Este relato tem o objetivo de descrever o trabalho de áudio-descrição do espetáculo da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém de 2011, realizado por áudio-descritores do grupo de tradução visual “Imagens que Falam”, do Centro de Estudos Inclusivos da Universidade Federal de Pernambuco CEI/UFPE. O sinal verde para fazermos a áudio-descrição, desse que é um … Continue reading Áudio-descrição da paixão de cristo: um breve relato de uma mega produção
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Áudio-descrição da logo da RBTV: Revista Brasileira de Tradução Visual. Em um fundo branco, a mão direita faz a letra t em libras. O indicador e o polegar se cruzam, os demais dedos ficam erguidos. Próximo ao indicador há, em verde, 3 ondas sonoras. Abaixo da mão, lê-se RBTV, com letras verdes e com letras Braille em preto.

Áudio-descrição da paixão de cristo: um breve relato de uma mega produção

Este relato tem o objetivo de descrever o trabalho de áudio-descrição do espetáculo da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém de 2011, realizado por áudio-descritores do grupo de tradução visual “Imagens que Falam”, do Centro de Estudos Inclusivos da Universidade Federal de Pernambuco CEI/UFPE.

O sinal verde para fazermos a áudio-descrição, desse que é um dos maiores eventos teatrais ao ar livre, só foi dado quinze dias antes da estreia do espetáculo. Não obstante viéssemos fazendo planos para a áudio-descrição desse evento, já há alguns meses (empreendendo estudos a partir dos DVDs de anos anteriores; fazendo pesquisas na internet e em literatura religiosa especializada, etc.), tudo ainda era indefinido, visto que não sabíamos se teríamos apoio das instituições, junto às quais estávamos pleiteando patrocínio para custeio do material necessário para a realização da áudio-descrição; pró-labore dos áudio-descritores, ingressos para os usuários, ou pelo menos, recursos mínimos para podermos tornar realidade o acesso comunicacional da Paixão de Cristo aos espectadores com deficiência visual.

Por época da definição de que faríamos a áudio-descrição do espetáculo, já tínhamos decidido que o faríamos, nem que fosse na forma de áudio-descrição de “pé de orelha” e cobrindo as despesas com o dinheiro do nosso próprio bolso. E, aconteceu quase isso: Formamos uma equipe de cinco profissionais, quatro áudio-descritores e um consultor que, voluntariosamente fizeram a áudio-descrição, desde a roteirização à locução; da recepção dos usuários à orientação deles pelo percurso em Nova Jerusalém.

Essa experiência nos trouxe múltiplos aprendizados nas áreas técnica, teórico-prática, política e humana, os quais tentarei partilhar, resumidamente, aqui.

Área técnica

Situada no Agreste pernambucano, a cidade teatro possui 100mil m2 de área, que abriga nove palcos-cenários ao ar livre. O terreno é na maior parte de barro batido e apresenta alguns declives. Os espaços mais próximos a cada um dos palcos-cenários são calçados por pedras irregulares. A movimentação do público acontece, no sentido anti-horário, a cada mudança de cena. Os primeiros desafios: iríamos fazer AD, durante três horas, em pé, caminhando ao ar livre, logo, sem cabine com adequada acústica.

Escolhas que nos foram possíveis: usamos dois transmissores portáteis carregados, em uma mochila, pelos técnicos que ficavam sempre próximo aos áudio-descritores, durante a locução. Alternamos dois áudio-descritores por cena, sob a direção do consultor. Tínhamos em uma orelha o fone do aparelho de recepção e na outra orelha o fone do rádio, walkie-talkie, que a equipe usava para intercomunicação. Nas mãos, tínhamos que coordenar o microfone sem fio, a prancheta e a lanterna. Tínhamos que sincronizar a caminhada de todos nós, áudio-descritores, técnicos e usuários, muito embora alguns guias voluntários ajudassem na orientação das pessoas cegas ou com baixa visão. O trabalho foi intenso e bem aproveitado: Vieram assistir ao espetáculo, 17 usuários na primeira noite, na apresentação do ensaio geral, e 60, no dia da primeira apresentação aberta ao público.

No primeiro dia, como que um presente, fomos todos “batizados” com um chuvisco durante as cenas finais do espetáculo!

Área teórico-prática

Para esse espetáculo de teatro tivemos que empregar muitas das técnicas de fazer áudio-descrição no que se refere ao estudo prévio da obra; à construção de roteiro; à recepção dos usuários; às especificidades de locução; etc. Em um evento como o da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, não há comparações, dado ser um espetáculo de características tão peculiares. É teatro, mas o texto é antecipadamente gravado pelos atores, em estúdio. Na arena, tudo pode acontecer…

Durante a apresentação estávamos sujeitos às mudanças de clima. Uma chuva forte poderia danificar os aparelhos e interromper a comunicação. O contato direto com a multidão e a locomoção de uma cena para outra, exigia a necessidade de áudio-descrever o público e a movimentação, como por exemplo: grupos carregando faixas, guias segurando marcadores (lanternas, bandeiras), entre outros.

