Resumo Este artigo aborda o tema da audiodescrição em espetáculos de dança, incluindo um breve histórico das experiências, já realizadas no Brasil. Sugere algumas diretrizes básicas para a elaboração de roteiros apropriados a esta modalidade específica de expressão artística, destacando a potencialidade da audiodescrição como recurso de acessibilidade nesta área. Contesta a resistência de alguns … Continuar lendo A audiodescrição entra na dança
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Audio Description Worldwide Consortium
Áudio-descrição da logo da RBTV: Revista Brasileira de Tradução Visual. Em um fundo branco, a mão direita faz a letra t em libras. O indicador e o polegar se cruzam, os demais dedos ficam erguidos. Próximo ao indicador há, em verde, 3 ondas sonoras. Abaixo da mão, lê-se RBTV, com letras verdes e com letras Braille em preto.

A audiodescrição entra na dança

Resumo

Este artigo aborda o tema da audiodescrição em espetáculos de dança, incluindo um breve histórico das experiências, já realizadas no Brasil. Sugere algumas diretrizes básicas para a elaboração de roteiros apropriados a esta modalidade específica de expressão artística, destacando a potencialidade da audiodescrição como recurso de acessibilidade nesta área. Contesta a resistência de alguns profissionais da dança em admitir a audiodescrição das suas apresentações e defende a prática de se ofertar a audiodescrição, também nesses eventos, dentro de um panorama geral de respeito aos direitos inclusivos das pessoas com deficiência visual. Conclui que a audiodescrição tem todas as condições de entrar na dança e acompanhá-la bem, tornando-a acessível a um público que não quer ignorá-la. Ressalta que o sucesso das escassas experiências realizadas com a audiodescrição deveria encorajar coreógrafos e audiodescritores a se unirem pela provisão de mais dança com audiodescrição.

Palavras-chaves – audiodescrição; audiodescrição na dança; roteiros de audiodescrição; acessibilidade; tradução visual; pessoas com deficiência visual.

Resumen

Este artículo aborda el tema de la audiodescripción en espectáculos de danza, incluyendo un breve histórico de las experiencias ya realizadas en el Brasil.

Sugiere algunas directrices básicas para elaboración de guiones adecuados a esta forma específica de expresión artística, destacando la potencialidade de la audiodescripción como recurso de accesibilidad en este ámbito. Discute la resistencia de algunos profesionales de la danza ante la posibilidad de permitir la audiodescripción de sus exhibiciones y defiende la práctica de ofrecer audiodescripción también en estos espectáculos dentro de un panorama de respeto generalizado de los derechos inclusivos de las personas con discapacidad visual. Concluye que la audiodescripción posee plenas condiciones de integrarse con la danza y acompañarla satisfactoriamente, tornándola accesible a un público que no quiere ignorarla. Subraya que el éxito alcanzado em las escasas experiencias realizadas debería animar coreógrafos y audiodescriptores a unirse, proporcionando una oferta mayor de producciones de danza com audiodescripción.

Palabras claves – audiodescripción; audiodescripción en la danza; guiones de audiodescripción; accesibilidad; traducción visual; personas con discapacidad visual.

A dança torna visível o invisível
Paul Klee

Washington, DC, outubro de 1981. No Arena Stage está em cartaz a comédia “Major Barbara”, de George Bernard Shaw. A sala, semicircular e em acentuado declive, foi projetada para proporcionar a todos os espectadores, independentemente da sua localização, uma visão perfeita do palco. Não é o que está acontecendo nesta noite de outono. Uma parte do público não enxerga. Mesmo assim, essas pessoas ouvem atentamente as falas dos atores e parecem estar perfeitamente integradas ao restante da plateia, aproveitando ao máximo cada uma das cenas. São pessoas com deficiência visual. Algumas delas nunca antes visitaram um teatro. Para outras, ainda que habituadas ao ambiente, a novidade é que podem finalmente dispensar o auxílio de algum acompanhante de boa vontade, disposto a sacrificar, pelo menos em parte, a sua própria fruição do espetáculo para transmitir-lhes, ao pé do ouvido, em sussurros discretos que não deixam de incomodar os circundantes, os detalhes da ação que complementam as falas dos personagens. Através de pequenos fones auriculares, chega até todos eles uma descrição cuidadosa dos elementos visuais do ambiente e do espetáculo: a sala e seus acessos, movimentos, ações, gestos, aparência, complexão física, trejeitos, entradas e saídas dos atores, figurino, iluminação e cenário. Trata-se da primeira apresentação pública, ao vivo, do recurso de audiodescrição roteirizada, coroando os esforços de Margaret Pfanstiehl e seu marido, Cody, fundadores do Metropolitan Washington Ear. A respeito de Margaret Pfanstiehl e seu trabalho, o leitor interessado pode consultar http://transition.fcc.gov/cgb/dro/comments/99339/5006113830.txt.

