Texto do Joel Snyder e tradução para o português brasileiro por Paulo Vieira 1. Introdução Que forma poderia ser melhor para iniciar esta discussão a respeito da áudio-descrição do que com a áudio-descrição de um desenho dileto?  “O Fã” por John McPherson Num palco – à esquerda, uma mulher de vestido comprido, com as mãos … Continue reading Áudio-descrição: uma ajuda para a literacia
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Áudio-descrição da logo da RBTV: Revista Brasileira de Tradução Visual. Em um fundo branco, a mão direita faz a letra t em libras. O indicador e o polegar se cruzam, os demais dedos ficam erguidos. Próximo ao indicador há, em verde, 3 ondas sonoras. Abaixo da mão, lê-se RBTV, com letras verdes e com letras Braille em preto.

Áudio-descrição: uma ajuda para a literacia

Texto do Joel Snyder e tradução para o português brasileiro por Paulo Vieira

1. Introdução

Que forma poderia ser melhor para iniciar esta discussão a respeito da áudio-descrição do que com a áudio-descrição de um desenho dileto?

 “O Fã” por John McPherson

Num palco – à esquerda, uma mulher de vestido comprido, com as mãos juntas à frente, está de pé defronte a um homem ajoelhado, o qual usa um doublet e um chapéu com uma pena. Ele diz: “Por que vosso coração esvai-se do meu?” À direita, um homem fala ao microfone: “Basicamente, o cara do chapéu de Pateta está fulo da vida porque a mina dele anda saindo com o mano de meia-calça preta.” A legenda traz: “Muitas companhias de ópera agora oferecem intérpretes para as pessoas com desvantagem cultural.”

A áudio-descrição é, acima de tudo, uma técnica de acessibilidade projetada para o benefício das pessoas; de todas elas, incluindo crianças que são cegas ou que tem baixa visão. Eu a vejo como uma forma de arte literária, um tipo de poesia – um haicai. A técnica oferece um tipo de tradução verbal do visual – o visual torna-se verbal e aural (Snyder aponta para a orelha), e oral (ele aponta para a boca). Usando palavras sucintas, vívidas e imagéticas, a áudio-descrição transmite a imagem visual que não está completamente acessível a uma parte da população e que não é totalmente percebida pelo restante de nós – pessoas que enxergam, mas que podem não observar.

2. Fundamentos

A fim de entendermos como a áudio-descrição pode ser uma ajuda eficaz para a literacia, é útil saber como os áudio-descritores desenvolvem as suas habilidades. Ao formar futuros áudio-descritores, muitas vezes lembro quando pela primeira vez me deparei com o brilhante detetive de Sir Conan Doyle, o Sherlock Holmes. Brilhante e incrivelmente observador.

Ao desenvolver A-D para televisão, vídeo, teatro, museus, enfatizo quatro elementos, o primeiro tem a ver com a habilidade que Sherlock Holmes aguçava, a observação.

2.1 – Observação:

O grande filósofo Yogi Berra disse de uma forma melhor: “Você pode ver muito apenas olhando.” Um áudio-descritor eficiente deve aumentar o seu nível de consciência e tornar-se um “vidente” ativo, desenvolver sua “literacia visual”, perceber o mundo visual com um senso ampliado de acuidade e compartilhar as imagens.

O poeta e ensaísta Paul Valery nos lembra que “Ver é esquecer o nome daquilo que se vê”. Nomes e títulos, muitas vezes, nos levam a deixar passar o objeto que se observa sem realmente pensar sobre ele. A senhorita Helen Keller viu claramente que “Aqueles que nunca sofreram deficiência visual, ou auditiva, raramente fazem uso pleno dessas faculdades abençoadas. Os seus olhos e ouvidos assimilam todos os perceptos visuais e auditivos, sem concentração e com pouca apreciação.”

2.2 – Edição:

Os áudio-descritores devem, então, editar ou selecionar daquilo que vêem, escolhendo o que for mais válido, mais importante, o que é crucial para um entendimento e apreciação de um evento.

O grande jurista Oliver Wendell Holmes disse que “A grande luta da arte é deixar fora tudo, menos o essencial.” Além disso, as escolhas áudio-descritivas são feitas com base num entendimento acerca da cegueira e da baixa visão – áudio-descrevendo do geral para o específico, áudio-descrevendo as cores e as orientações direcionais.

2.3- Linguagem:

Nós traduzimos todos aqueles elementos em palavras, frases e metáforas que sejam objetivas, vívidas, específicas, imagéticas. Por exemplo, o Monumento de Washington tem 170 metros ou é da altura de dez elefantes empilhados? Ambos, é claro. Mas qual representação melhor evoca a imagem mental mais vívida? Quantas palavras diferentes você poderia usar para descrever alguém que se desloca por uma calçada? Por que dizer “anda” quando você pode descrever mais vividamente dizendo a ação com um “rebola”, “vagueia”, “pula”, “cambaleia” ou “saracoteia”?

Todavia, bons áudio-descritores também se esforçam para serem simples e sucintos (menos é mais).

Ao escrever para um amigo, o matemático e filósofo do século dezessete, Blaise Pascal notou: “Eu fiz esta carta extensa porque não tive tempo de torná-la mais curta.”

Ao mesmo tempo, um áudio-descritor tem de usar uma linguagem que ajude as pessoas a verem vividamente e verem até mesmo além do que está aparente de imediato. O grande novelista e humorista Jonathan Swift sabia que “A visão é a arte de ver as coisas invisíveis.” Aqueles elefantes não estão realmente ali, mas pode ser que mencionando-os ajude as pessoas a imaginarem a altura do Monumento de Washington. Como Mark Twain tão elegantemente advertiu: “Você não pode confiar nos seus olhos, enquanto a sua imaginação estiver fora de foco.”