A equipe chegou dois dias antes para conhecer o espaço e definir as estratégias de trabalho. O consultor nos apontava as primeiras dificuldades e nos ajudava a achar soluções. Tínhamos feito o roteiro previamente, baseados em um DVD com a gravação da montagem da temporada do ano de 2009. Entretanto, no dia, os atores não eram os mesmos. As notas proêmias foram reescritas e complementadas a partir do contato com o ambiente, os cenários e o figurino. O roteiro também sofreu alterações devido às variações de marcações dos novos atores.

Ao recepcionarmos os usuários, apresentamos as notas proêmias, os instruímos a respeito de como se movimentariam pela grande área do espetáculo, de como a áudio-descrição se daria e de como funcionariam o serviço e os equipamentos nele empregados.

Área política

A decisão de fazer a A-D desse espetáculo partiu da nossa equipe. Todos abraçaram essa tarefa. Começamos a buscar patrocínio. Inicialmente, tivemos o irrestrito consentimento do diretor do espetáculo, que colaborou, tanto fornecendo informações quanto criando uma ponte entre nós e os produtores, o que permitiu que recebêssemos o apoio da Sociedade Teatral de Fazenda Nova referente à estadia e à alimentação de três áudio-descritores e à isenção de ingresso para os usuários. Com a Luck Viagens, conseguimos o transporte gratuito para as pessoas com deficiência visual que viriam de Recife e um guia de turismo e áudio-descritor, para áudio-descrever durante o percurso da viagem.

A Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos e a Secretaria de Apoio ao Deficiente, do Governo do Estado de Pernambuco, patrocinaram o aluguel dos equipamentos de transmissão e recepção da áudio-descrição e o transporte da equipe de áudio-descritores. A TV Globo Nordeste contribuiu com um valor simbólico, pago à equipe, pela A-D do vídeo de abertura do espetáculo – no qual eram apresentadas, entre outras informações, a de quem eram os patrocinadores da produção.

Foram muitas idas e vindas, muitos e-mails e muitas ligações até que o sonho e o desejo de áudio-descrever a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém se tornassem realidade. Então, tudo aconteceu e, no final, houve grande repercussão na mídia local (jornais, sites, rádio e TV), e também na mídia nacional, como na TV Globo, bem como na internet, nos blogs, e em sites diversos.

Área humana

O alojamento precário, o clima quente, a comida indigesta, as longas caminhadas e alguns impedimentos colocados pela produção local, como por exemplo, a proibição do acesso dos técnicos à cidade-teatro da Nova Jerusalém fora do horário de entrada dos espectadores, foram dificuldades extras que tivemos de vencer e que, porém, não abateram o ânimo da equipe; ao contrário, contribuíram para que o grupo ficasse mais unido e determinado em oferecer uma áudio-descrição digna do evento e dos usuários que nos prestigiariam. Isso refletiu em um trabalho intensamente compartilhado, principalmente durante as apresentações.

A produção do espetáculo geralmente reúne voluntários para ajudar a empurrar cadeiras de rodas para as pessoas com dificuldade de locomoção. Esse ano, os guias voluntários foram solicitados por nós para auxiliar no deslocamento dos usuários do serviço de AD, pois, até o último minuto, não havia sido oferecido apoio humano para realizar essa tarefa. Os jovens voluntários, nunca haviam guiado pessoas com deficiência visual, mas a partir de nossa intervenção suplantaram essa falta de preparo com boa vontade e com disposição. Esse é um dos itens que merece atenção no planejamento para os espetáculos futuros em Nova Jerusalém.

Ao final, não foi possível conter as lágrimas. Estas, dos usuários e dos áudio-descritores, não foram motivadas apenas por causa da emoção do espetáculo, mas também porque tínhamos realizado um trabalho inédito, aberto caminho para mais um espetáculo acessível, para a atuação profissional do áudio-descritor e para o cumprimento dos direitos das pessoas com deficiência visual, cegas ou com baixa visão.

Créditos:

Equipe de áudio-descrição:

Consultor: Prof. Francisco Lima coordenador do Centro de Estudos Inclusivos da Universidade Federal de Pernambuco – CEI/UFPE

Roteiro e locução: Andreza Nóbrega, Ernani Ribeiro, Liliana Tavares e Paulo Vieira.

Áudio-descrição do percurso da viagem: Heider Danilo de Oliveira.

Agradecimentos:

A Fabiana Tavares, aos usuários e a todos que de alguma forma acreditaram que essa empreitada seria possível.

Como citar esse artigo [ISO 690/2010]:
Tavares Liliana Barros 2011. Áudio-descrição da paixão de cristo: um breve relato de uma mega produção [online]. [visto em 12/ 07/ 2020]. Disponível em: http://audiodescriptionworldwide.com/associados-da-inclusao/rbtv/audio-descricao-da-paixao-de-cristo-um-breve-relato-de-uma-mega-producao/.
Revista Brasileira de Tradução Visual

Este artigo faz parte da edição de número volume: 7, nº 7 (2011).
Para conhecer a edição completa, acesse: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/rbtv-7-sumario.

Published by

  • Psicóloga, Mestre em Educação pela UFPE, Professora de Psicologia da Faculdade de Saúde – FPS e da UFRPE. Áudio-descritora pelo CEI/UFPE.View all posts by Liliana Barros Tavares

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