Passados trinta anos desse marco inicial, a audiodescrição continua conquistando espaços e consolidando sua contribuição como recurso de acessibilidade nas mais diversas áreas de manifestação cultural e de expressão artística, acompanhando filmes, programas de televisão, espetáculos teatrais, shows, consertos, eventos sociais e esportivos, conferências, debates, mostras de artes plásticas, visitas a museus ou passeios turísticos e outros. Para ver onde mais a audiodescrição pode ser aplicada consulte (Audio Description Associates: Theater and Dance http://www.audiodescribe.com/clients/theater.php Audio Description Project- http://www.acb.org/adp/ad.html. Persiste, porém, um reduto de resistência quase que impenetrável: a dança. Ou os coreógrafos, na sua maioria, desconhecem a potencialidade desta ferramenta ou não reconhecem o valor que suas criações podem ter para um público de pessoas com deficiência visual.

Um Histórico (Lamentavelmente) Breve

Se, no cenário internacional, são ainda escassas as experiências de audiodescrição em espetáculos de dança, no Brasil elas se resumem a honrosas exceções:

  • 2008 – Salvador, BA. O grupo TRAMAD, com a colaboração de Eliana Franco, faz a audiodescrição do espetáculo “Os três audíveis”, do Grupo X de Improvisação, no Teatro do Espaço Xisto. Nesta iniciativa pioneira, o público foi convidado a chegar antes do início da apresentação, para ter oportunidade de um contato prévio com os bailarinos e poder conhecer o palco e os elementos cênicos. (http://audiodescricaobrasil.blogspot.com/)
  • 2009 – São Paulo, SP. Lívia Motta, outro nome referencial da audiodescrição no Brasil, aplica este recurso na apresentação de duas coreografias de dança contemporânea (“The perfect human” e “Still”) da Candoco Dance Company, no Teatro Alpha. De volta a Londres, Pedro Machado, um dos diretores artísticos da companhia, fez questão de elogiar, no blogue do grupo, o respeito que Lívia demonstrou pelo trabalho da equipe na elaboração da audiodescrição e a recepção entusiasta dos espectadores com deficiência visual. (http://www.vercompalavras.com.br/blog/ ?p= 330)
  • 2009 – Salvador. BA. Na Biblioteca do Estado da Bahia, Patrícia Silva de Jesus audiodescreve uma performance protagonizada pela bailarina Líria Morays. Sobre esta experiência, Patrícia declarou: “…o ponto mais desafiador foi fazer minha voz bailar junto com a dançarina Líria Morays, permitindo aos que não podem enxergar o acesso aos movimentos improvisados da artista”.
  • 2010 – Recife, PE. Maria Agrelli e Renata Muniz apresentam, no Teatro Marco Camarotti, o espetáculo “Leve”, que combina coreografia e improvisação na representação das diversas sensações que podem pautar os questionamentos do ser humano com relação à morte. A audiodescrição desta performance foi elaborada pelo Centro de Estudos Inclusivos da Universidade Federal de Pernambuco (CEI/UFPE), coordenado pelo Prof. Francisco Lima, outro nome fundamental na divulgação, desenvolvimento e aplicação de diversos recursos de acessibilidade no Brasil. (NÓBREGA, 2010)
  • 2011 – Recife, PE. Nova iniciativa do CEI/UFPE, que promove a audiodescrição do espetáculo “Cabanagem”, do Corpo de Dança do Amazonas, na sua apresentação no Teatro Luiz Mendonça.

Completando o histórico da audiodescrição em espetáculos de dança no Brasil, cabe ainda destacar o esforço persistente do grupo de pesquisa TRAMAD (Tradução, Mídia e Audiodescrição), vinculado à Universidade Federal da Bahia, que, sob a coordenação da Profa. Eliana Franco, oferece regularmente cursos para interessados na aplicação específica deste recurso.