Porém, é importante manter um grau de objetividade na maioria das circunstâncias. Os áudio-descritores o resumem no acrônimo:

QVVQVD: “O Que Você Vê é o Que Você Diz.”

Às vezes, faz-se menção aos áudio-descritores como sendo “uma câmera verbal”, a qual reconta oralmente os aspectos da imagem visual.

Julgamentos qualitativos atrapalham, pois constituem uma interpretação subjetiva por parte do áudio-descritor e são desnecessários e indesejáveis. Os áudio-descritores devem permitir que os ouvintes façam suas próprias interpretações baseadas na áudio-descrição, a mais objetiva possível. Sendo assim, não dizemos “Ele está furioso” ou “Ela está com raiva”. Em vez disso: “Ele cerra os pulsos” ou “Ela chora”.

A idéia é permitir que a audiência faça seus próprios julgamentos, talvez os olhos dos ouvintes não funcionem tão bem, mas o cérebro deles e a capacidade interpretativa estão intactos. Não enchamos nossas áudio-descrições com NOSSOS julgamentos ou interpretações; pois, afinal de contas: “ Não vemos as coisas como elas são; vemos as coisas como nós somos.” [Anais Nin].

2.4- Habilidades vocais:

Finalmente, além de construir uma habilidade verbal, o áudio-descritor desenvolve o instrumento vocal através do trabalho com a fala e fundamentos de interpretação oral. Nós comunicamos sentido com nossas vozes, costumo fazer um rápido exercício com a frase:

“Mulher, quando não há, o homem é selvagem.”

Agora leia em voz alta, de modo a ter o sentido oposto:

“Mulher quando não há o homem, é selvagem.”

E aqui vai um bônus – leia a seguinte frase de modo a fazer um sentido perfeito:

“Aquilo que é é aquilo que não é não é”

O resultado correto (com a pontuação apropriada):

“Aquilo que é, é; aquilo que não é, não é.”

Assim, áudio-descritores eficientes têm de aprender a: 1) “re-ver” o mundo em sua volta; 2) Perceber o que é visto realmente; 3) Expressar os aspectos pertinentes de tais imagens; 4) Utilizar linguagem precisa e imagética; e 5) Aplicar técnicas vocais que tornam o visual verbal.

3. Construindo a Literacia

Anos atrás, minha esposa, Esther Geiger, estava levando de carro algumas crianças para uma aula de teatro. As crianças vinham conversando animadas sobre o filme “Toys.” O filme acontece numa fábrica de brinquedos e é cheio de imagens repletas de cores e piadas visuais, mas sem muito diálogo. Uma criança, que era cega, disse no carro: “Ah, eu assisti a esse filme. Foi o filme mais chato ao qual já fui!” De fato, isto ocorreu antes do advento da áudio-descrição fílmica.

Esther é uma AMC, uma Analista de Movimento Certificada, profissional da área de Análise de Movimento de Laban, desenvolvida por Rudolph Laban, junto com a Notação de Laban – a técnica de descrição de dança – no início do século XX.

Como você pode imaginar, análise de movimento e a áudio-descrição têm muito em comum: a observação específica, a necessidade de objetivar nossas formas de olhar para o que observamos e encontrar mais maneiras de dizer o que vemos. Pelo fato de a áudio-descrição acontecer em “tempo real” e, principalmente, se um programa contiver muito diálogo, ou outros elementos sonoros de interesse, os áudio-descritores devem ser claros e sucintos. Não há tempo para se descrever tudo; tem-se de encontrar palavras concisas, vívidas e imagéticas a fim de eliciar imagens no olho da mente do ouvinte.

Encontrar as palavras, nós lidamos com isso quase em todos os momentos de nossas vidas. Mas crianças ou pessoas com deficiência de aprendizagem têm necessidades específicas que podem ser atendidas de modo eficaz através do uso da áudio-descrição. Certa feita, fui chamado a desenvolver um tour áudio-descritivo bastante elaborado para o Museu da Infância na cidade de New Haven, Connecticut, CT, com informações direcionais e de navegação, inclusive testado por pessoas com deficiência visual. Quando estive lá, dei um workshop em New Haven com cuidadores de crianças e professores leitores sobre aquilo que acredito representar uma nova aplicação para a áudio-descrição: a literacia. Nós experimentamos o uso de uma linguagem mais descritiva ao trabalharmos com crianças e livros ilustrados.

Esses livros dependem de imagens para contar a história e o professor treinado em técnicas de áudio-descrição jamais iria simplesmente levantar uma imagem de uma bola vermelha e ler o texto: “Veja a bola.” Ele poderia acrescentar: “A bola é redonda, vermelha da cor de um carro do corpo de bombeiros. Eu acho que esta bola é do tamanho de um de vocês! É redonda como o sol, vermelha e brilhante.” O professor introduziu um vocabulário novo, trouxe comparações, usou metáforas ou símiles – com crianças da faixa etária de um a três anos! Utilizando a áudio-descrição, o professor torna esses livros acessíveis a crianças com baixa visão ou cegas e ajuda-as a desenvolver habilidades lingüísticas. Uma imagem vale mil palavras? Talvez. Mas o áudio-descritor pode dizer que umas poucas palavras bem escolhidas podem eliciar imagens vívidas e duradouras.

