.  De acordo com os autores, ainda,  para essas pessoas   o tempo  domina o espaço sobre  uma compreensão espacial, por exemplo como quando  andam de ônibus.

Oka  (1999), defende “o uso de mapas táteis como recurso gráfico enquanto recurso didático e para o uso cotidiano (principalmente na mobilidade)”. De acordo com a autora, poucas pessoas utilizam o mapa tátil.  Isso se daria por conta  de  uma “escassez de material, de pesquisas na área (aqui no Brasil), de incentivo para a produção e de pessoal especializado”.

Segundo a autora, ainda, “muitas pessoas vêem o os indivíduos com deficiência visual como incapazes de ler mapas, esquemas e outros materiais gráficos”.  Com tal visão, essas pessoas acreditam que a utilização desses recursos seria dispensável para os indivíduos cegos,  dada a dificuldade que estes teriam  em compreender o  “emaranhado de linhas, pontos, nomes etc”.

Segundo Lima (2000b), visões como esta, mencionada por Oka, constituem exemplos de vieses socioculturais e científicos enraizados no conhecimento e postura de educadores, pesquisadores e dos próprios indivíduos com deficiência visual, e que precisam ser extirpadas em benefício desses mesmos sujeitos.

3- Conclusão

É mister que se provoque uma mudança no pensamento dos profissionais em relação à capacidade háptica dos indivíduos com deficiência visual em reconhecer figuras bidimensionais tangíveis, fazendo aqueles profissionais acreditarem na  potencialidade dos sujeitos cegos, mormente das pessoas cegas congênitas, no reconhecimento de desenho, hoje creditada apenas aos indivíduos com visão normal ou daqueles que já experienciaram a imagem visual.

É inquestionável que as pessoas cegas congênitas totais têm capacidades táteis e intelectuais tão boas quanto os demais indivíduos cegos (os sujeitos cegos adventícios) e os indivíduos com visão normal. Muito embora o desempenho dos primeiros possa inicialmente ser mais lento, em nada deixa a desejar em relação aos cegos adventícios ou videntes (LIMA e DA SILVA, 2000), de tal sorte que também o uso ótimo de desenhos bidimensionais possa ser por eles alcançados e o desempenho no reconhecimento de figuras planas venha ser tão acurado quanto  das demais pessoas.

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[1] (pint.) redução das figuras de um desenho segundo as regras de perspectiva, Caldas Aulete, Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, 1958.

Como citar esse artigo [ISO 690/2010]:
Lima Francisco José de 2011. Breve revisão no campo de pesquisa sobre a capacidade de a pessoa com deficiência visual reconhecer desenhos hapticamente [online]. [visto em 14/ 08/ 2020]. Disponível em: http://audiodescriptionworldwide.com/associados-da-inclusao/rbtv/breve-revisao-no-campo-de-pesquisa-sobre-a-capacidade-de-a-pessoa-com-deficiencia-visual-reconhecer-desenhos-hapticamente/.
Revista Brasileira de Tradução Visual

Este artigo faz parte da edição de número volume: 6, nº 6 (2011).
Para conhecer a edição completa, acesse: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/rbtv-6-sumario.

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  • Professor Adjunto da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); Coordenador do Centro de Estudos Inclusivos (CEI/UFPE); Idealizador e Formador do Curso de Tradução Visual com ênfase em Áudio-descrição “Imagens que Falam” (CEI/UFPE);Tradutor e intérprete, psicólogo, coordenador do Centro de Estudos Inclusivos. E-mail: cei@ce.ufpe.brView all posts by Francisco José de Lima

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