No início era O verbo

Não existe incompatibilidade entre os universos da palavra e da dança. O objetivo comum é a comunicação. Na base da maioria das coreografias pode ser detectada uma narrativa (histórica, documental, testemunhal ou ficcional) ou, no mínimo, a intenção de transmissão de uma mensagem. No processo de construção do espetáculo o discurso não é eliminado, é substituído ou traduzido em linguagem corporal. Ainda que a dança, na sua expressão final, possa prescindir da palavra, sua origem é quase sempre verbal ou admite a verbalização. Não pode resultar, então, tão descabida a tentativa de devolver o movimento ou o gesto ao mundo da palavra que o originou numa nova versão, enriquecida agora pela contribuição dessa dinâmica incorporada durante a tradução.

A audiodescrição pode ser definida como a tradução de imagens em palavras. Sua aplicação, neste sentido, é universal. Qualquer produto que ofereça informações visuais é passível de ser audiodescrito e a dança não representa uma exceção. Obviamente, cada categoria de produtos possui peculiaridades que exigem comportamentos diferenciados por parte do audiodescritor. A descrição de um objeto que a pessoa com deficiência visual desconhece, por exemplo, pode representar um desafio bem maior do que a transmissão de um movimento ensaiado pelo bailarino no palco, movimento que o indivíduo cego, ou com baixa visão não está impedido de conhecer, de reproduzir, de experimentar. Em compensação, por ser a dança, segundo Martha Graham, a linguagem escondida da alma, sua versão em palavras tem o compromisso de conseguir manter, no espectador, o mesmo nível de sensibilidade e emoção. (GONÇALVES, 2009)

Me concede o prazer desta dança?

Diversas companhias de dança mundo afora, e também no Brasil, incluem bailarinos com deficiência visual ou estão constituídas exclusivamente por artistas nessa condição. Por exemplo, a Companhia Brasileira de Bailarinas Cegas,da Associação Fernanda Bianchini (http://zerohora.clicrbs.com.br/especial/rs/segundocaderno/19,1027,3460676,companhia-brasileira-de-bailarinas-cegas-busca-lugar-no-mundo-do-bale-classico.html)

A resistência de alguns coreógrafos a autorizar e a se envolver ativamente na audiodescrição das suas criações consegue inverter a relação tradicional: o bailarino que se apresenta pode ser cego, mas o público não.

Por suas características específicas é aconselhável que a audiodescrição de um espetáculo de dança, na sua elaboração, observe algumas diretrizes mínimas:

  • A equipe de audiodescrição deve trabalhar em estreita colaboração com um coreógrafo, de preferência o mesmo que criou a coreografia a ser descrita ou, na impossibilidade deste contato, com o diretor artístico da companhia. (LIMA, TAVARES, 2010)
  • Acompanhamento do processo de criação do espetáculo ou do maior número possível de ensaios.
  • O audiodescritor-roteirista.deverá ter afinidade com esta modalidade de expressão artística e um conhecimento da mesma que seja, no mínimo, equivalente ao do público médio que frequenta este tipo de espetáculo. Sobre este tema ler: União em Prol da Áudio-descrição, 2011.
  • É admissível na audiodescrição, especialmente quando se trata de manifestações artísticas, servir-se, com sensibilidade e critério, de metáforas, comparações ou licenças poéticas, sempre que estes recursos contribuam para uma aproximação mais estreita do público ouvinte com a essência da apresentação, sem sacrificar o princípio da clareza, que é condição necessária para garantir a universalidade da compreensão do que está sendo descrito. (SNYDER, 2011)
  • A interferência das intervenções da audiodescrição deve ser reduzida ao mínimo necessário, permitindo o livre acesso das pessoas com deficiência visual às informações sonoras do espetáculo: música, ritmos e ruídos gerados pelo movimento no palco e na plateia, respiração dos bailarinos, etc. Só a preservação destes elementos, aliada ao clima ou à eventual energia do ambiente, poderão justificar a presença física da pessoa com deficiência visual na sala, diferenciando-a da simples audição de uma versão gravada. (LIMA, 2011)
  • Recolher, após as apresentações, opiniões, sugestões e críticas dos espectadores é imprescindível para detectar erros, promover melhorias e afinar sintonias A audiodescrição, assim como costuma acontecer com as obras dos artistas mais sensíveis, deve ser um processo em permanente construção, cujo rumo é determinado pelas reações do público ao qual se destina. (FRANCO, 2010)