Há vários anos, coordenei uma equipe de áudio-descritores, os quais ofertaram a áudio-descrição, pela primeira vez, para o programa “Vila Sésamo”. Fiquei especialmente tocado por uma carta que recebi de uma mãe cega; a qual, pela primeira vez, pôde acompanhar com sua filha as travessuras de Elmo, Beto, Ênio e todos os outros moradores da Vila Sésamo. Nós também fornecemos a áudio-descrição para a versão em espanhol da Vila Sésamo – o Plaza Sésamo – e acrescentamos trilhas áudio-descritivas em todos os DVDs recentemente lançados do Vila Sésamo.

Em apresentações ao vivo, muitas vezes peço às pessoas para ouvirem um trecho do longa metragem The Color of Paradise, primeiro sem imagem na tela e sem áudio-descrição, exatamente como alguém com deficiência visual poderia experimentá-lo se não tivesse acesso à áudio-descrição.

A seguir, exibo o mesmo trecho como o descrevi para transmissão nacional e, finalmente, com o vídeo intacto de modo que o vidente possa fazer seus próprios julgamentos sobre a eficácia das áudio-descrições. Então, apresento um script anotado da áudio-descrição deste mesmo trecho.

As anotações lhe permitirão ter algum entendimento de nossos critérios para a escolha da exata linguagem utilizada: o porquê de eu haver selecionado determinadas palavras com o intuito de trazer estas imagens ao olho de sua mente.

SCRIPT ANOTADO DA ÁUDIO-DESCRIÇÃO DE THE COLOR OF PARADISE

Pistas em MAIÚSCULAS; áudio-descrições precedidas por “>>”

As anotações estão no final do script, relacionadas a numerais dentro do texto áudio-descritivo.

Observação: A aparência do personagem “Mohammed” é descrita num trecho anterior do filme.

>> Mohammed se ajoelha e tateia a espessa camada de folhas secas e no chão 1.

…[CHILRO/RUÍDO: 02]

>> Um passarinho esquelético debate-se sobre o chão próximo à mão de Mohammed.

…[OFEGO/CHILRO: 02] 2.

>> A palma da mão paira sobre o passarinho. Mohammed põe a mão delicadamente sobre a pequenina criatura. Sorrindo, Mohammed curva os dedos em torno da ave 3. Ele apanha o pássaro e, com a ponta do dedo, lhe senti a cabeça quase sem penas.

…[CHILRO/RUÍDO: 01]

>> Mohammed se assusta quando a ave lhe belisca o dedo. Ele toca 4. o bico aberto do passarinho. Inclina 4. a cabeça para trás, depois reclina para baixo. Mohammed deposita 4. a ave no bolso frontal da blusa. Com braços e pernas em torno do tronco, Mohammed sobe.

…[RESPIRAÇÃO PROFUNDA/SUBINDO: 11]

>> Ele se segura mais acima num entrelaçado de ramos mais altos. Com as pernas, procura um apoio para os pés. Mohammed estira um braço entre uma forquilha no tronco da árvore e força a passagem de sua cabeça e ombros. Seus sapatos escorregam sobre a áspera casca da árvore.

Observação: ao longo de todo este trecho, em sua maior parte, as áudio-descrições são escritas para serem lidas “em tempo real” i.e., à medida que a ação que está sendo descrita ocorre na tela. Todavia, em muitos filmes, as áudio-descrições podem preceder a ação que está se desenvolvendo. Esta é uma convenção útil – ela possibilita a sincronia necessária nos filmes que possuem muitos diálogos e permite aos usuários da áudio-descrição a oportunidade de saberem “o que aconteceu” momentos antes de a ação ocorrer.

…[SCRAPING: 03]

>> Ele passa as pernas em torno do tronco mais baixo, a seguir usa os braços para impulsionar-se. Mohammed chega numa folhagem mais densa e segura-se no entrelaçado de ramos menores. Conseguindo apoio, ele fica em pé e ergue a cabeça para um lado.

…[CHILRO/BATIDA DE ASAS]

>> Um pássaro adulto voa de um galho próximo. 5. Mohammed estende uma mão aberta. Toca um galho e passa os dedos sobre grandes folhas verdes.

…[FARFALHAR: 03]

>> Tateia ao longo da extensão do galho. Os dedos seguem a casca macia dos galhos mais acima, procura pelas ramificações da árvore, e acha-as juntas.

…[FARFALHAR: 02]

>> Acima da cabeça, os dedos de Mohammed encontram uma densa massa de finos ramos tecidos – um ninho de pássaro.

…[CHILRO: 03]

>> Sorrindo, ele retira o passarinho do bolso da camisa e o solta lentamente dentro do ninho ao lado de outro filhote.

…[CHILRO: 03]

>>Ele alisa a cabeça da pequena ave com o indicador 6. Mohammed ondula o dedo como uma minhoca 7. e toca no bico aberto do passarinho. Sorrindo, ele lentamente baixa a mão.

NOTAS

1 – A áudio-descrição de cores tem se mostrado importante para as pessoas com baixa visão, e até mesmo para as pessoas cegas congênitas.
2 – Sincronia temporal é um elemento crítico na elaboração da áudio-descrição. “Tecemos” a linguagem descritiva em torno dos elementos sonoros do filme.
3 – Verbos vívidos eliciam imagens no olho da mente.
4 – A áudio-descrição, tanto quanto as poesias, é escrita para ser ouvida. A aliteração ajuda a manter o interesse. [N.T. a aliteração para este script ocorreu apenas na língua original]
5 – O que incluir? Esta imagem é importante – o pássaro adulto retorna na cena seguinte.
6 – Seja específico – a precisão cria imagens!
7 – Sorrisos pintam retratos!

4. Literacia Visual: Áudio-descrição e Movimento

Intrigantemente, foi a áudio-descrição de movimentos que primeiro chamou a atenção da minha esposa e nos levou a colaborar com vários projetos que experimentam a literacia. Como mencionado anteriormente, Esther tem focalizado no uso da Análise de Movimento Labaniana (AML) a fim de aprimorar a áudio-descrição. A AML oferece aos roteiristas da áudio-descrição e aos áudio-descritores ao vivo uma valiosa ferramenta para a observação, seleção e descrição de importantes elementos de movimento nas apresentações ao vivo, vídeos e filmes.

O interesse de Esther, neste esforço, foi primeiramente despertado ao assistir a uma transmissão de uma versão áudio-descrita do filme de 1977 “Os Embalos de Sábado à Noite”. Um ponto de viragem na história ocorre durante um concurso de dança, quando o protagonista (representado por John Travolta) descobre algo sobre as suas próprias limitações – e vantagens ingênitas – assistindo às performances de casais hispânicos que os precediam, a ele e à parceira. Para os olhos de um analista de movimentos, estava claro que as diferenças entre as atuações serviam como um meio importante para comunicar atitude e intensificar a trama. Mas o que se ouvia na descrição era apenas um foco em nomearem-se os movimentos que os dançarinos estavam fazendo; não se podia ouvir tanta diferença entre os casais como podia ser visto. A preocupação com esta oportunidade perdida na descrição nos levou a contemplar como as técnicas de Laban podiam contribuir.

Desde aquela época, Esther tem oferecido workshops para áudio-descritores, apresentando-os aos conceitos de AML que lhes pode ajudar a encontrar maneiras mais amplas de olhar para o movimento e encontrar palavras mais expressivas para dizer o que vê. Os áudio-descritores já são observadores experientes e sabem como procurar o essencial e o padrão.

Além disso, o que a abordagem AML lhes oferece é um spectrum visual expandido e um vocabulário mais específico para descrever os movimentos. Recentemente num workshop, Esther falou a áudio-descritores sobre a diferença entre apenas dizer o que alguém está fazendo e áudio-descrever, como fazem os áudio-descritores.

Os participantes do workshop observaram clips de pessoas andando nos quais simplesmente ouvir “anda” não comunicava nem de perto a quantidade de informações obtidas ao se ver a imagem. Por exemplo, ao se assistir a Charles Chaplin, em Luzes da Cidade, concordou-se que sua disposição corporal e maneira de mover-se eram elementos essenciais de seu personagem.

No filme My Fair Lady a atitude postural de Audrey Hepburn e tipos de movimentos, tanto o vestuário quanto a fala, demonstram como Eliza Doolittle mudou após ser arrumada pelo Professor Higgins. Noutros exemplos, o foco estava nos padrões de marcha, interações espaciais e outras ideias concernentes ao movimento que informam a maneira de andar dos personagens.

Os áudio-descritores usaram verbos relativos à maneira de andar os quais incorporam ideias adverbiais. A lista a seguir é um exemplo de um vocabulário desenvolvido para áudio-descritores, consiste em palavras de locomoção, organizadas a partir de uma estrutura da AML.

Vocabulário para Áudio-descritores: Locomoção

Os roteiristas em áudio-descrição buscam brevidade e clareza de expressão. A análise de movimento usa a estrutura e linguagem da AML a fim de buscar padrões, essência e significado. Aqui está uma lista de palavras para áudio-descritores, organizada a partir de um resumo de um analista de movimento.

Categoria número 1: Alguns verbos básicos que denotam uma ação corporal específica.

ANDAR, PISAR, CORRER, PULAR, SALTAR, PASSAR POR CIMA DE, GALOPAR, GIRAR.

Estas palavras dizem o que a pessoa que se movimenta está fazendo. Os áudio-descritores precisam ser sucintos, mas também específicos. Para transmitir o máximo de informações com o mínimo de palavras possível, eles muitas vezes precisam descrever como o personagem em movimento está realizando aquela ação. Que tipo de caminho no espaço ele segue? Como a forma ou “atitude” do seu corpo transmitem caráter ou contexto? Que qualidades dinâmicas do movimento contribuem para seu significado? O descritor precisa escolher uma terminologia concisa que irá capturar os elementos principais, comunicando ao ouvinte as deixas visuais mais essenciais.

Abaixo seguem alguns verbos significando “locomover”, que contêm informações modificadoras sobre o “como” do movimento.

Categoria número 2: Dinâmica do movimento

(A ideia principal na locomoção é vista através do uso que o personagem em movimento faz de fatores dinâmicos: fluxo, tempo, força e foco)

O movimento locomotor é principalmente relativo a fluxo (desprender ou conter):

FLUIR, PROGREDIR, AFLUIR, MOVER-SE COMO AS ONDAS, CEDER, AFROUXAR, ENTESAR, RESISTIR, APERTAR.

O movimento locomotor é principalmente relativo a tempo (rápido ou contido):

COMPETIR EM CORRIDA, VOAR, ARREMESSAR-SE, TROTAR, LANÇAR COM ÍMPETO, ACELERAR, ANDAR DEPRESSA, APRESSAR-SE, SAIR ÀS PRESSAS, CORRER, ADIANTAR, DEBANDAR, GIRAR RAPIDAMENTE, PASSEAR, ARRASTAR-SE, TROTAR, HESITAR, SARACOTEAR, DESACELERAR, DEMORAR-SE, PERAMBULAR, FAZER CERA.