Mesmo tendo consciência das suas limitações, é possível afirmar que a audiodescrição tem todas as condições de entrar na dança e acompanhá-la bem, tornando-a acessível a um público que não quer ignorá-la. O sucesso das escassas experiências realizadas deveria encorajar coreógrafos e audiodescritores a se unirem nesta empreitada. Afinal, a epígrafe que tomamos emprestada do pintor Paul Klee, tanto se aplica à dança quanto à audiodescrição.

Referências

FRANCO, Eliana. A importância da pesquisa acadêmica para o estabelecimento de normas da audiodescrição no Brasil. RBTV- Revista Brasileira de Tradução Visual. Vol. 3. 2010. Disponível em <rbtv.associadosdainclusao.com.br/index.php/principal/issue/view/4/showToc> Acesso em 20 de setembro de 2011.
GONÇALVES, Maria da Graça Giradi. Martha Graham: dança, corpo e comunicação. Dissertação. Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba. Mestrado em Comunicação e Cultura. 2009.
LIMA, Francisco José de; TAVARES, Fabiana S.S. Subsídios para a construção de um código de conduta profissional do áudio-descritor. RBTV- Revista Brasileira de Tradução Visual. Vol. 5. Nº 5. 2010. Disponível em <rbtv.associadosdainclusao.com.br/index.php/principal/article/view/75/116> Acesso em 20 de setembro de 2011.
LIMA, Francisco José de. Introdução aos estudos do roteiro para áudio-descrição: sugestões para a construção de um script anotado. RBTV- Revista Brasileira de Tradução Visual. Vol. 7. Nº 8. 2011. Disponível em <rbtv.associadosdainclusao.com.br/index.php/principal/article/view/75/116> Acesso em 20 de setembro de 2011.
NOBREGA, Andreza. Áudio-descrição de fotografia do espetáculo leve, primeiro espetáculo de dança áudio-descrito em Recife. RBTV- Revista Brasileira de Tradução Visual. Vol. 3. Disponível em <rbtv.associadosdainclusao.com.br/index.php/principal/issue/view/4/showToc> Acesso em 20 de setembro de 2011.
SNYDER, Joel. Audio Description: An Aid to Literacy. RBTV- Revista Brasileira de Tradução Visual. Vol. 6. Nº6. 2011. Disponível em <rbtv.associadosdainclusao.com.br/index.php/principal/issue/view/4/sshowToc> Acesso em 20 de setembro de 2011.
Audio description project- Disponível em <http://www.acb.org/adp/ad.html> Acesso em 28 de setembro de 2011.
Description Key Disponível em <descriptionkey.org> Acesso em 28 de setembro de 2011.
Guidelines for the Description of Educational Media Disponível em <http://www.afb.org/Section.asp?SectionID=44&TopicID=338> Acesso em 28 de setembro de 2011.
The Audio Description Coalition Standards and Code of Professional Conduct Disponível em <www.audiodescriptioncoalition.org> Acesso em 30 de junho de 2010
Description Coletion Disponível em <http://www.washington.edu/accessit/articles?48> Acesso em 28 de setembro de 2011.

http://itunes.apple.com/itunes-u/creating-accessible-itunes/id433437484#ls=1
Audio Description Associates: Theater and Dance Disponível em <http://www.audiodescribe.com/clients/theater.php>
http://audiodescricaobrasil.blogspot.com/
http://transition.fcc.gov/cgb/dro/comments/99339/5006113830.txt.

Como citar esse artigo [ISO 690/2010]:
Rein Jorge 2011. A audiodescrição entra na dança [online]. [visto em 31/ 10/ 2020]. Disponível em: http://audiodescriptionworldwide.com/associados-da-inclusao/rbtv/a-audiodescricao-entra-na-danca/.
Revista Brasileira de Tradução Visual

Este artigo faz parte da edição de número volume: 8, nº 8 (2011).
Para conhecer a edição completa, acesse: http://audiodescriptionworldwide.com/rbtv/rbtv-8-sumario.

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