O movimento locomotor é principalmente relativo à força (forte ou leve):

PISAR DURO (DE RAIVA), COLIDIR, ESPATELAR-SE, CAMINHAR PENOSAMENTE, CAMINHAR LENTA E PESADAMENTE, CAMINHAR PESADA E RUIDOSAMENTE, ANDAR LENTA E DESCOORDENADAMENTE, TREMULAR, ANDAR NA PONTA DOS PÉS, VOAR RAPIDAMENTE.

O movimento locomotor é principalmente sobre foco (direto ou difuso):

ENFIAR, ENCONTRAR O CAMINHO DE VOLTA (COM UM EQUIPAMENTO), MARCHAR, TRILHAR, RASTREAR, SEGUIR, VAGUEAR, AVANÇAR DANDO VOLTAS (COSTURANDO ENTRE CARROS), EXPLORAR, VISTORIAR.

Muitos verbos de locomoção contêm ideias que combinam dois ou três destes fatores dentro da categoria de dinâmica de movimento. Por exemplo:

(Tempo e força) MOVER-SE MUITO RAPIDAMENTE, ANDAR COM PASSOS PESADOS, MARCHAR, FLUTUAR, SALTITAR, CAMINHAR LENTA E PENOSAMENTE

(Fluxo e foco) PERAMBULAR, AFASTAR-SE

(Força e Foco) DAR UM BOTE, ESTABILIZAR

(Tempo e Fluxo) PÔR-SE EM MOVIMENTO, PINOTEAR

(Tempo e Foco) EMPINAR, MOVER-SE PARA LÁ E PARA CÁ

(Fluxo e Força) MOVER-SE COMO AS ONDAS, ANDAR DE MODO AFETADO, SER ARRASTADO PELA CORRENTEZA

(Força, Tempo e Foco) FLUTUAR, LANÇAR-SE SOBRE, DESLIZAR, ARREMESSAR, MOER, VOAR RAPIDAMENTE, PRESSIONAR

(Força, Tempo, Fluxo) FLAGELAR, QUERENAR, IRROMPER, ESTOURAR (DE REBANHO)

(Tempo, Fluxo, Foco) TRANSPORTAR

(Fluxo, Foco, Força) – ARRASTAR

Categoria número 3: Espaço (Direção Espacial ou Caminho)

(A “ideia principal” no movimento é aonde ele vai e como navega através do ambiente.)

ENTRAR, APROXIMAR-SE, CHEGAR, CIRCULAR, NAVEGAR, CIRCUNAVEGAR, MOVER-SE EM SENTIDO LATERAL, DAR UM PASSO, DIRIGIR-SE CUIDADOSAMENTE PARA, MEANDRAR, VAGAR, ZIG-ZAGUEAR, MOVER-SE EM ÂNGULO, ANDAR AO LÉO, MOVER-SE EM FORMA DE ESPIRAL, ORBITAR, SEGUIR, PROGREDIR, DESLIZAR, ATRAVESSAR, EVADIR-SE, INVADIR, PERSEGUIR, CASSAR, VIRAR-SE.

Categoria Número 4: Forma corpórea ou atitude

(A ideia principal está contida na maneira do personagem realizar sua forma corporal em relação ao ambiente na medida em que se locomove)

AVANÇAR, RECUAR, SEGUIR SINUOSAMENTE, RASTEJAR, CONTORCER-SE, ESCORRER LENTAMENTE, MANCAR, SERPEAR, ANDAR COMO OS PATOS/GINGAR, DESFILAR, MOVER-SE COM GRANDE ESFORÇO, ENTRELAÇAR-SE, ENROSCAR, BALANÇAR, REBOLAR.

Verbos de Combinação de Idéias

Claro, muitos verbos de locomoção combinam ideias das categorias acima:

(Espaço e Dinâmica) MERGULHAR, ARREMESSAR, JOGAR (NAVIO), SAIR DEPRESSA, CAMINHAR COM AFETAÇÃO, PRECIPITAR-SE, ESCAPAR, MOVER-SE DE MODO DESAJEITADO, APROXIMAR-SE SILENCIOSAMENTE, CRAVAR, PASSAR LEVEMENTE SOBRE, ANDAR COM PASSOS LARGOS.

(Espaço e forma corpórea) INCLINAR-SE, QUERENAR-SE, DESLIZAR, ANDAR A PASSOS RÁPIDOS, MOVER-SE EM SENTIDO LATERAL

(Espaço e Ação Corporal) ESCORREGAR, TROPEÇAR

(Forma Corpórea e Dinâmica) SACUDIR, RETIRAR-SE DE MANEIRA FURTIVA, ANDAR DE MODO AFETADO OU POMPOSO, TROPEÇAR, SAIR DEPRESSA

(Ação Corpórea e Dinâmica) RODOPIAR, GIRAR, TROPEÇAR, MARCHAR

(Espaço, Dinâmica, Forma Corpórea) ANDAR FURTIVAMENTE, RASTEJAR.

Áudio-descrever uma peça ou filme é um desafio: comunicar os elementos visuais com clareza e, ao mesmo tempo, permitir à audiência ouvir o diálogo e efeitos sonoros. Ao lidar pela primeira vez com a áudio-descrição de dança, o desafio parecia inatingível: a dança é por demais visual! Os insights que permitiram achar o caminho nesse desafio vieram de um membro da audiência que tinha deficiência visual e do treinamento em Laban.

Este projeto especial foi uma colaboração entre Audio Description Associates (ADA) e a Axis Dance Company, situada em Oakland, na Califórnia. A Axis é pioneira em “Dança Fisicamente Integrada”.

A Axis Dance, comprometida com a inclusão e acessibilidade, solicitou à ADA que oferecesse a áudio-descrição para uma apresentação pelo Teatro Flyn, em Burlington, Vermont.

A ADA deveria escrever um roteiro baseado em vídeo-tapes da coreografia e participar de workshops de treinamentos para áudio-descritores ao vivo. Os áudio-descritores assistiriam aos ensaios, com o roteiro em mãos, a fim de praticar a “fala do essencial” à medida que a dança acontecia e, depois, áudio-descrever a apresentação ao vivo para membros da audiência, pessoas cegas cegos ou com baixa visão. Para a maioria desses clientes, esta seria a primeira vez que eles assistiriam a uma apresentação de dança ao vivo.

Num workshop pré-apresentação, organizado pela Axis, nós ouvimos de um participante com deficiência visual: “Eu nunca vou a espetáculos de dança porque tudo que compreendo é a música e se você não gostar da música, é realmente entediante!” – Esta fala nos recorda o que disse aquela criança a respeito do filme Toys, anos atrás (que se sentiu tão entediado com o filme que seus amigos acharam tão empolgante.). Quando perguntado o que ele precisaria ouvir na áudio-descrição a fim de não ficar entediado, aquele participante respondeu: “a história”. Um dos áudio-descritores respondeu em consternação: “Mas é dança contemporânea, é abstrato. Não há história!” De fato, Laban escreveu que “A dança em si mesma não possui história descritível. É frequentemente impossível esboçar o conteúdo de uma dança em palavras, embora se possa sempre descrever o movimento.” [Introdução à segunda edição de The Mastery of Movement, p. 4]. E aqui esperamos, dalgum modo, descrever os movimentos de uma maneira que dê ao ouvinte da áudio-descrição o acesso ao conteúdo!

Mas o próprio Laban mostrou como descrever, há umas poucas páginas antes ele havia escrito: “(…) a artista fazendo o papel de Eva pode colher a maçã em mais de uma maneira, com movimentos de expressão variável. Ela pode colher a maçã ávida e rapidamente ou lânguida e sensualmente (…). Muitas outras formas de ação são possíveis, e cada uma delas será caracterizada por um tipo de movimento

Ao definir o tipo de movimento como ávido, como sensual ou desinteressado, não se define meramente o que se viu. Aquilo que o espectador viu pode ter sido apenas um puxão rápido ou um lento deslizamento do braço. A impressão de avidez ou sensualidade é a interpretação pessoal do estado de espírito de Eva (…)” [p. 1]. Aqui Laban está aludindo à natureza interativa da “corrente entre palco e audiência”. Ele também sugere um importante princípio das técnicas de áudio-descrição, notado acima: “QVVQVD: o que você vê é o que você diz.”

Em outras palavras: é importante descrever com precisão e vividez, mas permita ao ouvinte da áudio-descrição criar significado. Os áudio-descritores tentam ser objetivos, usando palavras que sejam específicas e imagéticas, sem ser interpretativas (Eva arranca a maçã “com um rápido puxão”, não “com uma expressão de culpa ambiciosa”).

O vocabulário AML ofereceu as palavras para descrever os movimentos que acontecem em cada apresentação de dança da Axis. Além disso, a AML ofereceu uma perspectiva a partir da qual se pudesse encontrar a “história” de cada parte da coreografia, quer houvesse ou não uma trama narrativa.

Ao assistirmos cada trecho da Axis no vídeo, ao desenvolver o script da áudio-descrição, o foco esteve em encontrar a “história” que conta: qual a ideia principal a dança comunica ao espectador/ qual é a essência da dança? Que informações seriam mais importantes para permitir a um membro da audiência com deficiência visual “ver” a performance o mais completamente possível, a fim de ajudá-lo a acompanhar o significado da coreografia?

A estrutura da AML propicia uma lente para ver a essência e significado. Uma vez que não há tempo para descrever tudo o que está acontecendo no palco, enquanto a dança está se desenvolvendo, o áudio-descritor precisa escolher quais elementos compreendem a estrutura e temas da coreografia e que palavras mais sucintamente transmitem aquelas idéias. Por exemplo, uma obra parecia ser principalmente “sobre” padrões espaciais e sequências de aproximação e dispersão de grupos; os movimentos específicos dos dançarinos pareciam menos importantes e as características individuais (gênero, cor de cabelo, forma corporal, etc.) não pareciam importar absolutamente

Numa outra obra, onde cada dançarino representava um personagem único, aqueles fatores específicos, junto com a atitude corporal, eram fatores significativos.

O material a seguir é um trecho do script dos áudio-descritores para uma das obras da Axis Dance: “Dust”, coreografada por Victoria Marks. O script deve ser falado enquanto o movimento acontece; assistindo a um tape da obra, você notaria que muito que ficou sem ser dito a fim de comunicar a atmosfera, o tema e a estrutura coreográfica, e ao mesmo tempo deixando espaço aural para impacto dos instrumentos musicais.

Eu o convido a testar a áudio-descrição lendo-a em voz alta para si próprio. Até que ponto ouvir a dança lhe permite ver? Imediatamente a seguir o script da Axis para a A-D de “Dust”. Trata-se do script da abertura de um recém lançado DVD de um filme de Karina Epperlein, Phoenix Dance. O filme é uma crônica da carreira de Homer Avila, um dançarino que perdeu uma perna por causa de um câncer e continuou o seu trabalho.

Script Áudio-descritivo de uma Performance ao Vivo (trecho)

DUST

Por Victoria Marks

DIRETRIZES GERAIS PARA ÁUDIO-DESCRITORES

Esta dança é estruturada para empregar muitos tipos de contrastes. Exemplos incluem…

Contrastes visuais: claro/escuro, tons quentes/tons frios, padrões/luz total, um ou dois dançarinos/grupo grande.

Contrastes Sonoros: sons da natureza/música, silêncio (sons serenos)/sons ativos, sons de agitação.

Contrastes de ideias coreográficas: imobilidade/mobilidade, passivo/ativo, iniciador/seguidor, intensidade (seriedade)/atividade descontraída, isolamento/interação.

Observe que a atividade/passividade, imobilidade/mobilidade de cada dançarino em cada momento coreográfico não se baseia em quem está numa cadeira de rodas/ “com deficiência” ou não. Às vezes o coreógrafo inverte isso propositalmente.

ÁUDIO-DESCRIÇÃO

1
Um pequeno cone de luz revela uma mulher imóvel deitada, com o rosto em terra. Da esquerda, uma segunda mulher move a cadeira de rodas para dentro da luz.

2
Ela para junto à mulher debruçada, estende a mão para baixo para levantar o ombro da mulher e mudar a sua posição.

3
A mulher na cadeira de rodas continua a posicionar a outra, movendo uma parte do corpo de cada vez. A mulher sobre o chão move-se apenas como é moldada, mantendo cada nova forma.

[BREVE PAUSA]

A dançarina cadeirante guia a cadeira de rodas empurrando a que é movida a ficar deitada com as costas sobre o chão.

4
A bailarina passiva no chão é suavemente puxada e empurrada, a cabeça dela está levantada, as costas tocadas levemente. Ela é colocada sentada. A cadeira de rodas a empurra por trás; ela desliza até ficar em posição de crouch, e depois um squat. Gradualmente, a parceira a levanta. A mulher que está de pé volta a cabeça para a dançarina cadeirante. A luz se apaga.

5
A luz volta. A mulher a qual está de pé se defronta com uma nova dançarina. Ela que estava passiva é agora a iniciadora. Um empurrão do seu indicador contra o osso do peito da outra desencadeia uma cascata de movimentos. A primeira recua e olha enquanto uma nova dançarina bate e balança, cai de joelhos, cotovelo, e depois deita de braços e pernas abertas com as costas sobre o chão. A luz desaparece. As luzes desaparecem.

6
O círculo de luz surge. Uma nova dançarina fica de pé ao lado da mulher de braços e pernas abertas, cortando o ar com agudos movimentos arqueados dos braços. A mulher de braços e pernas abertas levanta a cabeça, enquanto a outra olha fixamente para cima. A luz se apaga, escuridão.

[PAUSA, MUDA A MÚSICA]

7
As luzes do palco voltam totalmente. A partir da esquerda, um homem e uma mulher, na sincronia da música, empinam-se e inclinam-se para a frente. Eles são encontrados, a partir da direita, por uma dançarina em uma cadeira de rodas motorizada, arrastando uma outra agarrada à parte traseira. Agora os dançarinos convergem e se dispersam ativamente por todo o palco – dois dirigem cadeiras de rodas, cinco estão de pé. Saudações, abraços, tapinhas, reagrupamentos. Os dançarinos ondulam-se, colidem, caçoam, caçam, empurram, apóiam-se, caem e rolam ou sobem uns nos outros, numa correria e zumbido brincalhão de um lugar para outro.

8
Agora, à medida que as luzes começam a baixar, os dançarinos se dispersam pelo palco e reduzem a velocidade até ficarem parados pausando num tableu. A iluminação cria uma geometria de sombras cruzando o chão. Os dançarinos começam a girar onde estão. Agora todos são vistos de perfil direito.

9
Agora estão de costas para nós.

10
[CHIMES]

11
Os dançarinos continuam a lenta rotação.

12
Agora todos estão em perfil esquerdo.

13
À esquerda, de repente, uma dançarina cadeirante lança o braço para cima e gira a cadeira para a direita. Com esta deixa, um homem à direita rodopia, a seguir estende o braço para trazê-la para si. Enquanto alguns continuam a rotação nos seus lugares, outros ficam fora de forma e repetem alguns dos movimentos de saudar, alcançar, correr e empurrar. Cada um sempre volta a uma área luminosa fixa e retorna à contínua rotação do grupo.

14
Pequenos grupos dão um passo para frente, depois voltam para o lugar. Agora todos pausam, em tableu novamente, de costas para nós.

15
De uma só vez, todos olham sobre o ombro direito depois voltam-se para nós.

16
Eles estão parados.

17
Os dois à direita se afastam.

18
Os dois ao centro se afastam.

19
Os três que ficaram se afastam.

20
Lenta e uniformemente, todos giram para a direita, de modo a defrontar-se com o canto esquerdo do fundo.

21-22
Quebrando o encanto abruptamente, uma mulher lança-se da direita para a esquerda, passando pelo grupo. Ela se atira ao chão, a seguir ergue-se com esforço e corre para trás enquanto as outras afastam-se dela a passos largos, saindo pela esquerda. Ela repete, corre, desliza e é deixada só no palco. As luzes brilham e os traços no chão desaparecem. A dançarina solitária sai correndo enquanto os outros retornam seguindo o mesmo caminho diagonal dela (da esquerda distante para a direita próxima). Eles estão puxando com força, empurrando, agarrando e levantando uns aos outros. Alguns empurram, rolam e passam correndo por outros para avançar ao longo da diagonal e dispersar-se à direita, fora do palco.

23
Agora, em cena, apenas duas dançarinas. Elas param, olham uma para a outra, e uma delas sai correndo pela direita, deixando a outra de pé sozinha.

24
Corpo ereto, ela vira-se de costas para nós…

25
… então gira lentamente sobre um pé, daí sobre o outro para completar a rotação.

26
Agora ela olha para nós. Anda para frente, com o olhar penetrante para a audiência.

27
A luz brilha sobre ela enquanto ela se inclina para frente, as mãos sobre o joelho direito. Ela desata a prótese da parte inferior da perna. Coloca a prótese em pé, à frente, e se ajoelha.

28
Agachada, ela desliza para a esquerda, sobre os joelhos.

29
Ela olha para nós, inclina-se para a frente, fita a perna, estendendo lentamente o dedo indicador para empurrá-la e derrubá-la. Enquanto ela senta, uma outra dançarina, num cone de luz à parte, à esquerda, aponta para cima, arqueando as costas, a seguir caindo no chão com a face contra o solo.

Script de áudio-descritores do DVD Phoenix Dance por Karina Epperlein (trecho)

Sobre o chão escuro de um palco, um homem deita-se de bruços, equilibrando-se sobre as mãos e com a perna esquerda estendida. Lentamente ele desce, dobrando o braço musculoso, a perna esquerda com salientes tendões estendida à direita.

O homem bem barbeado, pele cor de oliva, de cabelos escuros, bem curtos, se empurra para trás e então dobra o joelho esquerdo. Os braços ondulam-se aos lados, primeiro um, depois o outro, enquanto ele sobe para ficar sentado. Ele posa com o braço direito erguido enquanto olha em direção ao chão, onde sua perna direita estaria. Ele usa camiseta regata preta e calça legging preta à altura da coxa.

Ele vira em direção à perna esquerda e flexiona o tronco, ficando deitado em paralelo à perna por um momento. Empurrando as mãos contra o solo, ele ergue o quadril, com o tronco ainda deitado sobre a perna estendida. Ele se equilibra sobre as mãos e pé.

Ele se desloca para a direita, como um animal, de cabeça baixa, alternando o peso de mão a mão e jogando a perna.

Agora, visto através de uma porta parcialmente aberta, Homer de óculos, num pulôver verde, pula e gira sobre a única perna; a seguir abaixa-se e ergue a cabeça suavemente, longe de nós.

Em letras vermelhas, sobre fundo preto: Phoenix Dance

Em letras brancas: Um filme de Karina Epperlein com Alonzo King, Homer Avila, Andrea Flores.

5. Conclusão

Os projetos acima detalhados – tanto o treinamento de áudio-descritores e quanto a escrita do roteiro – são explorações iniciais na aplicação da AML na áudio-descrição e uma exploração de como a áudio-descrição pode construir as literacias: verbal, visual e de movimento. É claro que os áudio-descritores e todos os amantes da linguagem têm muito a compartilhar e muito a aprenderem juntos sobre observação, clareza e eficiência da áudio-descrição – e como o uso da linguagem descritiva pode construir uma literacia mais sofisticada para todos.

Perguntas são bem-vindas de pesquisadores aqui ou de seus colegas em casa concernentes a potenciais estudos de pesquisa nesta área. Comparativamente ao lengendamento e outras áreas da tradução áudio-visual, há muita pesquisa a ser feita a respeito a áudio-descrição. Eu gostaria de trabalhar com vocês.

Referência

LABAN, Rudolph (1950). The Mastery of Movement: MacDonald and Evans Limited.

Ilustração

© John McPherson
Como citar esse artigo [ISO 690/2010]:
Vieira Paulo Snyder Joel 2011. Áudio-descrição: uma ajuda para a literacia [online]. [visto em 18/ 08/ 2019]. Disponível em: http://audiodescriptionworldwide.com/associados-da-inclusao/rbtv/audio-descricao-uma-ajuda-para-a-literacia/.
Revista Brasileira de Tradução Visual

Este artigo faz parte da edição de número volume: 6, nº 6 (2011).
Para conhecer a edição completa, acesse: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/rbtv-6-sumario.

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  • PT-BR: Presidente e Fundador da Audio Description Associates. Um dos primeiros áudio-descritores (c. 1981) Joel Snyder e a Audio Description Associates desenvolvem áudio-descrição para mídia, tours em museus, e artes cênicas mundo afora. Ele tem estado à frente de uma equipe que produz áudio-descrição para filmes, transmitidos nacionalmente e seriados, incluindo os programas e os DVS do “Vila Sésamo”. No cenário internacional, Snyder já ministrou as técnicas de áudio-descrição em mais de dez países. No verão do ano de 2008, apresentou trabalhos em Montpellier, França; Shangai, China; e áudio-descreveu para a União Mundial de Cegos (World Blind Union) em Genebra.Visite www.audiodescribe.com para obter mais informações e amostras de trabalhos do autor.One of the first audio describers (c. 1981), Joel Snyder and Audio Description Associates develop audio description for media, museum tours, and performing arts worldwide. He has led a staff that produces description for nationally broadcast films and network series including “Sesame Street” broadcasts and DVDs. Internationally, he has introduced description techniques in over a dozen nations; in summer 2008, he presented papers on description in Montpellier, France; Shanghai, China; and provided description for the World Blind Union in Geneva. Visit www.audiodescribe.com for more information and work samples.View all posts by Joel Snyder

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